Como se traduz por aí

Um beijo perdido

      Nem sempre os erros que encontramos nas traduções são da responsabilidade do revisor, evidentemente. Quantas e quantas vezes o revisor assinala um erro, propõe a correcção e o tradutor, convencidíssimo de que tem razão, ignora a observação? Quem acaba por pagar é, naturalmente, o leitor. Vem isto a propósito de um curioso artigo publicado no Irish Daily Mail de 22 de Outubro, em que se explica a origem do uso da letra x para representar um beijo no final de cartas, bilhetes e mensagens. Trata-se de uma tradição antiga, que remonta, pelo menos, à Idade Média. Numa época em que muitas pessoas não sabiam escrever, era frequente assinarem os documentos com uma cruz ou um x, símbolo que tinha também uma conotação religiosa, por estar associado à cruz de Cristo. Segundo uma das explicações mais difundidas, quem assim assinava beijava depois a marca, como sinal de sinceridade e boa-fé. Com o tempo, o x passou a representar o próprio beijo e, mais tarde, a ser usado como manifestação de afecto. No século XIX, já se encontram exemplos deste uso em correspondência privada. O artigo referia, nomeadamente, o romance Seaforth, de Florence Montgomery, publicado em 1878, no qual aparecem cartas terminadas com várias cruzes, correspondentes a beijos. No final desse século, a convenção estava suficientemente difundida para que até Winston Churchill terminasse algumas cartas com xxx. 
      Ora, há poucos meses, ao rever a tradução de um romance, deparei-me com um x no final de uma carta. O contexto não deixava a menor dúvida: era um beijo. O tradutor, porém, resolvera substituí-lo por um asterisco, algo assim de sentido burocrático-académico. Assinalei o erro e expliquei que devia manter-se o x do original, precisamente por ter aquele significado. De nada serviu. O tradutor não deu o braço a torcer, e lá ficou o asterisco, que não representa beijo nenhum. Um beijo transformado num sinal tipográfico sem sentido no contexto. E o leitor, como tantas vezes acontece, sem sequer suspeitar do que perdeu.
[Texto 23 779]
Etiquetas ,
edit

Sem comentários:

Arquivo do blogue