Léxico: «amimado»

Então não é

      «Foi desde esse momento que te amei. Eu sei que as mulheres já te devem ter dito isto muita vez, a ti, que és um menino amimado» (Amok (O Doido da Malásia), Stefan Zweig. Tradução de Alice Ogando. Porto: Livraria Civilização, s/d, p. 119).
      Pois que me lembre, assim de repente, só em Camilo e em Eça já lera «amimado» em vez de «mimado». E nas traduções. Não é curioso?
[Texto 3339]
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Ponto de exclamação invertido

Mas datável

      «¡A gente não mente na hora da morte de um filho único!» (Amok (O Doido da Malásia), Stefan Zweig. Tradução de Alice Ogando. Porto: Livraria Civilização, s/d, p. 109).
      Sem data, sim, mas antes de 1945, com certeza — ali está o ponto de exclamação invertido —, pois só o Acordo Ortográfico de 1945 é que veio abolir as formas invertidas do ponto de interrogação e do ponto de exclamação.
[Texto 3338]
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«Pernada», uma acepção

Passada larga

      «Os criados e os porteiros subiam e desciam febrilmente as escadas; acordaram todos os hóspedes e telefonaram para a polícia. Mas, no meio de todo este tumulto, o homem gordo, de colete desabotoado, passava em grandes pernadas, através da noite, soluçando e gritando, de forma insensata, um único nome: “Henriette!... Henriette!...”» (Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher, Stefan Zweig. Tradução de Alice Ogando. Lisboa: Publicações Europa-América, 1972, pp. 15-16).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista cinco acepções do vocábulo «pernada»: movimento violento ou pancada com a perna; pontapé; passada larga; ramo grosso de árvore; braço de rio. Pena é, como muitos outros dicionários, a maioria, não acolher abonações.
[Texto 3337]
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«Esporão/gume da quilha»

Já vamos ver

      «Enfim, tropeçando nas cordas e passando pelos cabrestantes, atingi a proa do navio, que avançava na sombra, e vi a claridade líquida da lua saltar, espumante, dos dois lados do esporão» (Amok (O Doido da Malásia), Stefan Zweig. Tradução de Alice Ogando. Porto: Livraria Civilização, s/d, p. 13).
      Estão (marinheiros de água doce) aqui a dizer-me que em vez de «dos dois lados do esporão» é mais correcto «os lados do gume da quilha». Numa tradução francesa, lê-se «des deux côtés de l’éperon». Esta é uma questão para Paulo Araujo.
[Texto 3336]
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«Húmido/úmido»

Molha, mesmo sem agá

      «Como tinha feito parar o ventilador [da cabina do navio], o ar úmido e engordurado molhara-me a testa» (Amok (O Doido da Malásia), Stefan Zweig. Tradução de Alice Ogando. Porto: Livraria Civilização, s/d, p. 11).
      Mesmo sem agá, alguém fica sem perceber? E «herva» e «hontem», por exemplo, não perderam o agá? Alguém morreu por causa disso?
[Texto 3335]
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«Não vitória»!

Aquela onda

      Moita Flores, no momento da reconhecer a derrota: «Reconhecemos que não temos os resultados que esperávamos. De facto, aquela onda que atravessou o País também atingiu Oeiras, e por mais, melhor que tenha sido a nossa campanha, e foi seguramente a melhor campanha e as melhores propostas que se apresentaram aos Oeirenses saíram do PSD, nós não conseguimos atingir os nossos objectivos. Por isso mesmo, nós assumimos essa falência desse objectivo essencial que era ganhar a Câmara de Oeiras e devo assumir responsabilidades totais e pessoais por esta não vitória.» Também Luís Filipe Menezes começou por falar em «não vitória», mas depois lá disse claramente «derrota». Mas, claro, este não é escritor.

[Texto 3334]
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Léxico: «poncha»

Diga «3333»

      «A grande popularidade da poncha (bebida à base de aguardente de cana-de-açúcar, mel e sumo de fruta) na Madeira ajuda a explicar o recente aumento da produção de maracujá na ilha, diz Cláudia Ferreira, da Direcção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural da ilha» («Produção de maracujá está a crescer», A. P. C., Público, 29.09.2013, p. 24).
      Ainda só bebi ponche, e este nome, poncha, só pode ter sido atribuído por analogia. Prefiro esta receita à do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que junta aguardente, açúcar e água.

[Texto 3333]
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«Por que misteriosa razão»

Não é misteriosa, não

      «Mas, mais grave do que tudo o resto, porque misteriosa razão, cinco anos depois do “escândalo BPN”, os tribunais não o puseram ainda no banco dos réus, com o bando de cúmplices que o serviu?» («A nossa mansidão», Vasco Pulido Valente, Público, 29.09.2013, p. 56).
      Escreve-se, quase toda a gente sabe ou sabia, «por que razão», ou seja, por (preposição) + que (pronome relativo), e, logo, «por que misteriosa razão», mas a mansidão leva-os a não mexerem na prosa do Sr. Pulido. Por mim, está bem.
[Texto 3332]
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«Os milhares»

Desconcordância

      «Rio elogiou o sucesso da movida, e as milhares de pessoas que atrai, ligando-a à regeneração do espaço urbano num conjunto de artérias da Baixa da cidade, aos esforços de animação iniciais feitos pela própria autarquia que está prestes a deixar de dirigir» («Rui Rio teria “dificuldade para manter o ritmo” de obras de... Rui Rio», Abel Coentrão, Público, 28.09.2013, p. 15).
      Abel Coentrão, então já não sabe de que género é a palavra «milhar»? Costumava ser do género masculino. Sim, podíamos tratar de matéria mais interessante, mas não sem antes resolver o básico, não é?

[Texto 3331]
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É mais ou menos isso

Pequeno e verde

      «O [Prémio] Stirling consta já do currículo de vários ateliers de renome e distinguiu obras que já são emblemáticas: desde o edifício de Norman Foster na City londrina, o 30 St Mary Axe (2004) — conhecido informalmente como o “gherkin” — ao MAXXI de Zaha Hadid (2010) em Roma, passando pelo Terminal 4 do Aeroporto de Barajas, em Madrid (Richard Rogers, 2006)» («Prémio Stirling: um castelo do século XII é o melhor edifício de 2012», Joana Amaral Cardoso, Público, 28.09.2013, p. 26).
      Por acaso é conhecido por The Gherkin, que em português é «pepino» e não «pequeno pepino». Gherkin é um pepino pequeno e verde, usado, lê-se nos dicionários de língua inglesa, «to make pickles».

[Texto 3330]
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«De mais»

Ele escreveu assim

      «No entanto seria simples de mais se devesse dar apenas a vida» (O Fim da Noite, François Mauriac. Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Estúdios Cor, 1957, pp. 59-60). «Com alegria amarga, com esse prazer de fazer pressão no lado que dói, demorar-se-ia sobre a dupla imagem confundida: não, a noite não era longa de mais para viver em espírito aquela existência suave e simples de dois esposos que têm filhos, que sofrem lutos, que se encaminham para a morte: e o primeiro que fecha os olhos abriu a senda para que o sobrevivente não sinta medo do sono eterno» (idem, ibidem, p. 137) «Depressa de mais, na opinião de Teresa» (idem, ibidem, p. 139). «O vestíbulo estava escuro de mais para que se notassem as feições alteradas da rapariga» (p. 176). «Mas não me atrevo a esperar, seria bom de mais!» (idem, ibidem, p. 213).
[Texto 3329]
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Landas

E fez bem


      «Assim, enquanto Teresa, sentada no leito desde a véspera, de olhos abertos, fingia estar calma para se desembaraçar de Ana, cuja presença agora lhe causava medo e horror, — a tempestade avançava dos confins da suas Landas» (O Fim da Noite, François Mauriac. Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Estúdios Cor, 1957, p. 169).
        Vejam se Cabral do Nascimento escreveu Landes; nada: aportuguesou, Landas, e fez muito bem.

[Texto 3328]
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«A datar desse momento»

A datar deste momento, os Garcins

      «A datar desse momento, aboliu-se toda e qualquer complicação tanto para Teresa como para os Desqueyroux» (O Fim da Noite, François Mauriac. Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Estúdios Cor, 1957, p. 185).
      Pois se Cabral do Nascimento evitou o omnipresente «a partir de», nós também somos capazes. Quanto aos Desqueyroux, claro que não dá para perceberem, mas há mais exemplos: «– Conhece, é a senhora do Octávio Garcin... dos Garcins de Laburthe... Não são ainda aparentados? Estão agora em Paris» (idem, ibidem, p. 75). «As férias do Natal tinham trazido, na véspera à noite, Jorge Filhot a Saint-Clair. Foi a cozinheira dos Filhots quem preveniu, através do padeiro» (idem, ibidem, p. 186).

[Texto 3327]
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E «placodermo»?

Sim, e o singular, cada espécime?

       «O Entelognathus tinha cerca de 20 cm de comprimento (o tamanho de uma sardinha). Era um peixe da classe dos já extintos placodermos, cuja cabeça e ombros estavam cobertos por placas ósseas e que são considerados como o tipo mais primitivo de peixes com maxilares. Mas – e é aí que está a novidade –, embora à primeira vista os maxilares de Entelognathus parecessem bastante banais, afinal não eram. Tinham a estrutura dos nossos próprios maxilares, algo inédito num peixe como este. “É a primeira vez que vemos ossos [faciais] deste tipo num placodermo. Até aqui, os placodermos conhecidos tinham maxilares essencialmente feitos de cartilagem”, explicou ao PÚBLICO Min Zhu num email» («Este pequeno peixe viveu há 419 milhões de anos e tinha uma cara (quase) igual à nossa», Ana Gerschenfeld, Público, 26.09.2013, p. 37).
      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, e noutros dicionários, é muito comum estar registado o nome plural, mas não o singular. É outro erro.
[Texto 3326]
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«Devolver o bote»

Há sempre novidades

      «Foi bem ela, desta vez, quem falou: era a Teresa pronta a devolver o bote, a que esse imprudente acabara de despertar» (O Fim da Noite, François Mauriac. Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Estúdios Cor, 1957, p. 152).
      Não conhecia. Devolver o bote é devolver a censura de que se foi alvo. Já ir no bote é deixar-se enganar.
[Texto 3325]
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Léxico: «rectossigmoidoscopia»

É só mais um

      Também não encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o termo médico rectossigmoidoscopia (exame endoscópico no qual se utiliza um tubo rígido, o rectossigmoidoscópio, inserido através do ânus para examinar o canal anal, recto e porção mais distal do intestino grosso), o que é razão quase suficiente para alguns médicos não o escreverem correctamente.
[Texto 3324]
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«Cursar», uma acepção

Sempre se aprende

      «A maioria dos doentes», lê-se no texto, «recupera no período de uma semana, contudo, a infecção pode evoluir com agravamento dos sintomas e cursar com risco de vida.» Nunca tinha visto ser usada esta acepção do verbo «cursar» — seguir o curso de.
[Texto 3323]
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«Croça da aorta»

Lá se foi uma convicção

      Vai para sete anos (!), escrevi esta nota de rodapé num texto que publiquei no Assim Mesmo: «É curioso, na verdade, que ninguém tenha dúvidas em designar o arcus aortae como “crossa da aorta”, pela semelhança, a curvatura, que tem com o báculo episcopal. Neste caso, parece não haver dúvidas de que o étimo é o francês.» Ninguém? Algo mudou. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, à parte recurvada da artéria aorta dá-se o nome de... «croça». E o Dr. Google também dá clara vantagem a esta grafia, o que jamais me deixaria abalado, se não fora juntar-se-lhe a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. E esta foi publicada há décadas. A coisa é muito simples: para muitos dicionários, «crossa» nem sequer existe. Bem, assim pelo menos é mais simples...
[Texto 3322]
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«Sentenciar» e «comprazer»

À escolha

      «Está a perder o cabelo, como um homem; é verdade, tem a testa devastada dum sujeito idoso: “testa de pensador”, sentenceia em voz baixa» (O Fim da Noite, François Mauriac. Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Estúdios Cor, 1957, p. 13). «Teresa representara um bom papel, comprouvera-se nas atitudes tomadas» (idem, ibidem, p. 82).
      Igualmente correctas — meras variantes —, agora optar-se-ia, decerto, por «sentencia» e «comprazera-se».

[Texto 3321]
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«Conforme»

Só à medida


1. «Jorge não sabia que ripostar. Conforme se aproximava a hora da partida, Maria menos afastava os olhos dele, observando-o com atenção — como se bebesse antecipadamente, prevendo que ia ter sede» (p. 84).

2. «E, conforme falava, ela tinha a certeza de que as suas palavras indispunham o convidado mais e mais contra Maria» (p. 108).

3. «Conforme ia enumerando os motivos que tinha um rapaz de vinte anos para amar a vida, Teresa recuperava pouco a pouco o tom de ironia: Jorge apurou então o ouvido e ergueu o rosto ávido e triste» (p. 121).

4. «– Até à distribuição dos prémios, tornei-me mais irritado e duro conforme o via mais triste» (p. 127).

      São os quatro exemplos da obra O Fim da Noite, de François Mauriac, com tradução de Cabral do Nascimento (Lisboa: Estúdios Cor, 1957). Hoje, já se sabe que nem um «conforme» ali estaria naquelas frases. É triste ver-se assim a língua a afunilar, a empobrecer. Bela história, este O Fim da Noite. Agora vou ler a primeira parte, Teresa Desqueyroux, na tradução publicada dois anos antes também pelos Estúdios Cor.
[Texto 3320]
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«Rua du Bac», por exemplo

É só não ceder

      «Como pudera ele cumprir a sua função desde a quinta de Argelouse até ao terceiro andar dum prédio antigo da rua du Bac?» (O Fim da Noite, François Mauriac. Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Estúdios Cor, 1957, p. 12).
     E não, como se vê mais vezes do que é normal, «rue du Bac». Ou avenue, ou street, ou calle... Sim, é verdade que é tolice dos tradutores, mas nós também temos, essa é que é essa, culpas no cartório.

[Texto 3319]
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E o advérbio «incontinente»?

Sem perda de tempo

      «O mais assisado era regressar incontinente a Saint-Clair, antes que Jorge soubesse daquela viagem sinistra» (O Fim da Noite, François Mauriac. Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Estúdios Cor, 1957, p. 46).
      Este advérbio, lembrar-se-ão, já passou aqui pelo Linguagista. Mas esperem... O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não sabe de nenhum advérbio assim. Regista apenas «incontinentemente». Demasiadas letras.
[Texto 3318]
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Léxico: «mestre-de-capela»

Juntem-lhes este

      O compositor e musicólogo espanhol do século XVI Diego Ortiz foi mestre-de-capela ou mestre de capela? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora tem vários mestres — mestre-cuco, mestre-de-cerimónias, mestre-de-obras, mestre-escola, mestre-sala —, mas não «mestre-de-capela». Além destes, Rebelo Gonçalves regista mais três vocábulos compostos com «mestre» como primeiro elemento no seu Vocabulário da Língua Portuguesa, todos com hífen.
[Texto 3317]
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«Alfabloqueador, betabloqueador»

Pois, mas

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o vocábulo «betabloqueador». Beta- é elemento de formação que exprime a ideia de segundo numa ordenação ou classificação. Tinha curiosidade em saber se registaria também aglutinado «alfabloqueador», mas nada, não regista. Para o leitor Franco e Silva, como «a palavra não representa exactamente um prefixo, mas a transcrição de uma letra grega, justificada pela dificuldade tipográfica de a escrever (e substituindo-a, pois, pelo seu nome, alternativamente). Isto é, pode equivalentemente escrever-se α, β, γ, etc., seguida de hífen e posteriormente qualquer outra palavra (comece por que letra comece, vogal ou consoante) desde que isso seja tipograficamente possível». E assim, α-bloqueador e alfa-bloqueador, β-bloqueador e beta-bloqueador. Não é, como sabem, a minha opinião: não são exactamente prefixos — mas funcionam como tal. É por razões gráficas, tão-somente, que se usa hífen se usarmos as letras gregas. Quando se usa a palavra por extenso, aglutinam-se os elementos. É o que eu faço e recomendo, com uma excepção: se o último carácter do primeiro elemento for o mesmo do primeiro carácter do segundo elemento, uso hífen.

[Texto 3316]
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«Poliosídica»?

Ou não?

      «Vacina adsorvida pneumocócica poliosídica conjugada», leio aqui. Vem do francês polyosidique, ao que me parece. Só uma pergunta: não devíamos duplicar o s, «poliossídica»? Não escrevemos nós «polissacárido» e «polissacarídeo»?

[Texto 3315]
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Ortografia: «cata-vento»

Muito adiantados

      «As declarações não foram de Christina [sic] Lagarde, mas o “seu” FMI voltou esta semana a fazer uma coisa de que já vários o acusavam: papel de catavento» («Christine Lagarde. A contraditória», Público, 22.09.2013, p. 4).
      Na substância, será tudo verdade; mas falha, mais uma vez, a ortografia, pois é cata-vento que se escreve. Escreve e continuará a escrever-se, pois neste caso e noutros semelhantes, incongruentemente (veja-se «mandachuva», composto em que se perdeu, dizem eles, a noção de composição; e em «cata-vento», manteve-se?) o Acordo Ortográfico de 1990 deixou a ortografia intocada.
[Texto 3314]
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«Macaréu», de novo

Nada mudou, ou 钱塘江

      «Na China, dezenas de milhares de pessoas concentraram-se nas margens do rio Qiantang para observar um fenómeno natural chamado de [sic] macaréu. Tal como podemos ver nestas imagens, trata-se de uma onda com várias dezenas de metros de largura e que percorre o caudal de um rio a uma velocidade constante. As ondas podem chegar a ter 9 metros de altura» (Jornal do Meio-Dia, 22.09.2013).
      Já tínhamos visto a palavra aqui, no Assim Mesmo. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, continua, infelizmente, aquele espúrio «após ter vencido a força da corrente», mas já os avisei.

[Texto 3313]
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Sobre «cinetoscópio»

É pouco

      «À imagem do cinetoscópio com que se iniciou a história do cinema — resumidamente, imagens em movimento dentro de uma pequena caixa escura com um buraco por onde espreitava uma pessoa de cada vez —, a companhia de teatro de marionetas A Tarumba criou, em 2009, os “mironescópios”, caixas escuras com marionetas dentro que contam histórias eróticas (e para maiores de 16 anos). Como um peep-show, só que sem carne humana» («Um peep-show de marionetas pela Europa fora», «Ípsilon»/Público, 20.09.2013, p. 12).
      Vejamos. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «cinetoscópio» é o «aparelho percursor [sic] do cinematógrafo». Bem, parece que se pode dizer muito mais. (Em todos os dicionários de inglês que consultei é peepshow ou peep show que leio.)
[Texto 3312]
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«Moto-quatro» ou «moto quatro»?

Eu ligo

      «Salvu Vella, 61 anos, chega à torre de Santa Maria, na ilha de Comino, cavalgando numa moto-quatro. É a mesma torre onde o realizador Kevin Reynolds filmou uma adaptação do romance O Conde de Monte Cristo, em 2002. Salvu chega à hora combinada. Veste um macacão de padrão camuflado e um chapéu cinzento — indumentária que torna mais fácil distingui-lo de um qualquer turista» («O homem pós-moderno da ilha não deserta», Fábio Monteiro, «Fugas»/Público, 21.09.2013, p. 12).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o sem hífen, «moto quatro», mas creio que é melhor com hífen.
[Texto 3311]
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Léxico: «circanual»

Há quarenta anos

      Muita gente (mas sempre menos do que se possa pensar) conhece o conceito e a palavra circadiano: relativo à duração de 24 horas ou um dia; em fisiologia, diz-se do ciclo biológico de aproximadamente 24 horas. Os médicos, porém, usam, em relação a outros fenómenos (as enxaquecas em salvas, por exemplo), outro termo, que não está nos nossos dicionários: circanual. Está nos dicionários de língua inglesa: «noting or pertaining to a biological activity or cycle that recurs yearly».
[Texto 3310]
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«Ruptura», um caso triste

Mas este é o pior

      Aquele jornalista disfarçado não pôs o dedo na ferida, não senhor: sou mesmo contra o Acordo Ortográfico de 1990. Mas temos de usar a cabeça. E já fiz mais do que muitos contra o AO: a minha opinião foi, em alguns casos, decisiva para não se adoptarem as novas regras ortográficas, além de todo o meu continuado labor de divulgação. Vamos lá ver: faz algum sentido afirmar, como se lê por todo o lado, que, em relação ao vocábulo «ruptura», se inventou uma terceira variante? Porque havia de ser logo neste caso que o princípio fonético ia ceder em favor do princípio histórico-etimológico? Porque é que só em relação a este caso aduzem o argumento de que houve «esquecimento das raízes das palavras», pois «ruto» não existe em português? Há muito por onde atacar o AO, a começar na necessidade e na oportunidade, não percam tempo com invencionices apalermadas.
[Texto 3309]
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«Aporte», um galicismo

Seria menos um

      Já que andamos, nos últimos tempos, a falar tanto de termos médicos, não podemos substituir o galicismo aporte, em frases como «o aporte de oxigénio às células cerebrais», por termo genuinamente português?
[Texto 3308]
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«Hemorróide/hemorróida»

Contra o AO

      «Em Junho e Julho pode apanhar folhas de figueira sãs, secá-las à sombra e depois pode utilizá-las para fazer infusões, às quais são reconhecidas propriedades anti-helmínticas, e são também usadas no tratamento de dermatites e hemorroides» («Estamos em tempo de figos», José Alberto Pereira, «Fugas»/Público, 21.09.2013, p. 31).
      Têm de dizer ao autor, engenheiro agrícola e professor universitário, que o Público não adoptou ainda (nunca?) o Acordo Ortográfico de 1990 (por vezes, nem o de 1945), para ele escrever «hemorróides», assim, com acento. Digam-lhe também que é «anticarcinogénicas» que se escreve. Não lhe digam, mas fiquem a saber que o termo «hemorróidas» (ou «hemorróides») designa propriamente os vasos sanguíneos que existem na porção terminal do recto e do ânus, e que talvez só por facilidade usamos para referir a dilatação varicosa das veias do plexo hemorroidário, acompanhada de edema e inflamação.
[Texto 3307]
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Léxico: «unífero»

«Poético», lê-se no Aulete

      «Quando os figos crescem em ramos do ano anterior e a sua maturação ocorre pelo final de Junho/início de Julho, são figos lampos; por sua vez, quando frutificam em ramos do ano e a maturação ocorre a partir de Agosto até às primeiras chuvas, são figos vindimos. Há variedades que produzem só um destes tipos (uníferas), enquanto outras produzem figos lampos e vindimos (bíferas)» («Estamos em tempo de figos», José Alberto Pereira, «Fugas»/Público, 21.09.2013, p. 31).
      O adjectivo bífero — que dá flor ou fruto duas vezes no ano — está em todos os dicionários; o adjectivo unífero não está em nenhum.

[Texto 3306]
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Ortografia: «megaespaço»

Sem esperança de mudança

      «Os fundadores dos Yotel foram beber à primeira classe da aviação, mas também ao Japão, claro. Agora, preparam-se finalmente para encetar operações na Ásia com um mega-espaço em Singapura, cujas 600 cabines devem abrir em 2018» («Dormir no aeroporto? Num sarcófago, se faz favor», Joana Amaral Cardoso, «Fugas»/Público, 21.09.2013, p. 21).
      Ortografia não é com eles, e especialmente se envolve elementos de formação de palavras. E a existência da analogia escapa-lhes completamente, claro está. E diz-se «os Yotels», sem qualquer dúvida.

[Texto 3305]
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Sobre pontuação

O cru e o cozido

      A frase era semelhante a esta — até o nome do autor tinha também hífen. «Tal como ressalta Lévi-Strauss (1964, 48), “le savant n’est pas l’homme qui fournit les vraies réponses, c’est celui qui pose les vraies questions”.» Esperem, está aqui um recado para mim: «Aqui não deve haver vírgula.» Como disse? Tem a certeza disso que está a afirmar? Não, não: trata-se de uma oração subordinada conformativa. O local normal desta oração seria após o verbo da oração principal; como está invertida, é necessária a vírgula. Aliás, pela sua natureza adjunta, é sempre necessário estar entre vírgulas.

[Texto 3304]
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Tradução: «work through»

Só falta o verbo

      O original, uma obra de medicina, falava em «work through», que o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora regista: trabalhar sem parar; influenciar, afectar; avançar (em); (problema, situação) lidar com, resolver». O tradutor, contudo, verteu por «perlaborar». Work through é termo da psicologia: «to resolve (a problem, esp an emotional one), by thinking about it repeatedly and hence lessening its intensity either by gaining insight or by becoming bored by it». «Perlaborar», na verdade, não vejo em nenhum dicionário. «Perlaboração» está no Aulete: «Processo pelo qual o psicanalisando integra uma interpretação e supera as resistências que ela suscita; elaboração interpretativa.»

[Texto 3303]
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Mais uns quantos que faltam

E por aí fora

      Que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registe «nutracêutico», nem sequer acho mal. Se já não podemos esperar que Bernardes e Vieira o usem — porque a História vai para a frente e não para trás —, pelo menos devemos aguardar que o conceito estabilize e o vocábulo se use mais. Mas talvez devesse registar, sei lá, «sonofobia», pois que regista muitas outras semelhantes; «hipocalcemia», pois regista «hipercalcemia»; «dermatófito», «hipomagnesemia», «osteopenia» e «xerostomia», porque estão no Dicionário de Termos Médicos e no Vocabulário Ortográfico; «hipocaliemia», já que regista «hipercaliemia»; «hiperuricemia», já que acolhe «hiperglicemia»; «liquor» e «rinifima», pois estão ambos no Dicionário de Termos Médicos.
[Texto 3302]
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«Estrato socioeconómico»

E agora um médico

      Pois desta vez foi um médico a escrever o grande disparate: «extracto socioeconómico»! Caramba, será que nunca viu a expressão nem o vocábulo «extracto» num dicionário? Tudo é possível. É estrato socioeconómico, porque se refere aos grupos ou camadas da sociedade. Agora só falta que prescreva o *estrato de alguma planta...
[Texto 3301]
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Comorbidade, acneico, aprático

Ainda na área médica

      E já que tenho andado por aqui, nos últimos oito anos, a denunciar os erros, falhas e incongruências nos dicionários, eis mais três de uma vez: «comorbilidade» (ou «comorbidade»), «acneico» e «aprático» (ou «apráxico») não estão no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Contudo, aprático encontramo-lo no Dicionário Inglês-Português da Porto Editora; comorbidade e acneico estão no Vocabulário Ortográfico da mesma editora e, portanto, falta-lhes a definição.
[Texto 3300]
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Léxico: «dermoabrasão»

Não se percebe

      Neste caso, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não apresenta a incoerência que acabámos de ver em relação a «hipestesia/hipoestesia». Nada disso: apenas regista a grafia dermabrasão («processo cirúrgico que consiste na raspagem da pele até à camada dérmica com o objectivo de remover sinais, cicatrizes ou outras imperfeições»), quando muitíssimo mais usada é a variante, igualmente correcta, dermoabrasão.
[Texto 3299]
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«Hipestesia/hipoestesia»

Nem pensar

      É um problema — um erro — comum a vários dicionários: registarem variantes com definições diferentes. Veja-se o caso de hipestesia/hipoestesia no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Em hipestesia, regista: «diminuição da sensibilidade»; em hipoestesia, regista: «diminuição relativa, sem ir até à supressão do conjunto, de várias ou de uma das sensações». Ora, não pode ser, e muito menos quando não têm, como é o caso, remissões recíprocas.
[Texto 3298]
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«Manteiga em nariz de cão»

Continuem

      «Esta mentira, camaradas e amigos», disse ontem, em Évora, Jerónimo de Sousa, «durou tanto como manteiga em nariz de cão.» É o único dirigente político português cujo discurso merecia um estudo, mas é ver o que se diz nas redes sociais: que não sabem como ele inventa estes ditados; que não é «nariz», mas «focinho», etc. Nada sabem nem nada investigam, pensam, e pensam mal, e escrevem. Nariz é outra forma de nos referirmos ao focinho dos animais. Este ditado concretamente pode ler-se, por exemplo, em Herculano. A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira cita esta frase de Rebelo da Silva: «– É segredo! e segredo em boca de mulher derrete-se que nem manteiga em nariz de cão!... Sabe o ditado, tia Angélica?...» (De Noite Todos os Gatos tão Pardos).
[Texto 3297]
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«A partir de»

Porque dá que pensar

      Há pessoas que, vá-se lá saber porquê, ficam sempre irritadas com estas estatísticas, mas cá vai, afoitamente: num texto de pouco mais de 200 páginas, encontrei 183 vezes a expressão «a partir de». É muito, é pouco? Bem, na maioria das vezes, foi possível alterar para melhor. Agora vejam aí num dicionário, pode ser no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «a partir de: de … em diante». Nada mais. Ora, as ocorrências da expressão naquele texto repartem-se igualmente pelas três acepções que encontramos num bom dicionário de francês: «a) en prenant pour point de départ (un lieu); b) à compter de, à dater de (un moment dans le temps); c) en prenant comme origine; d) en prenant comme origine logique». Não chegamos a ser mais Franceses do que os Franceses, mas ultrapassamos e bem tudo o que os nossos dicionários admitem. Mesmo tendo em consideração os erros e as falhas que encontramos (eu encontro) todos os dias nos dicionários, é obra. Pensem nisto.
[Texto 3296]
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Nomes próprios e o AO

Se o vir na Avenida da Liberdade

      «Por exemplo: vai-se à extraordinária exposição A Encomenda Prodigiosa e lá está, nos folhetos da dita, a “Capela Real de São João Batista”, em vez de Baptista. Isto nos folhetos azuis, os “oficiais”, porque nos folhetos do Museu de São Roque está, obviamente, São João Baptista. O acordo ortográfico, já se sabia (embora não esteja em vigor aqui, como nunca é demais repetir), obriga a mudar batismo para “batismo” ou baptizado para “batizado”, seguindo, aqui, a norma vigente no Brasil. Mas Baptista é um nome, não devia ser mudado» («Eça com z, se faz favor», Nuno Pacheco, «2»/Público, 15.09.2013, p. 40).
      Pois, Baptista é um nome, e por acaso baptista também é um nome. Não sei se o caso merecia uma crónica, enfim. Aqui num texto, em cinco escassíssimas linhas, ora escrevem com p ora sem p. No texto do Acordo Ortográfico de 1990, a única referência pertinente para o caso é a Base XXI (quase cópia da Base L do Acordo Ortográfico de 1945), que estatui que, «para ressalva de direitos, cada qual poderá manter a escrita que, por costume ou registo legal, adote na assinatura do seu nome». Não sei se São João Baptista, o Precursor, um homenzinho agora com 2015 anos de idade, continua a escrever o nome com p. Nuno Pacheco que lhe pergunte, quando o encontrar por aí.
[Texto 3295]
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Cada macaco

Esse seria o mundo perfeito

      O ideal, em todas as circunstâncias da vida («da puta da vida», como disse A. B., que morreu milionário antes do 50), seria as pessoas só falarem do que percebem. Quanto ao resto, impunha-se um voto perpétuo de silêncio — ou até adquirirem as respectivas competências. É o caso: «A equipa decidiu utilizar a grafia pré-acordo ortográfico em todo o livro. Se não estou em erro, isso significa que sub-populações, socio-económicas, etc., têm hífen. Deixámos todas as ocorrências com a sugestão de alteração (não aceitámos nem recusámos). Pensamos que o mais importante é existir coerência.»

[Texto 3294]
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Tradução: «gogol»

Nada simples

      Lembrei-me agora, a propósito de Asperger, de uma dificuldade numa tradução recente. No original, francês, lia-se que alguém era «gogol», corruptela de mongolien, «mongolóide», e termo ofensivo. Apesar de tudo o que se diz — e já uma vez escrevi no Assim Mesmo sobre esta questão —, «mongolóide» não é um termo ofensivo. (Não vou é explicar de novo, porque tenho mais que fazer.) Era preciso encontrar um termo equivalente em português — ofensivo, preferencialmente também corruptela. Acham que existe? Qual acham que foi a solução encontrada?
[Texto 3293]
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«Transportista»?

Boa pergunta

      Podia ser uma pergunta para aqueles concursos para gente muito inteligente: como se chama o dono de uma empresa de transportes — transformista; transportador ou transportista? Um leitor acaba de me mandar uma mensagem: «Meu caro Helder: A revista Ler de Setembro inclui uma pré-publicação do novo romance de Mario Vargas Llosa. Os tradutores chamam “transportista” a uma das personagens, dono de uma empresa de transportes. Acha que isto faz algum sentido?» O original diz que Felícito Yanaqué é «dueño de la Empresa de Transportes Narihualá». Na tradução brasileira lê-se que Felícito Yanaqué é o «dono da Empresa de Transportes Narihualá». Claro que, como não li o original (nem a tradução), não posso saber se é usada também a palavra castelhana transportista, que designa o «que se dedica a hacer transportes». Admitindo que o dono de uma empresa de transportes é isso que faz — por intermédio de outros —, temos em português a palavra transportador — aquele que transporta. Não precisamos de inventar nem de adoptar nenhuma palavra estrangeira. «&*#$#!», respondo eu. «Era o que me parecia, mas como os tradutores são duas pessoas muito conceituadas, fiquei na dúvida», escreve o meu interlocutor. «&*#$#!», repito eu (Asperger, diagnosticaria de novo aquela besta do N.). «E quem terá sido o revisor que deixou passar uma coisa destas?»
[Texto 3292]
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Léxico: «dongo»

Ultramar

      O general Óscar Carmona, na sua segunda viagem ao Ultramar, em 1939, visitou Cabo Verde, São Tomé, Moçambique e a África do Sul. Já no regresso a Lisboa, fez escala em Luanda, onde foi recebido por uma flotilha de dongos e assistiu ao primeiro festival da Mocidade Portuguesa de Angola, no Estádio dos Coqueiros.
      Encontramo-la no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «embarcação tradicional africana, constituída por um tronco de árvore comprido, inteiriço e escavado, manobrado com pás (excepcionalmente com velas) e usado na pesca e no transporte de pessoas e mercadorias».
[Texto 3291]
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Léxico: «nautismo»

E esta nunca

      «Uma vez por semana, estas turmas passam a ter 90 minutos – metade da carga horária total da disciplina de Educação Física – consagrados ao surf, canoagem, remo ou vela. O repto do pelouro do Desporto da autarquia para se começar bem cedo a promover a “cultura do nautismo” foi dirigido aos agrupamentos escolares» («Mais de 650 alunos de escolas de Viana vão ter aulas de desportos náuticos», Andrea Cruz, Público, 13.09.2013, p. 16).
[Texto 3290]
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Léxico: «extralectivo»

Muito poucas vezes

      «Este ano lectivo arranca com uma novidade em Viana do Castelo: mais de 650 alunos de sete escolas do concelho vão ter, por decisão dos respectivos agrupamentos, os desportos náuticos incluídos no plano curricular ou disponíveis como actividade extralectiva» («Mais de 650 alunos de escolas de Viana vão ter aulas de desportos náuticos», Andrea Cruz, Público, 13.09.2013, p. 16).
      Lê-se, é verdade, aqui e ali, mas muito poucas vezes, ao contrário de «extracurricular», só parcialmente sinónimo. E os dicionários ainda não a registam.
[Texto 3289]
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Tradução: «enjeu»

Impressionante

      Quem é que não ouviu já falar nas implicações filosóficas (ou outras) disto ou daquilo? É por isso com estranheza que se vê, num tradutor experiente, enjeux philosophiques duas vezes vertido por «paradas filosóficas». Tudo originado por aquela pecha, mais vista nos novatos e nos medíocres, de se ficarem pela primeira acepção dos dicionários. No Dicionário Francês-Português da Porto Editora, por exemplo, enjeu é «(jogo) parada»; (competição) o que está em jogo; figurado: implicação».
      «Não pretendendo focar as implicações filosóficas ou estritamente linguísticas do problema, tentarei apenas colocar-me, através da dúvida essencial e eficaz do fantástico, na complexa convergência da literariedade» (Metamorfoses do Fantástico na Obra de José Régio, Duarte Faria. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1977, p. 21).
[Texto 3288]
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«Tampa/tampo»

A ser assim, indiferente

      «Caetano Alves bateu com a cara em cheio na tampa do caixão cintado de ferro» (A Filha do Doutor Negro, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Livrarias de Campos, Júnior, 2.ª ed., s/d, p. 203). É assim que sempre ouvi e li, mas o tradutor verteu couvercle du cercueil por «tampo do caixão». No entanto, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, tampa é a «peça móvel com que se tapa ou cobre um recipiente ou caixa», e tampo a «cobertura de recipientes grandes (arca, mala, etc.)». Ora, a ser assim, facilmente podíamos incluir neste etc. «caixão».
[Texto 3287]
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Tradução: «globetrotter»

Com destino e sem destino

      «João Paulo II foi um papa globetrotter», dizia o texto. Bem, não é mentira, mas é triste ter de usar um termo inglês para dizer coisa tão comezinha. Na língua castelhana ficou bem resolvido: trotamundos: «persona aficionada a viajar y recorrer países». Perfeito. Consultamos o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora e que vemos? «viajante incansável». E «vagamundo», serve? Bem, quase: «que ou o que corre o mundo sem finalidade determinada». Enfim, vagabundo. Mas o papa, pelo menos ele, corre o mundo com uma finalidade determinada. Não é muito raro ver a palavra «trota-mundo(s)» em autores brasileiros. «“Sou um trota-mundo” — disse. “Calhou de ser a Irlanda, então, Irlanda! Você vai comigo, Aninha? Antes, quero acabar o seu retrato.” Falava muito nesse retrato, que já tinha começado. E nas viagens que faríamos montados na sua moto» (Os Filhos Pródigos, Lygia Fagundes Telles. São Paulo: Livraria Cultura Editora, 1978, p. 56). Contudo, consultamos o Dicionário Aulete, que regista «trota-mundos», e a definição não é diferente da de «vagamundo»: «indivíduo que anda sem destino, vagueando; andarilho; vagabundo».
[Texto 3286]
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Tradução: «bleu de travail»

Ora, não custava nada

      É em França, e os funcionários do cemitério estavam vestidos de bleu de travail. Correu tudo bem, mas é preciso dizer que o Dicionário Francês-Português da Porto Editora ignora a expressão. O Dicionário Português-Francês regista, é verdade, para fato-macaco, bleu; salopette; combinaison. Contudo, todos os cuidados são poucos.
[Texto 3285]
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Tradução: «Je suis désolé»

Sem desculpa

      Um pequeno desaire, e é logo: «Je suis désolé, je suis vraiment désolé.» A torto e a direito. Exagero melodramático dos Franceses. O tradutor experimentado é que não pode usar a palavra «desolado», porque não é assim que nós falamos. Também o I’m afraid not inglês aparece muitas vezes mal traduzido. Vá lá, um pouco mais de esforço.
[Texto 3284]
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Léxico: «copa»

Copa C 18

      A miúda estava na praia. Aqui este mariola enfiou a mão «por dentro do boné, descobrindo-lhe o peito». A culpa é dos dicionaristas, pois claro. No Dicionário Francês-Português da Porto Editora lemos que bonnet é «cada uma das duas partes ou bolsas do soutien». Os tradutores não dedicam mais tempo à questão: são os «bonés». Mas há outro problema: o vocábulo copa, na acepção de cada uma das partes ocas ou bolsas que cobrem os seios, não está registado nos dicionários. E usa-se todos os dias, a toda a hora, por homens e mulheres.

[Texto 3283]
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Sobre «estrado»

Símbolo de poder

      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a primeira acepção de estrado é esta: «sobrado um tanto acima do chão ou de outro pavimento». Assim, ou a segunda acepção (que não encontramos, por exemplo, no Dicionário Houaiss) é desnecessária ou faltam outras acepções: «estrutura plana junto ao altar onde o sacerdote põe os pés enquanto celebra a missa». E então o estrado que havia dantes nas salas de aulas, alguns com meio metro de altura, que separavam simbólica e realmente a área reservada ao professor da área reservada aos alunos?
[Texto 3282]
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Como se escreve nos jornais

«Liderar orações»!

      «O Governo do Egipto proibiu a actividade de 55 mil imãs não-licenciados, que foram classificados como “fundamentalistas” e “ameaças para a segurança nacional” e impedidos de liderar orações em mesquitas e outros centros religiosos» («Governo proíbe actividade de 55 mil imãs», Rita Siza, Público, 11.09.2013, p. 21).
[Texto 3281]
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«À droite à gauche»

Numa rápida sucessão

      «On baise à droite à gauche», escreve Houellebecq: «fode-se a torto e a direito». Sem conjunção, ainda percebo; mas também sem vírgula? O Dicionário Francês-Português da Porto Editora regista «à doite et à gauche», à direita e à esquerda; de todos os lados; em todo o lado. No Diário de Maria: «Já não sou acompanhante, embora continue a foder a torto e a direito» (Lisboa: Oficina do Livro, 2013).

[Texto 3280]
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«Linha», uma acepção

Não há outro termo?

      «Numa das linhas de vinha, Armando e Palmira, um casal de emigrantes reformados, apanha uvas ao mesmo ritmo que as vai petiscando. [...] Nas 80 linhas de vinha o cheiro é o do campo, mas os sons os [sic] da cidade — para além do contínuo zumbido dos sistemas de rega automática que estarão algures, noutra zona da Tapada, ouvem-se buzinas, sirenes, o trânsito da Ajuda» («O senhor vindimou?», Catarina Moura, «Fugas»/Público, 7.09.2013, p. 18).
[Texto 3279]
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«Misse»

Aprovado

      «Sou culpada e tem que ver com o meu início, quando era locutora tinha de ser simpática. Quando fui para informação pensei que como jornalista tinha de ser a antítese. Agora sou outra coisa, descolei-me dessa imagem simpática, não tenho de ser a misse simpatia. Adotei um estilo, mas continuo a ser a mesma pessoa», disse Manuela Moura Guedes em entrevista à Notícias TV (6 a 12 de Setembro de 2013, p. 12). É raríssimo ver este aportuguesamento, que até está registado em alguns dicionários, como no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 3278]
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Não é «triologia»!

Olhos e ouvidos bem abertos

      «“Ele [Rui Sinel de Cordes] joga muito FIFA, mas também gosta de jogos de estratégia e máfia. A mesma coisa no cinema. Aliás, em cima da mesa da sala de estar tem um grande livro da triologia do Padrinho”, conta o amigo Vasco Duarte, mais conhecido como Falâncio, dos Homens da Luta» («O ‘Don Juan’ vaidoso que cozinha pratos extravagantes», Marlene Rendeiro, Notícias TV, 6 a 12 de Setembro de 2013, p. 39).
      Alguém — ou Marlene Rendeiro ou Falâncio — falhou redondamente. Ao conjunto de três obras literárias unidas por um tema comum dá-se o nome de trilogia. Em último caso, de qualquer modo, o erro é da jornalista.
[Texto 3277]
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Mude-se a gramática

Para quem é

      As vendas de bacalhau aumentaram cinco por cento nos primeiros seis meses deste ano. A Ribeiralves, por exemplo, que tem a maior fábrica do mundo de transformação de bacalhau, contratou mais 40 pessoas para poder satisfazer uma encomenda. Vai daí, João Alves, empolgado, dá um pontapé na gramática: «O bacalhau coloca-se em todos os países onde hajam portugueses. Se houver portugueses, o bacalhau consome-se. Se não houver portugueses, nem tanto.»
[Texto 3276]
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Becas e togas

Mais uma vez

      «Se os deputados não sabem falar claro, frequentem os cafés. O cidadão comum que se chega ao balcão já sabe o “espírito” daquilo que quer. Então, pede uma bica cheia ou curta, um abatanado, garoto ou carioca. E o cidadão do outro lado entende-o. Aprendam, deputados. Quem passa a vida a discursar com pompa, não pode estar sempre a precisar de tipos de toga a traduzi-lo» («Os dinossauros podem emigrar», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 6.09.2013, p. 56).
      Os «tipos de toga» são, para Ferreira Fernandes, os juízes do Palácio Ratton. É confusão já antiga, arreigada, de Ferreira Fernandes. Faz três anos na próxima quinta-feira que lho disse no Assim Mesmo, mas ou não leu, ou não concorda, ou esqueceu-se. Mais uma vez: os juízes do Tribunal Constitucional usam beca. E não é apenas o nome que difere — as próprias peças de vestuário são diferentes.

[Texto 3275]
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Léxico: «patusca»

E não é por ser novo

      «Isso mesmo se constata ao dar uma volta na Net: em vários fóruns e blogues, conversas sobre cloches e patuscas (com várias pessoas a perguntar o que é) e as memórias que convocam mais a delícia das iguarias nelas confecionadas são comuns» («O regresso da patusca e outras histórias», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 6.09.2013, p. 29).
      Sempre conheci pelo nome de patusca, provavelmente nome comercial que, por derivação imprópria, se tornou nome comum. Pode ser designação patusca, mas é nossa, ao passo que «cloche» (campânula; redoma; queijeira — pela semelhança?) é francês. Os dicionários, de qualquer maneira, desconhecem ambos os termos nesta acepção.
[Texto 3274]
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«Pre-eminent», logo...

É só copiar, rapazes

      «The experimental elaboration of Hess’s concepts, and their application to clinical problems, has been undertaken by many workers, among whom Gellhorn is pre-eminent

[Texto 3273]
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«Os Gibbses»

No prelo

      «Foi há mais de trinta anos que os Gibbses estudaram pela primeira vez o EEG de pacientes com enxaqueca (cf. Gibbs e Gibbs, 1941), e a literatura sobre o tema é hoje muito vasta e inconclusiva.» Este tradutor não ignora a regra na língua portuguesa. Para mais, basta copiar o original. Há coisa mais fácil? Um dia todos saberão, não é, Teresa?
[Texto 3272]
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«Farrobodó» ou «forrobodó»?

Nada de novo

      Alguém me disse que Shyznogud, no Jugular, chamou por mim. Como foi ontem à noite, ainda não correu muito sangue. A questão é simples: «Há cerca de um mês, aquando da instalação de Paulo Portas no Palácio dos Condes de Farrobo, vi surgir na imprensa uma palavra para mim desconhecida: farrobodó. Toda a minha vida disse – e escrevi – forrobodó e estranhei a grafia que foi, amiúde, acompanhada de uma explicação similar à surgida na Visão [...] Não tenho outros dicionários à mão para verificar se esta ausência de “farrobodó” é geral e se há outra etimologia proposta.»
      Comecemos pelo fim: não percamos tempo com a etimologia, matéria não poucas vezes do domínio das suposições e da fantasia. O que se sabe ao certo é que a palavra não era conhecida antes do fim do século XIX. Conheço apenas um dicionário de sinónimos que regista a variante «farrobodó». No entanto, na larga maioria das vezes, foi esta forma que ouvi na boca do falante comum e não faltam exemplos na literatura. Aquilino, por exemplo, talvez não use nunca a variante «forrobodó», mas apenas «farrobodó». Para mim, são verdadeiras variantes, que uso indiferentemente.
[Texto 3271]
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Léxico: «hemianopia/hemianopsia»

Nunca como agora

      Pascal de vez em quando pensava que um precipício se lhe abria ali mesmo ao lado da sua mão esquerda, e então puxava uma peça de mobiliário para esse lado. Os contemporâneos brincavam: é l’abîme de Pascal. Tratava-se de uma hemianopia passageira do lado esquerdo. Se consultarmos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, vemos que só regista a variante hemianopsia. Ora, nunca foi tão fácil enriquecer, corrigir e melhorar os dicionários como no presente.
[Texto 3270]
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Tradução: «watered silk»

A terceira língua

      O cúmulo da abdicação, no que respeita à língua e à tradução, é traduzir uma palavra ou uma expressão — watered silk, por hipótese —, não por uma palavra ou expressão portuguesa — ainda no mesmo exemplo, «seda ondeada» —, mas por uma expressão ou palavra de uma terceira língua: «seda moirée». Mas já alguém dirá que não é bem, bem o mesmo, e por isso...
      «Deus concedeu às mulheres de Londres o privilégio duns lindíssimos cabelos, fartos, todos feitos de delicados fios de fina seda ondeada, que, soltos, se adamascam de mordentes reflexos» (Londres Maravilhosa e Outras Páginas Dispersas, Manuel Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, 1960, p. 21).
[Texto 3269]
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«Quemose, quemótico...»

E muitos outros

      Assim de repente, vejo que hoppy, waterbrash, chemotic, epiphora, laryngospasm, neurogenic, scotomatous, hypnagogic, diencephalon não estão no Dicionário Inglês-Português da Porto Editora.
      E, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não vejo «mesomórfico», «neurogénico», «escotomatoso»... E também não via «quemose» e «quemótico» — que, todavia, encontro na magnífica Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira —, mas sugeri hoje de manhã a sua inclusão e já estão dicionarizados.
[Texto 3268]
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Tradução: «liverish»

Está doente

      A pobre criatura sofria de um «liverish feeling», ou seja, ou seja... Ahn, bem... O tradutor diz que é de um «sentimento hepático». Há-de ser apenas, digo eu, porque para o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora liverish é coloquial e se diz do «doente do fígado; achacado a problemas do fígado». («Achacado a» já vi, é verdade, mas tenho sérias dúvidas que seja correcto.) Não será antes «sentimento irritável» ou «sentimento bilioso»?
[Texto 3267]
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Sobre «legista»

Metade de certo

      «Da mesma forma, foram lançadas dúvidas sobre o relatório médico-legal inicial assinado pelos três legistas, incluindo Thomas Noguchi. O legista das estrelas (que autopsiou entre outros os cadáveres de Marilyn Monroe, Robert Kennedy, Janis Joplin e John Belushi) e os seus colegas terão sido negligentes na autópsia?» («Natalie Wood. Um “caso arquivado” em águas agitadas», Sandrine Cabut, Público, 2.09.2013, p. 28).
      Legista, para nós, é somente o especialista em leis; jurisconsulto; jurisperito. O tradutor devia ter escrito médico-legista.
[Texto 3266]
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«Tratar-se de»

Nem daqui a trezentos anos

      «As lesões têm entre 1,25 a 5 centímetros de diâmetro. São retiradas amostras de algumas delas para observação ao microscópio, que revela tratarem-se de “hemorragias subcutâneas recentes”, compatíveis, segundo o relatório, com equimoses recentes e superficiais» («Natalie Wood. Um “caso arquivado” em águas agitadas», Sandrine Cabut, Público, 2.09.2013, p. 28).
      Não, nem pensar: «entre 1,25 e 5 centímetros». Perturbado, o tradutor esqueceu-se que a construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular. Digam-lhe, ele talvez agradeça.
[Texto 3265]
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Sobre «revelim»

Nebulosa

      «A fortaleza militar de Almeida, rodeada por um fosso, foi construída nos séculos XVII e XVIII. Tem forma hexagonal e é constituída por seis baluartes (São Francisco, São Pedro, Santo António, ou de Santa Bárbara e de São João de Deus) e igual número de revelins (da Cruz, dos Amores ou Hospital de Sangue)» («Câmara de Almeida candidata antiga praça-forte a Património Mundial», Público, 2.09.2013, p. 17).
      Constituída por seis baluartes — e depois nomeiam quatro... Mas isso agora não interessa. Revelim (ou rebelim, que os dicionários já esqueceram) é, diz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a «construção externa de duas faces, que formam um ângulo saliente, para cobertura ou defesa de uma obra de arte». No mínimo equívoca, esta definição.
[Texto 3264]
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«Cacatua/catatua»

Aos pares

      «Os ovos apreendidos [no Aeroporto das Portela] agora em Maio não são de arara-jacinta (Anodorhynchus hyacinthinus), mas sim de outra espécie de Psittaciformes, a ordem de aves que inclui papagaios, araras, periquitos, cacatuas e afins» («Ovos de papagaio são o negócio de ouro dos traficantes de animais», Ricardo Garcia, Público, 2.09.2013, p. 12).
      Pode dizer-se de ambas as formas: cacatua ou catatua. Esta provém daquela, com assimilação. Mas é claro que se escreve «Psitaciformes». Já que não usam — como deviam — itálico, que escrevam em português.
[Texto 3263]
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«Personæ non gratæ»

Não se meta nisso

      Milhares de professores contratados não colocados irão hoje inscrever-se nos centros de emprego. Vai daí, Mário Nogueira, da FENPROF, põe-se a falar em latim. Mal: «Vem confirmar que o Ministério da Educação tem os professores contratados como personas non gratas. E o que ainda é mais estranho e curioso é o próprio Ministério da Educação vir dizer que até tem mais de seis mil horários ainda para preencher.»
      O plural da expressão é personæ non gratæ. É difícil? Bem, ninguém o manda pôr-se a falar em latim, acho eu. Ou isso também conta para o regime de ponderação curricular?
[Texto 3262]
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Nomenclatura científica

A alquimia da ortografia

      «Provámos quatro amostras: um virgem extra “especial reserva” sem adição de qualquer aroma externo, combinação das variedades Madural e Cobrançosa; um “especial peixe”, aromatizado com endro e gengibre e enriquecido com chondrus crispus, um antioxidante natural de origem marinha proveniente da costa portuguesa; um “especial saladas”, aromatizado com manjericão e limão e enriquecido com o antixodante marinho unnaria pinnatifida; e um “especial al funghi”, aromatizado com boletus edulis, importado da Umbria, Itália (este cogumelo também existe em Portugal)» («A deliciosa alquimia dos azeites aromatizados», Pedro Garcias, «Fugas»/Público, 31.09.2013, p. 27).
      Que alguém diga a Pedro Garcias (se estiver no Facebook, pode ter 3000 ou 4000 «amigos»): na designação binominal científica, o primeiro termo do nome da espécie (o nome genérico) deverá sempre ser escrito em maiúscula; o segundo termo (o epíteto específico), por sua vez, escrever-se-á em minúscula. Tinha obrigação de saber, sim senhor. E já agora, é Undaria e não Unnaria. E se escrevesse Úmbria também seria melhor.
[Texto 3261]
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Irmãs Brontës

Dizem os editores

      «Disse-lhe que devia procurar um agente e mostrar-lhe o manuscrito. Recomendou-lhe o seu, que, por coincidência, era David Godwin! Este telefonou a Alexandra Pringle, editora executiva da Bloomsbury, que achou que o livro tinha “a qualidade de um Dickens do século XIX e ao mesmo tempo era futurista” e lembrou-se das três irmãs Brontës à volta de uma mesa a criarem um mundo imaginário. Samantha Shannon recebeu um avanço da Bloomsbury para escrever os três primeiros livros da série de sete» («Quase conto de fadas», Isabel Coutinho, «2»/Público, 1.09.2013, p. 9).
      Muito bem, cara Isabel Coutinho: irmãs Brontës. Já quanto a «avanço», é acepção empregada apenas no meio editorial. Nem sequer está dicionarizada.
[Texto 3260]
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Léxico: «sinépica»

Outra nova

      «Uma coisa é a formulação do conceito de casamento; outra é o regime jurídico a ele associado. No recorte conceitual, não deverão ser convocadas consequências derivadas da aplicação de um determinado regime jurídico (“sinépica”): os elementos caracterizadores do conceito deverão ser teorizados de forma “descomprometida” (profs. D. Freitas do Amaral; Paulo Otero)» («Inconstitucionalidade da lei do casamento homossexual e da possibilidade de adopção», Ivo Pêgo, Público, 1.09.2013, p. 54).
      Nos dicionários, não está. Encontro-a na obra Da Boa Fé no Direito Civil, de António Manuel da Rocha e Menezes Cordeiro (Coimbra: Livraria Almedina, 2001, p. 39). É um neologismo proposto pelo jurista e antropologista legal Wolfgang Fikentscher ­— Synepeik. É o reconhecimento e o estudo da ponderação das consequências, que habilitam o intérprete-aplicador a pensar através da conformação de resultados.
[Texto 3259]
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