Um caso curioso: «bocca di rosa»

Mudem primeiro a realidade


      Mesmo quem nunca ouviu falar de Fabrizio De André talvez ache este caso curioso. Em 1967, o cantautor italiano publicou a canção Bocca di Rosa, cuja protagonista é uma mulher que vive livremente a sua sexualidade. Na letra, De André distingue-a expressamente de quem «faz amor por profissão»: «C’è chi l’amore lo fa per noia,/ chi se lo sceglie per professione;/ Bocca di Rosa né l’uno né l’altro,/ lei lo faceva per passione.» («Há quem faça amor por tédio, há quem o escolha por profissão; Bocca di Rosa nem uma coisa nem outra: fazia-o por paixão.») Era, portanto, assim que o autor via a sua personagem. Sucede que os falantes italianos cedo começaram a interpretá-la de outra forma. A expressão bocca di rosa entrou na língua comum e acabou por ser usada como sinónimo de «prostituta», acepção que o próprio Treccani ainda hoje regista. Agora, quase sessenta anos depois, a próxima edição do dicionário poderá abandonar essa definição e passar a definir bocca di rosa como «mulher livre», aproximando-se da interpretação que o autor sempre fez da sua criação. A notícia levanta, porém, uma questão interessante. Um dicionário deve corrigir uma interpretação que considera errada ou deve limitar-se a registar o significado que uma palavra adquiriu no uso? Ao que tudo indica, os Italianos começaram muito cedo a entender bocca di rosa como sinónimo de «prostituta», e foi esse o significado que a expressão acabou por adquirir na língua. É por isso que me interrogo se faz sentido um dicionário tentar alterá-lo, quase sessenta anos depois. A língua tem o seu curso próprio e dificilmente muda por decisão dos lexicógrafos. Um dicionário pode influenciar o uso; dificilmente o substitui.

[Texto 23 374]

Palavras que podíamos ter: «meridiação»

Não aconteceu


      Podíamos ter, em vez de «sesta» (afinal, tão espanhola como chinesa), «meridiação». Costuma dizer-se que a sesta é um costume tipicamente espanhol, mas a verdade é bem menos folclórica. Dormir um pouco depois do almoço é um hábito comum a muitos povos, sobretudo nas regiões mais quentes. Os próprios Romanos já o praticavam e tinham até um nome para esse repouso do meio-dia: merīdiātiō, -ōnis (embora não seja rigoroso afirmar, como já vi, que o termo foi criado por Plínio, o Jovem, ou por Suetónio; ambos apenas o documentam). Se o português tivesse herdado esse vocábulo latino, hoje talvez disséssemos, muito naturalmente: «Vou fazer a minha meridiação.» A forma seria perfeitamente regular. A língua, porém, seguiu outro caminho. Acabámos por ficar com sesta, palavra que remonta à hora sexta romana, a hora do dia em que tradicionalmente se interrompia o trabalho para descansar. A «meridiação» nunca chegou a fazer esse percurso, mas bem podia tê-lo feito. A «meridiação» nunca chegou a nascer em português. Nem em nenhuma outra língua.

[Texto 23 359]

Dia de calor cruel

Novo paradigma, novas palavras


      «Crianças se refrescam em parque aquático público no distrito de Edogawa, em Tóquio, nesta quinta-feira (23), enquanto ao menos seis locais do país registram a mesma magnitude nos termômetros; em 2026, japoneses passaram a usar uma expressão para descrever tamanha quentura: “kokushobi”, dia de calor cruel» («Com novo termo para designar altas temperaturas, Japão enfrenta dia de 40°C», Folha de S. Paulo, 24.07.2026, p. A44). 
      É uma legenda a uma imagem muito interessante, tão interessante quanto o fenómeno linguístico. No Japão já existia uma escala lexical bastante consolidada para os dias quentes: natsubi (25 °C ou mais), «dia de Verão»; manatsubi (30 °C ou mais), «dia de Verão intenso»; mōshobi (35 °C ou mais), «dia de calor extremo». Mas os 40 °C, outrora excepcionais, tornaram-se suficientemente frequentes para a Agência Meteorológica Japonesa entender que era necessário um novo termo oficial: kokushobi (酷暑日), literalmente «dia de calor cruel» ou «dia de calor impiedoso». O vocábulo foi adoptado este ano para os dias em que a temperatura máxima atinge ou ultrapassa os 40 °C.

[Texto 23 353]

Os Trovantes

Uma pluralização inevitável


      Hoje de manhã, na Antena 1, ao deixar o seu testemunho sobre Luís Represas, por ocasião da sua morte, Ana Sofia Carvalhêda acentuou muito enfaticamente, de modo professoral, o Trovante. Se conhecesse melhor a língua, não o faria. É conhecida a posição do fundador da banda Manuel Faria, que disse que era no singular «porque representa algo maior do que cada elemento e merecedor de respeito». Vale o que vale. Se quisessem mesmo ter mais sorte nessa vontade, que escolhessem o nome O Trovante. Não o fizeram, pelo que têm de se sujeitar à forma como, em português, e habitualmente, nos referimos ao nome de bandas ou grupos musicais — fazendo-o preceder de artigo definido plural, independentemente do traço de número do nome próprio. Logo, os Trovante. Claro que isto levanta questões linguísticas complexas e interessantes, mas não vamos agora tratar delas.

[Texto 23 328]

O que se diz por aí

Que mais irão inventar?


      «Ainda assim, escrevo caos propositadamente em itálico, pois convém preservar o valor das palavras e o seu significado. Caos remete para um abismo inicial, para a ausência completa de ordem; e a política interpretada como sucessão de episódios caóticos obedece a uma estratégia: arquiteturar a realidade como um falhanço sistémico gerador de emoções extremas e promotor de engajamento nas redes sociais» («Anatomia do caos, agora na educação», Pedro Adão e Silva, Público, 15.07.2026, p. 40). 
      Com que então agora o itálico tem também esta serventia... Os jornalistas julgam alcançar o mesmo objectivo com aspas, muitas aspas. Nós, que não somos jornalistas nem ex-ministros, podemos dispensar todos esses pobres artifícios.

[Texto 23 294]

Como se reedita por aí

Eu não agradeço


      Então, vamos lá a ver: se na lista dos nomes femininos admitidos ainda hoje, Julho de 2026, encontramos Lauriana, por que motivo nas edições modernas da obra A Ruiva, de Fialho de Almeida, o transmutam para Laureana?

[Texto 23 282]


Um obituário como tantos outros

Não fora a hipocrisia, seriam a maioria


      No dia 24 de Junho, li no jornal El País, assinado por Caludi Pérez, um obituário — de página inteira! — de Alan Greenspan, presidente da Reserva Federal entre 1987 e 2006, completamente demolidor. Só o título já nos permitia prever o teor: «El pésimo legado del ‘Maestro’ Greenspan». Se aquela ideia absurda de que um obituário tem de ser ou costuma ser elogioso não tivesse caído antes, seria desta vez. Não foi preciso.

[Texto 23 280]

Plural dos apelidos

De novo, porque me apetece


      «Era o velho um nobilíssimo descendente dos melhores Sampaios destes reinos» (O Santo da Montanha, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1972, p. 6).
      Já se sabe como os nossos escribas e plumitivos, ainda que assistidos por IA, escrevem isto hoje em dia. Mas então, eles é que sabem.

[Texto 23 258]

Extras! Extras! Extras!

Não se esqueçam


      «As horas extras no Serviço Nacional de Saúde (SNS) custaram, em 2025, 468 milhões de euros, representando um aumento de 11,4% em relação ao ano anterior» («Horas extras valem 468 milhões em 2025», Rui Miguel Godinho, Correio da Manhã, 30.06.2026, p. 6).

[Texto 23 222]

Como se fala por aí

Então agora é assim?


        O porta-voz da PSP, Sérgio Soares, que participou hoje no programa Consulta Pública, na Antena 1, lamentou o caso dos alegados maus-tratos nas esquadras do Rato e do Bairro Alto, em Lisboa. Sérgio Soares frisou que a PSP denunciou o que aconteceu e tem colaborado com a investigação. Era o que faltava que não colaborasse, digo eu. «É lamentável», afirmou, «que existam estas alegações e estes indícios. De referir que a Polícia de Segurança Pública, logo que teve conhecimento das alegadas suspeitas de polícias no cometimento de situações graves, que consideramos, aliás, muito graves, deu início à respectiva denúncia ao Ministério Público, à autoridade judiciária competente...» 

      Então agora são alegadas suspeitas? Já não são apenas os factos, as próprias suspeitas são meramente alegadas? A formulação acaba por insinuar — involuntariamente, decerto — que nem sequer está assente a existência de suspeitas reais. Como se alguém tivesse apenas alegado que havia suspeitas, mas essas suspeitas ainda carecessem elas próprias de confirmação. Reveja bem isto, senhor subintendente Sérgio Soares.

[Texto 22 967]

Extras! Extras! Extras!

Está a entrar


      «Uma das incompatibilidades é a prestação de serviços de médicos que não estão dispostos a fazer horas extras para além do previsto» («Governo quer menos peso dos tarefeiros na urgência», Edgar Nascimento, Correio da Manhã, 8.05.2026, p. 19). «Governo aprovou diploma que regula prestações de serviços, bem como regime de incentivos às horas extras na urgência» («Medidas “draconianas” podem levar a fuga do SNS», Inês Schreck e Ana Maia, Público, 8.05.2026, p. 12). «É o que está previsto no decreto-lei, aprovado pelo Governo na quinta-feira, que estabelece a atribuição de incentivos remuneratórios aos médicos que fazem mais horas extraordinárias na urgência do que as previstas na lei (150 horas extras/ano ou 250 horas, se for em dedicação plena)» («Médicos disponíveis para urgências terão bónus mesmo que não sejam chamados», Inês Schreck, Público, 9.05.2026, p. 19).

[Texto 22 966]

Pero se entiende, ¿no?

Tudo na mesma


      «“Pero se entiende, ¿no?”, suelen alegar los sorprendidos en pecado que creen que el contexto resuelve cualquier desaguisado. Ya Sancho le pedía a don Quijote que no le enmendase los vocablos si entendía lo que quería decir. Seguimos en las mismas» («Hablar con propiedad», Francisco Ríos, La Voz de Galicia, 18.04.2026, p. 12). Pascácios da Península Ibérica, uni-vos e dizei sempre isto, que o que interessa é que se perceba.

[Texto 22 850]

Como se fala por aí

Ou é a prosa que é adormecente?


      «Quanto à difusão, Bacelar Gouveia enfrenta sentimentos contraditórios. Por um lado, está satisfeito, porque o livro (lançado em Fevereiro, com chancela da Almedina) “tem vendido bem”, mas por outro está convencido de que este tema “não interessa às pessoas”: “Nós não temos em Portugal uma questão linguística, reconheço, mas temos pequenas questões linguísticas: o acordo [ortográfico] é uma questão controversa; o modo de escrever; a linguagem inclusiva, que tem muito que se lhe diga; ou a parte da informática, que aqui não está tratada. O problema é que em Portugal há pouco diálogo científico e as elites universitárias, aqui tenho uma visão muito pessimista, são muito frágeis e estão muito adormecentes.” Há, segundo Bacelar Gouveia, razões para isso: “O processo de Bolonha veio burocratizar o trabalho universitário, os professores gastam metade do seu tempo a preencher relatórios e a fornecer estatísticas, e não têm tempo para ler, escrever e pensar”» («“O uso generalizado e até abusivo do inglês começa a ser inadmissível”», Nuno Pacheco, Público, 17.04.2026, p. 30). 

      As elites universitárias, seja lá isso o que for, «são frágeis e estão adormecentes»... O que me parece é que é muito má ideia usarmos palavras que não conhecemos bem.

[Texto 22 836]

Tradução: «péniche»

O contrário do que ali se intuía


      Quinto episódio da série Na Sombra. O mais electrizante até agora, a faltar um para o fim. Le Major, claramente nervoso, confessa a César e a Marylin: «C’est moi qui suis allé à la péniche où j’ai retrouvé le fils Pinguet.» Nas legendas: «Fui à barcaça, onde me encontrei com Pinguet Filho.» Ora, a embarcação está atracada em Issy-les-Moulineaux, um daqueles troços do Sena onde abundam péniches habitadas, muitas delas permanentemente atracadas e integradas no tecido urbano. São batelões convertidos, alguns luxuosíssimos. Chamar barcaça a isto... Há-de ser a pior escolha, muito, muito atrás, pela conotação, de «batelão», «barco», «casa-barco», e em último caso — oh, sim, dêem-me um tiro! — o termo original, péniche, que encontro em algumas traduções, para dar a cor local. Não há volta a dar, a palavra «barcaça» torna-se mesmo desajustada no contexto, já que remete de imediato para rudeza, trabalho pesado, até alguma degradação material, tudo o contrário do que se sabe (César fora lá antes, de noite) e do que se intui.

[Texto 22 817]

«Funcionário», a evolução

Ou quase tudo


      Tudo muda, pois claro. Umas décadas atrás, só havia dois tipos de funcionários: os da Função Pública, como o meu pai e alguns tios meus, e os «funcionários do partido» (do «Partido», escrevem eles, como eu escrevo «Igreja»). Agora vamos aí pelas ruas e até nas montras de lojas chinesas se lê «admitimos funcionária».

[Texto 22 801]

Como se fala por aí

Assim se perde


      «Dois quilómetros e 600 metros antes estamos na zona das Docas de Lisboa. Cotrim de Figueiredo puxa do megafone e encoraja as dezenas presentes. “Quem chegar em último é uma batata mole, encontramo-nos no Palácio de Belém, que vou lá buscar as chaves”» («Cotrim. “Quem chegar em último é uma batata mole”», João Maldonado, Rádio Renascença, 4.01.2026, 19h33). Isto é o quê, a versão das Avenidas Novas da batata podre?

[Texto 22 798]

Vejam se não erram também

Sô Josino sabia


      «Durante muitos anos, uma das principais ocupações daquele advogado aposentado [Josino Ismar de Conti Pereira] era ler os jornais à procura de erros. “Onde já se viu escrever ‘zona rural da cidade de...’? Cidade é a parte urbana do município, o certo é ‘zona rural do município’!”, esbravejava Ismar cada vez que encontrava um de seus erros prediletos. Outra diversão era ler dicionários aleatoriamente —o seu preferido era do professor Pasquale Cipro Neto, cuja coluna, quando publicada nesta Folha, era recortada e guardada cuidadosamente» («Escreveu em jornais do interior de SP por 65 anos», Fábio Grellet, Folha de S. Paulo, 17.05.2025, p. A42).

[Texto 22 781]

Extras! Extras! Extras!

Porque andam muito folgados


      «O ex-diretor executivo do SNS António Gandra d’Almeida afirmou ontem que o INEM “só funcionava com muitas horas extras e prestação de serviços, tal como o resto do SNS”» («INEM só funciona com horas extras», E. N., Correio da Manhã, 27.03.2026, p. 19).

[Texto 22 775]

Trump, o palavrão e a jornalista

Prudente, mas ingénua


      «“Terça-feira será o Dia da Central Elétrica e o Dia da Ponte, tudo junto, no Irão. Não haverá nada igual!”, exclamou, deixando antever que os alvos serão, como já tinha referido anteriormente, as infraestruturas do país. De forma mais drásticas e usando vocabulário menos próprio (que não vamos reproduzir), foi mais longe: “Abram o raio do Estreito, seus sacanas loucos, ou vão viver para o inferno”, ameaçou» («Trump usa palavrão para exigir abertura do Estreito de Ormuz», Daniela Espírito Santo, Renascença, 5.04.2026, 13h18).  

      É ver a jornalista toda deliciada por poder escrever que Trump usou um palavrão. Que não vão reproduzir, mas deixando bem à vista o texto original — «Open the Fuckin’ Strait, you crazy bastards, or you’ll be living in Hell – JUST WATCH!» Parece que não sabe que os Portugueses — incluindo, pois claro, os jornalistas — conhecem melhor o inglês do que a sua própria língua. Caralho.

[Texto 22 749]

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