Mas que treta é esta?
Por qualquer razão — que eu nem quero saber —, há tradutores que grafam sempre as onomatopeias, e por vezes até interjeições, em itálico. E se deixassem de ser parvos?
[Texto 22 896]
Tudo na mesma
«“Pero se entiende, ¿no?”, suelen alegar los sorprendidos en pecado que creen que el contexto resuelve cualquier desaguisado. Ya Sancho le pedía a don Quijote que no le enmendase los vocablos si entendía lo que quería decir. Seguimos en las mismas» («Hablar con propiedad», Francisco Ríos, La Voz de Galicia, 18.04.2026, p. 12). Pascácios da Península Ibérica, uni-vos e dizei sempre isto, que o que interessa é que se perceba.
[Texto 22 850]
Ou é a prosa que é adormecente?
«Quanto à difusão, Bacelar Gouveia enfrenta sentimentos contraditórios. Por um lado, está satisfeito, porque o livro (lançado em Fevereiro, com chancela da Almedina) “tem vendido bem”, mas por outro está convencido de que este tema “não interessa às pessoas”: “Nós não temos em Portugal uma questão linguística, reconheço, mas temos pequenas questões linguísticas: o acordo [ortográfico] é uma questão controversa; o modo de escrever; a linguagem inclusiva, que tem muito que se lhe diga; ou a parte da informática, que aqui não está tratada. O problema é que em Portugal há pouco diálogo científico e as elites universitárias, aqui tenho uma visão muito pessimista, são muito frágeis e estão muito adormecentes.” Há, segundo Bacelar Gouveia, razões para isso: “O processo de Bolonha veio burocratizar o trabalho universitário, os professores gastam metade do seu tempo a preencher relatórios e a fornecer estatísticas, e não têm tempo para ler, escrever e pensar”» («“O uso generalizado e até abusivo do inglês começa a ser inadmissível”», Nuno Pacheco, Público, 17.04.2026, p. 30).
As elites universitárias, seja lá isso o que for, «são frágeis e estão adormecentes»... O que me parece é que é muito má ideia usarmos palavras que não conhecemos bem.
[Texto 22 836]
O contrário do que ali se intuía
Quinto episódio da série Na Sombra. O mais electrizante até agora, a faltar um para o fim. Le Major, claramente nervoso, confessa a César e a Marylin: «C’est moi qui suis allé à la péniche où j’ai retrouvé le fils Pinguet.» Nas legendas: «Fui à barcaça, onde me encontrei com Pinguet Filho.» Ora, a embarcação está atracada em Issy-les-Moulineaux, um daqueles troços do Sena onde abundam péniches habitadas, muitas delas permanentemente atracadas e integradas no tecido urbano. São batelões convertidos, alguns luxuosíssimos. Chamar barcaça a isto... Há-de ser a pior escolha, muito, muito atrás, pela conotação, de «batelão», «barco», «casa-barco», e em último caso — oh, sim, dêem-me um tiro! — o termo original, péniche, que encontro em algumas traduções, para dar a cor local. Não há volta a dar, a palavra «barcaça» torna-se mesmo desajustada no contexto, já que remete de imediato para rudeza, trabalho pesado, até alguma degradação material, tudo o contrário do que se sabe (César fora lá antes, de noite) e do que se intui.
[Texto 22 817]
Ou quase tudo
Tudo muda, pois claro. Umas décadas atrás, só havia dois tipos de funcionários: os da Função Pública, como o meu pai e alguns tios meus, e os «funcionários do partido» (do «Partido», escrevem eles, como eu escrevo «Igreja»). Agora vamos aí pelas ruas e até nas montras de lojas chinesas se lê «admitimos funcionária».
[Texto 22 801]
Assim se perde
«Dois quilómetros e 600 metros antes estamos na zona das Docas de Lisboa. Cotrim de Figueiredo puxa do megafone e encoraja as dezenas presentes. “Quem chegar em último é uma batata mole, encontramo-nos no Palácio de Belém, que vou lá buscar as chaves”» («Cotrim. “Quem chegar em último é uma batata mole”», João Maldonado, Rádio Renascença, 4.01.2026, 19h33). Isto é o quê, a versão das Avenidas Novas da batata podre?
[Texto 22 798]
Sô Josino sabia
«Durante muitos anos, uma das principais ocupações daquele advogado aposentado [Josino Ismar de Conti Pereira] era ler os jornais à procura de erros. “Onde já se viu escrever ‘zona rural da cidade de...’? Cidade é a parte urbana do município, o certo é ‘zona rural do município’!”, esbravejava Ismar cada vez que encontrava um de seus erros prediletos. Outra diversão era ler dicionários aleatoriamente —o seu preferido era do professor Pasquale Cipro Neto, cuja coluna, quando publicada nesta Folha, era recortada e guardada cuidadosamente» («Escreveu em jornais do interior de SP por 65 anos», Fábio Grellet, Folha de S. Paulo, 17.05.2025, p. A42).
[Texto 22 781]
Prudente, mas ingénua
«“Terça-feira será o Dia da Central Elétrica e o Dia da Ponte, tudo junto, no Irão. Não haverá nada igual!”, exclamou, deixando antever que os alvos serão, como já tinha referido anteriormente, as infraestruturas do país. De forma mais drásticas e usando vocabulário menos próprio (que não vamos reproduzir), foi mais longe: “Abram o raio do Estreito, seus sacanas loucos, ou vão viver para o inferno”, ameaçou» («Trump usa palavrão para exigir abertura do Estreito de Ormuz», Daniela Espírito Santo, Renascença, 5.04.2026, 13h18).
É ver a jornalista toda deliciada por poder escrever que Trump usou um palavrão. Que não vão reproduzir, mas deixando bem à vista o texto original — «Open the Fuckin’ Strait, you crazy bastards, or you’ll be living in Hell – JUST WATCH!» Parece que não sabe que os Portugueses — incluindo, pois claro, os jornalistas — conhecem melhor o inglês do que a sua própria língua. Caralho.
[Texto 22 749]
O recurso mais económico
«Quanto ao nome escolhido é de salientar que “Sr. Engenheiro” é propositadamente colocado entre aspas pela organização depois de um pedido da Ordem dos Engenheiros. “Recebemos um pedido da Ordem dos Engenheiros por razões que as pessoas penso que conhecem: ‘Por favor, não lhe chamem engenheiro.’ E nós atendemos. Pusemos engenheiro entre aspas” [diz Rui Melo, o encenador]» («“Já só nos resta rir”. Musical sobre Sócrates estreia no Tivoli», João Maldonado, Rádio Renascença, 31.03.2026, 6h30). As aspas servem para tudo. Basta o Homem querer e a Mulher deixar.
[Texto 22 747]
Passados uns anos
«De regresso à Sala das Sessões, já depois do fim da cerimónia, para a fotografia dos constituintes, Marcelo cumprimentou várias pessoas, incluindo Jerónimo de Sousa, pousando a seu lado na imagem de grupo» («Marcelo assistiu sozinho na tribuna à sessão solene dos 50 anos da Constituição», Rádio Renascença, 2.04.2026, 12h38).
Como alguns sabem, já por aqui passou quem defendesse que era este o verbo para significar ficar imóvel numa determinada posição para ser fotografado ou para que lhe façam um retrato ou lhe modelem um busto, uma estátua, etc. Era e é uma voz isolada. O verbo certo é, sem dúvida alguma, posar. De Elvas até, sei lá, Mâncio Lima, é a opinião unânime. Vá, tirando uma pessoa, se é que ainda é viva, porque a pandemia ceifou muitas. Os que se enganam não contam.
[Texto 22 745]
Criatividade? Incoerência
Há uns tempos — ou desde sempre? — comecei a reparar no nome de empresas de construção civil. A criatividade que por ali vai, Jasus do céu! Dantes era Ferreira & Filhos, Lda., Duarte & Duarte, Lda., Cavaco & Irmãos, e pouco mais. Mas agora? Ângulos Sublimes, Patamar de Talento, Linhas Gerais, Margem Efémera, Margem Mítica, Evidente Perfeição, Equação Inusitada, Perfeição Futurista, Futuro Ajustável, Esfera Cristalizada, Pérolas d’Estratégia, Parênteses & Cardinais, Perímetros Imperiais, Potencial Tropical, Remate Perfeito, Talento Confirmado, Objetivo Obrigatório, Fábula Versátil, Frases & Páginas, Carácter Veloz, Virtude Contígua... Não me perguntem se os acho adequados para empresas de construção civil, porque a minha resposta só podia ser esta: #@$%&*! Para mim, tudo isto foi desatado pela Cavalo de Ferro. Não o digo pela incoerência do nome da editora, valha-me Deus, que de tal não padece, mas por ser composto. Tem de haver sempre pioneiros.
[Texto 22 735]
Impera o desmazelo
«Antes do lançamento, as dezenas de pessoas tentavam conter as borboletas na barriga. O nervosismo era indisfarçável, o orgulho também. O risco existia, mas era baixo: 0,5% de probabilidades de lançamento. As odds eram boas, mas para quem dedicou muito ao projeto, qualquer meio porcento é muito» («Portugal já lançou seis satélites para o espaço e quer criar o “Waze do mar”», Tomás Anjinho Chagas, Rádio Renascença, 30.03.2026, 12h17).
É assim que se escreve, Tomás Anjinho Chagas? Despiorando um pouco, teríamos: «Antes do lançamento, as dezenas de pessoas tentavam conter o nervosismo, que era indisfarçável, tal como o orgulho. O risco existia, mas era baixo: 0,5 % de probabilidade de falha no lançamento. As probabilidades eram favoráveis, mas, para quem dedicou tanto ao projecto, qualquer meio por cento pesa muito.»
[Texto 22 728]
Ler por receita
Os médicos, leio nos jornais, vão passar a receitar caminhadas, pilates, trabalhos manuais e aulas de culinária. É um começo, mas o que espero mesmo é que, enquanto não afinam aqueles chips implantáveis no cérebro, passem a receitar o estudo da gramática e a consulta de dicionários, especialmente aos jornalistas; para a restante população, pode ser apenas a frequência de clubes de leitura, por exemplo.
[Texto 22 704]
Realmente...
Na quinta-feira, vi o filme Sirât (2025), de Oliver Laxe, cujo título remete para a ideia islâmica de travessia e prova, funcionando como chave simbólica para o percurso das personagens, entre caminho físico e limiar existencial, como se anuncia logo no início: «Há uma ponte chamada Sirat que liga o inferno ao paraíso, e o seu caminho é mais estreito do que um fio de cabelo.» É curioso notar, como por vezes sucede em percursos etimológicos deste tipo, a semelhança fonética entre sirāt e strata (estrada), ainda que essa aproximação, por si só, não constitua prova. Alguns estudiosos da filologia semítica e do léxico alcorânico, como Arthur Jeffery e Toshihiko Izutsu, admitiram a hipótese de ṣirāṭ não ser de origem árabe, propondo antes uma derivação do latim strata («estrada pavimentada»), eventualmente por via do grego ou do aramaico. Esta proposta, embora discutida e não consensual, insere-se no estudo mais amplo dos possíveis empréstimos no vocabulário alcorânico. No próprio Alcorão, a palavra surge 45 vezes, frequentemente na expressão «ṣirāṭ al-mustaqīm» («o caminho recto»), com forte valor ético e espiritual. Vejam o filme, uma autêntica experiência sensorial.
[Texto 22 670]
Aleluia!
«Das 391 figuras do fresco, muitas estão nuas ou seminuas, o que causou escândalo na época, levando a que fossem cobertas com panos pintados sobre a obra original, após a morte de Miguel Ângelo» («“Juízo Final” volta a ganhar brilho», Jornal de Notícias, 1.03.2026, p. 32).
Vá lá. São o reduto, os jornais, porque já há editoras a «aconselharem» a escrevê-lo sempre em italiano. Que estupidez... Até em Itália estarão a comentar: «Ma che cazzo, pare che alla fine i portoghesi sappiano scrivere in portoghese.»
[Texto 22 656]
Tu quoque, Ioannes Lupe!
«O extraordinário filme de Andres Veiel sobre a alemã Leni Riefenstahl (1902-2003), a partir de amanhã nas salas de cinema, tem um título austero: Riefenstahl. Dir-se-ia que o seu nome próprio deixou de lhe pertencer por inteiro, até porque “Leni” é uma abreviatura de Helene – sendo Helene Bertha Amalie o seu nome completo» («O cinema revisita a herança trágica de Leni Riefenstahl», João Lopes, Diário de Notícias, 18.03.2026, p. 26).
João Lopes, reveja-me isto com urgência. Calha eu ter cá em casa uma Lena, por vezes ou para alguns, Leninha, mas valha-me Deus, a isso chama-se diminutivo, ou hipocorístico. E já viu que, no caso de Leninha, não reduz nem abrevia nada, uma vez que tem mais um carácter (e não, c’um caraças, «caractere», como escreve o pessoal da bonecada) do que o nome pleno?
[Texto 22 652]
Exactamente o mesmo
«Depois dos rumores espalhados pelos meios de comunicação do Irão de que o primeiro-ministro israelita estaria morto, Benjamin Netanyahu publicou um vídeo a ridicularizar a situação, comentando que estava “mortinho por um café”. Enquanto pedia a bebida nos arredores de Jerusalém, o assessor do chefe de Governo israelita pergunta-lhe sobre os rumores e Netanyahu respondeu com um trocadilho, já que “morto”, no calão hebraico, também é uma palavra usada para descrever alguém que está “louco por” alguém ou alguma coisa» («“Sou louco por café, sou louco pelo meu povo”: Netanyahu publica vídeo a ironizar rumores de que estaria morto», Catarina Magalhães, Rádio Renascença, 15.03.2026, 18h01).
Calão... E como se em português não se dissesse exactamente o mesmo, Catarina Magalhães. O assessor, ouve-se no vídeo no X, menciona os rumores («Dizem que estás morto»), ao que Netanyahu responde assim: «Ani met... al kafe» (אני מת... על קפה). «Mortinho... por um café!» É coloquial.
[Texto 22 646]
Pormenores, mas relevantes
«Não há uma segunda oportunidade para causar a primeira impressão e o Presidente António José Seguro aproveitou bem a sua tomada de posse. No discurso, ao falar da desordem no mundo, citou o filósofo inglês Thomas Hobbes, que chamou ao homem “lobo do homem”» («Os lobos dos homens», Carlos Fiolhais, Correio da Manhã, 17.03.2026, p. 3). Por pouco acertava. Aqui, a indeterminação é a chave: «Não há segunda oportunidade para causar uma primeira impressão.» Quanto à frase sobre o homem ser o lobo do homem, foi popularizada por Thomas Hobbes (1588-1679), mas é, como se sabe, de Plauto (254-184 a. C.): «Lupus est homo homini, non homo, quom qualis sit non novit.» («Um homem é um lobo para outro homem, e não um homem, quando não sabe com quem está a lidar.») Mas depois veio Rousseau e pôs as coisas nos termos que, a meu ver, são os correctos.
[Texto 22 640]