Miguel Ângelo, pois claro

Aleluia!


      «Das 391 figuras do fresco, muitas estão nuas ou seminuas, o que causou escândalo na época, levando a que fossem cobertas com panos pintados sobre a obra original, após a morte de Miguel Ângelo» («“Juízo Final” volta a ganhar brilho», Jornal de Notícias, 1.03.2026, p. 32). 

      Vá lá. São o reduto, os jornais, porque já há editoras a «aconselharem» a escrevê-lo sempre em italiano. Que estupidez... Até em Itália estarão a comentar: «Ma che cazzo, pare che alla fine i portoghesi sappiano scrivere in portoghese.»

[Texto 22 656]

Erros de sempre e para sempre

Tu quoque, Ioannes Lupe!


      «O extraordinário filme de Andres Veiel sobre a alemã Leni Riefenstahl (1902-2003), a partir de amanhã nas salas de cinema, tem um título austero: Riefenstahl. Dir-se-ia que o seu nome próprio deixou de lhe pertencer por inteiro, até porque “Leni” é uma abreviatura de Helene – sendo Helene Bertha Amalie o seu nome completo» («O cinema revisita a herança trágica de Leni Riefenstahl», João Lopes, Diário de Notícias, 18.03.2026, p. 26).

      João Lopes, reveja-me isto com urgência. Calha eu ter cá em casa uma Lena, por vezes ou para alguns, Leninha, mas valha-me Deus, a isso chama-se diminutivo, ou hipocorístico. E já viu que, no caso de Leninha, não reduz nem abrevia nada, uma vez que tem mais um carácter (e não, c’um caraças, «caractere», como escreve o pessoal da bonecada) do que o nome pleno?

[Texto 22 652]

O que se escreve por aí

Exactamente o mesmo


      «Depois dos rumores espalhados pelos meios de comunicação do Irão de que o primeiro-ministro israelita estaria morto, Benjamin Netanyahu publicou um vídeo a ridicularizar a situação, comentando que estava “mortinho por um café”. Enquanto pedia a bebida nos arredores de Jerusalém, o assessor do chefe de Governo israelita pergunta-lhe sobre os rumores e Netanyahu respondeu com um trocadilho, já que “morto”, no calão hebraico, também é uma palavra usada para descrever alguém que está “louco por” alguém ou alguma coisa» («“Sou louco por café, sou louco pelo meu povo”: Netanyahu publica vídeo a ironizar rumores de que estaria morto», Catarina Magalhães, Rádio Renascença, 15.03.2026, 18h01).

      Calão... E como se em português não se dissesse exactamente o mesmo, Catarina Magalhães. O assessor, ouve-se no vídeo no X, menciona os rumores («Dizem que estás morto»), ao que Netanyahu responde assim: «Ani met... al kafe» (אני מת... על קפה). «Mortinho... por um café!» É coloquial.

[Texto 22 646]

Como se escreve por aí

Pormenores, mas relevantes


      «Não há uma segunda oportunidade para causar a primeira impressão e o Presidente António José Seguro aproveitou bem a sua tomada de posse. No discurso, ao falar da desordem no mundo, citou o filósofo inglês Thomas Hobbes, que chamou ao homem “lobo do homem”» («Os lobos dos homens», Carlos Fiolhais, Correio da Manhã, 17.03.2026, p. 3). Por pouco acertava. Aqui, a indeterminação é a chave: «Não há segunda oportunidade para causar uma primeira impressão.» Quanto à frase sobre o homem ser o lobo do homem, foi popularizada por Thomas Hobbes (1588-1679), mas é, como se sabe, de Plauto (254-184 a. C.): «Lupus est homo homini, non homo, quom qualis sit non novit.» («Um homem é um lobo para outro homem, e não um homem, quando não sabe com quem está a lidar.») Mas depois veio Rousseau e pôs as coisas nos termos que, a meu ver, são os correctos.

[Texto 22 640]

Extras! Extras! Extras!

Hoje são cirurgias


      «Despesa com cirurgias extras dispara 212 milhões» (António Sérgio Azenha, Correio da Manhã, 26.01.2026, p. 10).

[Texto 22 618]

O que se escreve por aí

Mas não existem, claro


      João Caupers, jurista, antigo presidente do Tribunal Constitucional e ex-conselheiro de Estado, que mantém no Diário de Notícias uma crónica semanal, veio expender uma tese estrambótica (extravagante, esquisita, ridícula, estrambólica...) até mais não: não existem sinónimos. Mais: se existissem, o que nega, seriam desnecessários. Embora, já mais perto do fim do que do princípio, afirme que não é linguista (ah!), sempre vai avançando para o desenlace, que não é outro que não aquele que já adiantei, mas não quero que fique aqui apenas a minha interpretação: «Numa breve investigação que fiz recentemente, encontrei, em decisões judiciais, as palavras esquivamento, ajuizamento e lesionamento (entre outras). Se existirem, serão sinónimos, respectivamente, de esquiva, juízo e lesão. Não terão outra utilidade a não ser dificultar a compreensão do texto» («Palavrões», João Caupers, Diário de Notícias, 12.03.2026, p. 4).

[Texto 22 613]

Como se pensa por aí

Cada cabeça, etc.


      «Foi na juventude que se iniciou no boxe de competição, actividade que acabaria por lhe dar a alcunha, dentro do partido, de boxeur — embora usada pejorativamente para descrever o seu carácter impetuoso e emotivo» («O grande estratega que teve “uma espécie de segunda vida”», Ana Sá Lopes, Público, 8.03.2026, p. 13). Pejorativo, hein? Converse aqui com o seu colega: «Nuno Morais Sarmento, advogado e dirigente histórico do PSD, morreu ontem aos 65 anos, vítima de cancro no pâncreas, deixando uma marca de combatividade política que lhe valeu dentro do partido o nome carinhoso de “boxeur”» («Morais Sarmento não resistiu ao último combate», António José Gouveia, Jornal de Notícias, 8.03.2026, p. 30).

[Texto 22 608]

Desempoeirar o léxico: «hígido»

Faz bem


      De quando em quando, Hélio Schwartsman usa termos que mais ninguém, nem no Brasil nem em Portugal, usa, e faz bem, é uma forma de os dar a conhecer: «Desde que o falante se faça compreender, ninguém perde nada. Idiomas são a prova de que a autogestão pode funcionar. Milênios antes de nascer o primeiro gramático prescricionista, grupos humanos já se organizavam para manter línguas, todas elas munidas de gramáticas completas, que lhes permitiam comunicar qualquer ideia concebível e algumas inconcebíveis. As regras inventadas por acadêmicos servem para marcar distinções sociais, mas não tornam o idioma melhor nem mais hígido» («O anarquismo que funciona», Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo, 21.02.2026, p. A3). No caso, por sorte, está nos nossos dicionários.

[Texto 22 607]

Tradução: «to gain traction»

Ouvida na rádio no sábado


      «Uma teoria relacionada a questões climáticas também ganhou tração ao longo do dia. Em um primeiro momento, a REN (Redes Energéticas Nacionais), responsável pela distribuição de energia em Portugal, chegou a dizer que um fenômeno atmosférico raro na Espanha, produzido por variações extremas de temperatura no interior do país, tinha causado o apagão» («Apagão paralisa serviços e leva caos a Portugal e Espanha», Folha de S. Paulo, 29.04.2025, p. A35). 

      Mais um decalque semântico bastante directo do inglês to gain traction, que é comum nos meios de comunicação e no discurso político e empresarial anglófono. Em inglês, gain traction tem origem no sentido físico de traction (aderência ou força de fricção que permite o movimento, por exemplo, de pneus ou rodas), mas passou a ser usada metaforicamente com o sentido de «começar a ter aceitação, apoio ou eficácia». Em português de sempre, dir-se-ia antes que uma ideia ganhou força, ganhou adesão, começou a vingar ou tornou-se mais plausível/aceite.

[Texto 22 583]

Chega aqui

+41


      «Luís Montenegro não fará essa coligação, mas também a nomeação de Luís Neves está longe de significar que vai passar, doravante, a escolher o PS como parceiro preferencial do seu Governo sem maioria. O mais certo é que vá continuar, como até aqui, a jogar ora para um lado, ora para o outro, conforme os assuntos. Ao “contratar” Luís Neves, pode contribuir para diminuir a “percepção de cheguização” do PSD na questão da segurança, mas não é suficiente» («Um novo ministro no Governo AD de que a esquerda gosta», Ana Sá Lopes, Público, 23.02.2026, p. 40). 

      Isto mal começou (e começou mal), mas já temos «cheganos» (a minha preferida, porque a implicação com os ciganos pode proporcionar umas boas frases), «chegopitecos», «cheguização» e decerto outras de que não me lembro agora. Seja como for, nada supera a helvética sigla do partido, CH.

[Texto 22 579]

As opções dos nossos jornais

Qual respeita mais a língua?


      Eles nem sabem muito bem: «Em causa estão os ataques conduzidos pelo grupo de combatentes islâmicos paquistaneses TTP (os chamados taliban paquistaneses), que operam a partir de território afegão, e que Islamabad diz ter apoio financeiro, logístico e operacional de Cabul» («Paquistão garante que matou 415 talibans afegãos», Ana Brito, Público, 2.03.2026, p. 21). Estes sabem: «Segundo Islamabade, 331 soldados afegãos foram mortos e mais de 500 ficaram feridos desde o início dos combates, na quinta-feira. O Afeganistão rejeitou estes números, considerando-os falsos. Os talibãs falam em 52 mortos, a maioria mulheres e crianças, e 66 feridos» («Islamabade anuncia novos ataques a instalações militares afegãs», Jornal de Notícias, 1.03.2026, p. 33).

[Texto 22 566]

Erram, pagam

Entretanto, no Brasil


      Uma ideia bem-intencionada, mas estúpida: «O procurador Cléber Eustáquio Neves, do MPF-MG, ingressou com ação civil pública contra a Rede Globo por suposto erro reiterado na pronúncia da palavra “recorde”. O parquet cobra da emissora uma indenização não inferior a R$ 10 milhões por alegada lesão ao patrimônio cultural imaterial da língua portuguesa. No entender do fiscal da lei, a prosódia “correta” do termo é “reCOrde” (paroxítona) e não poucos locutores da Globo pronunciam “REcorde” (proparoxítona)» («O anarquismo que funciona», Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo, 21.02.2026, p. A3).

[Texto 22 549]

Bristol

Um nome sem geografia


      Havia um Hotel Bristol em Lisboa, na Rua de São Pedro de Alcântara. Havia um Hotel Bristol em Sintra. Havia-os em Paris, Genebra, Berlim ou Varsóvia. Havia... Basta: são mais de duzentos em todo o mundo. O nome parece homenagear a cidade inglesa de Bristol, mas a intenção era outra. No início do século XIX, o nome Bristol evocava Frederick Augustus Hervey, 4.º conde de Bristol e bispo de Derry, aristocrata cosmopolita, célebre pelas viagens e pelo gosto pelo luxo. Associar um hotel ao seu título era sugerir requinte, bom gosto e padrões elevados. Quando o primeiro Hotel Bristol abriu em Paris, em 1816, procurava atrair clientela britânica e, ao mesmo tempo, projectar uma imagem de distinção. O nome funcionava como garantia simbólica de qualidade. O êxito comercial fez o resto: «Bristol» tornou-se rótulo internacional de elegância, independentemente de qualquer ligação à cidade inglesa.

[Texto 22 475]

Léxico: «antitérmico»

Era nisto que devia ter pensado


      «A médica Michelle Wright alertou ao [sic] website HealthFirst para alguns dos riscos da toma excessiva de paracetamol. “O paracetamol é amplamente utilizado como analgésico e antitérmico. No entanto, existe uma linha entre uma dose terapêutica e uma dose tóxica. Ao contrário de alguns outros medicamentos, a sobredosagem de paracetamol nem sempre causa sintomas imediatos”, começa por dizer» («Desafio do Paracetamol: coloca jovens em risco e leva-os para o hospital», Nascer do Sol, 17.02.2026, 8h44, itálico meu).

      Neste sentido, como sinónimo de «antipirético», «antitérmico» é de uso raríssimo. Não é por acaso que em todos os dicionários é a segunda acepção do termo.

[Texto 22 471]

A ver se nos entendemos

O nome certo


      «Era um “media mujahideen” (combatentes da luta armada pela jihad), descreve o Ministério Público que a partir de uma investigação da Unidade Nacional de Contraterrorismo da PJ, em dezembro do ano passado, o acusou de quatro crimes de terrorismo: dois incitamentos e duas glorificações» («Filho de testemunhas de Jeová tornou-se terrorista islâmico em cadeia britânica», Tiago Rodrigues Alves, Jornal de Notícias, 14.02.2026, p. 16). 

      Parece-me que é a primeira vez que me deparo com esta tipificação, que não é a da lei. Há legislação especificamente contra o terrorismo, mas o tipo geral do Código Penal, o artigo 298.º, «Apologia pública de um crime», chega e sobra.

[Texto 22 451]

O conceito de «libfix»

Com o pénis de fora


      Há palavras que se libertam. Ou melhor: há pedaços de palavras que, a certa altura, ganham vida própria. A linguística anglófona chama-lhes libfixes, abreviatura de liberated affixes, «afixos libertados». Um libfix nasce quando um segmento que fazia parte de uma palavra concreta é reanalisado pelos falantes como se fosse um afixo autónomo, com significado próprio e capacidade de gerar novas formações. Um dos exemplos mais claros é -gate. Tudo começa com o complexo imobiliário Watergate, em Washington. O nome próprio do edifício deu origem, por metonímia, ao escândalo político que levou à demissão de Richard Nixon, no chamado Watergate. Desde então, «Watergate» deixou de ser apenas um nome de lugar (microtopónimo): passou a significar «escândalo político». Num segundo momento, deu-se a reanálise decisiva: os falantes começaram a interpretar -gate como se fosse um sufixo com o valor de «escândalo». E assim nasceu um libfix. Multiplicaram-se doravante as formações analógicas: basta juntar -gate a um nome para sugerir polémica pública, muitas vezes com intenção irónica ou sensacionalista. O recentíssimo Penisgate inscreve-se exactamente nesse modelo: base nominal + -gate = «escândalo relacionado com X». Já ninguém pensa no edifício de Washington; o segmento final funciona como marcador quase automático de escândalo mediático. Também tivemos os nossos: estou a lembrar-me, por exemplo, do famoso Galpgate. Temos aqui um caso exemplar de como a língua funciona por analogia e reinterpretação. Um nome próprio transforma-se em designação de acontecimento; um fragmento desse nome emancipa-se; e esse fragmento passa a integrar o arsenal produtivo dos falantes. É assim que a história, política e linguística, deixa marcas duradouras no léxico.

[Texto 22 440]

Conversa da treta

Nunca mais acaba esta merda


      «Aos 79 anos, Trump é o Presidente mais velho a entrar na Casa Branca e deverá ser o mais idoso a sair, roubando o recorde a Joe Biden. O antecessor saiu com nítidos sinais de declínio físico e combate agora um cancro da próstata avançado. O secretismo em torno da sua saúde foi amplamente criticado» («De Washington a Bruxelas pergunta-se se Donald Trump está bem», Pedro Guerreiro, Público, 2.02.2026, p. 20). 

      Cá estão eles com a linguagem bélica em relação ao cancro. Talvez queiram que se conclua que só morrem os fracos, os que, maus soldados, não souberam combater. Oh, por favor, acabem com esta conversa.

[Texto 22 422]

O que vale a nossa língua

Alguém teve juízo


      «As faculdades pertencentes à Universidade Nova de Lisboa terão de alterar os seus nomes e voltar a ter as designações em português. Esta decisão foi tomada pelo reitor, Paulo Pereira, num despacho assinado no final de janeiro» («Reitoria da Nova obriga faculdades a alterar nomes para português», Nascer do Sol, 11.02.2026, 16h03).

      Inacreditável é isto ter sido sequer alguma vez permitido. Aliás, por lei, devia ser obrigatório as empresas portuguesas terem nome em português. Se querem ter nome noutra língua, emigrem.

[Texto 22 409]

É «maciço» a palavra certa

Pensaram, mas mal


      Talvez o melhor argumento para levar um tradutor a optar por maciço em detrimento de massivo seja convidá-lo a consultar o Dicionário Houaiss. É nele que encontrará — Heu me miserum!  — o sentido figurado «dado, feito ou produzido em grande quantidade; intenso ‹dose maciça de um remédio› ‹bombardeio maciço› ‹propaganda maciça›», que não vemos registados nos dicionários da mísera Portugalândia.

[Texto 22 393]

Como se escreve por aí

Fica para a próxima


      «Como se previa, António José Seguro ganhou por larga margem a segunda volta. Os cidadãos escolheram inequivocamente o candidato eivado dos valores democráticos, que declarou respeitar a Constituição, tendo rejeitado o outro que, amiúde, tem contrariado esses valores e quer mudar a nossa lei fundamental» («E agora, António José?», Carlos Fiolhais, Correio da Manhã, 10.02.2026, p. 2).

      O Prof. Carlos Fiolhais esqueceu-se de dar uma olhadela nos dicionários, o que nunca é avisado. Veria que em alguns, como o da Porto Editora, as três primeiras acepções têm um sentido negativo («1. que apresenta eiva ou mancha;  2. que está contaminado; 3. que está viciado, corrompido», enquanto noutros, como o tão decantado Houaiss, apenas encontraria acepções negativas («infectado, contaminado»). Concluiria forçosamente que não era o melhor termo no contexto. 

[Texto 22 388]

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