Léxico: «zeptómetro»

Tudo a postos

      «Apelidada de ‘zeptoverso’, cientistas da Universidade de Cambridge descobriram a menor escala da natureza alguma vez explorada. Os sinais de que existe matéria 100 mil milhões de vezes menor do que um átomo foram recolhidos quando realizavam experiências em que átomos colidiam para se fragmentar, permitindo descobrir o que têm no interior» («‘Zeptoverso’: cientistas descobriram a menor escala da natureza alguma vez explorada», Expresso, 3.11.2026, 17h58). 
      Corresponde ao inglês zeptoverse. O termo aportuguesado foi também utilizado na imprensa brasileira, nomeadamente na Folha de S. Paulo, na Veja e na Superinteressante. Sabemos perfeitamente o que significa e até poderíamos propor uma definição: «FÍSICA domínio de fenómenos e interacções subatómicas associados a escalas de comprimento da ordem do zeptómetro (10⁻²¹ metros), cuja investigação poderá revelar partículas ou fenómenos ainda desconhecidos». Mas sejamos prudentes: ainda é cedo para saber se o vocábulo se consolidará no uso e, portanto, se justificará a sua inclusão nos dicionários. Falo dele, sobretudo, por causa de outra lacuna, bem mais conspícua, do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: zeptómetro. Ao contrário de «zeptoverso», não estamos perante uma designação recente de divulgação científica, mas uma unidade de comprimento formada a partir de um prefixo do Sistema Internacional de Unidades, aprovado em 1991. 
      Assim, proponho ➠ zeptómetro nome masculino METROLOGIA unidade de comprimento do Sistema Internacional de Unidades equivalente à milésima parte de um trilionésimo de metro (10⁻²¹ m); símbolo: zm.
[Texto 23 818]

Como se escreve por aí

Olhos novos e olhos velhos

      Por vezes, o adjectivo pode ir cair no pior lugar da frase, e não será por excesso de ponderação, antes por pouca ou nenhuma: «Meg equilibrou o pó compacto no colo e começou a testar rapidamente os produtos para os olhos novos – gotas e rímel rico em péptidos de uma empresa de cosméticos selvagens – e terminou a pulverizar uma camada de sombra branca no canto de cada olho. Iria ajudá-la a ter um ar mais desperto e os olhos mais abertos» (Crime no Expresso de Natal, Alexandra Benedict. Tradução de Nuno Carvalho e revisão de Maria Ferro. Lisboa: Guerra & Paz, 2023, p. 41). E mesmo o «pó compacto», enfim... Mas já falaremos dele.
[Texto 23 817]

Léxico: «rilheira»

Esta é outra

      «Foi Camilo hospedar-se em casa duma mulherzinha de Viela, a um quarto de hora da Granja pelo caminho velho, caminho aqui e além torto e angustioso, sulcado em seu saibro e até na laje pelas rilheiras dos carros da lavoira» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 159). 
      Registas «rilheira», Porto Editora, sim, mas é o molde de ferro dos ourives, quando aqui é o sulco que as rodas dos carros deixam nos caminhos, ou seja, o rodado. E neste sentido encontra-se muitíssimo mais, sobretudo em traduções. Por vezes, com a ajuda de alguém, os tradutores chegam lá.
[Texto 23 816]

Definição: «absinto | absintismo» Léxico: «tujona»

Falhas e faltas

      «L’histoire raconte que l’idée de faire macérer l’Artemisia absinthium dans de l’alcool revient à une figure locale, la Mère Henriod. Raphael Gasser, directeur de la Maison de l’absinthe, note qu’il n’y avait pas de réelle exclusivité. D’autres artisans en faisaient de même. [...] L’absinthisme est traité comme un syndrome clinique en soi. Le vent de la prohibition se lève. Un familicide survenu à Commugny (VD) en 1905 et attribué à la thuyone (la molécule signature de l’absinthe) achève de diaboliser l’eau-de-vie» («Ce Pernod que la fée verte a offert à la France», Stéphane Gachet, Le Temps, 8.08.2026, p. 13). 
      A definição de «absinto» da Porto Editora, de todos os dicionários, contém várias imprecisões, erros e lacunas. O primeiro erro é desde logo, quanto à bebida, afirmar-se que é feita com folhas, quando são usadas folhas basais, sumidades floridas com algumas folhas, ou uma mistura destes órgãos, secos, inteiros ou cortados. Primeiro, mas não último. Assim, proponho ➠ absinto 1. BOTÂNICA (Artemisia absinthium) planta herbácea perene da família das Asteráceas, nativa da Europa, da Ásia temperada e do Norte de África, muito aromática e de sabor intensamente amargo, com caules ramificados, folhas verde-acinzentadas profundamente recortadas e pequenos capítulos florais amarelos, cujo óleo essencial contém tujona, usada em preparações medicinais e no fabrico de bebidas espirituosas; alosna, losna, sintro; 2. bebida espirituosa de elevado teor alcoólico, tradicionalmente obtida pela maceração e destilação de absinto, anis-verde, funcho e outras plantas aromáticas, de sabor predominantemente anisado, incolor ou verde e com teor variável e legalmente limitado de tujona. 
      Na definição de «absintismo», o problema é outro, e mais grave. A segunda acepção apresenta como facto uma entidade clínica cuja existência autónoma está desacreditada. No século XIX, atribuíam-se à tujona do absinto convulsões, alucinações, perturbações mentais e outros efeitos específicos. Porém, não há provas de que o absinto histórico contivesse tujona em quantidade suficiente para produzir semelhante quadro. Assim, proponho ➠ absintismo nome masculino 1. consumo habitual e excessivo de absinto; 2. HISTÓRIA DA MEDICINA conjunto de perturbações nervosas, psíquicas e digestivas outrora atribuído especificamente ao consumo excessivo de absinto, mas hoje considerado manifestação da intoxicação alcoólica aguda ou crónica, e não uma doença distinta do alcoolismo. (Quanto à etimologia, vem do francês absinthisme, «idem».) 
      E, finalmente, a lacuna, ➠ tujona nome feminino QUÍMICA cetona monoterpénica bicíclica (C₁₀H₁₆O), existente principalmente sob as formas alfa e beta, que ocorre nos óleos essenciais de plantas como a tuia, o absinto e a salva e que, em doses elevadas, actua sobre o sistema nervoso central, podendo provocar convulsões. (Quanto à etimologia, vem do francês thuyone, «idem», derivado de thuya, «tuia».)

[Texto 23 815]

Léxico: «menigrepo»

Talvez não precisemos de emigrar

      «No dia seguinte, tiveram pro forma de se estremar. Os menigrepos no entanto haviam estado a esgrelhar, com sete olhos, para eles, e os soalheiros falaram da continuação do escândalo» (O Romance de Camilo, Vol. 3, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 46). Está, pois, mas só em dicionários e vocabulários do Brasil.
[Texto 23 814]

Definição: «chicha» | Léxico: «milho-roxo»

Não têm grande ajuda, diga-se

      «Na origem da situação de extrema violência esteve, sabe o CM, o consumo excessivo, por parte dos dois reclusos, de chicha. Trata-se de uma espécie de bagaço, feita de forma artesanal com diversas frutas» («Espanca companheiro de cela após beber chicha», Miguel Curado, Correio da Manhã, 4.11.2026, p. 15).
      É claro que o jornalista escreve de outiva: o bagaço é aguardente destilada, e «feita com diversas frutas» descreve uma fermentação. Ou o jornalista não sabe o que é bagaço, ou não sabe como se faz a chicha. Tudo indica que recolheu a informação em segunda mão e lhe juntou uma comparação de efeito. Pode ter colhido a informação no dicionário da Porto Editora: «bebida alcoólica de fabrico artesanal, obtida pela fermentação de determinados cereais, raízes, sementes (milho, mandioca, etc.) ou frutas». Só que lhe falta uma acepção, e, sem ela, o dicionário não serve precisamente quem mais o consulta por causa desta palavra. São bebidas diferentes, a da América do Sul e — com este mesmo nome — a das cadeias portuguesas e espanholas, como as da América hispânica. 
      De volta à definição da Porto Editora, diga-se que apresenta várias deficiências. Desde logo, restringe indevidamente o vocábulo a uma bebida alcoólica, quando existem variedades não alcoólicas e não fermentadas, como a chicha morada, preparada com milho-roxo. Também a referência ao fabrico artesanal é demasiado restritiva, pois a bebida é também produzida comercialmente. A enumeração das matérias-primas é confusa, misturando cereais, raízes e sementes, com exemplos cuja correspondência com essas categorias não é esclarecida. Falta ainda uma indicação geográfica que permita situar esta bebida tradicional da América Central e do Sul. Mais importante ainda, o dicionário omite a acepção documentada na imprensa portuguesa e na gíria prisional: a bebida alcoólica que os reclusos produzem clandestinamente nas cadeias, por fermentação de cascas de fruta, açúcar, pão ou outros alimentos. Esta acepção, também associada à grafia xixa, justifica um registo autónomo. Por último, a nota etimológica apresenta como certa uma origem que permanece discutida. Será mais prudente indicar que o vocábulo provém do castelhano chicha, de origem ameríndia, talvez da língua de Cueva, falada no território do actual Panamá. 
      Assim, proponho ➠ chicha nome feminino 1. bebida tradicional da América Central e do Sul, geralmente fermentada e alcoólica, obtida a partir de milho ou de outros cereais, de raízes (como a mandioca) ou de frutos; designa também bebidas semelhantes não fermentadas, como a chicha morada, de milho-roxo; 2. gíria prisional bebida alcoólica que os reclusos produzem clandestinamente nas cadeias, por fermentação de cascas de fruta, açúcar, pão ou outros alimentos. (Do castelhano chicha, de origem ameríndia, talvez da língua de Cueva, Panamá.)
[Texto 23 813]

Léxico: «gabaérgico»

Tudo pela ciência

      «Bárbara Mota, investigadora da FMUP e primeira autora do estudo, explica ao PÚBLICO que o que a equipa de investigação observou foi que “o consumo crónico de dietas hipercalóricas, ou seja, dietas que são altas em açúcar refinado e gorduras, é capaz de induzir neuroinflamação e provocar alterações no sistema gabaérgico [que afecta o neurotransmissor ácido gama-aminobutírico, ou GABBA, na sigla em inglês], que é o sistema inibitório do cérebro”» («Estudo português mostra como dietas hipercalóricas prejudicam o cérebro adolescente», Filipa Almeida Mendes, Público, 4.08.2024, p. 22).
[Texto 23 812]
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P. S.: Não registaste «folha de couve», Porto Editora?! Qual a dúvida? Até no brasileiro Dicionário de Plantas, de Wagner Azevedo (Foz do Iguaçu: Editora Moan, 2024, p. 58), vejo, na entrada «couve», «folha de couve refere-se, em Portugal, a jornal reles».

Definição: «caranguejo-azul» | Léxico: «navalheira-azul»

Comestíveis, graças a Deus

      «On se pince: le crabe bleu américain est tellement invasif que même le WWF recommande d’en manger. Ça tombe bien, Callinectes sapidus est peut-être bleu fluo, mais c’est un excellent comestible. Son nom latin signifie d’ailleurs “bon nageur savoureux”» («Le WWF demande de manger ces crabes bleus qui prolifèrent en mer», Jocelyn Rochat, Le Matin Dimanche, 9.08.2026, p. 23). 
       Está no dicionário da Porto Editora, sim senhor, mas tem erros e lacunas: «ZOOLOGIA (Callinectes sapidus) caranguejo grande e comestível, da família dos Portunídeos, natural da costa atlântica da América do Norte mas presente em Portugal (onde é considerado espécie invasora), pode atingir mais de 20 centímetros de comprimento e caracteriza-se por apresentar pleópodes de margens azuladas (macho); caxangá, siripuã». Tem pleópodes de margens azuladas? Os pleópodes são pequenos apêndices abdominais, geralmente recolhidos sob o abdómen. A coloração azul característica observa-se sobretudo nos quelípodes, isto é, nas patas terminadas em pinça, particularmente nos machos. E o erro repete-se, pois então, em três verbetes: caranguejo-azul, caxangá e siripuã. E só não é em quatro porque o dicionário não regista «navalheira-azul», termo também muito usado para designar esta espécie. Tem mais erros, mas passemos à principal lacuna, que é não se indicar a característica dos Portunídeos mais imediatamente reconhecível: o último par de patas é achatado, em forma de remo, e adaptado à natação. 
      Tudo visto, proponho ➠ caranguejo-azul ZOOLOGIA (Callinectes sapidus) crustáceo decápode comestível, da família dos Portunídeos, de carapaça larga e achatada, com um longo espinho de cada lado, quelípodes azulados, sobretudo no macho, e último par de patas achatado, em forma de remo; pode ultrapassar 20 centímetros de largura de carapaça; originário da costa atlântica americana, do Canadá à Argentina, encontra-se introduzido na Europa e é considerado espécie invasora em Portugal; cavalheira-azul, caxangá, siripuã.
[Texto 23 811]

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P. S.: Se não podemos vencê-los, comamo-los. Não é assim que se costuma dizer? O caranguejo-azul, anotem, é uma das raras espécies invasoras com valor culinário. Ainda agora quando estive em Génova o vi nas ementas dos restaurantes: spaghetti al granchio blu.

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