Léxico: «síndrome de Hulk»

Passar-se dos carretos


      «A sessão terminou antes de confessar o crime – o que irá fazer, segundo o advogado de Defesa. Pedro Pestana vai, no entanto, argumentar que o jovem sofre de transtorno explosivo intermitente, uma condição psiquiátrica caracterizada por episódios graves de agressividade desproporcionais ao evento que os desencadeia conhecido vulgarmente com ‘síndrome de Hulk’» («Viúva empurra culpa para amante, defesa alega ‘sindrome de Hulk’», João Carlos Rodrigues, Correio da Manhã, 5.05.2026, p. 14). 

      Ora, ora, e não sofremos todos? Só que, se formos minimamente sãos de espírito, travamos a tempo. Mas quanto à designação da síndrome, sim, é de uso popular, mas usada na imprensa e até em tribunal. A correspondência unívoca com transtorno explosivo intermitente é que é imprudente, pelo que proponho ➜ síndrome de Hulk PSIQUIATRIA designação popular do quadro caracterizado por episódios súbitos de agressividade extrema, desproporcionada e descontrolada, podendo envolver violência grave contra terceiros, frequentemente seguida de exaustão ou perturbação da memória; aproxima-se de descrições clínicas como a síndrome de amoque ou o transtorno explosivo intermitente, sem com estas corresponder de forma rigorosa.

[Texto 22 932]

Léxico: «termosselado»

Mais um que fica selado


      «Apesar de haver pratos sazonais como as feijoadas, a base de tudo é a sopa, que está a ser triturada aqui mesmo ao lado — a favorita do chef é a Sopa da Pedra. Da panela (mais alta do que nós) sai uma varinha mágica proporcional. Ao lado, as sopas são embaladas e termosseladas por um robô, como aquele que sela as embalagens das refeições que seguem para a zona de expedição» («Os supermercados querem ser os novos restaurantes?», Inês Duarte de Freitas e Rita Caetano, Público, 2.05.2026, 8h44).

[Texto 22 931]

Léxico: «peixe-capitão»

É peixe, capitão


      «Sem hesitar, peço um peixe-capitão fumado, acompanhado por asas de raia com molho de alcaparras» («Na rota da escravatura», Tiago de Matos Fernandes, «Revista E»/Expresso, 17.04.2026, p. 31). 

      No caso, porque varia, já que se dá o mesmo nome a outras espécies noutras zonas do globo, é ➜ peixe-capitão ZOOLOGIA designação comum, em países da África Ocidental, de peixes marinhos do género Lethrinus (família Lethrinidae), de corpo robusto e hábito costeiro, muito utilizados na alimentação, frequentemente consumidos fumados.

[Texto 22 930]

Léxico: «donzelinho | samarrinho»

A casta e o vinho


      «A zona, estando colada ao Douro, tem com ele uma grande cumplicidade de castas e métodos de produção, havendo assim uma proximidade entre os vinhos produzidos nestas terras altas. Já em 1532, Rui Fernandes, na sua “Descrição do Terreno em Redor de Lamego Duas Léguas”, nos dá informações essenciais sobre os vinhos na época, na zona de Lamego mas também no Douro. Muitas das castas de que hoje falamos já vêm aqui citadas, como bastardo, malvasia, castelão, verdelho, terrantez, donzelinho, samarrinho, mourisco, ferral e felgosão (que creio ser a que hoje chamamos Folgosão)» («Para uma história do espumante em Portugal», João Paulo Martins, «Revista E»/Expresso, 24.04.2026, p. 34).

[Texto 22 929]

Definição e etimologia: «hantavírus»

Não tão simples


      «O Ministério dos Negócios Estrangeiros confirma, através da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, que há um português a bordo do navio de cruzeiro, retido ao largo de Cabo Verde devido a um surto de infeção respiratória a bordo. [...] Cabo Verde recusa a entrada do navio, onde três pessoas morreram e há outras duas infetadas com hantavírus, um vírus transmitido por roedores» («Há um português a bordo do cruzeiro onde morreram 3 pessoas», Anabela Góis e Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 4.05.2026, 13h41). 

      É a oportunidade para actualizar e melhorar a definição e a etimologia. Assim, proponho ➜ hantavírus PATOLOGIA grupo de vírus da família Hantaviridae, do género Orthohantavirus, cujo reservatório natural são roedores, transmitido ao ser humano sobretudo por inalação de aerossóis contaminados com excreções (urina, fezes, saliva) desses animais; raramente, e apenas em algumas estirpes (nomeadamente o vírus Andes), pode ocorrer transmissão entre humanos; pode provocar infecções graves, designadamente a febre hemorrágica com síndrome renal e a síndrome pulmonar por hantavírus, caracterizadas por febre, aumento da permeabilidade capilar e atingimento renal ou respiratório.  

      Vem do inglês hantavirus, «idem», a partir do topónimo Hantan (rio da península da Coreia), onde o vírus foi identificado durante a Guerra da Coreia (1950-1953).

[Texto 22 928]

Definição: «autólise»

E não queremos isso


      «Ainda que as principais inovações tenham sido, como vimos, no século XIX, durante o século XX houve avanços científicos que ajudaram ao apuro da técnica de produção. O saber sobre o assunto é um work in progress que entra pelo século XXI. Por exemplo, ainda não há conclusões definitivas sobre o uso da carica ou de uma rolha com grampo para conservar a garrafa fechada durante o estágio, atendendo à permeabilidade (entrada de oxigénio) de um e outro vedante; a técnica de contagem de leveduras que ajuda à melhor definição da bolha do vinho; o fenómeno da autólise das leveduras — que ocorre quando as células da levedura morrem e as suas próprias enzimas começam a quebrar as estruturas celulares e a libertar compostos aromáticos» («Para uma história do espumante em Portugal», João Paulo Martins, «Revista E»/Expresso, 24.04.2026, p. 34). 

      Um leitor que vá do artigo para a definição no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora concluirá inevitavelmente que um dos dois está incorrecto: «BIOLOGIA destruição espontânea dos tecidos orgânicos». Está de tal forma incompleto, que só pode gerar dúvidas no leitor leigo que consulta o dicionário. 

      Para evitar isso, proponho ➜ autólise BIOLOGIA degradação de células ou tecidos por acção das enzimas próprias da célula, geralmente após a morte celular ou em condições que comprometem a sua integridade, conduzindo à desagregação dos seus constituintes.

[Texto 22 927]

Léxico: «ané | fante»

Isto interessa-nos


      «Do lado de cá, nas margens de Aného, um braço do rio antecipa-se à foz e, sem pedir licença, faz uma incisão na linha costeira, para se encontrar com o Atlântico. Foi precisamente ali que, no final do século XVII, os anés, originários da antiga Costa do Ouro, procuraram refúgio dos ataques do Império Denkyira, cujos grupos armados procuravam sequestrá-los, fosse para os escravizar, fosse para os vender a mercadores europeus, através de intermediários da etnia fante. Sendo originários do local onde, 200 anos antes, os portugueses haviam construído o Castelo de São Jorge da Mina (no atual Gana), os anés passaram a integrar o conjunto de povos chamados Mina» («Na rota da escravatura», Tiago de Matos Fernandes, «Revista E»/Expresso, 17.04.2026, p. 30).

      Quanto a fante, o Houaiss indica que também tem a variante fânti, o que devemos ter em conta.

[Texto 22 926]

Léxico: «executividade | pré-executividade»

Já nos esquecíamos deste


      «Há, contudo, uma distinção importante a fazer entre as disposições que produzirão efeitos imediatos e aquelas que dependem de regulamentação para ter plena executividade» («Com nova Lei da Nacionalidade, Portugal reescreve o futuro de muitos imigrantes», Amanda Rattes, Público, 4.05.2026, 9h30).

[Texto 22 925]

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