Definição: «enclave» Léxico: «semienclave»

Mais rigorosamente


      «Cerca de 73.500 migrantes já saíram de Ceuta para Marrocos. Fontes policiais disseram que este número de saídas poderá incluir pessoas que entraram na avalanche que se precipitou sobre a fronteira com Marrocos do enclave espanhol no norte de África, entre quinta e sexta-feira, e outras que já estavam desde dias anteriores em Ceuta, uma cidade onde vivem pouco mais de 83 mil pessoas» («Número de vítimas mortais em Ceuta sobe para 72», Rádio Renascença, 2.08.2026, 10h10). 
      A ser alguma coisa, seria «exclave espanhol no Norte de África». Mas não: se tem uma frente aberta para o mar, será (adoptando aqui o ponto de vista do Estado em que se situa) um ➠ semienclave GEOGRAFIA POLÍTICA território que, embora quase inteiramente rodeado por território alheio, possui uma frente marítima, não constituindo, por isso, um enclave propriamente dito. 
      Donde decorre, pois bem, que a definição de «enclave» nos nossos dicionários também não está correcta. Optando (como faz a Porto Editora) por duas acepções, será mais assim ➠ enclave 1. GEOGRAFIA POLÍTICA território pertencente a um Estado ou a uma divisão político-administrativa que se encontra inteiramente rodeado por território alheio; 2. Estado soberano cujo território se encontra inteiramente rodeado pelo território de outro Estado. 
      Mas não tem necessariamente de se dividir por duas acepções, porque isto é rigorosamente equivalente  enclave GEOGRAFIA POLÍTICA território que, constituindo a totalidade de um Estado soberano ou pertencendo a outro Estado ou divisão político-administrativa, se encontra inteiramente rodeado por território alheio, sem abertura para o mar.

[Texto 23 395]

Léxico: «superdotação»

Primeira regra: indagar da família


      «Pais e especialistas consideram um avanço a aprovação da lei que criou uma política nacional para alunos com superdotação ou altas habilidades, mas apontam para uma série de lacunas no texto e temem que as novas regras não saiam do papel» («Pais veem avanço, mas temem que lei para superdotados fique só no papel», Laura Mattos, Folha de S. Paulo, 1.08.2026, p. A35). 
      Quem é que dicionariza «superdotado», o identifica como termo corrente no Brasil, mas se esquece de acolher «superdotação»? 

[Texto 23 394]

Léxico: «acontecedeiro»

Ainda teremos de emigrar


      «Isto é cousa natural/ e muito acontecedeira;/ se nunca fora outra tal,/ disséramos que era mal/ por serdes vós a primeira.» Rubena, filha de um clérigo, engravidara de um cónego e procurava esconder a gravidez. A fala ocorre quando já está com as dores do parto. Aparece na Comédia de Rubena, de Gil Vicente, representada provavelmente em 1521, perante o futuro D. João III e é citada, por exemplo, por Camilo na Maria Moisés. Encontrá-la apenas em dicionários brasileiros é que me deixa apopléctico. Assim, proponho ➠ acontecedeiro adjectivo arcaico que acontece facilmente ou com frequência; comum, frequente.

[Texto 23 393]

Definição: «condomínio»

Nunca pessoal


      «L’Antarctique étant un condominium, c’est-à-dire un territoire sur lequel plusieurs puissances conviennent de partager une souveraineté, aucune institution n’est habilitée à adopter un drapeau officiel. On utilisa parfois pour le représenter un drapeau blanc et d’autres propositions émergèrent mais le plus souvent, c’est l’emblème du Traité sur l’Antarctique de 1959, un drapeau bien officiel adopté depuis septembre 2002, qui est utilisé, figurant une carte du continent en blanc sur fond bleu marine ainsi que les méridiens convergeant au pôle Sud» («Antarctique», Libération, 30.07.2026, p. VIII).
      Não escolheram muito bem o exemplo, já que a Antárctida é descrita por alguns autores como um condomínio de facto, por causa da administração internacional concertada, mas não constitui propriamente um condomínio em que diversos Estados partilhem a soberania. Serve, porém, como mero pretexto para dizer que a definição de «condomínio», nesta acepção, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora padece de vários males, e o primeiro é afirmar que pode ser exercido por uma pessoa ou nação. Não pode. Por uma pessoa não pode ser, e só pode sê-lo por um Estado, não uma nação. 
      Assim, proponho ➠ condomínio DIREITO INTERNACIONAL exercício conjunto da soberania por dois ou mais Estados sobre o mesmo território; território submetido a esse regime.

[Texto 23 392]

Léxico: «porreirismo»

Marca nacional


      «De acordo com a narrativa apresentada por Luís Neves, o então director financeiro da PJ estava a fiscalizar uma obra executada pelo empreiteiro de Barcelos que depois fez as obras na casa de Luís Neves, e recebeu um telefonema da Armada a dizer que o atrelado tinha de sair das instalações militares onde estava. Então, surgiu um milagre, que só pode ser explicado pelo porreirismo, pelo desenrascanço e pelo chico-espertismo portugueses: o empresário ofereceu-se para guardar o atrelado e os bidões na sua empresa pro bono, sem custos para o Estado» («A insensibilidade e a ingenuidade políticas de Luís Neves», São José Almeida, Público, 1.08.2026, p. 15).

[Texto 23 391]

Definição: «romanesco»

Variedade diatópica


      «Direte: ma se Benito Mussolini odiava il romanesco! Vero. Non solo il romanesco: tutti i dialetti» («La resistenza dei dialetti. A scuola», Gian Antonio Stella, Corriere della Sera, 1.08.2026, p. 40). 
      A Porto Editora define-o como «dialecto social do povo de Roma», ou seja, o social dialect de alguma linguística de tradição anglo-saxónica, mas nós sempre dissemos sociolecto. Não é um sociolecto: o seu critério identificador é territorial, Roma, portanto é uma variedade diatópica, não diastrática. Tanto assim é que o Houaiss até o identifica, talvez também com exagero, com o Trastevere. Hoje em dia, o romanesco e os seus traços atravessam diferentes grupos sociais, formando um contínuo com o italiano regional de Roma. 
      Tudo visto, proponho ➠ romanesco LINGUÍSTICA dialecto de Roma que, por influência do toscano, se tornou muito próximo do italiano comum. 
      A etimologia que vemos no dicionário da Porto Editora também é enganadora, porque dá a entender que o termo se formou na nossa língua. É antes do italiano romanesco, «idem», derivado de romano, «romano», + -esco.

[Texto 23 390]

Definição e etimologia: «oratória | oratório»

Convém é não misturar as duas


      «O meu principal tema de estudo é a história da música na corte portuguesa do século XVIII, com um enfoque específico nos géneros musicais sacros e dramáticos, como as oratórias. Estas obras eram apresentadas na corte, compostas por compositores da corte portuguesa e de outras partes da Europa, e tinham como objetivo entreter, mas também, de certa forma, edificar, contando histórias religiosas e refletindo a atmosfera religiosa da corte [afirma, em entrevista, Danielle M. Kuntz]» («“D. Maria l promoveu música onde se destacavam governantes femininas como Ester ou outras mulheres da Bíblia”», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 3.08.2026, p. 24). 
      Que a Porto Editora define assim: «LITERATURA, MÚSICA peça dramática, poema ou larga composição vocal e instrumental com coros e solistas, de assunto religioso, bíblico ou hagiográfico». Muito melhor está no Houaiss, mas que também não é exemplar. Uma solução deste, porém, devia logo à partida ser seguida pela Porto Editora: em «oratória» remeter simplesmente para «oratório». Neste verbete, uma das acepções diria mais ou menos isto ➠ oratório MÚSICA composição vocal e instrumental extensa, geralmente para solistas, coro e orquestra, que combina elementos dramáticos, narrativos e contemplativos, se baseia tradicionalmente num texto de assunto religioso e é, em regra, executada sem representação cénica; oratória. 
      Quanto à etimologia, deve ter-se em conta que «oratória» e «oratório» têm origens imediatas distintas nas acepções fundamentais. A primeira alteração é eliminar definitivamente o falso «idem» da Porto Editora e explicar a evolução sem atribuir ao latim um género musical que só surgiu muitos séculos depois. Ficaria assim ➠ do latim oratorĭa- [ars], «arte oratória»; na acepção musical, ver oratório
      Em «oratório», a etimologia é ➠ do latim oratorĭu-, «lugar destinado à oração»; na acepção musical, do italiano oratorio, designação proveniente dos exercícios musicais e devocionais realizados nos oratórios romanos a partir do século XVI.

[Texto 23 389]

Léxico: «cinta-liga»

Em que se fala de Betty Boop


      «Em dois anos, a jovem branca de olhos grandes ficou completamente humana. Enfiada num vestido preto, com cinta-liga e cabelo curto, era uma flapper, como chamavam a mulher sexualmente livre, que sabia se divertir: beber, fumar, dirigir carros, o que fosse. Com o furacão [do Código] Hays, Boop foi ficando mais recatada, perdendo o emprego de pin-up —e a graça» («Betty Boop e Cab Calloway inspiraram coquetel», Daniel de Mesquita Benevides, Folha de S. Paulo, 31.07.2026, p. C13). 
      Tem razão o jornalista: flapper era então o nome dado à jovem mulher que, pela indumentária e pelo comportamento ousado e independente, desafiava as convenções sociais da época. O Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, contudo, apresenta esta 7.ª acepção de flapper: «coloquial (anos 20) rapariga nova, rapariga adolescente, garota». A definição mistura dois sentidos historicamente distintos: o mais antigo e geral, de «rapariga adolescente», e o que a palavra adquiriu nos anos 20, como designação de um tipo social feminino caracterizado pela ruptura com as convenções. A Porto Editora pode acolher ambos — ou apenas o segundo, de longe o mais conhecido —, mas deve distingui-los e defini-los correctamente. O do artigo é este flapper HISTÓRIA jovem mulher da década de 1920 que, pela indumentária e pelo comportamento independente e ousado, desafiava as convenções sociais da época. 
      Mas voltemos, antes que se nos varra da memória, a ➠ cinta-liga Brasil VESTUÁRIO peça de roupa interior, constituída por uma faixa que se ajusta à cintura ou às ancas e da qual pendem tiras elásticas, geralmente reguláveis e terminadas em presilhas, destinadas a sustentar meias até à coxa; cinto de ligas.

[Texto 23 388]

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