A melhor profissão do mundo

Ficção é ficção

      «Quando a figura do lector de tabaquería nasceu, em 1865, só em Havana haveria mais de 500 fábricas de charutos com 15 mil operários, 85% dos quais analfabetos, escreve Bernardo Gutiérrez, na revista Qué Leer em 2005. É este jornalista que lembra que Compay Segundo, o mítico embaixador do son, que morreu em 2003, foi operário nas fábricas de tabaco da H. Upmann e da Montecristo por mais de 40 anos. Segundo dizia, tivera a melhor profissão do mundo, a única em que era possível ler enquanto se trabalhava. Hoje serão entre 250 e 300 os leitores nas fábricas de charutos cubanas e a sua função mantém-se inalterada» («Em Cuba, ler jornais, Dumas e Balzac dá direito a ser património nacional», Lucinda Canelas, Público, 31.12.2012, p. 22).
      Ainda recentemente li um romance em que se afirmava que já não havia leitores nas fábricas de charutos cubanas. Ah, a propósito: no Brasil, usa-se a palavra charutaria para designar a fábrica de charutos.
[Texto 2471]
Etiquetas
edit

«Maré-viva»?

Contribui para isso

      «Uma baleia deu ontem à costa no areal da Figueira da Foz, na zona da chamada praia do Relógio, morta e já em estado de decomposição. Segundo o comandante do porto, Rui Amado, o animal terá sido arrastado para o areal “por ação das marés-vivas” destes dias, permanecendo junto à água. A zona onde o animal se encontra foi delimitada por meios da Polícia Marítima para que a Sociedade Portuguesa de Vida Selvagem pudesse proceder a análises antes da remoção do animal» («Baleia morta deu à costa na praia da Figueira da Foz», Público, 31.12.2012, p. 11).
      Já a tínhamos visto aqui sem hífen, mas neste caso o jornalista entendeu que a devia grafar à semelhança de maré-alta e maré-cheia. Continua ausente dos dicionários gerais da língua, o que muito contribuirá para estas hesitações e significado preciso.
[Texto 2470]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «gaimira»

Inventada?

      «“É. As eleições de 69 mobilizaram muita gaimira que nunca tinha experimentado acção política. Chamavam pessimista a quem prevenia que o marcelismo tinha a vitória garantida, programadamente falseada — tu sabes. Depois houve um murchar de pichas que sei lá. Agora está a aparecer alguma malta nova gira”» (Square Tolstoi, Nuno Bragança. Lisboa: Assírio e Alvim, 1981, p. 74).
      Esta nunca a vi antes, nem sequer a encontrei em nenhum dicionário. Não parece, por outro lado, invenção de Nuno Bragança. Algum leitor a ouviu ou leu?
[Texto 2469]
Etiquetas
edit

Léxico: «bia»

Todos incompletos

      «Alguém piparotou uma bia, apontando à lâmpada e não acertando nela» (Square Tolstoi, Nuno Bragança. Lisboa: Assírio e Alvim, 1981, p. 24). Não está nos dicionários, não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que apenas regista o também coloquial «beata». Como também acolhe o sinónimo «prisca», mas não a variante «pirisca». «Obrigado assim pelas circunstâncias, Teixeira de Pascoaes esmagou no cinzeiro a pirisca quase no fim, acendeu um cigarro mais, e perguntou, “São versos o que vai dedicar a São Miguel?”» (Tiago Veiga, Uma Biografia, Mário Cláudio. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 304).
[Texto 2468]
Etiquetas ,
edit

Tradução: «fact-checker»

Mas muito mais

      «Tanto mais que o jornal médio português — por causa da crise, dos despedimentos e de maus costumes — não emprega fact-checkers. Nada impede o primeiro maluco — desde que seja baixo, gordinho e ligeiramente careca — de meter a mão no colete e se apresentar num “órgão de referência”, declarando que é Sua Majestade, Imperador dos Franceses, Rei de Itália e Protector da Confederação do Reno» («Os regimes caem assim», Vasco Pulido Valente, Público, 28.12.2012, p. 56).
      Só um intelectual mais extraordinário do que Vasco Pulido Valente é que encontraria um termo equivalente em português, língua deste malfadado país onde ele teve a desdita de ter nascido.

[Texto 2467]
Etiquetas
edit

Sobre «aciaria»

E «centro de trabalho»

      «No campo das artes, foi criado o National Centre for the Performing Arts, que impulsionou a investigação e a difusão desses saberes. Todos os centros de trabalho do grupo — fábricas, aciarias, etc. — têm um ambiente de segurança exemplar no trabalho, mormente nas suas implicações com a saúde» («Há algo a aprender com Ratan Tata?», Eugénio Viassa Monteiro, Público, 28.12.2012, p. 53).
      O Dicionário Houaiss regista «aciaria» (e «aceria»), que nunca antes li em nenhum texto português. «Unidade em usina siderúrgica onde o ferro-gusa é convertido em aço; aceria», é o que se lê no respectivo verbete. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe termos semelhantes, mas não aqueles: «aceiraria» e «aceraria» — «estabelecimento de artefactos de aço ou ferro». Não provirá tudo do castelhano acería e acerería? «Siderurgia» não dirá o mesmo? Mas esperem... Este dicionário afirma que siderurgia é o «conjunto das técnicas empregadas para extrair o ferro dos seus minérios e trabalhá-lo com vista às diferentes aplicações». É? Não aqui: «Por exemplo, o aço é um produto final numa siderurgia, matéria-prima numa metalomecânica, mercadoria/artigo numa compra, venda ou em transporte e um bem no sentido de posse (propriedade)» (Logística: Conceitos e Tendências, Benjamim Moura. V. N. Famalicão: Centro Atlântico, 2008, p. 317).
      E «centro de trabalho» não é também locução — centro de trabajo — traduzida do castelhano?

[Texto 2466]
Etiquetas
edit

O caso do ano

O valor da eloquência

      Por uma vez, concordo com Pedro Lomba: «É verdadeiramente absurdo que SIC, TSF e Expresso pensem em processar Artur Baptista da Silva. Se o fizerem, não deveremos nós processar também a SIC, a TSF e o Expresso?» («Teoria Geral de Baptista da Silva», Pedro Lomba, Público, 27.12.2012, p. 40).
      Ao que parece, a palavra ainda tem um peso determinante, pois o presidente do International Club de Portugal, Manuel Ramalho, veio admitir, ingenuamente, que «nunca quis acreditar que uma pessoa com tão bom aspecto, tão eloquente, estivesse na disposição de se fazer passar por aquilo que não era, ainda por cima num acto que iria ter tanta visibilidade pública». Num artigo da edição de hoje do Público, Bárbara Reis e Ana Henriques também escreveram – à sua maneira, com erros – que Baptista da Silva é um «homem bem falante» («Mesmo depois de descoberto como impostor, “observador da ONU” ainda desperta simpatias», Bárbara Reis e Ana Henriques, Público, 27.12.2012, p. 6).
[Texto 2465]
Etiquetas
edit

Léxico: «bovarismo»

Da literatura para a vida

      «“A sociedade procura ardentemente um guia, um raio de luz”, teoriza o psicossociólogo [Luís Rodrigues]. E não é raro que quem vai tão longe na mentira acabe por ficar convencido do que inventou. O fenómeno até tem um nome, diz o especialista: bovarismo. Acontece quando a pessoa tenta escapar à sua condição adoptando uma personalidade idealizada, como o fez Madame Bovary, a personagem de Flaubert» («Mesmo depois de descoberto como impostor, “observador da ONU” ainda desperta simpatias», Bárbara Reis e Ana Henriques, Público, 27.12.2012, p. 6).
      Até está nos dicionários, como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «estado de espírito mediante o qual um indivíduo faz de si mesmo e da sua condição uma ideia falsa, como sucede com Emma Bovary, personagem principal do romance Madame Bovary, do escritor G. Flaubert, 1821-1880».
[Texto 2464]
Etiquetas ,
edit

Se temos, não precisamos

Aqui não há favelas

      «Phiona Mutesi é uma miúda de 16 anos. Nasceu no Uganda, numa favela, Katwe. Quando tinha nove anos, Phiona foi apresentada a um ex-jogador de futebol, Robert Katende. Ele mostrou-lhe um jogo tão estranho que nem sequer tinha um nome no idioma em que ela se expressava: xadrez. Ela sentiu-se atraída pelas figuras das peças. Começou a jogar. Sete anos depois, tornou-se rainha. A história dela deu um livro. A história dela faz sonhar» («Phiona Mutesi passou de analfabeta a rainha do xadrez», Vítor Ferreira, Público, 26.12.2012, p. 33).
      Sou o primeiro a defender que se use um brasileirismo na falta de termo equivalente só nosso, porque, afinal, a língua é a mesma. Não assim quando dispomos de um vocábulo para designar essa realidade. É o caso. Nunca eu diria «favela» se temos «bairro-de-lata».
[Texto 2463]
Etiquetas ,
edit

Português, língua pobre?

Absolutamente lamentável

      «Passos Coelho afirmou num órgão do seu partido que não podia prescindir de Relvas, porque ele era, em inglês, um doer. O ministro adjunto será um “doer”, mas em português. Os tombos de Relvas estão a doer ao chefe do governo, que bem poderia, por um momento, ser um thinker e pôr termo ao seu “doer”» («O figurão do ano», Carlos Fiolhais, Público, 26.12.2012, p. 37).
      Com péssimos exemplos como este, todos os descalabros no uso da língua parecem legitimados.

[Texto 2462]
Etiquetas
edit

Sobre «seta»

De cachafrito

      Também no Jornal da Tarde, o jornalista João Ricardo de Vasconcelos fez uma reportagem no Restaurante Zé Calha, em Marvão, vila alentejana lá no topo da serra do Sapoio onde decorre, até dia 30, a Quinzena Gastronómica da Caça. Um dos pratos era lombo de veado com setas. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o termo «seta» nesta acepção como regionalismo: «cogumelo comestível». Mais um castelhanismo. Para o dicionário da Real Academia Espanhola, seta é «cualquier especie de hongo, comestible o no, con forma de sombrilla, sostenida por un pedicelo».
      Nesta 2.ª Quinzena Gastronómica da Caça, também se pode comer um bom coelho bravo de cachafrito — invenção alentejana e termo que também não anda pelos dicionários.
[Texto 2461]
Etiquetas ,
edit

«Filhós de canudo»

Que canudo

      Já tinha ouvido na Antena 1 e, no Jornal da Tarde, vi uma reportagem da jornalista Helena Figueiras sobre as filhós de canudo do Algarve. A entrevistada disse que tinha ali a «calda para alfelar as filhós», mas a jornalista não deixou passar: «Está-me aí a dizer verbos que eu desconheço. Mel para quê?» De facto, não está dicionarizada, mas pelo contexto percebia-se muito bem. Alfelar é passar os doces, neste caso as filhós, por uma calda feita com mel, água, açúcar amarelo, limão e canela. Os dicionários só registam «alféloa» (massa de açúcar em ponto com que se fazem vários doces) e «alfeleiro» (aquele que faz ou vende alféloa). Comum às reportagens da rádio e da televisão foi terem dito que o nome destas filhós é «uma homenagem ao tempo em que eram estendidas com uma cana». Será? Ora, se estas filhós são confeccionadas com tiras de massa que se enrolam quando se fritam, o nome não evocará precisamente esta forma? É que o étimo de «canudo» significa «semelhante a cana». A cana mais grossa para fazer as vezes do tradicional rolo de madeira usar-se-ia antigamente para muitos outros tipos de filhós, e não somente para este.
[Texto 2460]
Etiquetas ,
edit

Próclise & etc.

Ordem cl-V obrigatória

      «Este é o tempo da voz. Simbolicamente, todos os anos a igreja faz-nos crer que um menino virá pregar a fé que recria a esperança. E que a fé não se rodeia de mantos com brocados, mas de palha ou, numa versão mais actual, de caixas de cartão forradas de jornais e cobertores velhos» («A voz humana», António Jacinto Pascoal, Público, 24.12.2012, p. 44).
      Pelo menos um professor, mormente se escreve na imprensa, não devia ignorar que o vocábulo «Igreja», na acepção de organização, entidade, se grafa com inicial maiúscula. E, na mesma frase, «todos», à semelhança do que sucede com elementos de negação, outros quantificadores e certos advérbios, não desencadeia obrigatoriamente a próclise? «Simbolicamente, todos os anos a Igreja nos faz crer que um menino virá pregar a fé que recria a esperança.»
[Texto 2459]
Etiquetas ,
edit

Modas parvas

Também terá sido imitado

      «É muito provável que o sul-coreano Psy nunca tenha pensado que Gangnam Style atingisse tamanho sucesso mundial em tão pouco tempo, ao ponto de já ser o vídeo com mais visualizações (mais de mil milhões) na curta vida do site YouTube. Mas o êxito de Psy não fica por aqui e está perto de obter reconhecimento pelo dicionário britânico Collins — Gangnam Style foi eleita, juntamente com fiscal cliff (precipício fiscal) e Romneyshambles (vacilações de Romney), uma das palavras do ano» («Gangnam Style a caminho do dicionário», Público, 24.12.2012, p. 37).
       Bem, nenhuma delas é pior do que «entroikado», o que já não é, a meu ver, pouco.
[Texto 2458]
Etiquetas
edit

Sobre «desenhar»

Desenham muito

      «Um dos grandes desígnios do PDJ era a limitação do poder da burocracia. É a alta burocracia — inspirada no mandarinato chinês — quem efectivamente “governa” o Japão. Foram os altos funcionários do MITI (Ministério do Comércio Externo e da Indústria) quem desenhou a estratégia de crescimento em simbiose com os grupos industriais e financeiros. Mas, a partir do fim da década de 1980, mostraram-se incapazes de responder à “estagnação”» («Japão à deriva», Jorge Almeida Fernandes, Público, 23.12.2012, p. 25).
      Mesmo se a acepção de conceber, projectar, idear sempre esteve no vocábulo português, por influência da língua inglesa, ultimamente é um fartote, e não apenas, longe disso, nas traduções. Agora, nada é concebido, projectado, ideado, pensado, é tudo, mas tudo desenhado.
[Texto 2457]
Etiquetas ,
edit

«Bacalhau de cura amarela»

Não só os queijos

      «A qualidade paga-se e bem. O bacalhau amarelo é o mais caro de todos, pode custar 30 euros o quilo» (jornalista Sandra Vindeirinho, no Telejornal de ontem). Bacalhau de cura amarela, é como se costuma dizer. No verbete «cura», o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista a acepção relativa aos queijos: «processo de maturação dos queijos que lhes apura o sabor e os torna mais consistentes». Não devia registar algo semelhante em relação ao bacalhau? O bacalhau de cura amarela (por ser mais gordo?) é menos salgado do que os outros, tem um teor de sal igual ou inferior a 45 % e a cura é obtida pela exposição ao sol.
[Texto 2456]
Etiquetas ,
edit

Infeliz verbo «haver»

Área crítica

      Pobre verbo «haver», pobres jornalistas. «A Chapelaria Azevedo Rua está há 126 anos na família. Chapéus continuam a haver muitos. E há cerca de trinta anos atrás já se faziam as contas» (jornalista Filipa Simas, no Telejornal de ontem).
[Texto 2455]
Etiquetas ,
edit

Tradução: «minable»

Esquecem-se, é isso

      «Catherine Deneuve, que já contracenou com Depardieu em O Último Metro, em 1980, ou Potiche – Minha Rica Mulherzinha, de 2010, atacou também o Governo, cujo primeiro-ministro, Jean-Marc Ayrault, classificou a decisão de Depardieu de “depreciável”. Para a atriz os adjetivos utilizados “não são dignos de membros ligados ao Estado”. Também Brigitte Bardot veio defender o ator, chamando a atenção para a sua importância e contribuição para o cinema e a cultura francesas» («Catherine Deneuve defende amigo Depardieu na ‘fuga’ para a Bélgica», Tiago Henriques, Diário de Notícias, 22.12.2012, p. 45).
      Não tínhamos já visto que o adjectivo era só um, minable, e que se traduz por «miserável», «deplorável»? Vimos aqui.
[Texto 2454]
Etiquetas ,
edit

Como se escreve nos jornais

Do senhor provedor

      «Comecei por escrever à mão, com letra o mais clara possível, para que um tipógrafo “batesse” o texto na sua formidável e saudosa Linotype – do inglês line of types, linha de caracteres – que, a cada toque numa tecla, movia uma garra que buscava o molde de uma letra e juntava-o aos restantes, formando palavras e linhas. O chumbo, que ia derretendo de uma barra suspensa nas traseiras da máquina, haveria de ser vertido sobre os moldes e formar os blocos de texto que mais tarde seriam prensados sobre um cartão grosso, juntamente com títulos e imagens, para novo banho de chumbo numa forma cilíndrica. [...] Era também obrigação dar o background – os antecedentes – de uma história, na própria notícia, de modo a que o leitor que não tivesse lido a anterior não se sentisse posto à margem. [...] A regra do background tem a ver com o facto de um jornal, em especial na edição em papel, ser efémero, isto é, durar um dia» («Podem aproveitar-se mais as potencialidades criadas pela evolução tecnológica», Oscar Mascarenhas, Diário de Notícias, 22.12.2012, p. 47).
[Texto 2453]
Etiquetas
edit

Ortografia: «calazar»

Saibam todos quantos

      «A alimentação era de péssima qualidade e a fome, e doenças associadas com as carências alimentares, como o raquitismo, eram comuns. A tuberculose era generalizada, e o alcoolismo um flagelo social. Eram igualmente comuns os traços da varíola, da poliomielite, e em certas zonas do país havia malária e kala-azar» («Viagem ao passado por causa do presente», José Pacheco Pereira, Público, 22.12.2012, p. 44).
      Como o vocábulo vem do hindustâni, Pacheco Pereira quis dar-lhe uma feição ainda mais exótica. Saiba o historiador que em português se escreve calazar.
[Texto 2452]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «carne verde»

Talvez devesse estar

      «No final do século XIX, princípio do século XX, o incipiente operariado português concentrava-se em poucas fábricas dignas desse nome no Norte do país, em particular no Porto, e numa multidão de pequenas oficinas em Lisboa e Setúbal e nas principais cidades do país. Eram operários e operárias, tabaqueiros, têxteis, soldadores, conserveiros, corticeiros, mineiros, padeiros, alfaiates, costureiras, cinzeladores, cortadores de carnes verdes, carpinteiros, fragateiros, estivadores, carregadores, carrejonas no Porto, carvoeiros, costureiras, douradores, etc., etc.» («Viagem ao passado por causa do presente», José Pacheco Pereira, Público, 22.12.2012, p. 44).
      Naturalmente que os dicionários não podem registar todos os termos e expressões da língua, mas as que vão aparecendo nos meios de comunicação não deviam lá faltar. Carne verde é o nome que se dá à carne de animais abatidos na véspera do consumo, sem qualquer conservação.
[Texto 2451]
Etiquetas ,
edit

«Estadio»?

Chegou à política

      Que não me esqueça esta: a ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, anteontem à noite no programa de entrevistas De Caras: «Bom, há PPP de cariz diferente e de natureza diferente e que estão em estádios, em estadios diferentes da sua execução.»
      Até há pouco, eram apenas médicos (e já era muita gente) que falavam assim, agora a patologia chegou aos governantes. As melhoras.
[Texto 2450]
Etiquetas
edit

«Haver que»

«Áqueas», disse?

      Ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, ontem à noite no programa de entrevistas De Caras: «Porque estas reformas estão feitas. Agora há que as executar, há que as pôr no terreno.»
      Fica mal, soa mal, pode e deve evitar-se. Leiam aqui os Paralipómenos I e II de Montexto. (E sim, arejemos a palavrinha, «paralipómenos»: com minúscula, é o aditamento em qualquer obra literária.)

[Texto 2449]
Etiquetas
edit

Léxico: «lampa»

Feliz erro

      «Estando a embaixada num apartamento de rés do chão, Assange tem uma lampa solar no quarto para compensar a falta de luz natural» («Discurso de Assange com “música, comida e vinho”», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 19.12.2012, p. 25).
      Mais um erro a resgatar do olvido completo uma variante popular do vocábulo «lâmpada». Lampa, pois bem. Palavra com vários sentidos, e deste o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ainda não se esqueceu. Mais uma infausta vez, porém, claro que foi o inglês a ditar o erro, pois pode ler-se na imprensa inglesa que no quarto de Assange há «a solar lamp and a treadmill». Vá lá, não traduziram treadmill por «moinho». «Foi instalada uma passadeira para Assange fazer exercício físico.» Acepção, reparo agora, que o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora não regista.
[Texto 2448]
Etiquetas ,
edit

«Corrector/corretor»

Por mim

      José Rodrigues dos Santos, escritor e jornalista, no Telejornal de ontem (20h41): «As tentativas de manipulação da taxa Libor pelo UBS envolveram o pagamento de subornos a vários correctores e podem vir a provocar outros processos contra o banco, caso os clientes afectados reclamem.» Grafo assim, com c, a palavra para indicar a forma como o jornalista a pronunciou, mas a verdade é que, também na RTP, deceparam os cc e os pp, pelo que seja o operador na bolsa seja o que corrige, para eles é tudo igual. O Prontuário Sonoro, também da RTP, regista a pronúncia de «corretor» (/kurrétór/), um duplo disparate. Não serei eu, com toda a certeza, que lhes enviarei mais correcções ou sugestões, pois vai para um mês que lhes comuniquei o erro crassíssimo do «uxorcida» e até hoje não o corrigiram. Uma vergonha. Talvez aquilo melhore quando for comprado pela Newshold.
[Texto 2447]
Etiquetas ,
edit

Ortografia: «veado-lavrador»

Tudo pela metade

      «A partir de hoje poderá ver de perto esta cria de veado lavrador, nascida a 4 de novembro na maternidade do Jardim Zoológico da Maia, Porto» («Veado espera por visitantes na maternidade... e por nome», Diário de Notícias, 20.12.2012, p. 23).
      Ficamos assim a conhecer o nome comum, em português, do Muntiacus muntjak reevesi. Ficamos também a saber que no Diário de Notícias não sabem aplicar as regras do Acordo Ortográfico de 1990, que tão pressurosamente adoptaram. Nas palavras compostas que designam espécies botânicas e zoológicas, ligadas ou não por preposição ou outro elemento, usa-se o hífen. Logo, veado-lavrador. E, a propósito, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ainda não regista «feijão-mungo». Não estão a conseguir dar vazão às sugestões...
[Texto 2446]


Etiquetas ,
edit

«Accionista fiduciário»

Uma questão de confiança

      «Ter “fiduciários” em cargos de gestão – ou seja, alguém que aparece no papel em vez dos verdadeiros gestores – é uma prática comum em paraísos fiscais. No caso da Pineview Overseas a informação pública disponível é apenas sobre a composição da empresa e nada existe sobre os proprietários nos registos oficiais disponíveis no Panamá» («Administradores da dona da Newshold ocupam cargos iguais em milhares de empresas no Panamá», Joana Gorjão Henriques, Público, 19.12.2012, p. 2).
      Aqui está usado como se fosse substantivo (e por isso das aspas, mas desnecessárias), mas não é, como se comprova por um trecho mais à frente: «A SFM Corporate Services S.A, empresa com sede na Suíça, diz no seu site que o “accionista fiduciário é designado para impedir que o verdadeiro proprietário da empresa seja associado publicamente à propriedade da empresa”» (idem, p. 3).
      O adjectivo «fiduciário» está relacionado, como logo se percebe, com confiança — que depende de confiança, que revela confiança —, mas a acepção usada no contexto é outra: «que faz as vezes de outro».

[Texto 2445]
Etiquetas ,
edit

Aprender francês

Pelo preço de um jornal

      «O primeiro-ministro usou o termo “minable” (miserável, deplorável) para classificar a decisão de Depardieu. “Quem é o senhor para me julgar assim?”, responde o actor, lembrando que começou a trabalhar aos 14 anos e que toda a vida pagou os seus impostos» («Depardieu renuncia ao passaporte», Público, 17.12.2012, p. 39).
      O objectivo há-de ser que aprendamos francês, ou para comprovarmos como está bem traduzido. Pelo menos é francês e não inglês.
[Texto 2444]
Etiquetas ,
edit

Como se escreve nos jornais

Este é vicioso

      «Hélder Rodrigues encara de frente o título no Dakar», Nuno Sousa, Público, 18.12.2012, p. 42). Vê-se logo que é um título do Público, pois claro. É pleonasmo, a não ser que os títulos tenham a cara nas costas, para fazerem esgares trocistas àqueles que os perseguem e a que eles, lábeis, escapam.

[Texto 2443]
Etiquetas
edit

Léxico: «radioastrónomo»

Podem registar este

      «O satélite norte-coreano lançado na semana passada está sem controlo e provavelmente deixou de funcionar, disse ao New York Times um astrónomo que segue a actividade espacial mundial. “Anda aos trambolhões e não lhe detectámos actividade”, disse ao jornal de Nova Iorque Jonathan McDowell, da Universidade de Harvard, explicando que os radioastrónomos procuraram seguir os seus sinais no espaço» («Satélite da Coreia do Norte estará avariado», Público, 18.12.2012, p. 23).
      Nunca os dicionários, pela sua própria natureza, estarão completos. Se quase todos acolhem o vocábulo «radioastronomia», quase nenhum regista «radioastrónomo». Lacuna que, de qualquer maneira, não se compreende.
[Texto 2442]
Etiquetas ,
edit

«Híperes»

Finalmente

      «Portugueses estão a comprar menos, híperes apostam nas promoções» (Joana Capucho, Diário de Notícias, 16.12.2012, p. 25).
      Finalmente, lá chegaram à compreensão de que é desta forma que se grafa a forma reduzida de «hipermercado». Que já está em alguns dicionários, como no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. O problema é que, daqui a dois ou três dias, outro jornalista qualquer grafará de outra forma, errada.
[Texto 2441]
Etiquetas
edit

Tradução: «seersucker»

Importado do Brasil

      Parece que é consensual: seersucker não tem tradução em português. O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora apenas dá a definição: «tecido indiano de linho, com listras brancas e azuis». Sim, mas a tradução? Só do outro lado do Atlântico tem equivalente português: «anarruga». Para nós, tem de continuar a ser seersucker.
[Texto 2440]
Etiquetas ,
edit

Tradução: «palmetto»

Talvez distracção

      E agora temos algo parecido ao que sucede com o verbete «cleat», no Dicionário Inglês-Português da Porto Editora. Em relação ao termo «palmetto», regista: «BOTÂNICA (palmeira anã) palmeto, palmito». Contudo, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não acolhe o vocábulo «palmeto», mas apenas «palmito». Mas «palmeto» é português? Hum...
[Texto 2439]
Etiquetas ,
edit

Tradução: «bagman»

Não sei se é

      Para bagman, o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora só dá duas traduções possíveis: o coloquial «caixeiro-viajante» e o coloquial australiano «vagabundo». Não é o sentido que tem numa obra que está à minha frente. Nesta, a acepção é a que leio no Oxford Dictionary: «US & Australian/NZ informal: an agent who collects or distributes the proceeds of illicit activities.» Dizem-me aqui que entre nós se deve traduzir por «homem de mão», mas tenho dúvidas. Alguma sugestão?
[Texto 2438]
Etiquetas ,
edit

Sobre «cércea» e «gabarito»

Para adivinhar

      A 6.ª acepção de «cércea» é, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «gabarito», o que não é uma definição, mas simplesmente um sinónimo. Vamos agora consultar, no mesmo dicionário, o verbete «gabarito». A 5.ª acepção é relativa à arquitectura: «limite, regulamentado por legislação própria, da altura dos edifícios em determinadas zonas». A acepção de «cércea» não devia remeter para o respectivo sinónimo no verbete «gabarito»? Parece-me que sim.
[Texto 2437]
Etiquetas ,
edit

Tradução: «cleat»

Becos sem saída

      Um dicionário é sempre uma obra inacabada, é claro. O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora, por exemplo, regista o termo «cleat», e a quarta acepção é um termo da náutica, «cunho». Recorremos depois ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora para saber o que significa «cunho», mas o verbete não regista nenhuma acepção náutica. De becos sem saída destes estão os dicionários cheios.

[Texto 2436]
Etiquetas ,
edit

Como se escreve nos jornais

Escreve-se mal, assim:

      «A carta deixada pela profissional de saúde vem assim contrastar com as anteriores declarações do hospital, de que “não havia sido instalado qualquer processo disciplinar interno” contra Jacintha por ter revelado informações clínicas sobre Kate, e que a mesma havia recebido “total apoio” de toda a equipa do King Edward VII. [...] Conforme avançou também o jornal The Guardian, a família de Jacintha já teve acesso às cópias das notas de suicídio, inclusive os seus dois filhos e o marido, que quer instalar um inquérito no hospital de forma a “averiguar o que realmente aconteceu”» («Enfermeira deixa nota com críticas ao hospital», Raquel Costa, Diário de Notícias, 15.12.2012, p. 53).
[Texto 2435]
Etiquetas ,
edit

Tradução: «longshoreman»

Outro problema

      Longshoreman e stevedore parece que são vocábulos sinónimos. Parece. Mesmo os falantes de inglês não sabem muito bem. Talvez sejam, mas ficam sempre dúvidas quando à nossa frente aparece uma enumeração como esta: «Longshoremen, stevedores, etc.»
[Texto 2434]
Etiquetas ,
edit

«Speakeasy»

Durante a Lei Seca

      «Deixa-te disso», é o que por aqui me recomendam. «“Speakeasy” é intraduzível. Nunca nenhum tradutor português se atreveu sequer a tentar fazê-lo.» Não sei, o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora parece que o faz: «taberna clandestina». Sobretudo em comparação com o Michaelis, que se limita a definir: «lugar onde se vendiam bebidas alcoólicas clandestinamente, durante a Lei Seca».

[Texto 2433]
Etiquetas ,
edit

«Tomado por ciúmes»

Como quem diz

      «O homem que esfaqueou mortalmente a mulher justificando-se que estava “tomado por ciúmes”, na madrugada de 28 de agosto do ano passado, depois do casamento do único filho de ambos, em Lamas, Santa Maria da Feira, foi ontem condenado, em cúmulo, a 18 anos de cadeia pelos crimes de homicídio qualificado e violência doméstica» («Condenado a 18 anos de prisão por matar a mulher por ciúmes», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 14.12.2012, p. 21).
      Boa desculpa, mas era mais aceitável no século XIX. Ah, sim, quanto ao que aqui nos traz: «tomado por ciúmes» é uma bela forma de dizer. Tomado, como quem diz, possuído pelos ciúmes. Não tão tomado como isso, neste caso, pois que não assassinou a mulher quando a encontrou com outro homem, mas mais tarde.
[Texto 2432]
Etiquetas
edit

«Disco duro»

E é mesmo

      «As fotografias e vídeos estavam catalogados por temas mas também com os nomes pelos quais as vítimas são conhecidas nas redes de pedofilia internacionais. Armazenava os filmes em pen drives de grande capacidade ou em discos duros de computador» («Juíza recusa que pedófilo cumpra pena suspensa», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 14.12.2012, p. 20).
      Raramente se vê, agora, «disco duro». Amílcar Caffé, no Ciberdúvidas, afirmou que é tradução infeliz do inglês hard disk.
[Texto 2431]
Etiquetas
edit

«Xão ordens»

Mas era assim

      Vamos lá exercer a nossa liberdade de expressão: a defesa do bom-nome da GNR feita pelo deputado social-democrata Carlos Abreu Amorim não foi menos que ridícula. O deputado comunista António Filipe comparara o Governo com os guardas-republicanos de antigamente, que, quando confrontados pelos cidadãos, respondiam «xão ordens». Onde está o acinte e o desrespeito? Antigamente.
      «MAURICE (num acesso inesperado de pronúncia beirã) — Xaiba o xenhor que as lixões da Alianxa Franxesa, [sic] xubiram de prexo...» (O Sobrinho, Jaime Salazar Sampaio. Lisboa: Plátano, 1982, p. 182).

[Texto 2430]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «soqueira»

Ora, não sei porquê

      «Encontravam-se também dois carregadores e um silenciador, bem como botijas de gás e outro material alegadamente utilizado em arrombamentos. Incluem-se ainda uma pistola [de] calibre 6,35 mm, dois revólveres, uma pistola de alarme, uma faca de mato, dois punhais, uma soqueira, bem como diversas munições» («Suspeitos de roubos a multibancos tinham armas de guerra», E. B., Diário de Notícias, 14.12.2012, p. 21).
      Não é somente o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora que não regista o termo. No Brasil chamam-lhe «soco-inglês».
[Texto 2429]
Etiquetas ,
edit

«Perverter»/«deturpar»

É uma escolha

      «Se um ministro deste Governo não hesita, para “vender” a sua ideia para a Educação, em perverter desta forma os resultados de estudos internacionais disponíveis a qualquer um na Net, que nos diz isso de qualquer coisa que o Executivo diga sobre assuntos, como a média das indemnizações por despedimento na Europa, sobre os quais nos falta informação imediatamente disponível?» («É matemático», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 14.12.2012, p. 7).
      «Perverter» também é, valha a verdade, «deturpar», «desvirtuar», mas, no contexto, eu usaria um destes termos, e mais facilmente o primeiro.
[Texto 2428]
Etiquetas
edit

Tradução: «benchmark»

Ficamos sem saber

      «E como concluiu o ministro tal coisa? Assim: “Em todos os estudos, mais de metade dos alunos portugueses não ultrapassam o nível intermédio de benchmark (melhores práticas), o segundo mais baixo em quatro níveis”» («É matemático», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 14.12.2012, p. 7).
      Mas quais melhores práticas? Será a melhor tradução? Ou a pior? No contexto, benchmark traduzir-se-á por «padrão de desempenho».
[Texto 2427]
Etiquetas ,
edit

Confusões: «perfeito/prefeito»

Perfeito disparate

      «Não escondendo que a intenção final é oferecer ensino universitário, Salvato Trigo disse que foi pedido “tanto ao perfeito de Var, Toulon, como à reitora da Academia de Nice, que é quem superintende as questões de educação ao nível regional, que se pronunciassem” sobre aquela intenção» («Universidade acusa França de preconceito», Pedro Sousa Tavares, Diário de Notícias, 14.12.2012, p. 15).
      É par de parónimos que anda há décadas nas gramáticas, enciclopédias e prontuários — em vão. O governador de um departamento, em França, tem a designação de prefeito. «É na França o administrador-geral de um departamento; é magistrado em alguns cantões da Suíça; em alguns países, é funcionário de colégio, encarregado de manter a disciplina; é superintendente ou chefe de polícia, em alguns países; é superior de um convento; é título de diversos cargos eclesiásticos no Vaticano. No Brasil, o prefeito está investido do poder executivo nas municipalidades» (Variedades, Demétrio André. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2009, p. 236).
[Texto 2426]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «lerpa»

Ficamos à espera

      «O proprietário e um cliente de um café de Guimarães foram apanhados a jogar “lerpa”. Condenados em primeira instância a penas de multa, os arguidos recorreram e viram agora o Tribunal da Relação de Guimarães dar-lhes razão. Foram absolvidos porque, diz o acórdão, a “lerpa” não está tipificada na lei nem integra a lista dos jogos de fortuna e azar que apenas são permitidos em casinos. [...] A lerpa é praticada com um baralho de 40 cartas e pode ter entre um mínimo de três e máximo de 13 jogadores que acordam no início quem dá as cartas e quem tira o trunfo e o valor da “casadela” que é a aposta mínima obrigatória para todos os jogadores. Lerpar é não fazer nenhuma basada e nesse caso é-se obrigado a repor uma quantia monetária igual à da jogada anterior mais a sua “casadela”» («Tribunal decide que jogar ‘lerpa’ é legal», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 13.12.2012, p. 20).
      Já aqui temos elementos bastantes para redigir o verbete e oferecê-lo ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Só as aspas, caro Alfredo Teixeira, é que estão a mais.
[Texto 2425]
Etiquetas ,
edit

«Nanny state»

Foi por pouco

      E a propósito da ama (nanny) McPhee: ainda soube antes do fim do mundo (que, ao que parece, não foi ao meio-dia) que em inglês Estado-Providência se diz nanny state.
      Leio no Cambridge Advanced Learner’s Dictionary que nanny state é «a government which tries to give too much advice or make too many laws about how people should live their lives, especially about eating, smoking or drinking alcohol».
[Texto 2424]
Etiquetas
edit

Como se fala na televisão

Perdeu uma letra

      Jornalista Carla Trafaria no Bom Dia Portugal: «Um tribunal da Guatemala mandou libertar o criador de um antivírus informático que estava preso desde a semana passada. O juiz disse que o empresário norte-americano foi detido de forma ilegal. John McFee tem agora dez dias para obter um visto temporário que lhe permita regularizar a estadia na Guatemala ou viajar. McFee, que é procurado pela justiça do Belize devido a um homicídio, já disse que quer ir para os Estados Unidos.»
      Não estaria a jornalista a pensar na ama McPhee, uma vez que a quadra natalícia está tão próxima? De qualquer maneira, já a ouvimos dizer coisas piores, como isto: «Boa merda que eu acabei de fazer.»

[Texto 2423]


Etiquetas
edit

Desgraçadíssimo verbo «manter»

O ilustre tribuno

      Deputado social-democrata Nuno Serra: «Eu acho que a questão e a intenção não era que mantêssemos uniformes os preços, era abrir o mercado.» Senhor Engenheiro, é «mantivéssemos» que se diz. O verbo «manter» deriva do verbo «ter». Logo, o pretérito imperfeito do conjuntivo é mantivesse, mantivesses, mantivesse, mantivéssemos, mantivésseis, mantivessem.
[Texto 2422]
Etiquetas ,
edit

«Germanocêntrico e hospitalocêntrico»

Dois no mesmo dia

      «“Monti seguiu uma política demasiado germanocêntrica. Todos os indicadores económicos pioraram, todos os dados são negativos. Ele criou uma crise bem pior do que quando estávamos no Governo”, afirmou Berlusconi em declarações ao Canale 5, que faz parte do seu grupo de comunicação» («“Monti seguiu política germanocêntrica”», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 12.12.2012, p. 24).
      É a segunda vez que, hoje, deparo com qualquer coisa -cêntrica. No noticiário das 3 da tarde na Antena 1, ouvi o ministro da Saúde, Paulo Macedo, a afirmar que «temos um sistema hospitalocêntrico».

[Texto 2421]
Etiquetas
edit

Il Cavaliere, Il Cavaliere, Il Cavaliere...

Vai escrever 100 vezes

      «Três dias depois de ter anunciado que pretende candidatar-se às próximas legislativas em Itália, Silvio Berlusconi deu ontem o primeiro passo para tentar reconquistar os italianos. Il Cavalieri, que é conhecido pelas suas declarações polémicas, concedeu uma entrevista em que culpa Mario Monti, primeiro-ministro demissionário, pelo “agravamento” da situação económica no país, acusando-o de ter acatado demasiado as diretivas de Berlim» («“Monti seguiu política germanocêntrica”», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 12.12.2012, p. 24).
      Sim, já tínhamos visto este erro. Enquanto não chegar ao conhecimento de todos os jornalistas, pelo menos que alguém informe Catarina Reis da Fonseca de que se diz Il Cavaliere.

[Texto 2420]
Etiquetas
edit

«Litigância», de novo

Aguardemos

      «Em declarações ao DN, Francisco Louçã considera que esta é uma matéria de “direito de opinião”, acusando Paulo Teixeira Pinto de “achar que pode usar os tribunais para uma litigância política”» («Louçã acusa Teixeira Pinto de “litigância política”, Diário de Notícias, 12.12.2012, p. 13).
      O Departamento de Dicionários da Porto Editora, apesar da sugestão que fiz no dia 4 do corrente, continua sem registar o termo «litigância», usado todos os dias de norte a sul do País. Estamos bem entroikados.
[Texto 2419]
Etiquetas ,
edit

Desgraçadíssimo verbo «haver»

É o fim do mundo

      Apesar do prometido fim do mundo anunciado para hoje (a que horas?), continua tudo mais ou menos na mesma. Os erros crassos com o verbo «haver», por exemplo: «Chegavam a haver professores em regime noturno, onde cada hora contava por hora e meia, a dar oito horas de aula semanais e a receber por horários completos» (Jorge Pedreira, ex-secretário de Estado adjunto e da Educação, em entrevista ao Diário de Notícias, 12.12.2012, p. 5).
      Doze anos de escolaridade não chegam. Aponte aí, senhor ex-secretário de Estado adjunto e da Educação: quando o verbo «haver» exprime existência e vem acompanhado de auxiliares, a locução continua a ser impessoal. «Aos fins-de-semana gosta de acordar com o bulício das garotinhas (chegou a haver 13 em São Bento) a rirem, a tagarelarem» (Máscaras de Salazar, Fernando Dacosta. Lisboa: Casa das Letras, 2010, p. 51).
[Texto 2418]
Etiquetas ,
edit

«Transplante capital»

Há quem precise

      «E não se pense que os homens ficam de fora nestas coisas. “Fiz uma lipoaspiração para tirar a gordura localizada da barriga, que não saia [sic] por mais ginásio que fizesse. Não gostava de me ver na TV com um pneu na barriga”, recorda ao DN o ator Heitor Lourenço, 45 anos, que também já se submeteu a “um transplante capital”» («Recorrem à medicina estética para enfrentar o espelho», Filomena Araújo e Nuno Pinto Martins, Diário de Notícias, 11.12.2012, p. 53).
      É uma brincadeira, um jogo verbal, evidentemente, mas sabe-se lá se os jornalistas o perceberam. Só pelo uso das aspas não podemos concluir nada, pois usam-nas muitas vezes de forma completamente irracional. E os leitores?
[Texto 2417]
Etiquetas
edit

«Mesoplastia»?

Mas existe mesmo?

      «A mesoplastia a que se submeteu em fevereiro – método de rejuvenescimento gradual, através da aplicação de agulhas – foi apenas um dos vários tratamentos estéticos a que Alexandra [Lencastre] já recorreu para melhorar a autoestima e se sentir melhor consigo própria. E a atriz não é caso único. Cada vez mais, quem vive da imagem recorre a ajuda especializada para encarar melhor o espelho e, sobretudo, as câmaras» («Recorrem à medicina estética para enfrentar o espelho», Filomena Araújo e Nuno Pinto Martins, Diário de Notícias, 11.12.2012, p. 53).
      Será mesmo «mesoplastia»? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista «meloplastia»: «cirurgia plástica da face». Já o Dicionário de Termos Médicos da Porto Editora alarga a definição: «cirurgia plástica das bochechas ou cirurgia plástica dos membros». Este dicionário também regista o termo «metoplastia», «cirurgia plástica da fronte», que o Dicionário da Língua Portuguesa não regista. De «mesoplastia», nada.
[Texto 2416]
Etiquetas ,
edit

Tradução: «sinon»

Ora essa

      «Un nombre consideráble de tableaux, sinon tous, etc.», podia ler-se no original, e o tradutor verteu assim: «Um número considerável de quadros, se não todos, etc.» Neste caso, nem sequer basta pensar; não: basta copiar. A conjunção francesa sinon só pode traduzir-se, acho eu, por senão ou excepto. Já mais de uma vez tratámos aqui desta matéria.
[Texto 2415]
Etiquetas ,
edit

Tradução: «zombi(e)»

Semelhante e melhor

      «Douze ans d’une vie de zombi», lê-se no original, e o tradutor verteu «zombi» por... «zumbi». Nunca, confesso, tinha visto, ou já tinha e esqueci-me, o que é mais ou menos o mesmo. A crer no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é brasileirismo: «ente fantástico que, segundo a imaginação popular, vagueia pelas casas, a horas mortas». Do quimbundo nzúmbi, «espectro». Até agora, evitava sempre a palavra, substituindo-a por «morto-vivo».
[Texto 2414]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «centão»

Melhorável

      Tudo é passível de melhorar. Por exemplo: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista que centão é a «poesia feita de versos de diferentes autores», e não é. É a obra em verso ou prosa — e, por extensão, a obra musical — composta por excertos de um ou de vários autores. Este dicionário regista outrossim que o vocábulo vem do latim centōne, «manta de retalhos», o que não deixa de ser verdade, mas chegou-nos através do francês, quase de certeza.
[Texto 2413]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «indigenização»

Se não existe, inventa-se

      «No primeiro dia do congresso do seu partido, a ZANU-PF, em Gweru, no centro, Robert Mugabe, de 88 anos, defendeu a “indigenização” total do capital estrangeiro, isto é, 100% devem estar nas mãos de naturais do país negros [sic]. Esta medida é fonte de desentendimento com o Governo de Morgan Tsvangirai. O país vota nova Constituição em 2013» («Capital estrangeiro será “indigenizado”», Diário de Notícias, 8.12.2012, p. 28).
[Texto 2412]
Etiquetas
edit

«Ribaldaria/rebaldaria»

Devia lá estar

      «“O PREC (Período Revolucionário em Curso) na Justiça tem de acabar. Não podemos estar sujeitos a esta rebaldaria.” Num tom crítico, o presidente do Conselho Distrital de Lisboa (CDL) da Ordem dos Advogados, Vasco Marques Correia, condenou a forma como estão a ser conduzidas vários processos judiciais, entre eles o que envolve Medina Carreira» («Ordem dos Advogados apresenta queixa na PGR», Sílvia Freches, Diário de Notícias, 8.12.2012, p. 5).
      Até o dicionário de Morais em «ribaldaria» remete para «rebaldaria», mas não, estranhamente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que não regista este último.

[Texto 2411]
Etiquetas ,
edit

Como se escreve nos jornais

Há sempre pior

      «O nome Medina Carreira será, de acordo com fontes judiciais, um código criado por Francisco Canas, um dos arguidos do processo e que seria o angariador em Portugal de dinheiro para colocar na Suíça, que se encontra em prisão preventiva, para identificar outro cliente. Já Manuel Vilarinho, ex-presidente do Benfica, teve, de facto, uma ligação ao esquema. Mas antecipou-se e aderiu ao Regime Especial de Regularização Tributária (RERT), evitando qualquer tipo de acusação. Conclusão: nenhum dos buscados foi constituído arguido» («Buscas a casas de Medina Carreira e Vilarinho foram dois “tiros no escuro”», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 8.12.2012, p. 4).
      Então agora as pessoas alvo de buscas por parte das autoridades são «buscados»? Muito me conta, Carlos Rodrigues Lima. E não encontrou melhor redacção do que «colocar» dinheiro?
[Texto 2410]
Etiquetas ,
edit

Ainda «entroikado»

E agora a justificação

      Ana Salgado, lexicógrafa do Departamento de Dicionários da Porto Editora a propósito da palavra «entroikado» em entrevista ao Diário de Notícias: «Se uma palavra ocorre frequentemente, nomeadamente em notícias, é necessário defini-la para esclarecer o público em geral. A palavra “entroikado” é um excelente representante da produtividade da língua portuguesa: juntando um elemento à esquerda e outro à direita da palavra “troika” nasce um novo vocábulo.»
      Então, devo estar mesmo mal — porque nunca li nem ouvi nas notícias a palavra «entroikado». Está bem formada, sim, mas mais parece uma pseudopalavra. Faltam dezenas de palavras, usadas todos os dias, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e noutros dicionários, é desperdício de tempo e recursos estar a pôr lá esta. Espero, pelo menos, que não a levem para a edição em papel.

[Texto 2409]
Etiquetas ,
edit

«Entroikado». Só visto

Se fosse 1 de Abril...

      Parece mentira, mas não é: a Infopédia sugere que votemos na palavra do ano 2012 e entre as que regista — já dicionarizada! — está «entroikado», «sujeito às condições de austeridade impostas pela troika (equipa que negociou as condições de resgate financeiro em Portugal e é constituída por responsáveis da Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional)», e ainda este sentido coloquial: «que está numa situação difícil; tramado; lixado». Isto não é para levar a sério. Há-de ser somente para alimentar a leviandade das redes sociais.
[Texto 2408]
Etiquetas ,
edit

Revisão, precisa-se

E amanhã?

       Ontem: «McAfee, nascido em Inglaterra mas criado no estado da Virgínia, nos EUA, é procurado pelas autoridades policiais desde 10 de novembro, sendo considerado uma “pessoa de interesse” na investigação do homicídio de Gregory Faull, seu vizinho em Ambergris Cave, uma ilha ao largo de Belize, na América Central» («McAfee agradece a Deus por ter conseguido fugir de Belize», Graciosa Silva, Diário de Notícias, 6.12.2012, p. 26).
      Hoje: «De acordo com o porta-voz da polícia guatemalteca, o informático pode ser expulso e enviado de novo para Belize ou mesmo ser repatriado para os Estados Unidos, onde nasceu» («McAfee preso na Guatemala por estar ilegal», Diário de Notícias, 7.12.2012, p. 22).
[Texto 2407]
Etiquetas ,
edit

«Os Censos»

Alguém normal

      «No ano 2050, um em cada três portugueses terá mais de 65 anos. A projeção é retirada dos Censos 2011, que revela que o País pode estar a caminhar para o envelhecimento generalizado da sua população. Atualmente, por cada cem jovens Portugal tem 129 idosos, uma tendência que se pode agravar com a atual crise económica» («Portugal já tem cem jovens para 129 idosos», André Rito, Diário de Notícias, 6.12.2012, p. 14).
      Ainda ontem ouvi na Antena 1, e ouço e leio com alguma frequência, «o Censos». Também já tínhamos visto esta falta de concordância no Assim Mesmo.
[Texto 2406]
Etiquetas
edit

Sobre «senador»

Uma solução

      «O lançamento do novo livro da jornalista do Expresso Clara Ferreira Alves, Estado de Guerra, atraiu ontem ao Centro Cultural de Belém, em Lisboa, diversos ‘senadores’ da política e do empresariado. O ex-presidente da República Mário Soares foi dar um abraço à jornalista, bem como Francisco Pinto Balsemão, dono do grupo de comunicação social do Expresso, ou Henrique Granadeiro, chairman da PT. Estado de Guerra (editado pela Bertrand) é uma solução de textos publicados por Clara Ferreira Alves nos últimos dez anos» («‘Estado de Guerra’ convoca ‘senadores’», Diário de Notícias, 6.12.2012, p. 11).
      Já tínhamos visto, aqui, vai fazer três anos, que esta acepção, usada com alguma frequência, está ausente dos dicionários. Assim continua a ser. Agora, uma «solução de textos» é que eu não sei o que é. Se alguém tiver a paciência do me explicar...
[Texto 2405]
Etiquetas ,
edit

Plural de «democrata-cristão»

Ponham-se de acordo

      «Democrata-cristão e democrata-social. O plural, tanto do adjetivo como do substantivo, é democrata-cristãos e democrata-sociais: partidos democrata-cristãos, organizações democrata-sociais; os democrata-cristãos, os democrata-sociais», recomenda o Manual de Redação e Estilo do Estadão. E na obra que estou a rever também se lê «partidos democrata-cristãos». Ora, tanto quanto sei, nos compostos por dois adjectivos numa relação de coordenação, vão ambos para o plural. Logo, democratas-cristãos. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Porto Editora respalda o nosso autor. Para o Vocabulário Ortográfico Português, tanto o substantivo como o adjectivo pluraliza ambos os termos: democratas-cristãos.
[Texto 2404]

 

Etiquetas ,
edit

Ortografia: «sub-bacia»

Segundo o desacordo

      «As três novas espécies, a lampreia da costa de Prata (Lampreta alvariensis), a lampreia do Nabão (Lampreta auremensis) e a lampreia do Sado (Lampreta lusitanica) foram batizadas segundo o local de origem. Assim, a primeira é endémica das bacias hidrográficas do Esmoriz (Ovar) e do Vouga; a segunda só existe na subbacia afluente do Nabão, na margem direita do Tejo, e a do Sado não tem nada que enganar» («Três novas espécies de lampreia», Diário de Notícias, 5.12.2012, p. 30).
      O jornalista julga que, segundo o Acordo Ortográfico de 1990, é assim que se escreve, com dois bb juntos. Não é assim segundo nenhum acordo.
      E o nome científico da lampreia não é Lampreta nem Lã Branca, é Lampetra. Para que conste.

[Texto 2403]
Etiquetas
edit

Da lei sálica

Mas escreveu o contrário

      Ora leiam: «O governo britânico recebeu a aprovação dos 16 países da Commonwealth, que têm Isabel II como Chefe do Estado, para avançar com a mudança legislativa,[sic] que permitirá o acesso ao trono a qualquer herdeiro, independentemente deste [sic] ser do sexo feminino ou masculino (a chamada lei sálica, que ainda vigora em Espanha, no Mónaco e no Lichtenstein)» («Gémeos lançam polémica na linha de sucessão», Raquel Costa, Diário de Notícias, 5.12.2012, p. 53).
      Talvez a jornalista saiba do que se trata, mas o texto diz outra coisa. A lei sálica foi introduzida na França pelos Francos Sálios, um dos ramos principais dos Francos, que excluía as mulheres do trono.

[Texto 2402]
Etiquetas ,
edit

Como se escreve nos jornais

Ao que chegaram

      «A nova legislação, que Nick Clegg, vice-primeiro-ministro britânico[,] descreveu como “momento histórico para o país e para a monarquia”, introduzirá outra alteração: o fim da proibição do casamento de elementos pertencentes à linha de sucessão ao trono com pessoas que profeçassem a fé da Igreja Católica Romana» («Gémeos lançam polémica na linha de sucessão», Raquel Costa, Diário de Notícias, 5.12.2012, p. 53).
      O artigo tem outros, e muito graves, erros, mas este é simplesmente inadmissível numa jornalista.

[Texto 2401]
Etiquetas ,
edit

Sobre «equalizar»

Relações contratuais

      O autor escreveu que as alterações do Código do Trabalho se revelam estéreis no objectivo de equalizar as relações contratuais. Não seria melhor escrever «tornar iguais» ou «igualar»? É que, se se consultar apenas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «equalizar» é «tornar uniforme; uniformizar».
[Texto 2400]
Etiquetas
edit

«Litigação/litigância»

Quem diria

      É inacreditável: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o vocábulo «litigância», que é sinónimo, e porventura mais usado, de «litigação». Rebelo Gonçalves, valha a verdade, também não o regista.
[Texto 2399]
Etiquetas ,
edit

«Zona do euro»

Já é tradição...

      Já muitas vezes tinha pensado que a expressão «Zona Euro» é pouco portuguesa. Hoje, voltei a pensar no assunto, agora a propósito da menos (ao que me parece) usada «área euro». Já aqui há matéria de reflexão: se a primeira é a maioria das vezes grafada com maiúsculas iniciais, a segunda é sempre grafada com minúsculas. Porquê a diferença de tratamento? O guia de estilo do Centro de Informação Europeia Jacques Delors recomenda que se use a expressão «área do euro» para designar o conjunto de países que têm a moeda única. O Código Interinstitucional, a propósito de «área do euro», nota: «De observar, porém, que a expressão mais comummente usada em Portugal é “zona euro” ou “zona do euro”.»

[Texto 2398]
Etiquetas
edit

Léxico: «escudete»

Malandrim setecentista

      O antiquário garantiu-me que a cómoda-toucador com tampo de rebater era seguramente do século XVIII e que a madeira era vinhático. «Já reparou nos belíssimos escudetos e nos puxadores de pau-santo?» Século XVIII... Malandrim. E também não se diz escudeto, mas escudete. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «peça exterior, de metal ou de madeira, que ornamenta a fechadura de um móvel; espelho».
[Texto 2397]
Etiquetas
edit

«Babygro», de novo

Na pronúncia, sim, /ˈbeɪbɪgrəʊ/

      «Cristina Lima e Filipa Pinto, ambas designers, deixaram os seus empregos para criar uma marca de roupa para bebés, onde há babygrows com padrão de pele de vaca e vestidos amarelo fluorescente [sic]» («Presentes únicos e baratos é o que todos querem», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 3.12.2012, p. 46).
      Ora, já vimos aqui que os dicionários registam «babygro». A explicação para o erro pode estar na etimologia e na própria pronúncia do vocábulo.
[Texto 2396]
Etiquetas ,
edit

Como se escreve nos jornais

De alpercata

      «Os dedos de Guida Fonseca deslizam sobre o fio de alparca, os pés dançam levemente sobre os pedais. Uma pequena multidão junta-se em volta da roda de fiar. “Parece fácil, não é? Mas não é. Querem experimentar?” Ninguém se atreve» («Presentes únicos e baratos é o que todos querem», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 3.12.2012, p. 46).
      A jornalista, porém, atreveu-se a escrever sem consultar um dicionário. Mesmo que possa jurar ter ouvido «alparca», tinha obrigação de confirmar. Alparca é o calçado que se prende ao pé com tiras de couro. Devia ter escrito alpaca: neste caso, seria a lã do animal ruminante da família dos Camelídeos, da América do Sul.
[Texto 2395]
Etiquetas ,
edit

Sobre «formato»

Quem sabe

      «Entre os formatos que deverão prosseguir e os novos conteúdos para a RTP2 a partir de janeiro, os vínculos ainda não terão sido celebrados» («Contratos parados à espera de modelo», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 3.12.2012, p. 51).
      O verbete do vocábulo «formato» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista cinco acepções, mas não esta, que vem, ora pois claro, do inglês: «general plan of organization, arrangement, or choice of material (as for a television show)» (in Merriam Webster). Deve ou não estar nos dicionários? No Houaiss está: «género, característica, organização (p. ex., para um programa de TV)».

[Texto 2394]
Etiquetas
edit

Tradução: «suit»

Hum...

      Título do DN: «‘Suits’ (paisanos) é o jargão americano para os agentes do FBI; ‘spooks’ (espiões) são os da CIA» («Irmãos e inimigos: a difícil relação entre paisanos e espiões», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 3.12.2012, pp. 28–29).
      Será a melhor tradução, «paisano»? É que paisano é, na acepção que se adequa, o «indivíduo que não é militar». O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora, se regista spook («Estados Unidos da América gíria espião»), em relação a suit nada diz. O Merriam-Webster acolhe a acepção: «slang: a business executive — usually used in plural». Logo, não se aplica somente aos funcionários do FBI, mas a qualquer homem de fato. Engravatado.

[Texto 2393]
Etiquetas ,
edit

Os erros do «Público»

Haja quem o diga

      «Isto só pode significar que há no PÚBLICO quem, devendo zelar pela correcção de eventuais erros de redacção alheios, é afinal autor e responsável directo pela publicação de uma boa parte das tolices ortográficas e gramaticais que são dadas à estampa. Não se trata, convém notar, de simples gralhas, ou de faltas de atenção que seriam sempre censuráveis, mas de manifestações de ignorância e de insuficiente domínio da língua, que não são aceitáveis num jornal que diz ter por objectivo a excelência editorial» («Erros a mais e correcções a menos: um apelo ao controlo de qualidade», José Queirós, Público, 2.12.2012, p. 55).
[Texto 2392]
Etiquetas
edit

Léxico: «psiquiatrizar»

Tudo se pode dizer

      «O psiquiatra Pio Abreu não gosta de “psiquiatrizar” as questões, muito menos quando não conhece os contornos deste caso. Ainda assim – e caso este crime tenha motivações económicas – diz que a fraca tolerância às dificuldades financeiras não é um problema de saúde mental» («Matar é o limite e quem ultrapassa é psicopata», P. C., Diário de Notícias, 2.12.2012, p. 19).
[Texto 2391]
Etiquetas
edit

Léxico: «cocacolizado»

Não conhecia

      «Uma das fotos mostra vários homens de Coca-Cola na mão, em jeito de celebração coletiva do povo, cujos hábitos alimentares se foram alterando com a chegada da fast food. Nas zonas onde abundam as cadeias americanas, explica Inês, as crianças estão a ficar obesas, com diabetes e “problemas associados à forma como a biologia reage à vacinação, escola, e todo o estilo de vida”. “Estão cocacolizados. Nas prisões, joga-se um jogo maia em que o prémio é uma Coca-Cola”, diz, enquanto aponta para a fotografia» («Preparados para o fim do mundo? Só se for em Hollywood», André Rito, Diário de Notícias, 2.12.2012, p. 23).
[Texto 2390]
Etiquetas
edit

Léxico: «virtualizar»

Já o conjugam

      «Este responsável [padre Carlos Gonçalves] do Patriarcado admite que “há nestas coisas das redes sociais e das plataformas da Internet o risco de virtualizar a realidade”. Não perdendo de vista esta premissa, o padre Carlos Gonçalves frisa que é importante “experimentar esta possibilidade de passar a mensagem de forma mais rápida”» («A evangelização faz-se com apenas 140 caracteres», Helder Robalo, Diário de Notícias, 2.12.2012, p. 18).
      Um dia destes, vão ver, vai estar — tem de estar, creio — em todos os dicionários, como já está em alguns.
[Texto 2389]
Etiquetas
edit

O autor das minúsculas

Isto vai mudar

      «E há gente que tem preconceitos, como também há gente que nunca pegou num livro meu porque eu escrevi em minúsculas! Houve gente que me escreveu a dizer “adorei a sua entrevista, mas nunca hei de lê-lo enquanto escrever em minúsculas. Nunca vou ler um livro seu, mas gostei de o ouvir falar”» («“Seria ingénuo pensar que alguém do Governo pudesse salvar-nos”», Valter Hugo Mãe em entrevista a João Céu e Silva, Diário de Notícias, 2.12.2012, p. 7).
      Ele há gente para tudo, isso sim. Vejam bem, não perdoar ao génio esta peculiaridade. Mas não vale a pena chorar. Até porque isto vai mudar, pois os jornais já estão autorizados a escreverem-lhe o nome com maiúsculas.
[Texto 2388]
Etiquetas
edit

Pontuação

Quid juris?

      O autor escreveu destarte: «Significa isto que estamos condenados ao pessimismo?» Ao que logo, poupando-nos trabalhos, respondeu: «Não necessariamente.» Veio alguém e acrescentou uma vírgula: «Não, necessariamente.» Que não era isso que pretendia dizer, afirmou o autor. Mas depois dos advérbios não e sim, se estiverem em princípio de oração e se se referirem a uma oração anterior, costuma pôr-se vírgula, defendeu-se o revisor.
[Texto 2387]
Etiquetas
edit

«Júri/jurado»

Digam-lhe

      Quase toda a gente já sabe a diferença entre «júri» e «jurado». Entre os que não sabem, para nosso infortúnio, estão muitos jornalistas. «No rosto de Seabra nada se passou. Odília Pereirinha, no banco onde se senta há mais de dois meses para assistir ao julgamento do filho, apenas baixou a cabeça por instantes. Quando cada um dos júris confirmou o veredicto – culpado, culpado, culpado... –, mãe e filho permaneceram impávidos» («Jurados rejeitam insanidade e condenam Renato Seabra», Alexandre Soares, Diário de Notícias, 1.12.2012, p. 19).
[Texto 2386]
Etiquetas
edit

Léxico: «pensionamento»

Pela primeira vez

      Acabei de a ver num texto de natureza económica, de autor português. Pensionamento. Os dicionários gerais da língua portuguesa desconhecem-na. Mas existe pensionado, pensionar, pensionário, pensioneiro, pensionista. Encontro-a nos dicionários de italiano: «Il mettere o il mettersi in pensione, collocamento in pensione di un lavoratore che ha cessato la propria attività» (in Enciclopédia Treccani). Não dirá a nossa palavra «aposentação» rigorosamente o mesmo?
[Texto 2385]
Etiquetas
edit

Acordo Ortográfico

O desastre está aí

      O número de falantes que adoptaram o novo Acordo Ortográfico e que escrevem «contato» revela-se, a cada dia que passa, assustador. E estou a falar de licenciados para cima. Professores universitários, investigadores... Convenhamos que ainda não foi ultrapassado o pior desconchavo nesta matéria: o daquela professora de Português que introduzira paulatinamente, mesmo antes de frequentar uma «ação de formação» específica, as novas regras nos textos que dava aos alunos, «adatando-os». Assim mesmo, sem p nem pés nem bom senso.
[Texto 2384]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «cremona»

Também do francês

      «Quando acordou[,] viu que Raul, de tronco nu, fazia a barba olhando-se no espelho pequeno que tinha por hábito pendurar na cremona da janela mais pequena» (Nunca É de mais, Maria Roma. Lisboa: Bertrand Editora, 2003, p. 214). Conheci-a ontem. Na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «ferrolho duplo, comprido, da altura da porta ou da janela, que fecha simultaneamente em cima e em baixo». Também se diz carmona.
[Texto 2383]
Etiquetas
edit

Sobre «impasse»

Se são meramente descritivos

      «Encontro», escreve a autora sobre Lisboa, «ruas que vão dar a impasses e escadas que acabam de repente.» Sempre achei muito curioso este galicismo. Impasse é o mesmo que beco sem saída. O termo, que talvez tenha sido introduzido na língua na década de 1940, já está nos dicionários, mas há imprecisões que é necessário corrigir. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, estão registadas duas acepções — e nenhuma é esta. No Dicionário Priberam da Língua Portuguesa aparece como terceira acepção, mas com esta particularidade: «[Portugal: Madeira] Rua sem saída». Ai sim? Experimentem pesquisar no sítio Lisboa Interactiva e verão quantos impasses por ali estão. Se acolheram o galicismo, têm de registar todas as acepções usadas na nossa língua, que são precisamente as do étimo, como se pode comprovar no Le Trésor de la Langue Française Informatisé: «Rue sans issue. Synon. cul-de-sac» e «position ou situation qui ne présente pas d’issue favorable».
[Texto 2382]
Etiquetas ,
edit

Dia da Espiga

Pois então

      Na obra Festividades Cíclicas em Portugal, de Ernesto Veiga de Oliveira (Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1984, p. 113), é Dia da Espiga, com maiúsculas iniciais, que se pode ler. Por analogia com outras datas, também sou de opinião que se deve grafar desta forma.
[Texto 2381]
Etiquetas
edit

Léxico: «feijão-mungo»

Nutritivos

      Hoje comprei rebentos de feijão mungo no supermercado, para fazer com ravióis. É o que se lia na embalagem, e eu pensei logo que havia de ser designação mal traduzida do inglês: mung beans sprouts... Engano o meu: está na honestíssima Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (vol. 11, p. 28): feijão-mungo, nome vulgar do Phaseolus mungo Lin., também conhecido como feijão-do-congo. Não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 2380]
Etiquetas ,
edit

«Catarense»/«catariano»

Seria melhor

      «Há ainda outros dois trunfos que reforçam a esperança do xeque do Qatar. Uma delas é a amizade entre Mourinho e o presidente do Paris Saint-Germain, o também catari Nasser Al-Khelaifi, que numa entrevista recente ao jornal espanhol Marca desfez-se em elogios a Mourinho. “É muito inteligente e está a fazer um grande trabalho em Madrid”, disse» («PSG seduz José Mourinho com oferta estratosférica», Carlos Nogueira e Madalena Esteves, Diário de Notícias, 29.11.2012, p. 37).
      Está longe de ser português, como salta à vista. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista catariano, que remete para catarense.
[Texto 2379]

 

Etiquetas ,
edit

Como se escreve nos jornais

Está na hora de mudar de jornal

      «A ausência do Presidente da Rússia, Vladimir Putin, durante as últimas semanas na comunicação social causou estranheza e especulação entre a população, com o chefe de Estado a vir ontem explicar-se: Putin, 60 anos feitos em maio e cinturão negro em judo, garantiu ter-se magoado num combate, tendo lesionado-se na coluna, o que lhe tem provocado dores nas costas» («Putin lesiona coluna no judo», Diário de Notícias, 29.11.2012, p. 26).
[Texto 2378]
Etiquetas ,
edit

Arquivo do blogue