À volta do AO90

Assim anda a Justiça

       Uma juíza do Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa proferiu, no domingo, uma sentença relativa à permanência de tendas no Rossio, em Lisboa, no âmbito da manifestação pelo direito à habitação. A decisão, que reconhece à requerente o direito de ali permanecer com uma tenda, ocupa nada menos de 78 páginas. Já a leram? Ora, ora... Estão a ver os efeitos deletérios do Acordo Ortográfico de 1990? Nem já a juíza sabe a quantas anda: ora escreve «protecção», ora «proteção»; ora «efectiva», ora «efetiva»; ora «directamente», ora «diretamente»; ora «respectivo», ora «respetivo»; ora «colectiva», ora «coletiva»; ora «afectação», ora «afetação». E isto numa sentença judicial em que ainda encontramos «comprensão», «ocorrereu», «efetciva», «proteçcão», «conteútdo», «caractetize», «enquandramento», «Entiades», «suscetpíveis», «excluí» em vez de «exclui», «foram elaboradas vários autos» e outras gralhas inesperadas. A confusão ortográfica está instalada, as gralhas multiplicam-se e nem a Justiça escapa. E é justo: já que quiseram. E depois ainda querem convencer-nos de que o Acordo Ortográfico veio simplificar a escrita da língua portuguesa! Quanto à matéria de facto e de direito, vou calar-me, que é o que 99 % dos comentadores de rádios e televisões deviam fazer, em vez de dizerem baboseiras sobre o que manifestamente desconhecem. Certo é que a juíza decidiu que o limite das 00h30 não é absoluto nem automático. Ficamos a saber que, para ela, a ortografia também não.
[Texto 23 807]

O AO90 em 2026

Quinze anos depois, isto

      «Os autores colocaram um ponto de interrogação a seguir à designação de auto-retrato, ou seja, têm dúvidas. Eu não. O nariz é mais fino e comprido, a própria estrutura do rosto parece diferente. Mas há outro aspeto ainda mais decisivo: é o único destes retratos em que o retratado não olha para nós» («O retrato fora do baralho», José Cabrita Saraiva, «Versa»/Nascer do Sol, 30.10.2026, p. 46). 
      Eu fiz quase o mesmo: pus um ponto de interrogação a seguir à designação de «auto-retrato». E porquê?, perguntará José Cabrita Saraiva. Porque, ao contrário do autor, eu tenho dúvidas. E ele faz muito mal em não as ter, pois aí estão as consequências: o texto segue a malfadada ortografia do AO90, mas o autor escreveu sete vezes «auto-retrato», quando devia ter escrito «autorretrato». Se quem vive da escrita não está atento a estes aspectos, imagine-se o zé-povinho, que pouco mais lê do que os talões do Multibanco.
[Texto 23 793]

O AO90 no dia-a-dia

É a grande compreensão que têm


      «À luz do que se sabe, diz [a infecciologista e ex-secretária de Estado para a Promoção da Saúde Margarida Tavares], “podemos questionar se é preciso uma quarentena tão prolongada e a ser cumprida numa unidade de saúde. Penso que poderia haver uma recomendação para que as pessoas permanecessem em casa e se abstivessem de contatos próximos. Era muito mais humano, as pessoas serem aí vigiadas diariamente por um profissional de saúde”» («“Alarme social prova que países ainda não estão preparados para casos de saúde pública”», Ana Mafalda Inácio, Diário de Notícias, 11.05.2026, p. 5). 

      Isto é que é uma compreensão profunda da língua e do Acordo Ortográfico de 1990, Ana Mafalda Inácio. Convém que reveja urgentemente a matéria.

[Texto 22 965]

AO90 no dia-a-dia

Da teoria à prática


      «Desde logo, através do mais ou menos declarado financiamento, com dinheiros públicos, da confissão dominante – ainda há um quarto de século o então cardeal patriarca de Lisboa, José Policarpo, se queixava de haver pouca verba no Orçamento de Estado para a construção de igrejas, e só a partir de 2005, após a revisão da Concordata, os padres deixaram de beneficiar legalmente de isenção de IRS –, sendo fastidioso enumerar aqui todos os privilégios, económicos e outros, de que a Igreja Católica ainda goza face às outras confissões» («O Chega e a Bíblia de Tarantino», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 29.04.2026, p. 13). 

      Tem que ver com o Acordo Ortográfico, sim senhor: desde o início da sua aplicação, pessoas mal informadas — entre as quais boa parte são jornalistas — entendem, ou assim parece, que uma das alterações foi decepar tudo o que é hífen. Revejam-me esta convicção, se faz favor. E com urgência.

[Texto 22 899]

AO90 na prática

Calma, isto vai demorar


      «Responsáveis curdos refrearam ontem os rumores sobre uma ofensiva terrestre iminente no Oeste do Irão, afirmando que isso não será possível enquanto os EUA e Israel não controlarem totalmente o espaço aéreo iraniano» («Curdos aguardam “céus limpos” para avançar», Ricardo Ramos, Correio da Manhã, 6.03.2026, p. 5). 

      O jornalista ainda não chegou a esta parte do articulado do Acordo Ortográfico de 1990. Nos últimos quinze anos teve outras prioridades. Temos de ter paciência.

[Texto 22 575]

AOLP90 ainda por assimilar

Oh, Luís, que desilusão


      «Foi no gabinete de José Guerreiro que alguém abriu a boca e propôs o nome que agora é maldito. Parecia inofensivo, era internacional e ninguém se chatearia. Ao presidente do IPMA pareceu-lhe bem. Ligou aos colegas europeus e todos aprovaram que seria menina a tempestade que os meteorologistas do sul da Europa previram que chegaria mais pujante a Portugal do que a qualquer outro lugar. O “K” não é letra do alfabeto que conheçamos, mas é rabisco obrigatório em quase todo o lado e funcionou como álibi, assim ninguém se chatearia por ter o seu nome associado a uma vingança... mesmo que da natureza» («O pai de Kristin é português», Luís Osório, Diário de Notícias, 3.02.2026, p. 4).

      E é logo um adepto desta ortografia avariada que vem dizer isto, que o k (porquê a maiúscula?) não faz parte do nosso alfabeto. Estude lá bem isto. Não por causa da mudança da grafia, mas da imigração, é ver agora a lista de nomes permitidos do Instituto dos Registos e do Notariado começados por k. 

[Texto 22 348]

Avaliação dos professores

Zeros na composição

      «Aquela é também a posição do presidente da Associação Nacional dos Professores Contratados (ANVPC), César Israel Paulo. Diz que é uma prova que consta de “rasteiras”, “baseada numa lógica matemática que não é dominada por excelentes professores”. Também teme que a obrigatoriedade de respeitar o novo acordo ortográfico resulte em zeros na composição» («Modelo da prova de avaliação para professores causa indignação», Bárbara Wong e Graça Barbosa Ribeiro, Público, 23.11.2013, p. 7).
      É também a minha previsão. Mas Paulo Guinote tem uma estratégia: «“Um conselho: na composição não usem palavras difíceis, nada que levante dúvidas em relação à forma como se escreve segundo o Acordo”, oferece Paulo Guinote, autor do blogue Educação do Meu Umbigo e professor de História. Diz que aquela é a única dificuldade que a prova, “completamente apatetada”, pode levantar. Sobre o exemplo da composição, garante que já pediu “coisas mais difíceis aos alunos do 9.º ano”; em relação a algumas questões de escolha múltipla afirma que está em causa “um nível de literacia funcional exigível a crianças do 6.º ano”.» Não usar palavras difíceis... Isso é se os professores soubessem quais são essas palavras difíceis. Aquela professora, com vinte anos de ensino, que numa acção de formação sobre o novo acordo ortográfico escreveu, segura de si, «adatando-os», não superaria essa prova elementar.
[Texto 3573]

Um «fato» triste

Não surpreende assim

      «Também o psiquiatra e sexólogo Júlio Machado Vaz não acha relevante rever a atual legislação. “Os argumentos para baixar a idade de consentimento sexual andam muitas vezes à volta de fatores como a adolescência ser muito diferente do que era antigamente e de começar mais cedo. Respeito-os, mas tenho dúvidas que o fato de os jovens iniciarem a sua vida sexual mais cedo corresponda a uma maior capacidade de escolhas maduras e acertadas”, afirma» («Baixar idade da emancipação sexual não reúne consenso», Joana Capucho, Diário de Notícias, 18.11.2013, p. 16).
      Uma jornalista — e depois de tudo o que se tem dito e escrito — a escrever semelhante barbaridade. Não admira que o zé-povinho, e não apenas o zé-cuecas, depois, em fóruns e entrevistas à queima-roupa na rua, «ache» que é assim que se escreve.
[Texto 3543]

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