AO90 no dia-a-dia

Da teoria à prática


      «Desde logo, através do mais ou menos declarado financiamento, com dinheiros públicos, da confissão dominante – ainda há um quarto de século o então cardeal patriarca de Lisboa, José Policarpo, se queixava de haver pouca verba no Orçamento de Estado para a construção de igrejas, e só a partir de 2005, após a revisão da Concordata, os padres deixaram de beneficiar legalmente de isenção de IRS –, sendo fastidioso enumerar aqui todos os privilégios, económicos e outros, de que a Igreja Católica ainda goza face às outras confissões» («O Chega e a Bíblia de Tarantino», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 29.04.2026, p. 13). 

      Tem que ver com o Acordo Ortográfico, sim senhor: desde o início da sua aplicação, pessoas mal informadas — entre as quais boa parte são jornalistas — entendem, ou assim parece, que uma das alterações foi decepar tudo o que é hífen. Revejam-me esta convicção, se faz favor. E com urgência.

[Texto 22 899]

AO90 na prática

Calma, isto vai demorar


      «Responsáveis curdos refrearam ontem os rumores sobre uma ofensiva terrestre iminente no Oeste do Irão, afirmando que isso não será possível enquanto os EUA e Israel não controlarem totalmente o espaço aéreo iraniano» («Curdos aguardam “céus limpos” para avançar», Ricardo Ramos, Correio da Manhã, 6.03.2026, p. 5). 

      O jornalista ainda não chegou a esta parte do articulado do Acordo Ortográfico de 1990. Nos últimos quinze anos teve outras prioridades. Temos de ter paciência.

[Texto 22 575]

AOLP90 ainda por assimilar

Oh, Luís, que desilusão


      «Foi no gabinete de José Guerreiro que alguém abriu a boca e propôs o nome que agora é maldito. Parecia inofensivo, era internacional e ninguém se chatearia. Ao presidente do IPMA pareceu-lhe bem. Ligou aos colegas europeus e todos aprovaram que seria menina a tempestade que os meteorologistas do sul da Europa previram que chegaria mais pujante a Portugal do que a qualquer outro lugar. O “K” não é letra do alfabeto que conheçamos, mas é rabisco obrigatório em quase todo o lado e funcionou como álibi, assim ninguém se chatearia por ter o seu nome associado a uma vingança... mesmo que da natureza» («O pai de Kristin é português», Luís Osório, Diário de Notícias, 3.02.2026, p. 4).

      E é logo um adepto desta ortografia avariada que vem dizer isto, que o k (porquê a maiúscula?) não faz parte do nosso alfabeto. Estude lá bem isto. Não por causa da mudança da grafia, mas da imigração, é ver agora a lista de nomes permitidos do Instituto dos Registos e do Notariado começados por k

[Texto 22 348]

Avaliação dos professores

Zeros na composição

      «Aquela é também a posição do presidente da Associação Nacional dos Professores Contratados (ANVPC), César Israel Paulo. Diz que é uma prova que consta de “rasteiras”, “baseada numa lógica matemática que não é dominada por excelentes professores”. Também teme que a obrigatoriedade de respeitar o novo acordo ortográfico resulte em zeros na composição» («Modelo da prova de avaliação para professores causa indignação», Bárbara Wong e Graça Barbosa Ribeiro, Público, 23.11.2013, p. 7).
      É também a minha previsão. Mas Paulo Guinote tem uma estratégia: «“Um conselho: na composição não usem palavras difíceis, nada que levante dúvidas em relação à forma como se escreve segundo o Acordo”, oferece Paulo Guinote, autor do blogue Educação do Meu Umbigo e professor de História. Diz que aquela é a única dificuldade que a prova, “completamente apatetada”, pode levantar. Sobre o exemplo da composição, garante que já pediu “coisas mais difíceis aos alunos do 9.º ano”; em relação a algumas questões de escolha múltipla afirma que está em causa “um nível de literacia funcional exigível a crianças do 6.º ano”.» Não usar palavras difíceis... Isso é se os professores soubessem quais são essas palavras difíceis. Aquela professora, com vinte anos de ensino, que numa acção de formação sobre o novo acordo ortográfico escreveu, segura de si, «adatando-os», não superaria essa prova elementar.
[Texto 3573]

Um «fato» triste

Não surpreende assim

      «Também o psiquiatra e sexólogo Júlio Machado Vaz não acha relevante rever a atual legislação. “Os argumentos para baixar a idade de consentimento sexual andam muitas vezes à volta de fatores como a adolescência ser muito diferente do que era antigamente e de começar mais cedo. Respeito-os, mas tenho dúvidas que o fato de os jovens iniciarem a sua vida sexual mais cedo corresponda a uma maior capacidade de escolhas maduras e acertadas”, afirma» («Baixar idade da emancipação sexual não reúne consenso», Joana Capucho, Diário de Notícias, 18.11.2013, p. 16).
      Uma jornalista — e depois de tudo o que se tem dito e escrito — a escrever semelhante barbaridade. Não admira que o zé-povinho, e não apenas o zé-cuecas, depois, em fóruns e entrevistas à queima-roupa na rua, «ache» que é assim que se escreve.
[Texto 3543]

Segundo o AO, «infantojuvenil»

Quando adoptar

      «No próximo sábado, 26, será lançado o seu [de Álvaro Magalhães] mais recente romance infanto-juvenil, O Rapaz dos Sapatos Prateados» («O brincador», Florbela Alves, Visão, 24.10.2013, p. 112).
      Se a Visão já tivesse adoptado as novíssimas normas ortográficas, seria «infantojuvenil» que a jornalista teria escrito. Assim, está tudo certo.
[Texto 3532]

Um AO à medida

À catanada

      «Turistas europeus, sul-africanos e zimbabweanos estão a cancelar as suas reservas para o final do ano em estâncias turísticas de Gaza e Inhambane, no Sul de Moçambique. O facto é justificado pelos incidentes político-militares que se verificam [sic] nos últimos dias na região centro do país, caraterizados por ataques dos guerrilheiros da Renamo a civis e por confrontos com o exército governamental. Em Vilanculos, província de Inhambane — considerado um dos maiores centros de turismo do país — não foram revelados números globais, mas é certo que trinta reservas, num só estabelecimento turístico, estão comprometidas, pois um grupo de turistas do Zimbabue [sic] já disse, em definitivo, que não virá a Moçambique» («Turistas estão a cancelar viagens a Moçambique», Alexandre Chiure, Diário de Notícias, 14.11.2013, p. 26).
      Quanto a «zimbabweanos» e «Zimbabue», nada a comentar. Já no que respeita à aplicação do novo acordo ortográfico, vê-se que o jornalista se limita a decepar todos os cc e, presumivelmente, todos os pp, sejam mudos ou não. Mas cá também não falta quem escreva «caraterizado» e «caraterística», que, se são variantes, são muito menos usadas. A meu ver, deviam evitar omiti-las nestas palavras. «Facto» é que, graças a muita insistência, já sabem — sem compreender porquê — que não perde o c.
[Texto 3520]

Como se escreve nos jornais

Assim se vê a força do AO

      «No Campo Pequeno, cuja praça era dominada por um painel gigante com a carismática figura de Álvaro Cunhal ao lado do título “Vida, pensamento e luta, exemplo que se projeta na atualidade e no futuro”, o evento começou com a banda Brigada Vítor Jara, seguindo-se duas canções interpretadas por Luísa Basto da “varanda presidencial” e que terminou com a famosa Avante, Camarada, A Internacional e A Portuguesa (hino português)» («PCP “pronto a assumir” governo e dar vida ao sonho de Cunhal», Manuel Carlos Freire, Diário de Notícias, 11.11.2013, p. 8).
      Só se mudou de nome, porque sempre foi Brigada Victor Jara. Ah, claro que a varanda precisava das aspas, é um elemento estrutural tão necessário como os pilares ou as paredes.
[Texto 3497]

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