Léxico: «carrinha celular»

Estamos sempre a tempo

      «A carrinha celular partiu do Estabelecimento Prisional de Braga, transportando reclusos que seriam julgados no Tribunal de Guimarães e foi já quase a chegar à cidade que, na descida da autoestrada, após o alto da Morreira, na freguesia de Brito, que [sic] o veículo entrou em despiste» («Reclusos e guardas prisionais feridos em acidente na A11», Diário de Notícias, 30.01.2013, p. 21).
      Só hoje, depois de eu ter feito a sugestão, é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora passou a registar a locução carrinha celular.

[Texto 2555]
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Outros em «-cídio»

Incompleto

      E, a propósito, fui ver como trata o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora os termos terminados em -cídio. Trata mal. Assim, se regista gaticídio, o acto ou efeito de matar gato(s), não regista avunculicídio, a morte do tio materno. Pior ainda: regista animicida, aquele ou aquilo que mata a alma, e não regista animicídio. Chega, como amostra. Para uma pequena lista de termos com este elemento, ver aqui no Assim Mesmo.
[Texto 2554]
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Sobre «austericídio»

O contrário do que se pretende

      «“Este contexto de pressão coletiva, em resultado da política de ‘austericídio’ que o governo e a troika estão a levar à prática, afeta todas as famílias portuguesas. E as mulheres nas famílias são quem mais paga os custos”, afirmou [Ana Gomes], em Bruxelas, em declarações ao DN» («Ana Gomes acusa Governo de “austericídio”», J. F. G., Diário de Notícias, 30.01.2013, p. 12).
      Mau! Mas Ana Gomes não estará a dizer precisamente o contrário do que pretende? Austericídio só pode ser a morte da austeridade, como «homicídio» é a morte de uma pessoa praticada por outra. A eurodeputada socialista queria dizer talvez democídio, que é a morte do próprio povo às mãos do Estado.

[Texto 2553]

 

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Léxico: «baforada»

Inspirar e expirar

      «Dá uma baforada no cigarro, sai do centro, nem mais uma palavra» («Recordações dolorosas para quem tenta viver com a perda e... a saudade», Luís Godinho e Luís Fontes, Diário de Notícias, 29.01.2013, p. 4).
      Pensamos logo em fumaça, mas esta é a «quantidade de fumo aspirado de uma vez», tal como a passa é o «acto de inalação profunda do tabaco ou droga que se está a fumar», ao passo que a baforada é o «sopro de fumo de cigarro, charuto, etc.» Tudo segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas torço o nariz àquele «acto de inalação». Não chegava «inalação», que já é o acto ou efeito de inalar?
[Texto 2552]
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Tombuctu e Bamaco

Gostam mais do bambara

      «O presidente da Câmara de Tombuctu, Halley Ousmane, que se encontra em Bamaco, considerou o incêndio como um “verdadeiro crime cultural”» («Destruição de manuscritos no Mali é “crime cultural”», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 29.01.2013, p. 24).
      Na rádio e na televisão, só se ouve Timbuktu. No nome da capital, fazem sempre gala de usar o k. Respeitam mais o bambara do que o português.
[Texto 2551]
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«Chancelada pela Editorial Caminho»

Também está bem

      «Segundo Irene Fialho, com esta edição, chancelada pela Editorial Caminho, “não se pretende empreender qualquer tipo de estudo crítico sobre a biografia, a personalidade ou a escrita de Eça de Queiroz”» («Cartas trocadas entre Eça e mulher em livro», Diário de Notícias, 29.01.2013, p. 49).
      O habitual é escrever-se «com chancela da editora X», mas é outra forma, igualmente correcta, de o dizer.
[Texto 2550]
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Léxico contrastivo: «guria»

Brasileirismo

      «“Os primeiros a sair tentavam puxar quem estava lá dentro. Apareciam mãos, braços na porta entre a cortina de fumaça. Puxamos várias pessoas. Eu, inclusive, puxei uma guria pelos cabelos. Foi um caos, o maior desespero”, contou o estudante de medicina, [sic] Murilo de Toledo Tiecher, ao jornal Zero Hora» («Quatro detidos e muitas dúvidas no inquérito à tragédia no Brasil», Susana Salvador, Diário de Notícias, 29.01.2013, p. 23).
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que regista o termo, usado no Brasil, é a «criança do sexo feminino» ou a «namorada». No caso em apreço, não é. Segundo o Dicionário Houaiss, é a «moça com quem se namora; namorada, garota». Nas mesmas circunstâncias, um jovem português diria rapariga, miúda, talvez garina.
[Texto 2549]
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Léxico: «branquela(s)»

Devia estar

      «Abebe Selassie é o escurinho, como o outro da troika é o careca e nem sei a qual dos dois branquelas me refiro, confundo-os (daí a escolha do sindicalista em especificar Selassie, o mais nítido dos três)» («Sei lá se é racismo? Sei, não é!», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 29.01.2013, p. 56).
      Com tantos termos pejorativos e ofensivos nos dicionários, este não está dicionarizado. Não está, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
      «Cercados por grades, pelo medo, cercados pela espera, para todos os lados dos poucos lados para onde nos podemos virar, merda pelos cantos que ninguém limpou, um cheiro constante eterno, mijo, suor que já não se lava, passos nos corredores, quem vem lá, basta ouvir um portão abrir e logo quem vem lá, sempre a mesma pergunta, todos os dias, todos os minutos que ouvimos com estrondo, badaladas de ferro nas têmporas, quem vem lá, o padre finalmente, o Américo que chama para nos alinharmos, outro russo, ou outro que não sendo russo é como se fosse, mais um preto, ciganada, um branquelas magrito, um gordo de bigode que não se percebe se é branco ou mulato ou monhé, um gordo de bigode que não gostou que o gajo de trás lhe buzinasse no semáforo, trazia um ferro ali à mão, o gajo de trás não volta a buzinar, ia atrasado para o emprego e podes apostar que o despediam se não tivesse ido a enterrar no dia seguinte» (Canário, Rodrigo Guedes de Carvalho. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007, pp. 60-61).

[Texto 2548]
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O AOLP90 à medida

Corte e costura

      «O fato de a jovem ser menor faz que não seja responsabilizada criminalmente» («Adelaide Ferreira ouvida por juiz», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 29.01.2013, p. 18).
      Com um acordo à medida, aparecem mais fatos que nunca. Essa é que é essa. Mera gralha? Dantes nunca se via.
[Texto 2547]
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Léxico: «homicídio oblativo»

Mesmo para ateus

      «No caso da morte dos filhos, ela é encarada pela mãe como um homicídio oblativo, ou seja, é visto como uma prova de amor, é um homicídio de misericórdia, para poupar os filhos a um sofrimento insuportável» (psiquiatra Pedro Afonso, em declarações ao Diário de Notícias, 29.01.2013, p. 12).

[Texto 2546]
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Léxico: «precatório-cheque»

Já não há

«Mas, ontem à tarde, quando se apresentou na agência da Caixa Geral de Depósitos (CGD) de Moscavide para levar [sic] o dinheiro, o advogado de Elvas soube que a conta indicada no precatório cheque emitido pela 8. [sic] Vara Criminal de Lisboa, onde decorre o processo, estava vazia. [...] Hugo Marçal saiu ontem de Oliveira do Bairro, onde agora reside, com o objetivo de levantar o precatório cheque na secretaria do tribunal e depois ir ao banco sacar o dinheiro. [...] Ou seja, os precatórios cheques haviam desaparecido dando lugar aos documentos únicos de cobrança (DUC). [...] Antes, o tribunal passava o precatório cheque para ser levantado no banco» («Tribunal devolve 10 mil euros a Marçal em cheque careca», Licínio Lima, Diário de Notícias, 29.01.2013, p. 17).
      Não é por ter deixado de existir que não merece estar dicionarizado. Em alguns acórdãos e diplomas legais, surge hifenizado, precatório-cheque, que é como se vê num decreto de 1918: «Os depósitos obrigatórios serão levantados por meio de precatórios-cheques, assinados pelas autoridade que tiverem jurisdição sôbre os depósitos, nos termos das leis e segundo a constituição dos mesmos depósitos.»

[Texto 2545]
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Léxico: «espalhafatar»

Incompletos

      «Os brados e o estrépito do arruído ouviam-se distintamente. A rua e o largo estavam inteiramente desertos. Apenas se via sentada na ombreira de uma porta uma mulher já de idade, chorando e espalhafatando em altos brados de aflição» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 196).
      Lá está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, como está noutros, mas um dicionário, ainda que bom, sem abonações é só meio dicionário.
[Texto 2544]
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Léxico: «teia»

Confirma-se

      «Era uma grande sala [a do tribunal da antiga Bolsa comercial do Porto], de paredes inteiramente nuas, e com enormes e pesados bancos de pau castanho enfileiradas [sic] ao longo delas. Ao fundo estanceava a teia» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 147).
       Já aqui tínhamos debatido esta questão do nome da divisória da sala do tribunal, e citei mesmo outro passo desta obra de Arnaldo Gama. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é a terceira acepção.
[Texto 2543]
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Léxico: «criptojudeu»

Eu voto que sim

      «Foi a ideia de que existiriam milhares de judeus em Portugal que presidiu à construção, no Porto, de uma sinagoga [Kadoorie Mekor Haim] destinada a albergar não apenas a comunidade já existente mas também os criptojudeus (judeus que praticavam a sua fé e os seus costumes em segredo, por receio de perseguições religiosas)» («Sinagoga do Porto, a maior da Península, celebrou ontem 75 anos», Público, 28.01.2013, p. 48).
      Acho que não se perdia mesmo nada se estivesse registada em todos os dicionários.

[Texto 2542]
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«Por sua alta recreação»

Veja, grão-mestre

      «O grão-mestre do Grande Oriente Lusitano (GOL), Fernando Lima, diz que maçons que não seguiam “os nobres valores da maçonaria” deixaram a instituição “por sua auto-recriação”, após o escândalo sobre uma alegada rede de interesses. Uma polémica que acabou por ter um efeito que surpreende Fernando Lima: “A frequência das lojas, e inclusive a aderência de elementos, foi significativa, maior do que se poderia esperar após esta situação.”» («Escândalo de 2011 fez aumentar frequência das lojas maçónicas», Público, 28.01.2013, p. 7).
       Que algum irmão diga ao grão-mestre, se tiver coragem, que não é assim que se diz, mas sim «por sua alta recreação». Pode ser este: «Se Fernando estava, ele era a mão activa da candonga. De contrário, procedia ela por sua alta recreação» (A Casa Grande de Romarigães, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1959, p. 110).
[Texto 2541]
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«Sentiu os segundos a...»

Não apostes

      «Sentiu os segundos a esgotar-se, cada segundo a afastá-lo de Agnès, cada instante a tornar irrevogável a separação» (A Filha do Capitão, José Rodrigues dos Santos. Lisboa: Gradiva, 2004, p. 368).
      Que acham que está oculto ali: esgotar-se ou esgotarem-se? Ou acham que é indiferente?

[Texto 2540]
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Um Da Vinci, dois Van Goghs...

Nada mudou

      «Sabia também que as molduras eram sólidas, bem armadas, bem doiradas, e para ter a certeza de que não havia engano possível, eu tinha de me certificar que todas elas apresentavam uma mosca de oiro novo sobre a superfície de talha em oiro velho, ao lado da lamela com o título do quadro e o nome do pintor turco, como se fossem Rembrandts ou Watteaux deste século» (Combateremos a Sombra, Lídia Jorge. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007, 2.ª ed., p. 173).
      Eu sei que já tratei deste caso, mas foi no Assim Mesmo. No plural, pois claro, pelo menos. Um Da Vinci, dois Van Goghs, três Goyas, quatro Renoirs... E por aí fora. Há algum motivo para não pluralizar os nomes dos pintores? Mas alguma coisa mudou?
[Texto 2539]
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Léxico: «austeritário»

Palavra do ano

      «O DN tinha na semana passada tentado, sem sucesso, falar com Mulas [Carlos Mulas-Granados] a propósito do contraste entre as suas posições políticas e académicas contra a austeridade e o superausteritário relatório do FMI sobre Portugal que assinou» («Irene revela ser a misteriosa Amy», Diário de Notícias, 25.01.2013, p. 12).
      Nunca antes me tinha cruzado por aí com o neologismo «austeritário». Amálgama? Não: decerto por analogia com o adjectivo «autoritário», por exemplo.

[Texto 2538]
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«Carácter», pois claro

Sempre foi

      «O comunicado não esclarece, porém, como é que uma desconhecida, estrangeira, sem qualquer trabalho publicado noutros meios ou obra para mostrar, foi contratada por uma fundação dirigida pelo ex-marido, como colunista e a peso de ouro (era paga a 16 cêntimos o carácter)» («Irene revela ser a misteriosa Amy», Diário de Notícias, 25.01.2013, p. 12).
[Texto 2537]
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Léxico: «rendoso»

Podemos pois

      «Além desta fonte de receita, criou logo outras, que eram não menos rendosas do que ela» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, pp. 93-94).
      Então se este e outros autores, no seu tempo, puderam escrever sem usar o antipático «rentável», nós não podemos? (E, é claro, também não precisou de escrever «para além». Pois nós também não.)

[Texto 2536]
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«Quanto mais/quando mais»

Jogo do dia

      «E, quando mais não fosse, esses sacrificados merecem a homenagem de uma lembrança. Mas há mais. A recordação do seu martírio será uma lição para senhores e servos» (Diário, Vols. XIII a XVI, Miguel Torga. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011, 5.ª ed., p. 242).
      Que palavra se oculta ali: será quando ou quanto? Qual a expressão certa neste contexto?

[Texto 2535]
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«A meia voz» ou «a meia-voz»?

Isto é uma república

      Continuamos a contribuir, se nos deixarem, para melhorar o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porque não há reis (nem rainhas) das palavras. No verbete «sangue-frio», temos a locução a sangue-frio. Contudo, no verbete «meia-voz», não temos a locução a meia-voz, que encontramos — sem hífen — no verbete «voz». Alguém entende isto? Que se apresente.
[Texto 2534]
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«Fungir»?

Em sonhos ou talvez não

      Era só um sonho, alheio. Nós não temos a palavra «fungir». Regista-a, desde meados da década de 1970, o dicionário da Real Academia Espanhola: «Desempeñar un empleo o cargo. Fungir de presidente. Fungir como secretario.» Também para eles é um exotismo, que há-de ter-lhes chegado da América do Sul, primeiro como termo jurídico. Afinal, também na nossa língua «fungível» só se usa nos meios jurídicos.
[Texto 2533]
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Revisão

Para lá do desejável ou BWV 565

      «Efectivamente, a quantidade alterações e correcções excede muito a nossa expectativa.» Ao que isto chegou. E de quem é a culpa de tantos erros, hã? Há sempre expectativas, desejos, sonhos. Eu também queria ser um grande músico, do que me lembro mais quando ouço música — como agora, ao ouvir a Tocata e Fuga em Ré Menor, de Bach, pela Orquestra de Câmara de Munique.
[Texto 2532]
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Duisburgo

Uma gota para esse oceano

      É verdade: em todo o lado se lê que a iniciativa («evento», como agora toda a gente diz) «Língua Portuguesa: um oceano de culturas» se está a realizar em Duisburg (ou em Duisberg, também já li).
      Escrevo sempre como Rodrigues Lapa: «Convém ainda estabelecer uma outra diferença, não isenta de significado: o malogrado musicólogo alemão Hans Spanke, ao qual nos ligou durante anos uma simpática camaradagem intelectual, vítma de um dos bombardeamentos de Duisburgo, sua cidade natal, insistia em dizer que os seus estudos não se baseavam propriamente na música oficial da Igreja, mas em textos de musica pia non liturgica» (Miscelânea de Língua e Literatura Portuguesa Medieval, Manuel Rodrigues Lapa. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1982, pp. 7-8).
[Texto 2531]
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Léxico: «corporatura»

Já era

        Aqui a minha autora diz, em relação a dois mendigos, que um deles tem uma «estatura mais robusta». Encontrei em Arnaldo Gama a palavra certa, mas entretanto de todos esquecida: «Álvaro era um belo moço de trinta anos de idade, de aspecto formosamente varonil e de galharda e bem posta corporatura, possuía fôrças superiores às do ichacorvos, era corajoso como um leão, e generoso e altivo como o melhor cavaleiro dos da Távola redonda» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, pp. 51-52).
[Texto 2530]

 

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«Ovo», uma acepção

Para escapar ao francês

      «Outras vezes, finge-se que os bebés estão em cena, mas há apenas um berço ou um ovo vazio.» Na semana passada, quem consultasse o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não encontrava esta acepção. Na quinta-feira passada, fiz a sugestão ao Departamento de Dicionários, e hoje vejo que já a registaram: «cadeira para transportar um bebé desde o nascimento até atingir cerca de dez, ou no máximo treze, quilos de peso; coque». E eu nunca tinha ouvido falar em «coque» nesta acepção, mas é uma má troca, pois vem do francês (marca comercial?) babycoque ou baby coque.
[Texto 2529]
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Como se fala por aí

FEDER

      Tantos sistemas de segurança, «redundantes», dizem os especialistas, mas afinal os comboios continuam a chocar uns contra os outros. Desta vez, em Alfarelos. Um dos passageiros disse ontem no Telejornal o que sentiu: «uma trepilação enorme; quando dou por ela, estou com a cabeça quase debaixo do banco». Talvez haja pior. Conheço uma professora de Português já aposentada que diz, vezes seguidas e com toda a certeza do mundo, que isto e aquilo está a «fedar». Pobres alunos...
[Texto 2528]
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Como se fala por aí

A res

      Lima Coelho, presidente da Associação Nacional de Sargentos (ANS), na Antena 1, hoje: «Nós, militares, estamos ao serviço do povo português, não podemos ser tratados com esta menorização, como se não houvesse no seio dos militares a capacidade de gerir a sua própria coisa.» Um vizinho meu também está sempre, a propósito e a despropósito, a falar na coisa. No caso, é outra coisa. Pior ainda, só o comentador político Luís Delgado, que recorre com uma frequência desusada, e antes nunca ouvida nos meios de comunicação, a «coiso». Como também diz «não sei quê, não sei que mais», «frito e cozido», etc.
[Texto 2527]
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Léxico: «tenta»

Vá lá

      «Eleazar abriu os lábios da ferida, que o armeiro tinha na ilharga direita na direcção do fígado, tenteou-a com uma espécie de tenta de prata, que tomou de um estôjo que tirara do peito da garnacha, e depois de examinar cuidadosamente, pôs-se de pé, e exclamou com verdadeiro júbilo» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 83).
      Desta ainda os modernos dicionários não se desfizeram. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, lá está: «instrumento médico para sondar feridas e dilatar aberturas».
[Texto 2526]
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Mudar por mudar

Pluma caprichosa

      «Maria», acabei de ler num texto, «parece ser mais jovem, mais terna e introversa. A etimologia do nome é incerta: “rebelde”, “amada”, “excelsa”...» Só por não ser vulgar, não vou alterar para «introvertida». Há, porém, quem altere tudo e mais alguma coisa, só porque lhe apetece. Ouvi recentemente o caso de um revisor que não gostou da palavra «necrológio» e a substituiu por «obituário». São uma e a mesma coisa? Sim? Então leiam este excerto: «Morre Roberto Alvim Corrêa. Leio-lhe curto necrológio no obituário do Jornal do Brasil» (O Jogo das Ilusões, Ascendino Leite. Rio de Janeiro: EdA Editora, 1985, p. 33).
[Texto 2525]
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Léxico: «mentar»

Não é, não

      «— Andai, pois, ieramá, andai; e vós com êle, D. Eleazar. Ide ver se guareceis Fernão Martins de sua dor. Quant’á vós, ichacorvos, olhai que se cuidais poder ser volteiro a vosso sabor, por já não terdes a orelha esquerda... mentai bem isto que vos digo... tendes ainda a orelha direita, que, jurami, vos não será muito tempo na cabeça, se assim continuais a resistir à justiça da cidade» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 79).
       No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, podemos ver que «mentar» é termo usado em Cabo Verde e que significa mencionar, nomear. Mais: «Do crioulo cabo-verdiano mentâ(r), a partir do termo arcaico mentar, “idem”).» Corpo de Deus consagrado! Qual idem, qual quê! Mentar, em português arcaico, significa fazer lembrar.
[Texto 2524]
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Léxico: «camalhão»

Para não a esquecermos

      «À sua frente esvoaçam quilómetros de plásticos presos às armações das estufas, depois de terem sido arrancados pelo temporal. Os morangos, ordeiramente plantados em camalhões (porção de terra entre dois sulcos), ficaram assim a descoberto e estragaram-se com a chuva e o vento. Os agricultores dizem que ficaram “queimados”. E comparam as poucas plantas que têm as folhas viçosas com a maioria que o vento queimou» («Vinte horas de vento forte destruíram plantações de morango do Oeste», Carlos Cipriano, Público, 21.01.2013, p. 8).
[Texto 2523]
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Por vontade expressa

À nossa medida

      Mário Zambujal continua com os seus aportuguesamentos, nem todos para rir: «As notícias não chegavam tão frescas como se as mandassem por telefone ou internete, mas cá se ia sabendo como Napoleão engolia cidades e nações. Elevaram-no os franceses a nível de super-herói, enquanto tirano e cão raivoso lhe chamavam os maltratados. Que se cuidasse Portugal, não tanto por embirração do conquistador, mas por ser um pernas abertas para os ingleses» (Cafuné, Mário Zambujal. Lisboa: Clube do Autor, 2012, pp. 27-28. Revisão Henrique Tavares e Castro).
      E mais: «Por vontade expressa do autor, a presente edição não segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990.»
[Texto 2522]
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Acordo Ortográfico, de novo

AOLP — as contas

      «E, considerando a informação aí veiculada, a resposta é a seguinte (contagem feita manualmente): antes do Acordo – e exceptuando as palavras com alteração do hífen, as palavras graves acentuadas no Brasil e não em Portugal (como idéiaideia) e as palavras com trema (pelo seu número residual e por tais situações afectarem sobretudo a ortografia brasileira) —, havia 2691 palavras que se escreviam de forma diferente e que se mantêm diferentes (por exemplo, factofato), havia 569 palavras diferentes que se tornam iguais (por exemplo, abstracto e abstrato resultam em abstrato), e havia 1235 palavras iguais que se tornam diferentes.
      Está a ler bem: com o Acordo Ortográfico, aumenta o número de palavras que se escrevem de forma diferente!!!» («A falsa unidade ortográfica», Maria Regina Rocha, Público, 19.01.2013, p. 48).

[Texto 2521]
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Acordo Ortográfico

Não se percebe bem porquê

      «Focando, então, o Acordo actual, em primeiro lugar, deverei dizer que uma pessoa com formação linguística naturalmente que não estaria, à partida, contra um acordo ortográfico. E deverei dizer, ainda, que houve, neste acordo, tentativas (embora não totalmente eficazes) de resolver algumas questões ortográficas relativamente à grafia de novas palavras, concretamente no que diz respeito à utilização do hífen» («A falsa unidade ortográfica», Maria Regina Rocha, Público, 19.01.2013, p. 48).

[Texto 2520]
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Léxico: «chispo»

Chispa daqui

      «Nos pés calçava uns chispos, sapatinhos muito delicados, altos e de longos bicos, de carneira vermelha com lavores a prêto» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 35).
      Outro nas mesmas condições de «rausar». Era o nome que se dava ao sapato de mulher muito alto e agudo, usado antigamente. Claro que, se soubermos que dantes se dava o nome de chispo ao que hoje é conhecido unicamente por chispe, a analogia salta à vista.
[Texto 2519]
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Léxico: «rausar»

Desaparecido entre o pó

      «— Fernão Martins, Fernão Martins, acorrei-nos, que rausam Alda! Aqui d’el-rei! Aqui-d’el-rei! Força-nos Pero Anes, cabdel...» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 49).
      É antigo, logo vai para o lixo. E lá temos de ir aos dicionários antigos. «Rausar: raptar e violar a virgem ou mulher honesta.» Francisco Torrinha, contudo, defendeu que a grafia correcta é «rauzar».

[Texto 2518]
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Quando não existia a nefanda

Agora seria impossível

      «Por esta armadura mais de cavaleiro do que de peão, e pelas maneiras com que era tratado pelos outros, via-se bem que aquêle homem era o cabeça dos demais» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 47).
      Se fosse um romance actual, escrito no nosso tempo, aquele homem só podia ser... líder! Já não há chefes, nem cabecilhas, nem cabeças, nem principais.
[Texto 2517]
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Léxico: «ichacorvos»

Este também ninguém o vê

      É em vão que procuramos nos dicionários recentes da língua portuguesa o vocábulo «ichacorvos» ou «echacorvos». Vem directamente do castelhano, echacuervos, como bem se vê. O Aulete, que não rejeitou tudo o que é antigo, conserva-o: «leigo que os prelados autorizavam a pregar pelas praças públicas, para colher esmolas». E também «impostor, embusteiro», mas é na primeira acepção que o vemos empregado neste passo de Arnaldo Gama: «Depois seguiu-se o tirilintar das espadas e das achas de armas sôbre o gibanete do ichacorvos, e o martelar da bisarma dêle sôbre os escudos e sôbre os bacinetes dos contrários» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 50). Ah, sim, «tirilintar» também se sumiu dos dicionários. Vá lá, ainda conservam «terlintar» a par de «tilintar».

[Texto 2516]
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«Quando muito», de novo

E por falar em erros

      É uma notícia de ontem: a pró-reitora da Universidade de Lisboa, Luísa Cerdeira, detectou erros no relatório do Fundo Monetário Internacional: «Por outro lado, por exemplo, naquilo que fala em relação à despesa do ensino superior, devem-se ter enganado, porque foi um trabalho à pressa, provavelmente, e fala de 1,6 mil milhões da despesa do ensino universitário público. É errado. Quanto muito, aquilo será o ensino superior: universidades e politécnicos.»
      Se até o cronista que abomina os indígenas se engana, quanto mais uma simples indígena, ainda que pró-reitora. É, já o vimos bastas vezes, quando muito que se diz, isto é, no máximo, se tanto.

[Texto 2515]
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«Alguém» ou «ninguém»?

Será mesmo exigido pela língua?

      «Era o fidalgo a única pessoa que exercia influência em Bento de Araújo, e tamanha que pudera arrancar-lhe alguns mil cruzados a juros, sob juramento de não dizer a alguém que lhos devia» (Novelas do Minho, 1.º vol., Camilo Castelo Branco. Fixação do texto e nota preliminar pela Dr.ª Maria Helena Mira Mateus. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1971, p. 213). Já tratei desta questão vai para sete anos. Outro Araújo, o excelso João de Araújo Correia, na obra Enfermaria do Idioma, afirma que uma das cismas de Camilo era, em certas frases, «substituir o alguém da sua cachimónia ao ninguém exigido pela sua e nossa língua» (p. 188). Se antes me pareceu que Araújo Correia tinha razão, hoje já tenho dúvidas.

[Texto 2514]
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Plural de «Satanás»

Em português lídimo

      «— Basta, e ouve. Eu te direi em duas palavras e português lídimo ao que venho. De hoje por diante, mandarás cerrar e trancar muito bem tua porta. Andam os andaluzes na costa, e fortes como satanazes...» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 45).
      No Dom Quixote está «¡Válgate mil satanases», mas não me lembro como se tem traduzido para português. «Sesenta mil satanases te lleven», deseja o Cavaleiro da Triste Figura a Sancho Pança. É um plural duplo ou redundante, como «filhoses», por exemplo, ou «ilhoses», mas de natureza diferente do caso de «querubins», em que na língua do étimo o sufixo -im já indica plural. E claro que, na ortografia actual, o plural é satanases.
[Texto 2513]
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Léxico: «londres»

É pena

      Esta manhã, no Sul de Londres, um helicóptero caiu depois de embater numa grua instalada num arranha-céus em construção. E londres, nome comum, conhecem? Nem os dicionários. E, no entanto, ei-la: «Rodeava-lhe o pescoço uma esclavagem de belas granadas, e vestia sainho de meini verde esmeralda, e uma fraldilha de londres azul, rofegada de festos e cingida por uma faixa ou cingidouro de escarlate» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 35). 
      Era uma espécie de tecido antigo, fabricado em Londres. À mudança gramatical, já o vimos há sete anos no Assim Mesmo, em que um substantivo próprio passa a substantivo comum, ou vice-versa, dá-se o nome de derivação imprópria. Pois claro: esclavagem, meini e rofegar também se eclipsaram entretanto dos nossos dicionários.
[Texto 2512]
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Sobre «maometanismo»

Ambos do francês, é claro

      Acabei de ler um texto em que o autor usou a palavra «maometanismo». Caramba. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o verbete remete para «maometismo». «Termo, como o maometismo, impròpriamente usado para designar a religião pregada por Maomé. A designação mais apropriada dessa religião é Islamismo, de Islão, “submissão à vontade divina” (v.). Por maometismo ou maometanismo devemos porém compreender o conjunto de factores sociais, económicos e militares que acompanharam a eclosão do islamismo e a sua propagação a um vasto sector geográfico do Mundo» (Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. 16, p. 194).

[Texto 2511]
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Ortografia: «daytime»

Só uma

      «Desde ontem que o day time da RTP1 está diferente. Da parte da manhã, a Praça da Alegria é agora conduzida por João Baião e Tânia Ribas de Oliveira em direto de Lisboa e as tardes contam com José Carlos Malato e Marta Leite de Castro à frente de Portugal no Coração» («Alberto da Ponte visitou ontem os estúdios dos programas de ‘day time’», Márcia Gurgel, Diário de Notícias, 15.01.2013, p. 50).
      Todos os dicionários de inglês que consultei registavam daytime, uma só palavra. E desconfio que não precisamos dela para exprimir a ideia. Tal como não precisamos de prime time, que felizmente vejo cada vez mais traduzida pela expressão portuguesa «horário nobre».
[Texto 2510]
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Tradução: «condition»

Um dia

      «Recorde-se que a mulher do filho mais velho da princesa Diana e do príncipe Carlos esteve recentemente internada no hospital londrino King Edward VII, com enjoos matinais crónicos (hyperemesis gravidarum), condição comum numa grávida múltipla» («Bebé pode nascer no aniversário da princesa Diana», Marlene Rendeiro, Diário de Notícias, 15.01.2013, p. 53).
      Um dia, quando dispuser de tempo (talvez hoje), a jornalista Marlene Rendeiro ainda vai comprovar num dicionário que nem todas as acepções do inglês condition têm correspondência no nosso vocábulo «condição».
[Texto 2509]
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Léxico: «ânsio-depressivo»

Já podem usar

      «Segundo a sua defesa, entregue ao advogado Rui Veiga Pinto, um ano após a sua “destituição sem justa causa”, o maestro ainda sofria de “sintomatologia ânsio-depressiva grave”, que se manifestava em “apatia, sentimentos de desespero e mesmo inclinação suicida”. Uma junta médica acabou por o declarar incapaz, levando à sua aposentação prematura» («Tribunal da Relação nega indemnização de dois milhões ao maestro Graça Moura», Ana Henriques, Público, 15.01.2013, p. 10).
[Texto 2508]
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É «meteorológico», suas melgas

Também tu, Arnaldo?

      «Ninguém se entendia com aquelas pirraças metereológicas, que é bem de calcular o quanto acrescentariam de zanga àquêles espíritos já por tão justos motivos concitados» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 11).
      Culpa do tipógrafo, eu sei. Pois. Como também sei que, na rádio e na televisão, é erro muito comum. Ou era. Na passagem do ano, comecei a reparar que o Instituto Português do Mar e da Atmosfera passou a integrar vários institutos, entre eles o Instituto de Meteorologia, o que, deo gratias, reduzirá a oportunidade de propinar aos ouvintes mais uma calinada. De meteoro (e saberão, mesmo a generalidade dos jornalistas, que meteoro é o nome que se dá a qualquer fenómeno que ocorre na atmosfera? Hum...) só podíamos ter meteorológico, ou não?
[Texto 2507]


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«Modelizar»?

É só copiar sem pensar

      «Pelo contrário, quando modelizaram a aerodinâmica das gaivotas e estimaram o número dessas aves necessário para levantar o pêssego e arrastá-lo, ao longo de milhares de quilómetros, atrelado à “cordas” excretadas por um bicho-da-seda gigante, perceberam que aí as contas não batiam nada certo. O número de 501 gaivotas avançado por Dahl estava completamente errado» («Quantas gaivotas conseguem levar um pêssego gigante até a [sic] América?», Ana Gerschenfeld, Público, 14.01.2013, p. 26).
      Tinha de ser: directamente do inglês to modelize. E para quê, não temos forma de dizer exactamente o mesmo com uma palavra nossa? Temos.
[Texto 2506]
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Léxico: «XPTO»

Tal como este

       «Podiam ter gravado num estúdio xpto», acabei de ler. XPTO começou por ser apenas o tetragrama (abreviatura, X. P. T. O., como informa Fr. Domingos Vieira e Botelho de Amaral lembra) sagrado dos tempos das catacumbas, e mais tarde nos manuscritos, e que servia para designar Cristo. Com o tempo, passou a designar, em sentido figurado e na gíria, o que é óptimo, excelente, de elevada qualidade. Ora, para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, XPTO é somente a «abreviação da palavra grega XPISTOS» e significa Cristo. Não chega, meus senhores, está incompleto.

[Texto 2505]
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Léxico: «pedipalpo»

Está, pois, incompleto

      Lembram-se do opilião? Pois ainda não está no dicionário. E agora leio que, para «detectarem o que se passa em seu redor, os opiliões utilizam os pedipalpos (segundo par de patas mais próximo da cabeça), com função sensorial». Ora, para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, pedipalpo, como substantivo, é apenas a «ordem de aracnídeos tropicais, caracterizados por terem quelíceras terminadas por unha e o primeiro par de membros em forma de chicote». Para o Houaiss, «pedipalpo» também é o segundo par de apêndices dos aracnídeos, o que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só conhece como palpo, «cada um dos elementos do segundo par de apêndices dos aracnídeos».

[Texto 2504]
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Sobre «primeiro-imediato»

Está aí alguém da Marinha?

      «O primeiro-imediato recebeu o dinheiro que Boraxis lhe entregou e deu-lhe as instruções dos nossos quartos» (Acheron, Sherrilyn Kenyon. Tradução de Maria Margarida Malcato e revisão de Ayala Monteiro. Lisboa: Casa das Letras, 2011, p. 45).
      Posso estar enganado, mas com hífen creio que apenas em traduções a podemos encontrar. No Proz, precisamente a propósito da tradução de ship’s first mate, afirmam, seguindo, ao que me parece, o que se defende no Dicionário de Termos Navais, da autoria do Cmdt. António Marques Esparteiro, que «não existem primeiros, segundos ou terceiros imediatos...». Só imediatos.
[Texto 2503]
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Léxico: «charriot»

Veio de França

      Ontem aprendi uma nova palavra... francesa: charriot ou chariot. Embora os haja para vários fins, este é uma estrutura de metal, um cabide com rodas para pendurar roupa e, em alguns casos, também para guardar ou expor sapatos (ver aqui). Os figurinistas usam-nos. Ao veículo usado para deslocar a câmara durante as filmagens também se dá o nome de charriot. Parece que não querem que haja chamadoiro português para coisa tão comezinha.
[Texto 2502]
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Serra de Guadarrama

Outra surpresa

      «Na Península Ibérica, foi identificado pela primeira vez o fungo no sapo-parteiro-comum na serra de Guadamarra [sic], em Espanha, em 1997, por Jaime Bosch, do Museu Nacional de Ciências Naturais de Madrid, um dos autores do novo estudo» («No cimo da serra da Estrela já não se ouve o coaxar do sapo-parteiro», Nicolau Ferreira, Público, 11.01.2013, p. 26).
      E agora, em vez de Sierra de Guadarrama, como se espera sempre que escrevam, serra de Guadarrama. Muito bem.
[Texto 2501]
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Cidade Real

Surpresa

      «O alerta foi dado em 2009. Ibone Anza passeava-se na serra da Estrela e, numa das zonas do planalto superior, a investigadora do Instituto de Investigação de Recursos Cinegéticos, na Cidade Real, em Espanha, encontrou sapos-parteiros [Alytes obstetricans] mortos junto a uma lagoa. Quando se analisaram os cadáveres, descobriu-se que estavam infectados com um fungo que causa uma doença — a quitridiomicose — que é responsável pelo declínio de muitas espécies de anfíbios» («No cimo da serra da Estrela já não se ouve o coaxar do sapo-parteiro», Nicolau Ferreira, Público, 11.01.2013, p. 26).
      Quem diria, ler no Público Cidade Real e não, atreitos que são a tudo o que é estrangeiro, Ciudad Real.

[Texto 2500]
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O audacioso «acordo ortográfico»

O pouco e mal que escrevem

      «Só que os portugueses, quando não conseguem pagar as contas, pensam imediatamente em conquistar um império, de preferência o império que perderam. E, como são modestos, pensaram logo no Brasil. O nosso alto comando congeminou logo uma estratégia irresistível: importar para Portugal a ortografia brasileira. No momento em que os portugueses escrevessem (o pouco e mal que escrevem) sem consoantes mudas, o Brasil não podia deixar de se render, com uma saudade arrependida e desculpas rasteiras. Mas, como a humanidade é má, em particular no hemisfério sul, o Brasil terminantemente recusou o nosso audacioso “acordo ortográfico” e deixou Portugal sem consoantes mudas, pendurado numa fantasia ridícula e sem a menor ideia de como vai sair deste sarilho: um estado, de resto, habitual» («Histórias portuguesas», Vasco Pulido Valente, Público, 11.01.2013, p. 52).
[Texto 2499]
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Podem escrever: «subestrutura»

Ora, está mal

      Querem então mais uma incoerência (lacuna, erro...) encontrada nos dicionários? Seja no de sempre. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «substrutura», mas não «subestrutura», ao passo que acolhe o par «superestrutura/superstrutura».
[Texto 2498]
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Acordo Ortográfico II

Alguém com juízo

      «A Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) vai continuar a redigir os seus documentos e a sua comunicação de acordo com a norma ortográfica antiga, recusando-se a implementar já as disposições do Acordo Ortográfico (AO). [...] Este polémico dossier teve, esta semana, mais um desenvolvimento na AR, com a aprovação, por unanimidade, na terça-feira, da criação de um Grupo de Trabalho para Acompanhamento da Aplicação do AO, sob proposta do deputado comunista Miguel Tiago» («SPA não adoptará o Acordo Ortográfico», Sérgio C. Andrade, Público, 10.01.2013, p. 27).
[Texto 2497]
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Acordo Ortográfico

Corrijamos a monstruosidade

      Eis o último parágrafo do texto de Maria Alzira Seixo hoje no Público a propósito do Acordo Ortográfico de 1990: «É tempo, é ainda tempo! Se saber escrever foi, até hoje, caminho para pensar melhor, com o Acordo Ortográfico pôr-se-ia em prática a máxima ideal para Governos opressores ante os cidadãos que governam: quanto mais analfabetos, melhor... Ora isto não se compadece com um passado de Abril, e se alguém sai beneficiado não é, pela certa, o cidadão, nem a cultura, nem a política — pelo menos a de espinha direita! Saúde-se, pois, o baque de consciência de Evanildo Bechara, e a hora feliz em que Dilma Rousseff atalhou: “Alto! e pára o baile” — em vez de “para o baile”, como quer o Acordo, que tira o acento a “pára” assimilando-o a “para”, confundindo movimento com inacção, numa simbólica emblemática dos seus confusos objectivos. Contra esta confusão do entendimento, corrijamos de vez a monstruosidade que nos sai tão cara: em dinheiro que não temos, e no saber que é nosso, e alguns se interessam em destruir» («O Acordo Obscurantista», Maria Alzira Seixo, Público, 10.01.2013, p. 47).

[Texto 2496]
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Sobre «supposed»

Não desta vez

      «It wasn’t supposed to get serious between us», lia-se no original. «A nossa relação não era para ser nada de sério», verteu o tradutor. Vai sendo relativamente raro podermos ler coisas assim. O «ser suposto» veio para ficar, quem sabe se para sempre, se é que há alguma coisa («na puta da vida», acrescentaria A. B., que, mesmo milionaríssimo, morreu com menos de 50 anos) para sempre. Desta vez, contudo, perdeu.

[Texto 2495]
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Léxico: «caveado»

Bem aviados, isso sim

      «You were wearing a tank top», dizia-lhe ele, nostálgico. «Tu trazias uma camisola de manga caveada», verteu o tradutor. E, de facto, tank, para o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, é a camisola sem mangas, camisola caveada. O pior é que, quando vamos ver o verbete «caveado», o mais próximo que encontramos é... «aveado»: que tem veia de doido; telhudo.

[Texto 2494]
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Léxico: «latissolo»

Incongruência

      O autor falava em latissolo, e eu fui consultar, como me competia, o dicionário. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porém, só conhece latossolo: «solo geralmente profundo, de cor vermelha ou vermelho-amarelada, rico em ferro e alumina, encontrado em florestas tropicais, num clima húmido e de temperaturas altas». Nem quero saber se regista argissolo, cambissolo, chernossolo, fluvissolo, luvissolo, neossolo, plintossolo, vertissolo...
[Texto 2493]
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Sobre «hiperventilar»

Só transitivo

      Está aqui uma personagem antipática a hiperventilar. «Oh, my God.» Ela «started hyperventilating». No entanto, se para os dicionários de língua inglesa hyperventilate é «to breathe in this manner [abnormally fast or deeply] as from excitement or anxiety», para os nossos é apenas «fornecer ar ou oxigénio em quantidade excessiva a».
[Texto 2492]
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«Reboliço/rebuliço»

Há-de continuar a ser

      «Surpreendidos? Também nós. Brad Pitt não é um adepto das redes sociais e não tem conta no Facebook, nem utiliza o Twitter. Mas desde segunda-feira pode encontrá-lo na rede de microblogging chinesa Weibo. A mensagem: “It is truth. Yup, I’m coming.” (“É verdade. Sim, estou a chegar.”) Foi um reboliço. Reenviada milhares de vezes, obteve mais de 20 mil respostas em pouco tempo. A conta do actor na Weibo tem já mais de 175 mil seguidores, mas ainda está longe de Emma Watson — mais de 470 mil seguidores na mesma rede» («Facebook ou Twitter? Não, Pitt está no Weibo», Público, 9.01.2013, p. 39).
      Certa vez, Montexto comentou no Assim Mesmo que no Aulete Digital se encontrava a informação de que «reboliço» e «rebuliço» são variantes. E é verdade, como também é verdade que o verbete actualizado daquele dicionário não reproduz toda a informação do verbete original, e compreende-se porquê, embora a abonação seja do mesmo autor. No verbete original, está a informação de que «reboliço» como variante de «rebuliço» é brasileirismo. Com certeza que não deixou de o ser.
[Texto 2491]
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Tradução: «in house lawyer»

Da casa, mas não a nossa

      Este aqui insiste em identificar-se como «advogado in-house» (ou in house ou inhouse...) e, por isso, acabei de sugerir ao Departamento de Dicionários da Porto Editora que no verbete «lawyer» do Dicionário Inglês-Português inclua a expressão in house lawyer e a tradução: advogado de empresa. Talvez se possa também traduzir por «advogado interno».
[Texto 2490]
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Sobre «rotundo»

Vão ver que não

      Há sempre uma primeira vez: um autor português escreve aqui «um rotundo sim». Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «rotundo» é somente redondo e, em sentido figurado, gordo, obeso. Não chega, não explica nada. Já para o Dicionário Houaiss, «rotundo» é, além de, em sentido próprio, redondo, esférico; em forma de círculo, circular, em sentido figurado é o que soluciona, decide; que encerra uma questão, uma pendência; decisivo, categórico, peremptório. Claro que o sim também pode ser quase tudo isto, não me parece é que possa ser rotundo. Posso estar enganado (como hoje quando enfiei pela Sousa Loureiro quando queria ir para a Barjona de Freitas), mas este «rotundo» vem da forma como fica a boca ao pronunciar a palavra «não». Rotunda, redonda, aberta, hiante. Experimentem agora pronunciar a palavra «sim» da mesma maneira para ver se são capazes. Ridículo.
[Texto 2489]
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Acordo Ortográfico

Portugal, 2016

      «Em 2016, eis um cenário muito possível: Angola manterá a ortografia existente anterior ao “Acordo”. Portugal seguirá, se não conseguir inverter o statu quo, o pobre “acordês”. E o Brasil terá entretanto revisto e certamente “melhorado” o “Acordo”, escrevendo numa terceira ortografia. Resumindo: cada qual escreverá de sua maneira, e ter-se-á esfrangalhado a ortografia comum que, até agora, era seguida por todos os países lusófonos, com excepção do Brasil. Ou seja: será um verdadeiro “acordo português”, em que ninguém sabe acordar» («Nem gregos nem troianos: assim-assim», Helena Buescu, Público, 8.01.2013, p. 47).
[Texto 2488]
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«Em linha»

Está quase

      «A página original, reproduzida na Vanity Fair, dizia: “Esta é a terceira nomeação de Sharen Davis, que tinha sido anteriormente nomeada por Dreamgirls (2006) e Ray (2004)”. A página esteve pouco tempo em linha (na sexta-feira, dia 4) e foi substituída por um inócuo anúncio a lembrar que “as nomeações serão anunciadas no dia 10 de Janeiro de 2013”. [...] Se não parece haver dúvidas de que a página que chamou a atenção da Vanity Fair foi colocada em linha por erro, é já bastante menos claro que se deva concluir que Davis será mesmo nomeada. Uma fonte da Academia de Hollywood citada pela revista online Atlantic Wire explica que são criadas páginas para “todos os possíveis nomeados”, e que o aconteceu [sic] é que uma delas foi colocada em linha por engano. E há um bom argumento em favor desta explicação: problemas no sistema informático usado na recolha de votos para as nomeações levaram a Academia a prolongar o prazo de votação, que só terminou no dia 5, ou seja, já depois de a suposta fuga de informação ter estado em linha» («Academia de Hollywood deixou escapar nomeação de estilista?», Público, 7.01.2013, p. 48).
[Texto 2487]
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«Arriar a bandeira»

Só calhou a vez ao calhau

      No dia 10 do mês passado, sugeri ao Departamento de Dicionários da Porto Editora que no verbete «arriar» incluísse a locução arriar a bandeira. É que o Dicionário da Língua Portuguesa acolhe outra locução — e menos usada, convenhamos: arriar o calhau. Até agora, nada. Entretanto, continuo a ver todas as semanas a calinada «arrear a bandeira». Todas as semanas, há meses.
[Texto 2486]
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Léxico: «panilas»

Se fosse do quimbundo...

      «A mulher soltou-me o braço com um sonoro muxoxo: “Panilas! Todos os pulas são panilas.” Estalaram gargalhadas. Havia mais gente ali. Vultos encostados às paredes» (Barroco Tropical, José Eduardo Agualusa. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009).
      São assim os nossos dicionários: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «muxoxo» – do quimbundo, note-se –, mas não «panilas». Ah, sim, e «pula» na acepção do texto, pessoa de raça branca, até pode derivar do verbo «pular», mas é termo angolano.
[Texto 2485]
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Léxico: «yé-yé»

Ora não sei porquê

      Ou yeyé, ou ieié... Enfim. Não está em nenhum dos dicionários que consultei. Vem do francês e há-de ser, como chachachá, que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe, de origem onomatopeica.
[Texto 2484]
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Palavra de 2012

Venceu a insensatez

      «É o estado de espírito do país que durante 2012 andou às voltas com a troika. Não será por isso de estranhar que “entroikado” tenha sido eleita a palavra do ano numa votação organizada pela Porto Editora. O adjectivo não terá sido usado com muita frequência, mas é a palavra que parece representar melhor o ano que acabou agora» (“Entroikado” é a palavra num ano de crise, cortes, impostos e desemprego», Cláudia Carvalho, Público, 5.01.2013, p. 26).
      E não, não terá sido usado com muita frequência, se é que alguma vez se usou. Nunca esteve na presença dos meus ouvidos ou dos meus olhos.
[Texto 2483]
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Como se fala nos tribunais

Assim mesmo

      «João Aibéo aproveitou ainda as alegações finais para deixar um lamento: “O Ministério Público aguentou estoicamente ao longo destes oito anos [de julgamentos] afirmações absolutamente inadmissíveis”, afirmou, recordando o dia em que Sá Fernandes lhe lançou um shame on you — assim mesmo, em inglês e em plena audiência» («Carlos Silvino tem “complexos de homossexualidade”, acusa procurador em julgamento», Ana Henriques, Público, 4.01.2013, p. 8).
      Assim mesmo – sim, porque em português não há, como é sabido, palavras que cheguem para exprimir tal coisa.
[Texto 2482]
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«Quando muito»

Ainda não

      «Antigamente, as “crises” da economia e das finanças do Estado afectavam pouco mais do que a classe média e a pequena burguesia de Lisboa e do Porto, que por causa da fraqueza da moeda deixavam de poder importar “produtos de qualidade” (a moda francesa, por exemplo) e, coitadinhas, viajavam menos. Por isso, as “crises” do liberalismo não provocavam revoluções; provocavam, quanto muito, “uniões nacionais”, que a certa altura os levaram juntinhos para o governo (sem faltar um único), pendurados numa gerigonça chamada “A Fusão” (que tanta gente, ainda em 2013, incita o dr. Cavaco a fabricar)» («Quem não sabe?», Vasco Pulido Valente, Público, 4.01.2012, p. 48).
      Quem sabe, talvez venha a ser assim, mas, por enquanto – e neste caso os dicionários portam-se bem­ –, é quando muito, isto é, no máximo, se tanto, que se diz e escreve.
[Texto 2481]
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Léxico: «assistencialismo»

É isso mesmo: só todos juntos

      Parece sempre mentira, mas é sempre verdade: faltam nos dicionários termos corriqueiros e outros que, embora mais incomuns, há muito, porém, são usados. Seja hoje «assistencialismo». É a tal doutrina que manda dar o peixe em vez de ensinar a pescar — para apaziguar a sociedade e a classe dominante continuar a ter boa consciência. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora desconhece. Por isso não é de estranhar que também não registe «oblomovismo», não é assim?
[Texto 2480]
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Tradução: «cecina»

Agora é presunto

      «Hoje é dia de falarmos de um novo produto que, sendo conhecido em Espanha, é inédito por cá: presunto de carne de vaca. Em Espanha, chama-se cecina» («Um presunto de vaca», Edgardo Pacheco, revista «Domingo», Correio da Manhã, n.º 12 551, p. 56). Nem itálico nem aspas, nada. Cecina. Segundo o Dicionário da Real Academia Espanhola, é a «carne salada, enjuta y seca al aire, al sol o al humo». O termo poderá vir de um hipotético siccīna, «carne seca», de sĭccus, «seco» em latim. Aqui já falámos de presunto de cabra e de ovelha. E talvez tenhamos de voltar a pedir: redija-se outra definição.
[Texto 2479]
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Léxico: «opilião»

Aracnologia impura

      Opilião. O Dicionário Houaiss assegura que é regionalismo brasileiro. É, lê-se na definição, a «designação comum aos arácnidos da ordem dos opiliones, que se notabilizam pelo corpo oval e compacto, pelas patas extremamente finas e longas e pelo forte cheiro desagradável que exalam». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é verdade, não o acolhe, mas não é regionalismo brasileiro.
      Opilion é, em latim, o pastor de ovelhas. Há-de haver alguma analogia, mas não muito precisa, porque o nome comum do opilião em francês é faucheur, ceifeiro, segador.
[Texto 2478]
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Léxico: «porcionista»

Não é todos os dias

      Ontem, ouvi pela primeira vez, dita por um tenente-coronel na reforma, uma palavra: porcionista. Conheciam? Espantosamente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe-a: «aluno que paga a sua educação e sustento num colégio». Estará certa a definição? Hum... Parece o contrário do que se lê em Bluteau, que é «o estudante a que se dá sustento no colégio em que assiste, como v.g. os Porcionistas dos Colégios de S. Pedro e S. Paulo em Coimbra».
[Texto 2477]
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Sobre «robe»

De chambre

      «“Hoje é o dia em que finalmente me torno a senhora Hefner. Não podia sentir-me mais feliz, afortunada e abençoada”, escreveu a noiva [Crystal Harris] no Twitter, onde publicou uma fotografia com o seu “vestido de sereia” em tons rosa. Hugh Hefner trocou o seu habitual robe e envergou um smoking para o seu terceiro casamento» («Novo ano, casamento novo», Público, 2.01.2013, p. 31).
      Aos ricos, tudo é permitido — ou era, porque a impunidade, afirmou a ministra da Justiça, acabou. De roupão, como eu também um dia vi uma figura famosa em pleno Saldanha. Ah, sim, raramente a língua me trai a dizer «robe». Por nada de especial, excepto por ser galicismo desnecessário.
[Texto 2476]
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Léxico: «raspadinha»

Sem surpresa

      «Mais de 20% das receitas dos jogos sociais explorados pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) são já proporcionadas pela lotaria instantânea, mais conhecida por “raspadinha”. [...] No caso da “raspadinha”, o seu sucesso está relacionado com alterações ao jogo, como os prémios mais substanciais (o que por sua vez implica apostas de valor mais elevado), como o “super pé-de-meia”, que podem chegar a 2000 euros por mês durante 12 anos. A “raspadinha” já é, aliás, a segunda maior fonte de receitas, tendo ultrapassado o Totoloto» («Santa Casa fecha 2012 com maiores receitas de sempre nos jogos sociais», Luís Villalobos, Público, 2.01.2013, p. 14).
      Sem aspas é que os jornalistas não podem passar. O nosso melhor cronista também gosta muito das aspas. Raspadinha já está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «jogo de azar em que se raspa o revestimento de um cartão para descobrir se se tem algum prémio». E lá anda o «super» pendurado no ar. Por fim, «jogos sociais» também é, sem surpresa, ignorado de todos os dicionários.

[Texto 2475]
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«Tiborna/tibórnia»

É uma delícia, isso sim

      «Termina hoje a mostra gastronómica do Fundão, “Aqui Come-se Bem – Tibórnia 2012”, que reúne 15 restaurantes da região» («Gastronomia no Fundão», José Carlos Marques, revista «Domingo», Correio da Manhã, n.º 12 551, p. 64).
      Creio que apenas conhecia «tiborna», mas parece que é o mesmo. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, estranhamente, não regista nenhum dos vocábulos, quando já estava em Morais: «pão quente embebido em azeite novo para se comer». E está na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (vol. 31, p. 619): «Pão quente embebido em azeite que os lagareiros costumam comer depois de findos os seus trabalhos.»
[Texto 2474]

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Plural de «xis»

Dois xis, se faz favor

      Ontem, na Antena 1, na reposição do programa Especial Música de 2012, João Gobern disse que o nome da banda inglesa The XX se escrevia com «dois xises». «Dois “xises”. Muito bem, João», afirmou, quase eufórico, António Macedo. Mas não: muito mal, João Gobern, muito mal, António Macedo. O vocábulo xis é invariável, serve para o singular e para o plural: um xis, dois xis.
[Texto 2473]
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Ainda e sempre o verbo «haver»

Pelo menos eles

      Acabaram muito mal 2012: «A partir de 2013, podem haver aumentos nas contas da luz e do gás até fim do trimestre para incentivar os consumidores a escolher o mercado concorrencial de energia» (jornalista Margarida Cruz, Telejornal, 31.12.2012, 20h08).
      Sim, pelo menos os jornalistas, que têm como ferramenta de trabalho a língua, deviam saber que o verbo «haver» é impessoal quando exprime existência e vem acompanhado dos auxiliares ir, dever, poder, etc.
[Texto 2472]
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