«A meia voz» ou «a meia-voz»?

Isto é uma república

      Continuamos a contribuir, se nos deixarem, para melhorar o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porque não há reis (nem rainhas) das palavras. No verbete «sangue-frio», temos a locução a sangue-frio. Contudo, no verbete «meia-voz», não temos a locução a meia-voz, que encontramos — sem hífen — no verbete «voz». Alguém entende isto? Que se apresente.
[Texto 2534]
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«Alguém» ou «ninguém»?

Será mesmo exigido pela língua?

      «Era o fidalgo a única pessoa que exercia influência em Bento de Araújo, e tamanha que pudera arrancar-lhe alguns mil cruzados a juros, sob juramento de não dizer a alguém que lhos devia» (Novelas do Minho, 1.º vol., Camilo Castelo Branco. Fixação do texto e nota preliminar pela Dr.ª Maria Helena Mira Mateus. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1971, p. 213). Já tratei desta questão vai para sete anos. Outro Araújo, o excelso João de Araújo Correia, na obra Enfermaria do Idioma, afirma que uma das cismas de Camilo era, em certas frases, «substituir o alguém da sua cachimónia ao ninguém exigido pela sua e nossa língua» (p. 188). Se antes me pareceu que Araújo Correia tinha razão, hoje já tenho dúvidas.

[Texto 2514]
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O audacioso «acordo ortográfico»

O pouco e mal que escrevem

      «Só que os portugueses, quando não conseguem pagar as contas, pensam imediatamente em conquistar um império, de preferência o império que perderam. E, como são modestos, pensaram logo no Brasil. O nosso alto comando congeminou logo uma estratégia irresistível: importar para Portugal a ortografia brasileira. No momento em que os portugueses escrevessem (o pouco e mal que escrevem) sem consoantes mudas, o Brasil não podia deixar de se render, com uma saudade arrependida e desculpas rasteiras. Mas, como a humanidade é má, em particular no hemisfério sul, o Brasil terminantemente recusou o nosso audacioso “acordo ortográfico” e deixou Portugal sem consoantes mudas, pendurado numa fantasia ridícula e sem a menor ideia de como vai sair deste sarilho: um estado, de resto, habitual» («Histórias portuguesas», Vasco Pulido Valente, Público, 11.01.2013, p. 52).
[Texto 2499]
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Podem escrever: «subestrutura»

Ora, está mal

      Querem então mais uma incoerência (lacuna, erro...) encontrada nos dicionários? Seja no de sempre. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «substrutura», mas não «subestrutura», ao passo que acolhe o par «superestrutura/superstrutura».
[Texto 2498]
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Acordo Ortográfico II

Alguém com juízo

      «A Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) vai continuar a redigir os seus documentos e a sua comunicação de acordo com a norma ortográfica antiga, recusando-se a implementar já as disposições do Acordo Ortográfico (AO). [...] Este polémico dossier teve, esta semana, mais um desenvolvimento na AR, com a aprovação, por unanimidade, na terça-feira, da criação de um Grupo de Trabalho para Acompanhamento da Aplicação do AO, sob proposta do deputado comunista Miguel Tiago» («SPA não adoptará o Acordo Ortográfico», Sérgio C. Andrade, Público, 10.01.2013, p. 27).
[Texto 2497]
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Acordo Ortográfico

Corrijamos a monstruosidade

      Eis o último parágrafo do texto de Maria Alzira Seixo hoje no Público a propósito do Acordo Ortográfico de 1990: «É tempo, é ainda tempo! Se saber escrever foi, até hoje, caminho para pensar melhor, com o Acordo Ortográfico pôr-se-ia em prática a máxima ideal para Governos opressores ante os cidadãos que governam: quanto mais analfabetos, melhor... Ora isto não se compadece com um passado de Abril, e se alguém sai beneficiado não é, pela certa, o cidadão, nem a cultura, nem a política — pelo menos a de espinha direita! Saúde-se, pois, o baque de consciência de Evanildo Bechara, e a hora feliz em que Dilma Rousseff atalhou: “Alto! e pára o baile” — em vez de “para o baile”, como quer o Acordo, que tira o acento a “pára” assimilando-o a “para”, confundindo movimento com inacção, numa simbólica emblemática dos seus confusos objectivos. Contra esta confusão do entendimento, corrijamos de vez a monstruosidade que nos sai tão cara: em dinheiro que não temos, e no saber que é nosso, e alguns se interessam em destruir» («O Acordo Obscurantista», Maria Alzira Seixo, Público, 10.01.2013, p. 47).

[Texto 2496]
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Sobre «supposed»

Não desta vez

      «It wasn’t supposed to get serious between us», lia-se no original. «A nossa relação não era para ser nada de sério», verteu o tradutor. Vai sendo relativamente raro podermos ler coisas assim. O «ser suposto» veio para ficar, quem sabe se para sempre, se é que há alguma coisa («na puta da vida», acrescentaria A. B., que, mesmo milionaríssimo, morreu com menos de 50 anos) para sempre. Desta vez, contudo, perdeu.

[Texto 2495]
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Léxico: «caveado»

Bem aviados, isso sim

      «You were wearing a tank top», dizia-lhe ele, nostálgico. «Tu trazias uma camisola de manga caveada», verteu o tradutor. E, de facto, tank, para o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, é a camisola sem mangas, camisola caveada. O pior é que, quando vamos ver o verbete «caveado», o mais próximo que encontramos é... «aveado»: que tem veia de doido; telhudo.

[Texto 2494]
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Léxico: «latissolo»

Incongruência

      O autor falava em latissolo, e eu fui consultar, como me competia, o dicionário. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porém, só conhece latossolo: «solo geralmente profundo, de cor vermelha ou vermelho-amarelada, rico em ferro e alumina, encontrado em florestas tropicais, num clima húmido e de temperaturas altas». Nem quero saber se regista argissolo, cambissolo, chernossolo, fluvissolo, luvissolo, neossolo, plintossolo, vertissolo...
[Texto 2493]
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Sobre «hiperventilar»

Só transitivo

      Está aqui uma personagem antipática a hiperventilar. «Oh, my God.» Ela «started hyperventilating». No entanto, se para os dicionários de língua inglesa hyperventilate é «to breathe in this manner [abnormally fast or deeply] as from excitement or anxiety», para os nossos é apenas «fornecer ar ou oxigénio em quantidade excessiva a».
[Texto 2492]
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«Reboliço/rebuliço»

Há-de continuar a ser

      «Surpreendidos? Também nós. Brad Pitt não é um adepto das redes sociais e não tem conta no Facebook, nem utiliza o Twitter. Mas desde segunda-feira pode encontrá-lo na rede de microblogging chinesa Weibo. A mensagem: “It is truth. Yup, I’m coming.” (“É verdade. Sim, estou a chegar.”) Foi um reboliço. Reenviada milhares de vezes, obteve mais de 20 mil respostas em pouco tempo. A conta do actor na Weibo tem já mais de 175 mil seguidores, mas ainda está longe de Emma Watson — mais de 470 mil seguidores na mesma rede» («Facebook ou Twitter? Não, Pitt está no Weibo», Público, 9.01.2013, p. 39).
      Certa vez, Montexto comentou no Assim Mesmo que no Aulete Digital se encontrava a informação de que «reboliço» e «rebuliço» são variantes. E é verdade, como também é verdade que o verbete actualizado daquele dicionário não reproduz toda a informação do verbete original, e compreende-se porquê, embora a abonação seja do mesmo autor. No verbete original, está a informação de que «reboliço» como variante de «rebuliço» é brasileirismo. Com certeza que não deixou de o ser.
[Texto 2491]
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Tradução: «in house lawyer»

Da casa, mas não a nossa

      Este aqui insiste em identificar-se como «advogado in-house» (ou in house ou inhouse...) e, por isso, acabei de sugerir ao Departamento de Dicionários da Porto Editora que no verbete «lawyer» do Dicionário Inglês-Português inclua a expressão in house lawyer e a tradução: advogado de empresa. Talvez se possa também traduzir por «advogado interno».
[Texto 2490]
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Sobre «rotundo»

Vão ver que não

      Há sempre uma primeira vez: um autor português escreve aqui «um rotundo sim». Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «rotundo» é somente redondo e, em sentido figurado, gordo, obeso. Não chega, não explica nada. Já para o Dicionário Houaiss, «rotundo» é, além de, em sentido próprio, redondo, esférico; em forma de círculo, circular, em sentido figurado é o que soluciona, decide; que encerra uma questão, uma pendência; decisivo, categórico, peremptório. Claro que o sim também pode ser quase tudo isto, não me parece é que possa ser rotundo. Posso estar enganado (como hoje quando enfiei pela Sousa Loureiro quando queria ir para a Barjona de Freitas), mas este «rotundo» vem da forma como fica a boca ao pronunciar a palavra «não». Rotunda, redonda, aberta, hiante. Experimentem agora pronunciar a palavra «sim» da mesma maneira para ver se são capazes. Ridículo.
[Texto 2489]
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Acordo Ortográfico

Portugal, 2016

      «Em 2016, eis um cenário muito possível: Angola manterá a ortografia existente anterior ao “Acordo”. Portugal seguirá, se não conseguir inverter o statu quo, o pobre “acordês”. E o Brasil terá entretanto revisto e certamente “melhorado” o “Acordo”, escrevendo numa terceira ortografia. Resumindo: cada qual escreverá de sua maneira, e ter-se-á esfrangalhado a ortografia comum que, até agora, era seguida por todos os países lusófonos, com excepção do Brasil. Ou seja: será um verdadeiro “acordo português”, em que ninguém sabe acordar» («Nem gregos nem troianos: assim-assim», Helena Buescu, Público, 8.01.2013, p. 47).
[Texto 2488]
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«Em linha»

Está quase

      «A página original, reproduzida na Vanity Fair, dizia: “Esta é a terceira nomeação de Sharen Davis, que tinha sido anteriormente nomeada por Dreamgirls (2006) e Ray (2004)”. A página esteve pouco tempo em linha (na sexta-feira, dia 4) e foi substituída por um inócuo anúncio a lembrar que “as nomeações serão anunciadas no dia 10 de Janeiro de 2013”. [...] Se não parece haver dúvidas de que a página que chamou a atenção da Vanity Fair foi colocada em linha por erro, é já bastante menos claro que se deva concluir que Davis será mesmo nomeada. Uma fonte da Academia de Hollywood citada pela revista online Atlantic Wire explica que são criadas páginas para “todos os possíveis nomeados”, e que o aconteceu [sic] é que uma delas foi colocada em linha por engano. E há um bom argumento em favor desta explicação: problemas no sistema informático usado na recolha de votos para as nomeações levaram a Academia a prolongar o prazo de votação, que só terminou no dia 5, ou seja, já depois de a suposta fuga de informação ter estado em linha» («Academia de Hollywood deixou escapar nomeação de estilista?», Público, 7.01.2013, p. 48).
[Texto 2487]
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«Arriar a bandeira»

Só calhou a vez ao calhau

      No dia 10 do mês passado, sugeri ao Departamento de Dicionários da Porto Editora que no verbete «arriar» incluísse a locução arriar a bandeira. É que o Dicionário da Língua Portuguesa acolhe outra locução — e menos usada, convenhamos: arriar o calhau. Até agora, nada. Entretanto, continuo a ver todas as semanas a calinada «arrear a bandeira». Todas as semanas, há meses.
[Texto 2486]
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Léxico: «panilas»

Se fosse do quimbundo...

      «A mulher soltou-me o braço com um sonoro muxoxo: “Panilas! Todos os pulas são panilas.” Estalaram gargalhadas. Havia mais gente ali. Vultos encostados às paredes» (Barroco Tropical, José Eduardo Agualusa. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009).
      São assim os nossos dicionários: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «muxoxo» – do quimbundo, note-se –, mas não «panilas». Ah, sim, e «pula» na acepção do texto, pessoa de raça branca, até pode derivar do verbo «pular», mas é termo angolano.
[Texto 2485]
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Léxico: «yé-yé»

Ora não sei porquê

      Ou yeyé, ou ieié... Enfim. Não está em nenhum dos dicionários que consultei. Vem do francês e há-de ser, como chachachá, que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe, de origem onomatopeica.
[Texto 2484]
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Palavra de 2012

Venceu a insensatez

      «É o estado de espírito do país que durante 2012 andou às voltas com a troika. Não será por isso de estranhar que “entroikado” tenha sido eleita a palavra do ano numa votação organizada pela Porto Editora. O adjectivo não terá sido usado com muita frequência, mas é a palavra que parece representar melhor o ano que acabou agora» (“Entroikado” é a palavra num ano de crise, cortes, impostos e desemprego», Cláudia Carvalho, Público, 5.01.2013, p. 26).
      E não, não terá sido usado com muita frequência, se é que alguma vez se usou. Nunca esteve na presença dos meus ouvidos ou dos meus olhos.
[Texto 2483]
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Como se fala nos tribunais

Assim mesmo

      «João Aibéo aproveitou ainda as alegações finais para deixar um lamento: “O Ministério Público aguentou estoicamente ao longo destes oito anos [de julgamentos] afirmações absolutamente inadmissíveis”, afirmou, recordando o dia em que Sá Fernandes lhe lançou um shame on you — assim mesmo, em inglês e em plena audiência» («Carlos Silvino tem “complexos de homossexualidade”, acusa procurador em julgamento», Ana Henriques, Público, 4.01.2013, p. 8).
      Assim mesmo – sim, porque em português não há, como é sabido, palavras que cheguem para exprimir tal coisa.
[Texto 2482]
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«Quando muito»

Ainda não

      «Antigamente, as “crises” da economia e das finanças do Estado afectavam pouco mais do que a classe média e a pequena burguesia de Lisboa e do Porto, que por causa da fraqueza da moeda deixavam de poder importar “produtos de qualidade” (a moda francesa, por exemplo) e, coitadinhas, viajavam menos. Por isso, as “crises” do liberalismo não provocavam revoluções; provocavam, quanto muito, “uniões nacionais”, que a certa altura os levaram juntinhos para o governo (sem faltar um único), pendurados numa gerigonça chamada “A Fusão” (que tanta gente, ainda em 2013, incita o dr. Cavaco a fabricar)» («Quem não sabe?», Vasco Pulido Valente, Público, 4.01.2012, p. 48).
      Quem sabe, talvez venha a ser assim, mas, por enquanto – e neste caso os dicionários portam-se bem­ –, é quando muito, isto é, no máximo, se tanto, que se diz e escreve.
[Texto 2481]
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Léxico: «assistencialismo»

É isso mesmo: só todos juntos

      Parece sempre mentira, mas é sempre verdade: faltam nos dicionários termos corriqueiros e outros que, embora mais incomuns, há muito, porém, são usados. Seja hoje «assistencialismo». É a tal doutrina que manda dar o peixe em vez de ensinar a pescar — para apaziguar a sociedade e a classe dominante continuar a ter boa consciência. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora desconhece. Por isso não é de estranhar que também não registe «oblomovismo», não é assim?
[Texto 2480]
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Tradução: «cecina»

Agora é presunto

      «Hoje é dia de falarmos de um novo produto que, sendo conhecido em Espanha, é inédito por cá: presunto de carne de vaca. Em Espanha, chama-se cecina» («Um presunto de vaca», Edgardo Pacheco, revista «Domingo», Correio da Manhã, n.º 12 551, p. 56). Nem itálico nem aspas, nada. Cecina. Segundo o Dicionário da Real Academia Espanhola, é a «carne salada, enjuta y seca al aire, al sol o al humo». O termo poderá vir de um hipotético siccīna, «carne seca», de sĭccus, «seco» em latim. Aqui já falámos de presunto de cabra e de ovelha. E talvez tenhamos de voltar a pedir: redija-se outra definição.
[Texto 2479]
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Léxico: «opilião»

Aracnologia impura

      Opilião. O Dicionário Houaiss assegura que é regionalismo brasileiro. É, lê-se na definição, a «designação comum aos arácnidos da ordem dos opiliones, que se notabilizam pelo corpo oval e compacto, pelas patas extremamente finas e longas e pelo forte cheiro desagradável que exalam». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é verdade, não o acolhe, mas não é regionalismo brasileiro.
      Opilion é, em latim, o pastor de ovelhas. Há-de haver alguma analogia, mas não muito precisa, porque o nome comum do opilião em francês é faucheur, ceifeiro, segador.
[Texto 2478]
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Léxico: «porcionista»

Não é todos os dias

      Ontem, ouvi pela primeira vez, dita por um tenente-coronel na reforma, uma palavra: porcionista. Conheciam? Espantosamente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe-a: «aluno que paga a sua educação e sustento num colégio». Estará certa a definição? Hum... Parece o contrário do que se lê em Bluteau, que é «o estudante a que se dá sustento no colégio em que assiste, como v.g. os Porcionistas dos Colégios de S. Pedro e S. Paulo em Coimbra».
[Texto 2477]
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Sobre «robe»

De chambre

      «“Hoje é o dia em que finalmente me torno a senhora Hefner. Não podia sentir-me mais feliz, afortunada e abençoada”, escreveu a noiva [Crystal Harris] no Twitter, onde publicou uma fotografia com o seu “vestido de sereia” em tons rosa. Hugh Hefner trocou o seu habitual robe e envergou um smoking para o seu terceiro casamento» («Novo ano, casamento novo», Público, 2.01.2013, p. 31).
      Aos ricos, tudo é permitido — ou era, porque a impunidade, afirmou a ministra da Justiça, acabou. De roupão, como eu também um dia vi uma figura famosa em pleno Saldanha. Ah, sim, raramente a língua me trai a dizer «robe». Por nada de especial, excepto por ser galicismo desnecessário.
[Texto 2476]
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Léxico: «raspadinha»

Sem surpresa

      «Mais de 20% das receitas dos jogos sociais explorados pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) são já proporcionadas pela lotaria instantânea, mais conhecida por “raspadinha”. [...] No caso da “raspadinha”, o seu sucesso está relacionado com alterações ao jogo, como os prémios mais substanciais (o que por sua vez implica apostas de valor mais elevado), como o “super pé-de-meia”, que podem chegar a 2000 euros por mês durante 12 anos. A “raspadinha” já é, aliás, a segunda maior fonte de receitas, tendo ultrapassado o Totoloto» («Santa Casa fecha 2012 com maiores receitas de sempre nos jogos sociais», Luís Villalobos, Público, 2.01.2013, p. 14).
      Sem aspas é que os jornalistas não podem passar. O nosso melhor cronista também gosta muito das aspas. Raspadinha já está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «jogo de azar em que se raspa o revestimento de um cartão para descobrir se se tem algum prémio». E lá anda o «super» pendurado no ar. Por fim, «jogos sociais» também é, sem surpresa, ignorado de todos os dicionários.

[Texto 2475]
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«Tiborna/tibórnia»

É uma delícia, isso sim

      «Termina hoje a mostra gastronómica do Fundão, “Aqui Come-se Bem – Tibórnia 2012”, que reúne 15 restaurantes da região» («Gastronomia no Fundão», José Carlos Marques, revista «Domingo», Correio da Manhã, n.º 12 551, p. 64).
      Creio que apenas conhecia «tiborna», mas parece que é o mesmo. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, estranhamente, não regista nenhum dos vocábulos, quando já estava em Morais: «pão quente embebido em azeite novo para se comer». E está na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (vol. 31, p. 619): «Pão quente embebido em azeite que os lagareiros costumam comer depois de findos os seus trabalhos.»
[Texto 2474]

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Plural de «xis»

Dois xis, se faz favor

      Ontem, na Antena 1, na reposição do programa Especial Música de 2012, João Gobern disse que o nome da banda inglesa The XX se escrevia com «dois xises». «Dois “xises”. Muito bem, João», afirmou, quase eufórico, António Macedo. Mas não: muito mal, João Gobern, muito mal, António Macedo. O vocábulo xis é invariável, serve para o singular e para o plural: um xis, dois xis.
[Texto 2473]
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Ainda e sempre o verbo «haver»

Pelo menos eles

      Acabaram muito mal 2012: «A partir de 2013, podem haver aumentos nas contas da luz e do gás até fim do trimestre para incentivar os consumidores a escolher o mercado concorrencial de energia» (jornalista Margarida Cruz, Telejornal, 31.12.2012, 20h08).
      Sim, pelo menos os jornalistas, que têm como ferramenta de trabalho a língua, deviam saber que o verbo «haver» é impessoal quando exprime existência e vem acompanhado dos auxiliares ir, dever, poder, etc.
[Texto 2472]
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