Grande Manchester, grandes erros, enormes descuidos

Não devia ser assim


      «O primeiro-ministro Keith Starmer demitiu-se e vem aí um ‘D. Sebastião’, sob o nome de Andy Burnam (o ‘rei do Norte’, por ter presidido à Grande Manchester, uma espécie de Grande Porto)» («A crise da esquerda europeia», Carlos Fiolhais, Correio da Manhã, 30.06.2026, p. 2). É verdade que não passa de clichés e banalidades — além de nem sequer ter acertado no nome do protagonista, que é Andy Burnham —, mas soube ver que era Grande Manchester que devia escrever, o que Ana Sá Lopes, jornalista, que também cai noutros erros, não viu: «O seu abandono do lugar de deputado em 2017 para ser mayor de Greater Manchester ajudou à transformação — mal comparado, é um bocado a transformação de André Ventura num militante semi-obscuro [sic] do PSD em líder da direita populista do Chega. Aqui não há um novo partido, mas Burnham quer dar a ideia de que sim» («A importância de um par de pestanas e uma T-shirt preta», Ana Sá Lopes, Público, 29.06.2026, p. 39).

[Texto 23 216]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Diga-se também que Ana Sá Lopes escrever, nesta mesma crónica, três vezes «azul escura» e «semi-obscuro» não é confusão com coisa nenhuma, já que com o Acordo Ortográfico de 1990 nada disto mudou. São erros ou descuidos ou convicções perdoáveis num cidadão que conduz táxis ou que é talhante num supermercado, não num jornalista.


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Léxico: «trapologia»

Também o prometes


       Enquanto a Porto Editora insiste em manter os expressos que vão do local de partida ao de chegada sem fazer paragens, o que nem as transportadoras conseguem fazer, continuemos aqui o nosso labor. No canal Conta Lá, vi, no sábado passado, uma pequena reportagem sobre ➠ trapologia ARTESANATO arte ou ofício artesanal que consiste no aproveitamento e na transformação de trapos, retalhos e sobras de tecido, por meio de diversas técnicas de costura e composição, para confeccionar manualmente peças utilitárias ou decorativas.

[Texto 23 215]

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Léxico: «tirada»

Não pode ser!


      «Starmer disse, há um ano, durante a apresentação de uma nova lei mais dura contra a imigração, que o Reino Unido arriscava transformar-se numa “terra de estranhos”. Viria a “lamentar profundamente” a tirada retórica anti-imigrante, mas a frase apenas correspondia ao ar dos tempos, que inviabiliza totalmente a reversão do “Brexit” — mesmo que Starmer até se tenha empenhado numa política de aproximação à UE» («“Brixit” e Andy, futuro primeiro-ministro», Ana Sá Lopes, Público, 23.06.2026, p. 3).
      Dá-se o caso de o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não acolher esta acepção, tão comum — a mais comum! — de «tirada». Acontece, não é? Assim, aqui vai ➠ tirada frase, observação ou afirmação de efeito, geralmente proferida com intenção retórica, humorística, polémica ou provocatória.

[Texto 23 214]

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Léxico: «suvenir»

Não vejo porque há-de ficar de fora


      Já vi que o prometes, Porto Editora. Ora, vamos lá ver, é assim um aportuguesamento muito ousado ou nunca tentado? Está no VOLP da Academia Brasileira de Letras. «Dono deu ao filho nome do ditador espanhol, que está nas mesas, paredes e em estatuetas vendidas como suvenir» («Bar de chinês fascista idolatra Franco em Madri», Ivan Finotti, Folha de S. Paulo, 25.12.2022, p. A12).

[Texto 23 213]

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Léxico: «estudo de caso»

Um entre muitos


      «Bengo quer resgatar a mística da produção do café no país, depois do Uíge, Cuanza-Sul e Cuanza-Norte, com o objectivo de diversificar a economia ainda dependente do sector do Petróleo, afirmou, em Caxito, o chefe do Departamento Provincial do Instituto Nacional do Café (INCA)» («Cafeicultores trabalham para resgatar a hegemonia», Adilson Sebastião, Jornal de Angola, 23.06.2026, p. 26). 
      Um jornalista angolano, a escrever num jornal angolano, opta por Cuanza. Jornalistas portugueses, quem sabe se saudosistas do império e ávidos de exótico, preferem escrever Kuanza. Temos aqui um estudo de caso.

[Texto 23 212]

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Definição: «voto em branco»

Vamos explicar de outra forma


    «Pelas apurações extraoficiais, Abelardo de la Espriella, o candidato da direita radical, foi eleito presidente da Colômbia. As pesquisas já indicavam que Espriella levava vantagem sobre seu rival no segundo turno, o esquerdista Iván Cepeda. O que surpreendeu foi o resultado apertado. Se os números da contagem prévia se confirmarem, o que normalmente acontece, Espriella venceu por uma diferença de apenas um ponto percentual (49,66% a 48,7%). Na Colômbia, os votos em branco são válidos, daí que o vencedor não precisa atingir 50%» («Por una cabeza», Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo, 23.06.2026, p. A3). 
      Voto em branco que a Porto Editora define assim: «voto em que o boletim de votação não foi objecto de qualquer marca». Ou seja, se o boletim tiver um vinco, uma mancha de tinta acidental, um carimbo da mesa ou qualquer outro sinal que não corresponda a uma manifestação de vontade do eleitor, já não é um voto em branco, é isso? Pois, estou a ver que não é isso que pretendem dizer. Assim, proponho ➠ voto em branco voto em que o eleitor deposita na urna o boletim sem assinalar nenhuma das opções nele constantes.

[Texto 23 211]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Reparem como o voto em branco não tem o mesmo significado em todos os países. Embora normalmente corresponda a um boletim sem nenhuma opção assinalada, os seus efeitos variam: nuns sistemas conta apenas para fins estatísticos; noutros, pode assumir o valor de uma rejeição formal das candidaturas apresentadas e produzir consequências eleitorais específicas.


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Definição: «guardanapo»

O triângulo já vem


      Vim agora ali de um supermercado, onde encontrei, na secção de pastelaria, guardanapos. Define assim este bolo a Porto Editora: «CULINÁRIA bolo quadrado baixo, de forma a poder ser dobrado em triângulo, recheado de creme pasteleiro e polvilhado de açúcar». A definição, tal como está redigida, sugere fortemente que o bolo é originalmente quadrado e que a forma triangular é o resultado de uma operação posterior («de forma a poder ser dobrado em triângulo»). Sabemos que não é assim, pelo que temos de corrigir a definição, além de acrescentar que é um bolo fofo. Talvez demasiado fofo. Quanto a ser baixo, também não concordo. Assim, proponho ➠ guardanapo CULINÁRIA bolo fofo obtido pela dobra de uma placa de massa sobre si mesma, formando um triângulo, recheado de creme pasteleiro e polvilhado de açúcar.

[Texto 23 210]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Tenho notícia de que este guardanapo é conhecido na ilha Terceira, Açores, pelos nomes lenço e lencinho; os Terceirenses reservam o nome guardanapo para um bolo muito semelhante, mas feito de massa folhada e recheado com marmelada.


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Léxico: «fundo soberano»

Agora é que é


      «O primeiro-ministro anunciou a constituição de um fundo soberano para juntar e investir em empresas e sectores estratégicos, concentrando aquelas que estão dispersas actualmente por diversas entidades e integrando outras que sejam “estratégicas” e dêem retorno» («Fundo soberano avança quando Estado está a sair de empresas», Diogo Cavaleiro e Luís Villalobos, Público, 23.06.2026, p. 22). 
      Agora é que temos de explicar o que é um fundo soberano, não no futuro. Assim, proponho ➠ fundo soberano ECONOMIA fundo de investimento pertencente a um Estado, constituído por receitas públicas provenientes, nomeadamente, da exploração de recursos naturais, de excedentes orçamentais ou de privatizações, destinado a preservar e valorizar a riqueza pública mediante a aplicação de capitais em activos financeiros ou participações empresariais.

[Texto 23 209]

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Como se escreve por aí

Faltam dois dias


      «A instituição ultra conservadora da Igreja Católica que ameaça desobedecer ao Papa e causar um cisma já na próxima quarta-feira está a crescer em Portugal e acaba de inaugurar uma nova igreja em Lisboa. No passado dia 10 junho, a Fraternidade Sacerdotal Pio X – é assim que se chama a instituição – abriu as portas de uma nova capela em Marvila, onde todos os dias há missas em latim e se reúnem os seguidores de Marcel Lefebvre, o arcebispo francês que se tornou no símbolo da versão mais tradicionalista da Igreja e que se opõe às reformas do Concílio do Vaticano II» («Igreja Católica. Tradicionalistas abrem cisma», Catarina Guerreiro, Nascer do Sol, 26.06.2026, 7h00). 
      Que maravilha, missas em latim. Agora é que vamos passar a ter católicos fervorosos e cultos. A jornalista também podia passar a frequentá-las, mas entretanto fica já a saber que se escreve «ultraconservador».

[Texto 23 208]

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Léxico: «refervedouro»

É nossa, passem-na para cá


      «Era ali, de sol-nado a sol-pôr, o refervedouro das pretensões, enquanto a milícia de D. Miguel engrossava ou fazia semblante de engrossar» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 273). 
      Decerto, «de sol-nado a sol-pôr» — locução sinónima da muito mais comum «de sol a sol» — é muito interessante, e devemos fazê-la revivescer, sobretudo os tradutores, mas a que falta no dicionário da Porto Editora é «refervedouro», isto quando não está ausente do VOLP da Academia Brasileira de Letras. É o acto ou efeito de referver («o refervedoiro das águas em cachão»), diz a infalível Grande Enciclopédia Brasileira e Brasileira.

[Texto 23 207]

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Léxico: «tropeçante»

É hoje


      «Depois a chinfrineira verbal a propósito de tudo e de nada, saias e pateadas no S. João, cavalos e bizarrias, versos e cacetadas, só acabava quando os carros da couve desciam tropeçantes, eixos a gemer um doce chi-hu-heru, das Carmelitas para o Bolhão» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 31).

[Texto 23 206]

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Definição: «tubarão-branco»

Nada de alarmismos


      «Um grupo de mergulhadores voluntários deu de caras com um tubarão-branco, enquanto recolhiam redes de pesca no mar Mediterrâneo, e conseguiram captar imagens do encontro. [...] O tubarão-branco rondou os mergulhadores, antes de perder o interesse e afastar-se por completo. Ao contrário da imagem hollywoodesca que ganharam, estes animais não costumam ser particularmente agressivos com seres humanos, se não forem provocados» («Mergulhadores voluntários dão de caras com tubarão-branco no Mediterrâneo», João Malheiro, Rádio Renascença, 8.06.2026, 12h30). 
      Imagem hollywoodesca que é também a da Porto Editora: «ZOOLOGIA (Carcharodon carcharias) tubarão da família dos Lamnídeos, de grande porte, com corpo fusiforme, cinzento-claro, nadadeira caudal semilunar e dentes triangulares serrilhados, considerado o mais perigoso dos tubarões; anequim Brasil». 
      O mais perigoso dos tubarões... Quando os especialistas discutem o risco para os seres humanos, porque é disso que estamos a falar, costumam referir conjuntamente o tubarão-branco, o tubarão-tigre e o tubarão-touro como as três espécies mais associadas a ataques graves. Não há uma medida objectiva única que permita coroar uma delas como «a mais perigosa». O que há é informação mais objectiva e útil sobre esta espécie, isso sim, pelo que proponho ➠ tubarão-branco ZOOLOGIA (Carcharodon carcharias) espécie de tubarão da família dos Lamnídeos, distribuída por mares temperados e subtropicais de todo o mundo, de grande porte, com corpo fusiforme, dorso cinzento e ventre esbranquiçado, nadadeira caudal semilunar e dentes triangulares serrilhados; é um dos maiores peixes predadores actuais e uma das espécies de tubarão mais frequentemente associadas a ataques a seres humanos; anequim, Brasil.

[Texto 23 205]

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Léxico: «ouriço-do-mar»

Mas esta é a mais conhecida!


      «É dentro da carapaça espinhosa do Paracentrotus lividus (a espécie dominante na costa portuguesa) que se encontra a sua parte comestível. Referimo-nos às gónadas, cinco “línguas” cor de laranja delicadas, com um sabor intenso a mar, que não são mais do que os seus órgãos reprodutores» («Ericeira. A picar», Visão, 30.04.2026, p. 86). 
      A Porto Editora apenas regista o termo genérico. Ora, quando uma espécie é simultaneamente a mais comum, a mais explorada gastronomicamente e a mais reconhecida pelo público, justifica-se plenamente a sua entrada no verbete principal. Assim, proponho ➠ ouriço-do-mar ZOOLOGIA (Paracentrotus lividus) espécie de equinoderme da família dos Equinídeos, comum na costa portuguesa, de corpo globoso, com diâmetro geralmente até cerca de 7-8 cm, coberto por espinhos curtos, densos e relativamente finos, de coloração variável (do arroxeado ao castanho ou esverdeado); vive em zonas rochosas pouco profundas, onde se fixa ao substrato e se alimenta sobretudo de algas; é valorizada gastronomicamente pelas gónadas comestíveis.

[Texto 23 204]

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Léxico: «hiperdistensão | coloproctologista»

Importadas do sítio habitual


      «Acumular xixi pode causar uma hiperdistensão da bexiga, diz Riccetto. Segurar a vontade também aumenta o risco de infecção urinária. Em casos extremos, pode até causar danos aos rins, devido ao retorno da urina para o órgão. No caso do cocô, segurar a vontade pode aumentar as chances de doenças no ânus, como hemorroida. Pode ainda causar fissura, abscesso e até fístulas anais, explica a coloproctologista. “Tem que fazer cocô na hora que ele pede para sair”, reforça Segantini» («Não se deve segurar a vontade de fazer xixi e cocô», Nathalia Durval, Folha de S. Paulo, 27.05.2026, p. B16).

[Texto 23 203]

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Definição: «neutrino»

Não está tudo bem


      «Os neutrinos são fantasmagóricos: têm uma massa ínfima, carga eléctrica nula e a sua interacção com a matéria é extremamente ténue (a gravidade, por exemplo, interage com mais vivacidade e nota-se). Mesmo sendo tremendamente abundantes, estas características tornam os neutrinos difíceis de detectar» («Mark Chen anda há uma vida atrás dos neutrinos para saber o que lhes dá massa», Tiago Ramalho, Público, 8.06.2026, p. 26). 
      Está mais que estabelecido, Porto Editora, que o neutrino tem massa, pequeníssima que seja, o que nos obriga a corrigir a definição. Assim, proponho ➠ neutrino FÍSICA partícula elementar, sem carga eléctrica, de spin 1/2, com massa ínfima e momento magnético quase nulo, cuja interacção com a matéria é muito fraca, que foi inicialmente postulada para explicar a deficiência de energia nas desintegrações beta, tendo hoje existência confirmada experimentalmente (tal como a sua antipartícula, o antineutrino) e de que existem três tipos distintos: de electrão, de muão e de tau.

[Texto 23 202]

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Léxico: «pressuração»

Venha de lá ela


      «A Relação não se teria vendido, que nesta terra pataqueira nem os trinta dinheiros são necessários para que se cometa toda a sorte de falcatruas e preponderâncias. Bem certo que era notória a cumplicidade de Camilo. A prova judicial é porém outra coisa. Havia que deduzi-la. É fora de dúvida que houve de parte dos juízes uma pressuração mais que suspeita» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 371).

[Texto 23 201]

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Definição: «biocarvão»

Mais actual que nunca


      «Biochar adds highly porous and contributes to aggregating soil particles, holding water, and creating a suitable environment for microorganisms» («Biochar offers a way to turn India’s farm smoke into ‘black gold’», Vinaya Kumar H. M. e Vikram Patil, The Hindu, 22.06.2026, p. II). 
      A definição actual da Porto Editora não reflecte características essenciais do biocarvão amplamente reconhecidas na literatura especializada, nomeadamente a sua elevada porosidade, a capacidade de aumentar a retenção de água e de favorecer a actividade microbiana do solo, bem como o seu papel no sequestro de carbono. E o artigo de divulgação científica é da autoria de Vinaya Kumar H. M., professor assistente da Keladi Shivappa Nayaka University of Agricultural and Horticultural Sciences, e de Vikram Patil, cientista do International Rice Research Institute, não de dois jornalistas. Assim, proponho ➠ biocarvão AGRONOMIA material carbonáceo poroso, rico em carbono, obtido por pirólise lenta de biomassa vegetal em ambiente com fraca ou nula presença de oxigénio, utilizado sobretudo como melhorador de solos, por aumentar a retenção de água e nutrientes e favorecer a actividade microbiana; contribui igualmente para o sequestro de carbono e pode ser usado como fonte de energia.

[Texto 23 200]

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Léxico: «piraputanga»

Só o género é indiscutível


      «Escusais de perguntar ao activista ambiental Diego Saldanha se o rio desgraçado da sua infância, o asfixiado Atuba, dá piraputanga, o peixe bravo, difícil de pescar que havia no rio da infância de Manoel. Não dá. Hei-de perguntar ao senhor Miranda, o empregado de mesa brasileiro da Courense que tanto sabe de peixes, que coisas maravilhosas sabe do peixe vermelho cujo nome vem do tupi, do difícil que é pescá-lo. Talvez a conversa nos leve a um outro rio, o da sua infância» («O piraputanga do Atuba», Fernando Alves, TSF, 23.06.2026, 8h54). 
      Como já o tens na calha, Porto Editora, aqui vai ele, o piraputanga ZOOLOGIA designação comum de diversos peixes teleósteos do género Brycon, de corpo alongado e coloração geralmente prateada ou dourada com barbatanas avermelhadas, que habitam rios sul-americanos e se alimentam de frutos, sementes, flores e pequenos animais; algumas espécies distinguem-se pela capacidade de saltar para fora da água para capturar alimento na vegetação ribeirinha e pela resistência que oferecem à pesca.

[Texto 23 199]

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Léxico: «retranca»

Muito usada no Brasil


      «O jornal reconheceu o problema com “Erramos” neste sábado (6): “Por uma falha técnica, o texto (...) foi publicado incorretamente. Em seu lugar, saiu um texto ‘Lorem Ipsum’, recurso do mercado editorial com palavras em latim para reservar espaço numa página que receberá o conteúdo de fato. O erro foi corrigido na versão digital da edição impressa”. O “lorem ipsum”, aliás, seria um pedaço de “dolorem ipsum”, “a própria dor”, em um texto de Cícero (106 a.C-43 a.C.). Pedi mais detalhes à Secretaria de Redação a respeito do episódio. “Depois que a chamada já estava finalizada e revisada, o sistema que usamos para fechar o jornal travou e ‘perdeu a retranca’, no jargão que usamos. Quando isso ocorreu, o que estava ali foi substituído por uma versão antiga, com um texto genérico (o ‘lorem ipsum’). É o tipo de texto que preenche uma chamada antes de ela ser editada pelo jornalista. Quando os profissionais no fechamento perceberam o erro, o jornal já estava rodando”» («‘Lorem ipsum’ e as dores do jornalismo», Alexandra Moraes [provedora do leitor], Folha de S. Paulo, 7.06.2026, p. A12). 
      Quanto ao famoso latinório, que nós também usamos, só parcialmente é latim, já que o «lorem» é, ao que se julga, a palavra «dolorem» truncada do trecho do tratado filosófico De finibus bonorum et malorum, de Marco Túlio Cícero, onde se lia: «Neque porro quisquam est qui dolorem ipsum quia dolor sit amet...» («Nem há ninguém que ame a própria dor só porque é dor...»). O que mais nos interessa é levar para o dicionário ➠ retranca Brasil JORNALISMO designação, palavra, expressão ou código usado internamente para identificar uma matéria jornalística ou outro conteúdo editorial durante o processo de produção e edição.

[Texto 23 198]

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Definição: «amianto | asbesto»

Contra ideias erradas


      «No imaginário colectivo, a presença do amianto está muito ligada à arquitectura escolar. E isto, para Carmen Lima, prejudica uma percepção pública mais rigorosa e responsável do problema. “O amianto não está só nas telhas, as telhas é um dos três mil materiais que se usou na construção. Há muitos outros materiais, produtos e equipamentos que podem aparecer, quer nos contentores dos resíduos urbanos, quer na própria actividade da autarquia, quer nas casas das pessoas”, afirma a presidente da SOS Amianto, defendendo que os municípios têm de perceber “a real dimensão do problema” para poderem encontrar a resposta adequada» («Governo reforça regras para resíduos com amianto sem resolver lacunas existentes», Andréia Azevedo Soares, Público, 22.06.2026, p. 14).
      Os nossos dicionários também omitem toda e qualquer menção à perigosidade do amianto, como se não passasse de especulação de meia dúzia de maluquinhos ociosos. Assim, proponho ➠ amianto MINERALOGIA nome comum ou comercial de diversos minerais silicáticos de estrutura fibrosa, também designados por asbesto, pertencentes aos grupos das serpentinas e dos anfíbolos, resistentes ao calor, ao fogo e a agentes químicos, outrora amplamente utilizados na construção civil, em materiais de isolamento e em produtos industriais; a inalação das suas fibras pode causar doenças graves, como asbestose, cancro do pulmão e mesotelioma, razão pela qual a sua utilização foi progressivamente proibida em numerosos países.

[Texto 23 197]

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Léxico: «ovelha-mestra | ovelha-guia»

Como se fosse eleita pelas outras


      Ah, então pensavam que só as ovelhas da Grã-Bretanha é que precisavam de guia... E as portuguesas? Não vamos agora pôr-nos a falar de bellwether ewes. Há muito que a nossa língua conhece as ovelhas-mestras, ou, se preferirem, as ovelhas-guias. Miguel Torga usa mais de uma vez o primeiro termo na sua obra. Está na hora de ambas entrarem no ovil do dicionário. Assim, proponho ➠ ovelha-mestra / ovelha-guia ZOOTECNIA ovelha que conduz e orienta o rebanho, geralmente distinguida por usar um chocalho ao pescoço e seguida pelas restantes. 

[Texto 23 196]

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Léxico: «proto-eurasiático»

Plenamente operacional


      «Uma notícia de há poucos dias resume a investigação realizada por linguistas de uma universidade inglesa: Eles concluíram que as 23 palavras mais antigas, partilhadas por sete línguas “protoeurasiáticas”, têm 15.000 anos» («Convescote», Fernando Alves, TSF, 19.06.2026, 8h56). 
      Lá porque é hipotético, Fernando Alvez acha que tem de embrulhar a palavra com aspas. É assim como que um estágio até à afirmação final. Um desnudamento. Bem, avancemos propondo ➠ proto-eurasiático LINGUÍSTICA HISTÓRICA língua ancestral hipotética, proposta por alguns linguistas como origem comum de várias famílias linguísticas da Eurásia; a sua existência não é consensualmente aceite e é inferida a partir da comparação histórica de línguas modernas e antigas.

[Texto 23 195]

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Léxico: «dapsona»

Mais completo


      «“Quando em 1958 foram inventadas as dapsonas, e começámos a utilizar a combinação de antibióticos para combater a lepra, tudo mudou”, explica [o médico] Paulo Margalho. Nessa altura já não havia muito a fazer para o jovem Gil, pois que perdera parte dos dedos das mãos. O mesmo aconteceu a muitos milhares de portugueses, que foram perdendo extremidades do corpo, na sequência da infecção de pele que começava com manchas (avermelhadas ou escuras) e degenerava em nódulos, úlceras ou bolhas, insensibilidade ao frio ou calor. Ao mesmo tempo, muitos casos da doença de Hansen manifestavam-se para lá da infecção de pele, afectando os nervos periféricos, os olhos e o trato [sic] respiratório» («Os dois últimos leprosos que nunca saíram do Hospital Rovisco Pais», Paula Sofia Luz, Público, 22.06.2026, p. 16). 
      Pelo que vi, foi muito antes de 1958. Mas não o vamos chumbar já, temos outras prioridades. Assim, sem mais delongas, proponho dapsona FARMACOLOGIA composto sulfónico (C₁₂H₁₂NOS) com actividade antibacteriana, utilizado como medicamento no tratamento da lepra e de determinadas doenças dermatológicas e infecções oportunistas. 
      Quanto à etimologia, provém do inglês dapsone, denominação farmacológica criada a partir da designação química diaminodiphenyl sulfone («diaminodifenil-sulfona»).

[Texto 23 194]

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Léxico: «fileira estridulatória» e outras

Isto promete


      «Entre as estruturas especializadas das asas, conta ele, destaca-se a fileira estridulatória, uma veia da asa anterior direita que tem pequenos dentes na parte de baixo. “É essa veia que é raspada na palheta, uma estrutura da asa anterior esquerda, para produzir o som do ‘cri-cri’” Não por acaso, o termo “palheta” é o mesmo usado para o objeto que guitarristas e outros músicos de instrumentos de corda usam para tocar. Outro termo derivado da música humana é o nome de uma região das asas chamada “harpa”: são veias acessórias diagonais que lembram o instrumento e que ajudam a amplificar o som. Outra dessas estruturas é o espelho, com veias que formam uma região arredondada» («Desafios evolutivos podem silenciar grilos e também deixá-los sem ouvir», Reinaldo José Lopes, Folha de S. Paulo, 22.06.2026, p. B10).
      Um artigo que é uma mina para nós, já que poderemos estabelecer a definição de vários termos fileira estridulatória ENTOMOLOGIA veia especializada da asa de certos grilos, provida de pequenos dentes, que, ao ser raspada pela palheta, produz o som da estridulação; palheta ENTOMOLOGIA estrutura da asa anterior de certos grilos que raspa a fileira estridulatória para produzir o som da estridulação; harpa ENTOMOLOGIA região da asa de certos grilos, formada por nervuras acessórias, que contribui para a amplificação do som produzido pela estridulação; espelho ENTOMOLOGIA região membranosa da asa de certos grilos, delimitada por nervuras especializadas, que actua como superfície ressonadora na amplificação do som produzido pela estridulação.

[Texto 23 193]

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Como se escreve por aí

Descontraia, relaxe


      «Se era normal o choro dos congressistas sociais-democratas em transe pelo Chega ter votado contra depois da “negociação”, já totalmente absurda foi a intervenção da ministra do Trabalho, Maria do Rosário Palma Ramalho» («Em Sangalhos, um PSD em frangalhos», Ana Sá Lopes, Público, 22.06.2026, p. 40). Descontraia, Ana Sá Lopes, não fique tensa: «em transe por o Chega». Assim é que é. Miguel Relvas diria o mesmo de mim: devem ver as minhas críticas como uma assessoria gratuita.

[Texto 23 192]

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Léxico: «metaforização»

Também a procurávamos


      «Uma aprendizagem que, no entender do coach, se baseia na “tentativa e erro”. “Há aqui um processo que é fazer uma ação e uma reflexão. Uma metaforização do que é isto, como é que isto se passa na vida e depois repete a ação. Além disso, há sempre a parte cognitiva, ou seja, há a parte experiencial da ação e há a parte cognitiva, da aprendizagem”, sumariza [Pedro Amado]» («Cavalos que mudam vidas», Isabel Laranjo, «Versa»/Nascer do Sol, 12.06.2026, p. 31).

[Texto 23 191]

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Léxico: «defixão | tábua de maldição/execração»

Não podemos ignorar isto


      Li no portal Archaeology Magazine uma notícia sobre a recente descoberta de uma tábua de maldição romana em Heerlen, nos Países Baixos. O artefacto, uma pequena placa de chumbo datada do século II d. C., continha uma inscrição mágica destinada a invocar poderes sobrenaturais contra determinadas pessoas. A notícia levou-me a procurar a terminologia usada em português, encontrando-se na bibliografia especializada, como estudos linguísticos, teses, o termo «defixão» e, relacionados, «tábua de maldição» ou «tábua de execração». Parece então que vamos atrasados, pelo que proponho  defixão HISTÓRIA inscrição de maldição ou fórmula mágica destinada a afectar sobrenaturalmente uma pessoa ou situação, geralmente gravada em placas de chumbo depositadas em sepulturas, poços, santuários ou outros locais considerados propícios à comunicação com entidades sobrenaturais; a placa que a contém é designada tábua de maldição ou tábua de execração.

[Texto 23 190]

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Definição: «lagarta-do-cartucho» Léxico: «lagarta-militar-do-outono»

Sobretudo, mas não só


      «A lagarta-do-cartucho é considerada uma das principais ameaças à cultura do milho. Alimenta-se das folhas e do interior das plantas, comprometendo o seu crescimento e podendo reduzir significativamente a produtividade das explorações agrícolas» («Praga do lagarta-do-cartucho ameaça culturas de milho no Alto Minho», César Lopes, Alto Minho TV, 20.06.2026). 
      Em particular o milho e o sorgo, sim, Porto Editora, mas não custa nada mencionar as outras culturas. E não é uma qualquer lagarta-militar, mas sim a lagarta-militar-do-outono. Assim, proponho lagarta-do-cartucho ZOOLOGIA (Spodoptera frugiperda) designação comum da larva de um insecto lepidóptero da família dos Noctuídeos; constitui uma importante praga agrícola, atacando diversas culturas, sobretudo o milho, o sorgo, o arroz e o algodão, cujas folhas, rebentos e estruturas reprodutivas consome, podendo provocar perdas significativas de produção; lagarta-militar-do-outono.

[Texto 23 189]

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Definição: «expresso»

Era bom, era


      «Não foi difícil a Francisca convencer João Manuel a regressar com ela no expresso rodoviário» (O Homem Que Odiava a Chuva e Outras Estórias Perversas, Guilherme de Melo. Lisboa: Editorial Notícias, 1999, p. 55). 
      Aposto que o nosso amigo João Manuel não se arrependeu, sobretudo se o expresso era como os da Porto Editora, «comboio ou camioneta que vai do local de partida ao de chegada sem paragens». A última vez que apanhei um expresso foi para ir a Leiria fazer o passaporte, lembro-me bem, e não era nada assim; era, mais realisticamente, um ➠ comboio ou autocarro que assegura uma ligação rápida entre localidades, efectuando apenas algumas paragens intermédias. 

[Texto 23 188]

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Definição: «figurante»

Não anda por aí bem definido


      «“Les artistes de la figuration ont un rôle aussi essentiel que difficile. Comme ils sont à l’arrière-plan, qu’ils ne parlent ni ne chantent, ils doivent avoir une clarté dans l’expression d’autant plus forte. Tout en ayant la capacité d’interagir avec les chanteurs” [afirma a encenadora Louisa Proske]» («Figurant à l’Opéra, un métier de l’ombre de plus en plus prisé», Thierry Hillériteau, Le Figaro, 8.06.2026, p. 29). 
      O excerto, e todo o artigo, mostra que a figura é mais exigente, menos para meramente encher o palco, como os nossos dicionários sugerem. Assim, proponho ➠ figurante pessoa que participa numa representação teatral, cinematográfica, televisiva, operática ou noutra produção artística, integrando cenas colectivas ou desempenhando funções de enquadramento, geralmente sem papel principal nem destaque individual.

[Texto 23 187]

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Léxico: «tarmacadame»

Uma das tais clandestinas


      Embora ausente do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o vocábulo «tarmacadame» encontra-se documentado em textos técnicos portugueses contemporâneos, de 2026, nomeadamente em cadernos de encargos, peças concursais, relatórios de engenharia civil e documentação municipal relacionada com obras viárias. Até para evitar que os tradutores, como acabei de ver, o transmutem em «madacame», como se fosse tudo o mesmo, proponho ➠ tarmacadame ENGENHARIA CIVIL tipo de pavimento rodoviário constituído por macadame tratado ou ligado com alcatrão, formando uma superfície compacta e resistente; macadame alcatroado.

[Texto 23 186]


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Léxico: «quebra-ossos | quebra-osso | Naterciáceas»

Sendo assim, não temos dois


      Porto Editora, apareceu aqui a palavra «quebra-ossos» num romance, só que não é o abutre, única acepção que registas. Não, é uma planta. Assim, proponho ➠ quebra-ossos BOTÂNICA (Narthecium ossifragum) planta herbácea perene da família das Naterciáceas, característica de turfeiras, charnecas húmidas, nascentes, escorrências de água e outros ambientes encharcados, com folhas estreitas em forma de espada e flores amarelas reunidas em espiga terminal; ocorre em grande parte da Europa Ocidental e Setentrional, formando frequentemente manchas extensas em solos ácidos; o nome deriva da antiga crença de que o seu consumo pelos animais lhes provocava fragilidade óssea.

[Texto 23 185]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Infelizmente, como tantas outras, esta, encontrável em textos literários, também desapareceu, quebra-osso pessoa barulhenta, zaragateira ou desordeira; indivíduo dado a conflitos, discussões ou tumultos.

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Léxico: «comboio-hospital»

Sobre rodas


      «Depois de quase nove horas de viagem, o comboio-hospital chegou finalmente a uma estação ferroviária numa das cidades da Ucrânia. Na escuridão da noite, uma longa fila de ambulâncias aguardava os pacientes. A viagem do comboio tinha terminado, mas o caminho para a recuperação estava apenas a começar. Alguns provavelmente nunca recuperarão totalmente» («Exclusivo: a bordo do comboio-hospital salva-vidas que leva os soldados feridos da Ucrânia para um lugar seguro», Christiane Amanpour, Madalena Araújo e Ivana Kottasová, CNN Portugal, 12.09.2024, 15h54).

[Texto 23 184]

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Definição: «subconcessão»

Não chega


      «O presidente da Câmara de Cascais, Nuno Piteira Lopes, classifica como “uma excelente notícia” o anúncio do primeiro-ministro de avançar com a subconcessão da Linha de Cascais, defendendo que uma gestão mais próxima dos territórios permitirá melhorar a resposta às necessidades dos passageiros. [...] Sobre o modelo de gestão, Nuno Piteira Lopes rejeita preconceitos ideológicos e sublinha que o essencial é a qualidade do serviço prestado. “A gestão mede-se pelos resultados que entrega e não pelo facto de ser gerida pelo Estado, pelo município ou por privados”, declara. O presidente da Câmara admite mesmo que Cascais, Oeiras e Lisboa possam estudar formas de participação conjunta na futura subconcessão» («Linha de Cascais. Municípios querem ter palavra na gestão após anúncio de subconcessão», Olímpia Mairos e José Pedro Frazão, Rádio Renascença, 21.06.2026, 18h08). 
      Este mero exemplo, mas há mais e mais expressivos, como o da rede viária, demonstra cabalmente que a definição de «subconcessão» dos nossos dicionários não cobrem todos os exemplos modernos que encontramos na imprensa e na legislação. A definição actual da Porto Editora parece-me demasiado presa a uma concepção jurídica antiga e formalista da figura. Assim, proponho ➠ subconcessão DIREITO acto ou efeito de subconcessionar; contrato pelo qual a exploração ou gestão de um serviço público, obra ou actividade concessionada é confiada a outra entidade, nos termos da concessão principal.

[Texto 23 183]

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Léxico: «tubarão-andante | tubarão-ombreira | tubarão-andante-de-dudgeon»

Mais três tijolos


      «A descoberta de uma nova espécie de tubarão até agora desconhecida pela ciência está a surpreender a comunidade científica internacional. O animal, oficialmente denominado Hemiscyllium dudgeonae, ou tubarão-andante-de-dudgeon, foi identificado durante uma expedição realizada nas águas pouco profundas da Baía de Milne, na Papua-Nova Guiné, após uma captura inédita efetuada num mergulho noturno dedicado ao estudo de tubarões-ombreira» («Descoberta nova espécie de tubarão-andante na Papua-Nova Guiné», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 20.062026, 18h15).

[Texto 23 182]

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Léxico: «acampamento-base»

É aqui que tudo começa


      «Após quase uma semana isolado, foi localizado por trabalhadores que subiam a montanha para recolher resíduos e transportado para o acampamento-base» («Mastigar gelo e comer chocolates:guia nepalês sobrevive seis dias no Evereste após ficar sem oxigénio», Rádio Renascença, 6.06.2026, 00h32). Vejo-o hifenizado, e bem, como unidade lexical que é, em textos com décadas, pelo que proponho acampamento-base acampamento principal instalado numa posição estratégica e utilizado como centro de operações, apoio logístico e abastecimento para actividades desenvolvidas na área envolvente; no contexto do alpinismo de grande altitude, acampamento estabelecido ao pé de uma montanha, a partir do qual se organizam as ascensões e se coordenam os acampamentos mais elevados.

[Texto 23 181]

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Definição: «biblioterapia»

Estão todos curados


      No Conta Lá, vi uma reportagem sobre o Comboio Literário organizado pela Leya. A bordo iam 160 pessoas, entre as quais uma biblioterapeuta. Pessoalmente, eu ficaria mais descansado se tivessem embarcado uma enfermeira e um médico, mas não me queixo porque não estive lá. A repórter perguntou-lhe o que era a biblioterapia. Nada de conclusivo foi dito, mas deu para perceber que os nossos dicionários também não avançam muito. Talvez ainda andem a apalpar terreno. Assim, proponho ➠ biblioterapia MEDICINA, PSICOLOGIA utilização orientada da leitura de livros ou de outros textos para fins terapêuticos, de desenvolvimento pessoal ou de promoção do bem-estar emocional.

[Texto 23 180]

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Léxico: «jacaré-de-papo-amarelo»

Toma este aligatorídeo


      «Há quem já o tenha visto uma ou duas vezes. Outros jamais se depararam com ele. O veterano em questão é um jacaré-de-papo-amarelo, espécie da mata atlântica, o que reforça a probabilidade de sua presença ali. [...] A bióloga Cybele Lisboa, 43, confirma a existência da companheira. Segundo ela, o macho tem tamanho estimado de 2,5 metros e peso de aproximadamente 100 kg, com base em análise visual e comparação com os jacarés que vivem no zoológico. [...] Ela acrescenta que o jacaré-de-papo-amarelo vive em média 50 anos sob cuidados humanos —em vida livre, não há uma estimativa oficial» («Jacaré vive há mais de 40 anos em lago do Jardim Botânico de São Paulo», Paulo Eduardo Dias, Folha de S. Paulo, 21.06.2026, p. A27). 

      Já é nosso, Porto Editora, apanha-o ➠ jacaré-de-papo-amarelo ZOOLOGIA (Caiman latirostris) espécie de jacaré da família dos Aligatorídeos, nativa da América do Sul, distribuída sobretudo pelo Brasil, Bolívia, Paraguai, Uruguai e norte da Argentina; caracteriza-se pelo focinho largo e pela coloração amarelada da região inferior da cabeça e do pescoço, mais evidente nos adultos durante a época reprodutiva; habita rios, lagoas, pântanos e outras zonas húmidas, alimentando-se de peixes, moluscos, crustáceos, aves e pequenos mamíferos.

[Texto 23 179]

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Léxico: «Pequena Idade do Gelo | estofagem»

Ficamos já com esta


      «La Pequeña Edad de Hielo fue un período de gran inestabilidad climática que ocurrió entre los siglos XIV y el XIX. Gracias a la ciencia, cada día conocemos nuevos detalles. No fue un enfriamiento, como se creyó durante mucho tiempo, sino más bien una sucesión de sequías, heladas, inundaciones, temporales y cambios bruscos de temperatura» («Cuando el clima provoca revueltas», Xavier Fonseca, La Voz de Galicia, 7.06.2026, p. L11). 
      Só não compreendo como não está nos dicionários, quando se sabe cada vez mais sobre o assunto. Proponho assim ➠ Pequena Idade do Gelo CLIMATOLOGIA período de arrefecimento climático relativo e de forte variabilidade climática que afectou sobretudo o hemisfério norte entre os séculos XIV e XIX, caracterizado por temperaturas médias inferiores às actuais e por uma maior frequência de fenómenos meteorológicos extremos, como Invernos rigorosos, secas, cheias, tempestades e más colheitas, provocando profundas repercussões económicas, sociais e demográficas.

[Texto 23 178]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Porto Editora, por amor de Deus, agarra na definição de «estofamento» e cria um novo verbete: «estofagem». Está feito. Não custa nada.

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Léxico: «urotelial»

Já que o procuras


      «Enquanto no cancro da bexiga localizado, a taxa de sobrevivência dos doentes cinco anos após o diagnóstico é de 71,7%, esse valor baixa drasticamente para quem tem carcinoma urotelial metastático (o cancro da bexiga metastático mais comum): a sobrevivência, cinco anos após o diagnóstico, ronda os 8%» («Pode um teste genético acelerar o tratamento do cancro da bexiga?», Tiago Ramalho, Público, 27.05.2026, p. 27).

[Texto 23 177]

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Definição: «abelha-carpinteira»

E os sinónimos?


      Apareceu-me aqui um simpático abelhão, que a Porto Editora regista, mas não como sinónimo de «abelha-carpinteira», cuja definição é aceitável na descrição geral, mas fica aquém do mínimo lexicográfico exigível por não registar nenhuma das designações comuns da espécie, como «abelha-carpinteira-violeta», «abelhão», «abelhão-azul» ou «abelha-negra». Para o consulente, estes sinónimos são tão importantes como a descrição morfológica, pois são precisamente os nomes por que o insecto é conhecido em textos de divulgação e na linguagem corrente. Assim, proponho abelha-carpinteira ZOOLOGIA (Xylocopa violacea) espécie de abelha solitária da família dos Apídeos, de grande porte, com corpo negro e asas de reflexos azulados ou violáceos, que constrói o ninho em galerias escavadas em madeira morta; desempenha importante papel na polinização de numerosas plantas silvestres e cultivadas; abelha-carpinteira-violeta; abelhão; abelhão-azul; abelha-negra.

[Texto 23 176]

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Léxico: «coluna seca»

Faz falta


      Estamos sempre a encontrá-las ao longo do dia, no nosso prédio, no emprego, nos centros comerciais, até já me perguntaram o que significa, pelo que é a candidata perfeita para ir para os dicionários. Estou a falar da ➠ coluna seca instalação fixa de combate a incêndios constituída por uma conduta vertical e respectivas ligações, mantida sem água em condições normais, destinada a permitir o abastecimento de água pelos bombeiros aos diversos pisos de um edifício durante o combate a um incêndio.

[Texto 23 175]

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Definição: «criminologia»

Esquece as ancilares, as auxiliares


      Era na rádio, na Antena 1, e citaram não sei que criminólogo. Foi esta a palavra que usaram. A Porto Editora nem se sai mal: «especialista em criminologia; criminologista». Já a definição de «criminologia» é que não me convence nem um pouco: «1. conjunto complexo de disciplinas médicas, genéticas, psicológicas, sociológicas, que consideram a criminalidade nos seus diversos aspectos; 2. filosofia do direito penal». No respeitante à primeira acepção, o que se me oferece dizer é que uma definição deve identificar a natureza do referente e o que o distingue, não os instrumentos de que se serve. Só a título de exemplo: a Astronomia recorre intensamente à Física, à Matemática e à Informática: a Geologia recorre à Química, à Física e à Biologia; a Linguística recorre à Psicologia, à Neurologia, à Sociologia e à Informática; a Arqueologia recorre à Química, à Geologia, à Física e à Genética, e, no entanto, ninguém define nenhuma destas ciências como um «conjunto de disciplinas» apenas porque utiliza métodos ou conhecimentos provenientes delas. Quanto à segunda acepção, carece de comprovação documental; na ausência de provas de uso autónomo e efectivo, recomendo a sua eliminação. 

      Assim, proponho ➠ criminologia ciência que estuda o crime e a criminalidade, as suas causas, os seus efeitos e os meios de prevenção e controlo.

[Texto 23 174]

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Definição: «solenóide»

As vantagens estão à vista


      Aqui esta personagem (não a conseguem ver, o monitor está a tapá-la) comprou um transístor usado que tinha um dos solenóides solto, e agora está a pedir ao filho do amante que vá lá a casa para o ajudar. Entretanto, ajudemos nós os dicionários que, se bem que palavrosos, se esquecem de explicar para que serve tal componente e apresentam uma definição em que não cabe quase nunca o sentido que se lhe dá, já que, quando alguém fala de um solenóide num automóvel, numa fechadura eléctrica, numa válvula ou numa máquina industrial, está normalmente a pensar no actuador electromagnético, não na bobina enquanto figura geométrica ou objecto físico. Assim, proponho ➠ solenóide 1. ELECTRICIDADE, FÍSICA 1. bobina de fio condutor enrolado em hélice que, ao ser percorrida por corrente eléctrica, produz um campo magnético; 2. dispositivo electromagnético constituído por uma bobina e um núcleo móvel, utilizado para accionar mecanismos, válvulas, fechaduras, interruptores e outros componentes.

[Texto 23 173]

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Léxico: «euforizante»

Um problema muito comum


      «Le match se jouait sous la pluie, le terrain devenait gras et difficilement praticable, mais les Allemands avaient une botte secrète (enfin, deux, puisque l’on découvrira par la suite qu’ils étaient chargés à la Pervitine, un euphorisant développé pendant la guerre). A la mi-temps, Dassler dévissa les crampons pour les remplacer par d’autres, plus longs, qui permirent ensuite aux joueurs allemands de mieux tenir sur la pelouse et de renverser les Hongrois, invaincus depuis trois ans» («1954: l’innovation, mère de toutes les conquêtes», Laurent Favre, Le Temps, 11.06.2026, p. 17). 
      Isso mesmo, Porto Editora, não é apenas adjectivo. Assim, proponho ➠ euforizante nome masculino substância ou medicamento que provoca ou favorece um estado de euforia.

[Texto 23 172]

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Léxico: «erióforo»

Acabou-se a espera


      Apareceu-me numa tradução, sei que o esperas, Porto Editora, pelo que aqui vai o ➠ erióforo BOTÂNICA planta herbácea do género Eriophorum, da família das ciperáceas, característica de turfeiras e terrenos húmidos, cujas infrutescências apresentam tufos sedosos brancos semelhantes a algodão.

[Texto 23 171]

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Léxico: «substituição de gerações»

Dois conceitos diferentes


      «Está nos livros: para que a população de um país desenvolvido se mantenha estável, é indispensável que por cada duas pessoas (um casal) nasçam dois bebés. Para sermos precisos, a taxa de fertilidade óptima para que, por exemplo, Portugal continue a ser demograficamente saudável neste século é de 2,1 filhos por mulher. Chama-se a isto renovação geracional» («A teoria da substituição que o Chega não quer ver», Pedro Candeias, editorial, Público, 14.06.2026, p. 4). 
      Chama? Acho que não. Esse conceito é muito mais amplo. Pelo que vejo, «renovação geracional» é uma expressão mais genérica, usada com frequência em contextos como o mercado de trabalho, os sistemas de pensões, a sucessão em empresas, organizações ou profissões, entre outros. Embora possa ser empregada em contextos demográficos, não corresponde à designação técnica habitualmente utilizada pelo INE para o conceito segundo o qual cada geração é substituída por outra de dimensão equivalente. Para esse fenómeno, o INE usa preferencialmente a expressão ➠ substituição de gerações DEMOGRAFIA renovação de uma população mediante o nascimento de um número suficiente de filhos para que cada geração seja substituída por outra de dimensão equivalente.

[Texto 23 170]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: O leitor mais perspicaz terá reparado que a definição não menciona os famosos 2,1 filhos por mulher. A omissão é deliberada. Esse valor não faz parte da definição do conceito; é apenas uma aproximação frequentemente usada pelos demógrafos para indicar o nível de fecundidade necessário à substituição de gerações em populações com baixos níveis de mortalidade.


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Léxico: «esmeriladora | esmerilhadora»

Existe e custa muito dinheiro


      «O novo equipamento representou um investimento de cerca de oito milhões de euros e vem substituir uma esmeriladora que estava ao serviço desde 1976. Segundo sublinhou a administração do ML, a máquina terá “um papel essencial na manutenção preventiva da infraestrutura ferroviária”, sendo a sua função “corrigir o desgaste natural dos carris provocado pela circulação diária dos comboios”» («Metro recebe nova esmeriladora ao fim de quase 50 anos», Rádio Renascença, 15.06.2026, 22h20). 

      Ainda pensei que seria apenas caso de acrescentar esta acepção. Nada disso: a Porto Editora nem sequer regista «esmeriladora/esmerilhadora». Assim, proponho ➠ esmeriladora/esmerilhadora 1. máquina equipada com rebolos ou outros elementos abrasivos, utilizada para esmerilar, rectificar, afiar ou polir superfícies metálicas e outros materiais; 2. FERROVIA veículo ou máquina pesada de manutenção ferroviária destinada à esmerilagem dos carris, corrigindo o seu desgaste e as irregularidades da superfície de rolamento, repondo o perfil adequado da via e contribuindo para a redução de vibrações e ruído e para o prolongamento da vida útil da infra-estrutura.

[Texto 23 169]

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Léxico: «amberina» Definição: «ambarina»

Esta é tripla


      «Ela tirou do bolso umas lascas de amberina e um fragmento de cerâmica e ofereceu-lhos.» Só que os nossos dicionários apenas registam ambarina/ambrina/ambreína, e por certo que não muito bem definido, bem longe disto ambarina QUÍMICA álcool triterpénico (C₃₀H₅₂O), principal constituinte do âmbar-cinzento, praticamente inodoro, que por oxidação origina compostos aromáticos responsáveis pelo odor característico do âmbar-cinzento, alguns dos quais utilizados em perfumaria. 

       Mas a nossa personagem tirou do bolso lascas de amberina, não de ambarina, e aqui os nossos dicionários falham. Só o VOLP da Academia Brasileira de Letras o regista. Dada a lacuna, a necessidade de o termos e o respaldo, proponho ➠ amberina tipo de vidro artístico translúcido, caracterizado por uma gradação de cores do âmbar ao vermelho, obtida por tratamento térmico durante o fabrico, e utilizado no fabrico de peças decorativas e utilitárias.

[Texto 23 168]

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Léxico: «toque»

Ora esta...


      «Queres ir ter comigo quando eu sair? Vou demorar aí coisa de uma hora. Depois dou-te um toque. Pode ser?», dizia uma senhora, ontem, no meio da rua. Ora, dá-se o caso, estranho como outros, de o dicionário da Porto Editora não acolher este toque. Homessa... O cuidado e o transtorno obsessivo-compulsivo obrigaram-me a comprovar várias vezes. Talvez possa ser a 10.ª acepção, assim toque comunicação telefónica breve; telefonema rápido ou sinal de chamada destinado a estabelecer contacto com alguém.

[Texto 23 167]

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Léxico: «linhão»

Também brasileira


      E como até já tens o verbete, Porto Editora, mais fácil se torna: «A atividade do garimpo em Curionópolis (PA), que fez o município virar notícia mundial nos anos 1980 com a Serra Pelada, agora ameaça derrubar uma das principais linhas de transmissão de energia do Brasil —o chamado linhão de Belo Monte. São tratores, escavadeiras, caminhões e outras máquinas pesadas que, neste momento, avançam ilegalmente em barrancos de terras debaixo de torres que transportam energia por mais de 2.100 quilômetros de distância, ligando a amazônia ao Sudeste» («Avanço de garimpeiros sob linhão de Belo Monte traz risco de colapso», André Borges, Folha de S. Paulo, 18.06.2026, p. A23).

[Texto 23 166]

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Léxico: «montbrécia»

Num jarro


      Têm outro nome comum? Não me parece. Encontro-as no Houaiss, em bilingues da Porto Editora, por aí... Aqui aparecem num jarro. Assim, proponho montbrécia BOTÂNICA (Crocosmia × crocosmiiflora) planta herbácea perene da família das Iridáceas, resultante da hibridação de espécies do género Crocosmia, de folhas longas e estreitas e flores alaranjadas ou avermelhadas dispostas em espiga, amplamente cultivada como ornamental e frequentemente naturalizada.

[Texto 23 165]

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Léxico: «imageamento»

Mais uma do Brasil


      «Uma ferramenta fundamental adotada pelos cientistas foi o imageamento sísmico, criando mapas detalhados em duas e três dimensões do subsolo terrestre a partir de ondas sonoras que viajam e refletem nas camadas de rocha subterrâneas. Foi por meio dessa técnica que detectaram as características de antigos canais fluviais escondidos sob o leito marinho» («Eufrates, que ajudou a nutrir primeiras civilizações, surgiu há mais de 1,6 milhão de anos», Will Dunham, Folha de S. Paulo, 16.06.2026, p. A39).

[Texto 23 164]


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Léxico: «contributividade»

E se é frequente...


      Surge abundantemente na legislação, na doutrina jurídica e no discurso dos especialistas, mas não nos nossos dicionários. Ora esta... A última vez que a ouvi foi na segunda-feira no programa Antena Aberta, da Antena 1. Assim, proponho ➠ contributividade SEGURANÇA SOCIAL princípio segundo o qual as prestações atribuídas pelo sistema previdencial da segurança social são determinadas, total ou parcialmente, pelas contribuições efectuadas pelo beneficiário durante a sua vida activa; correspondência entre o esforço contributivo e os direitos adquiridos em matéria de protecção social.

[Texto 23 163]

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Léxico: «leuconiquia | mentira»

Verdade


      «Ces petites marques blanches portent même un nom scientifique: les leuconychies. Et contrairement à la croyance populaire, elles sont le plus souvent causées par de microchocs sur la matrice de l’ongle, autrement dit, la zone où l’ongle se forme» («“Les taches blanches sur les ongles, c’est un manque de calcium”», Valentina San Martin, Le Matin Dimanche, 14.06.2026, p. 42). 

      Em português, leuconiquia, que Rebelo Gonçalves, curiosamente, ignora. Como os nossos dicionários ignoram que no Brasil há um termo informal muito usado para designar estas manchas: mentira.

[Texto 23 162]

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Léxico: «enguia-congro»

Toma lá este


      «As consequências estendem-se também ao equilíbrio dos ecossistemas marinhos. Além de predarem diversas espécies de marisco e peixes, os polvos tornaram-se uma importante fonte de alimento para focas, enguias-congro e golfinhos-de-risso. Para os investigadores, esta alteração está a provocar uma verdadeira reorganização das cadeias alimentares marinhas» («Explosão de polvos nas águas do Reino Unido chega à Escócia e preocupa cientistas», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 11.06.2026, 12h51).

[Texto 23 161]

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Léxico: «texel»

Nos campos, no OLX, no talho...


      Apareceram-e aqui uns malatos texel numa tradução. Vejo-os à venda no OLX. Andarão aí pelo País, de norte a sul. Vamos levá-los para onde devem ir, assim ➠ texel ZOOTECNIA diz-se de ou raça ovina originária da ilha neerlandesa de Texel, criada sobretudo para a produção de carne, caracterizada pelo porte robusto, pelo forte desenvolvimento muscular, especialmente nos quartos traseiros, e pelo elevado rendimento da carcaça.

[Texto 23 160]

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Léxico: «matrilinearidade | patrilinearidade»

Só falta apor -idade aos que tens


      «“Algumas pessoas opõem-se a isso, alegando que a sucessão matrilinear não é tradicional”, a patrilinear é que é. Significa também que o príncipe Hisahito teria de casar e de ter um filho rapaz para que a família imperial tivesse herdeiro – e assim sucessivamente, para todo o sempre. Para o investigador [Hideya Kawanishi] do sistema imperial japonês, o que está em causa é um problema mais estrutural do que a matrilinearidade ou a patrilinearidade» («Princesa para sempre», Mara Tribuna, «Revista E»/Expresso, 5.06.2026, p. 35). Só prometes o segundo, Porto Editora; precisamos dos dois.

[Texto 23 159]

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Definição: «Dormição»

Falta a explicação


      «El ataque ruso ha provocado importantes daños en la histórica catedral de la Dormición, en Kiev. [...] El Monasterio de las Grutas, cuyo nombre en verdad es el Monasterio de la Dormición de la Madre de Dios, es la fundación monástica más antigua de la Rus' de Kiev. Erigido en la proximidad de la antigua residencia de los príncipes reinantes en Berestovo, fue fundado por Antonio, un monje venido del Monte Atos» («Una bomba al corazón de la Ortodoxia Eslava», Susana Torres Prieto, La Razón, 16.06.2026, p. 22).
      Não é uma suspeita, mas uma certeza: o leigo (em ambos os sentidos da palavra) que consulte os nossos dicionários não vai ficar a saber exactamente do que se trata. Quando um ortodoxo fala da «Dormição da Mãe de Deus» (Koímēsis tês Theotókou), não está a pensar primariamente na Assunção, mas no acontecimento completo: a morte santa de Maria, o seu «adormecimento» e a sua glorificação por Cristo. Valha a verdade que a definição do Houaiss até se aproxima ao esclarecer que a morte de Maria foi apenas um sono, mas estraga um pouco as coisas ao começar por afirmar que foi um intervalo de tempo. Ainda assim, porém, vai mais longe do que outros dicionários. 
      Tudo visto, e aproveitando toda a estrutura da definição da Porto Editora, proponho ➠ dormição RELIGIÃO [com maiúscula] na tradição dos cristãos orientais, morte da Virgem Maria, entendida como um adormecimento no Senhor e seguida da sua glorificação e elevação ao Céu; Assunção.

[Texto 23 158]

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Definição: «interpolação»

Na Índia sabem


      «This is called an extrapolation problem: that is, Al is great at interpolating, or predicting things within the range of what it has seen, but it struggles to predict things far outside of its training data» («Al falls short on extreme weather forecasting», Vasudevan Mukunth, The Hindu, 16.06.2026, p. II). 
      Interpolação e extrapolação. Ora bem, todos temos uma ideia aproximada do que é, sobretudo esta última. Se quisermos saber mais exactamente o que significa a primeira e usarmos o dicionário da Porto Editora, os nossos intentos vão sair frustrados: «MATEMÁTICA processo de achar o valor de uma função entre dois valores conhecidos por um processo diverso da lei que é dada pela própria função». Ena, «por um processo diverso da lei que é dada pela própria função». E o que significa isso? Se perguntarmos a um matemático o que distingue interpolação de extrapolação, ele responderia quase certamente que interpolação consiste em estimar dentro do intervalo dos dados conhecidos e extrapolação, estimar fora desse intervalo. Porque é que um dicionarista quererá complicar isto? 
      Sendo assim, proponho ➠ interpolação MATEMÁTICA processo de achar aproximadamente o valor de uma função para um valor da variável situado entre outros valores da mesma variável para os quais se conhece o valor da função.

[Texto 23 157]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Exemplo simples de interpolação: se às 10h00 a temperatura era de 20 °C e às 11h00 tinha subido para 24 °C, pode estimar-se que às 10h30 rondaria os 22 °C, uma vez que o instante considerado se situa entre dois pontos de referência conhecidos.


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Léxico: «rádio-leitor»

Faz aqui falta


      «Do outro, a ganga preta dos blue collars, da laranjinha e do chinquilho, o rádio-leitor de cassetes no requinte supremo de um qualquer Casal Ventoso circundante longínquo à tal catedral de exposição cornuda, a espreitar ciganas inquietas, a venderem camisolas baratas de lagarto nada original, por Lacoste impenitente» (Quarto Minguante, António Carvalho Martins. Coimbra: Coimbra Editora, 1990, p. 66).

[Texto 23 156]

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Léxico: «gnaisse lewisiano»

Ainda se fosse da Luisiana


      Procuramos «lewisiano» no dicionário da Porto Editora, mas só nos aparece «luisiano», «brevemente disponível». Não tenham pressa, só diz respeito a Luisiânia, no Estado de S. Paulo, ou o que é seu natural ou habitante. Nem sequer todos os dicionários e vocabulários brasileiros o acolhem. Mais falta faz, como subentrada, em «gnaisse», isto  gnaisse lewisiano GEOLOGIA variedade de gnaisse de idade arqueana e paleoproterozóica, considerada uma das rochas mais antigas da Europa, característica das Hébridas Exteriores da Escócia, especialmente das ilhas de Lewis e Harris.

[Texto 23 155]

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Léxico: «avunculado, avunculato»

Pensar em inglês, escrever em português


      «Não é a primeira vez que Gary Oldman fez “Krapp’s Last Tape”, nem é o único Krapp imperdível. Nas últimas décadas tivemos pelo menos três Krapps marcantes em Londres, todos entretanto falecidos. Tive a sorte de ver um deles, Michael Gambon, apropriadamente no dia do meu aniversário (pois na peça Krapp faz anos, ou, como ele diz, “completa” tantos anos). Não vi o Krapp de John Hurt, nem o de Harold Pinter, que o fez certamente como homenagem ao seu amigo Sam. Gambon era “avuncular”, palavra em desuso, fisicamente ameaçador, decrépito» («Oldman Krapp», Pedro Mexia, «Revista E»/Expresso, 5.06.2026, p. 68). 
      Em desuso, isso é certo, mas o problema aqui não é esse. Em português, os dicionários registam apenas a acepção ligada ao parentesco («relativo ao tio» ou «relativo à relação entre tios e sobrinhos»), ao passo que o inglês moderno desenvolveu também a acepção figurada de «afável, protector, com maneiras de tio». Por todos, veja-se o Cambridge Dictionary: «friendly, kind, or helpful, like the expected behaviour of an uncle». Só estaria certo, sem mácula, se Pedro Mexia escrevesse, já não digo toda a crónica, mas pelo menos a frase toda em inglês: «Gambon was avuncular (a somewhat old-fashioned word), physically threatening, decrepit.» 

[Texto 23 154]

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P. S.: Dá-se o caso, para mim, quase sempre feliz, de a Porto Editora não acolher avunculado, avunculato ANTROPOLOGIA sistema de parentesco em que o tio materno ocupa posição de autoridade privilegiada em relação ao sobrinho, sendo frequentemente considerado seu protector, mentor ou herdeiro principal.


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Léxico: «pitom/ pitão/ trava»

Então, são três


     «A la mi-temps, Dassler dévissa les crampons pour les remplacer par d’autres, plus longs, qui permirent ensuite aux joueurs allemands de mieux tenir sur la pelouse et de renverser les Hongrois, invaincus depuis trois ans» («1954: l’innovation, mère de toutes les conquêtes», Laurent Favre, Le Temps, 11.06.2026, p. 17). 
      Também usamos o termo crampom/crampão, mas reservámo-lo para o calçado de montanhismo. Nós usamos pitom/pitão, mas a Porto Editora esqueceu-se de registar o primeiro, seguramente o mais usado, além de que define mal o segundo: «peça cónica ou pontiaguda existente na ponta da frente de alguns sapatos desportivos». Muitos pitons modernos não são cónicos nem pontiagudos: existem modelos cilíndricos, laminares, triangulares, elípticos, em forma de seta, etc. Logo, a forma não é o traço distintivo. Por outro lado, os pitons distribuem-se pela sola. Há pitons na parte anterior e na parte posterior da chuteira. Aliás, os do calcanhar são essenciais para a estabilidade e a tracção. Já quanto a ser «de alguns sapatos desportivos», a formulação parece-me demasiado vaga. O uso normal refere-se sobretudo a chuteiras. Além disso, a expressão «sapatos desportivos» faz pensar em ténis de corrida, de basquetebol ou de ténis, nos quais não se usam pitons. Acresce que, não apenas não acolhe, como vimos, «pitom», como também esquece o sinónimo «trava». 
      Assim, tudo visto e ponderado, proponho para esta acepção ➠ pitom/pitão/trava DESPORTO cada uma das saliências fixadas ou moldadas na sola de algumas chuteiras para aumentar a aderência ao terreno.

[Texto 23 153]

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Léxico: «pteruges»

O equipamento completo


      Fez muito bem aqui um tradutor, e um dos mais criteriosos, em escrever pteruges, assim mesmo, sem itálico. Porque é usado noutros textos, sobretudo de cariz histórico, em português, porque a sequência inicial pte-, embora rara, não nos é desconhecida, e porque faz falta. No nosso imaginário, e talvez ainda mais no meu, que estudei Latim, tinha os manuais, a gramática, os textos de apoio, há três elementos imediatamente associados ao soldado romano: o capacete, as cáligas e os pteruges. Assim, proponho pteruges nome masculino plural HISTÓRIA conjunto de tiras protectoras, geralmente de couro, suspensas da cintura ou dos ombros da armadura dos soldados da Antiguidade, sobretudo romanos, destinadas a proteger as virilhas, as ancas e a parte superior das coxas sem restringir os movimentos.

[Texto 23 152]

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P. S.: Porto Editora, agora, para tudo estar bem, tens de levar a nova definição de «almadraba» para o verbete de «almadrava».


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Léxico: «fotóstato»

Antes das fotocópias


      «Eram fotóstatos de fraca qualidade. A máquina fora ligada com pouca definição, os originais tinham sido enfiados lá dentro à pressa e tortos.» Pois, Porto Editora, não o tens. Assim, proponho ➠ fotóstato 1. aparelho de reprodução fotográfica de documentos, antecessor das modernas fotocopiadoras; 2. cópia fotográfica de um documento ou desenho obtida por meio desse aparelho.

[Texto 23 151]

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Definição: «fasciolose»

Até para se saber do que se trata


      Apareceu-me aqui um carneiro com fasciolose e morreu. Numa tradução, valha-me Deus, não cá em casa. Cá em casa, só tenho o meu gato, prestes a fazer seis anos e agora menos selvagem. Que tem problemas recorrentes na pele, é verdade, mas acaba sempre por se curar. Ora, Porto Editora, se a fasciolose é muito mais frequentemente tratada como problema veterinário do que como problema médico humano, é melhor, até para dizermos mais do que o estrito mínimo, assim ➠ fasciolose MEDICINA, VETERINÁRIA doença parasitária do fígado e das vias biliares causada por tremátodes do género Fasciola.

[Texto 23 150]

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Definição: «cepticismo/pirronismo»

Qualquer assunto não, caramba


      «El primer gran escéptico fue Pirrón de Elis o Élide, que planteó las dificultades del conocimiento, el problema del juicio y muchas otras cosas más de forma pionera. Fundador de esta corriente de larga duración, es una figura fundamental para la escuela escéptica, que pone en duda el criterio y el juicio, y llega a suspenderlo para llegar a la tranquilidad o ataraxia, de manera semejante al estoicismo y al epicureísmo. A lo que anima el escéptico Pirrón es a carecer de turbación y pasiones en un legado que luego reivindicará Sexto Empírico en la edad romana» («Pirrón: que la vida te sea indiferente», David Hernández de la Fuente, La Razón, 15.06.2026, p. 46).
      Tão fundamental, de facto, que «cepticismo» é sinónimo de «pirronismo». Sinónimos, mas se consultarmos os verbetes no dicionário da Porto Editora, vemos que não dizem o mesmo, e a diferença não é formal, mas substancial: em «pirronismo», não encontramos a estranha referência às duas teses opostas. Um pirrónico não diria que duas teses opostas são ambas verdadeiras; diria antes que dispomos de razões de força equivalente para sustentar uma e outra, precisamente o que conduz à suspensão do juízo. A formulação da Porto Editora simplifica excessivamente a doutrina. O núcleo do pirronismo, segundo os especialistas, é a equipolência dos argumentos e a consequente suspensão do juízo, pelo que tem de estar explícito na definição. Mais: não é «sobre qualquer assunto», demasiado absoluto, o que os faria parecer mais totós do que filósofos. Os pirrónicos suspendiam o juízo sobretudo sobre questões não evidentes. 
      Tudo visto, proponho, com remissões mútuas no corpo da definição, ➠ cepticismo/pirronismo FILOSOFIA doutrina do filósofo grego Pírron de Élis (c. 365-275 a. C.), que preconizava a suspensão das opiniões e dos julgamentos perante a dificuldade de alcançar um conhecimento seguro da realidade; fundamenta-se na ideia de que, relativamente a uma mesma questão, podem ser apresentados argumentos de força equivalente em defesa de posições opostas, o que impede uma decisão definitiva sobre a verdade das coisas.

[Texto 23 149]

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P. S.: Também recomendo vivamente que no verbete de «pirrónico» apareça alguma referência ao cepticismo, para o leitor não ter de tentar adivinhar. Podia ser assim: ➠ pirrónico FILOSOFIA relativo a Pírron de Élis (c. 365-275 a. C.), filósofo grego, ou à sua doutrina, o pirronismo ou cepticismo.


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Léxico: «agnático»

Temos de fazer o mesmo


      «Tal como acontece noutras monarquias, o Japão ainda tem a chamada sucessão agnática (que exclui as mulheres do trono). O enredo complica-se porque o país já teve imperatrizes reinantes no passado: oito mulheres soberanas ocuparam o trono até que surgisse um herdeiro masculino, e duas delas repetiram a proeza. Isso foi, porém, entre os séculos VI e XVIII, ou seja, o Japão nunca teve uma imperatriz moderna, nomeadamente nos 79 anos em que a atual Constituição esteve em vigor» («Princesa para sempre», Mara Tribuna, «Revista E»/Expresso, 5.06.2026, p. 33). 
      Se nos ficássemos pela consulta do dicionário da Porto Editora, concluiríamos que estava errado: «relativo a agnatia (ausência congénita do maxilar inferior)». E, efectivamente, dantes não se dizia senão «sucessão agnatícia». Agora, porém, já não é assim, e nos dicionários brasileiros uma das acepções de «agnático» remete para «agnatício». Temos de fazer o mesmo.

[Texto 23 148]

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Léxico: «polvo-comum»

Se é comum, não temos


      «A espécie em causa é o polvo-comum (Octopus vulgaris), nativa das águas britânicas, embora habitualmente observada em números reduzidos. Os especialistas explicam que a conjugação de invernos mais amenos e primaveras mais quentes favorece a sua reprodução, tendência que se tem intensificado devido às alterações climáticas» («Explosão de polvos nas águas do Reino Unido chega à Escócia e preocupa cientistas», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 11.06.2026, 12h51). 
      É verdade que no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora podemos ver um verbete de polvo-vulgar (tradução directa do nome científico), que também está correcto, mas temos de acolher todos os nomes comuns.

[Texto 23 147]

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Definição: «pedra seca»

Chegou a ocasião propícia


      «A arte da construção dos muros de pedra seca, tradicional no Maciço de Sicó, já faz parte do Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (INPCI). De acordo com despacho publicado em Diário da República, a inscrição desta técnica foi aprovada pelo Património Cultural, Instituto Público» («Muros de pedra seca no património nacional», Diário de Coimbra, 7.06.2026, 14h01). 
      Como veremos de seguida, «pedra seca» designa duas coisas distintas mas relacionadas, mas na sua definição no dicionário da Porto Editora não se acerta em nenhuma delas: «pedaço de matéria rochosa aplicada sem argamassa na construção de muro, parede, etc.». O nome designa quer a técnica quer o resultado, não o elemento construtivo utilizado. Assim, proponho  pedra seca técnica construtiva que consiste na justaposição e no encaixe de pedras, sem recurso a argamassa ou outro material de ligação, utilizada sobretudo na construção de muros, paredes e estruturas de suporte; construção assim realizada.

[Texto 23 146]

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