Léxico: «recoleta»

Outra ignorada

      «Explicitamente sobre Ovar, Júlio Dinis escreveu apenas O Canto da Sereia, sobre o Furadouro, falando dos palheiros e das recoletas onde dormiam as famílias dos pescadores» («Os serões na província foram à beira-mar. Júlio Dinis», Raquel Ribeiro, Público, 31.07.2013, p. 29).
      Também aqui os dicionários falham. O Aulete, porém, regista que recoleta é um termo recolhido em Aveiro e é o «barracão, para vivenda, com uma só vertente de telhado». Palheiros há muitos. As recoletas são palheiros térreos e muito pobres.
[Texto 3125]
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Como se traduz na televisão

Dragado, calado...

      O presidente do Panamá, Ricardo Martinelli, está em Portugal em visita oficial, vi no Jornal da Tarde de ontem. As legendas da sua declaração à imprensa diziam isto: «A visita visa aprofundar as relações comerciais entre os dois países e é por isso importante que o porto de Sines, em Portugal, tenha relações com os portos panamianos, assim que o Canal do Panamá for expandido. Portugal será uma das economias que mais beneficiará pelo acesso direto aos portos com calado suficiente para receber os barcos pós-alargamento, e ser assim um porto de entrada para uma grande quantidade de produtos oriundos do Oriente e da América e destinados ao mercado europeu.» «Portos com calado suficiente»? Alguém devia estar calado, isso sim. O que Ricardo Martinelli disse foi que «Portugal va ser una de las economías que más se va a beneficiar por el acceso directo que tienen sus puertos, la capacidad de tener un dragado suficiente para acomodar los barcos post-panamax [com capacidade para 12 000 a 16 00 contentores]». Calado é a distância vertical entre a parte inferior da quilha e a linha de flutuação de uma embarcação.

[Texto 3124]
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Léxico: «surdolímpico»

Mesmo desde 2000...

      O lutador Hugo Passos, acabei de ver na televisão, conquistou o ouro nos Jogos Surdolímpicos. É o quarto título consecutivo do português na luta greco-romana, na categoria menos 66 quilos. Quanto à categoria, eu só podia competir na de menos 78 quilos, e surdo sou também eu: então estes jogos tiveram a primeira edição em Paris em 1924 e eu nunca tinha ouvido a palavra? Ah, está aqui uma parte da explicação: «A partir de 2000, os jogos passaram a ser conhecidos pelo seu nome actual “Deaflympics” ou Surdolímpicos, denominação oficial Portuguesa [sic], muitas vezes erroneamente apelidados de “Olimpíadas dos Surdos”.»
[Texto 3123]
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Sobre «senador», de novo

Com frequência

      «Ouvir o novo ministro [Rui Machete] classificar as perguntas mais do que legítimas que lhe eram feitas sobre o BPN — perguntas banalíssimas em qualquer país que conheça o significado do verbo “escrutinar” — como uma manifestação da “podridão dos hábitos políticos”, é daquelas atitudes que só mesmo um velho senador do Bloco Central dos interesses, a quem a democracia por vezes enfada, se lembraria de ter» («Machete kills», João Miguel Tavares, Público, 30.07.2013, p. 48).
      Com aspas ou sem aspas, a verdade é que se vai consolidando, de dia para dia, este sentido figurado do vocábulo «senador». Está capaz de ir para os dicionários.
[Texto 3122]
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Léxico: «rebém»

Bem e rebém

      Não me ficou muito no ouvido, mas retive de um anúncio qualquer coisa como «para que não sejas rebém, mas rebelde». Retive apenas, é claro, o que fugia ao trivial, rebém. Foi acolhido por Morais e por Houaiss (como advérbio: duas vezes bem; muito mais, bem mais), mas não, por exemplo, pelo moderno Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, em que figura somente como substantivo, o açoite com que se castigavam os forçados. No caso do anúncio, o prefixo juntou-se ao adjectivo bem no sentido de socialmente irrepreensível ou de classe social elevada. É pena que, em vez de enriquecidos, os dicionários sejam despojados destes vocábulos e acepções.
[Texto 3121]
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Sufixos iniciados por z

Quarenta anos

      No primeiro semestre deste ano, foram criadas mais de 20 mil empresas em Portugal, o que representa uma subida de 18 % em relação ao mesmo período de 2012. Uma delas foi a Tales in Details (no rodapé da reportagem no Jornal da Tarde de ontem, lia-se «Tails in Details»), que produz sobretudo artigos para crianças. Mostraram uma almofada em que de um lado o Lobo Mau perguntava: «o que levas na cestinha?» Do outro lado, o Capuchinho Vermelho respondia: «levo bolos para a avózinha!» Assim, com minúsculas e o acento em «avozinha». Há quarenta anos, o artigo único do Decreto-Lei n.º 32/73, de 6 de Fevereiro, estatuía: «São eliminados da ortografia oficial portuguesa os acentos circunflexos e os acentos graves com que se assinalam as sílabas subtónicas dos vocábulos derivados com o sufixo mente e com os sufixos iniciados por z
[Texto 3120]
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Léxico: «tramo»

Pode ser

      O maquinista do acidente de Santiago de Compostela saiu em liberdade condicional. O repórter Manuel Meneses, da RTP, foi ouvir o cidadão comum nas ruas de Compostela. «Acho bem porque, além disso, li hoje no jornal que ele terá dito que julgava que estava noutro tramo da linha.» Em todas as outras ocorrências, foi o vocábulo «troço» que se usou, mas em português «tramo» também é a secção de uma estrada ou via férrea.

[Texto 3119]
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Como se fala na televisão

Este não é carnívoro

      Um pescador, Carlos Ambrósio, de Cascais capturou um tubarão-frade com meia tonelada. A baía de Cascais encheu-se de curiosos. Também eu teria ido lá ver, mas a essa hora estava a visitar o Palácio-Convento de Mafra, talvez a contemplar a cómoda-retrete ou o bacio de prata batida, com as armas reais, de D. João VI. Mais tarde, no Telejornal, a repórter Diana Palma Duarte disse: «Chegou à hora de almoço, mas não serve para consumo. Os banhos foram interrompidos pela grandeza da pescaria, mas não há razões a temer.»
      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é que ainda não se avista o tubarão-frade.

[Texto 3118]
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Prova de avaliação de conhecimentos

E cá, será melhor?

      «O caracol “é um crustáceo”. E “escrúpulo” significa “pôr-do-sol”. Estes foram alguns dos erros cometidos por candidatos a professores primários, em Madrid, num exame realizado em Março, no âmbito de um concurso de professores. No total, 86% dos candidatos chumbaram num teste com perguntas a que é suposto um aluno de 12 anos saber responder» («“Será esta a melhor maneira de seleccionar professores?”», Andreia Sanches, Público, 27.07.2013, p. 8).
      Ah, está bem, agora os dicionários já registam o verbo «chumbar» como intransitivo... Quanto a é suposto + infinitivo, macaqueado do inglês, já se vê menos, felizmente.
[Texto 3117]
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Léxico: «desorçamentação»

E está na moda

      «Para a especialista em PPP [Mariana Abrantes de Sousa], um dos principais erros cometidos foi a desorçamentação destes projectos, que levou ao actual endividamento do Estado. Depois, diz, houve “estupidez” e “aproveitamento político”» («“Portugal ainda não aprendeu com as parceiras público-privadas”», Luís Villalobos e Ana Gomes Ferreira, Público, 29.07.2013, p. 14).
      Já está registado, por exemplo, no Vocabulário Ortográfico Português, mas ainda falta em quase todos os dicionários.
[Texto 3116]
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Uma acepção de «redundância»

Nada supérfluo

      «Mais, quatro quilómetros antes da mudança nos carris, o mecanismo informático dos comboios de alta velocidade informa o condutor de que deve reduzir a velocidade. E como acontece nos aviões, este tipo de comboios tem um sistema de redundâncias, ou seja, se um sinal falhar, há outro. Também há redundâncias no sistema de travões» («Condutor do comboio descarrilado preso por homicídios por negligência», Ana Gomes Ferreira, Público, 28.07.2013, p. 32).
      Trata-se de um anglicismo semântico. No Merriam-Webster, redundant é o que «serving as a duplicate for preventing failure of an entire system (as a spacecraft) upon failure of a single component».

[Texto 3115]
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Léxico: «apoliticismo»

Está-se mesmo a ver

      «Segundo Óscar Lopes e António José Saraiva, “a presença corresponde a um certo ambiente de apoliticismo forçado, depois do colapso da I República em 1926, e, por isso, os presencistas aspiram, em geral, a uma literatura e arte desvinculadas, senão mesmo alheadas, de qualquer posição de carácter político ou religioso”» («José Régio. Memórias de um coleccionador», Raquel Ribeiro, Público, 28.07.2013, p. 17).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista somente «apolitismo» — «carácter de apolítico; atitude do que não apoia nenhuma ideologia política ou que tem aversão a questões políticas» —, mas é claro que correcto é «apoliticismo».
[Texto 3114]
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«Para além»

Não interessa a explicação

      Ana Daniela Soares, no programa As Vozes Que Nos Escrevem, entrevistou hoje a escritora Patrícia Reis. Aqui fica um excerto: «E escrevo várias coisas em vários registos, o que quer dizer que sou capaz de escrever um texto para um presidente de uma grande empresa, para incorporar um relatório e contas, como sou capaz de escrever um livro em ghost writing, que é uma coisa que me dá imenso prazer, porque não sou eu, posso escrever à vontade, sem qualquer espécie de problema, escrever os disparates todos, com os erros todos, aqueles que me arrepiam, tipo os advérbios de modo em excesso, o “para além”, sabendo eu que “para além” é metafísica, que se uma coisa que está além não precisa de estar para além...»
      Quando regressar das férias, Montexto vai, tenho a certeza, apreciar muito esta explicação para lá da gramática.
[Texto 3113]
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O AOLP mal sabido

Acordo Ortográfico, pois

      «Em bom rigor, Seguro não quer a troika. Quer, sim, a “troica”, segundo as boas regras do Novo Acordo Ortográfico, adoptado nos documentos oficiais do Partido Socialista. E deve ser porque a troika e a “troica” não são a mesma entidade que ele acha que se pode dirigir ao país anunciando orgulhosamente [...]» («A troika e a “troica”», João Miguel Tavares, Público, 23.07.2013, p. 48).
      Em bom rigor, nada disto faz muito sentido, ou está aqui uma boa mistificação. Na verdade, é «segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico» que se pode escrever com k, «troika» ou «troica», sem acento. E a troika difere tanto da tróica como a vodka da vodca.

[Texto 3112]
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Um apóstrofo mal empregado

Aqui não há festa

      «Os discursos de Cavaco Silva à nação começam a ter uma certa lógica. Dividem-se em duas partes: antes do copo d’água (a.c) e depois do copo d’água (d.c.)» («a.C e d.C», Rui Tavares, Público, 22.07.2013, p. 40).
      Rui Tavares, adepto (e até parece mentira) da ortografia avariada do Acordo Ortográfico de 1990, usou neste caso um apóstrofo escusado, mas isso não explica o erro. À refeição oferecida nos casamentos ou baptizados ou outras ocasiões festivas é que se dá o nome (mas com hífen, sempre com hífen) copo-d’água.
[Texto 3111]
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Rei dos Belgas

Rei dos Belgas

      «Este papel de índole política do rei dos belgas — o seu título é mesmo rei dos belgas e não da Bélgica, para sublinhar que são os belgas e não o rei que detém a soberania — constitui, aliás, um dos primeiros alvos da N-VA [Nieuw-Vlaamse Alliantie, Aliança Neoflamenga, o maior partido flamengo] na próxima reforma do Estado» («Bélgica tem um novo rei com a missão de preservar a coesão nacional», Isabel Arriaga e Cunha, Público, 22.07.2013, p. 20).
      Extraordinária subtileza semântica... Contudo, o título do artigo é «Bélgica tem um novo rei». Não devia então ser «Belgas têm novo rei»?
[Texto 3110]
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Já agora, «Adli Mansur»

Vendo de novo

      «Enquanto a Irmandade rejeitou a oferta de lugares no novo Governo, o plano de transição anunciado pelo Presidente interino, Adly Mansour, está a ser criticado pelas forças liberais e seculares que compõem a Frente de Salvação nacional (FSN), que esteve na origem do golpe de Estado de 3 de Julho» («Lançado mandado de detenção contra o guia da Irmandade Muçulmana», Jorge Almeida Fernandes, Público, 11.07.2013, p. 25).
      No dia 11, elogiei aqui o título por ter sido usada a palavra «guia» e não aquela que já sabemos. Mas agora reparo melhor: e aquele «lançado»? Não será uma forma canhestra de traduzir alguma palavra inglesa? E agora no próprio artigo. Até o jornalista mais distraído há-de saber que o nome do presidente (عدلي منصو) é transcrito. Em português, será da seguinte forma: Adli Mansur. Tudo o resto são lamentáveis concessões.
[Texto 3109]
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«Furgão», uma acepção

Parece outra coisa

      «Trago», escreve o autor, «a minha bicicleta, que viajou no furgão do comboio e me foi entregue na estação impecavelmente protegida por tiras de cartão canelado. Sou alojado num complexo.» Não conhecia — ou estava esquecido, o que acaba por ser o mesmo — esta acepção de «furgão»: «carruagem coberta e fechada do caminho-de-ferro destinada a transporte de bagagens, encomendas, etc.».

[Texto 3108]
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«Ex ante» e «ex post»

Não se é latim

      «Esta análise», escreve o nosso autor, «deverá ser efectuada tanto ex-ante, ou seja, antes da adopção do projecto como condição necessária à sua adopção, como ex-post, quer dizer, depois da sua execução, com vista a determinar possíveis desvios e a actualizar a avaliação.»
      Nem é preciso ser economista para ver que devia ser assim — mas será que é assim? Bem, mas não estamos aqui para discutir as PPP, mas a ortografia. Trata-se de latinismos, e por isso não levam hífen: ex ante e ex post. O Dicionário Houaiss regista ambas as locuções adjectivas. Ex ante: «baseado em suposição e prognóstico, sendo fundamentalmente subjectivo e estimativo». Ex post: «baseado em conhecimento, observação, análise, sendo fundamentalmente objectivo e factual».
[Texto 3107]
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Aquilino Ribeiro

Hoje e sempre

      «Diz-se que Aquilino Ribeiro é um escritor difícil. Há quem tenha começado um livro seu, resistido e desistido. Já não está nos programas de Português desde os anos 80 apesar de ter sido um dos escritores mais populares do seu tempo. Lê-lo, hoje, só acompanhado de dicionário para as “palavras difíceis”, tal a quantidade de regionalismos, léxico popular, linguajar e ladainhas da Beira, paisagem humana da sua literatura» («O mundo inteiro na sua aldeia. Aquilino Ribeiro», Raquel Ribeiro, Público, 21.07.2013, p. 16).
[Texto 3106]
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Escrito na pedra, por vezes

Mais paráfrase

      A citação de domingo do «Escrito na pedra», no Público, era uma frase do filósofo, ensaísta e político inglês Francis Bacon (1561-1626). «Todo o acesso a uma alta função se serve de uma escada tortuosa», lê-se. É mais uma paráfrase do que uma tradução da frase original: «We rise to great heights by a winding staircase.»
[Texto 3105]
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Tradução: «copygirl»

Ora esta

      «Filha de imigrantes libaneses, Helen Thomas nasceu no Kentucky e cresceu em Detroit, numa família de nove filhos. No fim dos estudos, em 1942, mudou-se para Washington, onde arranjou emprego como copygirl no defunto Washington Daily News» («Morreu aos 92 anos a jornalista americana Helen Thomas», Rita Siza, Público, 21.07.2013, p. 56).
      Ora querem lá ver que não tem correspondência em português? Nada de remotamente parecido?

[Texto 3104]
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«Réu/arguido»

Não queremos saber

      «Os réus fizeram um acordo para não cumprirem tempo de prisão e terem sentenças moderadas, reconhecendo pelo menos em parte a sua culpa, conhecido como pattegiamento [sic]» («Cinco condenações pelo Costa Concordia», Público, 21.07.2013, p. 29).
      Réu, em processo penal? Senhor jornalista, vá estudar um pouco. Vá lá, nós esperamos. Em contrapartida, quis brindar-nos com uma palavra italiana — escusadamente. Que interessa ao leitor que acordo ou transacção penal seja patteggiamento em italiano? Ainda por cima, como o comum dos mortais me avisa, escreveram incorrectamente a palavra, falta um g.
[Texto 3103]
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Ponto de abreviatura

Está mal, José

      «É verdade: esse trabalho torna-os úteis para os estudiosos, como fontes para muitas áreas da história que se desenvolveu nas últimas décadas, histórias do quotidiano, de género, mesmo histórias do consumo, das mentalidades, etc..» («Restos e rastros», José Pacheco Pereira, Público, 20.07.2013, p. 46).
      Pode ser uma nuga de ortografia, mas, porque é ignorada de tantos — mesmo de revisores ­e quem leu milhares de livros —, aqui fica: sempre que uma abreviatura, neste caso, a abreviatura etc., coincide com o final de frase, não precisa de outro ponto além do ponto de abreviatura.
[Texto 3102]
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Sobre «efémera»

Dura só um dia

      «Passei a última semana a ver essas caixas de vidas inteiras, todas demasiado iguais no seu conteúdo, mesmo que retratando vidas muito diferentes. Os amadores de velharias e de efémera, dizem os manuais, dão valor a todos esses papéis pelo trabalho de os classificar e organizar» («Restos e rastros», José Pacheco Pereira, Público, 20.07.2013, p. 46).
      Como no caso de «etilista», o leitor médio vai pensar que falta ali um s, «efémeras», os insectos da família dos Efemerídeos. Claro que, interpretado dessa forma, o texto não faz sentido, mas o leitor médio também está habituado a não perceber tudo.
      Trata-se de um anglicismo: «ephemera (plural): paper items (as posters, broadsides, and tickets) that were originally meant to be discarded after use but have since become collectibles».
[Texto 3101]
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Escrito na pedra

E o senso comum?

      A citação de hoje do «Escrito na pedra», no Público, é uma frase do Rev. Sydney Smith (1771-1845), uma espécie de Swift ou, em certa perspectiva, de Oscar Wilde. «A melhor maneira de responder a um mau argumento é deixá-lo continuar», lê-se. A frase original tem um final que não devia ter sido omitido: «The best way of answering a bad argument is not to stop it, but to let it go on in its course till it leaps over the common sense.»
[Texto 3100]
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«Barreiro», «balado»...

Abalado fico eu

      «O promotor da quinta de resgate de animais SOS Equinos, na Palhaça (Oliveira do Bairro), aponta para amanhã uma batida, com envolvimento de voluntários que pretendam colaborar, nos pinhais e nos barreiros da região, em busca do Marreta» («Encontrar ‘Marreta’ pode valer recompensa», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 19.07.2013, p. 20).
      Terreno argiloso ou terra alta e seca? Bem, não sei. Na mesma página, a notícia de mais uma morte causada pelo despiste de um tractor. «“O condutor ficou por baixo do trator, após uma queda de dois a três metros, num balado”, informaram os bombeiros [de Valença].» (Só agora é que vi, nesta troca de vv por bb, o comentário da leitora Patrícia. Francamente...)
[Texto 3099]
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Sobre «tríade»

Chamem um sinólogo

      «Wan Kuok Koi, mais conhecido por “Dente Partido”, e líder da tríade 14 Quilates (14K), que controlava o jogo em Macau, revelou ter dado mais de 9,5 milhões de euros a políticos portugueses» («Mafioso macaense financiou políticos», Diário de Notícias, 19.07.2013, p. 11).
      Muito me surpreende que não figure já em algum dicionário da língua portuguesa. Está nos de língua inglesa: «any of several Chinese secret societies, esp one involved in criminal activities, such as drug trafficking». Bem, não está nos de língua portuguesa, mas usa-se. Já o Sr. Dente Partido, o seu nome escreve-se Wan Kuok-koi.
[Texto 3098]
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Ortografia: «chichi»

Pois é

      «E se tivermos vontade de fazer chi-chi, não podemos?» («Exames do 4.º ano: educar para a perversão», Leonor Arroio Malik, Público, 19.07.2013, p. 49).
      Senhora pedagoga, tenha paciência, mas é «chichi» que se escreve. Só me dou ao trabalho de o dizer porque não é raro ver a palavra incorrectamente escrita. Ah, e vejo aqui que a 50.ª edição do Prontuário Ortográfico e Guia da Língua Portuguesa, de Magnus Bergström e Neves Reis, continua a advertir que «chichi» é diferente de «xixi».
[Texto 3097]
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Pior do que o AO

Por variadas razões

      «A petição Pela Desvinculação de Portugal ao ‘Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa’ de 1990, com 6212 assinaturas, vai ser discutida em plenário na Assembleia da República. No relatório que dá provimento à petição, aprovado dia 16 na comissão parlamentar de Educação, Ciência e Cultura, o deputado relator, Michael Seufert, escreve (pág. 18) que “é um facto objectivo que, tirando os académicos envolvidos na elaboração do próprio Acordo, é difícil encontrar uma opinião da academia portuguesa favorável ao acordo – por razões variadas”. Na próxima semana, terça ou quarta-feira, será divulgado o relatório final do grupo de trabalho sobre o Acordo Ortográfico (AO) daquela comissão parlamentar» («Petição contra AO vai ser discutida no plenário de São Bento», Público, 18.07.2013, p. 34).
       Desta é que vai ser. Espera aí, mas não se diz «desvinculação de»? Adeus, minhas encomendas. «Que ensinamentos auferem d’essas duas palavras, a um tempo substanciosas e vans, aquelles que sobre ellas archttectaram edifício onde se acolheram a gozar o pensamento desvinculado do preceito religioso?» (Cousas Leves e Pesadas, Camilo Castelo Branco. Porto: Em Casa de Luiz José D’Oliveira, 1867, p. 206).

[Texto 3096]
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São gralhas, senhores

Esta mata

      «Luís de Magalhães, poeta, editor, político, que conheceu Antero no Verão de 1881, escreveu que, em Vila do Conde, o poeta “estava nos seus dias joviais e de belo e fascinante humor”. “Chamei a Vila do Conde o seu ascetério, — e era de facto. O seu quarto, despido de todo o conforto, era como a cela de um monge, como os quatro muros nus em que se enclausurava um emparedado, como a coluna de um etilista. Ali vivia, concentrado em si mesmo, levado no turbilhão dos seus sonhos”, escreveu Magalhães» («Antero de Quental. Anos felizes em Vila do Conde», Raquel Ribeiro, Público, 18.07.2013, p. 37).
       «Etilista», o leitor desprevenido mas expedito sabe logo o que é quando pesquisar no Google: «alcoólatra, o que tem o vício do uso de bebidas alcoólicas». Já a coluna estraga tudo, não é?

[Texto 3095]
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Léxico: «subarquipélago»

Outra nova

      «Hoje, Cavaco Silva será o primeiro Presidente a pernoitar neste subarquipélago e talvez o uso do equipamento tecnológico montado na Selvagem Grande venha a ter utilidade, uma vez que PS e PSD reúnem esta noite as suas respectivas comissões políticas, de onde poderá sair fumo branco ou negro ao dito acordo de “salvação nacional”» («Presidente chega às Selvagens com os olhos no subarquipélago e os ouvidos em Lisboa», Luciano Alvarez, Público, 18.07.2013, p. 10).
[Texto 3094]
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Léxico: «confusionista»

Atitudes e tendências

      Curioso que a palavra «confusionista», tantas vezes aqui usada por Montexto (alguns dirão que é por mim e não por Montexto, mas nada de confusões), não esteja em muitos dicionários. Não está, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que o mais parecido que regista é «confucionista» (e «confucianista», porque o português é pelo menos duplo — Agostinho da Silva citado por Montexto). «Interessava acima de tudo lançar dúvidas, despejar propaganda confusionista e manter “a rede de cumplicidades” que permitira executar o crime» (Memórias de Humberto Delgado, Iva Delgado. Lisboa: Leya, 2009, p. 290).
[Texto 3093]
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«Envolto num líquido»?

Tudo trocado

       «O coração [de D. Pedro IV] foi doado à cidade do Porto em gratidão pela vitória liberal. Os anos passaram e o seu coração, envolto num líquido e encerrado num escrínio de vidro, precisa de repouso absoluto e ausência total de luz para ser preservado» («Coração de D. Pedro IV não sairá para o Brasil», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 17.07.2013, p. 21).
       «Envolto num líquido»? E se fosse num pano, estaria imerso? Numa caixa de texto ao lado, lê-se que o coração está num sarcófago, cuja chave está no gabinete do próprio presidente da Câmara Municipal do Porto. Escrínio, sarcófago...
[Texto 3092]
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«País a quem»?

Assim vai a língua

      «O rei português D. Pedro IV morreu há 168 anos no Brasil, país a quem deu a independência e onde se tornou imperador» («Coração de D. Pedro IV não sairá para o Brasil», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 17.07.2013, p. 21).
      Dantes sabia-se que o pronome relativo (ou interrogativo) «quem» só se aplica a pessoas ou a alguma coisa personificada. Agora, é o que se vê. E isto com jornalistas, imagino com a maioria da população.

[Texto 3091]
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Léxico: «incendiarismo»

Olha, não conhecia

      Nunca tinha lido nem ouvido: incendiarismo. É o acto de destruir algum objecto pelo fogo. Nada de modernices, já tinha aparecido num número de 1832 da Gazeta de Lisboa. Aparece também a traduzir o termo inglês «arson», «the willful or malicious burning of property (as a building) especially with criminal or fraudulent intent» (segundo o Merriam-Webster).
[Texto 3090]
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Não a etrusca

44º 30' N 11º 21' E

      João Adelino Faria, no Telejornal de ontem: «Uma britânica morreu quando tentava atravessar a nado o canal da Mancha, para conseguir fundos para ajudar crianças e diabéticos. Susan Taylor, de 34 anos, entrou em colapso já na fase final da travessia, cerca de 34 quilómetros, já próximo do litoral francês. A jovem ainda foi transferida de emergência para um hospital de Bolonha, onde os médicos não a conseguiram reanimar» (20h35).
      Quê, do canal da Mancha para a capital da Emília-Romanha!? Tinha fatalmente de morrer. Ah, Bolonha, em França! Perto do bosque, talvez? Longe. Ah, no litoral, perto de Calais... Mas aí é Boulogne-sur-Mer, ou, como se lê logo na Crónica de D. Manuel, Bolonha sobre o Mar. «Um acto de solidariedade», rematou João Adelino Faria, «que acabou na tragédia.»
      Lido à pressa na imprensa inglesa, a redacção tinha de ser aquela. Na BBC, pode ler-se: «Susan Taylor, 34, from Barwell, Leicestershire, died in Boulogne on Sunday after she “suddenly collapsed” on the final part of the challenge. [...] Susan Taylor’s Channel swim attempt very sadly ended in tragedy.»

[Texto 3089]
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Tradução: «sobresueldo»

É o que me parece

      Numa notícia do Telejornal de ontem sobre a troca de SMS entre Rajoy e Bárcenas, o ex-tesoureiro do Partido Popular agora preso, apareceu Pedro Ramírez, do jornal El Mundo, a afirmar que se se demonstrasse que «el recibió sobresueldos en metálico», a situação política de Rajoy seria muito delicada. Nas legendas, sobresueldos foi traduzido por «abonos», mas tenho as minhas dúvidas. Sobresueldo é, segundo o DRAE, a «retribución o consignación que se añade al sueldo fijo». Para o Dicionário Espanhol-Português da Porto Editora, traduz-se por «gratificação, prémio, bónus».
[Texto 3088]
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Léxico: «ângelus»

Já devia lá estar

      «O Papa», lê-se na página na internet da Rádio Renascença, «falava na oração do Ângelus, que proferiu na residência de Castel Gandolfo. “Está prestes a começar a Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro. Partirei dentro de oito dias, mas muitos jovens vão partir mais cedo para o Brasil”, começou por dizer.»
       Com maiúscula ou com minúscula — Ângelus ou ângelus —, é uma oração da manhã, do meio-dia e da tarde. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não a encontramos.
      «O estafeta voltou ao conde de Linhares com a informação de que Sir Sidney Smith o receberia em sua residência às seis da tarde daquela segunda-feira. Faltava pouco para a hora do ângelus, mas Linhares ainda teve tempo de, a caminho de São Bento, estacionar sua sege ao arco do Telles e bater na porta do Calvoso» (Era no Tempo do Rei, Ruy Castro. Alfragide: Edições Asa, 2008, pp. 137-38).
[Texto 3087]
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Sobre «orangista»

E a Ordem de Orange?

      Nigel Dodds, deputado da Irlanda do Norte e chefe de um partido protestante, o Partido Unionista Democrático, foi atingido na cabeça por um tijolo durante a marcha anual dos orangistas, na sexta-feira, em Belfast. (Na notícia no Expresso, no primeiro parágrafo diz-se que foi uma pedra, no segundo parágrafo, que foi um tijolo.)
      Só temos aqui um problema: para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, orangista é apenas o «relativo ou pertencente a Orange, província da África do Sul, ou que é seu natural ou habitante», ou o «natural ou habitante de Orange». Não chega: faltam pelo menos três sentidos, e entre eles o que está ali atrás.
[Texto 3086]
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Falar por enigmas

Contos de raiva, diz ela

      Mónica Baldaque, pintora e escritora, foi ao Bom Dia Portugal falar do seu novo livro de contos, Vinte Anos na Província, sobre as famílias tradicionais do Douro. Não sibila, mas sibilina: «Muitas [casas no Douro] estão vazias, ou bastantes estão vazias, outras estão entregues a... enfim, a todo um formulário completamente diferente, que tem outras intenções e outras... Tudo é desenvolvido noutros processos... e noutras...» Basta, estou cansado.
[Texto 3085]
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Tradução: «zizi»

Nem é mais bonito

      «E não tinha qualquer ideia sobre o aspecto de um homem. As estátuas de homens, que víamos em Versalhes, têm o zizi partido. Como eu não tinha irmãos e o meu pai não se mostrava, nunca soube como era um homem. Nos quadros, viam-se mais mulheres, nunca se viam homens» («Yvette Kapferer. Mais vale viver», Anabela Mota Ribeiro, «2»/Público, 14.07.2013, p. 22).
      Cara Anabela Mota Ribeiro, ora conte-nos lá, acha mesmo que zizi é português ou que não tem tradução? Já experimentou algo radical, sei lá, consultar um dicionário?
[Texto 3084]
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Agulha é agulha

Qual vulgo

      «Segundo o jornal La Tribune, uma peça de metal dessoldada no aparelho de mudança de via (vulgo “agulha”) terá estado na origem do descarrilamento» («Falha numa agulha fez descarrilar comboio», Carlos Cipriano, Público, 14.07.2013, p. 29).
      Nada de «vulgo»: até nos glossários de termos ferroviários «agulha» é o termo que se usa. Naquele jornal francês, pode ler-se: «La SNCF, contactée par Le Parisien, évoque la piste d’un problème d’aiguillage.»
[Texto 3083]
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Proficientíssimos tradutores

Muito me contam

      Nicolás Maduro, que acaba de assumir a presidência pro tempore (tomai lá latim) do Mercosul, recordou, vi no Bom Dia Portugal de hoje, que este caso (o de Snowden) de espionagem mundial «ha sacudido la conciencia pública de los EE.UU., del mundo entero y que plantea temas claves de la ética política del mundo que queremos construir». Na RTP, acharam que plantear se podia traduzir perfeitamente por «minar»: «e mina temas cruciais da ética política». Quem traduziu? Só pode ter sido um factótum, como esses seguranças que vemos nos serviços da Segurança Social, por exemplo.

[Texto 3082]
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Nuremberga? Então Bamberga

Já agora, se não se importa

      «Na Francónia (região da Baviera de que fazem parte Nuremberga, Bayreuth e Bamberg) é normal encontrar pouca informação noutra língua que não seja o alemão» («Nuremberga, uma cidade a contas com o passado», Patrícia Carvalho, «Fugas»/Público, 13.07.2013, p. 7).
      Francónia Central (Mittelfranken, em alemão), melhor. E porque não escreveu a jornalista Bamberga, se escreveu Nuremberga? Não se percebe. Bamberga já no Vocabulário de Bluteau aparece registado.
      «Dessa mesma época ou nela principiadas, são, entre muitas outras, a catedral de Bamberga, que guarda uma estátua equestre de excelsa execução, embora influenciada pela escultura de Reims; a de Friburgo em Brisgóia, de frontaria copiosamente ornada com figuras de expressão germânica» (Obras de Ferreira de Castro, vol. 4. Porto: Lello & Irmão, 1979, p. 702).
[Texto 3081]
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«Bebidas largas»?

Pôr: RIP

      «Como para a próxima terá de ficar também a experiência de colocar os pés na areia da praia artificial da cidade. Não tem espaço suficiente para se deitar ao sol, mas, durante oito semanas, pode sentar-se nos cadeirões e deixar que lhe sirvam bebidas largas. Procure-a junto ao rio» («Nuremberga, uma cidade a contas com o passado», Patrícia Carvalho, «Fugas»/Público, 13.07.2013, p. 5).
[Texto 3080]
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Ortografia: «preto-e-branco»

E vê-se bem

      «Fotografias a preto e branco do tempo do centro histórico do pós-guerra mostram que da enorme estrutura [da Igreja de São Lourenço] apenas sobreviveu a fachada gótica com as suas duas torres» («Nuremberga, uma cidade a contas com o passado», Patrícia Carvalho, «Fugas»/Público, 13.07.2013, p. 5).
      No entanto, seja filme ou fotografia, a combinação do preto e do branco grafamo-la preto-e-branco.

[Texto 3079]


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«Haveria de»

Mais avarias

      «No pós-guerra chegou a considerar-se a hipótese de não reconstruir a cidade, deixando-a como uma memória do horror da guerra. Nuremberga, contudo, haveria de ser reconstruída, embora se tenha optado por reabilitar apenas os edifícios mais emblemáticos» («Nuremberga, uma cidade a contas com o passado», Patrícia Carvalho, «Fugas»/Público, 13.07.2013, p. 5).
[Texto 3078]
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O mundo da edição

Copiamos sempre o pior

      «Em Milão, 11 tradutores trabalharam sete dias por semana, até às oito da noite, num piso subterrâneo do edifício Mondadori, editora italiana. Todos os dias à entrada os tradutores entregavam os telemóveis e qualquer outro aparelho que lhes permitisse a comunicação com o exterior» («Tradutores de Inferno estiveram fechados para evitar fugas de informação», Catarina Moura, Público, 12.07.2013, p. 51).
      Já não chega a palavra dos tradutores, agora têm de ficar sequestrados. Mas cá já vão surgindo, aqui e ali, semelhantes comportamentos paranóicos, como, por exemplo, não facultarem a ninguém o PDF das obras com receio de pirataria. Puf...
[Texto 3077]
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Exame de Português

As piores de sempre

      Mais de metade (38 785) dos alunos do 12.º ano (70 807) tiveram negativa no exame nacional de Português. Uma razia (sem metáfora). A média nacional foi de 8,9 valores, inferior à média do ano passado, que tinha sido a miséria de 9,5. A explicação (que também se transformará, a seu tempo, em desculpa) é que as perguntas de gramática deixaram de ser de escolha múltipla. A Latim também houve descida de nota. Dos pouco mais de cem alunos que fizeram a prova, 48 foram chumbados.
[Texto 3076]
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Figuras: de estilo e outras

C’est de ta faute, Simone

      «Não podemos deixar, como dizia a Simone de Beauvoir, que os nossos carrascos nos criem maus costumes.» Já estamos habituados a estas desculpas: ah, a minha frase foi descontextualizada, ah é uma metáfora. Desta vez, diz que foi este recurso expressivo. «Mas foi mal entendida e está a ser muito criticada pela forma como se dirigiu aos manifestantes», contrapôs a repórter da RTP a Assunção Esteves. «Paciência!» E, supremo argumento, entre muitos risos: «não foi para os manifestantes, foi para os trabalhos do plenário» que se dirigiu. Outra figura de estilo.
     Só me teria surpreendido mais se a citação fosse em francês: «Comme dirait Simone de Beauvoir, nous ne devons pas laisser nos bourreaux nous donner de mauvaises habitudes.» Ou em alemão: «Mit den Worten Simone de Beauvoir’s gesagt, dürfen wir es nicht zulassen, dass uns unsere Henker schlechte Gewohnheiten anerziehen.»
[Texto 3075]
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Léxico: «grabatário»

Acamado permanente

      A autora diz que a institucionalização e sobretudo a hospitalização «fabrica mortos e grabatários, provoca dependência, regressão, infantilismo e perturbações mentais». Tudo verdade, mas nunca eu tinha visto o vocábulo «grabatário». Para quem sabe um pouco de latim que seja, o sentido não lhe escapará. Grabateiro, o fabricante de leitos na Idade Média, já eu conhecia. O Houaiss regista que é um regionalismo brasileiro e que significa «doente cronicamente acamado». Para o Aulete, por sua vez, «diz-se do doente condenado à total e permanente imobilidade no leito».
[Texto 3074]
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Guia, dirigente...

Lá se esqueceram da negregada

      «O procurador do Estado egípcio emitiu ontem um mandado de captura contra Mohamed Badie, o guia da Irmandade Muçulmana, e nove outros dirigentes, por “incitamento à violência”» («Lançado mandado de detenção contra o guia da Irmandade Muçulmana», Jorge Almeida Fernandes, Público, 11.07.2013, p. 25).
[Texto 3073]
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Léxico: «dar gás»

Esquecimentos

      «A confirmar-se, a descoberta de sangue de mamute dá gás aos projectos que pretendem obter células ou ADN suficientemente intacto para se pensar em clonar — e assim “ressuscitar” — esta espécie [Mammuthus primigenius]» («Yuka, um mamute-bebé com 39 mil anos, é a estrela de uma exposição», Nicolau Ferreira, Público, 11.07.2013, p. 27).
     É curioso: se quisermos saber o que significa a expressão «dar gás», no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não a encontramos. Contudo, no Dicionário de Português-Inglês da mesma editora lá está o «coloquial» dar gás: «to speed up, to step on it». O hífen em «mamute-bebé» (e, mais à frente, em «fêmea-bebé») é que não estou a ver para que serve.
[Texto 3072]
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Léxico: «eremitismo»

Chegou a hora dela

      «É esta figura [Guerra Junqueiro] isolada no seu eremitismo no Douro, dedicando a sua poesia contemplativa à galeria dos humildes, que podemos ver ao subir as escadas da sua casa» («Guerra Junqueiro. Minha casa, meu santuário», Raquel Ribeiro, Público, 10.07.2013, p. 37).
      Estilo de vida de eremita; isolamento do convívio social. Não está em todos os dicionários. Não o encontramos, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 3071]
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«Velha Castela»

Nem só Castela Velha

      «Guerra Junqueiro “era conhecido por ‘el anticuario’ em certas aldeias da Velha Castela que calcorreava a pé posto e de burro recolhendo e comprando cerâmica, mobiliário e, eventualmente, pintura”, disse José Luís Porfírio, então director do Museu Nacional de Arte Antiga, na (re)inauguração (após vários anos de obras) da nova Casa-museu Guerra Junqueiro, no Porto (1997), com uma exposição de pintura da colecção do poeta» («Guerra Junqueiro. Minha casa, meu santuário», Raquel Ribeiro, Público, 10.07.2013, p. 36).
       É raro ver-se escrito desta forma, mas já antes tinha encontrado em Camilo, que de momento não localizo, e em Eça de Queiroz: «Mas nada o aterrou como o transbordo em Medina del Campo, de noite, nas trevas da Velha Castela. Debalde a Companhia do Norte de Espanha e de Salamanca, por cartas, por telegramas, sossegaram o meu camarada, afirmando que, quando ele chegasse no comboio de Irun dentro do seu salão, já outro salão ligado ao comboio de Portugal esperaria, bem aquecido, bem alumiado, com uma ceia que lhe ofertava um dos Directores, D. Esteban Castillo, ruidoso e rubicundo conviva do 202!» (A Cidade e as Serras, Eça de Queiroz).
[Texto 3070]
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Léxico: «didracma»

Fiscus Iudaicus

      Caro R. C.: não precisa de itálico, já por aí corre há séculos: «Logo que chegaram a Cafarnaum, aqueles que cobravam o imposto da didracma aproximaram-se de Pedro e perguntaram-lhe: o vosso mestre não paga a didracma? (São Mateus, 17, 23).» É verdade que habitualmente o que se lê em algumas Bíblias é «aproximaram-se de Pedro os cobradores do imposto do templo e disseram-lhe: “O vosso Mestre não paga o imposto?”». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ignora a palavra. O dicionário da Real Academia Espanhola regista que didracma é a «moneda hebrea que valía medio siclo». Mas é também o nome que se dava ao imposto, nesse valor, pago por todos os judeus maiores de 20 anos a favor do templo de Júpiter Capitolino.
[Texto 3069]
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Colocação dos pronomes átonos

Apanhe-o agora

      «O queixo caiu-me ao chão.» É uma frase da edição portuguesa das Cinquenta Sombras de Grey (p. 252), de E. L. James. Sabia, João Miguel Tavares? Imagine que estava escrito assim: «O queixo me caiu ao chão.» Ainda estaria certo? Agora a sua frase de hoje no Público: «Eu devo confessar que o queixo caiu-me aos pés há oito dias e ainda não tive oportunidade de o apanhar» («Eleições? Foram no sábado», Público, p. 44).
      A conjunção subordinativa «que» atrai o pronome para uma posição pré-verbal. Logo, correcto é desta maneira: «Eu devo confessar que o queixo me caiu aos pés há oito dias e ainda não tive oportunidade de o apanhar.» A colocação dos pronomes átonos é «um dos pontos mais complicados da sintaxe portuguesa», lê-se na Gramática da Língua Portuguesa de Pilar Vásquez Cuesta e Maria Albertina Mendes da Luz (Lisboa: Edições 70, 1971, p. 493). Complicado para quem, para os estrangeiros? Para os jornalistas?

[Texto 3068]
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O desgraçadíssimo verbo «haver»

Já não se endireita

      «Finalmente, claro que deveriam ter havido consequências políticas efetivas no caso dos swaps, mas isso é um problema do foro político (onde uma das envolvidas foi promovida a ministra..., e outros voltaram para diretores de empresas públicas, que são cargos de nomeação política ou parapolítica...), ou seja, nada tem a ver com os sistemas de carreiras na função pública como sugere MST» («Jornalismo ou proselitismo? Resposta a Miguel Sousa Tavares», André Freire, Público, 9.07.2013, p. 43).
      Ficamos perplexos: por um lado, o afã em seguir, como que a mostrar interesse na língua (mas demonstra o contrário), o Acordo Ortográfico de 1990, por outro lado, estes erros crassos. Se são amigos ou conhecidos, digam-lhe.
[Texto 3067]
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Mãe, já sei falar italiano!

A olho

      O Papa Francisco visitou a ilha de Lampedusa para homenagear os imigrantes africanos. «Há que dar atenção às pessoas, na sua viagem, em direção a algo melhor», lia-se na transcrição da homilia que o Sumo Pontífice ia fazendo (Ana Felício, Jornal da Tarde, 8.07.2013, 13h31). Era um excerto, claro, mas desconfiei logo daquele espúrio «há que» e quis saber como tinha sido dito em italiano. «[Prima però vorrei dire una parola di sincera gratitudine e di incoraggiamento a voi, abitanti di Lampedusa e Linosa, alle associazioni, ai volontari e alle forze di sicurezza, che] avete mostrato e mostrate attenzione a persone nel loro viaggio verso qualcosa di migliore.» Só se ouviu esta parte fora dos parênteses, que se traduz assim: «[Antes, porém, quero dizer uma palavra de sincera gratidão e encorajamento a vós, habitantes de Lampedusa e Linosa, às associações, aos voluntários e às forças de segurança, que] tendes demonstrado – e continuais a demonstrar – atenção a pessoas em viagem rumo a qualquer coisa de melhor.»
      Muito diferente, valha a verdade, do que se lia nas legendas. A falta de cuidado com que se faz quase tudo nunca nos permitirá sair da cepa torta. É tudo aproximado, nada rigoroso.
[Texto 3066]
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Léxico: «némesis»

Finalmente

      «De novo, o entusiasmo é crescente. Aproxima-se da ilha que será sua némesis mas por enquanto conhece só como seu destino» (A Condição Humana em Ruy Cinatti, Peter Stilwell. Lisboa: Editorial Presença, 1995, p. 172).
      Andava há anos a ler a palavra e já tinha proposto a sua dicionarização. Hoje, chegou a sua vez de ser entesourada no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 3065]
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Léxico: «sinedrita»

Falta em quase todos

      «Sobre as escadas arrimadas aos braços da cruz, José de Arimateia, o judeu de coração sensível, e Nicodemus, outro sinedrita dissidente, entregam-se à tarefa de desprender sem molestações o corpo divino» (Sevilha, Noiva de Portugal, António de Cértima. Lisboa: SIT, 1963, p. 276). 
      Claro que é o membro do sinédrio ou sinedrim, mas não se encontra em quase nenhum dicionário. Vão ficando pelo caminho.
[Texto 3064]
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Ortografia: «metainformação»

Depende do dia

      «Mais uma vez, e à semelhança do que acontece na Alemanha, de acordo com a notícia publicada na semana passada pela revista Der Spiegel, não se trata de ouvir as conversas telefónicas ou de ler as mensagens trocadas nas redes sociais, mas sim de registar a metainformação das comunicações de todas as pessoas — os dados que indicam o número de telefone, a localização dos intervenientes numa conversa ou a data e a hora dessas comunicações, por exemplo» («Cidadãos brasileiros espiados “em grande escala” pelos serviços secretos dos EUA», Alexandre Martins, Público, 8.07.2013, p. 23).
      Isto foi hoje, porque na sexta-feira o jornalista achou, mal, que devia ter hífen: «À semelhança dos programas de espionagem norte-americano e britânico — expostos pelo antigo analista informático Edward Snowden —, também as autoridades francesas estarão a interceptar e a guardar a meta-informação das comunicações, segundo o Le Monde» («Secreta francesa também sabe “quem fala com quem”», Alexandre Martins, Público, 5.07.2013, p. 25).
[Texto 3063]
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«Haveria de»

Soa a «avaria»

      «Parece que Ferreira de Castro na selva “se fez homem” e à “selva”, como húmus, haveria de voltar. [...] Levou tempo a escrever sobre a selva. Sabia que ela estava dentro de si e que haveria de contar a exploração dos homens, o horror da solidão da Amazónia, verdejante de excesso de calor, os urros como entidade viva, o pesadelo do coração das trevas, que Joseph Conrad também descreveu» («Casas-museu. Dois lugares para a memória de Ferreira de Castro», Raquel Ribeiro, Público, 7.07.2013, pp. 16-17).

[Texto 3062]
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«Auto não sei quê»

Modo automático

      Agora: «Com a estabilidade governativa escaqueirada, Portugal ficou à mercê da perplexidade dos mercados. Precisamente, [sic] o que se queria evitar, e que levou às condecorações que o Governo se autoconcedeu» («Insólitos portugueses», Nuno Ribeiro, Público, 6.07.2013, p. 14).
      Dantes: «Júlio olhou a manhã translúcida, por debaixo da qual a neblina, agachada sobre as faldas da montanha, ia sendo varrida. E, antes de fazer perguntas, concedeu a si próprio um pouco de tempo para reter esse poderoso instante de calma» (Fogo na Noite Escura, Fernando Namora. Lisboa: Publicações Europa-América, 1988, p. 445).
[Texto 3061]
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«Indecoris causa»

Tem graça, mas o título?

      «Há algumas dúvidas sobre a origem deste pensamento. Provou-se que não é nem de Miguel Relvas (doutorado “indecoris causa” por várias academias) nem de Milton Friedman, o papa dos mercados, nem sequer dos dois alunos de Excel e estatísticas falsas Rogoff e Reinhart (não confundir com o inventor das pílulas de alho que te ajudam a respirar melhor, só não respires para cima de mim)» («Irrevogável principiante velho», Rui Cardoso Martins, «2»/Público, 7.07.2013, p. 33).
[Texto 3060]
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De vela e à vela

Porque este é diferente

      Lá fora, 40 ºC, e aqui em casa acabei de ler a «Ode Marítima», de Fernando Pessoa, disfarçado de Álvaro de Campos. Ando farto de engenheiros, mas como este é só a fingir, cá vai: «Ah, os paquetes, os navios-carvoeiros, os navios de vela!/Vão rareando — ai de mim! — os navios de vela nos mares!» Um dia destes, ainda vão transformar aqueles navios de vela em navios à vela. Para não confundir as cabecinhas.
[Texto 3059]
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Quando calha, latim

Metades

     «Se esta tragédia fosse ficção — e parece que é — eu escrevia-lhe um final trágico como é norma das tragédias. Um suicídio, político ou literal (tanto faz), mas heróico e cheio de dignidade. Como o de Brutus, quando se retirou para a montanha depois de ser derrotado pelas legiões de Octávio e Marco António. Ou como o de Cato, que preferiu morrer a ser perdoado por César» («Um fim trágico como nas tragédias», Pedro Bidarra, «Dinheiro Vivo»/Diário de Notícias, 6.07.2013, p. 17).
      Dois nomes em latim, dois em português. Nada mal, equidade absoluta. Só um génio como Camilo é que podia escrever inteiramente em português: «Os vocábulos liberdade, virtude, ciência e progresso das luzes, felicidade do género humano, saem-lhe continuamente da boca, mas um tal Bruto é um abjecto adulador; paixões, vergonhas devoram um tal Catão; tal apóstolo da tolerância é o mais intolerante dos mortais, e tal adorador da humanidade é um sanguinário perseguidor» (Os Mártires, Chateaubriand. Tradução de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1979, p. 113).
[Texto 3058]
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