Tradução: «test drive»

Fica a demonstração

      Sobre low cost já estamos conversados. Agora em relação a test drive, o que podemos fazer? Vejam esta frase: «It was a demonstrator, and would be driven by ***, the Cadillac distributor.» O tradutor verteu assim: «Era um carro que se usava para fazer demonstrações, e devia ser conduzido por ***, o agente da Cadillac.» Isto, porém, foi há cinco décadas, agora não resistiram a traduzir com recurso a... test drive! Fica a proposta: traduzir test drive por «demonstração». O contexto quase sempre guia o leitor para o sentido.
[Texto 366]

Léxico: «parasailing»

É isso mesmo

      «Mãe e filha decidiram fazer um passeio de parasailing [modalidade em que um pára-quedas preso a uma embarcação sobrevoa o mar], mas, no momento em que se encontravam a cerca de 500 metros da praia, o cabo que as prendia à lancha ter-se-á soltado devido a uma rajada de vento inesperada e o pára-quedas voou sem controlo até à primeira linha de praia, acabando por embater numa palmeira» («Morreu turista que sofreu acidente com pára-quedas», Joana de Belém, Diário de Notícias, 7.07.2011, p. 21).
      Esta é a boa prática jornalística: sempre que se usa um estrangeirismo ou termo mais invulgar, técnico ou não, explica-se o significado.
[Texto 292]

Tradução: «upwelling»

Mais água

      «A chamada nortada, com efeito, “‘empurra’ as águas mais aquecidas da superfície do oceano para o largo e as águas mais frias e profundas ascendem à superfície, trazendo muitos nutrientes dos quais se alimentam a sardinha e outros peixes” [diz António Lopes, investigador do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa]. É o chamado upwelling, que desta vez não teve o desempenho esperado» («Vento. A culpa da falta de sardinhas frescas? É da nortada», Inês Sequeira, «P2»/Público, 15.06.2011, p. 4).
      Já vi o termo traduzido por «afloramento» e «ressurgência». Mais uma infausta vez, vergamo-nos aos estrangeirismos, como se só eles nos permitissem descrever o mundo.

[Texto 167]

Tradução: «heat»

Ainda no mundo do surfe

      «O jovem de Cascais [Vasco Ribeiro], que lidera actualmente o ranking europeu de juniores e ficou no segundo do mundial de sub-18 no Peru, foi o segundo atleta mais pontuado do seu heat (eliminatória), com 12.50 pontos» («Vasco Ribeiro justificou convite», Madalena Esteves, Diário de Notícias, 15.06.2011, p. 39).
      Madalena Esteves é já um caso a seguir no Diário de Notícias. Sim senhor: estrangeirismo, tradução. No âmbito do desporto, heat é a designação para eliminatória, etapa. «E já era mais que tempo de aportuguesar definitivamente “surf”», comentou a leitora Cristina. «Os dicionários de português mais usados “em linha” (Priberam e Porto Editora)», lembrou então o leitor R. A., «já têm o verbo surfar e o substantivo surfe.» «Resta a questão da pronúncia», acrescentou. Bem, mas comecemos por algum lado: hoje em dia, quase ninguém, em Portugal, escreve de outra forma que não «icebergue», por exemplo. Aguardemos. Quanto a ranking, é dispensável.

[Texto 161]

«Enfermeiro sénior»

Para eles, é fácil

      «Ao perceber que ninguém fez nada, Bryan, um enfermeiro sénior com três décadas e meia de experiência, decidiu recorrer à BBC» («Tortura de deficientes em hospital choca britânicos», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 2.06.2011, p. 33).
      Mr. Bryan... Digo, o Sr. Bryan é senior nurse — e nós, decerto por influência anglo-saxónica, agora também temos enfermeiros seniores (espero que estes saibam pronunciar correctamente a palavra). Os antigos enfermeiros especialistas, enfermeiros-chefes e enfermeiros supervisores passaram a ter a categoria de enfermeiros seniores.
      Apesar de a nossa língua dever muito mais ao latim do que o inglês (que, ainda assim, tem no latim mais de 50 % dos seus étimos), não podemos fechar sempre os olhos e, complacentes, reconhecermos que antes importarmos anglicismos de matriz latina do que de matriz germânica. Mas não é tão simples. Pense-se só no caso do vocábulo «media» para designar os meios de comunicação social. Para o inglês, que também tem plurais que não somente em s, é fácil integrar todos estes neologismos.

[Texto 97]

Léxico: «utility»

Chefe da oposição

      Então o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista tarseiro (não confundir com traseiro) e esqueceu-se de siamangue? O primeiro designa um género de mamíferos lémures de tarsos muito compridos, e o segundo é também conhecido como gibão-siamango (Symphalangus syndactylus).
      Não venho aqui apenas por isto, mas para lamentar que Pedro Passos Coelho, na entrevista de ontem, tenha usado o anglicismo utilities assim sem mais nem menos. Utilities são empresas de fornecimento de electricidade, gás e água, por norma consideradas empresas de utilidade pública e pouco sensíveis aos ciclos económicos. Só os economistas é que deviam falar assim — mas apenas quando falam para outros economistas.

[Post 4746]

Sobre «workshop»

Uârkchopes

      Outra coisa irritante: escrever-se, a torto e a direito, workshop. Não há edição de jornal que não traga pelo menos um workshop. E como o País tem muito que ensinar e que aprender, é todos os dias. Agora, porém, vai-se insinuando, ainda a medo, claro, um termo português: oficina. «Prática de primeira hora é a programação de oficinas dirigidas aos mais novos (desde bebés até aos 11 anos), que decorrerão na Fábrica das Artes, frente ao Jardim das Oliveiras [no Centro Cultural de Belém]» («Oficinas, concertos narrados e mais», Bernardo Mariano, Diário de Notícias, 15.04.2011, p. 51). Diz rigorosamente o mesmo, reparem, e é nosso, não precisa nem de aspas nem de itálico. E toda a gente percebe. Entretanto, deixemos que discutam e queiram saber o género do anglicismo.

[Post 4703]

Tradução: «unbundling»

Desnecessário

      «A REN está interessada em ficar com o transporte e o armazenamento de combustíveis em Portugal, caso o Estado português decida fazer o unbundling e retirar essa parte ao controlo da Galp.» O anglicismo anda por aí em quase todos os jornais — e nem sempre explicado nem marcado como estrangeirismo, como agora é moda. Fazer o unbundling é fazer a separação, separar, neste caso as redes de transporte de energia e as empresas de energia (as «energéticas», como certos comentadores dizem e escrevem).


[Post 4696]



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