Como se pontua por aí

Um mal ibérico


      «En una tertulia televisiva se burlan de Kiko Rivera porque le ha escrito a una mujer con la que mantiene una relación sentimental una carta sin faltas de ortografía, “incluso con tildes”, lo que atribuyen a que se ayudó de la inteligencia artificial. Mientras los ortógrafos del corazón charlan, en la parte inferior de la imagen aparece este rótulo: “Kiko Rivera, enamora con la IA”. La coma entre el sujeto y el verbo confirma la validez del dicho “No escupas hacia arriba, que te puede caer en la cara”. Y que tire la primera piedra el que nunca haya sido reo de cacografía» («La ortografía у el amor», Francisco Ríos, La Voz de Galicia, 24.01.2026, p. 18). 

      Como hoje mesmo já vi (e corrigi) este erro, tão frequente, num texto, nunca é em vão que aqui, e em português ou em castelhano, se fala nestes erros crassos. Eles são bons é em matérias complexas; em coisas assim comezinhas espalham-se com vergonhosa frequência.

[Texto 22 316]

Pontuação

Antes que seja tarde

      «Parece-me por isso exemplar o caso relatado pelo PÚBLICO no domingo passado em que o Tribunal da Relação de Lisboa decidiu não levar a julgamento o jornalista do Açoreano Oriental, Estêvão Gago da Câmara, processado por difamação pelo deputado socialista Ricardo» («Uma imprensa robusta e desinibida», Pedro Lomba, Público, 22.12.2009, p. 32).
      Este cronista precisa de rever urgentemente as regras da pontuação. A pontuação que usou só estaria correcta se Estêvão Gago da Câmara fosse o único jornalista do Açoreano Oriental. Não é. Ainda ontem Fernando Mora Ramos, no artigo que aqui citei, escreveu: «E às perguntas “Como nasce um analfabeto?”, “Quando é que começa a sê-lo?”, Tullio di [sic] Mauro, o pai dos estudos linguísticos italianos, diz: “O facilitismo dos docentes provocou danos enormes, promovendo todos e não barrando o caminho a quem não está à altura. Mas o desprezo da língua italiana está também em certos romances de novos autores, cheios de palavrões e abreviaturas, e na linguagem cada vez mais desleixada dos jornais, de onde quase desapareceu a riqueza da pontuação”.»

[Post 2926]

Pontuação e próclise pronominal

© Helder Guégués
Bum!

      Não muito longe da minha casa, desmoronou-se um muro, tendo esmagado dois automóveis. Uma jornalista do Diário de Notícias esteve no local e conta-nos: «Vítor Vieira, da Protecção Civil de Lisboa, contudo, esclarece que só após a avaliação das circunstâncias em que ocorreu a derrocada, poder-se-á determinar as suas causas» («Derrocada de muro esmaga dois carros em Benfica», Kátia Catulo, 15.07-2006, p. 32). Temos então dois desastres: o aluimento do muro e o da gramática. Vejamos.
      A vírgula após o vocábulo «derrocada» é incorrecta, pois não se segue — tento, em vão, reconstituir o que terá pensado a jornalista — uma oração condicional ou concessiva, por exemplo, que, essas sim, se separam da principal por vírgula. Por outro lado, tendencialmente, a presença do advérbio «só» leva a próclise pronominal: «Vítor Vieira, da Protecção Civil de Lisboa, contudo, esclarece que só após a avaliação das circunstâncias em que ocorreu a derrocada se poderá determinar as suas causas.»

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