Definição: «disbiose»

Essa é só uma delas


      «A disbiose vaginal, foco principal das pesquisas sobre microbioma reprodutivo nos últimos anos, não mostrou associação consistente com nenhum dos desfechos avaliados» («Desequilíbrio de bactérias no sêmen está ligado a mais perdas gestacionais», Luana Lisboa, Folha de S. Paulo, 5.08.2026, p. A40). 
      Mas a Porto Editora acha que é só intestinal: «MEDICINA perturbação do equilíbrio da flora intestinal». O que defines, Porto Editora, é apenas a disbiose intestinal, não a disbiose em geral. Assim, proponho ➠ disbiose MEDICINA alteração desfavorável da composição, diversidade ou actividade funcional da comunidade microbiana presente num organismo ou em determinado local deste, relativamente ao estado considerado saudável ou equilibrado; desequilíbrio microbiano.

[Texto 23 569]

Definição: «falo»

Como uma pata de coelho


      Na página 99 da obra A Presença Romana em Cascais, um território da Lusitânia Ocidental, Guilherme Cardoso e José d’Encarnação, está uma imagem de um phallus de liga de cobre. (Com apenas 33 mm, não temos aqui concorrência que se veja.) A primeira acepção de «falo» no dicionário da Porto Editora, com umas alterações, servirá: «representação do pénis em erecção como símbolo de fecundidade». Dois problemas: «em erecção» como condição absoluta não corresponde à realidade, pois há representações arqueologicamente classificadas como fálicas cuja morfologia não justifica que façamos da erecção um requisito lexicográfico. Por outro lado, «como símbolo de fecundidade» é demasiado restritivo, já que no mundo greco-romano, e particularmente entre os Romanos, o falo tinha frequentemente função apotropaica: protecção contra o mau-olhado, a inveja e outras influências maléficas. Assim, proponho ➠ falo 1. representação do pénis, geralmente em erecção, com valor simbólico, nomeadamente associada à fecundidade ou à protecção contra influências maléficas.

[Texto 23 568]

Léxico: «descodificador»

Que ou aquele


      «Nasce em 1986 em Boone, na Carolina do Norte, filho de um militar que serviu no Exército durante a Guerra do Vietname e neto de um descodificador da Marinha durante a II Guerra Mundial. Nasce em 1986 em Boone, na Carolina do Norte, filho de um militar que serviu no Exército durante a Guerra do Vietname e neto de um descodificador da Marinha durante a II Guerra Mundial» («Dan Driscoll», Maria João Bourbon, «Revista E»/Expresso, 11.09.2026, p. 8). 
      Formalmente, fica abrangida pela primeira acepção de «descodificador» no dicionário da Porto Editora: «que ou aquele que descodifica». É, contudo, demasiado genérica para dar conta de um uso técnico e historicamente bem estabelecido: a pessoa que, em contexto militar ou de informações, decifra mensagens codificadas ou cifradas. Assim, proponho ➠ descodificador pessoa especializada em decifrar mensagens ou comunicações codificadas ou cifradas.

[Texto 23 567]

Léxico: «massa puba»

De novo no Brasil


      «Dos indígenas, herdamos a mandioca e seus derivados: a tapioca, o beiju, a massa puba. Dos povos africanos, nos apropriamos de ingredientes como o leite de coco e o azeite de dendê. Já a matriz portuguesa nos trouxe o hábito de comer pão de trigo, laticínios e ovos» («Por que chamamos a 1ª refeição de café da manhã?», David Lucena, Folha de S. Paulo, 18.09.2026, p. C11). 
      Os nossos dicionários não a registam, pelo que proponho ➠ massa puba Brasil CULINÁRIA massa de mandioca obtida pela fermentação das raízes em água, usada na preparação de bolos e outros alimentos; o m. q. puba, carimã.

[Texto 23 566]

Léxico: «orgonite»

Porque nem tudo está mal


«— Então e o meu cristal de orgonite? — A minha pirâmide de orgonite é um gerador de energia positiva que mantenho na mesa de cabeceira. — Guardaste isso?» (O Divórcio, Freida McFadden. Tradução de Carla Ribeiro e revisão de Mariana Félix. Odivelas: Alma dos Livros, 2026, p. 24). 
      Não vamos deixar desamparados os leitores desta obra, pois não, Porto Editora? Coitados, são todos tão boas pessoas. Pelo menos vistos daqui. Assim, proponho ➠ orgonite nome feminino material composto geralmente por resina e partículas metálicas, muitas vezes com cristais de quartzo ou outros minerais incorporados, ao qual, segundo uma crença sem fundamento científico, se atribui a capacidade de captar e transformar a chamada energia orgónica. (Do inglês orgonite, termo criado no início da década de 1990 pelo austríaco Karl Hans Welz, de orgone, «orgone; energia orgónica».)

[Texto 23 565]

Definição: «sinópia»

Já se sabe mais


      «É com estes três ingredientes que se faz uma pintura mural a fresco. Primeiro, pica-se a estrutura inicial para ter aderência, mistura-se duas porções de areia e uma de cal, aplica-se na área que se quer pintar, e faz-se um primeiro esboço com sinópia, um pigmento avermelhado (arriccio). No dia seguinte, é feita uma nova mistura, com uma porção de areia para duas de cal, aplicada apenas na área a concluir no próprio dia. É nessa segunda camada de reboco (intonaco) que é feito o desenho preparatório, mais minucioso, assim como a aplicação dos pigmentos, através de velaturas, como uma aguarela. Tudo enquanto o reboco ainda está fresco, daí o nome da técnica» («Nas igrejas do Alentejo, estamos ao fresco entre frescos», Mara Gonçalves, «Fugas»/Público, 15.08.2026, p. 9). 
      Isso mesmo, sinópia, que a Porto Editora define assim: «1. PINTURA pigmento de tom avermelhado, obtido a partir de um tipo de argila oriundo da região de Sinope (Turquia), usado no passado sobretudo para delinear o esboço preparatório de um fresco directamente na primeira camada do suporte a decorar; 2. PINTURA esboço preparatório de um fresco, feito directamente na primeira camada do suporte a decorar». Não me perguntem porque está «fresco» em itálico. A definição contém erros, como os contém o texto do jornal. Como o jornal é incorrigível, concentremo-nos no dicionário. Ora, já Teofrasto situava na Capadócia a extracção desta terra vermelha, sendo Sinope apenas o entreposto por onde era comercializada, facto corroborado recentemente pela arqueóloga Dominique Kassab Tezgör no estudo «From the Miltos / Sinopis of Ancient Sinope to the Yoşa of Modern Cappadocia» (2022). 
      Tudo ponderado, e há muito para ponderar, proponho ➠ sinópia 1. PINTURA terra vermelha rica em óxidos de ferro, usada como pigmento desde a Antiguidade, originalmente proveniente da Capadócia e comercializada através de Sinope, cidade do mar Negro, cujo nome passou posteriormente a designar pigmentos semelhantes de outras proveniências; 2. PINTURA desenho preparatório de uma pintura a fresco, geralmente executado com esse pigmento sobre o emboço, antes da aplicação do reboco destinado a receber a pintura.

[Texto 23 564]

Etimologia: «almôndega»

Ainda no domínio da comezaina


      «Aquella primera edición, la conocida como Diccionario de autoridades, indicaba varias posibles etimologías de albóndiga. Con el tiempo, la RAE se ha quedado con albúnduga, del árabe hispánico, procedente a su vez del árabe clásico bundugah, y este del griego (káryon) pontikón ‘(nuez) póntica’, por similitud en la forma» («Ojo con las almóndigas», Francisco Ríos, La Voz de Galicia, 19.09.2026, p. 14).
      Ora, o dicionário da Porto Editora, tal como outros, indica que a etimologia de «almôndega» é «do árabe al-bundqâ, “bola; bolinha”». Ou seja, dá como significado próprio do étimo aquilo que parece ser já um desenvolvimento semântico. Assim, proponho do árabe al-bunduqa, «avelã; bolinha», do árabe clássico bunduqah, «avelã», por sua vez do grego [káryon] pontikón, «[noz] pôntica».

[Texto 23 563]

Léxico: «tucumã | tucumã-do-amazonas | tucumã-do-pará»

Voltando ao x-caboquinho


      No verbete de «tucumã», Porto Editora, esqueceste-te da 2.ª acepção, a relativa ao fruto. Como, porém, a própria definição não está actualizada, como pude confirmar sobretudo na monografia técnica da Embrapa/MMA de 2022 dedicada precisamente às duas espécies a que pertence o tucumã, é preferível refazê-la assim ➠ tucumã 1. BOTÂNICA designação comum a palmeiras sul-americanas do género Astrocaryum, especialmente Astrocaryum aculeatum e Astrocaryum vulgare, de grande porte e caule geralmente espinhoso, que produzem frutos comestíveis e oleaginosos; tucumã-do-amazonas; tucumã-do-pará; 2. fruto dessas palmeiras, de forma globosa a elipsóide, com polpa carnosa, fibrosa e oleaginosa, geralmente amarelo-alaranjada, consumida ao natural ou usada na preparação de diversos alimentos. 
      Isso mesmo, temos de dicionarizar igualmente ➠ tucumã-do-amazonas BOTÂNICA (Astrocaryum aculeatum) palmeira sul-americana da família das Arecáceas, nativa da Amazónia, de grande porte e caule espinhoso, que produz frutos comestíveis de polpa amarelo-alaranjada, fibrosa e oleaginosa; tucumã-açu | tucumã-do-pará BOTÂNICA (Astrocaryum vulgare) palmeira sul-americana da família das Arecáceas, nativa da região amazónica, de caule espinhoso e frequentemente cespitoso, que produz frutos comestíveis de polpa amarelo-alaranjada e oleaginosa.

[Texto 23 562]

Léxico: «subnomenclatura»

Parte estava bem


      Apareceu-me aqui um «subnome», mas era confusão do autor, logo sanada. O que efectivamente existe (vejo-o em teses de doutoramento, em decisões do Superior Tribunal de Justiça brasileiro e textos técnicos e jornalísticos, além de o encontrar no nosso VOP) e o dicionário da Porto Editora não regista é o vocábulo ➠ subnomenclatura nome feminino nomenclatura secundária ou subordinada, estabelecida no interior de outra mais abrangente; conjunto de denominações correspondente a uma subdivisão de determinada nomenclatura.

[Texto 23 561]

Léxico: «quebra-torto | arroz carreteiro»

Continuamos por lá


      «O pantaneiro começa seu dia com o quebra-torto, prato à base de arroz carreteiro com ovos» («Por que chamamos a 1ª refeição de café da manhã?», David Lucena, Folha de S. Paulo, 18.09.2026, p. C11).
      Então, aqui vai ➠ quebra-torto 1. Brasil regionalismo refeição matinal substancial, tradicional da região do Pantanal, geralmente composta por arroz, carne, ovos, farofa ou outros alimentos energéticos; 2. prato de arroz com carne, geralmente acompanhado de ovos ou outros alimentos, tradicionalmente servido nessa refeição; arroz carreteiro. 
       Pois, já vi que temos aqui um problema, que também é uma oportunidade: temos de dicionarizar igualmente ➠ arroz carreteiro Brasil CULINÁRIA prato tradicional do Rio Grande do Sul, preparado com arroz e charque picado, cozidos conjuntamente com temperos, havendo variantes com outros tipos de carne; o m. q. arroz de carreteiro.

[Texto 23 560]

Léxico: «x-caboquinho»

Regresso ao Brasil


      «No Amazonas, é típico o consumo do x-caboquinho, sanduíche feito com pão francês recheado com lascas de tucumã —fruto de uma palmeira amazônica—, banana e queijo coalho» («Por que chamamos a 1ª refeição de café da manhã?», David Lucena, Folha de S. Paulo, 18.09.2026, p. C11). 
      Há décadas que o pobre x-acto esperava companhia à altura, e encontrou-a agora neste brasílico  x-caboquinho Brasil CULINÁRIA sanduíche típica do Estado do Amazonas, especialmente de Manaus, feita com pão francês recheado com lascas de tucumã, queijo de coalho e, geralmente, banana-pacovã frita. (Quanto à etimologia, vem de x-, elemento usado no português do Brasil na designação de diferentes tipos de sanduíche, do inglês cheese, «queijo», + caboquinho, diminutivo regional de caboclo.)

[Texto 23 559]

Léxico: «sati»

Estamos a alienar a nossa História


      No episódio de sábado do programa Visita Guiada, em nova temporada, Paula Moura Pinheiro esteve em Goa. Entre outros convidados, esteve a falar com o fundador e director do Goa Chitra Museum, Victor Hugo Gomes, que afirmou que o «sati was abolished by the Portuguese here in Goa in 1526, three hundred years before Rajaram Mohan Roy could do it in the rest of India». Ora, estranhamente, só encontramos «sati» em dicionários bilingues da Porto Editora. Assim, proponho ➠ sati nome masculino 1. antiga prática hindu que consistia na imolação, voluntária ou forçada, de uma viúva, geralmente pelo fogo, na pira funerária do marido ou juntamente com os restos mortais deste; 2. nome feminino mulher que se submetia a essa prática. (Quanto à etimologia, vem do sânscrito satī, «mulher boa, virtuosa; esposa fiel», feminino de sat-, «bom, verdadeiro, virtuoso»; o termo, que originariamente designava a mulher, passou posteriormente a designar também a prática.)

[Texto 23 558]

Definição: «giro»

Não tem graça, mas é giro


      «Aprestava-se a regressar às suas cogitações quando Matthew apareceu à porta, a anunciar que o Pequeno Andy, o carteiro, estava lá em baixo, no armazém. Tinha acabado mesmo agora a ronda e precisava de falar com Lily sobre um assunto pessoal» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., pp. 251-52). 
      Desde quando é que os carteiros fazem rondas? Isso é no original: «... having just finished his round». Fazem giros. A propósito: a 3.ª acepção de «giro» no dicionário da Porto Editora abarca o sentido postal, mas de maneira excessivamente genérica: «itinerário definido em conformidade com as exigências de determinada actividade (de vigilância, de distribuição e recolha de artigos ou mercadorias, etc.)» Devíamos separar o sentido profissional geral do sentido postal, que é suficientemente estabelecido para merecer explicitação. Assim: 3. itinerário ou percurso estabelecido para o exercício regular de determinada actividade, nomeadamente de vigilância, distribuição ou recolha; 4. percurso estabelecido para a distribuição de correspondência e outros envios postais, efectuado regularmente por um carteiro ou outro distribuidor; área abrangida por esse percurso.

[Texto 23 557]

Definição: «laguna»

Vamos pôr isso à prova


       «Corpo de brasileira é encontrado em laguna de Veneza após acidente» (Michele Oliveira, Folha de S. Paulo, 16.09.2026, p. A47). Vejamos o que diz a Porto Editora de «laguna»: «1. GEOGRAFIA bacia litoral de águas paradas, separada do mar apenas por uma restinga de areia e com o qual mantém comunicação intermitente; 2. canal entre bancos de areia ou ilhotas, na foz de um rio; 3. pequena lagoa; 4. ria». Então vejamos, tomando a Laguna de Veneza como exemplo, a primeira acepção, a mais importante. A definição apresenta vários problemas: 1.º, não se trata necessariamente de uma bacia de águas paradas: as águas de uma laguna podem estar sujeitas a correntes, circulação e marés — em Veneza, o regime de marés determina uma importante circulação da água; 2.º, uma laguna não está necessariamente separada do mar apenas por uma restinga de areia: pode sê-lo por diferentes tipos de barreira litoral, incluindo cordões arenosos, restingas ou ilhas-barreira — a Laguna de Veneza é separada do Adriático por ilhas-barreira; 3.º, a comunicação com o mar não é necessariamente intermitente: pode ser permanente ou intermitente, havendo mesmo lagunas que se encontram totalmente fechadas ao mar — a Laguna de Veneza comunica permanentemente com o Adriático por três aberturas, Lido, Malamocco e Chioggia; 4.º, omite-se uma característica importante das lagunas: são geralmente pouco profundas — a Laguna de Veneza apresenta vastas áreas com profundidades da ordem de 1 a 1,5 metros. 
      Tudo visto, proponho laguna 1. GEOGRAFIA massa de água costeira, geralmente pouco profunda, separada do mar por uma barreira litoral, geralmente arenosa, podendo comunicar com ele por uma ou mais aberturas; 2. GEOGRAFIA canal pouco profundo entre bancos de areia ou ilhotas, na foz de um rio; ria; 3. GEOGRAFIA massa de água salgada situada no interior de um recife de coral.

[Texto 23 556]

Léxico: «pardelho(s) | cacifro»

Ou o leitor não pescará nada


      «Estendendo a mão, tocou na face tépida da criança. O berço quedara-se enleado na ramagem de um salgueiro vergado pelo peso de uma rede ou pardelho, como lá dizem, que dali, atado nele, atravessava para a margem da Ínsua — um bosque de choupos assim chamado. As bóias arfadas pela corrente chofravam nos flancos do berço» (Maria Moisés, Camilo Castelo Branco. Lisboa: INCM, 2020, pp. 43-44). 
      Encontramo-lo também em Aquilino. Ser sustentada por bóias pode não ser característica verdadeiramente distintiva nem inerente ao modo habitual de armar a rede, pelo que vamos omiti-las. Assim, proponho  pardelho(s) regionalismo rede de emalhar que se dispõe transversalmente num rio, de uma margem à outra, para capturar peixe.

[Texto 23 554]


⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Camilo, este mesmo de Maria Moisés, e nós com ele, ainda espera que os dicionários acolham outro acessório de pesca, o ➠ cacifro regionalismo cesto de verga, geralmente de forma circular e levado a tiracolo, em que o pescador guarda o peixe capturado, podendo mantê-lo dentro de água para conservar as capturas vivas ou frescas. 
Com certeza os lexicógrafos não quererão que, para guardar o peixe capturado, os pescadores usem o «cesto de vime onde os caçadores levam o furão». 


Definição: «decibel»

Porque é bom saber mais


      «Em acústica, atribui-se convencionalmente o valor de 0 decibéis a um nível de referência próximo do limiar da audição humana. Isto não significa ausência de som: esse limiar varia com a frequência e de pessoa para pessoa. Como o ouvido capta sons de intensidades muito diferentes, utiliza-se a escala logarítmica dos decibéis (dB). Um decibel corresponde à décima parte do bel, unidade logarítmica utilizada para exprimir relações entre intensidades sonoras. Uma diferença de 10 dB – ou de um bel – entre dois níveis sonoros significa que o som de nível mais elevado tem dez vezes a intensidade do outro. Relativamente à intensidade de referência, um som com um nível de 20 dB é cem vezes mais intenso; um de 30 dB, mil vezes, e assim sucessivamente» («Silêncio!», João Paulo André [químico], Nascer do Sol, 18.09.2026, p. 36). 
      Não podemos desperdiçar a oportunidade para melhorar a definição de «decibel», que está muito incompleta. Assim, proponho ➠ decibel FÍSICA unidade logarítmica, de símbolo dB, equivalente à décima parte do bel, usada para comparar valores de uma grandeza ou para exprimir o seu nível relativamente a um valor de referência, especialmente em acústica, electrónica e telecomunicações. (Quanto à etimologia completa, vem de deci- + bel, ou do francês décibel, «idem»; bel é unidade assim denominada em homenagem ao inventor escocês Alexander Graham Bell (1847-1922).)

[Texto 23 553]

Léxico: «protomo»

Agora precisamos dos dois


      Na página 10 da obra A Presença Romana em Cascais, um território da Lusitânia Ocidental, de Guilherme Cardoso e José d’Encarnação, encontra-se uma imagem de um protomo de calcário amarelo local. Infelizmente, os nossos dicionários não registam este termo. E o homónimo que encontramos no Houaiss, por exemplo, não é o da Arqueologia. Assim, proponho ➠ protomo 1. HISTÓRIA homem pré-histórico; o mesmo que protandro; 2. ARQUEOLOGIA, ARTES PLÁSTICAS representação da cabeça ou da parte anterior do corpo de uma figura humana, animal ou fantástica, constituindo uma peça autónoma ou integrando um objecto ou elemento arquitectónico, frequentemente com função ornamental. (Etimologia da acepção 2: do grego protomḗ, «parte anterior; busto», derivado de protémnō, «cortar pela frente», de pro, «diante, à frente», + témnō, «cortar».)

[Texto 23 551]

Léxico: «nosto»

Também queremos este


      «Evgenia Makrygianni, professora associada de Literatura Grega Antiga na Universidade de Atenas, afirmou que A Odisseia continua profundamente ligada à identidade da Grécia contemporânea por meio da ideia homérica de nostos – o desejo de retornar ao lar que impulsiona toda a jornada de Odisseu. “Isso se conecta às próprias experiências históricas da Grécia – guerras, exílio, dificuldades econômicas e migração”, explicou. “Odisseu simboliza resiliência, determinação e a força para perseverar diante da adversidade”» («O que os gregos acharam de ‘A Odisseia’? Fomos a uma sessão em Atenas», Niki Kitsantonis [NYT], O Estado de S. Paulo, 9.08.2026, p. A32).
      O termo grego em causa é νόστος (nóstos), «regresso», especialmente o regresso à pátria ou ao lar. Parece-me, pois, que se justifica o registo do aportuguesamento nosto, tanto mais que o vejo empregado nos estudos clássicos para designar o regresso de um herói à pátria depois de uma longa ausência, em particular o de Ulisses após a Guerra de Tróia. Poderia ser assim ➠ nosto LITERATURA na epopeia grega, regresso de um herói à pátria ou ao lar depois de uma longa ausência, sobretudo de uma guerra; por antonomásia, viagem de regresso de Ulisses a Ítaca, narrada na Odisseia
      Do grego νόστος, «regresso; retorno ao lar». Já temos vocábulos formados com nóstos — alguns dos quais o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista —, como nostomania, nostomaníaco, nostómano e nostofobia. Devíamos ainda registar, como faz o Houaiss, o elemento de composição nost(o)-, do grego νόστος, «regresso; retorno», presente nestes vocábulos.

[Texto 23 550]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Odisseu é corrente no português brasileiro contemporâneo de temática clássica; Ulisses é, sem hesitação, excepto para alguns tradutores, a forma normal em Portugal. Mas depois temos «odisseia» e não «ulisseia», que só aparece como nome de editora. Mas, curiosamente, temos o adjectivo «ulisseu», pelo que, afinal, sempre dispomos de «ulisseia» como forma do adjectivo. A ulisseia manha.


Léxico: «gato-tilcayo»

O mundo ainda guarda surpresas


      «Uma equipa de cientistas identificou uma nova espécie de gato selvagem em florestas da Bolívia, sendo esta a primeira descrição científica de uma nova espécie de felino selvagem em mais de um século, foi esta quinta-feira divulgado. Batizada “Leopardus tilcayo” ou gato-tilcayo, a espécie foi descoberta nas florestas da região de Yungas, na Bolívia, e é um felino de pequeno porte que mede aproximadamente 46 centímetros da cabeça à cauda e pesa cerca de 1,4 quilogramas, menos do que um gato doméstico comum, informou a agência noticiosa espanhola EFE» («Nova espécie de felino descoberta na Bolívia, a primeira em mais de um século», Rádio Renascença, 17.09.2026, 18h19). 
      Temos tudo o que é preciso para propor ➠ gato-tilcayo ZOOLOGIA (Leopardus tilcayo) mamífero carnívoro da família dos Felídeos, pertencente ao grupo dos gatos-do-mato-pequenos, de porte inferior ao do gato doméstico, de pelagem castanho-clara, mais escura no dorso, com grandes rosetas irregulares, nativo das florestas montanhosas húmidas dos Yungas, na Bolívia; o m. q. tilcayo. (Quanto à etimologia, vem castelhano boliviano tilcayo, designação tradicional deste felino entre as populações dos Yungas, de origem incerta.)

[Texto 23 549]

Léxico: «entredente»

Mas façam como quiserem


      «— Não sei — respondo, entredentes. Ainda recordo com carinho o tempo em que o Teddy não sabia falar» (O Divórcio, Freida McFadden. Tradução de Carla Ribeiro e revisão de Mariana Félix. Odivelas: Alma dos Livros, 2026, p. 79). «— Fez — diz o Jeremy, entredentes. — E não é tudo» (p. 160). 
      Estou sempre a encontrar e a corrigir este erro. Há dicionários que o acolhem, mas como acolhem muitos e muitos outros erros. É «entre dentes». Mas a palavra «entredente» mereceu-me uma análise cuidada. Não é de uso muito comum, mas importa ter em conta que se trata de um termo técnico. Num manual da unidade curricular Órgãos de Máquinas II, da Escola de Engenharia da Universidade do Minho, encontro-a definida numa secção dedicada aos aspectos gerais das engrenagens e ilustrada por vários desenhos explicativos. O dicionário da Porto Editora dá-lhe como sinónimo «crena», relação também registada noutros repertórios lexicográficos, embora não tenha conseguido comprovar o uso deste último termo em manuais ou noutros documentos técnicos. Por outro lado, há uma acepção usada no Brasil que não se confunde com esta. Assim, proponho ➠ entredente 1. MECÂNICA espaço compreendido entre dois dentes consecutivos de uma roda ou peça dentada; crena (pouco usado); 2. Brasil MAQUINARIA peça de desgaste instalada entre os dentes do balde de uma escavadora ou de uma pá carregadora, destinada a proteger o bordo cortante contra o desgaste.
      Existe também em francês o termo técnico entre-dent. O Grand dictionnaire terminologique, do Office Québécois de la Langue Française, organismo canadiano, define-o como «espaço entre dois dentes vizinhos». A coincidência formal, semântica e terminológica leva a admitir que o francês possa ter servido de modelo ao português «entredente». A hipótese é plausível, atendendo à influência histórica da terminologia técnica francesa; não pode, porém, considerar-se comprovada, sobretudo porque a formação portuguesa — entre- + dente — é inteiramente transparente e poderia ter surgido de forma autónoma.

[Texto 23 548]

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