Como se escreve por aí

Ainda não averiguaram o caso


      «No ano em que a cidade assume o título de Capital Europeia da Democracia, os concertos afirmam-se como um dos grandes acontecimentos do verão» («Daniela Mercury abre hoje as tradicionais Festas do Mar», Vanessa Fidalgo, Correio da Manhã, 20.08.2026, p. 28). Tão abelhudos, mas ainda não aprenderam que Cascais é vila. Claro que não são os únicos. Roberto Bessa Moreira, por exemplo, só hoje fica a saber que anda por aí a espalhar o erro: «Na execução do plano, descreve a acusação do Ministério Público, vários elementos da organização criminosa fizeram, desde 2024, “várias viagens” a Portugal para “conhecerem o território, as marinas de Portimão e de Cascais” e ainda para “obterem alojamento” nas mesmas cidades» («Carro funerário entrou seis vezes na marina de Portimão para carregar cocaína», Roberto Bessa Moreira, Jornal de Notícias, 22.08.2026, p. 18). (Em contrapartida, sabe que já não levamos os mortos para o cemitério numa carreta.)

[Texto 23 442]

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Como se traduz por aí

Meia bola e força


      «Julian acenou em compreensão, enquanto Celia se confortava com um golinho da mistela» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., p. 62). 
      O termo ginny é aqui uma forma familiar/jocosa de gin, e ocorre cinco vezes e sempre relacionado com a personagem Celia. Ginny, neste contexto, não altera a natureza da bebida: continua a ser gin. Já «mistela» introduz indevidamente a ideia de mistura ou bebida de má qualidade. Logo: «Julian mostrou compreender, enquanto Celia se consolava com um gole de ginzinho.» Pior, só a carreta dos mortos.

[Texto 23 441]

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Léxico: «marcha japonesa»

Fala-se agora muito nela


      «Si courir sous le cagnard vous rebute, passez à la marche japonaise. Les vagues de chaleur s’enchaînent et votre endurance fond aussi vite que les glaciers? La solution à votre problème existe. Elle vient du pays du... Soleil levant. La Japanese Walking Routine, ou marche japonaise, propose d’alterner marche rapide et marche lente au cours de la même sortie. Cette méthode d’intervalles à pied transforme une simple balade en séance cardio, accessible et redoutablement efficace» («La marche japonaise, l’endurance pour ceux qui détestent courir», Pierre-Alain Schlosser, Le Matin Dimanche, 23.08.2026, p. 35). 
      Vamos acolher a ➠ marcha japonesa DESPORTO método de treino de marcha por intervalos que consiste em alternar períodos de cerca de três minutos de marcha de baixa intensidade com períodos de igual duração de marcha de alta intensidade, geralmente em cinco ou mais séries; caminhada japonesa.

[Texto 23 440]

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Fim de século, fim-de-século, finissecular...

Em suma, ficamos a perder


      «Atrás do monumento, flutuando no ar cálido, via-se a silhueta do hotel Taj Mahal, enorme pastel, delírio de um Oriente fim-de-século, que como uma gigantesca bola não de sabão mas de pedra tivesse ido parar a um recanto de Bombaim» (Vislumbres da Índia, Octavio Paz. Tradução de José Colaço Barreiros e revisão de João Carlos Alvim. Lisboa: Relógio D’Água, 2017, p. 15). 
      Ai sim? Mas na ficha técnica juraram que «esta tradução segue o novo Acordo Ortográfico». A propósito, o dicionário da Porto Editora não o regista, mas tem (e temos) o adjectivo «finissecular», sempre preferível, e que é o termo usado por Octavio Paz. O Houaiss, contudo, regista-o como locução (que é) e o VOLP da Academia Brasileira de Letras como adjectivo de 2 géneros e 2 números, mas isso é porque os académicos estavam a dormir, ou então foi o informático que decidiu mostrar que também tem opinião, que, sabemos agora, mais valia guardar para si e para sempre. 
      Mas nem tudo são ganhos: o Houaiss distingue três acepções em «fim de século», ao passo que a Porto Editora só regista uma em «finissecular».

[Texto 23 439]

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Definição: «amazónico»

Seria muito mais informativo


      «A Amazónia é um território natural com cerca de 700 milhões de hectares na América do Sul — uma superfície maior do que toda a Europa Ocidental. Estende-se por nove países — Equador, Peru, Brasil, Bolívia, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa — e concentra a maior floresta tropical e bacia hidrográfica do planeta, sendo o Brasil detentor da maior porção geográfica desta vasta região» («Amazónia, território de vida», Jairo García, Além-Mar, Setembro de 2026, p. 14). 
      Era parte desta informação que os dicionários deviam conter na respectiva acepção de ➠ amazónico adjectivo relativo à Amazónia, vasta região natural da América do Sul que se estende por nove países e abrange a bacia hidrográfica do rio Amazonas e a extensa floresta tropical associada.

[Texto 23 438]

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Léxico: «canforeira-de-bornéu»

Tem de ser nossa


      «Camões também refere uma canforeira no canto X d’Os Lusíadas, sabendo que não é a verdadeira. Trata-se da canforeira-de-bornéu (Dryobalanops aromatica), e não da verdadeira canforeira (Camphora officinarum), cuja área nativa o poeta não visitou. “Portanto, sabia que havia uma canforeira verdadeira. Talvez a tivesse visto cultivada na Índia”» («Jorge Paiva. Apaixonou-se pelas plantas em Camões e quis mostrá-las ao vivo no jardim», Teresa Firmino, Público, 23.08.2026, p. 25).

[Texto 23 437]

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Como se traduz por aí

Temos os nossos idiomatismos


      «O Teddy espera-nos à porta, branco como um lençol, e sua senhoria está no andar de cima, no seu boudoir, com a sua música clássica muito alta» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., p. 62). [«Teddy’s waiting at the door, white as a sheet, and her ladyship’s upstairs in her boudoir with her classical music turned up loud.»] 
      Como se nós usássemos esta expressão... Enfim. Sempre que possível, expressão idiomática traduz-se com expressão idiomática, e a nossa não é «branco como um lençol», mas «branco como a cal».

[Texto 23 436]

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Léxico: «sinal de ajuda»

Há outros menos úteis nos dicionários


      «Il “Signal for help” è un gesto universale inventato nel 2020 dalla Canadian Women’s Foundation. Si fa mostrando il palmo della mano, piegando il pollice verso l’interno e richiudendogli sopra le quattro dita. Non richiede l’uso della voce, si ripete più volte per attirare l’attenzione» («Il segnale di soccorso», Valeria Costantini, Corriere della Sera, 23.08.2026, p. 19). 
      Pode contribuir para salvar alguém, pelo que proponho ➠ sinal de ajuda gesto convencional de pedido discreto de ajuda, feito levantando uma mão aberta, com a palma voltada para o interlocutor, dobrando o polegar sobre a palma e fechando depois os restantes dedos sobre ele.

[Texto 23 435]

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Léxico: «ironizar»

Não temos


      «Criador de ‘Rick and Morty’ ironiza a política americana em novo seriado» (Davi Galantier Krasilchik, Folha de S. Paulo, 20.08.2026, p. B10). Isso mesmo, Porto Editora, não fica abrangido pelas tuas acepções do verbo. Logo, proponho ironizar verbo transitivo 3. Brasil tratar (alguém ou algo) com ironia.

[Texto 23 434]

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Etimologia: «trailer»

É pena é misturarem tudo


      «Gracias al eco de los medios convencionales y las redes sociales, se impone un breve resumen de la película que llamamos tráiler porque, en origen, se proyectaban después de la película (ahora se proyectan antes)» («Ultracuerpos lingüísticos», Sergi Pamies, La Vanguardia, 18.08.2026, p. 13). 
       No essencial, é assim. Infelizmente, nos nossos dicionários é de trailer, «idem», e já está. O termo do cinema, e só desse estou a falar — o que implicaria separar as acepções — vem, de facto, do inglês trailer, «idem», originalmente «o que segue, o que vem atrás», derivado de to trail, «seguir; ir atrás» [a acepção cinematográfica deve-se ao facto de estas peças promocionais serem originalmente exibidas depois do filme que promoviam].

[Texto 23 433]

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Léxico: «móli»

Tradutor, não botânico


      «Quando essas palavras se referem a um conceito, já é dose. Mas e quando nomeiam um objeto, um ser vivo, uma planta? O que fazer com o fato de que a erva mágica que Odysseus/Ulysses recebe para se proteger dos feitiços de Circe se chama móli — e ninguém jamais cravou ao certo que dianho de planta seria isso?» («Por que Odisseu virou Ulisses», Caetano W. Galindo, Folha de S. Paulo, 20.08.2026, p. A38). 
      E isso é um problema? O móli pertence ao mundo da Odisseia, e Homero diz-nos o suficiente para sabermos o que ele é dentro desse mundo: uma planta que Hermes arranca da terra e dá a Ulisses para o proteger dos sortilégios de Circe; tem a raiz negra, a flor branca como o leite e é tão difícil de arrancar que os mortais não conseguem fazê-lo, mas os deuses, esses, tudo podem. Não sabemos a que espécie real corresponderia, se é que correspondia a alguma. Mas também não precisamos de saber para lhe chamar móli. A tradução literária está cheia de seres, objectos, lugares e substâncias que ninguém jamais viu. Não precisamos de identificar biologicamente a mandrágora de um mito, zoologicamente uma quimera ou geograficamente a ilha de Circe para os nomearmos em português. O referente é-nos dado pelo próprio texto. O tradutor não tem, pois, de resolver um problema de taxonomia que nem os botânicos da Antiguidade resolveram. Tem de traduzir Homero. E Homero chama à planta μῶλυ (môly). Em português, temos até a forma registada «móli», homónima de outra que aparece nos nossos dicionários e vocabulários (no VOLP da Academia Brasileira de Letras e no Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves, e em ambos os casos se diz que se trata de uma planta), e há uma curiosa relação entre elas, apenas as temos de dicionarizar. Assim, proponho ➠ móli¹ nome masculino MITOLOGIA planta de propriedades mágicas que, segundo a Odisseia, Hermes deu a Ulisses para o proteger dos encantamentos de Circe, descrita como tendo raiz negra e flor branca como o leite e como sendo difícil de arrancar pelos mortais. (Quanto à etimologia, vem do grego môly, «idem», pelo latim moly, «idem».) | móli² nome masculino BOTÂNICA (Allium moly) planta herbácea bulbosa, da família das Amarilidáceas, originária do Sudoeste da Europa, de folhas lanceoladas e flores amarelas, dispostas em umbelas; alho-dourado. (Quanto à etimologia, vem do latim científico Allium moly, nome da espécie, sendo moly tomado do latim moly, por sua vez do grego μῶλυ (môly), nome de uma planta, designadamente da planta de propriedades mágicas referida na Odisseia.)

[Texto 23 432]

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Como se traduz por aí

Os famosos PT


      «Descendo o monte uns cinquenta metros até ao novo centro médico, atravessando o parque de estacionamento nas traseiras, ignorando a advertência histérica para não avançar sob pena de correr perigo de morte, passando por baixo de uma vedação metálica e trepando um monte de entulho ao lado da estação transformadora, obtinha-se uma vista da mesma casa, a franzir-nos o sobrolho de cima, com quatro grandes janelas de sacada no rés do chão, todas elas com cortinados grossos que deixavam ver apenas lascas de luz de cada lado, e uma quinta janela que poderia pertencer à cozinha» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., pp. 87-88). 
       No original, transformer station: em Portugal, posto de transformação (PT), designação técnica consagrada na regulamentação do sector eléctrico; não «estação transformadora». Um de muitos erros. E claro que são «nesgas de luz», não «lascas de luz».

[Texto 23 431]

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Léxico: «helicase»

Porque o prometes


      «Helicase is an enzyme that unwinds the two strands of DNA so that the cell can copy the genetic information stored in them. DNA is normally a double helix, i.e. two long strands held together by bonds between bases on each strand, spiralling around each other. When a cell divides, it needs to make a copy of the DNA, which requires these strands to be separated» («Helicase: the DNA separator», Vasudevan Mukunth, The Hindu, 19.08.2026, p. II). 
      Como vejo que a procuras, Porto Editora, aqui vai a ➠ helicase BIOQUÍMICA enzima que, geralmente com consumo de energia fornecida por um nucleósido trifosfato, promove o desenrolamento e a separação de cadeias de ácidos nucleicos, intervindo em diversos processos do metabolismo do ADN e do ARN.

[Texto 23 430]

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Léxico: «comboio-hotel»

Nada de novo


      «Em vez de uma construção de raiz, o projeto prevê a recuperação de material ferroviário existente, que será transformado num comboio-hotel. Os passageiros deverão encontrar a bordo espaços destinados ao alojamento e uma componente gastronómica relacionada com as várias regiões portuguesas. A viagem não ficará, porém, limitada ao interior das carruagens: os percursos deverão incluir experiências nos destinos visitados» («Portugal vai ter um novo comboio-hotel de luxo. Investimento será de 20 milhões», Eduardo Oliveira, New in Town, 22.08.2026, 13h21). Bem, já vem de longe: «Este ano, como tem sucedido em anos anteriores, os S. A. R. em ligação com agências de turismo e de transportes, promoveu a vinda a Lourenço Marques de mais um comboio-hotel (assim lhe chamou a Imprensa)» (in Boletim da Direcção dos Serviços dos Portos, Caminhos de Ferro e Transportes de Moçambique, 1965, p. 16).
[Texto 23 429]

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Definição: «gaivina-dos-pauis»

Criticamente em perigo


      «Os adultos em época de nidificação das gaivinas-dos-pauis têm o bico vermelho e o peito cinzento-escuro, distinguindo-se de forma mais evidente as faces claras — e daí ser também chamada de [sic] gaivina-de-faces-brancas. Já o tagaz ostenta, nas mesmas circunstâncias, um bico preto e o peito claro, sem distinção com as faces. Classificada, em Portugal, como Criticamente em Perigo, o III Atlas de Aves Nidificantes não consegue apresentar uma tendência credível sobre a sua presença no país, dada a sua imprevisibilidade e falta de acompanhamento específico» («A imprevisível gaivina-dos-pauis», Patrícia Carvalho, Público, 20.08.2026, p. 32). 
      É informação que nem sequer a consulta dos nossos dicionários nos fornece. Por isso, proponho gaivina-dos-pauis ORNITOLOGIA (Chlidonias hybrida) ave da família dos Larídeos, de plumagem predominantemente cinzenta, que, na época de reprodução, apresenta barrete preto, faces claras, peito cinzento-escuro e bico vermelho, frequenta sobretudo zonas húmidas com abundante vegetação aquática, onde nidifica em colónias sobre vegetação flutuante, estando a população reprodutora em Portugal classificada como criticamente em perigo; gaivina-de-faces-brancas.

[Texto 23 428]

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Léxico: «lambdacista» Definição: «lambdacismo» | «paralambdacismo»

É muito mais do que isso


      «A essa altura ninguém se surpreende ao saber que uma odisseia tem esse nome por causa da “Odisseia”, que por sua vez tem esse nome por causa de Odisseu. Só que a origem do nome do herói é obscura. E já era obscura lá na Antiguidade Clássica. Até a forma variava. Além de Odysseus, aparecem versões como Olisseus, Otisseus e Oulixeus. Em tempos romanos, a forma preferida passou a ser Ulixes, que também vez por outra virava Ulysses. E, mais uma vez, ninguém sabe ao certo as razões. Existe na linguística um troço chamado lambdacismo, que é quando ocorre a troca de um som pelo “L”, que no alfabeto grego é lambda. Tente formar um “D” e um “L” na boca e veja como são próximos» («Por que Odisseu virou Ulisses», Caetano W. Galindo, Folha de S. Paulo, 20.08.2026, p. A38). 
      Sejamos claros: lambdacismo não é apenas o que a Porto Editora diz: «pronúncia viciosa caracterizada pelo emprego do l em vez do r». Lembro-me ainda de o meu professor de Latim falar nisto, e não era apresentado como «pronúncia viciosa» (que também é), mas como fenómeno linguístico, como na crónica acima. É muito mais do que isso. Assim, proponho lambdacismo nome masculino 1. LINGUÍSTICA fenómeno fonético que consiste na substituição de outro som por l, especialmente de r por l; 2. FONÉTICA vício ou perturbação da pronúncia que afecta a articulação do som l; 3. RETÓRICA emprego ou repetição excessiva do som l, designadamente como recurso estilístico. 
      Quanto à etimologia, vem do grego lambdakismós, «emprego do lambda em lugar de outra letra», pelo latim lambdacismu-, «emprego excessivo ou pronúncia defeituosa de l». 
      E também a definição de «paralambdacismo» tem de ser corrigida, pois não se trata de letra, mas som. Assim, proponho ➠ paralambdacismo nome masculino FONÉTICA vício ou perturbação da pronúncia caracterizado pela substituição do som l por outro som. 
      (Diga-se, já agora, que a frase de Galindo — «Tente formar um “D” e um “L” na boca e veja como são próximos» — tem um fundo verdadeiro, mas está formulada de maneira enganadora.)

[Texto 23 427]

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Extras! Extras! Extras!

Para ninguém se esquecer


      «Entre as instituições politécnicas, destacam-se a Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, com uma taxa de ocupação de 101,2% (o que significa que houve vagas extras criadas para resolver, por exemplo, situações de empate), seguida do Instituto Politécnico do Porto (agora Universidade Técnica do Porto) e do Instituto Politécnico de Lisboa com taxas de ocupação de 98,9% e 95,2%, respectivamente» («Número de colocados é o segundo maior da década», Andreia Sanches, Público, 22.08.2026, p. 15).

[Texto 23 426]

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Como se traduz por aí

Pobres leitores, isso sim


      «Mais tarde ela contou-lhe que tinha vindo na carreta funerária com o cadáver da mãe, mas apenas até à porta da capela, em obediência às instruções de Deborah» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., p. 182). 
      Mais conhecida no mundo moderno ocidental por... carrinha funerária ou carro funerário. Reaparece mais à frente, e já com o adjectivo desatrelado: meramente «carreta». Pesquisem então «undertakers’ van» no Google Imagens e depois digam-me o que aparece. Que raio de disparate... A única carreta que chegou aos nossos dias, em todo o universo lusófono, está no Brasil, onde é sinónimo de «camião»: «Ao menos 23 pessoas morreram na madrugada desta quarta-feira (19) em um acidente entre uma carreta e um micro-ônibus no km 209 da rodovia BR-373, em Ipiranga, a cerca de 171 quilômetros de Curitiba, no Paraná. [...] O caminhão tinha placas de Erechim, no Rio Grande do Sul, e seguia no sentido de Carambei para Prudentópolis» («Acidente entre micro-ônibus e carreta deixa 23 mortos no Paraná», Cristina Camargo, Francisco Lima Neto, Bruna Fantti e Catarina Scortecci, Folha de S. Paulo, 20.08.2026, p. A34).

[Texto 23 425]

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Léxico: «irmão postiço»

Ora esta...


      Vamos ver, isto pode ter diferentes abordagens. Vejo por aí a palavra stepbrother (o mesmo se aplica a stepsister) traduzida por «meio-irmão». Está, evidentemente, errado. (Mas é repetido pelos dicionários bilingues!) Neste caso, não há aí nenhum pai em comum. Quando há um, o inglês tem half brother (e, adivinharam, half sister). Nós é que, aparentemente, não temos termo para stepbrother e stepsister. Ou assim se pensa. Ora, no verbete «postiço», os nossos dicionários já acolhem a acepção relativa à criança que é tratada como se fosse filho próprio. No Brasil, porém, onde ainda se fala português, foram mais longe e para estes casos usa-se irmão postiço (e irmã postiça). Assim, proponho ➠ postiço 6. (irmão ou irmã) que é filho ou filha do padrasto ou da madrasta, não havendo progenitor comum.

[Texto 23 424]

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Como se traduz por aí

Pormenores, mas tudo são pormenores


      «Com uma deliberação estudada, Ellen retira os brincos de diamante, primeiro rodando o travão atrás de cada orelha, depois pondo-os na caixa forrada de cetim, e por fim devolvendo a caixa à gaveta esquerda do toucador» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., pp. 45-46). 
      Há, efectivamente, brincos com travão, mas podemos ter a certeza de que os de Ellen não são desse tipo: basta atentar numa palavra do original — unscrewing. Os travões são encaixados no espigão e retirados por pressão, não enroscados. Portanto, é antes assim: «Com deliberada lentidão, Ellen tira os brincos de diamantes, desenroscando primeiro o fecho por trás de cada orelha, depois guarda-os na caixa forrada de cetim e mete a caixa na gaveta esquerda da penteadeira.» Quanto a «penteadeira», é apenas para os meus queridos (e os outros, os nada, nada queridos) leitores ficarem a conhecer a palavra.

[Texto 23 423]

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Definição: «estratovulcão»

A teoria do mil-folhas


      «L’Etna è uno stratovulcano complesso attivo. La sua altezza massima è di circa 3-357 metri (l’altezza varia costantemente in base alle eruzioni e all’accumulo o crollo dei crateri sommitali) con una superficie di 1.190 km2. È il più grande vulcano attivo d’Europa con circonferenza alla base di oltre 140 chilometri. E Patrimonio dell’Umanità dell’Unesco» («Il vulcano», Lara Sirignano, Corriere della Sera, 13.08.2026, p. 6).
      Exactamente, um estratovulcão, que a Porto Editora define assim: «GEOLOGIA tipo de vulcão de forma cónica bem pronunciada, composto por diversos estratos lávicos intercalados com níveis piroclásticos». Por coincidência, o Etna é um excelente exemplo, pois mostra-nos como esta definição é demasiado restritiva e esquemática: apresenta a forma cónica bem pronunciada como necessária e sugere uma alternância regular entre estratos lávicos e níveis piroclásticos. Além disso, não explicita o carácter poligenético do estratovulcão, formado pela acumulação sucessiva de materiais ao longo de numerosas erupções. O Etna mostra perfeitamente por que razão não devemos imaginar um estratovulcão como um cone feito de uma espécie de mil-folhas geológico, com uma camada de lava, outra de piroclastos, outra de lava, e assim sucessivamente. O seu edifício é muito mais complexo: possui vários centros eruptivos e crateras cimeiras, sofre actividade explosiva e efusiva, tem erupções fissurais nos flancos e nestes formam-se também cones adventícios. O portal dos Parques Naturais dos Açores caracteriza os estratovulcões como grandes vulcões poligenéticos constituídos por níveis piroclásticos e níveis de escoada lávica e explica que o perfil cónico pode ser modificado por movimentos de massa, erupções nos flancos ou uma caldeira cimeira. 
      Tudo visto e ponderado, proponho ➠ estratovulcão GEOLOGIA vulcão poligenético formado pela acumulação sucessiva, ao longo de numerosas erupções, de escoadas de lava e materiais piroclásticos, geralmente com vertentes íngremes e perfil cónico; vulcão compósito.

[Texto 23 422]

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Léxico: «à babuja»

Até dá nome a restaurantes


      «Colocando-nos atrás de uma moita, espreitámos. À borda de uma langua uns dez gansos enormes, de bico e pés encarnados, e penas azuloias, dormiam, com a cabeça debaixo da aza, encostados uns aos outros, em linha, à babuja da água» (Nostalgia Africana, Carlos R. M. Faria e Maia. Lisboa: Oficinas Fernandes, 1936, p. 205).

[Texto 23 421]


⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: «Se o líder do PS manter a consistência e for claro e consistente naquilo que tem dito sobre o Orçamento do Estado, não me parece que haja razões para crise», afirmou o porta-voz do PSD, Sebastião Bugalho, em entrevista à SIC Notícias. Recomenda-se é que aprenda a usar correctamente os verbos, pelo menos para os momentos em que anda por aí a porta-vozear. 

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Definição e etimologia: «estivação»

Não estão mortos


      «Mercedes Creus se ha fijado cómo los caracoles trepan a las plantas para alejarse del cálido suelo, que en verano alcanza temperaturas muy altas. Este comportamiento se conoce como estivación» («La estivación de los caracoles en Roses», La Vanguardia, 15.08.2026, p. 15). A ilustrar o texto, uma imagem de caracóis, como tantas vezes vemos, num arbusto, como mortos. 
      Mas não: é a estivação. O texto, porém, induz em erro, pois poderá pensar-se que os caracóis subirem para as plantas constitui a estivação. Mas não,  é o estado fisiológico de dormência em que se encontram. Infelizmente, nos nossos dicionários também não está totalmente correcto. Lê-se no dicionário da Porto Editora: «BIOLOGIA estado de inactividade, com metabolismo reduzido ou suspenso, em que entram diversas espécies animais de forma a conseguirem sobreviver quando as condições climáticas se tornam muito quentes e secas». Com metabolismo suspenso é manifesto exagero, não pode ser. E não é meramente pelo calor. 
      Assim, proponho ➠ estivação BIOLOGIA estado de inactividade, com acentuada redução da actividade metabólica, em que certos animais entram para sobreviver a condições ambientais adversas, sobretudo de escassez de água, frequentemente associada a temperaturas elevadas.  
      Quanto à etimologia, vem de estivar + -ção, a partir do latim aestivāre, «passar o Verão», provavelmente por influência do francês estivation, «idem».

[Texto 23 420]

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Definição: «burca»

E já que falámos dela ontem


      A publicação da chamada lei das burcas obriga-nos a olhar de novo para a definição nos dicionários. Diz a Porto Editora: «veste comprida que envolve todo o corpo, dos pés à cabeça, com uma abertura rendilhada à altura dos olhos, usada em público por algumas mulheres muçulmanas». Deduz-se, claro, mas deve dizer-se expressamente que cobre o rosto. Assim como deve explicar-se correctamente o que acontece à altura dos olhos. E, por fim, como se trata de uma peça exterior envolvente, usada sobre a roupa habitual, deve ficar claro. Assim, proponho ➠ burca veste exterior ampla, usada em público por algumas mulheres muçulmanas, que cobre o corpo da cabeça aos pés, incluindo o rosto, tendo à altura dos olhos uma pequena zona de tecido em rede ou perfurado que permite a visão.

[Texto 23 419]

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Ortografia: «menino bem»

Ora sobra, ora falta


      «Tudo ia calmo no pátio, mais calmo do que o habitual, não havia gritaria nem serenata, só se ouviam as vozes e os gatos a miarem pelos cantos, uma vez por outra um carro que passava lá fora na Avenida de Ceuta, o tio Artur puxou a conversa, temos de levar o rapaz ao Atlético, e logo o Lúcio da tasca que dizia as coisas duas vezes respondeu, quando vier o Belém, quando vier o Belém, e riu-se, riram-se todos, o Victor não percebeu do que se riam eles, que mal tinha o Belenenses?, o Belém, e o tio explicou, quando vem o Belém há sempre sarrabulho, e o Victor perguntou porquê, e o Lúcio respondeu, ora, operários contra meninos-bem já se sabe que não pode acabar aos abraços, depois verás, depois verás» (Pés de Barro, Nuno Duarte. Revisão de Madalena Escourido. Alfragide: Leya, 2025, 3.ª ed., pp. 36-37). 
      Há-de ser confusão com «menino-bonito». Nunca vi o adjectivo invariável «bem» ligado por hífen neste caso. Mais valia ter guardado o hífen para outros casos em que é necessário e não o usou, como em «um tipo mal encarado» (p. 27), «passadeiras de madeira mal amanhadas» (p. 33), «o cardeal patriarca Manuel Gonçalves Cerejeira» (p. 38), por exemplo.

[Texto 23 418]

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Como se traduz por aí

A dor é toda nossa


      «— Pode, Edward, se assim desejar — respondeu Julian com uma gargalhada perplexa e uma pontada de curiosidade que disfarçou o melhor que conseguiu» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., p. 84).
      Como se fosse uma dor. Ando agora a encontrar com frequência este erro incompreensível, este disparate. O que se lê no original? Lê-se «a surge of curiosity»; logo, vaga ou onda de curiosidade. E, contudo, na página 149 já a tradutora soube ver, vá lá, que surge of affection era «onda de afeição».

[Texto 23 417]

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Um exemplo: «burca»

Não devia ser assim


      «O Presidente da República, António José Seguro, promulgou ontem a chamada “lei das burqas”, considerando tratar-se de uma “matéria de grande sensibilidade social e cultural, em que é de extrema dificuldade definir fronteiras e valorizar de forma equilibrada direitos e deveres”» («Seguro promulga lei das burqas. Rosto destapado é ‘confiança social’», José Volta e Pinto, Público, 19.08.2026, p. 39). 
      Nisto, o Público continua a prestar-nos um péssimo serviço. Então a própria lei escreve burca, aportuguesamento já aceite e devidamente dicionarizado, e um jornal que, por outro lado, é um precioso, louvável e até abençoado bastião contra a porcaria do Acordo Ortográfico de 1990 resolve impingir-nos a abstrusa grafia burqa? Para quê este estrangeirismo perfeitamente escusado, quando temos uma palavra portuguesa estabelecida, transparente e sem nenhuma ambiguidade? 

[Texto 23 416]

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Definição: «siciliano»

Quase romance: sicilianos, peixeiros e uma louca


      As personagens, ou pelo menos uma, um peixeiro, aqui de certo romance falam siciliano. Infelizmente, para os nossos dicionários, é tão-somente o «dialecto da Sicília», nem mais uma palavra. Na realidade, podia dizer-se assim ➠ siciliano LINGUÍSTICA sistema de dialectos ítalo-românicos falados na Sicília e nas ilhas adjacentes, pertencente ao grupo dos dialectos meridionais extremos. 
      (E, com isto, lembrei-me do peixeiro da minha infância, o Lau, cuja mãe era louca e me assustava. Hoje em dia já nenhuma criança conhece peixeiros. Loucos ainda há.)

[Texto 23 415]

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Como se traduz por aí

Nada disso


      «A intimação da morte de Deborah ao próprio Julian chegou com um toque imperioso da sineta da loja às seis da manhã. Vestindo apressadamente o roupão, correu escadas abaixo e deu com Lily, de olhos vermelhos, expressão infeliz e sem palavras, à entrada» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., p. 182). Eh lá... Aqui temos pelo menos três erros, sendo que o maior, o mais crasso, é o primeiro. Intimação? E com aquela construção arrevesada, ainda para mais. 
      Mas vamos ao original: «Julian’s own intimation of Deborah’s death came with an imperious ring of the shop bell at six in the morning. Throwing on his dressing gown, he hurried downstairs to find Lily, dry-eyed, grim-jawed and speechless, standing on the doorstep.» Dry-eyed significa precisamente «de olhos secos», «sem lágrimas». Le Carré está a caracterizar a maneira como Lily contém o sofrimento: não está a chorar. «Olhos vermelhos» não só não consta do original como pode sugerir justamente que estivera a chorar. E grim-jawed vertido por «expressão infeliz» também apaga uma imagem muito concreta. Jaw está lá por alguma razão: Lily tem a mandíbula/maxilares cerrados, sinal físico de tensão, sofrimento ou determinação. «Expressão infeliz» é simultaneamente mais vago e interpretativo. Logo, seria muito mais assim: «Julian teve o primeiro indício da morte de Deborah quando, às seis da manhã, a campainha da loja tocou imperiosamente. Enfiou à pressa o roupão e correu escadas abaixo, dando com Lily à porta, de olhos secos, maxilares cerrados e sem palavras.»

[Texto 23 414]

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Léxico: «tapete»

Olhos nos olhos


      Podia ser a pedido do meu gato, mas não, a designação está documentada, inclusivamente em trabalhos portugueses de medicina veterinária da Universidade de Lisboa, pelo que temos de dicionarizar esta acepção de ➠ tapete ZOOLOGIA, ANATOMIA camada reflectora situada na retina ou por detrás desta, presente nos olhos de certos animais, nomeadamente dos gatos, que devolve a luz através da retina, aumentando a capacidade de visão em condições de fraca luminosidade; tapete lúcido; tapetum lucidum.

[Texto 23 413]

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Léxico: «longseller»

Era o termo que faltava


      «Ya sea para contrastar los hechos que se describen en la película, ya sea para ampliar conocimientos o para recrearse en una buena lectura, lo cierto es que en todo el mundo se han disparado las ventas de ejemplares del poema de Homero, así como las escuchas del audiolibro. No solo eso: según informó la propia Google, las búsquedas de “aprender griego” crecieron un 5.000 por ciento en las semanas posteriores al estreno de la película. Sergio Vila-Sanjuán, en su libro Código best seller, define La Odisea como un longseller típico de la literatura clásica favorecido por la prescripción escolar y universitaria» («El efecto Odisea», Miquel Molina, La Vanguardia, 13.08.2026, p. 2).
      O que justifica plenamente que dicionarizemos longseller nome masculino livro ou outro produto cultural que continua a vender-se durante um período prolongado, beneficiando de um sucesso comercial duradouro.

[Texto 23 412]

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Definição: «eclipse solar», mais uma vez

Não subornei ninguém, não


      «La razón está en que la órbita de la Luna está inclinada unos cinco grados respecto al plano en el que la Tierra gira alrededor del Sol. Debido a esa ligera inclinación, la mayoría de las lunas nuevas pasan por encima o por debajo del Sol desde nuestra perspectiva, de modo que la sombra lunar no llega a proyectarse sobre el planeta. Solo cuando la luna nueva coincide con uno de los puntos donde ambas órbitas se cruzan –los llamados nodos orbitales– puede producirse un eclipse» («Los tres eclipses que convertirán a España en epicentro cósmico», B. López e P. Biosca, ABC, 9.08.2026, p. 37). 
      É claro que tem de fazer parte da definição de «eclipse solar», pois se é uma das condições para a sua ocorrência.

[Texto 23 411]

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Definição e etimologia: «integrista»

Seja ela qual for


      «[Rose Kennedy] Era una mujer muy dura, tanto como para no ir al entierro de su hija Kathleen por haberse casado con un protestante. Era una mujer infeliz con una infancia terrible: la enviaron a internados integristas en Europa donde ni siquiera podía tener una amiga porque podían considerarla homosexual. Una auténtica locura. Pasó frío, hambre... Fue un martirio, pero fue el pilar de su familia y sus hijos la admiraban y la temían al mismo tiempo, sobre todo Ted”, cuenta la escritora [Valérie Paturaud]» («La cocinera francesa que lloró con los Kennedy», María D. Valderrama, El País, 27.07.2026, p. 45).
      É como se nos estivessem a pedir para definir mais amplamente ➠ integrista 1. que ou pessoa que defende de forma rígida e intransigente uma doutrina, um sistema ou um conjunto de princípios; dogmático; intransigente; 2. RELIGIÃO que ou pessoa que defende de forma rígida e intransigente a doutrina tradicional de uma religião, recusando qualquer alteração, adaptação ou compromisso; fundamentalista. 
      E como se nos chamassem a atenção para a etimologia ➠ do castelhano integrista, «idem», derivado de integrismo, a partir de íntegro, do latim intĕger, «intacto; completo; íntegro».

[Texto 23 410]

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Extras! Extras! Extras!

Hoje são vagas


      «[O ministro da Educação] Tem dito também que a lei prevê desde sempre que possam ser criadas vagas extras no concurso nacional para casos pontuais» («Advogados pedem suspensão do concurso de acesso ao superior», Andreia Sanches, Público, 31.07.2026, p. 3).

[Texto 23 409]

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Léxico: «microveículo»

Já por aí a vejo estropiada


      «Trinta microveículos 100% eléctricos da Fiat passaram a estar ao serviço do Vaticano, num acordo com o Governatorato que integra o plano ambiental Ecological Conversion 2030» («Fiat electrifica Vaticano e aposta nos microcarros urbanos», Público, 2.07.2026, p. 30).

[Texto 23 408]

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Como se traduz por aí

Cerveja, não petróleo


      «Obras numa antiga cervejaria na Bélgica revelaram um tesouro em ouro avaliado em cerca de 8,7 milhões de euros. Estudante de 18 anos encontrou primeiro moedas e, pouco depois, barras e pepitas. Polícia investiga a origem da fortuna. [...] “Tenham em conta que se trata de uma obra vedada, com vários poços perigosos. Além disso, já estivemos no local e é garantido que tudo desapareceu. Portanto, não corram riscos irresponsáveis”, alertou o chefe da polícia local, Patrick Feys» («Bélgica. Obras em antiga cervejaria revelam ouro escondido numa parede», Rádio Renascença, 14.08.2026, 21h14). 
      Poços numa cervejeira? Aliás, para uma fábrica até devíamos optar por «cervejeira». Poços... Seriam os poços de onde se extrai a cerveja. Lê-se no comunicado da polícia: «Weet dat dit een bouwwerf is, omheind en met verschillende gevaarlijke putten. Bovendien zijn wij reeds gepasseerd en is alles met zekerheid weg… neem dus zeker geen onverantwoorde risico’s!» Isto é: «Saiba que este é um estaleiro de obras, vedado e com várias valas perigosas. Além disso, nós já lá passámos e, com certeza, já não resta nada… Por isso, não corra riscos desnecessários!»

[Texto 23 407]

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Léxico: «siflante»

Devem pensar que é só francês


      «Não te vaes d’aqui, não te has-de ir d’aqui, murmurava-lhe ao ouvido. Todo o seu esforço era para apanhar-lhe a cara; tinha a respiração sifflante, e um tumulto de sangue turgecera-lhe as cordovêas do pescoço» (A Ruiva, Fialho de Almeida. Porto: Ernesto Chardron, 1881, p. 48). 
      O que é de morrer a rir é, em reedições modernas, aparecer «sifflante», com a grafia de então — e grafado em itálico. Mas também vejo aqui outros culpados, pois o termo não aparece nos nossos dicionários. Ora esta...

[Texto 23 406]

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Definição: «runa»

Vamos olhar de novo para isto


      Acho que hoje é um belo dia para definirmos melhor o termo «runa», que no dicionário da Porto Editora (e noutros) padece de várias imprecisões. A primeira acepção é historicamente imprecisa ao referir «os mais antigos alfabetos germânicos e escandinavos», quando as runas são caracteres do alfabeto rúnico, usado para escrever diversas línguas germânicas. A segunda acepção, embora aceitável, ganha em rigor se definir runa como «sistema de escrita que utiliza esses caracteres», em vez de «escrita que usa esses caracteres». Assim, proponho ➠ runa 1. cada um dos caracteres do alfabeto rúnico, usado para escrever diversas línguas germânicas, sobretudo no Norte da Europa, antes da adopção generalizada do alfabeto latino; 2. sistema de escrita que utiliza esses caracteres.

[Texto 23 405]


⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: No século XX, o regime nazi apropriou-se de algumas runas como símbolos ideológicos. O caso mais conhecido é o das SS (Schutzstaffel), cujo emblema reproduz duas runas Sig estilizadas.


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Definição e etimologia: «marisma»

Não é qualquer poça


      «Peces y bivalvos muertos, aguas estancadas, verdosas y malolientes; nutridas bandadas de mosquitos en cuanto se pone el sol y abandono de una de las zonas de baño más populares para las familias con niños pequeños. Esta es la situación actual de Baldaio, la marisma de Carballo que es un punto crítico de descanso e invernada en el noroeste ibérico para más de 200 especies de aves silvestres» («Baldaio se ahoga con su propia arena», Cristina Viu, La Voz de Galicia, 29.07.2026, p. 10). 
      Na primeira acepção de «marisma», vocábulo castelhano de que nos apropriámos, Porto Editora, dizes que é o «terreno alagadiço à beira-mar; sapal». Qualquer terreno? Conheço terrenos alagadiços à beira-mar que não são marismas. Logo, não. Eu defini-lo-ia antes assim  marisma 1. terreno costeiro baixo, lodoso e pouco drenado, periodicamente inundado pelas marés, onde se desenvolve vegetação adaptada a águas salgadas ou salobras; sapal. 
      Já quanto à segunda acepção, afirmas que é a «alga que cresce nesse terreno, utilizada na alimentação de animais». E isso o que significa, que é uma qualquer alga que cresce nesses terrenos, ou uma específica cuja identificação omites? Escavando, acha-se ➠ marisma 2. regionalismo algarvio designação de uma alga ou planta marinha que se recolhia para alimentação dos animais.
      Falar em alga ou planta marinha decorre apenas da precaução que, na falta de documentação mais rigorosa, se tem de ter. Tanto mais que as plantas dominantes das marismas são plantas vasculares halófitas, como as salicórnias e espécies de Spartina, e não algas. Mais: no castelhano das Canárias, marisma também designa uma planta chamada saladillo, identificada como Atriplex glauca, que também não é uma alga. 
      Quanto à etimologia, vem do castelhano marisma, «idem», provavelmente através do moçárabe, a partir do latim maritĭma [ora], «orla marítima».

[Texto 23 404]

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Léxico: «livrete | saros»

As prostitutas, os criados...


      «Se retrucavam, era sempre a mesma ameaça que as ia fazer calar — a policia e o livrete» (A Ruiva, Fialho de Almeida. Porto: Ernesto Chardron, 1881, p. 115). 
      Sem uma acepção específica nos dicionários, quais são os leitores que saberão que raio de livrete era este? Assim, proponho livrete HISTÓRIA documento individual que, nos séculos XIX e XX, era emitido pela polícia às prostitutas oficialmente registadas e continha os seus dados pessoais e características físicas, bem como os resultados das inspecções sanitárias periódicas obrigatórias.

[Texto 23 403]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Também houve, e alguns dicionários dão conta disso, um documento individual semelhante para os criados; era igualmente o ➠ livrete HISTÓRIA documento individual de identificação e controlo policial, obrigatório para os criados de servir em algumas cidades portuguesas nos finais do século XIX e princípios do século XX, no qual se registavam os sucessivos empregos e as informações prestadas pelos patrões sobre o seu comportamento.

P. P. S.: No quiz do dia do Libération de hoje, em plena eclipsemania, eis uma das perguntas: «Comment s’appelle l’intervalle de 18 ans entre des configurations Terre-Lune-Soleil similaires, permettant de prédire les éclipses?» Pois, é ➠ saros ASTRONOMIA período de cerca de 18 anos, 11 dias e 8 horas (223 meses sinódicos), ao fim do qual se reproduzem aproximadamente as posições relativas do Sol, da Terra e da Lua, determinando a recorrência de eclipses solares e lunares de características semelhantes.
      Quanto à etimologia, vem do grego sáros, e este do acádio šāru, «3600»; designação aplicada ao ciclo de eclipses pelo astrónomo inglês Edmond Halley (1656-1742), que interpretou erradamente uma referência ao saros numa fonte bizantina.


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Léxico: «lança-pontes»

Também os temos, pois claro


      «Por su parte, el lanzapuentes (plataforma táctica dual para logística militar y de emergencias) es un vehículo pesado provisto de una estructura desplegable capaz de tender pasarelas provisionales sobre ríos, grietas o infraestructuras colapsadas en cuestión de minutos. Aunque su concepción es estrictamente táctica, para permitir el avance de convoyes y tropas, su diseño es de uso dual» («Los vehículos que Indra hará en As Pontes», Carla Elías, La Voz de Galicia, 1.08.2026, p. 20). 
      Também os temos. Assim, proponho lança-pontes adjectivo de dois géneros e nome masculino MILITAR que ou veículo de engenharia que está equipado para transportar, colocar e, geralmente, recolher uma ponte móvel, permitindo a transposição rápida de cursos de água, fossos ou outros obstáculos por pessoas e veículos.

[Texto 23 402]

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Léxico: «linha de Kármán»

Eu quero saber


      «As mais famosas foram o Fi103, “bomba voadora”, o primeiro míssil de cruzeiro da história, e o temível A4, mais conhecido por “V2”, que foi o primeiro foguetão a ultrapassar a Linha de Karman e a fotografar a Terra do espaço, em 1942» («A “banheira de Berlim” e as armas V, de Vingança», Álvaro Vieira, Público, 31.07.2026, p. 33). 
      É mais assim ➠ linha de Kármán AERONÁUTICA limite convencional entre a atmosfera terrestre e o espaço exterior, estabelecido a 100 quilómetros de altitude acima do nível médio do mar.

[Texto 23 401]

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Léxico: «impulsionamento»

Só não pode ser para hoje


      «Não é preciso mais do que uma passada de olhos sobre a Lei Eleitoral, a 9.504/97, para perceber que ela foi concebida para um tempo que já não existe. Está preocupada em regular o layout dos santinhos e o tamanho máximo de cartazes, quando a realidade das campanhas é marcada por IA, deepfakes e impulsionamentos» («Controle máximo», Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo, 31.07.2026, p. A3).

[Texto 23 400]

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Léxico: «infovia»

Estávamos em 1994 e


      «Quem observa o rio Branco no município de Caracaraí, em Roraima (a 140 km de Boa Vista), talvez não imagine, mas o curso d’água virou uma rota de internet. [...] O programa é composto por nove infovias, como são chamadas as redes de cabos lançados nos rios. Ao todo, o Norte Conectado prevê cerca de 13 mil km de cabos, alcançando 70 localidades» («Internet via rios da Amazônia é aposta contra apagões de rede no Norte», Leonardo Vieceli e Bruno Santos, Folha de S. Paulo, 30.07.2026, p. A20). 
      Não é como os jornalistas afirmam (aos pares, já sabemos, é sempre pior), pois uma infovia pode ser constituída por cabos terrestres, subfluviais ou submarinos e por ligações sem fios. Assim, proponho ➠ infovia Brasil TELECOMUNICAÇÕES rede de telecomunicações de alta capacidade que interliga diferentes locais e permite a transmissão de voz, dados e imagens.

[Texto 23 399]

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Léxico: «bobage»

Nem com tira-nódoas


      «E todo o mundo ria a sua pândega, a fazer arraial com grossas bobages cruas de taberna e de oficina» (A Ruiva, Fialho de Almeida. Porto: Ernesto Chardron, 1881, pp. 27-28). 
      Entretanto, a forma histórica do vocábulo, esta mesma, bobage, que subsistiu até ao fim do século XIX, desapareceu dos dicionários — mas não a conseguem limpar das obras literárias nem da língua informal, no Brasil.

[Texto 23 398]

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Léxico: «régua de degustação»

Entretanto, no Brasil


      «Serão dez taps dedicadas às sidras, mais umas 20 opções engarrafadas. O bar [Empório Alto dos Pinheiros] também vai oferecer réguas de degustação, com pequenas doses de diferentes versões —o que ajuda aos que querem aproveitar a diversidade» («Precisamos falar sobre sidras brasileiras», Sandro Macedo, Folha de S. Paulo, 31.07.2026, p. C15).
      Não temos a designação régua de degustação Brasil conjunto de pequenas doses de diferentes bebidas, especialmente cervejas, sidras ou destilados, servido para que sejam provadas e comparadas; por vezes, o suporte comprido em que os respectivos copos são dispostos.

[Texto 23 397]

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Definição: «eclipse solar», de novo

Não subornei ninguém


      «O astrónomo e divulgador de ciência Máximo Ferreira destaca ao PÚBLICO que “o eclipse do Sol é um fenómeno que só pode acontecer em ocasião de lua nova, quando a Lua se coloca entre a Terra e o Sol”. Mas se há lua nova todos os meses, porque é que só há eclipses aproximadamente de seis em seis meses? “Isso acontece porque a Lua anda à volta da Terra, mas não anda no mesmo plano”» («O Sol vai esconder-se por trás da Lua, transformando o dia em noite», Filipa Almeida Mendes, Público, 1.08.2026, p. 40). 
      Compreendo que macule a estética da entrada, o paralelismo com «eclipse da Lua», Porto Editora, mas paciência. (Também em certo condomínio a desmiolada da administradora exaltava a «estética das contas», dos quadros apresentados, mas infelizmente as contas estavam todas erradas.)

[Texto 23 396]

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Definição: «enclave» Léxico: «semienclave»

Mais rigorosamente


      «Cerca de 73.500 migrantes já saíram de Ceuta para Marrocos. Fontes policiais disseram que este número de saídas poderá incluir pessoas que entraram na avalanche que se precipitou sobre a fronteira com Marrocos do enclave espanhol no norte de África, entre quinta e sexta-feira, e outras que já estavam desde dias anteriores em Ceuta, uma cidade onde vivem pouco mais de 83 mil pessoas» («Número de vítimas mortais em Ceuta sobe para 72», Rádio Renascença, 2.08.2026, 10h10). 
      A ser alguma coisa, seria «exclave espanhol no Norte de África». Mas não: se tem uma frente aberta para o mar, será (adoptando aqui o ponto de vista do Estado em que se situa) um ➠ semienclave GEOGRAFIA POLÍTICA território que, embora quase inteiramente rodeado por território alheio, possui uma frente marítima, não constituindo, por isso, um enclave propriamente dito. 
      Donde decorre, pois bem, que a definição de «enclave» nos nossos dicionários também não está correcta. Optando (como faz a Porto Editora) por duas acepções, será mais assim ➠ enclave 1. GEOGRAFIA POLÍTICA território pertencente a um Estado ou a uma divisão político-administrativa que se encontra inteiramente rodeado por território alheio; 2. Estado soberano cujo território se encontra inteiramente rodeado pelo território de outro Estado. 
      Mas não tem necessariamente de se dividir por duas acepções, porque isto é rigorosamente equivalente  enclave GEOGRAFIA POLÍTICA território que, constituindo a totalidade de um Estado soberano ou pertencendo a outro Estado ou divisão político-administrativa, se encontra inteiramente rodeado por território alheio, sem abertura para o mar.

[Texto 23 395]

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Léxico: «superdotação»

Primeira regra: indagar da família


      «Pais e especialistas consideram um avanço a aprovação da lei que criou uma política nacional para alunos com superdotação ou altas habilidades, mas apontam para uma série de lacunas no texto e temem que as novas regras não saiam do papel» («Pais veem avanço, mas temem que lei para superdotados fique só no papel», Laura Mattos, Folha de S. Paulo, 1.08.2026, p. A35). 
      Quem é que dicionariza «superdotado», o identifica como termo corrente no Brasil, mas se esquece de acolher «superdotação»? 

[Texto 23 394]

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Léxico: «acontecedeiro»

Ainda teremos de emigrar


      «Isto é cousa natural/ e muito acontecedeira;/ se nunca fora outra tal,/ disséramos que era mal/ por serdes vós a primeira.» Rubena, filha de um clérigo, engravidara de um cónego e procurava esconder a gravidez. A fala ocorre quando já está com as dores do parto. Aparece na Comédia de Rubena, de Gil Vicente, representada provavelmente em 1521, perante o futuro D. João III e é citada, por exemplo, por Camilo na Maria Moisés. Encontrá-la apenas em dicionários brasileiros é que me deixa apopléctico. Assim, proponho ➠ acontecedeiro adjectivo arcaico que acontece facilmente ou com frequência; comum, frequente.

[Texto 23 393]

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Definição: «condomínio»

Nunca pessoal


      «L’Antarctique étant un condominium, c’est-à-dire un territoire sur lequel plusieurs puissances conviennent de partager une souveraineté, aucune institution n’est habilitée à adopter un drapeau officiel. On utilisa parfois pour le représenter un drapeau blanc et d’autres propositions émergèrent mais le plus souvent, c’est l’emblème du Traité sur l’Antarctique de 1959, un drapeau bien officiel adopté depuis septembre 2002, qui est utilisé, figurant une carte du continent en blanc sur fond bleu marine ainsi que les méridiens convergeant au pôle Sud» («Antarctique», Libération, 30.07.2026, p. VIII).
      Não escolheram muito bem o exemplo, já que a Antárctida é descrita por alguns autores como um condomínio de facto, por causa da administração internacional concertada, mas não constitui propriamente um condomínio em que diversos Estados partilhem a soberania. Serve, porém, como mero pretexto para dizer que a definição de «condomínio», nesta acepção, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora padece de vários males, e o primeiro é afirmar que pode ser exercido por uma pessoa ou nação. Não pode. Por uma pessoa não pode ser, e só pode sê-lo por um Estado, não uma nação. 
      Assim, proponho ➠ condomínio DIREITO INTERNACIONAL exercício conjunto da soberania por dois ou mais Estados sobre o mesmo território; território submetido a esse regime.

[Texto 23 392]

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Léxico: «porreirismo»

Marca nacional


      «De acordo com a narrativa apresentada por Luís Neves, o então director financeiro da PJ estava a fiscalizar uma obra executada pelo empreiteiro de Barcelos que depois fez as obras na casa de Luís Neves, e recebeu um telefonema da Armada a dizer que o atrelado tinha de sair das instalações militares onde estava. Então, surgiu um milagre, que só pode ser explicado pelo porreirismo, pelo desenrascanço e pelo chico-espertismo portugueses: o empresário ofereceu-se para guardar o atrelado e os bidões na sua empresa pro bono, sem custos para o Estado» («A insensibilidade e a ingenuidade políticas de Luís Neves», São José Almeida, Público, 1.08.2026, p. 15).

[Texto 23 391]

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Definição: «romanesco»

Variedade diatópica


      «Direte: ma se Benito Mussolini odiava il romanesco! Vero. Non solo il romanesco: tutti i dialetti» («La resistenza dei dialetti. A scuola», Gian Antonio Stella, Corriere della Sera, 1.08.2026, p. 40). 
      A Porto Editora define-o como «dialecto social do povo de Roma», ou seja, o social dialect de alguma linguística de tradição anglo-saxónica, mas nós sempre dissemos sociolecto. Não é um sociolecto: o seu critério identificador é territorial, Roma, portanto é uma variedade diatópica, não diastrática. Tanto assim é que o Houaiss até o identifica, talvez também com exagero, com o Trastevere. Hoje em dia, o romanesco e os seus traços atravessam diferentes grupos sociais, formando um contínuo com o italiano regional de Roma. 
      Tudo visto, proponho ➠ romanesco LINGUÍSTICA dialecto de Roma que, por influência do toscano, se tornou muito próximo do italiano comum. 
      A etimologia que vemos no dicionário da Porto Editora também é enganadora, porque dá a entender que o termo se formou na nossa língua. É antes do italiano romanesco, «idem», derivado de romano, «romano», + -esco.

[Texto 23 390]

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Definição e etimologia: «oratória | oratório»

Convém é não misturar as duas


      «O meu principal tema de estudo é a história da música na corte portuguesa do século XVIII, com um enfoque específico nos géneros musicais sacros e dramáticos, como as oratórias. Estas obras eram apresentadas na corte, compostas por compositores da corte portuguesa e de outras partes da Europa, e tinham como objetivo entreter, mas também, de certa forma, edificar, contando histórias religiosas e refletindo a atmosfera religiosa da corte [afirma, em entrevista, Danielle M. Kuntz]» («“D. Maria l promoveu música onde se destacavam governantes femininas como Ester ou outras mulheres da Bíblia”», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 3.08.2026, p. 24). 
      Que a Porto Editora define assim: «LITERATURA, MÚSICA peça dramática, poema ou larga composição vocal e instrumental com coros e solistas, de assunto religioso, bíblico ou hagiográfico». Muito melhor está no Houaiss, mas que também não é exemplar. Uma solução deste, porém, devia logo à partida ser seguida pela Porto Editora: em «oratória» remeter simplesmente para «oratório». Neste verbete, uma das acepções diria mais ou menos isto ➠ oratório MÚSICA composição vocal e instrumental extensa, geralmente para solistas, coro e orquestra, que combina elementos dramáticos, narrativos e contemplativos, se baseia tradicionalmente num texto de assunto religioso e é, em regra, executada sem representação cénica; oratória. 
      Quanto à etimologia, deve ter-se em conta que «oratória» e «oratório» têm origens imediatas distintas nas acepções fundamentais. A primeira alteração é eliminar definitivamente o falso «idem» da Porto Editora e explicar a evolução sem atribuir ao latim um género musical que só surgiu muitos séculos depois. Ficaria assim ➠ do latim oratorĭa- [ars], «arte oratória»; na acepção musical, ver oratório
      Em «oratório», a etimologia é ➠ do latim oratorĭu-, «lugar destinado à oração»; na acepção musical, do italiano oratorio, designação proveniente dos exercícios musicais e devocionais realizados nos oratórios romanos a partir do século XVI.

[Texto 23 389]

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Léxico: «cinta-liga»

Em que se fala de Betty Boop


      «Em dois anos, a jovem branca de olhos grandes ficou completamente humana. Enfiada num vestido preto, com cinta-liga e cabelo curto, era uma flapper, como chamavam a mulher sexualmente livre, que sabia se divertir: beber, fumar, dirigir carros, o que fosse. Com o furacão [do Código] Hays, Boop foi ficando mais recatada, perdendo o emprego de pin-up —e a graça» («Betty Boop e Cab Calloway inspiraram coquetel», Daniel de Mesquita Benevides, Folha de S. Paulo, 31.07.2026, p. C13). 
      Tem razão o jornalista: flapper era então o nome dado à jovem mulher que, pela indumentária e pelo comportamento ousado e independente, desafiava as convenções sociais da época. O Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, contudo, apresenta esta 7.ª acepção de flapper: «coloquial (anos 20) rapariga nova, rapariga adolescente, garota». A definição mistura dois sentidos historicamente distintos: o mais antigo e geral, de «rapariga adolescente», e o que a palavra adquiriu nos anos 20, como designação de um tipo social feminino caracterizado pela ruptura com as convenções. A Porto Editora pode acolher ambos — ou apenas o segundo, de longe o mais conhecido —, mas deve distingui-los e defini-los correctamente. O do artigo é este flapper HISTÓRIA jovem mulher da década de 1920 que, pela indumentária e pelo comportamento independente e ousado, desafiava as convenções sociais da época. 
      Mas voltemos, antes que se nos varra da memória, a ➠ cinta-liga Brasil VESTUÁRIO peça de roupa interior, constituída por uma faixa que se ajusta à cintura ou às ancas e da qual pendem tiras elásticas, geralmente reguláveis e terminadas em presilhas, destinadas a sustentar meias até à coxa; cinto de ligas.

[Texto 23 388]

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Definição: «pasteurização»

Não tão simples


      «Secondo la normativa vigente (Reg. CE 853/2004), per “latte crudo” si intende un latte che non è stato riscaldato a più di 40 °C. E noto, tuttavia, che per inattivare i microrganismi patogeni vegetativi devono essere raggiunte temperature ben superiori, come quelle di pastorizzazione: 72 °C per 15 secondi oppure 63 °C per 30 minuti oppure una combinazione con effetto equivalente» («Che cos’è il latte crudo?», Valentina Santarpi, Corriere della Sera, 3.08.2026, p. 22). 
      Ora aí está: ou uma combinação de efeito equivalente. É o que falta na definição de «pasteurização» do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «processo de conservação dos alimentos em que estes são aquecidos a uma temperatura não superior a 100 °C e arrefecidos depois rapidamente, de forma a eliminar os germes patogénicos». Se alguém aquecesse um alimento a 99 °C durante um segundo, pela definição da Porto Editora isso continuaria, absurdamente, a caber no conceito de pasteurização. Na realidade, o critério dos 100 °C é inadequado como elemento definidor; «eliminar os germes patogénicos» é excessivamente absoluto; e falta o carácter tecnológico do processo. 
      Assim, proponho ➠ pasteurização processo de conservação de alimentos que consiste em submetê-los a um tratamento térmico controlado, normalmente inferior a 100 °C e definido por uma combinação específica de temperatura e tempo, seguido de arrefecimento rápido, a fim de destruir ou reduzir a níveis seguros os microrganismos patogénicos e retardar a deterioração do produto.

[Texto 23 387]

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Léxico: «cacifro»

Mais uma resgatada do olvido


      «— Não vamos tão longe, sr. Maurício — emendou o minorista — O que se diz é que ele passava o Tâmega nas poldras, com a cana de pesca e o cacifro; depois, metia­-se na Ínsua, e a Josefa ia lá ter» (Maria Moisés, Camilo Castelo Branco. Lisboa: INCM, 2020, p. 21). 
      De «cacifro», a Porto Editora remete para «cacifo», e aqui só uma acepção atinente, não à pesca, mas à caça: «cesto de vime onde os caçadores levam o furão». Na obra de Camilo, contudo, é um aparelho de pesca, que encontramos também noutros autores do século XX. Vai sendo trabalho de pura arqueologia. Assim, proponho ➠ cacifro PESCA cesto de verga, geralmente de forma circular e levado a tiracolo, em que o pescador guarda o peixe capturado, podendo mantê-lo dentro de água para conservar as capturas vivas ou frescas.

[Texto 23 386]

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Definição: «orgasmo»

Resposta neurofisiológica


      Na passada sexta-feira, foi Dia Mundial do Orgasmo. Podia ter sido também dia para melhorar a definição de «orgasmo», mas estamos sempre a tempo, até porque as definições que por aí vejo me deixam, não sei, desentusiasmado, desentesado, desiludido... Assim, consultados Masters e Johnson e o que a literatura médica actual diz, proponho ➠ orgasmo FISIOLOGIA resposta neurofisiológica correspondente à fase culminante da excitação sexual, caracterizada por intensa sensação de prazer e, geralmente, por contracções musculares involuntárias dos órgãos genitais e da região pélvica. 
     Quanto à etimologia, pode dizer-se muito mais, assim ➠ do grego orgasmós, «excitação; impulso; efervescência», derivado de orgáō, «inchar; estar excitado; arder de desejo», pelo francês orgasme, «orgasmo».

[Texto 23 385]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Não deixaria de dicionarizar este, tão encontradiço, orgasmo intelectual figurado sensação intensa de prazer, deleite ou êxtase, especialmente provocada por uma experiência estética ou intelectual.


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Etimologia: «convescote»

Não caiu do céu


      «Bem me lembro, estão aqui anotadas no caderno vermelho: as palavras “alpendre” e “vitrola”, citadas entre as cinquenta de que nos fomos perdendo, reunidas num estudo do Observatório da Língua Portuguesa. Eu tinha ficado preso a uma outra, a palavra “convescote”, criada pelo latinista carioca António de Castro Lopes de quem acabo de encontrar, em Braga, um admirador e estudioso entusiasta, o actor e dramaturgo Manoel Candeias, doutorado em artes de cena pela universidade de Campinas» («A vitrola no alpendre», Fernando Alves, TSF,  24.06.2026, 8h53). 
      Não se dizer isto, que é absolutamente certo, está documentado, nos dicionários é que me deixa perplexo.

[Texto 23 384]

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Léxico: «engasgalhado»

Outra desaparecida dos dicionários


      «— Aqui o tens tal qual o topei engasgalhado num amieiro, berço e tudo. Olha que desgraça, ó Isabel!» (Maria Moisés, Camilo Castelo Branco. Lisboa: INCM, 2020, p. 44).

[Texto 23 383]

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Léxico: «não pôr mais na carta»

Até na Alemanha sabem


      «— Não ponhas mais na carta. Tosquei tudo! Que bailões! E a Ruiva também era...» (A Ruiva, Fialho de Almeida. Porto: Ernesto Chardron, 1881, p. 14). 
      Já aparece em muito poucos dicionários, isto quando se trata de uma expressão frequente na literatura do século XIX e até do século XX. Encontro-a, por exemplo, no Die falschen Freunde: Portugiesisch-Deutsch, Deutsch-Portugiesisch, em que é traduzida por «du brauchst nicht deutlicher zu werden», isto é, «não precisas de ser mais explícito». 

[Texto 23 382]

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A propósito de «Celtic»

Sabido, mas esquecido


      No sentido de «celta» ou «céltico», a pronúncia actualmente corrente é /ˈkeltɪk/. A pronúncia /ˈseltɪk/, historicamente anterior em inglês e hoje pouco usada nestas acepções, conserva-se sobretudo em nomes próprios, como Celtic Football Club. A pronúncia com /k/, difundida a partir do século XVIII e consolidada no século XIX por historiadores e linguistas, foi resultado da aproximação às formas antigas (grego Keltoí e latim Celtae), em que a consoante inicial se pronunciava /k/. isto mesmo, ou abreviado, se devia dizer no verbete Celtic do Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora. A apresentação actual, ao enumerar /ˈkeltɪk/ e /ˈseltɪk/ sem nenhuma indicação de uso, leva a supor que ambas são hoje igualmente correntes nas acepções «celta, céltico» e «ramo de línguas celta», o que não corresponde ao uso predominante. Seria conveniente manter ambas, mas distinguir a pronúncia moderna geral da variante histórica, actualmente conservada sobretudo em nomes próprios.

[Texto 23 381]

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