Etimologia: «filatelia»

Já fui coleccionador


      «Filatelia» vem do francês, Porto Editora? Está certo! Mas incompleto. Essa pecha de não reconhecer autorias é muito portuguesa. Então a ideia não foi, aí por 1864, do francês Georges Herpin, que pretendia substituir o menos feliz «timbre-mania»? Monsieur Herpin, je peux vous recommander un excellent cabinet d’avocats pour engager votre action en indemnisation.  Assim, proponho ➜ do francês philatélie, termo criado em 1864 por Georges Herpin (1842-1895), a partir do grego phílos, «amigo, amante», e atéleia, «isenção de taxa, franquia postal paga», significando literalmente «amor pela isenção (de porte)», isto é, pelo porte previamente pago nos selos. 

      (O grego atéleia significa propriamente «isenção de taxa ou imposto»; no contexto postal, remete para a dispensa de pagamento de porte no destino, uma vez que este já foi pago antecipadamente pelo remetente e assinalado pelo selo. E só passou a ser assim desde a reforma postal britânica de Penny Post, em 1840.)

[Texto 22 653]

Etimologia: «evoé»

Vamos dizer mais


      «Finda todavia o ano de 57 soltando um evoé quase dionisíaco à vida, parêntesis optimista raro quando se refere à sua pessoa: Que lindos dias! Como é donoso o sol, meu Barbosa! O sol e as mulheres não é o mais lindo que o mundo tem?» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 252). 

      Está nos dicionários, mas a etimologia deixa muito a desejar. Do lat. evŏe, interjeição usada nas festas em honra de Baco, do gr. εὐοῖ (euôi), variante εὐοῖε (euôie), grito ritual pronunciado nas bacanais e outros cultos dionisíacos; composto de εὖ (eu, «bem, de modo favorável») e elemento exclamativo -οἶ/-οἶε, típico de invocações religiosas. Entrou no português por via erudita, conservando o valor de aclamação jubilosa, sobretudo em contextos festivos ou artísticos.

[Texto 22 641]

Etimologia: «evasão»

Avancemos


      «Un détenu s’est évadé grâce à des complices ayant présenté de faux documents aux autorités pénitentiaires. Le mot vient du verbe latin vadere, qui signifie “aller, s’avancer”. Le détenu s’en est allé. On aimerait qu'il revienne et qu’on n’en entende plus parler : vade retro, pour ainsi dire» («Évasion», Étienne de Montety, Le Figaro, 12.03.2026, p. 34).

      É o sinal para passarmos a dizer alguma coisa de útil na etimologia de «evasão», e não meramente que vem do latim evasiōne. Assim, proponho: do latim evasio, -onis, «fuga, saída», derivado de evadere, «sair, escapar», formado por e- (de ex-, «para fora») + vadere, «ir, avançar».

[Texto 22 615]

O nome dos principais mares

Estava aqui a pensar


      Já pensaram porque temos o mar Vermelho, o mar Amarelo, o mar Negro e o mar Branco? E é assim há muitos séculos e em várias línguas: Red Sea, mer Rouge, Mar Rosso, Schwarzes Meer, White Sea. A ideia de identificar certos mares por cores está dispersa por grande parte da tradição geográfica do mundo. Só há explicação segura, unívoca, para dois deles: o mar Amarelo e o mar Branco. O primeiro deve a cor aos enormes sedimentos, vemo-lo em reportagens na televisão, que o rio Huang He (o rio Amarelo) arrasta das planícies da China e que ficam em suspensão na água, dando-lhe um tom amarelo-acastanhado. O segundo fica no Noroeste da Rússia, ligado ao oceano Árctico, e passa longos meses do ano rodeado ou coberto de gelo e neve. Já os outros dois entram no território das hipóteses. O nome mar Vermelho tem sido explicado de várias maneiras. Uma delas aponta para florações de uma cianobactéria (Trichodesmium erythraeum) que por vezes tingem a água de tons avermelhados. Outra hipótese é simbólica: em certas tradições asiáticas antigas, as cores estavam associadas aos pontos cardeais, e o vermelho correspondia ao sul, direcção onde esse mar se encontra relativamente ao mundo mediterrânico. O mar Negro também tem explicações concorrentes. Pode dever o nome ao aspecto muito escuro das águas durante tempestades frequentes e violentas. Mas há quem pense que o nome segue o mesmo sistema simbólico: em várias culturas da Ásia Central e turcas antigas, o preto correspondia ao norte. No fim de contas, aquilo que parece uma explicação evidente, mares com nomes de cores, revela-se bastante menos claro quando se procura a origem dos nomes. Em dois casos a explicação é simples; nos outros, ficamos apenas com conjecturas. O que nos conduz a uma conclusão: muitos dos nomes mais familiares da geografia mundial são muito mais antigos do que as explicações que hoje tentamos dar-lhes. Os nomes ficaram, as razões perderam-se quase por completo.

[Texto 22 600]

Definição e etimologia: «feminicídio»

Muito incompleto


      «No caso das vítimas mulheres, em muitos países do mundo este crime tem um nome específico e está tipificado na lei: feminicídio ou femicídio. Em Portugal, os homens (que são a esmagadora maioria dos autores destes crimes) são julgados por homicídio com agravantes, mas não existe o crime de feminicídio» («Portugal não segue tendência da Europa e recusa crime de femicídio», Amanda Lima, Diário de Notícias, 6.03.2026, p. 16). 

      Fazer-se equivaler «femicídio» a «feminicídio» é um grande disparate linguístico, originalmente dos dicionários, não da jornalista. Sim, o mal está feito, mas pode voltar-se atrás. A definição da Porto Editora («assassínio de mulher ou rapariga, em razão do seu sexo») apresenta um grande senão: não será compreendida por qualquer Zé taxista. Tem de ser uma formulação mais elaborada, e ao mesmo tempo mais explicativa. Assim, proponho ➔ feminicídio assassínio de mulher ou rapariga motivado por razões de género, isto é, por discriminação, ódio, estereótipos ou relações de poder desiguais associadas ao facto de a vítima ser mulher. 

      Quanto à etimologia, vem do castelhano feminicidio, difundido na literatura jurídica e sociológica latino-americana, formado de femin- (do latim femina, «mulher») + -cídio (do latim -cidium, «acto de matar»), sob influência do inglês femicide, termo popularizado na década de 1970 pela criminóloga Diana Russell para designar o homicídio de mulheres motivado pelo facto de serem mulheres.

[Texto 22 573]

Definição e etimologia: «jâmbico/iâmbico»

Eis a questão


      Não é totalmente descabida a crença de que os contemporâneos de Shakespeare falavam como as suas personagens. Afinal, ele escrevia para um público vivo, presente, e os seus diálogos tinham de parecer verosímeis aos ouvidos elisabetanos. Mas também é verdade que, só por si, Shakespeare terá introduzido mais de 1700 palavras novas na língua inglesa, entre elas assassination, eyeball, lonely ou swagger. Fê-lo não por capricho, mas por necessidade expressiva: os seus versos exigiam precisão, ritmo e impacto. E sim, disse «versos». Grande parte do que hoje associamos ao estilo de Shakespeare decorre de ele escrever, não em prosa, mas em verso branco, mais precisamente, em pentâmetro iâmbico. Esta forma métrica organiza cada verso em cinco pares de sílabas, com o acento rítmico a cair na segunda de cada par. O exemplo mais célebre é: to BE | or NOT | to BE | that IS | the QUEST | ion. A alternância fraca/forte, repetida cinco vezes (de algum lado havia de vir o penta), dá ao texto uma musicalidade discreta mas marcante, que ajuda tanto à memorização como à elevação do tom. Não é por acaso que as personagens mais nobres e importantes falam em verso, enquanto os criados, os rústicos ou os patifes falam em prosa. E, mesmo dentro da métrica, Shakespeare não hesita em dobrar as regras: se for preciso, transforma flower em monossílabo só para não quebrar o ritmo. O resultado é uma linguagem que soa simultaneamente natural e lapidar, nunca exactamente como as pessoas falavam, mas talvez como gostariam de falar. Se hoje Shakespeare nos parece difícil, não é por ter inventado um idioma novo. É porque o seu inglês é, por assim dizer, música. Para reconduzir isto, ou uma pequena fracção, cá ao nosso modesto cantinho, proponho uma clarificação de «jâmbico» e, muito mais urgente, emergente, o melhoramento da etimologia. Assim, proponho ➔ jâmbico 1. (métrica) relativo a iambo, pé métrico constituído por uma sílaba breve seguida de uma longa (na métrica quantitativa) ou por uma sílaba átona seguida de uma tónica (na métrica acentual); 2. (métrica) composto de iambos.

      Quanto à etimologia, vem do latim iambĭcus, por sua vez do grego ἰαμβικός (iambikós), derivado de ἴαμβος (íambos, «iambo», pé de verso usado sobretudo em poesia satírica e invectiva); de origem possivelmente pré-grega, ligada a formas rítmicas populares e jocosas.

[Texto 22 567]

Etimologia: «bisonte»

Não começou com o latim


      «Avec les départs vers les stations de ski, Bison futé reprend du service. Le mot vient du germanique wisund et désigne un bœuf sauvage» («Bison», Étienne de Montety, Le Figaro, 16.02.2026, p. 35). 

      A Porto Editora, contudo, afirma que vem do latim. Tem razão Étienne de Montety, que se refere à origem remota da palavra. Um dicionário tem a obrigação de não cortar a cadeia etimológica demasiado cedo e omitir a origem germânica do vocábulo, que, de facto, se pode reconstruir como wisund ou *wisundaz, que designava precisamente o auroque ou um grande bovino selvagem. Foi este étimo germânico que passou ao latim tardio sob a forma bison, bisontis, e daí às línguas românicas.

[Texto 22 473]

Etimologia: «pódio»

Que diga alguma coisa


      «Podium vient de pes, qui désigne “le pied”. [...] Dans l’Antiquité, le podium désignait un socle, construit dans une arène, où siégeaient les personnalités» («Podium», Étienne de Montety, Le Figaro, p. 34).

      Exactamente, e por isso devemos tornar a nota etimológica útil, não mera excrescência que nada acrescenta. Assim, proponho pódio ➔ do latim podium, ii, «muro baixo que circundava a arena dos anfiteatros, estrado, base elevada», do grego pódion, diminutivo de poús, podós, «pé»; originalmente «pequeno pé», depois «base, apoio, plataforma elevada».

[Texto 22 466]

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