Etimologia: «dodô»

Me ligue quando descobrir esse elo, valeu?


      Caetano W. Galindo, na edição de 3 do corrente da Folha de S. Paulo, parte da conhecida variação histórica entre ou e oi em português e recorda que, no século XVI, os navegadores portugueses chegaram às ilhas Maurícias, onde encontraram a grande ave incapaz de voar que viria a extinguir-se no século XVII. Segundo a explicação tradicional, os portugueses, impressionados com a mansidão e aparente falta de esperteza da ave, ter-lhe-iam chamado doudo, forma antiga ou variante de doido. O nome teria sido depois adoptado pelos Holandeses e, sobretudo, pelos Ingleses, em cuja língua se fixou como dodo. Mais tarde, o português teria recebido de volta a palavra, já sob a forma dodó ou dodô. Teríamos, assim, um curioso caso de uma palavra portuguesa que viajou por outras línguas e regressou modificada. Há, porém, um elo importante — na verdade, o mais importante — que falta neste raciocínio: não se conhece fonte portuguesa contemporânea dos primeiros contactos com as Maurícias em que doudo (ou forma semelhante) seja usado para designar a ave. Os primeiros testemunhos que atribuem o nome aos Portugueses são de autores ingleses: Emmanuel Altham, em 1628, afirma numa carta que a ave era chamada pelos Portugueses Do Do; e Thomas Herbert volta a apresentar Dodo como nome português, relacionando-o expressamente com a suposta «simplicidade» da ave. E isto faz bastante diferença. Temos testemunhos seiscentistas de que os Ingleses julgavam que o nome era português; não temos, até onde se sabe, o testemunho português que demonstraria que efectivamente o era. Uma fonte antiga chega mesmo a observar que a experiência portuguesa da ilha se perdeu documentalmente e que, antes da chegada dos Holandeses, em 1598, pouco se pode afirmar com segurança. Temos, portanto, testemunhos seiscentistas de que autores ingleses consideravam dodo uma designação portuguesa; falta-nos, porém, o testemunho português contemporâneo que permita demonstrar que a ave foi efectivamente chamada doudo pelos Portugueses. A etimologia tradicional é plausível, mas não suficientemente segura para ser apresentada, como faz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, sem qualquer reserva. 
      Uma nota etimológica mais prudente poderia ser ➠ do inglês dodo, «idem», de origem incerta, talvez do português doudo, «doido, tolo»; segundo outra hipótese, relacionado com o neerlandês dodaars, antiga designação da ave, de dod, «tufo (de penas)», + aars, «traseiro», em alusão ao característico tufo de penas da sua parte posterior. 

[Texto 23 484]

Etimologia: «caleidoscópio»

A história é bem mais interessante


      «A palavra caleidoscópio — e o respectivo brinquedo óptico — foram patenteados em Edimburgo no início do século XIX. Este ano, nem de propósito, o Festival Fringe escolheu como símbolo o aparelhinho de infinitos padrões coloridos feitos de reflexos e luz» («Todos os castelos de Edimburgo são teatros», Jorge Louraço Figueira, Público, 25.08.2026, p. 22). 
      Mas os nossos dicionários apresentam-no-la como saída de um congresso de lexicografia: do grego kallós, «belo» +eĩdos, «forma» +skopeĩn, «ver». Na realidade, é assim: do inglês kaleidoscope, «caleidoscópio», termo criado em 1817 pelo físico escocês David Brewster (1781-1868), do grego kalós, «belo» + eîdos, «forma; aspecto», + skopeîn, «ver; observar».

[Texto 23 467]

Etimologia: «trailer»

É pena é misturarem tudo


      «Gracias al eco de los medios convencionales y las redes sociales, se impone un breve resumen de la película que llamamos tráiler porque, en origen, se proyectaban después de la película (ahora se proyectan antes)» («Ultracuerpos lingüísticos», Sergi Pamies, La Vanguardia, 18.08.2026, p. 13). 
       No essencial, é assim. Infelizmente, nos nossos dicionários é de trailer, «idem», e já está. O termo do cinema, e só desse estou a falar — o que implicaria separar as acepções — vem, de facto, do inglês trailer, «idem», originalmente «o que segue, o que vem atrás», derivado de to trail, «seguir; ir atrás» [a acepção cinematográfica deve-se ao facto de estas peças promocionais serem originalmente exibidas depois do filme que promoviam].

[Texto 23 433]

Etimologia: «biquíni»

Pardon, Monsieur Réard !


      «On considère Louis Réard, un ingénieur qui a dû reprendre après la guerre la boutique de lingerie de sa mère, comme l’inventeur de ce vêtement. Si le maillot de bain deux pièces existait déjà dans les années 30, il cachait un détail anatomique alors tabou: le nombril. La trouvaille de Réard tient dans la sobriété du bikini: quatre triangles de tissu, deux en haut et deux en bas, reliés par de minces liens» («La révolution bikini, quatre triangles de tissu qui ont bouleversé la société», Julia Werner, Le Matin Dimanche, 26.07.2026, p. 38). 
      Não devíamos ser tão ingratos, e por isso a etimologia devia ser ➠ do francês bikini, nome dado pelo estilista francês Louis Réard, por alusão ao atol de Bikini, nas ilhas Marshall, onde haviam sido realizados ensaios nucleares norte-americanos, numa referência ao impacto explosivo que esperava causar o novo fato de banho.

[Texto 23 363]

Pronúncia e etimologia: «horda»

Na verdade, acampamento


      Recomendo-te, Porto Editora, tendo em conta até o que ouvi hoje de manhã, que indiques a pronúncia da palavra «horda», que tem a vogal tónica aberta, como «corda». É uma indicação útil, já que não são raros os falantes que tendem a fechar o o por analogia com outras palavras. Vejo também que a nota etimológica pode ser melhorada: a glosa «guarda militar» é pouco rigorosa, pois orda significava antes «acampamento militar» ou «exército»; a origem é hoje geralmente enquadrada no domínio turco-mongol, e não apenas tártaro; a forma horda na língua de origem é discutível, uma vez que a proveniência do h- inicial permanece incerta; além disso, a nota omite a evolução semântica que conduziu do sentido original ao actual. 
      Assim, proponho ➠ do francês horde, «idem», do turco-mongol orda, «acampamento militar; exército», aparentado com o turco ordu, «exército».

[Texto 23 358]

Etimologia: «reactor»

Vamos reagir


      «La forte canicule qui sévit actuellement en France a contraint EDF à arrêter plusieurs réacteurs de son parc nucléaire. Le mot vient du verbe latin agere, “agir”. La forte chaleur, qui n’épargne ni les personnes ni les bâtiments, entraîne de la part d’EDF une réaction – qui n’est pas encore en chaîne : l’entreprise a prudemment décidé l’arrêt de trois d'entre eux» («Réacteur», Étienne de Montety, Le Figaro, 26.06.2026, p. 40). 
      É um bom contributo para melhorarmos a nota etimológica do verbete «reactor» nos nossos dicionários. Assim, proponho ➠ do inglês reactor, «idem», ou do francês réacteur, «idem», ambos derivados do latim reactum, supino de reagĕre, «agir de novo; reagir», de re- + agĕre, «agir».

[Texto 23 273]

Etimologia: «biquíni»

Sem esse elo, nada feito


     «Este domingo [ontem] celebra-se o Dia Mundial do Biquíni, data que assinala a apresentação pública da peça criada pelo designer francês Louis Réard, em 1946, na Piscine Molitor, em Paris. Na altura, o modelo foi recebido como uma provocação. Mostrava o que até então era escondido, desafiava regras sociais e colocava o corpo feminino no centro de uma discussão que ia muito além da praia» («E se a guerra puder ser lida pela roupa que os líderes usam? Do bikini ao hijab», Teresa Almeida, Rádio Renascença, 5.07.2026, 8h15). 
      Na etimologia, a Porto Editora não deixa de dizer que vem «de Bikini, topónimo, ilhota do grupo das ilhas Marshall, na zona tropical do oceano Pacífico», mas omite precisamente o motivo por que esse topónimo deu origem ao nome da peça de vestuário. Sem esse elo, a nota fica algo enigmática: por que razão havia um fato de banho de chamar-se biquíni? Assim, proponho ➠ do topónimo Bikini, atol das ilhas Marshall, adoptado pelo estilista francês Louis Réard (1897-1984) para designar a peça por si criada em 1946, em alusão aos ensaios nucleares então aí realizados, evocando o impacto que a nova criação pretendia causar.
[Texto 23 240]

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P. S.: Olha, Porto Editora, aproveita e regista, além do adjectivo e do gentílico, o vocábulo ➠ marshallês LINGUÍSTICA língua austronésia do ramo micronésio, falada nas Ilhas Marshall, de que é língua oficial, a par do inglês. 
Já agora, e antes que alguém repita o disparate recorrente, convém esclarecer que, embora muitas vezes se associe o elemento bi- de «biquíni» ao facto de a peça ser constituída por duas partes, se trata de uma falsa etimologia. O vocábulo deriva integralmente do topónimo Bikini, nome de um atol das ilhas Marshall, sendo bi- apenas a parte inicial desse topónimo. Imagino que todos estejam familiarizados com o conceito de coincidência.

Etimologia: «puta»

Ninguém o defende


      A Porto Editora está claramente a navegar na maionese ao indicar «puto» como étimo de «puta». Não conheço um único estudo etimológico de referência que sustente essa derivação. E não faltam estudos: trata-se de uma palavra comum a várias línguas românicas — português, espanhol, catalão, francês, italiano, entre outras —, com uma longa história e uma forte carga social e cultural, que há muito suscita o interesse de linguistas, filólogos e historiadores da língua. A hipótese mais geralmente aceite faz remontar o vocábulo ao latim vulgar *putta («rapariga; moça»), embora a etimologia continue a ser discutida.

[Texto 23 238]

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