Etimologia: «classe»

Aprofunde-se mais


      «La SNCF a récemment lancé une classe de TGV où les enfants ne sont pas admis. Le mot vient de classis, qui signifie “appel” (d’une génération pour servir dans l’armée). Il a ensuite désigné une catégorie» («Classe», Étienne de Montety, Le Figaro, 28.01.2026, p. 37). Só isto já é mais do que dizem os nossos dicionários sobre a etimologia do vocábulo «classe», mas podemos aprofundar ainda mais assim ➜ do latim classis, -is, originalmente «chamada (para o serviço militar)», passando a designar cada uma das categorias censitárias em que se dividiam os cidadãos romanos, e por extensão «divisão; categoria; grupo», incluindo também o sentido de «esquadra naval».

[Texto 22 334]

Definição e etimologia: «noosfera»

Ora essa, importa sim


      Se querem saber, também não me parece nada bem que muitos dicionários não indiquem a etimologia correcta de «noosfera» e que definam menos bem o termo. Assim, proponho ➜ noosfera FILOSOFIA, HISTÓRIA DA CIÊNCIA conjunto das manifestações do pensamento humano sobre a Terra, considerado como uma camada ou esfera distinta da biosfera; corresponde à fase evolutiva em que a actividade intelectual consciente se torna força transformadora do planeta, articulando-se com a técnica, a ciência e as dinâmicas sociais e espirituais da humanidade. Quanto à etimologia, vem do francês noosphère (1927), termo cunhado por Édouard Le Roy, do grego noûs, noós, «mente, espírito», + sphaira, «esfera»; desenvolvido por Teilhard de Chardin e Vladimir Vernadsky no contexto da evolução da Terra como sistema.

[Texto 22 312]

Léxico: «abatis(es)»



Mais para trás

      «Uma das técnicas utilizadas pelos guerrilheiros para dificultar o avanço das tropas portuguesas era derrubar árvores sobre picadas, os abatises» (Guerra Colonial: um repórter em Angola, Carlos de Matos Gomes e Fernando Farina. Lisboa: Editorial Notícias, 2001, p. 55).
      Palavra quimbunda? Ná. Portuguesa, importada de França: de abatis (ou abbatis), «obstacle artificiel formé d’arbres abattus». É, com mais rigor, o obstáculo defensivo feito de troncos e galhos aguçados de árvores abatidas, destinado a dificultar o avanço do inimigo. Para o Dicionário Houaiss, o primeiro registo na língua é de meados do século XIX, erro óbvio que atribuo à variante antiga do vocábulo ser «abatiz(es)». Assim, talvez «abatis» tenha sido usado pela primeira vez no século XIX, mas encontraremos «abatiz» uns bons séculos atrás. Não raro, a intuição anda muito longe da academia...

[Texto 353]

Etimologia: «britânico»

Nem eles saberão

      Li algures, não sei onde: «The Britons (meaning ‘painted ones’, as they painted themselves blue) fought in the sea to prevent the landing, accompanied by huge dogs.» Sabia, caro Francisco Agarez? Bem, mas isto não nos interessa muito: somos «lusos», como os jornais gratuitos não se cansam de nos lembrar. Recebemos o vocábulo «britânico» do latim, britannĭcus.
[Texto 352]

Sobre «optimismo»

Deixem-nos trabalhar

      Numa introspecção breve, vejo, com algum alarme, que uma mudança fundamental se operou em mim nos últimos tempos. Operou, digo bem. Antes era pessimista e, para disfarçar, porque talvez me desagradasse, negava e dizia que era realista; agora, sou um optimista despreocupado. O que ouvi hoje no programa Pessoal... e Transmissível, na TSF, descansou-me. Carlos Vaz Marques entrevistou o psiquiatra e escritor argentino Jorge Bucay, que se afirmou um optimista incurável e lembrou que o vocábulo «optimismo» está ligado ao termo latino opus, «obra», «trabalho». De facto, provém da raiz latina op, a mesma de opus, que é partilhada por palavras como «opulento», «opíparo», «óptimo» e «optimismo». Moral da história: é preciso é trabalhar.
[Texto 290]

Sobre «gorjeta»

É para beber

      «Na primeira noite, esses repórteres ficaram a saber que a família jantou bifes e saladas do restaurante Landmarc. A conta foi de cerca de 170 euros, tendo a filha dado uma gorjeta de 17,6 euros ao homem das entregas» («Uma ‘prisão’ de luxo para Strauss-Kahn», Susana Salvador, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 33).
      Foi do francês gorge que fizemos gorja (garganta, goela, ainda em uso, como pude comprovar recentemente na Beira Alta) e todos os derivados, entre eles «gorjeta» ou «mata-bicho» para molhar a garganta, que era a gratificação por qualquer trabalho que se fizesse. «Tome, é para beber qualquer coisa», ouve-se ainda. Em francês, é mais claro: pourboire, «gorjeta», é «para beber». De caminho, deve dizer-se que «gorjeta» é com j e não com g, como por vezes se lê, e é assim porque deriva de um vocábulo com j.
      Curioso também aquele «homem das entregas», que mal esconde o inglês deliveryman da fonte da notícia.
[Texto 77]

Etimologia de «fóssil»

Talvez fodere

      «O vocábulo fóssil deriva do termo latino fodere, “desenterrar”, via fossile, que significa “desenterrado”» (O Dedo de Galileu, Peter Atkins. Tradução de Patrícia Marques da Fonseca e Jorge Lima. Revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2007, p. 22). Julgava lembrar-me que effodere (ou refodere) é que é, em latim, desenterrar; fodere é apenas escavar; infodere é, pelo contrário, enterrar. Seja como for, não queria deixar de partilhar o conhecimento desta etimologia.

[Post 4768]

Sobre «calaça»

Vem do porco

      «“Calaceiro” vem de “calaça” e a palavra, de origem grega, designava muito especificamente as partes da carne do porco que não eram aproveitadas para o consumo. Como se imagina, deviam ser muito poucas, pois que do porco, como bem se sabe, tudo se aproveita, até os pezinhos. De qualquer forma, calaça eram pois estes restos do porco e terá assumido o significado de “preguiça”, “mandriice”, porque os mendigos, ao baterem à porta das casas, pediam por calaça, ou seja, pediam as sobras, os restos quer de carne quer de outros alimentos. E da parte pelo todo, surgiu o termo “calaceiro” como aquele que pede calaça, sinónimo de mandrião, preguiçoso, que não trabalha e vive da mendicidade, à custa dos outros» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 6.05.2011).
      Lá terá as suas fontes. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não contribui para a elucidação da questão. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista a acepção antiga «foro que consistia numa porção de carne», mas trata-se de óbvia má interpretação do que diz Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo no seu Elucidário. Para o honesto Morais, calaça era a «costela de porco, ou banda». Quanto a «calaceiro», dá-o como derivado, provavelmente, do espanhol calabacero. «Parece ser a costa, ou banda de um porco» registou Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo.

[Post 4761]

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