Léxico: «tucumã | tucumã-do-amazonas | tucumã-do-pará»

Voltando ao x-caboquinho


      No verbete de «tucumã», Porto Editora, esqueceste-te da 2.ª acepção, a relativa ao fruto. Como, porém, a própria definição não está actualizada, como pude confirmar sobretudo na monografia técnica da Embrapa/MMA de 2022 dedicada precisamente às duas espécies a que pertence o tucumã, é preferível refazê-la assim ➠ tucumã 1. BOTÂNICA designação comum a palmeiras sul-americanas do género Astrocaryum, especialmente Astrocaryum aculeatum e Astrocaryum vulgare, de grande porte e caule geralmente espinhoso, que produzem frutos comestíveis e oleaginosos; tucumã-do-amazonas; tucumã-do-pará; 2. fruto dessas palmeiras, de forma globosa a elipsóide, com polpa carnosa, fibrosa e oleaginosa, geralmente amarelo-alaranjada, consumida ao natural ou usada na preparação de diversos alimentos. 
      Isso mesmo, temos de dicionarizar igualmente ➠ tucumã-do-amazonas BOTÂNICA (Astrocaryum aculeatum) palmeira sul-americana da família das Arecáceas, nativa da Amazónia, de grande porte e caule espinhoso, que produz frutos comestíveis de polpa amarelo-alaranjada, fibrosa e oleaginosa; tucumã-açu | tucumã-do-pará BOTÂNICA (Astrocaryum vulgare) palmeira sul-americana da família das Arecáceas, nativa da região amazónica, de caule espinhoso e frequentemente cespitoso, que produz frutos comestíveis de polpa amarelo-alaranjada e oleaginosa.

[Texto 23 562]

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Léxico: «subnomenclatura»

Parte estava bem


      Apareceu-me aqui um «subnome», mas era confusão do autor, logo sanada. O que efectivamente existe (vejo-o em teses de doutoramento, em decisões do Superior Tribunal de Justiça brasileiro e textos técnicos e jornalísticos, além de o encontrar no nosso VOP) e o dicionário da Porto Editora não regista é o vocábulo ➠ subnomenclatura nome feminino nomenclatura secundária ou subordinada, estabelecida no interior de outra mais abrangente; conjunto de denominações correspondente a uma subdivisão de determinada nomenclatura.

[Texto 23 561]

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Léxico: «quebra-torto | arroz carreteiro»

Continuamos por lá


      «O pantaneiro começa seu dia com o quebra-torto, prato à base de arroz carreteiro com ovos» («Por que chamamos a 1ª refeição de café da manhã?», David Lucena, Folha de S. Paulo, 18.09.2026, p. C11).
      Então, aqui vai ➠ quebra-torto 1. Brasil regionalismo refeição matinal substancial, tradicional da região do Pantanal, geralmente composta por arroz, carne, ovos, farofa ou outros alimentos energéticos; 2. prato de arroz com carne, geralmente acompanhado de ovos ou outros alimentos, tradicionalmente servido nessa refeição; arroz carreteiro. 
       Pois, já vi que temos aqui um problema, que também é uma oportunidade: temos de dicionarizar igualmente ➠ arroz carreteiro Brasil CULINÁRIA prato tradicional do Rio Grande do Sul, preparado com arroz e charque picado, cozidos conjuntamente com temperos, havendo variantes com outros tipos de carne; o m. q. arroz de carreteiro.

[Texto 23 560]

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Léxico: «x-caboquinho»

Regresso ao Brasil


      «No Amazonas, é típico o consumo do x-caboquinho, sanduíche feito com pão francês recheado com lascas de tucumã —fruto de uma palmeira amazônica—, banana e queijo coalho» («Por que chamamos a 1ª refeição de café da manhã?», David Lucena, Folha de S. Paulo, 18.09.2026, p. C11). 
      Há décadas que o pobre x-acto esperava companhia à altura, e encontrou-a agora neste brasílico  x-caboquinho Brasil CULINÁRIA sanduíche típica do Estado do Amazonas, especialmente de Manaus, feita com pão francês recheado com lascas de tucumã, queijo de coalho e, geralmente, banana-pacovã frita. (Quanto à etimologia, vem de x-, elemento usado no português do Brasil na designação de diferentes tipos de sanduíche, do inglês cheese, «queijo», + caboquinho, diminutivo regional de caboclo.)

[Texto 23 559]

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Léxico: «sati»

Estamos a alienar a nossa História


      No episódio de sábado do programa Visita Guiada, em nova temporada, Paula Moura Pinheiro esteve em Goa. Entre outros convidados, esteve a falar com o fundador e director do Goa Chitra Museum, Victor Hugo Gomes, que afirmou que o «sati was abolished by the Portuguese here in Goa in 1526, three hundred years before Rajaram Mohan Roy could do it in the rest of India». Ora, estranhamente, só encontramos «sati» em dicionários bilingues da Porto Editora. Assim, proponho ➠ sati nome masculino 1. antiga prática hindu que consistia na imolação, voluntária ou forçada, de uma viúva, geralmente pelo fogo, na pira funerária do marido ou juntamente com os restos mortais deste; 2. nome feminino mulher que se submetia a essa prática. (Quanto à etimologia, vem do sânscrito satī, «mulher boa, virtuosa; esposa fiel», feminino de sat-, «bom, verdadeiro, virtuoso»; o termo, que originariamente designava a mulher, passou posteriormente a designar também a prática.)

[Texto 23 558]

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Definição: «giro»

Não tem graça, mas é giro


      «Aprestava-se a regressar às suas cogitações quando Matthew apareceu à porta, a anunciar que o Pequeno Andy, o carteiro, estava lá em baixo, no armazém. Tinha acabado mesmo agora a ronda e precisava de falar com Lily sobre um assunto pessoal» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., pp. 251-52). 
      Desde quando é que os carteiros fazem rondas? Isso é no original: «... having just finished his round». Fazem giros. A propósito: a 3.ª acepção de «giro» no dicionário da Porto Editora abarca o sentido postal, mas de maneira excessivamente genérica: «itinerário definido em conformidade com as exigências de determinada actividade (de vigilância, de distribuição e recolha de artigos ou mercadorias, etc.)» Devíamos separar o sentido profissional geral do sentido postal, que é suficientemente estabelecido para merecer explicitação. Assim: 3. itinerário ou percurso estabelecido para o exercício regular de determinada actividade, nomeadamente de vigilância, distribuição ou recolha; 4. percurso estabelecido para a distribuição de correspondência e outros envios postais, efectuado regularmente por um carteiro ou outro distribuidor; área abrangida por esse percurso.

[Texto 23 557]

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Definição: «laguna»

Vamos pôr isso à prova


       «Corpo de brasileira é encontrado em laguna de Veneza após acidente» (Michele Oliveira, Folha de S. Paulo, 16.09.2026, p. A47). Vejamos o que diz a Porto Editora de «laguna»: «1. GEOGRAFIA bacia litoral de águas paradas, separada do mar apenas por uma restinga de areia e com o qual mantém comunicação intermitente; 2. canal entre bancos de areia ou ilhotas, na foz de um rio; 3. pequena lagoa; 4. ria». Então vejamos, tomando a Laguna de Veneza como exemplo, a primeira acepção, a mais importante. A definição apresenta vários problemas: 1.º, não se trata necessariamente de uma bacia de águas paradas: as águas de uma laguna podem estar sujeitas a correntes, circulação e marés — em Veneza, o regime de marés determina uma importante circulação da água; 2.º, uma laguna não está necessariamente separada do mar apenas por uma restinga de areia: pode sê-lo por diferentes tipos de barreira litoral, incluindo cordões arenosos, restingas ou ilhas-barreira — a Laguna de Veneza é separada do Adriático por ilhas-barreira; 3.º, a comunicação com o mar não é necessariamente intermitente: pode ser permanente ou intermitente, havendo mesmo lagunas que se encontram totalmente fechadas ao mar — a Laguna de Veneza comunica permanentemente com o Adriático por três aberturas, Lido, Malamocco e Chioggia; 4.º, omite-se uma característica importante das lagunas: são geralmente pouco profundas — a Laguna de Veneza apresenta vastas áreas com profundidades da ordem de 1 a 1,5 metros. 
      Tudo visto, proponho laguna 1. GEOGRAFIA massa de água costeira, geralmente pouco profunda, separada do mar por uma barreira litoral, geralmente arenosa, podendo comunicar com ele por uma ou mais aberturas; 2. GEOGRAFIA canal pouco profundo entre bancos de areia ou ilhotas, na foz de um rio; ria; 3. GEOGRAFIA massa de água salgada situada no interior de um recife de coral.

[Texto 23 556]

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Outra confusão

Mais uma


      «[A arqueóloga] Conceição Lopes destaca outro pormenor que diz já ser fruto da importância que o fórum romano assumiu: “Os moços são naturais de Beja.” Outra jovem, que será arqueóloga num futuro próximo, extrai pacientemente todas as ervas e arbustos, por mais pequenos que sejam, do piso que resta de um tanque de água que tinha 4,5 metros de largura e 90 centímetros de profundidade, construído em cimento romano (opus caementicium) no final do século I a.C. e que contorna o templo romano, um edifício com 30 metros de comprimento e 19,40m de largura. A estrutura é em tudo semelhante aos que existem em Évora, da província espanhola de Ecija (Sevilha) e de Barcino (Barcelona)» («Escavações regressaram ao Fórum Romano de Beja após interregno de nove anos», Carlos Dias, Público, 5.08.2026, p. 15). 
      Está errado: o opus caementicium é o betão romano. O jornalista não sabe a diferença entre cimento e betão. Devia ter investigado e/ou perguntado. Agora, mais gente desaprendeu. O opus caementicium era o material compósito constituído por uma argamassa ligante (cal, água e areia ou pozolana) e por agregados, fragmentos de pedra, tijolo ou cerâmica. Portanto, corresponde funcional e estruturalmente a um betão. O cimento é apenas um ligante; não inclui os agregados. Não são apenas os jornalistas, também demasiados tradutores confundem cimento com betão, como confundem fita isoladora com fita-cola, telhado com tecto, azulejo com mosaico, ombreira com padieira, relva com erva e um largo e triste etc.

[Texto 23 555]

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Léxico: «pardelho(s) | cacifro»

Ou o leitor não pescará nada


      «Estendendo a mão, tocou na face tépida da criança. O berço quedara-se enleado na ramagem de um salgueiro vergado pelo peso de uma rede ou pardelho, como lá dizem, que dali, atado nele, atravessava para a margem da Ínsua — um bosque de choupos assim chamado. As bóias arfadas pela corrente chofravam nos flancos do berço» (Maria Moisés, Camilo Castelo Branco. Lisboa: INCM, 2020, pp. 43-44). 
      Encontramo-lo também em Aquilino. Ser sustentada por bóias pode não ser característica verdadeiramente distintiva nem inerente ao modo habitual de armar a rede, pelo que vamos omiti-las. Assim, proponho  pardelho(s) regionalismo rede de emalhar que se dispõe transversalmente num rio, de uma margem à outra, para capturar peixe.

[Texto 23 554]


⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Camilo, este mesmo de Maria Moisés, e nós com ele, ainda espera que os dicionários acolham outro acessório de pesca, o ➠ cacifro regionalismo cesto de verga, geralmente de forma circular e levado a tiracolo, em que o pescador guarda o peixe capturado, podendo mantê-lo dentro de água para conservar as capturas vivas ou frescas. 
Com certeza os lexicógrafos não quererão que, para guardar o peixe capturado, os pescadores usem o «cesto de vime onde os caçadores levam o furão». 


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Definição: «decibel»

Porque é bom saber mais


      «Em acústica, atribui-se convencionalmente o valor de 0 decibéis a um nível de referência próximo do limiar da audição humana. Isto não significa ausência de som: esse limiar varia com a frequência e de pessoa para pessoa. Como o ouvido capta sons de intensidades muito diferentes, utiliza-se a escala logarítmica dos decibéis (dB). Um decibel corresponde à décima parte do bel, unidade logarítmica utilizada para exprimir relações entre intensidades sonoras. Uma diferença de 10 dB – ou de um bel – entre dois níveis sonoros significa que o som de nível mais elevado tem dez vezes a intensidade do outro. Relativamente à intensidade de referência, um som com um nível de 20 dB é cem vezes mais intenso; um de 30 dB, mil vezes, e assim sucessivamente» («Silêncio!», João Paulo André [químico], Nascer do Sol, 18.09.2026, p. 36). 
      Não podemos desperdiçar a oportunidade para melhorar a definição de «decibel», que está muito incompleta. Assim, proponho ➠ decibel FÍSICA unidade logarítmica, de símbolo dB, equivalente à décima parte do bel, usada para comparar valores de uma grandeza ou para exprimir o seu nível relativamente a um valor de referência, especialmente em acústica, electrónica e telecomunicações. (Quanto à etimologia completa, vem de deci- + bel, ou do francês décibel, «idem»; bel é unidade assim denominada em homenagem ao inventor escocês Alexander Graham Bell (1847-1922).)

[Texto 23 553]

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Como se escreve por aí

Afinal não podia ser


      «A CMTV entrevista André Ventura, na vigésima-oitava entrevista do líder do Chega a uma televisão portuguesa este ano» («E para beber, prefere branco ou extinto?», Miguel Somsen, «Versa»/Nascer do Sol, 18.09.2026, p. 47). Só parei nas páginas desta rubrica porque me parecia ver Luiz Pacheco na fotografia do autor. Sim, eu sei que ele morreu vai fazer vinte anos. Afinal, era Miguel Somsen. E Luiz Pacheco não dava estes erros. Até porque foi também revisor. Quando é que se aprende de uma vez por todas que os ordinais não levam hífen? É «vigésima oitava», como também é «centésima quarta», «milésima primeira» e assim todos sem excepção. O texto padece de muitos outros erros, sobretudo de ortografia («contra ataque», «pequeno almoço», «Belas Artes», «ideias-feitas», «mal-vistas») e de pontuação, mas nada que mais dez ou vinte anos de crónicas com algum estudo pelo meio não resolvam.

[Texto 23 552]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Detesto ver os nomes de televisões e de rádios em itálico. Isso não faz sentido. Claro que é imposição do livro de estilo da casa, de que o autor não tem culpa. Mas como é que lhe alteram isto no texto e não lhe corrigem os erros? Ah, pois.


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Léxico: «protomo»

Agora precisamos dos dois


      Na página 10 da obra A Presença Romana em Cascais, um território da Lusitânia Ocidental, de Guilherme Cardoso e José d’Encarnação, encontra-se uma imagem de um protomo de calcário amarelo local. Infelizmente, os nossos dicionários não registam este termo. E o homónimo que encontramos no Houaiss, por exemplo, não é o da Arqueologia. Assim, proponho ➠ protomo 1. HISTÓRIA homem pré-histórico; o mesmo que protandro; 2. ARQUEOLOGIA, ARTES PLÁSTICAS representação da cabeça ou da parte anterior do corpo de uma figura humana, animal ou fantástica, constituindo uma peça autónoma ou integrando um objecto ou elemento arquitectónico, frequentemente com função ornamental. (Etimologia da acepção 2: do grego protomḗ, «parte anterior; busto», derivado de protémnō, «cortar pela frente», de pro, «diante, à frente», + témnō, «cortar».)

[Texto 23 551]

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Léxico: «nosto»

Também queremos este


      «Evgenia Makrygianni, professora associada de Literatura Grega Antiga na Universidade de Atenas, afirmou que A Odisseia continua profundamente ligada à identidade da Grécia contemporânea por meio da ideia homérica de nostos – o desejo de retornar ao lar que impulsiona toda a jornada de Odisseu. “Isso se conecta às próprias experiências históricas da Grécia – guerras, exílio, dificuldades econômicas e migração”, explicou. “Odisseu simboliza resiliência, determinação e a força para perseverar diante da adversidade”» («O que os gregos acharam de ‘A Odisseia’? Fomos a uma sessão em Atenas», Niki Kitsantonis [NYT], O Estado de S. Paulo, 9.08.2026, p. A32).
      O termo grego em causa é νόστος (nóstos), «regresso», especialmente o regresso à pátria ou ao lar. Parece-me, pois, que se justifica o registo do aportuguesamento nosto, tanto mais que o vejo empregado nos estudos clássicos para designar o regresso de um herói à pátria depois de uma longa ausência, em particular o de Ulisses após a Guerra de Tróia. Poderia ser assim ➠ nosto LITERATURA na epopeia grega, regresso de um herói à pátria ou ao lar depois de uma longa ausência, sobretudo de uma guerra; por antonomásia, viagem de regresso de Ulisses a Ítaca, narrada na Odisseia
      Do grego νόστος, «regresso; retorno ao lar». Já temos vocábulos formados com nóstos — alguns dos quais o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista —, como nostomania, nostomaníaco, nostómano e nostofobia. Devíamos ainda registar, como faz o Houaiss, o elemento de composição nost(o)-, do grego νόστος, «regresso; retorno», presente nestes vocábulos.

[Texto 23 550]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Odisseu é corrente no português brasileiro contemporâneo de temática clássica; Ulisses é, sem hesitação, excepto para alguns tradutores, a forma normal em Portugal. Mas depois temos «odisseia» e não «ulisseia», que só aparece como nome de editora. Mas, curiosamente, temos o adjectivo «ulisseu», pelo que, afinal, sempre dispomos de «ulisseia» como forma do adjectivo. A ulisseia manha.


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Léxico: «gato-tilcayo»

O mundo ainda guarda surpresas


      «Uma equipa de cientistas identificou uma nova espécie de gato selvagem em florestas da Bolívia, sendo esta a primeira descrição científica de uma nova espécie de felino selvagem em mais de um século, foi esta quinta-feira divulgado. Batizada “Leopardus tilcayo” ou gato-tilcayo, a espécie foi descoberta nas florestas da região de Yungas, na Bolívia, e é um felino de pequeno porte que mede aproximadamente 46 centímetros da cabeça à cauda e pesa cerca de 1,4 quilogramas, menos do que um gato doméstico comum, informou a agência noticiosa espanhola EFE» («Nova espécie de felino descoberta na Bolívia, a primeira em mais de um século», Rádio Renascença, 17.09.2026, 18h19). 
      Temos tudo o que é preciso para propor ➠ gato-tilcayo ZOOLOGIA (Leopardus tilcayo) mamífero carnívoro da família dos Felídeos, pertencente ao grupo dos gatos-do-mato-pequenos, de porte inferior ao do gato doméstico, de pelagem castanho-clara, mais escura no dorso, com grandes rosetas irregulares, nativo das florestas montanhosas húmidas dos Yungas, na Bolívia; o m. q. tilcayo. (Quanto à etimologia, vem castelhano boliviano tilcayo, designação tradicional deste felino entre as populações dos Yungas, de origem incerta.)

[Texto 23 549]

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Léxico: «entredente»

Mas façam como quiserem


      «— Não sei — respondo, entredentes. Ainda recordo com carinho o tempo em que o Teddy não sabia falar» (O Divórcio, Freida McFadden. Tradução de Carla Ribeiro e revisão de Mariana Félix. Odivelas: Alma dos Livros, 2026, p. 79). «— Fez — diz o Jeremy, entredentes. — E não é tudo» (p. 160). 
      Estou sempre a encontrar e a corrigir este erro. Há dicionários que o acolhem, mas como acolhem muitos e muitos outros erros. É «entre dentes». Mas a palavra «entredente» mereceu-me uma análise cuidada. Não é de uso muito comum, mas importa ter em conta que se trata de um termo técnico. Num manual da unidade curricular Órgãos de Máquinas II, da Escola de Engenharia da Universidade do Minho, encontro-a definida numa secção dedicada aos aspectos gerais das engrenagens e ilustrada por vários desenhos explicativos. O dicionário da Porto Editora dá-lhe como sinónimo «crena», relação também registada noutros repertórios lexicográficos, embora não tenha conseguido comprovar o uso deste último termo em manuais ou noutros documentos técnicos. Por outro lado, há uma acepção usada no Brasil que não se confunde com esta. Assim, proponho ➠ entredente 1. MECÂNICA espaço compreendido entre dois dentes consecutivos de uma roda ou peça dentada; crena (pouco usado); 2. Brasil MAQUINARIA peça de desgaste instalada entre os dentes do balde de uma escavadora ou de uma pá carregadora, destinada a proteger o bordo cortante contra o desgaste.
      Existe também em francês o termo técnico entre-dent. O Grand dictionnaire terminologique, do Office Québécois de la Langue Française, organismo canadiano, define-o como «espaço entre dois dentes vizinhos». A coincidência formal, semântica e terminológica leva a admitir que o francês possa ter servido de modelo ao português «entredente». A hipótese é plausível, atendendo à influência histórica da terminologia técnica francesa; não pode, porém, considerar-se comprovada, sobretudo porque a formação portuguesa — entre- + dente — é inteiramente transparente e poderia ter surgido de forma autónoma.

[Texto 23 548]

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Definição: «sindrómico»

Conseguimos melhor


      Ontem, na Antena 1, foi entrevistado Filipe Gonçalves, um dirigente da Apela, Associação Portuguesa de Esclerose Lateral Amiotrófica, que disse que esta é uma doença sindrómica. Está no dicionário da Porto Editora, sim senhor, «relativo a síndrome; sindromal, sindromático», mas é praticamente circular: explica a formação da palavra, mas não permite perceber o que significa, por exemplo, dizer que uma doença é sindrómica. Mais antenado esteve o Houaiss ao afirmar que é o «relativo a síndrome; que ocorre como síndrome», mas nós ainda conseguimos melhor. Assim, proponho ➠ sindrómico adjectivo 1. relativo a síndrome; 2. MEDICINA que se manifesta por um conjunto característico de sinais e sintomas; que ocorre sob a forma de síndrome.

[Texto 23 547]

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Como se conjugam os verbos por aí

Voltemos ao básico


      «[Peggy] Atirava constantemente para o lado o cabelo solto, caído até aos ombros, e penteava-lo com a mão» (Pessoas Normais, Sally Rooney. Tradução e notas de Ana Falcão Bastos e revisão de Isabel Castro Silva. Lisboa: Relógio D’Água, 2022, p. 79). 
      Com Peggy está tudo mais ou menos bem, se abstrairmos da sua falsidade, petulância e inveja. Mas com a tradutora e a revisora já não tenho a certeza: parecem confundir os pronomes, já que «penteava-lo» só pode corresponder a «tu penteavas + o». Na terceira pessoa, como é o caso da frase, «ela penteava + o = ela penteava-o». Porque trago isto para aqui? Porque é erro que vejo com alguma frequência.

[Texto 23 546]

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Definição e etimologia: «coronógrafo»

E a coroa?


      «Puis en 1930, c’est une révolution dans l’observation du Soleil : le scientifique français Bernard Lyot invente le coronographe, qu’il installe au pic du Midi (Hautes-Pyrénées), là où le ciel, moins diffusant, permet la meilleure visibilité. Cet instrument permet d’obstruer artificiellement le Soleil et de créer une sorte de mini-éclipse» («Pour les astronomes, une éclipse reste un rendez-vous scientifique à ne pas rater», Vincent Bordenave, Le Figaro, 13.08.2026, p. 9). 
      Que a Porto Editora define assim: «ASTRONOMIA instrumento usado para bloquear a luz directamente emitida pelo Sol ou por outra estrela, de modo a que objectos ou fenómenos próximos (que de outro modo ficariam ocultos pelo brilho) possam ser percebidos». Mas é preciso mais cautela e não deixar de mencionar a corona, ou coroa, que, afinal, está na própria razão de ser e no próprio nome do instrumento. Assim, proponho ➠ coronógrafo ASTRONOMIA instrumento óptico que bloqueia ou reduz fortemente a luz directa do Sol, permitindo observar e estudar a coroa solar e outros fenómenos próximos; por extensão, instrumento que suprime a luz de outra estrela para permitir a observação de objectos ou estruturas muito menos luminosos nas suas proximidades. (Quanto à etimologia, vem do inglês coronagraph, formado do latim corona, «coroa», + -graph, «instrumento que regista ou representa».)

[Texto 23 545]

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Léxico: «arco eléctrico» Definição: «arco voltaico»

É melhor não os misturar


      «Retour dans le passé. Octobre 2013, gare de Morges. Cette nuit-là, l’air est humide et sur la peau de Louis Derungs flottent des perles de pluie. Le Vaudois est foudroyé par un arc électrique, 15'000 volts traversent son corps. Il s’effondre. On ignore comment l’étudiant à l’EPFL de 19 ans se retrouve dans cette situation» («15'000 volts lui ont coûté ses bras, mais Louis Derungs y a puisé la force de se réinventer», Maxime Rutschmann, 24 heures, 12.08.2026, p. 3). 
       Nunca se pode seguir apenas um dicionário, ou o fracasso está garantido. O dicionário da Porto Editora nem sequer regista «arco eléctrico», e faz muito mal. Talvez nos aconselhasse a optarmos por «arco voltaico», por ser o único que acolhe, e faríamos mal se seguíssemos o conselho. Para alguns dicionários, «arco eléctrico» é sinónimo de «arco voltaico». Não é o que dizem as fontes técnicas. Todo o arco voltaico é um arco eléctrico; nem todo o arco eléctrico é propriamente um arco voltaico, isto se estivermos a pensar na definição histórica (a que a Porto Editora, por exemplo, acolhe). Assim, a entrada principal deve ser ➠ arco eléctrico ELECTRICIDADE descarga eléctrica sustentada que se estabelece através de um meio gasoso ionizado entre pontos com diferente potencial eléctrico, geralmente acompanhada de intensa emissão de luz e calor. 
      Quanto a «arco voltaico», porque na realidade não há nada a saltar, o que é inadequado para uma descarga sustentada, além que se não se deve misturar condutores de carvão e metálicos, proponho ➠ arco voltaico ELECTRICIDADE designação tradicional de arco eléctrico, originalmente aplicada ao arco luminoso produzido entre dois eléctrodos de carvão.

[Texto 23 544]

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Léxico: «gemínida» Definição: «perseida»

Em Agosto, mas estavas na praia


      «La noche del 12 al 13 de agosto brillarán hasta 100 meteoros cada hora, de la lluvia de meteoros Perseidas. Esta lluvia se encuentra activa del 17 de julio al 24 de agosto. Y es junto a las Gemínidas de diciembre, la que no debe perderse. [...] En el caso de las Perseidas, el cometa progenitor es el 109P/Swift-Tuttle, descubierto en 1862. Es un cometa enorme, de 25 km de diámetro y un periodo orbital de 133 años, el tiempo que tarda en darle una vuelta al Sol» («La lluvia de meteoros Perseidas y la tormenta de meteoros de 2028», Germán Martinez Gordillo [Sociedad Astronómica de Puebla Germán Martínez Hidalgo A. C.], El Sol de México, 2.08.2026, p. 11). 
      Já que o prometes, Porto Editora, aqui vai ➠ gemínida adjectivo, nome feminino ASTRONOMIA diz-se de ou meteoro pertencente a uma corrente meteórica cujo radiante se situa na constelação dos Gémeos, observável anualmente em Dezembro e originada por detritos do asteróide 3200 Faetonte | nome feminino plural ASTRONOMIA [com maiúscula] chuva de meteoros produzida por essa corrente, cuja actividade máxima ocorre habitualmente por volta de 13 e 14 de Dezembro. 
      E também a definição de «perseida» está precisada de uns ligeiros retoques. Assim, ➠ perseida adjectivo, nome feminino ASTRONOMIA diz-se de ou estrela-cadente produzida por um meteoróide da corrente associada ao cometa 109P/Swift–Tuttle, cujo radiante aparente se situa na constelação de Perseu e que é observável anualmente em Julho e Agosto | nome feminino plural ASTRONOMIA [com maiúscula] chuva anual de meteoros produzida pela passagem da Terra através dessa corrente de meteoróides, cuja actividade máxima ocorre habitualmente por volta de 12 e 13 de Agosto.

[Texto 23 543]

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Extras! Extras! Extras!

Até entrar na cabeça


      «Guardas prisionais continuam sem receber horas extras» (Reis Pinto, Jornal de Notícias, 12.08.2026, p. 17).

[Texto 23 542]

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Definição: «galena | chumbo»

E os usos históricos e os actuais


      «On y ciblait principalement la galène – soit “un minerai fort répandu contenant 86,6% de plomb en poids et une teneur en argent variable”, explique le géologue Serge Grandjean. Qui précise encore: “Du point de vue minier, la production d’argent provient surtout de concentrés de plomb. En moyenne, pour 1 tonne de galène pure, on obtient 1 kg d’argent, le reste étant principalement du plomb”» («Quand le plomb s’incruste dans la nature, difficile de s’en débarrasser», Laurent Duvanel, Le Matin Dimanche, 30.08.2026, p. 45). 
      Não é exactamente assim, no que diz respeito à presença de prata, mas suponho que terá sido por falta de tempo para o explicar. (Que é desculpa comum aos jornalistas do orbe terrestre, não apenas aos portugueses.) E não é como está nos dicionários. Assim, proponho galena MINERALOGIA mineral de sulfureto de chumbo (PbS), de cor cinzento-chumbo e brilho metálico, que cristaliza no sistema cúbico e constitui o principal minério de chumbo e, quando argentífero, uma importante fonte de prata; galenite. 
      E os usos actuais e históricos do chumbo, que são mencionados naquele artigo, também me levam a propor a seguinte definição de ➠ chumbo QUÍMICA elemento químico de número atómico 82 e símbolo Pb, metal muito denso, maleável, de cor cinzento-azulada, resistente à corrosão e tóxico, usado sobretudo no fabrico de acumuladores de chumbo-ácido e também em ligas metálicas, munições e na protecção contra radiações ionizantes.

[Texto 23 541]

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Como se traduz por aí

Vamos experimentar


      «Agora, como vou levar a Veronica lá para baixo? Embora seja mais alta do que eu, é muito magra. Testo as águas, agarrando-a pelos tornozelos e arrastando-a pelo chão, e a verdade é que é mais fácil do que esperava. Tenho algum receio de magoar as costas, ainda assim» (O Divórcio, Freida McFadden. Tradução de Carla Ribeiro e revisão de Mariana Félix. Odivelas: Alma dos Livros, 2026, p. 214). Valha-me Deus... É uma expressão idiomática corrente, está dicionarizada. Por todos, veja-se no Collins English Dictionary, que tanto regista test the water como test the waters: fazer uma abordagem exploratória, sondar, experimentar primeiro para ver qual será o resultado ou a reacção.
      A tradutora revela certa preferência pelo verbo «testar», tão português como uma sanduíche, ainda quando não é — claramente — o adequado: «O portão do jardim das traseiras está fechado, mas, quando o testo, não está trancado» (p. 177). [«The gate to the backyard is closed, but when I try it, it’s not locked.»] A minha avó diria assim, e eu, seu neto, não diria melhor: «O portão do jardim das traseiras está fechado, mas, quando tento abri-lo, vejo que não está trancado.»

[Texto 23 540]

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Definição: «pinça de travão»

Mais do que isto é arriscado


      «A resposta direta a quem se pergunta o que muda nestas condições é simples: com pavimento molhado, a distância necessária para parar aumenta, e é a pinça de travão que determina se essa travagem será firme e uniforme ou irregular. Este componente empurra as pastilhas contra o disco sempre que se pressiona o pedal, e é precisamente nas estradas costeiras e florestais, onde a humidade é praticamente constante durante boa parte do ano, que o seu bom funcionamento faz mais diferença» («Como preparar a pinça de travão para as estradas chuvosas do Pinhal de Leiria», Jornal de Leiria, 17.08.2026, 17h00). 
      Isso mesmo. E como define pinça de travão o dicionário da Porto Editora? Assim: «MECÂNICA peça existente em sistemas de travagem de disco (utilizados em veículos motorizados), localizada na junta de direcção da roda dianteira, cuja função é controlar os calços de travão, movendo-os contra o disco do travão, num processo que gera atrito suficiente para forçar a desaceleração ou a paragem do veículo». Uma breve conferência sobre sistemas de travagem e, o que é pior, não está inteiramente bem. Entre outros aspectos, não se aplica somente a veículos motorizados, pois há bicicletas com travões de disco e, logo, com pinças. Uma definição correcta tem de ser o mais abrangente possível. Comprovemo-lo com o meu carro, por exemplo. Tem travões de disco (ventilados os dianteiros, maciços os traseiros) nas quatro rodas e, portanto, pinças nas quatro rodas. Não encaixa na tua definição. Há diversos tipos de sistemas, e é isso que temos de ter em conta ao redigir uma definição. 
      Assim, proponho ➠ pinça de travão MECÂNICA componente de um travão de disco de um veículo que faz pressionar as pastilhas contra o disco, produzindo a travagem.

[Texto 23 539]

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Definição: «etésio»

Ficamos desorientados


      Séneca, numa obra que estou a rever, menciona várias vezes os ventos etésios. É a nossa oportunidade para ver como a Porto Editora define este adjectivo: «[mais usado no plural] METEOROLOGIA designativo de cada um dos ventos frescos que, no Verão, sopram do Mediterrâneo oriental para o Egipto e para a costa oriental daquele mar, estando relacionados com o harmatão, alísio continental do Sara meridional». Hã? É mesmo assim, «sopram do Mediterrâneo oriental para o Egipto e para a costa oriental daquele mar»? Isso parece querer dizer que os ventos partem de uma região para essa mesma região. Não pode ser. Diga-se também que a relação com o harmatão não é explicitada, e nem todos somos meteorologistas. O que vale é que nos podemos socorrer, entre outras fontes, de Saharan Dust, SCOPE 14, para a relação entre os ventos etésios e o harmatão, e Varlas et al., Weather and Climate Dynamics, 2022, para a caracterização climatológica moderna dos etésios; o termo encontra-se já, como escrevi mais acima, em Séneca, Naturales quaestiones, V. 
      Assim, proponho ➠ etésio [mais usado no plural] METEOROLOGIA designativo de cada um dos ventos frescos de norte ou noroeste que, no Verão, sopram regularmente no Mediterrâneo Oriental, sobretudo no mar Egeu, atingindo o Egipto e outras regiões do Norte de África, onde, ao tornarem-se mais quentes e secos, adquirem características do harmatão. (Quanto à etimologia, vem do latim etēsius, «anual», do grego etḗsios, «anual», de étos, «ano»; cf. latim etēsiae, do grego etēsíai [ánemoi], «ventos anuais».)

[Texto 23 538]

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Léxico: «micronovela»

Já por aí a vemos


      «Les microdramas, la précaire bouée de sauvetage de Hollywood» (Franck Rousseau, Le Figaro, 17.08.2026, p. 26). Também chegaram cá, pois então, e também com este nome. Assim, proponho ➠ micronovela AUDIOVISUAL produção de ficção seriada constituída por episódios de muito curta duração, geralmente de poucos minutos, apresentados em formato vertical e concebidos sobretudo para visualização em dispositivos móveis, caracterizada habitualmente por ritmo narrativo rápido e forte continuidade entre episódios. 

[Texto 23 537]

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Definição: «dor»

Temos de pensar em tudo


      A conversa era sobre dores num membro fantasma. Porque é mesmo de dor que se trata. E onde encaixa na definição da Porto Editora? Não encaixa: «MEDICINA sensação molesta numa parte do corpo, de intensidade e natureza muito variável, provocada por causa interior ou exterior ao organismo». E não encaixa porque a definição está cientificamente desactualizada e, sobretudo, conceptualmente mal construída. A definição da International Association for the Study of Pain (IASP), que foi revista em 2020, já abrange esse caso. Aliás, a própria comissão que elaborou a definição de 2020 da IASP discutiu expressamente a dor fantasma. No artigo que explica a revisão, diz-se que a dor neuropática pode ser sentida em zonas onde não há lesão dos tecidos e dá-se precisamente como exemplo «phantom pain for those with a missing limb». Assim, proponho ➠ dor MEDICINA experiência sensorial e emocional desagradável, associada a lesão real ou potencial dos tecidos ou semelhante à experiência associada a essa lesão.

[Texto 23 536]

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Definição: «exorcismo»

Isso é nos filmes


      «On comptait une trentaine de prêtres exorcistes en France, il y a quarante ans, ils sont 120 aujourd’hui. Et travaillent souvent avec une équipe, que ce soit dans la prise de rendez-vous, l’écoute ou l’exorcisme proprement dit. A Paris, par exemple, l’accueil Saint-Michel, où sont centralisées les demandes, compte trois prêtres et douze écoutants. Pour le commun des laïcs et des croyants, l’exorcisme est associé à une imagerie délirante qui convoque a minima le diable et un quarteron de succubes. Il a, en réalité, très peu à voir avec les scènes spectaculaires visionnées dans les films de William Friedkin ou de Scott Derrickson» («Exorcisme. Plongée dans une activité au succès d’enfer», Guillaume Tion, Libération, 25.08.2026, p. 14). 
      Se fosse apenas nos filmes... Nos dicionários não é muito diferente. Esqueçam o Demónio, se faz favor. Assim, proponho ➠ exorcismo RELIGIÃO rito realizado por pessoa a quem determinada religião ou comunidade reconhece autoridade para tal, mediante orações, fórmulas, gestos ou outros actos, com o fim de libertar uma pessoa, lugar ou objecto de uma presença, influência ou acção considerada maléfica.

[Texto 23 535]

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Léxico: «lava-pés»

Durante todo o Verão


      «“Mas não existem infra-estruturas de apoio balnear. Pedimos um lava-pés para a praia do Forte Novo, disseram-nos que não havia possibilidade, por falta de pressão da bomba de água”, explica [Cláudia Vilalva, empresária que aluga espreguiçadeiras, vende gelados e bebidas na praia do Forte Novo, Quarteira]» («Um amor, uma barraca e um negócio com os pés na areia», Idálio Revez, Público, 18.08.2026, p. 30). Os nossos dicionários não têm este profano e porventura mais útil ➠ lava-pés 2. dispositivo ou instalação com saída de água, destinado à lavagem dos pés, sobretudo em praias, piscinas e outros espaços balneares.

[Texto 23 534]

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Definição: «alma»

É a 19.ª 


      «A instalação do cabo (feito com alma de fibra, e não em alma de aço como era usual) provocou algumas surpresas nos trabalhadores que o acharam “muito mais flexível e de mais fácil manipulação”. Quando foi submetido ao peso das cabines, “o cabo aumentou consideravelmente de comprimento, o que implicou cortar-lhe um troço de 4,5 metros para que as cabinas cassem na posição que deviam”» («Elevador da Glória: ex-director da Carris e dono da empresa MNTC arguidos», Mariana Oliveira, Público, 28.08.2026, p. 11). 
      Alma, pois, que a Porto Editora define assim: «feixe central (metálico ou de fibra natural ou sintética) em torno do qual se entrançam as pernas ou fios que constituem o corpo externo de um cabo ou de uma corda». A alma é antes um elemento ou componente central; uma alma metálica pode ser, por exemplo, uma única perna ou até um pequeno cabo metálico independente. Portanto, nem sempre é propriamente um feixe. E também não se entrançam, já que as pernas são normalmente dispostas ou enroladas helicoidalmente em torno da alma. 
      Assim, proponho ➠ alma componente central de um cabo ou corda, geralmente de fibra natural ou sintética ou de material metálico, em torno do qual se dispõem helicoidalmente as pernas que constituem o corpo do cabo ou da corda.

[Texto 23 533]

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Léxico: «mico-leão-da-cara-preta»

Para fazer companhia aos outros


      «Os parques estão inseridos na mata atlântica, onde vivem cerca de 400 micos-leões-da-cara-preta, e a vacinação é uma tentativa de preservar a espécie ameaçada de extinção» («Mico-leão-da-cara-preta é vacinado contra febre amarela em ação inédita», Catarina Scortecci, Folha de S. Paulo, 14.09.2026, p. A30). 
      Tens outros micos, Porto Editora, não este mico-leão-da-cara-preta ZOOLOGIA (Leontopithecus caissara) pequeno primata arborícola da família dos Calitriquídeos, endémico de uma área restrita da Mata Atlântica brasileira, que apresenta pelagem predominantemente dourada, com a cabeça e as extremidades negras, e se encontra ameaçado de extinção; mico-caiçara; mico-leão-caiçara.

[Texto 23 532]

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Como se traduz por aí

Quanto mais concreto, pior


      «O bairro é relativamente seguro, por isso não me preocupo assim tanto com trancar tudo ao sair, mas é certo que notei que a placa do caixilho nem sempre fecha completamente à primeira tentativa» (O Divórcio, Freida McFadden. Tradução de Carla Ribeiro e revisão de Mariana Félix. Odivelas: Alma dos Livros, 2026, p. 101). 
      Quanto mais concreta e identificável é a realidade designada, mais arriscado é traduzir as palavras sem primeiro perceber a que objecto ou mecanismo se referem. («The neighborhood is relatively safe, so I am not that concerned with locking up tight when I leave, but I did notice that the plate on the doorframe doesn’t always latch completely on the first try.») O que se passa mecanicamente é simples: ao encostar a porta, o trinco entra no orifício da chapa fixada no aro e mantém a porta fechada. Plate é essa chapa (mais precisamente, chapa-testa); latch refere-se ao engate do mecanismo. Logo: «O bairro é relativamente seguro, por isso não me preocupo muito em deixar tudo bem trancado quando saio, mas reparei que o trinco nem sempre encaixa completamente na chapa do aro da porta à primeira tentativa.»

[Texto 23 531]

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Definição: «sovaqueiro»

Ó tenente!


      Edmond Dantès esteve catorze anos à espera de sair do Castelo de If. Eu já levo outros tantos à espera de que a Porto Editora reconheça sovaqueiro também como nome: «Ó tenente, que linguagem é essa, você pensa que eu sou algum sovaqueiro? Olhe que posso mandá-lo prender» (Espingardas e Música Clássica, Alexandre Pinheiro Torres. Lisboa: Editorial Caminho, 1995, p. 166).

[Texto 23 530]

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Definição: «drone»

Não cobre todos os tipos


      Há algum dia em que não nos deparemos com a palavra drone? Não deve haver. Nos dias que correm, só «inteligência artificial» lhe leva a palma. Por isso, temos de definir com rigor a palavra. A Porto Editora distribui a matéria por duas acepções, mas omite a programação prévia, formula mal a autonomia, identifica «não tripulado» com ausência de pessoas e não estabelece que o sentido não aéreo nasceu por extensão do sentido aeronáutico. Além de que não pondera todos os aspectos. Podia ter somente uma acepção, mas, para dar conta justamente dessa evolução, mantenhamos as duas, assim ➠ drone 1. aeronave sem piloto a bordo, pilotada à distância ou capaz de executar voos programados ou autónomos; 2. [por extensão] aparelho móvel não aéreo, designadamente terrestre, aquático ou espacial, sem operador a bordo, comandado à distância ou capaz de se deslocar de forma programada ou autónoma. 
      Quanto à etimologia, liminarmente despachada com um «idem» nos dicionários, é mais assim: do inglês drone, «idem», originalmente «zângão», do inglês antigo drān; a aplicação do termo a aeronaves sem piloto, surgida na Marinha norte-americana na década de 1930, terá sido inspirada na designação do avião-alvo britânico radiocomandado DH.82B Queen Bee, «abelha-rainha».

[Texto 23 529]

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Léxico: «t»

Tₓ


      «O sofá às flores da Marti costumava ser branco, mas agora está cinzento» (O Divórcio, Freida McFadden. Tradução de Carla Ribeiro e revisão de Mariana Félix. Odivelas: Alma dos Livros, 2026, p. 28). 
      Luto há anos contra isto, que me irrita supinamente. A construção inglesa used to não se traduz sempre pelo verbo «costumar». Quando exprime um hábito passado, este pode ser o equivalente adequado: he used to go there every day, «costumava ir lá todos os dias». Mas used to também exprime estados ou situações que existiam no passado e entretanto deixaram de existir; nesses casos, «costumar» desaparece da tradução e traduz-se o verbo principal, geralmente no imperfeito: he used to be rich, «era rico»; there used to be a cinema here, «havia aqui um cinema»; the sofa used to be white, «o sofá era branco». «O sofá costumava ser branco» é compreensível e gramaticalmente possível, mas não é a maneira idiomática de exprimir em português que o sofá era branco e deixou de o ser: é um decalque da construção inglesa. Repete-se na p. 37 («costumava viver»). «Mas, por outro lado, costumava ser a minha melhor amiga» (p. 256). Se me dessem uma nota de 500 euros — menos não dá — por cada vez que encontro este erro, em livros revistos e por rever, já tinha dinheiro para comprar um T0 na Avenida da Liberdade. 
      E há alguma razão para aquele T não estar no correspondente verbete, Porto Editora? Até há definições legais! Proponho t CONSTRUÇÃO símbolo que, escrito com maiúscula e seguido de um número correspondente ao número de quartos de dormir, identifica o tipo de um fogo habitacional (por exemplo, T0, T2).

[Texto 23 528]

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Léxico: «malveína»

Outra que prometem


      «Sembrava una scoperta piccola piccola, un banale incidente di percorso nel laboratorio dove William Perkin (1838-1907), chimico inglese alle prime armi, stava lavorando alla sintesi del chinino. Andando a caccia di un farmaco contro la malaria il giovane si imbatté in un composto che avrebbe donato al mondo una serie inimmaginabile di colori e sfumature: la malveina o porpora di anilina, il primo colorante artificiale sintetizzato» («Un mondo in malva», Lidia di Simone, Storia, 14.08.2026, p. 75). 
      Não é bem assim: a malveína foi, isso sim, o primeiro corante orgânico sintético produzido e comercializado industrialmente. Passado o choque de ver que não está em todos os dicionários, e já recomposto, proponho ➠ malveína QUÍMICA corante orgânico sintético, de cor violeta, constituído por uma mistura de compostos derivados da anilina, obtido por oxidação de anilina e que contém toluidinas; descoberto em 1856 pelo químico britânico William Henry Perkin (1838-1907), foi o primeiro corante orgânico sintético a alcançar êxito comercial, dando origem à indústria dos corantes sintéticos. (Quanto à etimologia, está-se mesmo a ver, vem do inglês mauveine, termo criado pelo químico britânico William Henry Perkin (1838-1907), de mauve, «malva; cor de malva» (do francês mauve, «malva», este do latim malva, «idem»), + -ine, sufixo usado na designação de substâncias químicas.)
      Resta-me dizer que não posso indicar a fórmula química, como seria de esperar, pela simples razão de a malveína não ser uma substância única, mas uma mistura de vários compostos de composição química diferente.

[Texto 23 527]

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Léxico: «contactante»

Estão reunidas as condições


      «Desde o início de 2026, o INEM passou a comunicar ao contactante o tempo de resposta estimado.» (Lido na série documental Chamada de Emergência, na RTP1, 11.08.2026.) Há quem ache que faz falta, eu não digo que não e a própria Porto Editora promete-o para muito brevemente.

[Texto 23 526]

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Léxico: «catador»

E por falar no Brasil


      «A diferença entre um pão tradicional e um industrial não é uma questão de opinião, garante [María Ángeles Romero, professora de Tecnologia dos Alimentos], comparando este último a “uma cadeia de montagem de alta velocidade com farinhas refinadas e fermentações curtas que provocam picos de açúcar no sangue semelhantes aos da ingestão de uma sobremesa”. Para poder medir e salvaguardar o sabor do pão tradicional sem depender da subjetividade, os investigadores da cátedra [Cátedra do Pão e do Cereal da Universidade de Santiago de Compostela] recorrem igualmente a um painel de catadores especificamente treinados para avaliar a textura, crocância e acidez do pão em contexto laboratorial» («Um pão com muito miolo», José Miguel Sardo, «Revista E»/Expresso, 21.08.2026, p. 42). 
      Catadores? Não. Não porque «catador» seja uma palavra inexistente em português, mas porque não é a denominação portuguesa normal do participante treinado num painel de análise sensorial. Isso é em castelhano, como se pode comprovar no dicionário da Real Academia. Só cito o excerto porque me parece a oportunidade de completar e melhorar a definição de «catador» no dicionário da Porto Editora. Assim, proponho ➠ catador 1. que ou aquele que cata, procurando, escolhendo ou recolhendo algo; 2. Brasil que ou aquele que recolhe materiais ou objectos descartados, sobretudo para reaproveitamento, reciclagem ou venda; 3. Brasil diz-se de ou máquina usada no beneficiamento do café para separar os grãos entre si ou de impurezas.

[Texto 23 525]

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Como se escreve por aí

Ainda estamos nesta fase?


      «O ashram era modesto, sóbrio sem severidade e mais parem um colégio do que com um convento. Atravessámos am pequeno pátio com dois relvados murchos e duas árvorezinhas» (Vislumbres da Índia, Octavio Paz. Tradução de José Colaço Barreiros e revisão de João Carlos Alvim. Lisboa: Relógio D’Água, 2017, p. 35). 
      Mau... Pensava que já toda a gente sabia isto, ou pelo menos quem anda a traduzir e a rever livros. A forma correcta é «arvorezinhas», sem acento. Ao juntar-se -zinho/-zinha a uma palavra proparoxítona, desloca-se o acento tónico para o sufixo: árvorearvorezinha; lâmpada lampadazinha; príncipe → principezinho. A vogal que era tónica na palavra primitiva torna-se átona, e desaparece, portanto, o acento gráfico que apenas se justificava pela proparoxitonia.

[Texto 23 524]

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Definitivamente, «haúça/Haúças»

É capaz de ser boa ideia


      Vamos lá resolver esta pequena trapalhada, Porto Editora: registas haúça/Haúças, e fazes muito bem, é a única grafia que Rebelo Gonçalves acolhe. Mas também registas, e é aqui que começa a trapalhada, hauçá, mas somente no nome do verbete, porque no seu corpo está «haúça/Haúças». E não dicionarizas Hauçás, que me parece variante brasileira. Isto é capaz de baralhar muitos dos nossos queridos concidadãos, já de si atreitos a confusões. Emenda-te.

[Texto 23 523]

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Léxico: «série»

Até nisto somos diferentes


      «Os números mostram que o Brasil fracassa nessa tarefa. Nas séries iniciais observamos uma proporção de alunos com desempenho acima da média que não fica muito distante da de outros países. Mas, à medida que avançamos nas etapas de ensino, eles vão minguando até quase desaparecer. Eu talvez exagere, mas só um pouco, se dissesse que o Brasil está matando a inteligência» («Inteligência», Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo, 13.09.2026, p. A5). 
      Não acolhes esta «série», Porto Editora. Assim, proponho série Brasil EDUCAÇÃO cada uma das etapas sucessivas em que se organiza determinado nível de ensino, correspondendo geralmente a um ano escolar.

[Texto 23 522]

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Léxico: «quebra-vidros | corta-cintos | vídia»

Até eu tenho um


      «As ações de gangues de ladrões conhecidos como quebra-vidros, que depredam janelas de automóveis para roubar aparelhos celulares, se expandiram do centro de São Paulo para todas as regiões da cidade. [...] Para os crimes, parte dos ladrões se vale de um objeto de metal duro, conhecido como vídea» («Gangues quebra-vidros chegam a todas as regiões da capital paulista», Paulo Eduardo Dias, Folha de S. Paulo, 12.09.2026, p. A35).
      Faz parte do equipamento dos nossos bombeiros, e não faltam referências até no Diário da República, pelo que devemos dicionarizar ➠ quebra-vidros nome masculino de 2 números instrumento destinado a quebrar vidros, especialmente usado em situações de emergência ou em operações de salvamento e desencarceramento. 
      A par do quebra-vidros, os bombeiros também têm (e tenho eu no carro, do tamanho de um cartão bancário, de titânio, que me ofereceram) ➠ corta-cintos nome masculino de 2 números instrumento de emergência dotado de uma lâmina protegida, destinado a cortar cintos de segurança, sobretudo para libertar ocupantes de veículos. 
      Quanto à vídea, a Porto Editora já a acolhe com outra grafia (no Brasil aparece sob as mais desvairadas grafias), «vídia», e com outro significado. Esta do artigo pode ter-se difundido no meio criminal e policial, mas já aparece sem dificuldade na imprensa, em documentos policiais e repetidamente na linguagem judicial, por isso proponho ➠ vídia Brasil nome feminino 2. instrumento de metal duro, geralmente pontiagudo, usado para quebrar vidros, sobretudo de veículos.

[Texto 23 521]

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Como se traduz por aí

Bem precisamos deles, dos climáticos


      «Estrada estreita, de uma só faixa, com refúgios para cruzamento» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., p. 247). 
      Porquê refúgios? Como agora estamos sempre a ouvir falar, e bem precisamos, de refúgios climáticos, confundiram-se. «Single-track road with passing points.» Até na legislação portuguesa encontro o nome certo: zona de cruzamento, tão simplesmente. Ou, como vejo em legislação recentíssima, de 2023, baia de cruzamento.

[Texto 23 520]

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Léxico: «carocho-da-floresta | laurocho | carocho»

Agradecemos


      Se não fosse o Expresso, não saberia que existe o ➠ carocho-da-floresta ZOOLOGIA (Pseudanchomenus aptinoides) insecto coleóptero da família dos Carabídeos, endémico dos Açores, de corpo delgado e castanho-avermelhado e antenas longas e filiformes, que vive no solo e nos troncos das árvores das florestas nativas muito húmidas; carocho; laurocho.

[Texto 23 519]

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Definição: «sépsis»

Ultrapassada


      «Assina-se [sic], este domingo, o Dia Mundial da Sépsis. A efeméride alerta para as consequências da doença que mata 10 milhões de pessoas por ano e, em Portugal, motivou a implementação de “vias verdes” nos serviços de urgência ainda pouco conhecidas dos portugueses» («Sépsis. A doença evitável que mata 10 milhões por ano em todo o mundo», Isabel Pacheco, Rádio Renascença, 13.09.2026, 9h00).
      Sépsis, que a Porto Editora define assim: «MEDICINA estado patológico grave, que consiste numa resposta inflamatória generalizada do organismo, normalmente provocada pela presença de agentes infecciosos na corrente sanguínea, que pode levar à falência dos órgãos e até à morte; sepsia, sepse». A definição encontra-se desactualizada e contém uma incorrecção. A sépsis já não é definida como uma «resposta inflamatória generalizada», mas como uma disfunção orgânica potencialmente fatal causada por uma resposta desregulada do organismo a uma infecção. Além disso, a formulação «normalmente provocada pela presença de agentes infecciosos na corrente sanguínea» é enganadora, pois a sépsis não pressupõe a presença de microrganismos no sangue: pode ser o resultado de uma infecção localizada, designadamente pulmonar, urinária ou abdominal, sem bacteriemia. 
      Seguindo a definição internacional Sepsis-3, adoptada pela OMS, proponho ➠ sépsis MEDICINA disfunção de um ou mais órgãos, potencialmente fatal, causada por uma resposta desregulada do organismo a uma infecção. 
      Não é preciso passar do resumo para ficarmos a saber que, segundo os autores, uma das limitações das definições anteriores de sépsis era a excessiva ênfase na inflamação.

[Texto 23 518]

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Tradução: «hedge fund»

Nem a mulher sabe


      «O meu marido gere um fundo de cobertura na cidade, e trabalha mais do que todas as outras pessoas que conheço, mas respeito o facto de que, ainda que às vezes tenha de perder o nosso jantar em família, todas as noites está em casa a horas de deitar o Teddy» (O Divórcio, Freida McFadden. Tradução de Carla Ribeiro e revisão de Mariana Félix. Odivelas: Alma dos Livros, 2026, p. 14). 
      No original é hedge fund. O original não pretende obrigar o leitor americano a conhecer terminologia financeira especializada: hedge fund é uma expressão suficientemente corrente para ele perceber de imediato que o marido gere um fundo de investimento, associado ao mundo da alta finança. «Fundo de cobertura» não produz no leitor português efeito equivalente: parece técnico e, sobretudo, não é semanticamente transparente. Embora aposte que a expressão inglesa anda por aí em traduções literárias, não é isso que aconselho, como é óbvio, mas uma solução melhor e mais transparente: fundo especulativo. É muitíssimo usada em português (assim como, mas muito menos, «fundo de investimento especulativo») e imediatamente compreensível. (Pelos vistos, nem a mulher sabe ao certo o que o marido faz: primeiro gere um fundo especulativo (hedge fund); algumas páginas depois, na 27 e na 95, já é banqueiro de investimento (investment banker), e algures pelo meio ainda é mero gestor. E não, Jeremy não mudou entretanto de emprego.)

[Texto 23 517]

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Definição: «aspartame»

Grande equívoco


      «Autorizado em diversos alimentos e bebidas sem açúcar ou com teor energético reduzido, como refrigerantes e iogurtes, este adoçante decompõe-se após a ingestão em duas substâncias: o aspartame e o acessulfame K, recordou a EFSA, cuja sede é em Parma, Itália» («Aspartame não apresenta riscos para a saúde, segundo agência da UE», RTP Notícias, 11.09.2026, 7h28). 
      Há aqui, em relação ao aspartame, um grande equívoco, e como os dicionários também caem nele, vejo-me obrigado a dizer alguma coisa. O aspartame não se distingue por ter, em si mesmo, um teor calórico excepcionalmente baixo, mas pelo seu elevadíssimo poder adoçante: é cerca de 200 vezes mais doce do que a sacarose, pelo que basta empregar quantidades muito pequenas, tornando reduzidíssimo o seu contributo energético nos alimentos. É, pois, enganador afirmar, como faz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que o aspartame é utilizado como edulcorante «por ter baixo teor calórico e alto poder adoçante»: é precisamente o elevado poder adoçante que permite utilizá-lo em quantidades tão pequenas que o aporte calórico se torna desprezável. Também a caracterização inicial como simples «composto cristalino» é manifestamente insuficiente. Ser cristalino é uma propriedade física comum a inúmeras substâncias e não identifica a natureza química do aspartame. Este é, mais precisamente, o éster metílico de um dipéptido formado por ácido aspártico e fenilalanina. «Cristalino» pode naturalmente figurar na definição como característica da substância — apresenta-se como um pó cristalino branco —, mas não deve substituir a sua caracterização química. 
      Assim, proponho ➠ aspartame éster metílico do dipéptido aspartil-fenilalanina (C₁₄H₁₈N₂O₅), de elevado poder adoçante, cerca de 200 vezes superior ao da sacarose, utilizado como edulcorante artificial na indústria alimentar.

[Texto 23 516]

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Extras! Extras! Extras!

Também no Estadão


      Olha, olha, no Estadão também sabem escrever em português como deve ser: «Com guerra, aéreas registram gastos extras de R$ 5,2 bilhões» (Geovanna Hora, 9.08.2026, p. B9).

[Texto 23 515]

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Definição: «plasmaférese»

Nem referem o plasma...


      «Giorgos Mazonakis, de 54 anos, morreu, na quarta-feira, vítima de paragem cardíaca, durante uma sessão de plasmaférese, um tratamento utilizado para remover elementos nocivos da corrente sanguínea» («Cantor grego morre durante tratamento de purificação do sangue “ilegal”», Jornal de Notícias, 11.09.2026, 20h20). 
      Diz a Porto Editora: «MEDICINA técnica que consiste em fazer circular o sangue fora do corpo de uma pessoa, através de um aparelho que filtra e separa alguns dos seus componentes, antes de o reintroduzir no organismo». Não refere é o componente específico separado, isto quando está indicado pelo nome. Como tão-pouco refere, e nem podia, que o plasma pode ser recolhido, tratado e reinfundido ou substituído por uma solução apropriada. 
      Assim, proponho ➠ plasmaférese MEDICINA técnica de aférese que consiste em retirar sangue de uma pessoa, separar o plasma dos componentes celulares e restituir estes à circulação sanguínea, sendo o plasma recolhido, tratado e reinfundido ou substituído por uma solução apropriada.

[Texto 23 514]

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Léxico: «merínida | Merínidas»

Espantosas, estas lacunas


      «¿Han sido ciudades marroquíes? Ninguna de las dos ciudades, cuando fueron conquistadas, pertenecían a ninguna entidad administrativa que pueda considerarse conexa con lo que hoy es Marruecos. “Cuando los portugueses tomaron Ceuta [en 1415], estaba dominada por los benimerines, que no tienen nada que ver con Marruecos”, repasa Enrique Ávila, politólogo e historiador militar. En cuanto a Melilla, tomada al Sultanato de Fez [en 1497], estaba casi en ruinas y despoblada. “Solo empezó a interesar a las cabilas aldeñas cuando llega España”, señala el también exsecretario de la UNED en Ceuta» («La reivindicación marroquí choca con el derecho internacional», Ángel Munárriz, El País, 30.08.2026, p. 20).
      Não é esse o nome por que se conhece o povo referido nas fontes historiográficas portuguesas, mas, enfim, os nossos dicionários não registam nenhum, o que não deixa de ser espantoso. Assim, proponho ➠ merínida adjectivo de 2 géneros 1. relativo ou pertencente aos Merínidas; 2. relativo à dinastia fundada pelos Merínidas ou ao período em que esta dominou grande parte do Magrebe Ocidental | nome de 2 géneros indivíduo pertencente aos Merínidas | Merínidas nome masculino plural HISTÓRIA povo berbere do grupo zeneta, originário das regiões orientais do Magrebe, que se estabeleceu no actual Marrocos e aí fundou, no século XIII, uma dinastia muçulmana, com capital em Fez, que dominou grande parte do Magrebe Ocidental até ao século XV.

[Texto 23 513]

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Léxico: «biograma»

Ainda bem, porque revela uma lacuna


     «A vítima, aos olhos de Justin, não é Tessa mas ele próprio. No caso de Justin, os seus inimigos dependem de quem acabou de lhe falar, dos livros e jornais que leu recentemente, dos filmes que viu ou como está o biograma do dia» (O Fiel Jardineiro, John le Carré. Tradução de Helena Ramos e Artur Ramos. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2001/Biblioteca Sábado, 2007, p. 268). 
      O termo, de facto, existe, mas não é o que o autor usou nem têm relação alguma. Qualquer estudante de Psicologia ou de Sociologia o conhecerá, e a Porto Editora até o promete, pelo que proponho biograma nome masculino PSICOLOGIA, SOCIOLOGIA representação esquemática e cronológica da trajectória de vida de uma pessoa, em que se registam acontecimentos e circunstâncias significativos e, geralmente, o significado que esta lhes atribui. (Quanto à etimologia, vem do inglês biogram, «relato biográfico para fins de investigação», termo proposto pelo sociólogo norte-americano Theodore Abel (1947), de bio- + -gram.)

[Texto 23 512]

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Estado, estado...

E o critério, qual é?


      «Mas ela teve suas amizades em outros lugares. Por exemplo, na escola onde trabalhou como professora de educação infantil. E de vez em quando, por lá, surgia alguma pessoa nova (normalmente nova também em idade) que dava uma sacudida na pasmaceira curitibana do grupo e gerava uma passageira noção de integração, de sororidade» («Dolly Parton mudou o mundo da minha mãe», Caetano W. Galindo, Folha de S. Paulo, 27.08.2026, p. A42).  
      Claro que está no dicionário da Porto Editora, mas não estão todas as usadas naquela crónica. Seja como for, não é disso que quero falar, mas sim da definição, naquele dicionário, de curitibano, «relativo a Curitiba, capital do Estado do Paraná, no Brasil». Está perfeito. Agora comparemo-lo com este (mas podia ser com dezenas de outros): sergipano: «relativo ao estado de Sergipe (Brasil)». É uma de várias palavras em que grafar-se com maiúscula ou minúscula nos indica logo o que está em causa. Isto, numa qualquer obra, seja qual for a sua natureza. Num dicionário, contudo, tem outro peso, e seja como for, tem de haver um critério, ou é sempre com minúscula, que não devia ser, ou sempre com maiúscula.

[Texto 23 511]

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Léxico: «terrano»

Para prevenir


      «Talvez possamos deixar, enfim, o lastro da história e imaginar apenas que naquela mesa do Caffè San Marco, hoje café e livraria, estão Leopold Bloom e Zeno Cosini. Bloom, o protagonista do Ulysses, bebe um copo de Terrano — e faz um monólogo interior sobre a química da fermentação do vinho; Zeno lamenta ser segunda-feira de manhã e não poder acender uma cigarrilha, porque à segunda de manhã deixa sempre de fumar» («Uma história triste em Trieste», Álvaro Vieira, Público, 4.09.2026, p. 33). 
      Nem os dicionários italianos o grafam com maiúscula e nós íamos fazê-lo? Bem, e que o fizessem, as nossas convenções são outras, e é melhor arrecadá-lo nos dicionários, assim terrano vinho tinto, seco e robusto, tradicionalmente produzido na região da Venezia Giulia, em Itália, e na Ístria.

[Texto 23 510]

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Definição: «Estado-fantoche»

Mais simples e melhor


      «No final da guerra, Itália perdeu tudo isto. Em 1943, capitulou e o III Reich ocupou-lhe parte do território. Criou o Estado-fantoche da República Social Italiana, com um centro de comando em Trieste» («Uma história triste em Trieste», Álvaro Vieira, Público, 4.09.2026, p. 33). 
      Se este fosse o único tipo de Estado-fantoche historicamente documentado, a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora estaria correcta: «POLÍTICA estado nominalmente independente cuja criação e/ou existência depende de um poder estrangeiro que determina a sua orientação». Não é, porém, o caso. Um Estado preexistente pode tornar-se Estado-fantoche sem ter sido criado pelo poder estrangeiro de que passa a depender. Assim, «criação e/ou existência» introduz na definição uma circunstância que não constitui condição necessária do conceito. Assim, proponho ➠ Estado-fantoche POLÍTICA Estado nominalmente independente, mas efectivamente subordinado a um poder estrangeiro.

[Texto 23 508]

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Definição: «harmónica» Léxico: «voz»

O tal canal


      No canal Conta Lá, Tonho Açorda recorda que tinha 13 anos quando comprou a primeira harmónica, com «vinte e cinco vozes, vinte e cinco buraquinhos», na Feira de Outubro, em Ponte de Sor. Não é como gente grande, é como autêntico lexicógrafo que fala. Afinal, nem nos dicionários se usa este termo técnico na descrição do instrumento. Diz a Porto Editora de harmónica: «MÚSICA pequeno instrumento de sopro, com vários orifícios, que se faz correr entre os lábios; Alentejo flaita; gaita-de-beiços». Assim, proponho ➠ harmónica MÚSICA pequeno instrumento de sopro, provido de palhetas metálicas livres (vozes), que vibram quando se sopra ou aspira através dos respectivos orifícios, fazendo-se correr o instrumento entre os lábios. 
      E também não vejo nos dicionários esta acepção ➠ voz MÚSICA em certos instrumentos de palheta livre, som correspondente a cada uma das palhetas.

[Texto 23 507]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Vejo, Porto Editora, que no Dicionário de Toponímia registas «Ponte de Sôr». Não deixo de ficar preocupado, ainda que veja que no dicionário geral, no verbete «ponte-sorense», o grafes correctamente, «Ponte de Sor». Mas, como tudo tem consequências, terás induzido muita gente em erro. Com o Acordo Ortográfico de 1945, estes acentos deixaram de ter justificação normativa.


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Extras! Extras! Extras!

Voltemos aos nossos


      Afinal, não precisamos cá dos jornalistas espanhóis, os nossos, pelo menos neste caso, já mostraram entender. Para os gramáticos é que é mais difícil. «IRS com ganhos extras em novembro e dezembro» (António Sérgio Azenha, Correio da Manhã, 10.09.2026, p. 8).

[Texto 23 506]

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Léxico: «situação-limite»

Coitada da analogia


      «O primeiro é a facilidade com que nos deixamos enganar. Somos especialmente vulneráveis a antropomorfismos, a sentimentos; humanizamos geringonças e já lemos relatos de gente que se tenha apaixonado por um chatbot e casado com ele. Se um, vá, robô é capaz de conversar sobre tudo e escrever frases articuladas a sugerir que sente “medo” ou “dúvidas morais”, o nosso cérebro pode em situações limite sentir empatia por um código e ser algoritmicamente condicionado a comportar-se da forma A ou B» («Qual o sentido da vida, perguntou a IA ao filósofo», Pedro Candeias, editorial, Público, 4.09.2026, p. 6). 
      Mas, quando calha, escrevem-no com hífen, «situação-limite». É preferível escrever «situações-limite». Neste caso, «limite» não é como se fosse um adjectivo qualificativo, que nem é, de «situações», mas o segundo elemento de um composto em que significa «que constitui ou representa um limite». É precisamente esta a estrutura de vocábulos que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora já acolhe, como data-limite e valor-limite. Por analogia com estas formações — mecanismo de enorme importância na língua e, naturalmente, na fixação da escrita —, deverá escrever-se também situação-limite e, no plural, situações-limite. Outros compostos deste tipo que vão surgindo na imprensa e na literatura e revelem estabilidade formal e semântica deverão igualmente ser dicionarizados, contribuindo o seu registo para orientar e estabilizar a escrita. De outro modo, continuaremos a encontrar na imprensa, por vezes até no mesmo jornal, hoje uma destas formações com hífen e amanhã sem hífen.

[Texto 23 505]

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Como se pontua por aí

Nada bem


      «Os prémios eram públicos; os poemas, secretos. Aceitar o prémio, não seria quebrar o segredo, atraiçoar-me?» (Vislumbres da Índia, Octavio Paz. Tradução de José Colaço Barreiros e revisão de João Carlos Alvim. Lisboa: Relógio D’Água, 2017, p. 35). 
      Uma vírgula ali? Não pode ser. Deixou-se simplesmente levar pelo original: «Aceptar el premio, ¿no era romper el secreto, traicionarme?» Mesmo em castelhano, a pontuação de Paz só é defensável se «Aceptar el premio» for interpretado como tópico exterior à interrogativa, e não como sujeito de «era». Se for sujeito, a vírgula é incorrecta. O tradutor até podia manter a vírgula no mesmíssimo sítio, mas tinha de dar esta, ou semelhante, redacção à frase: «Quanto a aceitar o prémio, não seria quebrar o segredo, atraiçoar-me?» Não o fez, errou.

[Texto 23 504]

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Como se traduz por aí

Milhas não são a nossa cena


      «— Apanhei um susto do caraças — confessou Proctor. — Cento e cinco na A12, por favor. Nada a minha cena» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., p. 223). Assustava um pouco mais (bah, não a mim) se tradutora e revisora fizessem a conversão, que para isso são pagas: são cerca de 170 km/h. Milhas não são a nossa cena.

[Texto 23 503]

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Léxico: «monógino | monoginia | monogínico»

Três de uma vez


      «El entomólogo Dino Martins, referente científico continental, advierte del método destructivo empleado en origen. Las cuadrillas excavan los nidos para arrancar a las monarcas vírgenes justo antes del vuelo nupcial. Esta práctica interrumpe la fundación de nuevos hormigueros y condena a una especie estrictamente monógina, donde la desaparición de la única hembra fértil extingue una colonia capaz de prosperar durante un cuarto de siglo» («La “cocaína biológica”, superhormigas que se rifan las mafias internacionales», Mar Sánchez-Cascado, La Razón, 6.09.2026, p. 40). 
      Adjectivo que a Porto Editora define assim: «BOTÂNICA (vegetal) cujas flores têm um só carpelo». Mas acabo de confirmar que «monogínico» e «monógino» têm uso inequívoco em português europeu no domínio da Entomologia. O Museu Virtual da Biodiversidade da Universidade de Évora, e é apenas um de muitos exemplos, emprega-o repetidamente na descrição de formigas: a Formica cunicularia é «monogínica»; Hypoponera eduardi, «espécie monogínica»; e o mesmo sucede com a Camponotus lateralis, C. cruentatus, Aphaenogaster senilis, Crematogaster scutellaris, etc. Assim, proponho ➠ monógino adjectivo 2. ZOOLOGIA que apresenta monoginia; que possui uma única fêmea reprodutora. | monoginia nome feminino 2. ZOOLOGIA condição de uma colónia de animais sociais em que existe uma única fêmea reprodutora | monogínico adjectivo ZOOLOGIA relativo à monoginia; que apresenta monoginia.

[Texto 23 502]

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