Léxico: «régua de desgustação»

Entretanto, no Brasil


      «Serão dez taps dedicadas às sidras, mais umas 20 opções engarrafadas. O bar [Empório Alto dos Pinheiros] também vai oferecer réguas de degustação, com pequenas doses de diferentes versões —o que ajuda aos que querem aproveitar a diversidade» («Precisamos falar sobre sidras brasileiras», Sandro Macedo, Folha de S. Paulo, 31.07.2026, p. C15).
      Não temos a designação régua de degustação Brasil conjunto de pequenas doses de diferentes bebidas, especialmente cervejas, sidras ou destilados, servido para que sejam provadas e comparadas; por vezes, o suporte comprido em que os respectivos copos são dispostos.

[Texto 23 397]

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Definição: «eclipse solar», de novo

Não subornei ninguém


      «O astrónomo e divulgador de ciência Máximo Ferreira destaca ao PÚBLICO que “o eclipse do Sol é um fenómeno que só pode acontecer em ocasião de lua nova, quando a Lua se coloca entre a Terra e o Sol”. Mas se há lua nova todos os meses, porque é que só há eclipses aproximadamente de seis em seis meses? “Isso acontece porque a Lua anda à volta da Terra, mas não anda no mesmo plano”» («O Sol vai esconder-se por trás da Lua, transformando o dia em noite», Filipa Almeida Mendes, Público, 1.08.2026, p. 40). 
      Compreendo que macule a estética da entrada, o paralelismo com «eclipse da Lua», Porto Editora, mas paciência. (Também em certo condomínio a desmiolada da administradora exaltava a «estética das contas», dos quadros apresentados, mas infelizmente as contas estavam todas erradas.)

[Texto 23 396]

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Definição: «enclave» Léxico: «semienclave»

Mais rigorosamente


      «Cerca de 73.500 migrantes já saíram de Ceuta para Marrocos. Fontes policiais disseram que este número de saídas poderá incluir pessoas que entraram na avalanche que se precipitou sobre a fronteira com Marrocos do enclave espanhol no norte de África, entre quinta e sexta-feira, e outras que já estavam desde dias anteriores em Ceuta, uma cidade onde vivem pouco mais de 83 mil pessoas» («Número de vítimas mortais em Ceuta sobe para 72», Rádio Renascença, 2.08.2026, 10h10). 
      A ser alguma coisa, seria «exclave espanhol no Norte de África». Mas não: se tem uma frente aberta para o mar, será (adoptando aqui o ponto de vista do Estado em que se situa) um ➠ semienclave GEOGRAFIA POLÍTICA território que, embora quase inteiramente rodeado por território alheio, possui uma frente marítima, não constituindo, por isso, um enclave propriamente dito. 
      Donde decorre, pois bem, que a definição de «enclave» nos nossos dicionários também não está correcta. Optando (como faz a Porto Editora) por duas acepções, será mais assim ➠ enclave 1. GEOGRAFIA POLÍTICA território pertencente a um Estado ou a uma divisão político-administrativa que se encontra inteiramente rodeado por território alheio; 2. Estado soberano cujo território se encontra inteiramente rodeado pelo território de outro Estado. 
      Mas não tem necessariamente de se dividir por duas acepções, porque isto é rigorosamente equivalente  enclave GEOGRAFIA POLÍTICA território que, constituindo a totalidade de um Estado soberano ou pertencendo a outro Estado ou divisão político-administrativa, se encontra inteiramente rodeado por território alheio, sem abertura para o mar.

[Texto 23 395]

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Léxico: «superdotação»

Primeira regra: indagar da família


      «Pais e especialistas consideram um avanço a aprovação da lei que criou uma política nacional para alunos com superdotação ou altas habilidades, mas apontam para uma série de lacunas no texto e temem que as novas regras não saiam do papel» («Pais veem avanço, mas temem que lei para superdotados fique só no papel», Laura Mattos, Folha de S. Paulo, 1.08.2026, p. A35). 
      Quem é que dicionariza «superdotado», o identifica como termo corrente no Brasil, mas se esquece de acolher «superdotação»? 

[Texto 23 394]

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Léxico: «acontecedeiro»

Ainda teremos de emigrar


      «Isto é cousa natural/ e muito acontecedeira;/ se nunca fora outra tal,/ disséramos que era mal/ por serdes vós a primeira.» Rubena, filha de um clérigo, engravidara de um cónego e procurava esconder a gravidez. A fala ocorre quando já está com as dores do parto. Aparece na Comédia de Rubena, de Gil Vicente, representada provavelmente em 1521, perante o futuro D. João III e é citada, por exemplo, por Camilo na Maria Moisés. Encontrá-la apenas em dicionários brasileiros é que me deixa apopléctico. Assim, proponho ➠ acontecedeiro adjectivo arcaico que acontece facilmente ou com frequência; comum, frequente.

[Texto 23 393]

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Definição: «condomínio»

Nunca pessoal


      «L’Antarctique étant un condominium, c’est-à-dire un territoire sur lequel plusieurs puissances conviennent de partager une souveraineté, aucune institution n’est habilitée à adopter un drapeau officiel. On utilisa parfois pour le représenter un drapeau blanc et d’autres propositions émergèrent mais le plus souvent, c’est l’emblème du Traité sur l’Antarctique de 1959, un drapeau bien officiel adopté depuis septembre 2002, qui est utilisé, figurant une carte du continent en blanc sur fond bleu marine ainsi que les méridiens convergeant au pôle Sud» («Antarctique», Libération, 30.07.2026, p. VIII).
      Não escolheram muito bem o exemplo, já que a Antárctida é descrita por alguns autores como um condomínio de facto, por causa da administração internacional concertada, mas não constitui propriamente um condomínio em que diversos Estados partilhem a soberania. Serve, porém, como mero pretexto para dizer que a definição de «condomínio», nesta acepção, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora padece de vários males, e o primeiro é afirmar que pode ser exercido por uma pessoa ou nação. Não pode. Por uma pessoa não pode ser, e só pode sê-lo por um Estado, não uma nação. 
      Assim, proponho ➠ condomínio DIREITO INTERNACIONAL exercício conjunto da soberania por dois ou mais Estados sobre o mesmo território; território submetido a esse regime.

[Texto 23 392]

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Léxico: «porreirismo»

Marca nacional


      «De acordo com a narrativa apresentada por Luís Neves, o então director financeiro da PJ estava a fiscalizar uma obra executada pelo empreiteiro de Barcelos que depois fez as obras na casa de Luís Neves, e recebeu um telefonema da Armada a dizer que o atrelado tinha de sair das instalações militares onde estava. Então, surgiu um milagre, que só pode ser explicado pelo porreirismo, pelo desenrascanço e pelo chico-espertismo portugueses: o empresário ofereceu-se para guardar o atrelado e os bidões na sua empresa pro bono, sem custos para o Estado» («A insensibilidade e a ingenuidade políticas de Luís Neves», São José Almeida, Público, 1.08.2026, p. 15).

[Texto 23 391]

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Definição: «romanesco»

Variedade diatópica


      «Direte: ma se Benito Mussolini odiava il romanesco! Vero. Non solo il romanesco: tutti i dialetti» («La resistenza dei dialetti. A scuola», Gian Antonio Stella, Corriere della Sera, 1.08.2026, p. 40). 
      A Porto Editora define-o como «dialecto social do povo de Roma», ou seja, o social dialect de alguma linguística de tradição anglo-saxónica, mas nós sempre dissemos sociolecto. Não é um sociolecto: o seu critério identificador é territorial, Roma, portanto é uma variedade diatópica, não diastrática. Tanto assim é que o Houaiss até o identifica, talvez também com exagero, com o Trastevere. Hoje em dia, o romanesco e os seus traços atravessam diferentes grupos sociais, formando um contínuo com o italiano regional de Roma. 
      Tudo visto, proponho ➠ romanesco LINGUÍSTICA dialecto de Roma que, por influência do toscano, se tornou muito próximo do italiano comum. 
      A etimologia que vemos no dicionário da Porto Editora também é enganadora, porque dá a entender que o termo se formou na nossa língua. É antes do italiano romanesco, «idem», derivado de romano, «romano», + -esco.

[Texto 23 390]

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Definição e etimologia: «oratória | oratório»

Convém é não misturar as duas


      «O meu principal tema de estudo é a história da música na corte portuguesa do século XVIII, com um enfoque específico nos géneros musicais sacros e dramáticos, como as oratórias. Estas obras eram apresentadas na corte, compostas por compositores da corte portuguesa e de outras partes da Europa, e tinham como objetivo entreter, mas também, de certa forma, edificar, contando histórias religiosas e refletindo a atmosfera religiosa da corte [afirma, em entrevista, Danielle M. Kuntz]» («“D. Maria l promoveu música onde se destacavam governantes femininas como Ester ou outras mulheres da Bíblia”», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 3.08.2026, p. 24). 
      Que a Porto Editora define assim: «LITERATURA, MÚSICA peça dramática, poema ou larga composição vocal e instrumental com coros e solistas, de assunto religioso, bíblico ou hagiográfico». Muito melhor está no Houaiss, mas que também não é exemplar. Uma solução deste, porém, devia logo à partida ser seguida pela Porto Editora: em «oratória» remeter simplesmente para «oratório». Neste verbete, uma das acepções diria mais ou menos isto ➠ oratório MÚSICA composição vocal e instrumental extensa, geralmente para solistas, coro e orquestra, que combina elementos dramáticos, narrativos e contemplativos, se baseia tradicionalmente num texto de assunto religioso e é, em regra, executada sem representação cénica; oratória. 
      Quanto à etimologia, deve ter-se em conta que «oratória» e «oratório» têm origens imediatas distintas nas acepções fundamentais. A primeira alteração é eliminar definitivamente o falso «idem» da Porto Editora e explicar a evolução sem atribuir ao latim um género musical que só surgiu muitos séculos depois. Ficaria assim ➠ do latim oratorĭa- [ars], «arte oratória»; na acepção musical, ver oratório
      Em «oratório», a etimologia é ➠ do latim oratorĭu-, «lugar destinado à oração»; na acepção musical, do italiano oratorio, designação proveniente dos exercícios musicais e devocionais realizados nos oratórios romanos a partir do século XVI.

[Texto 23 389]

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Léxico: «cinta-liga»

Em que se fala de Betty Boop


      «Em dois anos, a jovem branca de olhos grandes ficou completamente humana. Enfiada num vestido preto, com cinta-liga e cabelo curto, era uma flapper, como chamavam a mulher sexualmente livre, que sabia se divertir: beber, fumar, dirigir carros, o que fosse. Com o furacão [do Código] Hays, Boop foi ficando mais recatada, perdendo o emprego de pin-up —e a graça» («Betty Boop e Cab Calloway inspiraram coquetel», Daniel de Mesquita Benevides, Folha de S. Paulo, 31.07.2026, p. C13). 
      Tem razão o jornalista: flapper era então o nome dado à jovem mulher que, pela indumentária e pelo comportamento ousado e independente, desafiava as convenções sociais da época. O Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, contudo, apresenta esta 7.ª acepção de flapper: «coloquial (anos 20) rapariga nova, rapariga adolescente, garota». A definição mistura dois sentidos historicamente distintos: o mais antigo e geral, de «rapariga adolescente», e o que a palavra adquiriu nos anos 20, como designação de um tipo social feminino caracterizado pela ruptura com as convenções. A Porto Editora pode acolher ambos — ou apenas o segundo, de longe o mais conhecido —, mas deve distingui-los e defini-los correctamente. O do artigo é este flapper HISTÓRIA jovem mulher da década de 1920 que, pela indumentária e pelo comportamento independente e ousado, desafiava as convenções sociais da época. 
      Mas voltemos, antes que se nos varra da memória, a ➠ cinta-liga Brasil VESTUÁRIO peça de roupa interior, constituída por uma faixa que se ajusta à cintura ou às ancas e da qual pendem tiras elásticas, geralmente reguláveis e terminadas em presilhas, destinadas a sustentar meias até à coxa; cinto de ligas.

[Texto 23 388]

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Definição: «pasteurização»

Não tão simples


      «Secondo la normativa vigente (Reg. CE 853/2004), per “latte crudo” si intende un latte che non è stato riscaldato a più di 40 °C. E noto, tuttavia, che per inattivare i microrganismi patogeni vegetativi devono essere raggiunte temperature ben superiori, come quelle di pastorizzazione: 72 °C per 15 secondi oppure 63 °C per 30 minuti oppure una combinazione con effetto equivalente» («Che cos’è il latte crudo?», Valentina Santarpi, Corriere della Sera, 3.08.2026, p. 22). 
      Ora aí está: ou uma combinação de efeito equivalente. É o que falta na definição de «pasteurização» do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «processo de conservação dos alimentos em que estes são aquecidos a uma temperatura não superior a 100 °C e arrefecidos depois rapidamente, de forma a eliminar os germes patogénicos». Se alguém aquecesse um alimento a 99 °C durante um segundo, pela definição da Porto Editora isso continuaria, absurdamente, a caber no conceito de pasteurização. Na realidade, o critério dos 100 °C é inadequado como elemento definidor; «eliminar os germes patogénicos» é excessivamente absoluto; e falta o carácter tecnológico do processo. 
      Assim, proponho ➠ pasteurização processo de conservação de alimentos que consiste em submetê-los a um tratamento térmico controlado, normalmente inferior a 100 °C e definido por uma combinação específica de temperatura e tempo, seguido de arrefecimento rápido, a fim de destruir ou reduzir a níveis seguros os microrganismos patogénicos e retardar a deterioração do produto.

[Texto 23 387]

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Léxico: «cacifro»

Mais uma resgatada do olvido


      «— Não vamos tão longe, sr. Maurício — emendou o minorista — O que se diz é que ele passava o Tâmega nas poldras, com a cana de pesca e o cacifro; depois, metia­-se na Ínsua, e a Josefa ia lá ter» (Maria Moisés, Camilo Castelo Branco. Lisboa: INCM, 2020, p. 21). 
      De «cacifro», a Porto Editora remete para «cacifo», e aqui só uma acepção atinente, não à pesca, mas à caça: «cesto de vime onde os caçadores levam o furão». Na obra de Camilo, contudo, é um aparelho de pesca, que encontramos também noutros autores do século XX. Vai sendo trabalho de pura arqueologia. Assim, proponho ➠ cacifro PESCA cesto de verga, geralmente de forma circular e levado a tiracolo, em que o pescador guarda o peixe capturado, podendo mantê-lo dentro de água para conservar as capturas vivas ou frescas.

[Texto 23 386]

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Definição: «orgasmo»

Resposta neurofisiológica


      Na passada sexta-feira, foi Dia Mundial do Orgasmo. Podia ter sido também dia para melhorar a definição de «orgasmo», mas estamos sempre a tempo, até porque as definições que por aí vejo me deixam, não sei, desentusiasmado, desentesado, desiludido... Assim, consultados Masters e Johnson e o que a literatura médica actual diz, proponho ➠ orgasmo FISIOLOGIA resposta neurofisiológica correspondente à fase culminante da excitação sexual, caracterizada por intensa sensação de prazer e, geralmente, por contracções musculares involuntárias dos órgãos genitais e da região pélvica. 
     Quanto à etimologia, pode dizer-se muito mais, assim ➠ do grego orgasmós, «excitação; impulso; efervescência», derivado de orgáō, «inchar; estar excitado; arder de desejo», pelo francês orgasme, «orgasmo».

[Texto 23 385]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Não deixaria de dicionarizar este, tão encontradiço, orgasmo intelectual figurado sensação intensa de prazer, deleite ou êxtase, especialmente provocada por uma experiência estética ou intelectual.


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Etimologia: «convescote»

Não caiu do céu


      «Bem me lembro, estão aqui anotadas no caderno vermelho: as palavras “alpendre” e “vitrola”, citadas entre as cinquenta de que nos fomos perdendo, reunidas num estudo do Observatório da Língua Portuguesa. Eu tinha ficado preso a uma outra, a palavra “convescote”, criada pelo latinista carioca António de Castro Lopes de quem acabo de encontrar, em Braga, um admirador e estudioso entusiasta, o actor e dramaturgo Manoel Candeias, doutorado em artes de cena pela universidade de Campinas» («A vitrola no alpendre», Fernando Alves, TSF,  24.06.2026, 8h53). 
      Não se dizer isto, que é absolutamente certo, está documentado, nos dicionários é que me deixa perplexo.

[Texto 23 384]

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Léxico: «engasgalhado»

Outra desaparecida dos dicionários


      «— Aqui o tens tal qual o topei engasgalhado num amieiro, berço e tudo. Olha que desgraça, ó Isabel!» (Maria Moisés, Camilo Castelo Branco. Lisboa: INCM, 2020, p. 44).

[Texto 23 383]

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Léxico: «não pôr mais na carta»

Até na Alemanha sabem


      «— Não ponhas mais na carta. Tosquei tudo! Que bailões! E a Ruiva também era...» (A Ruiva, Fialho de Almeida. Porto: Ernesto Chardron, 1881, p. 14). 
      Já aparece em muito poucos dicionários, isto quando se trata de uma expressão frequente na literatura do século XIX e até do século XX. Encontro-a, por exemplo, no Die falschen Freunde: Portugiesisch-Deutsch, Deutsch-Portugiesisch, em que é traduzida por «du brauchst nicht deutlicher zu werden», isto é, «não precisas de ser mais explícito». 

[Texto 23 382]

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A propósito de «Celtic»

Sabido, mas esquecido


      No sentido de «celta» ou «céltico», a pronúncia actualmente corrente é /ˈkeltɪk/. A pronúncia /ˈseltɪk/, historicamente anterior em inglês e hoje pouco usada nestas acepções, conserva-se sobretudo em nomes próprios, como Celtic Football Club. A pronúncia com /k/, difundida a partir do século XVIII e consolidada no século XIX por historiadores e linguistas, foi resultado da aproximação às formas antigas (grego Keltoí e latim Celtae), em que a consoante inicial se pronunciava /k/. isto mesmo, ou abreviado, se devia dizer no verbete Celtic do Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora. A apresentação actual, ao enumerar /ˈkeltɪk/ e /ˈseltɪk/ sem nenhuma indicação de uso, leva a supor que ambas são hoje igualmente correntes nas acepções «celta, céltico» e «ramo de línguas celta», o que não corresponde ao uso predominante. Seria conveniente manter ambas, mas distinguir a pronúncia moderna geral da variante histórica, actualmente conservada sobretudo em nomes próprios.

[Texto 23 381]

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Léxico: «diamantário»

Ora, também a temos


      «Les diamantaires anversois ont offert “Freedom 250” au président américain, qui a décidé d’exempter les diamants taillés importés de Belgique de taxes. Un rabbin dénonce un “acte flagrant de corruption”. Et porte plainte contre Trump, sur fond d’enquêtes sur des pratiques de circoncision» («Donald Trump et la bague de la discorde», Valérie de Graffenried, Le Temps, 29.07.2026, p. 5). 
      Ah, mas nós também temos a palavra diamantário, sinónima de «diamantista», o que negoceia com diamantes, só falta que no-la devolvam para os dicionários.

[Texto 23 380]

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Como se escreve (e pensa!) por aí

Andam aos papéis


      «O gabinete do Chega na Assembleia da República foi encontrado vandalizado ontem de manhã. A porta do gabinete, sabe o Correio da Manhã, não foi rebentada nem sequer forçada e terá sido uma empregada de limpeza a verificar o vandalismo e a alertar a GNR» («Ventura denuncia invasão ao gabinete do Chega», Miguel Bravo Morais e Diogo Carreira, Correio da Manhã, 29.07.2026, p. 6). 
      Isto é que é rigor jornalístico: vandalizado. Vi imagens na CNN Portugal, e apareciam papéis, livros, gavetas, até um exemplar do Correio da Manhã (deve ter sido este a testemunha do jornal, a fonte) que pareciam ter sido cuidadosamente postos no chão. Documentos sensíveis... Quem é que guarda documentos sensíveis numa sala que não fecha à chave?

[Texto 23 379]

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Definição: «samacaca»

Mais o padrão que o tecido


      «A estilista Hilmane Simão afirmou, ontem, no Lubango, que o pano “Samakaka” carece de mais valorização quer pelos estilistas, em particular, quer pela sociedade, em geral. [...] Na sua óptica, é uma mais-valia a proposta do Governo da Huíla apresentada ao Ministério da Cultura para que a Samakaka seja classificada como Património Nacional Imaterial. [...] O pano reflecte a identidade das comunidades do Sul do país, concretamente das províncias da Huíla, do Namibe, Cunene, Cuando, Cubango e de Benguela, uma vez que alguns municípios utilizam a Samakaka como referência para várias actividades culturais. Embora o tecido não seja produzido no país, os seus símbolos, cores e formas de utilização são referenciados e utilizados nas cinco províncias, razão pela qual não vai ser classificado o pano em si, mas o seu valor cultural e imaterial» («Hilmane Simão apela para mais valorização do pano Samakaka», Jornal de Angola, 23.06.2026, p. 28). 
     Assim, proponho ➠ samacaca ETNOGRAFIA padrão decorativo tradicional associado às comunidades do Sul de Angola, caracterizado por motivos geométricos repetitivos e cores contrastantes, aplicado sobretudo a panos e vestuário e constituindo um importante símbolo de identidade cultural.

[Texto 23 378]

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Léxico: «attómetro»

É mais uma batata


      A Terra, sempre ouvimos dizer e lemos, é redonda. Nenhum dado da NASA ou de outra qualquer entidade veio pôr isto em causa. Não é esférica, é redonda. Infelizmente, nenhuma acepção do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora tem a clareza e objectividade da correspondente à segunda acepção do Dicionário da Real Academia, que define «redondo» como «de forma esférica o semejante a ella». (Tal como a primeira é «de forma circular o semejante a ella».) É essa a palavra-chave: semelhante. Porque as esferas são objectos geométricos absolutamente perfeitos, em que cada parte da sua superfície está à mesma distância do centro com uma exactidão absoluta, não de metros, mas de milímetros, nanómetros, attómetros. E tudo porque não há esferas na Natureza. Sim, estou a ver. Assim, proponho ➠ attómetro METROLOGIA submúltiplo do metro, de símbolo am, equivalente a 10⁻¹⁸ metros.

[Texto 23 377]

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Como se traduz por aí

Pobres espectadores


      Último episódio da série inglesa Ludwig, na RTP2. Sala de interrogatórios. «I need to remind you», diz o inspector Carter, «you are still under caution, Mrs. Betts-Taylor.» Já ouvimos isto centenas e centenas de vezes. Under caution significa que está a ser interrogada como suspeita, depois de informada de que não é obrigada a responder e de que as suas declarações poderão ser usadas como prova. A fórmula inglesa não tem equivalente nominal directo e transparente em português. O tradutor e legendador da série, Luís M. A. Freitas, achou que resolvia tudo assim: «Relembro-lhe que ainda está sob aviso.» Puro disparate. Teria de se ir além das palavras, da fórmula, para transmitir ao espectador, imerso noutra cultura, o que está em causa. Podia ser assim: «Recordo-lhe que continua a ser interrogada na qualidade de suspeita [e de que tudo o que disser poderá ser usado como prova], senhora Betts-Taylor.»

[Texto 23 376]

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Léxico: «saioto»

Até Camilo precisa da nossa ajuda


      «— Do sr. capitão-mor? Não me pareceu; que ela ia de saia escura, e levava um saioto pela cabeça» (Maria Moisés, Camilo Castelo Branco. Lisboa: INCM, 2020, p. 10).

[Texto 23 375]

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Um caso curioso: «bocca di rosa»

Mudem primeiro a realidade


      Mesmo quem nunca ouviu falar de Fabrizio De André talvez ache este caso curioso. Em 1967, o cantautor italiano publicou a canção Bocca di Rosa, cuja protagonista é uma mulher que vive livremente a sua sexualidade. Na letra, De André distingue-a expressamente de quem «faz amor por profissão»: «C’è chi l’amore lo fa per noia,/ chi se lo sceglie per professione;/ Bocca di Rosa né l’uno né l’altro,/ lei lo faceva per passione.» («Há quem faça amor por tédio, há quem o escolha por profissão; Bocca di Rosa nem uma coisa nem outra: fazia-o por paixão.») Era, portanto, assim que o autor via a sua personagem. Sucede que os falantes italianos cedo começaram a interpretá-la de outra forma. A expressão bocca di rosa entrou na língua comum e acabou por ser usada como sinónimo de «prostituta», acepção que o próprio Treccani ainda hoje regista. Agora, quase sessenta anos depois, a próxima edição do dicionário poderá abandonar essa definição e passar a definir bocca di rosa como «mulher livre», aproximando-se da interpretação que o autor sempre fez da sua criação. A notícia levanta, porém, uma questão interessante. Um dicionário deve corrigir uma interpretação que considera errada ou deve limitar-se a registar o significado que uma palavra adquiriu no uso? Ao que tudo indica, os Italianos começaram muito cedo a entender bocca di rosa como sinónimo de «prostituta», e foi esse o significado que a expressão acabou por adquirir na língua. É por isso que me interrogo se faz sentido um dicionário tentar alterá-lo, quase sessenta anos depois. A língua tem o seu curso próprio e dificilmente muda por decisão dos lexicógrafos. Um dicionário pode influenciar o uso; dificilmente o substitui.

[Texto 23 374]

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Léxico: «fossorial»

Também tem esta segunda


      «“Em cobras, em geral, você tem uma marcação na parte interna da caixa craniana correspondente ao teto óptico. Mas ela não aparece na Tametara”, explicou ela [Gabriela Sobral, investigadora ligada à UnB (Universidade de Brasília) e ao Museu Estadual de História Natural de Estugarda, na Alemanha] à Folha. É um indício forte de que o bicho tinha hábitos fossoriais (de vida embaixo da terra). “Não seria algo eventual, superficial — ela realmente estava habitando um ambiente subterrâneo”» («Serpente ancestral do Brasil provavelmente passava boa parte da vida debaixo da terra», Reinaldo José Lopes, Folha de S. Paulo, 26.07.2026, p. A37). 
      Se afirmas que é o termo da Zoologia que significa «relativo ao acto de fossar, de escavar ou remexer (terra, lama, etc.) com o focinho», isso quer dizer, Porto Editora, que te falta uma segunda acepção em ➠ fossorial 2. ZOOLOGIA relativo aos animais adaptados à escavação e à vida subterrânea; que vive ou se desenvolve debaixo da terra.

[Texto 23 373]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 




P. S.: Hoje ouvi alguém dizer que Fulano ia «expelir uma encomenda». Mais uma cagada. Bem, mas pelo menos esta não estava numa tradução. (A cagada, Porto Editora, é qualquer coisa muito malfeita. Podia ser só malfeita; mas não, é muito malfeita.)


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Definição: «geóide»

Não é a forma: é modelo


      «Isto porque, devido à rotação da Terra, o planeta apresenta um ligeiro achatamento nos polos e uma saliência na região do equador. Assim, e em resposta à gravidade da Terra e à rotação da Terra, o planeta assume a forma de um geóide» («A Terra é uma esfera perfeita? Imagem da NASA revela que o planeta é uma batata», Diogo Camilo, Rádio Renascença, 28.07.2026, 19h15). Sabe-se lá que ortografia o jornalista está a usar... Não vamos falar disso, mas sim de geóide. 
      Infelizmente, a conclusão não decorre da premissa. O que leva a que a Terra seja, em primeira aproximação, um elipsóide de revolução (ou esferóide oblato) é o achatamento polar. Não é que seja erro que não se leia em dicionários. O geóide entra em cena por outra razão: porque a distribuição de massas no interior da Terra não é uniforme e, consequentemente, o campo gravítico também não o é. O geóide é a superfície equipotencial desse campo gravítico. Trocando por miúdos, a rotação explica essencialmente o achatamento polar; as anomalias do campo gravítico explicam as pequenas ondulações do geóide. Agora geóide tem de ser definido como deve ser. Para começar, não tem de ter duas acepções, sobretudo quando a segunda está totalmente errada. Na realidade, a segunda decorre directamente da primeira; não designa um objecto diferente, pelo que proponho ➠ geóide GEODESIA superfície equipotencial do campo gravítico terrestre que coincide aproximadamente com o nível médio do mar e se prolonga idealmente através dos continentes, constituindo o modelo que representa a forma física global da Terra. 
      Uma nota etimológica clara e desenvolvida que decompusesse correctamente o étimo, esclarecesse que o termo técnico é uma criação moderna e explicasse por que motivo «geóide» deixou de significar apenas «semelhante à Terra» para passar a designar um conceito científico muito preciso, eu saudá-la-ia pela oportunidade, utilidade e didactismo. Vai daí, levado pela regra de ouro de S. Mateus, proponho ➠ do grego geoeidḗs, «semelhante à Terra» (gê, «Terra», + -oeidḗs, «semelhante a»), termo criado em geodesia pelo matemático alemão Johann Benedict Listing (1808-1882) para designar a superfície equipotencial do campo gravítico terrestre que serve de referência para representar a forma física da Terra.

[Texto 23 372]

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Definição: «roça»

Reduzidas a isso?


      «Foi ontem, ainda madrugada em Portugal, início de tarde em Busan, na Coreia do Sul, que São Tomé e Príncipe entrou, pela primeira vez, para a lista de países com património reconhecido pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) como tendo valor universal. Seis das roças do arquipélago, testemunhas de um complexo sistema de produção agrícola que cobria todo o território criado pela colonização portuguesa, primeiro com base em mão-de-obra escrava e, depois, mercê de migrações e trabalho forçados, são a partir deste domingo património mundial. [...] As roças assumem um papel central na sociedade são-tomense construída pelo colonialismo português, escravocrata na sua base. Mesmo depois de 1875, ano da abolição da escravatura no território a que os portugueses chegaram em 1471, ela, de certa forma, manteve-se, sob a forma de trabalho forçado, em condições desumanas, executado pelos chamados serviçais ou contratados, oriundos de vários países da África continental» («Uma “paisagem viva” que já é património mundial», Lucinda Canelas, Público, 27.07.2026, p. 24).
      Como é que podemos definir tão pobremente «roça» nos nossos dicionários? Proponho assim ➠ roça (São Tomé e Príncipe) grande propriedade agrícola de origem colonial, dedicada à agricultura de plantação, sobretudo de cacau e café, que integrava áreas de cultivo e um conjunto de edifícios, instalações e infra-estruturas, formando uma unidade económica e social relativamente autónoma.

[Texto 23 371]

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Definição: «novilúnio» Léxico: «luz cinérea»

Já que estamos nisto


      Fiquei siderado perante a diferença de tratamento entre os verbetes «plenilúnio» e «novilúnio». Nem a etimologia é vista pela mesma óptica. Assim, proponho ➠ novilúnio ASTRONOMIA fase do ciclo lunar em que a Lua se encontra entre o Sol e a Terra, ficando a face lunar voltada para a Terra praticamente não iluminada; lua nova. Quanto à etimologia, vem do latim novilunĭu-, «idem».

[Texto 23 370]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Escrevi «praticamente não iluminada», e não «não iluminada», porque a face lunar voltada para a Terra pode receber uma ténue iluminação da luz reflectida pela Terra. A Porto Editora sabe disto, já que este fenómeno se encontra registado no mesmíssimo Dicionário da Língua Portuguesa sob a designação luz cinzenta, mas luz cinérea é hoje a mais corrente na literatura astronómica especializada. Poderão, por isso, ponderar o acolhimento de ➠ luz cinérea/cinzenta ASTRONOMIA ténue iluminação da parte da face da Lua voltada para a Terra e não directamente iluminada pelo Sol, provocada pela luz solar reflectida pela Terra, sendo especialmente visível durante o novilúnio.


P. P. S.: Claro que isto nos deve levar, e nós felizes da vida, a acrescentar uma acepção em ➠ cinéreo 2. ASTRONOMIA relativo à luz cinérea.


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Definição: «eclipse solar»

Só em novilúnio


      «Los eclipses solares solo ocurren en luna nueva, con lo que los expertos descartan que hubiese un eclipse durante la crucifixión de Jesús, porque, aunque la Biblia dice que la Tierra se cubrió de oscuridad, la crucifixión se produjo durante la pascua judía, que tiene lugar en luna llena» («La azotea desde la que Galicia esperó la oscuridad sigue en pie un siglo después», Mila Méndez, La Voz de Galicia, 28.07.2026, p. 28). 
      Simplificada, mas verdadeira, a primeira afirmação leva-nos a outra conclusão: a definição de eclipse solar dos nossos dicionários deixa na penumbra muito do que se passa. Assim, proponho ➠ eclipse solar ASTRONOMIA fenómeno em que a Lua se interpõe entre a Terra e o Sol, provocando a ocultação total ou parcial do disco solar para os observadores situados na zona de visibilidade do eclipse, e que só pode ocorrer durante a fase de lua nova.

[Texto 23 369]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Optei por evitar o termo «ocultação», à semelhança do que sucede nas descrições do fenómeno em obras e publicações de Astronomia, uma vez que o eclipse do Sol consiste propriamente na interposição da Lua entre a Terra e o Sol, da qual resulta a ocultação total ou parcial do disco solar para os observadores situados na zona de visibilidade do eclipse.


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Léxico: «corta-cascos | dinheiral | casqueamento»

Porto Editora, trata do caso


      O quê, um corta-cascos de 60 cm custa 140 euros?! Isso não é um dinheiral, uma pipa de massa? Talvez uma roubalheira. Oh, as cabras até vão achar mais piada que se faça o casqueamento com um estojo de pedicura de 9 euros do AliExpress. Talvez até saia mais barato levá-las a uma academia das nails. Como é que sabem que não se pode?

[Texto 23 368]

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Léxico: «alga-castanha-asiática»

Posso ir ali abaixo colher uma amostra


      «Barreiras flutuantes no mar, imagens de satélite, dados oceanográficos, informação meteorológica e algoritmos de inteligência artificial. Cascais está a avançar com um conjunto de projetos tecnológicos e científicos para tentar travar a expansão da alga-castanha-asiática, espécie com o nome científico Rugulopteryx okamurae, que é originária do Pacífico e tem vindo a alastrar-se pela costa portuguesa, ameaçando praias, a biodiversidade marinha e a atividade económica ligada ao mar» («Cascais usa inteligência artificial para travar alga antes de chegar às praias», Paulo Lourenço, Jornal de Notícias, 27.07.2026, p. 16). 
      Que está bem estudada, tanto que proponho alga-castanha-asiática BOTÂNICA (Rugulopteryx okamurae) alga castanha marinha, da família Dictyotaceae, originária do Nordeste do oceano Pacífico, actualmente invasora em várias regiões do Atlântico e do Mediterrâneo, onde prolifera rapidamente e afecta os ecossistemas costeiros e actividades económicas ligadas ao mar. 
      (Tratando-se de um organismo tão comum e tão abundantemente fotografado, surpreendeu-me a opção de se ilustrar o verbete de «alga» com uma imagem gerada por inteligência artificial. Ao que isto chegou!)

[Texto 23 367]

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Definição: «chumbeira»

Ao contrário do guardanapo


      «— Vejo, pedaço d’asno, vejo: é a alma do capitão-mor que anda a pescar bogas com chumbeira... Não vês que é um homem em fralda? Abre esses olhos, bruto!» (Maria Moisés, Camilo Castelo Branco. Lisboa: INCM, 2020, p. 13). 
      A Porto Editora define-a como a «rede de pesca em forma de cone, com um peso de chumbo no vértice; tarrafa». Aqui, ao contrário do guardanapo, lembram-se?, dá-se a ideia que a rede tem inicialmente a forma de um cone. Não tem. E ficamos sem saber como se usava. Assim, proponho ➠ chumbeira 1. PESCA rede de pesca de arremesso, geralmente circular e provida de chumbos na borda, que, ao ser lançada, se afunda e toma a forma de um cone, envolvendo os peixes; tarrafa; 2. PESCA cada um dos pesos de chumbo fixos na borda de uma rede de pesca, destinados a fazê-la afundar-se.

[Texto 23 366]

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Léxico: «bruxelês | brabantino/brabanção»

Mais importante do que se pensa


      «Dans ce décorum oriental censé suggérer les saveurs des tabacs turcs, un dromadaire – une bosse, donc c’est un dromadaire, même si en anglais, camel s’applique au dromadaire comme au chameau – regarde vers la gauche. Jusqu’ici, rien d’extraordinaire sous les étoiles. Mais regardons-y de plus près. Comme une illusion d’optique camouflée dans le sommet de la patte avant gauche de l’animal, on découvre l’invité surprise. Qui? Le Manneken-Pis! Littéralement “le petit homme qui pisse” en bruxellois, dialecte de la capitale belge où ne cesse de faire pipi un petit garçon en bronze haut de 55 centimètres» («Camel, cherchez le Manneken-Pis», Alexandre Lanz, Le Matin Dimanche, 26.07.2026, p. 38). 
      Não está nos nossos dicionários neste sentido?! Bem, tratemos do caso propondo ➠ bruxelês LINGUÍSTICA dialecto tradicional da cidade de Bruxelas, pertencente ao grupo dos dialectos brabanções e fortemente influenciado pelo francês.

[Texto 23 365]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 



P. S.: Ah, sim, agora fica a faltar este: brabantino/brabanção LINGUÍSTICA grupo de dialectos neerlandeses tradicionalmente falados na região histórica do Brabante.


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Definição: «troiano»

Mais especificamente


      A propósito de uma leitura recente sobre Tróia no Corriere della Sera, reparei que o verbete «troiano» no dicionário da Porto Editora pode ser significativamente melhorado. A definição actual («de Tróia, antiga cidade da Ásia Menor») identifica a cidade de forma demasiado genérica. Julgo que seria mais informativo escrever algo como ➠ relativo ou pertencente a Tróia, antiga cidade fortificada da Tróade, no Noroeste da Ásia Menor, célebre por ter sido, segundo a tradição homérica, palco da Guerra de Tróia.

[Texto 23 364]

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Etimologia: «biquíni»

Pardon, Monsieur Réard !


      «On considère Louis Réard, un ingénieur qui a dû reprendre après la guerre la boutique de lingerie de sa mère, comme l’inventeur de ce vêtement. Si le maillot de bain deux pièces existait déjà dans les années 30, il cachait un détail anatomique alors tabou: le nombril. La trouvaille de Réard tient dans la sobriété du bikini: quatre triangles de tissu, deux en haut et deux en bas, reliés par de minces liens» («La révolution bikini, quatre triangles de tissu qui ont bouleversé la société», Julia Werner, Le Matin Dimanche, 26.07.2026, p. 38). 
      Não devíamos ser tão ingratos, e por isso a etimologia devia ser ➠ do francês bikini, nome dado pelo estilista francês Louis Réard, por alusão ao atol de Bikini, nas ilhas Marshall, onde haviam sido realizados ensaios nucleares norte-americanos, numa referência ao impacto explosivo que esperava causar o novo fato de banho.

[Texto 23 363]

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Léxico: «ruge-ruge»

Não é só para brincar


      «Marcolino Fernandes vincou que só para descascar os vimes “são precisas mais de duas horas”. “Fui fazendo, mas estraguei muita quantidade de vimes para aprender e construir as minhas cestas, às quais já perdi conta. Aprendi e nunca mais deixei de fazer cestas e cestos e outros objetos, como chapéus e peças musicais para entretenimento, como ruge-ruges”, explicou» («Cesteiro da Terra de Miranda conserva arte de fazer cestos de vime há 50 anos», Rádio Renascença, 26.07.2026, 9h18). 
      Que não é somente, Porto Editora, o guizo de criança. Há abundante documentação etnográfica e musicológica que confirma que é um instrumento musical, um idiofone. Assim, proponho ruge-ruge ETNOGRAFIA, MÚSICA instrumento popular de madeira, dotado de um mecanismo giratório que produz um ruído forte e repetitivo quando accionado, usado em procissões, manifestações populares ou para entretenimento; cega-rega; rela.

[Texto 23 362]

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Léxico: «hepatite A, hepatite B, hepatite C...»

A lógica é a mesma


      «Portugal registou um aumento expressivo de casos de hepatite A em 2025, com 1.164 infeções confirmadas, mais 845 do que no ano anterior, o que representa uma subida de 265%» («Hepatite A dispara em Portugal com mais de mil casos em 2025», Anabela Góis, Rádio Renascença, 28.07.2026, 7h00). 
      Há algum bom motivo para os dicionários não acolherem os vários tipos de hepatite, como fazem com a diabetes, por exemplo? Bem me parecia, pelo que proponho ➠ hepatite A — forma de hepatite viral, geralmente aguda, transmitida sobretudo por via fecal-oral; hepatite B — forma de hepatite viral transmitida pelo sangue e por outros fluidos corporais, podendo tornar-se crónica; hepatite C — forma de hepatite viral transmitida sobretudo pelo sangue, frequentemente crónica; hepatite D — forma de hepatite viral que apenas ocorre em indivíduos infectados pelo vírus da hepatite B; hepatite E — forma de hepatite viral, geralmente aguda, transmitida sobretudo por via fecal-oral.

[Texto 23 361]

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Léxico: «cheiíssimo | seriíssimo | ...»

Eu já pensei


      O panorama é este: a Porto Editora não acolhe nem promete acolher «chessimo». Mas promete registar brevemente «serssimo». Até aqui, não tem muito que criticar. Bem, um bocadinho. Contudo, vejo que usa a forma menos consensual (e não recomendada) «cheíssimo» em alguns verbetes de dicionários bilingues. Ao Houaiss, em contrapartida, poucos escapam: cheiíssimo, feiíssimo, friíssimo, maciíssimo, necessariíssimo, ordinariíssimo, precariíssimo, seriíssimo, sumariíssimo, vadiíssimo, variíssimo... Decerto, alguns admitem variantes, mas não quanto a «cheiíssimo». Pensem nisso.

[Texto 23 360]

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Palavras que podíamos ter: «meridiação»

Não aconteceu


      Podíamos ter, em vez de «sesta» (afinal, tão espanhola como chinesa), «meridiação». Costuma dizer-se que a sesta é um costume tipicamente espanhol, mas a verdade é bem menos folclórica. Dormir um pouco depois do almoço é um hábito comum a muitos povos, sobretudo nas regiões mais quentes. Os próprios Romanos já o praticavam e tinham até um nome para esse repouso do meio-dia: merīdiātiō, -ōnis (embora não seja rigoroso afirmar, como já vi, que o termo foi criado por Plínio, o Jovem, ou por Suetónio; ambos apenas o documentam). Se o português tivesse herdado esse vocábulo latino, hoje talvez disséssemos, muito naturalmente: «Vou fazer a minha meridiação.» A forma seria perfeitamente regular. A língua, porém, seguiu outro caminho. Acabámos por ficar com sesta, palavra que remonta à hora sexta romana, a hora do dia em que tradicionalmente se interrompia o trabalho para descansar. A «meridiação» nunca chegou a fazer esse percurso, mas bem podia tê-lo feito. A «meridiação» nunca chegou a nascer em português. Nem em nenhuma outra língua.

[Texto 23 359]

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Pronúncia e etimologia: «horda»

Na verdade, acampamento


      Recomendo-te, Porto Editora, tendo em conta até o que ouvi hoje de manhã, que indiques a pronúncia da palavra «horda», que tem a vogal tónica aberta, como «corda». É uma indicação útil, já que não são raros os falantes que tendem a fechar o o por analogia com outras palavras. Vejo também que a nota etimológica pode ser melhorada: a glosa «guarda militar» é pouco rigorosa, pois orda significava antes «acampamento militar» ou «exército»; a origem é hoje geralmente enquadrada no domínio turco-mongol, e não apenas tártaro; a forma horda na língua de origem é discutível, uma vez que a proveniência do h- inicial permanece incerta; além disso, a nota omite a evolução semântica que conduziu do sentido original ao actual. 
      Assim, proponho ➠ do francês horde, «idem», do turco-mongol orda, «acampamento militar; exército», aparentado com o turco ordu, «exército».

[Texto 23 358]

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Léxico: «abacial»

E evita perífrases


      «Chapiteau de l’abbatiale de Romainmôtier, avec une couleur retrouvée. Les pigments avaient été recouverts de gris sous la période bernoise», leio numa legenda a uma imagem na edição de 28.07.2026 do jornal suíço 24 heures. Poucos são os nossos dicionários e vocabulários que indicam «abacial» como nome. O VOLP da Academia Brasileira de Letras não deixa de o fazer. Assim, proponho ➠ abacial nome feminino igreja principal de uma abadia; igreja abacial.

[Texto 23 357]

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Definição: «bilionário»

Posso falar com o gerente?


      A definição de «bilionário» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora continua a merecer revisão. Segundo o dicionário, é bilionário «quem tem fortuna na ordem dos biliões (de euros, dólares ou outra unidade monetária)». Basta, porém, um único contra-exemplo para mostrar que a definição não é satisfatória. Um jornal de língua inglesa, ao referir-se a Mansa Musa, frequentemente apontado como o homem mais rico da História, estima hoje a sua fortuna em 300 a 400 mil milhões de dólares. Ou seja, converte o valor do seu património para uma moeda de referência actual antes de o qualificar. Ora, ninguém considera bilionário quem possua um bilião de rupias apenas porque atingiu esse número de unidades monetárias. O conceito depende do valor da fortuna, não da mera quantidade de unidades monetárias. A definição da Porto Editora continua, por isso, a confundir valor patrimonial com quantidade nominal de moeda.

[Texto 23 356]

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Léxico: «zoofarmacognosia»

Toda a gente sabe


      «Based on the fact that animals use plants like these to treat themselves, plant biologists have coined the term ‘zoopharmacognosy’ – ‘zoo’ stands for animals, ‘pharmaco’ for medicines, and ‘gnosy’ for knowledge» («Zoopharmacognosy — when animals medicate themselves», D. Balasubramanian, The Hindu, 26.07.2026, p. 13). 
      É hoje bem conhecido que muitos animais recorrem espontaneamente a substâncias naturais para se tratarem. O artigo menciona, entre outros exemplos, orangotangos que aplicam plantas medicinais sobre feridas, chimpanzés que engolem folhas para combater parasitas, elefantes que mastigam folhas de orégãos para aliviar dores e aves que incorporam ervas aromáticas nos ninhos para afastar insectos. Assim, proponho ➠ zoofarmacognosia ZOOLOGIA, ETOLOGIA comportamento pelo qual certos animais seleccionam e utilizam espontaneamente plantas, minerais ou outras substâncias naturais para prevenir, aliviar ou tratar doenças, combater parasitas ou favorecer a cicatrização de feridas; automedicação animal.
      Quanto à etimologia, vem do inglês zoopharmacognosy, formado a partir do grego zôion, «animal», phármakon, «remédio; medicamento», e gnôsis, «conhecimento».

[Texto 23 355]

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Definição: «lóbi»

Olhemos de novo para isto


      Entrou ontem em vigor a Lei do Lóbi (Lei n.º 5-A/2026, de 28 de Janeiro). Está assim na hora de revisitarmos o verbete no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «1. POLÍTICA actividade de quem, abstendo-se do exercício directo do poder público, procura influenciar aqueles que o exercem, no sentido de acautelar os seus próprios interesses; lobby, lobismo; 2. POLÍTICA conjunto organizado de indivíduos que desenvolve essa actividade; grupo de pressão; lobby». (E o itálico, pá?)
      Vejamos, no respeitante à primeira acepção: «os seus próprios interesses» é demasiado restritivo. Um lóbi pode defender interesses próprios ou alheios, ou interesses sectoriais, profissionais, económicos, ambientais, culturais, etc. Uma associação de doentes, uma ONG ambiental ou uma ordem profissional fazem lóbi sem defenderem necessariamente interesses próprios. Já «acautelar» é um verbo algo estreito. O objectivo pode ser promover, defender, representar ou favorecer interesses. Passando à segunda acepção, também aqui há um pequeno problema: nem todo o grupo de pressão é um lóbi, nem todo o lóbi é apenas um conjunto de indivíduos. Pode ser uma associação, uma empresa, uma federação, um sindicato, uma organização não-governamental, etc. Além disso, em ciência política costuma distinguir-se grupo de interesse de grupo de pressão, embora na linguagem corrente muitas vezes se confundam.
      Tudo visto e ponderado, proponho ➠ lóbi 1. POLÍTICA actividade consistente em procurar influenciar a elaboração, adopção, alteração ou revogação de decisões dos poderes públicos, sem participar directamente no exercício do poder, em defesa, promoção ou representação de interesses próprios ou de terceiros; lobismo; lobby; 2. POLÍTICA grupo, organização ou entidade que exerce a actividade de representação e defesa de interesses mediante a influência sobre as decisões dos poderes públicos; grupo de pressão; lobby.

[Texto 23 354]

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Dia de calor cruel

Novo paradigma, novas palavras


      «Crianças se refrescam em parque aquático público no distrito de Edogawa, em Tóquio, nesta quinta-feira (23), enquanto ao menos seis locais do país registram a mesma magnitude nos termômetros; em 2026, japoneses passaram a usar uma expressão para descrever tamanha quentura: “kokushobi”, dia de calor cruel» («Com novo termo para designar altas temperaturas, Japão enfrenta dia de 40°C», Folha de S. Paulo, 24.07.2026, p. A44). 
      É uma legenda a uma imagem muito interessante, tão interessante quanto o fenómeno linguístico. No Japão já existia uma escala lexical bastante consolidada para os dias quentes: natsubi (25 °C ou mais), «dia de Verão»; manatsubi (30 °C ou mais), «dia de Verão intenso»; mōshobi (35 °C ou mais), «dia de calor extremo». Mas os 40 °C, outrora excepcionais, tornaram-se suficientemente frequentes para a Agência Meteorológica Japonesa entender que era necessário um novo termo oficial: kokushobi (酷暑日), literalmente «dia de calor cruel» ou «dia de calor impiedoso». O vocábulo foi adoptado este ano para os dias em que a temperatura máxima atinge ou ultrapassa os 40 °C.

[Texto 23 353]

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Léxico: «o-minimalidade»

Terminamos assim


      «Dos quatro laureados, o único que não atua no território americano é Tsimerman. Ele leciona na Universidade de Toronto, no Canadá. A medalha foi fruto de sua contribuição na reformulação da o-minimalidade como um método fundamental da geometria algébrica aritmética e complexa» («Chinesa é a 3ª mulher a ganhar Medalha Fields, o Nobel da matemática, em 90 anos», Phillippe Watanabe, Folha de S. Paulo, 24.07.2026, p. A41). 
      Se chegou aos jornais, merece ser dicionarizada, esta ➠ o-minimalidade nome feminino MATEMÁTICA propriedade de certas estruturas ordenadas segundo a qual os conjuntos definíveis numa variável são uniões finitas de pontos e intervalos.

[Texto 23 352]

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Definição: «láurea»

Mas não poético


      «Pela terceira vez na história da Medalha Fields, existente desde 1936 e usualmente tido como o Nobel da matemática, uma mulher foi premiada. Trata-se da chinesa Hong Wang, 35. Completam a lista dos vencedores deste ano um matemático chinês, um americano e um canadense. O anúncio dos nomes dos ganhadores da láurea, entregue a cada quatro anos, ocorreu nesta quinta-feira (23) no Congresso Internacional de Matemáticos, na Filadélfia, nos Estados Unidos» («Chinesa é a 3ª mulher a ganhar Medalha Fields, o Nobel da matemática, em 90 anos», Phillippe Watanabe, Folha de S. Paulo, 24.07.2026, p. A41). 
      Até o registas, Porto Editora, mas a significar prémio, galardão, não diria que é poético, pois ocorre com frequência, pelo menos no Brasil, em prosa jornalística, académica e cerimonial, com tom elevado, mas não propriamente poético. Literário, sim. Ou até sem marca na 2.ª acepção, caso o corpus mostre uso suficientemente corrente. Literário parece-me, em todo o caso, mais exacto do que poético.

[Texto 23 351]

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Léxico: «simpléctico | geometria simpléctica»

Nem assim


      «Pardon leciona nos Estados Unidos, na Universidade Stony Brook. Sua láurea foi entregue pelo trabalho desenvolvido em geometria simplética e por contribuições a outras áreas da geometria e topologia» («Chinesa é a 3ª mulher a ganhar Medalha Fields, o Nobel da matemática, em 90 anos», Phillippe Watanabe, Folha de S. Paulo, 24.07.2026, p. A41).
      Facilita que já tenhas o verbete, Porto Editora, embora apenas relativo à zoologia. Mas, diacho, até temos uma especialista reconhecida internacionalmente em geometria simpléctica, que é Ana Cannas da Silva, docente na ETH Zurique. Assim, proponho ➠ simpléctico MATEMÁTICA relativo ou pertencente às variedades e estruturas geométricas definidas por uma forma diferencial fechada e não degenerada. 
      E não teríamos a tarefa concluída se não definíssemos e dicionarizássemos ➠ geometria simpléctica MATEMÁTICA ramo da geometria diferencial que estuda as variedades simplécticas e as estruturas nelas definidas, com aplicações, nomeadamente, à mecânica hamiltoniana e à física matemática.

[Texto 23 350]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Já hoje, na edição do jornal The Hindu, vi a geometria simpléctica ser apresentada como a área da matemática usada para descrever o movimento dos sistemas físicos, por exemplo, o de uma rocha que desce uma encosta ou o dos planetas em torno das estrelas.


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Bê-á-bá: o plural

Portanto, eles é que sabem português


      E escrevem todos assim, não apenas este ou aquele: «Isso nos leva às motivações profundas dos Bolsonaros» («O que querem os Bolsonaros?», Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo, 24.07.2026, p. A5). «Contavam que os partidos cairiam no colo dos Bolsonaros por gravidade, identificação ideológica e rejeição ao PT de Luiz Inácio da Silva» («Direita profissional acha Flávio amador», Dora Kramer, Folha de S. Paulo, 24.07.2026, p. A5).

[Texto 23 349]


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Léxico: «biposto»

Para termos o par


      «As boas notícias para a fabricante russa haviam continuado neste ano, com o voo do primeiro protótipo de dois lugares, visando conquistar o mercado da Índia. Nova Déli era parceira inicial no projeto do Su-57 justamente de olho na versão biposta, mas abandonou o programa» («Caça Sukhoi Su-57, aeronave mais avançada da Rússia, cai pela primeira vez perto de Moscou», Igor Gielow, Folha de S. Paulo, 24.07.2026, p. A32). 
      Já devia estar nos dicionários, onde já encontramos «monoposto», «que ou veículo que só tem lugar para o condutor; monolugar» (como se lê no dicionário da Porto Editora). Assim, proponho ➠ biposto adjectivo, nome masculino Brasil que ou veículo que tem lugar para duas pessoas; de dois lugares. 
      Para esta redacção estabelecer um paralelismo perfeito com «monoposto» e evitar a referência específica ao «condutor», que não serve para todos os contextos (por exemplo, um avião monoposto tem um piloto, não propriamente um condutor), proponho ➠ monoposto adjectivo, nome masculino Brasil que ou veículo que tem lugar para uma só pessoa; de um só lugar.
[Texto 23 348]
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Definição: «perfil»

Não reflecte a realidade actual


      «Duas pessoas com conhecimento do assunto disseram à Folha que o avião era mesmo um Su-57 que sofreu falha nos seus dois motores, algo bastante raro e sério. A versão foi corroborada pelo perfil do Telegram Fighterbomber, ligado aos militares» («Caça Sukhoi Su-57, aeronave mais avançada da Rússia, cai pela primeira vez perto de Moscou», Igor Gielow, Folha de S. Paulo, 24.07.2026, p. A32). 
      Já tens uma acepção de «perfil» relacionada com a informática («INFORMÁTICA conjunto de dados que identificam um utilizador numa determinada rede social»), mas não cobre boa parte dos casos. Por exemplo, e é apenas um de muitos, um perfil da Netflix não ficaria abrangido pela definição, já que nem sequer identifica necessariamente um utilizador, mas antes um conjunto de preferências. Mais: quando alguém diz «visitei o perfil dele no Telegram», não está a pensar no conjunto abstracto de dados, mas na página acessível que os reúne. Assim, na verdade, coexistem dois sentidos, pelo que proponho ➠ perfil 11. INFORMÁTICA conjunto de informações e definições associado a um utilizador ou entidade numa plataforma, aplicação ou serviço digitais; 12. INFORMÁTICA conta ou página em que essas informações são apresentadas.

[Texto 23 347]

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Léxico: «furtividade»

Uma qualidade apreciável


      «Do ponto de vista simbólico, é um baque para a Rússia. O Su-57 é o modelo mais moderno do país, sendo inserido na categoria de quinta geração por incorporar elementos como furtividade ao radar» («Caça Sukhoi Su-57, aeronave mais avançada da Rússia, cai pela primeira vez perto de Moscou», Igor Gielow, Folha de S. Paulo, 24.07.2026, p. A32).

[Texto 23 346]

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Léxico: «linguine»

O ingrediente que falta


      Ontem ao almoço comi linguine com alho e camarão ou, como dizem os chefes mais badalados, com uns pozinhos ou pazadas de peneiras e manias, linguine aglio e gamberi. Para estar mesmo saboroso, Porto Editora, só falta dicionarizares linguine CULINÁRIA massa alimentar seca de sêmola de trigo duro, originária da Ligúria, em fios longos, estreitos e achatados, de secção lenticular, semelhante ao esparguete, mas ligeiramente mais larga e plana.

[Texto 23 345]

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Definição: «barata-oriental» Léxico: «blatelídeo»

Três baratas


      Vamos agora para a definição que a Porto Editora nos dá da barata-oriental «ZOOLOGIA (Blatta orientalis) insecto ortóptero, da família dos Blatídeos, de distribuição cosmopolita, corredor, pode atingir cerca de três centímetros de comprimento e tem coloração escura, quase negra, com asas curtas, castanhas (macho) ou incolores (fêmea)». Sem conversa fiada nem floreios, temos classificação desactualizada como ortóptero; omissão dos hábitos sinantrópicos; ausência de referência ao habitat característico (locais húmidos, frescos e sombrios); descrição pouco precisa da coloração e das asas; formulação pouco rigorosa do dimorfismo sexual das asas. 
      Analisado o que de mais relevante diz a literatura especializada, proponho ➠ barata-oriental ZOOLOGIA (Blatta orientalis) insecto blatódeo, da família dos Blatídeos, de distribuição cosmopolita e hábitos sinantrópicos, que pode atingir cerca de três centímetros de comprimento, tem coloração castanho-escura a negra, vive preferencialmente em locais húmidos, frescos e sombrios e apresenta asas reduzidas, que cobrem apenas parte do abdómen no macho e são vestigiais na fêmea.

[Texto 23 344]


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P. S.: A literatura especializada diverge quanto à família em que deve ser integrada a barata-alemã (Blattella germanica), encontrando-se tanto Ectobiídeos (Ectobiidae) como Blatelídeos (Blattellidae). Não existe, porém, nenhuma divergência relevante quanto à ordem: trata-se de um blatódeo (Blattodea), e não de um ortóptero (Orthoptera).


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Definição: «barata-alemã» Léxico: «ectobiídeo»

Duas baratas


      Passemos agora à definição da Porto Editora da barata-alemã «ZOOLOGIA (Blatella germanica) insecto ortóptero, da família dos Blatídeos, de distribuição cosmopolita, pode atingir cerca de um centímetro e meio de comprimento e tem coloração castanha, de tonalidade clara, com duas listas longitudinais escuras no pronoto; barata-francesa». Também telegraficamente, apresenta estes problemas e lacunas: classificação desactualizada como ortóptero; classificação taxonómica incorrecta na família; omissão dos hábitos sinantrópicos; ausência de referência ao habitat característico (habitações e outros edifícios); descrição pouco precisa da coloração. 
      Tudo visto, proponho ➠ barata-alemã ZOOLOGIA (Blattella germanica) insecto blatódeo, da família dos Ectobiídeos, de distribuição cosmopolita e hábitos sinantrópicos, que pode atingir cerca de um centímetro e meio de comprimento, tem coloração castanho-clara a castanho-amarelada e duas listas longitudinais escuras no pronoto, sendo a espécie de barata mais comum em habitações e outros edifícios.

[Texto 23 343]

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Definição: «barata-americana» Léxico: «blatódeo»

Uma barata


      «En España hay tres especies de cucarachas: la germánica o de cocina (Blattella germanica); la americana o roja (Periplaneta americana); y la oriental o negra (Blatta orientalis). La germánica es la típica de las cocinas y también se llama rubia por su color; la americana es la más grande, de tono rojizo y capaz de volar» («Más cucarachas, mosquitos o garrapatas debido al calor», Eva M. Rull, La Razón, 24.07.2026, p. 58). 
      Em Portugal, as fontes científicas referem sistematicamente as mesmas três espécies como as principais em meio urbano, pelo que as conclusões do artigo seriam perfeitamente transponíveis para cá. Mas vamos a definições. Há desde logo uma incorrecção comum às três definições no dicionário da Porto Editora: estas espécies não são actualmente classificadas como insectos ortópteros, mas como insectos da ordem dos blatódeos (Blattodea). Há décadas que a entomologia abandonou essa classificação. É ver, por todas, a Zootaxa, uma publicação taxonómica de referência. Diz a Porto Editora em relação à barata-americana «ZOOLOGIA (Periplaneta americana) insecto ortóptero, da família dos Blatídeos, de distribuição cosmopolita, corredor mas capaz de voar, pode atingir cerca de quatro centímetros de comprimento e tem coloração castanha, com asas de tonalidade avermelhada que, no caso dos machos, podem ultrapassar o abdómen». 
      Enunciando telegraficamente os problemas e lacunas, temos: classificação desactualizada como ortóptero; omissão dos hábitos sinantrópicos; ausência do característico pronoto marginado de amarelo-claro; descrição pouco precisa da coloração e das asas; formulação menos clara das capacidades de correr rapidamente e de voar. 
      Tudo visto, proponho ➠ barata-americana ZOOLOGIA (Periplaneta americana) insecto blatódeo, da família dos Blatídeos, de distribuição cosmopolita e hábitos sinantrópicos, que pode atingir cerca de quatro centímetros de comprimento, tem coloração castanho-avermelhada e pronoto marginado de amarelo-claro, sendo capaz de correr rapidamente e de voar.

[Texto 23 342]

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Léxico: «orjavão»

É segui-los


      «O cirurgião da terra, que matava pelo Portugal Medico e pelo Mirandela, receitava-lhe implastos de ervas orjavão e semprónia, fervidas em um quartilho de aguardente» (Maria Moisés, Camilo Castelo Branco. Lisboa: INCM, 2020, p. 29). Orjavão ou gervão, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apenas regista este último. Seja como for, no Brasil conhecem muito melhor do que nós as espécies florísticas que designam.

[Texto 23 341]

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Léxico: «rotinice»

Bem expressiva


      «Carolina não tinha nenhum d’esses instinctos delicados e espontaneamente artisticos, que são a revelação da mulher; nos seus menores labores era de uma incorrecção tosca e de uma rotinice escura» («A Ruiva», in Contos, Fialho de Almeida. Porto e Braga: Ernesto Chardron Editor, 1881, p. 96).

[Texto 23 340]

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No plural

Pois então


      «A contenção dos Bolsonaros» (Adriana Fernandes, Folha de S. Paulo, 23.07.2026, p. A3). Vá lá, no Brasil ainda sabem contar e escrever: um Bolsonaro + um Bolsonaro = dois Bolsonaros. Cá é que os que se têm na conta de linguistas (título que a si mesmos atribuem) defendem o contrário, contrariando o génio da língua.

[Texto 23 339]

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Léxico: «contação»

Prometer e cumprir


      «Aldeia indígena em Mato Grosso tem contação de histórias à beira da fogueira» (Gabriel Justo, Folha de S. Paulo, 23.07.2026, p. B12).

[Texto 23 338]

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Léxico: «cabaretista»

Outra a que deram sumiço


      «El escritor Maurice Genevoix lo hizo en 2020, consagrando con su figura a los combatientes de la I Guerra Mundial. Los del 14. El nombre de una generación heroica y perdida: la de los poilus o peludos, los franceses que lucharon y murieron en las trincheras de la Gran Guerra. Fue muy interesante y polémica también la inclusión de Josephine Baker, mujer, negra, cabaretista, extranjera y de origen pobre» («La herencia simbólica de Macron culmina con la entrada en el Panteón de Marc Bloch», Daniel Verdú, El País, 24.06.2026, p. 5).

[Texto 23 337]

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Léxico: «soberano»

Porque não é o mesmo


      «O desembargador Gonçalves Penha contou dez mil cruzados em soberanos sobre a mesa onde o tabelião escrevera» (Maria Moisés, Camilo Castelo Branco. Lisboa: INCM, 2020, p. 77). Definir «soberano» como designação da libra esterlina representa apenas metade da história. A concisão é uma virtude, mas não à custa da exactidão. Este trecho de Camilo é um excelente argumento a favor de uma definição mais desenvolvida: «dez mil cruzados em soberanos» só faz pleno sentido se o leitor souber que o soberano era uma moeda de ouro, e não apenas outro nome da libra esterlina. É precisamente esse dado histórico que a definição actual da Porto Editora omite. Assim, proponho ➠ soberano moeda de ouro inglesa correspondente ao valor de uma libra esterlina; [por extensão] designação da própria libra esterlina.

[Texto 23 336]

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P. S.: Embora o soberano fosse, por excelência, a moeda de ouro correspondente ao valor de uma libra esterlina, existiram também o meio soberano (10 xelins) e, muito mais raramente, o duplo soberano (2 libras) e o quíntuplo soberano (5 libras). Os dois últimos tiveram circulação muito limitada. E não tenham pena do desembargador: os dez mil cruzados não eram dez mil soberanos. Como o pagamento era feito em moeda inglesa, o número de moedas dependia do câmbio entre o cruzado e a libra esterlina. Por volta de 1850, término da acção, dez mil cruzados corresponderiam a cerca de setecentos soberanos, um bom monte de ouro, sem dúvida, mas muito longe das dez mil moedas que uma leitura apressada pode fazer imaginar.


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