Léxico: «síndrome de Hulk»

Passar-se dos carretos


      «A sessão terminou antes de confessar o crime – o que irá fazer, segundo o advogado de Defesa. Pedro Pestana vai, no entanto, argumentar que o jovem sofre de transtorno explosivo intermitente, uma condição psiquiátrica caracterizada por episódios graves de agressividade desproporcionais ao evento que os desencadeia conhecido vulgarmente com ‘síndrome de Hulk’» («Viúva empurra culpa para amante, defesa alega ‘sindrome de Hulk’», João Carlos Rodrigues, Correio da Manhã, 5.05.2026, p. 14). 

      Ora, ora, e não sofremos todos? Só que, se formos minimamente sãos de espírito, travamos a tempo. Mas quanto à designação da síndrome, sim, é de uso popular, mas usada na imprensa e até em tribunal. A correspondência unívoca com transtorno explosivo intermitente é que é imprudente, pelo que proponho ➜ síndrome de Hulk PSIQUIATRIA designação popular do quadro caracterizado por episódios súbitos de agressividade extrema, desproporcionada e descontrolada, podendo envolver violência grave contra terceiros, frequentemente seguida de exaustão ou perturbação da memória; aproxima-se de descrições clínicas como a síndrome de amoque ou o transtorno explosivo intermitente, sem com estas corresponder de forma rigorosa.

[Texto 22 932]

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Léxico: «termosselado»

Mais um que fica selado


      «Apesar de haver pratos sazonais como as feijoadas, a base de tudo é a sopa, que está a ser triturada aqui mesmo ao lado — a favorita do chef é a Sopa da Pedra. Da panela (mais alta do que nós) sai uma varinha mágica proporcional. Ao lado, as sopas são embaladas e termosseladas por um robô, como aquele que sela as embalagens das refeições que seguem para a zona de expedição» («Os supermercados querem ser os novos restaurantes?», Inês Duarte de Freitas e Rita Caetano, Público, 2.05.2026, 8h44).

[Texto 22 931]

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Léxico: «peixe-capitão»

É peixe, capitão


      «Sem hesitar, peço um peixe-capitão fumado, acompanhado por asas de raia com molho de alcaparras» («Na rota da escravatura», Tiago de Matos Fernandes, «Revista E»/Expresso, 17.04.2026, p. 31). 

      No caso, porque varia, já que se dá o mesmo nome a outras espécies noutras zonas do globo, é ➜ peixe-capitão ZOOLOGIA designação comum, em países da África Ocidental, de peixes marinhos do género Lethrinus (família Lethrinidae), de corpo robusto e hábito costeiro, muito utilizados na alimentação, frequentemente consumidos fumados.

[Texto 22 930]

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Léxico: «donzelinho | samarrinho»

A casta e o vinho


      «A zona, estando colada ao Douro, tem com ele uma grande cumplicidade de castas e métodos de produção, havendo assim uma proximidade entre os vinhos produzidos nestas terras altas. Já em 1532, Rui Fernandes, na sua “Descrição do Terreno em Redor de Lamego Duas Léguas”, nos dá informações essenciais sobre os vinhos na época, na zona de Lamego mas também no Douro. Muitas das castas de que hoje falamos já vêm aqui citadas, como bastardo, malvasia, castelão, verdelho, terrantez, donzelinho, samarrinho, mourisco, ferral e felgosão (que creio ser a que hoje chamamos Folgosão)» («Para uma história do espumante em Portugal», João Paulo Martins, «Revista E»/Expresso, 24.04.2026, p. 34).

[Texto 22 929]

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Definição e etimologia: «hantavírus»

Não tão simples


      «O Ministério dos Negócios Estrangeiros confirma, através da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, que há um português a bordo do navio de cruzeiro, retido ao largo de Cabo Verde devido a um surto de infeção respiratória a bordo. [...] Cabo Verde recusa a entrada do navio, onde três pessoas morreram e há outras duas infetadas com hantavírus, um vírus transmitido por roedores» («Há um português a bordo do cruzeiro onde morreram 3 pessoas», Anabela Góis e Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 4.05.2026, 13h41). 

      É a oportunidade para actualizar e melhorar a definição e a etimologia. Assim, proponho ➜ hantavírus PATOLOGIA grupo de vírus da família Hantaviridae, do género Orthohantavirus, cujo reservatório natural são roedores, transmitido ao ser humano sobretudo por inalação de aerossóis contaminados com excreções (urina, fezes, saliva) desses animais; raramente, e apenas em algumas estirpes (nomeadamente o vírus Andes), pode ocorrer transmissão entre humanos; pode provocar infecções graves, designadamente a febre hemorrágica com síndrome renal e a síndrome pulmonar por hantavírus, caracterizadas por febre, aumento da permeabilidade capilar e atingimento renal ou respiratório.  

      Vem do inglês hantavirus, «idem», a partir do topónimo Hantan (rio da península da Coreia), onde o vírus foi identificado durante a Guerra da Coreia (1950-1953).

[Texto 22 928]

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Definição: «autólise»

E não queremos isso


      «Ainda que as principais inovações tenham sido, como vimos, no século XIX, durante o século XX houve avanços científicos que ajudaram ao apuro da técnica de produção. O saber sobre o assunto é um work in progress que entra pelo século XXI. Por exemplo, ainda não há conclusões definitivas sobre o uso da carica ou de uma rolha com grampo para conservar a garrafa fechada durante o estágio, atendendo à permeabilidade (entrada de oxigénio) de um e outro vedante; a técnica de contagem de leveduras que ajuda à melhor definição da bolha do vinho; o fenómeno da autólise das leveduras — que ocorre quando as células da levedura morrem e as suas próprias enzimas começam a quebrar as estruturas celulares e a libertar compostos aromáticos» («Para uma história do espumante em Portugal», João Paulo Martins, «Revista E»/Expresso, 24.04.2026, p. 34). 

      Um leitor que vá do artigo para a definição no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora concluirá inevitavelmente que um dos dois está incorrecto: «BIOLOGIA destruição espontânea dos tecidos orgânicos». Está de tal forma incompleto, que só pode gerar dúvidas no leitor leigo que consulta o dicionário. 

      Para evitar isso, proponho ➜ autólise BIOLOGIA degradação de células ou tecidos por acção das enzimas próprias da célula, geralmente após a morte celular ou em condições que comprometem a sua integridade, conduzindo à desagregação dos seus constituintes.

[Texto 22 927]

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Léxico: «ané | fante»

Isto interessa-nos


      «Do lado de cá, nas margens de Aného, um braço do rio antecipa-se à foz e, sem pedir licença, faz uma incisão na linha costeira, para se encontrar com o Atlântico. Foi precisamente ali que, no final do século XVII, os anés, originários da antiga Costa do Ouro, procuraram refúgio dos ataques do Império Denkyira, cujos grupos armados procuravam sequestrá-los, fosse para os escravizar, fosse para os vender a mercadores europeus, através de intermediários da etnia fante. Sendo originários do local onde, 200 anos antes, os portugueses haviam construído o Castelo de São Jorge da Mina (no atual Gana), os anés passaram a integrar o conjunto de povos chamados Mina» («Na rota da escravatura», Tiago de Matos Fernandes, «Revista E»/Expresso, 17.04.2026, p. 30).

      Quanto a fante, o Houaiss indica que também tem a variante fânti, o que devemos ter em conta.

[Texto 22 926]

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Léxico: «executividade | pré-executividade»

Já nos esquecíamos deste


      «Há, contudo, uma distinção importante a fazer entre as disposições que produzirão efeitos imediatos e aquelas que dependem de regulamentação para ter plena executividade» («Com nova Lei da Nacionalidade, Portugal reescreve o futuro de muitos imigrantes», Amanda Rattes, Público, 4.05.2026, 9h30).

[Texto 22 925]

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Léxico: «edipianismo»

Do glossário psicanalítico


      «Na análise a um romance de um autor de renome da sua época, uma leitura sugerida pelo seu círculo mais próximo, Freud percorre muitos dos temas com que definiu o seu próprio trabalho: o edipianismo, o inconsciente, a interpretação dos sonhos e, como o título o indica, o delírio» («Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen», Carlos Leone, «Revista E»/Expresso, 24.04.2026, p. 53).

[Texto 22 924]

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Léxico: «escorrente»

Já que o prometes, Porto Editora


      «Treplicou a Nação uns dias depois, tempo necessário ao mosqueteiro, que estava na capital, para cevar o trabuco com cacos de pote e sal escorrente das salmouras» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 99).

[Texto 22 923]

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Definição: «biruta | manga-de-vento»

É hoje


      De cada vez que passava, e passo várias vezes por semana, por uma biruta na A5, fazia uma nota mental para ir consultar o dicionário da Porto Editora para ler a definição. Aconteceu hoje, agora. A definição suscita, à primeira leitura, duas reservas. Por um lado, revela-se excessivamente extensa e descritiva, com pormenores que pouco acrescentam à identificação do objecto. Por outro, ao circunscrever o uso aos domínios da aeronáutica e da meteorologia, e sobretudo nesta ordem, pode levar a supor que se trata de um dispositivo próprio sobretudo de aeródromos e heliportos, quando, na prática, é igualmente comum em vias rápidas e auto-estradas, onde assinala a presença e intensidade do vento lateral. Assim, proponho ➜ biruta METEOROLOGIA, AERONÁUTICA dispositivo indicador da direcção e intensidade do vento à superfície, constituído por um tubo de tecido em forma de cone truncado, aberto nas duas extremidades, fixo pela boca mais larga a um aro no topo de um mastro e livre na extremidade mais estreita, que se distende e orienta com o sopro do vento, sendo usado em aeródromos, vias rodoviárias e outros locais expostos; manga-de-vento. 

      Quanto à etimologia, vem do francês biroute, de origem incerta, possivelmente relacionado com formas dialectais associadas a «tubo» ou «manga» e, por via semântica, à ideia de direcção (cf. route). 

      Em inglês, o dispositivo designa-se windsock, composto transparente de wind, «vento», e sock, «meia», atestado desde o início do século XX no sentido técnico de cone de tecido usado para indicar a direcção do vento. A imagem é evidente: uma «meia» ou tubo de pano que se enche com o vento. Em português, além de «biruta», ocorre a designação «manga-de-vento», igualmente transparente; trata-se de um composto lexicalizado do tipo nome + preposição + nome, que deve grafar-se com hífen. Apesar disso, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista «manga-de-vento» (nem «manga de vento») como entrada autónoma, limitando-se a apresentá-la como sinónimo na entrada «biruta».

[Texto 22 922]

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Léxico: «burkeano»

O tal erro


      «Edmund Burke (1729-1797) é talvez um dos mais marcantes actores e autores políticos — conjuntamente com Winston S. Churchill (1874-1965) — que expressaram e defenderam o espírito pluralista e não-revolucionário (nem contra-revolucionário) que tem sustentado a democracia liberal do Ocidente (ou, como prefere justamente dizer meu amigo Tim Garton Ash, do Mundo Livre)» («Elogio ‘Burkeano’ das eleições autárquicas», João Carlos Espada, Observador, 20.10.2025, 00h17). 

      Mas então, João Carlos Espada, é referente a Edmund Burke ou não? É? Então, esqueça as aspas. E lá está o adjectivo próprio — que nós não temos, mas do que jornalistas, autores, tradutores apressados se esquecem, se é que sabem. A relevância de Edmund Burke no pensamento político ocidental, como crítico da ruptura revolucionária e defensor do gradualismo e do pluralismo institucional, justifica plenamente a dicionarização do adjectivo «burkeano». 

[Texto 22 921]

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Léxico: «chaleira nuclear»

Já fumega


      «António Eloy, coordenador do Observatório Ibérico de Energia e antigo membro do grupo consultivo do Plano Energético Nacional, é perentório: “Não há a mínima hipótese de a energia nuclear, nas suas formas atuais nem nas suas formas imaginárias (fusão e pequenos reatores modulares), ser implementada no nosso país, nem na Península Ibérica, onde está estabelecido um calendário escrito, com as empresas proprietárias das centrais, para o seu encerramento”, afirma, por e-mail. “Em meados da próxima década não haverá produção de eletricidade a partir do aquecimento de água em chaleiras nucleares na Península Ibérica”» («Enxadas contra o nuclear», Tiago Carrasco, «Revista E»/Expresso, 13.03.2026, p. 29). 

      Tem, por vezes, um sentido ligeiramente depreciativo, mas se até especialistas na área a usam, quem somos nós para a manter afastada dos dicionários? Assim, proponho ➜ chaleira nuclear figurado designação metafórica de central nuclear de produção de electricidade, empregada para sublinhar que o seu funcionamento assenta, em última análise, no aquecimento de água por calor gerado em reacções nucleares, com produção de vapor para accionar turbinas.

[Texto 22 920]

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Léxico: «narciso-poético»

A Natureza poética


      «Fazia, em seguida, a ligação do postal ao tema do livro em que na altura trabalhava, e que viria a publicar em 2025, em Setembro em edição digital, e em Dezembro em papel. Trata-se do livro As Plantas na Obra Poética de Camões, editado pela Imprensa da Universidade de Coimbra. A fotografia que preenchia o postal de Natal é também a da capa do livro – o narciso-poético (Narcissus poeticus), e as razões para a escolha desta flor encontram-se na entrevista que deu ao PÚBLICO no início deste mês, em que revelou que a flor que Camões mais citou são as rosas, embora não fosse a de que mais gostava» («Jorge Paiva brindou-nos com outros dos seus postais de Natal», Teresa Firmino, Público, 27.12.2025, p. 31).

[Texto 22 919]

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Léxico: «narrativismo | narrativista»

Quantas vezes não o vi já


      «A Nova História queria-se não-positivista, não-marxista, não-quantitativa, não-engajada, mas igualmente distante do narrativismo cronológico e enfático daquilo a que os franceses chamam “romance nacional”, ou história patriótica» («Historicizar a História», Pedro Mexia, «Revista E»/Expresso, 13.03.2026, p. 68).

[Texto 22 918]

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Léxico: «escorcioneira-oca | heleborina-dos-brejos»

Se é nosso, é desprezado


      «“Entre as plantas que herborizei [que colheu para pôr em herbários] ao longo de 70 anos, colhi, em 1961, pelo menos duas espécies que, actualmente, estão dadas como extintas em Portugal”, alerta. “Uma endémica da Península Ibérica, a escorcioneira-oca (Avellara fistulosa); a outra, a orquídea heleborina-dos-brejos (Epipactis palustris). Isto é, num pequeno país e num curtíssimo período de existência da vida do planeta onde vivemos – o equivalente a 0,00000000001 anos de vida nesta enorme Gaiola – provocámos a extinção de duas das espécies de antófitas (plantas com flores) que colhi”, prossegue [o botânico Jorge Paiva]» («Jorge Paiva brindou-nos com outros dos seus postais de Natal», Teresa Firmino, Público, 27.12.2025, p. 31).

[Texto 22 917]

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Definição: «planeta»

Não acertam nos requisitos


      Jared Isaacman, administrador da NASA, durante uma audiência no Senado norte-americano na terça-feira passada, disse que era convictamente da equipa Make Pluto a Planet Again. Na sequência dessa afirmação, vários meios de comunicação pegaram no assunto e relembraram os três requisitos para se considerar que estamos perante um planeta. Na formulação do terceiro nem todos acertam. Como tão-pouco acertam os nossos dicionários. A Porto Editora, por exemplo, define assim planeta: «corpo celeste sem luz própria e com gravidade suficiente para ter uma forma quase esférica, que se move numa órbita elíptica em redor de uma estrela, não tendo outros corpos celestes na sua vizinhança orbital». Se estou a ver bem as coisas, nenhum planeta «não tem» outros corpos na vizinhança; a Terra, por exemplo, tem asteróides próximos. 

      O critério da União Astronómica Internacional, datado de 2006, não é de ausência, mas de domínio gravitacional. Está bem, já que insistem: não é só isso, a definição apresenta outros problemas. Todas as órbitas são elipses em sentido lato, mas a definição da União Astronómica Internacional não exige essa especificação. Assim, proponho ➜ planeta ASTRONOMIA corpo celeste que orbita uma estrela, sem emissão significativa de luz própria por fusão nuclear; possui massa suficiente para atingir o equilíbrio hidrostático, adquirindo forma aproximadamente esférica; exerce domínio gravitacional na sua órbita, tendo removido, capturado ou subordinado dinamicamente a maioria dos corpos de massa comparável na sua vizinhança orbital.

[Texto 22 916]

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Léxico: «soalhento»

Todos, todos, todos


      Não vamos é, nesta matéria, seguir a filosofia de Miguel Araújo no seu último disco, em que canta «Não há nada, nada/ Não há nada como não fazer nada/ Nada, não há nada/ Não há nada como não fazer nada». Aliás, ao repeti-lo está a contradizer-se, pois já está a esforçar-se. Tem de ser, pelo menos quanto à lexicografia, não há nada como fazer tudo. Tudo o que estiver ao nosso alcance, porque alguém o tem de fazer, porque é preciso ser feito, porque sabemos fazê-lo tão bem como os outros. Por exemplo, dicionarizar isto: «Pobre Fanny! A vida que a carochinha de sonhos cor-de-rosa levaria naquela casa soturna, bem se adivinha qual era: lágrimas, reprimidas revoltas, horas, muitas horas de janela para janela ou a fazer que cuidava dos dois pés de cravos e maravilhas que enlanguesciam no hortejo contra a empena soalhenta do edifício» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 185).

      Se ao menos conseguíssemos, pelo simples facto de meter lá este, tirarmos da cabeça de toda a gente (autores, tradutores, jornalistas, todos) a falsa sinonímia «soalheiro = solarengo», o mundo, o mundo da língua, seria um pouco melhor. Utopias, pois.

[Texto 22 915]

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Léxico: «terbutrina»

Da detecção à captura


      «Ao todo, a bacia do Leça cobre “quatro massas de água superficiais” e outra subterrânea, e os documentos em consulta pública alertam para a necessidade de reduzir a poluição, “especialmente considerando a presença de cádmio, zinco, fluoranteno e terbutrina, detectados nas análises”» («Plano de 81 milhões de euros para recuperar Rio Leça em consulta pública», Público, 29.04.2026, 11h39). 

      Nos nossos dicionários é que ela não foi detectada, pelo que proponho ➜ terbutrina QUÍMICA composto orgânico pertencente ao grupo das triazinas, de fórmula C₁₀H₁₉N₅S, usado como herbicida selectivo no controlo de ervas daninhas em culturas agrícolas e em áreas não cultivadas; actua inibindo a fotossíntese das plantas, o que leva à sua morte; pode persistir no solo e na água, sendo considerado um contaminante ambiental devido à sua toxicidade para organismos aquáticos.

[Texto 22 914]

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Definição: «avião-escola | navio-escola»

É optar e seguir em frente


      «Les avions-écoles Elixir débarquent aux États-Unis» (Véronique Guillermard, Le Figaro, 30.04.2026, p. 22). Ficam a saber: há aviões-escola como há navios-escola. Para mim, os plurais são estes e só estes, porque vejo o segundo termo da composição como determinante específico. Contudo, tenho de admitir que mais facilmente se aplicará a regra geral: pluralizar ambos. O que é preciso, Porto Editora, é indicá-lo nos verbetes. É tomar partido e fazê-lo. Quanto a ➜ avião-escola AERONÁUTICA aeronave destinada à formação de pilotos, equipada com comandos duplos e concebida para treino em voo, instrução básica e aperfeiçoamento, em contexto civil ou militar.

[Texto 22 913]

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Léxico: «galantim»

Vamos retroimportá-lo


      «Reiteramos o juízo que, a nosso ver, é uma das chaves psicológicas tanto da vida como da obra de Camilo: as mulheres não gostavam dele. Não porque fosse apenas um homem feio. Sousa Martins, mestiço, esquinado, hirsuto, pouco tinha de galantim, e as mulheres à sua volta eram como moscas no mel» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 203).

[Texto 22 912]

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Léxico: «assaralhopado»

Tens a variante


      «Os sábados, ora no Guichard, ora no Pepino, eram dias de grande relambório. Queimava-se o ponche, a cuja luz azulada dos mundos imprevistos da boémia os olhos do indígena se abriam assaralhopados, ou havia fartas libações de cognac» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, pp. 30-31).

[Texto 22 911]

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Definição: «navajo»

É antes caso para agradecerem


      Também me parece que os Navajos não iam ficar-nos com o escalpe (até porque não eram particularmente dados a fazê-lo) se melhorássemos a definição do termo que designa a sua língua, o ➜ navajo LINGUÍSTICA língua atapasca meridional do grupo na-dene, falada pelo povo navajo no sudoeste dos Estados Unidos (sobretudo no Arizona e no Novo México), ágrafa até ao século XX, quando passou a dispor de ortografia padronizada, caracterizada por estrutura fortemente polissintética e grande complexidade morfológica, com predominância de formas verbais.

[Texto 22 910]

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Léxico: «código navajo»

Que só conhecemos dos filmes


      «[Chester Nez, ou Betoli] Avec 29 autres camarades de sa tribu, il va devenir un combattant aguerri – il est habitué depuis l’enfance aux privations de toutes sortes dans cette réserve mal famée. Mais surtout, il va offrir aux Marines, partis à la conquête des iles Salomon que leur disputent les Japonais, un code, le fameux code navajo, qui permettra de transmettre des informations cruciales sur un champ de bataille dévastateur, où plusieurs milliers de Marines perdirent la vie, et qui l’aurait été encore plus sans ce langage indéchiffrable par l’ennemi» («Le jeune héros indien des Marines qui sauva la bataille de Guadalcanal grâce à sa langue natale», Paul François Paoli, «Le Figaro Littéraire»/Le Figaro, 30.04.2026, p. 2). 

      Sim, o famigerado ➜ código navajo MILITAR sistema de codificação de comunicações baseado no uso do idioma navajo por militares indígenas dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, que permitia a transmissão rápida e segura de mensagens sem recurso a cifragem convencional.

[Texto 22 909]

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Definição: «ópera»

Falha no essencial


      «Ce n’est que vers le milieu des années 1960 que se généralisa l’habitude de jouer les opéras en langue originale. La bascule fut un problème pour toute une génération de solistes qui n’avaient jamais chanté que dans leur langue, d’autant que les carrières étaient beaucoup moins internationales. Et cela concerne tous les pays» («Traduire, c’est parfois aplatir», Christian Merlin, Le Figaro, 30.04.2026, p. 28). 

      Pode não ser um traço definidor, mas é uma característica, quando não uma limitação, que está quase sempre presente, pelo que podemos integrá-lo como traço recorrente na definição de ➜ ópera MÚSICA, TEATRO obra dramática musicada, de carácter narrativo, em que a acção é integral ou predominantemente cantada e acompanhada por orquestra, frequentemente associada à língua do libreto original, embora também representada em tradução, integrando música, texto e representação numa forma contínua. 

      A definição da Porto Editora reduz a ópera a uma mera peça musical com canto, quando se trata, na verdade, de uma forma dramática contínua, em que o canto não é adorno, mas o próprio meio de realização da acção.

[Texto 22 908]

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Definição: «destransição | destransicionar»

Não é parar: é voltar atrás


      Na quarta-feira, no Grande Debate, na RTP1, em que o tema foi a identidade de género e a transexualidade, usou-se, mais de uma vez, o termo destransição, que o dicionário da Porto Editora define assim: «suspensão de processo de transição de género anteriormente iniciado». De tudo o que se disse no debate (que em muitos momentos mais merecia chamar-se Grande Confusão) e se sabe, «suspensão» não descreve com rigor o fenómeno, já que não ocorre a mera interrupção, há antes a reversão, total ou parcial, de uma transição de género anteriormente realizada. Pode envolver regressão ao sexo de nascimento, abandono de tratamentos hormonais, cirurgias de reversão (quando possíveis) ou simplesmente mudança de identificação social. Assim, proponho ➜ destransição processo de reversão, total ou parcial, de uma transição de género anteriormente realizada, envolvendo a cessação de intervenções médicas, sociais ou legais associadas a essa transição e, em muitos casos, o regresso ao género anteriormente assumido.

[Texto 22 907]

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Definição: «conto»

Antiquado, mas tão presente


      Assim como esta precisa de ser mais bem definida ➜ conto ECONOMIA antiquado unidade de conta correspondente a um milhão de réis; após a reforma monetária de 1911, passou a equivaler a mil escudos (1000$00); sob a forma completa conto de réis, foi corrente no período monárquico, tendo a forma abreviada conto prevalecido no uso em Portugal até à substituição do escudo pelo euro (2002). 

      A etimologia, é claro, está incompletíssima, pois vem, de facto, do latim compŭtu-, «cálculo, conta»; mas, por especialização semântica, passou a designar, em contexto contabilístico, uma soma determinada, fixando-se em português como milhão de réis (conto de réis).

[Texto 22 906]

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Definição: «cifrão»

Segue-se isto


      Porque não está bem explicado nos dicionários, também proponho uma nova definição de ➜ cifrão sinal ($) usado como símbolo monetário em vários países (dólar, peso, etc.); em Portugal e no Brasil, até meados do século XX, não era símbolo de moeda, mas separador numérico entre milhares e unidades de réis ou entre escudos e centavos. 

      É também esta a oportunidade para dizer que a 2.ª acepção, Porto Editora, é um pouco caricatural: «sinal ($) que indica o valor monetário de um bem ou serviço, sendo que quantos mais se usam, mais caro é esse bem ou serviço». Não descreve um uso que propriamente lexical, mas antes gráfico ou estilístico. Não se trata de um significado autónomo de cifrão, mas de uma convenção expressiva (sobretudo publicitária ou humorística), em que a repetição do símbolo sugere preço elevado. É, no fundo, uma espécie de metáfora visual. Queremos isto nos dicionários?

[Texto 22 905]

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Definição: «real | conto»

Revisão da matéria dada


      Duvido que os mais novos saibam sequer ler este valor monetário: «Segundo um requerimento seu, teria servido a Manuel Botelho durante 4 meses, dos quais, conjuntamente com os meses que esteve ao serviço dos órfãos, ou seja, de 8 de Dezembro de 1835 a 8 de Março de 36, pede os ordenados à razão de 1$400 réis por mês» (O Romance de Camilo, Aquilino Ribeiro, Vol. I, Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 67). 

      Por extenso, é mil e quatrocentos réis. O sinal $ (cifrão), neste contexto não indica a moeda, mas apenas separa as unidades dos milhares, e a notação tradicional portuguesa usava precisamente este sinal como separador entre milhares e unidades de réis — por exemplo, mil-réis (1$000) ou conto de réis (1.000$000). Hoje, muito poucos reconhecerão o sentido ou a escala dos valores. A definição da Porto Editora para «real» é: «1. antiga unidade monetária de Portugal e do Brasil», seguida da acepção «2. unidade monetária do Brasil», e encabeçada por uma indicação global de plural: «reais, réis». A distinção das acepções está, neste caso, correcta: a primeira diz respeito à moeda histórica usada tanto em Portugal (até 1911) como no Brasil (até 1942), e a segunda refere-se ao real actualmente em vigor no Brasil desde 1994. Contudo, essa distinção está apresentada de forma incompleta e imprecisa: não são indicadas as datas de vigência no caso brasileiro da acepção antiga, pois que o real em réis ali se manteve até 1942, quando foi substituído pelo cruzeiro à taxa de 1 cruzeiro = 1000 réis, e, sobretudo, os plurais são listados em conjunto no cabeçalho da entrada, como se fossem equivalentes, quando «réis» se aplica apenas à moeda antiga e «reais» apenas à actual. Além disso, não se menciona a notação histórica portuguesa, que é, como se vê, fundamental para compreender fontes antigas. 

      Assim, proponho ➜ real 1. unidade monetária de Portugal entre o século XIV e 1911 e do Brasil até 1942, data em que foi substituída, respectivamente, pelo escudo e pelo cruzeiro, à taxa de 1 escudo ou 1 cruzeiro = 1000 réis; era frequentemente representada sob a forma de múltiplos, como o mil-réis (1$000), sendo r. a abreviatura comum (plural: réis); 2. unidade monetária do Brasil desde 1994 (símbolo: R$) (plural: reais). 

      Curiosamente, a expressão conto (de réis) continuou a ser usada, por hábito, durante todo o século XX e até ao início do século XXI, já em pleno sistema do escudo, para designar mil escudos (1000$00).

[Texto 22 904]

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Léxico: «destombar | destombamento»

Mais brasilês


      «Discussões distintas realizadas no mesmo 10 março deste ano consideravam excluir do patrimônio municipal trechos de três bairros da zona leste da cidade. Enquanto o Conpresp (conselho municipal de patrimônio) avaliava destombar vilas operárias no Tatuapé e no Belém, uma audiência pública na Câmara Municipal tinha como pauta rever a área envoltória do centro histórico da Penha de França» («Destombamentos em áreas históricas viram nova frente de batalha imobiliária em SP», Clayton Castelani, Folha de S. Paulo, 20.04.2025, p. A28). 

      Desconhecido para nós, comum lá ➜ destombar Brasil 1. retirar de um tombo (registo oficial de bens, nomeadamente de valor histórico ou cultural); 2. anular o tombamento de (bem móvel ou imóvel), fazendo cessar a sua protecção legal e o regime de conservação que lhe estava associado.

[Texto 22 903]

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Léxico: «tragediante»

Só em bilingues?


      «As páginas do diário que sucedem à morte de Fanny, por ele mandada embalsamar e depositada em urna de cristal, depois de lhe extrair o coração que meteu num bocal de álcool e levou para o Lodeiro — mise en scène dum tragediante-comediante, encharcado de Dumas Filho, de Gautier, de Soares de Passos, do mau Schiller — são suspiros, retrospecção dolorosa, remorso, pantominice» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, pp. 190-91).

[Texto 22 902]

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Léxico: «piasta»

A História fora dos dicionários


      Aqui os protagonistas de um romance estão a caminho de Auschwitz, «antiga capital dos ducados piastas de Auschwitz e Zator». O pior é que os dicionários não registam (e deviam) a palavra ➜ piasta HISTÓRIA relativo ou pertencente à dinastia dos Piastas, primeira dinastia reinante na Polónia, que governou desde o século X até ao XVII; membro dessa dinastia.

[Texto 22 901]

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Léxico: «afogador»

Arranque a frio


      Ai, ai... Houve um momento de anticlímax quando o Ford Escort Mk2 não quis pegar. Ela puxou o afogador e tornou a tentar e, desta vez, o motor arrancou. Claro que, a ti, Porto Editora, isto não te diz nada, pelo que proponho ➜ afogador dispositivo do carburador que limita a entrada de ar, enriquecendo a mistura ar-combustível para facilitar o arranque a frio do motor.

[Texto 22 900]

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AO90 no dia-a-dia

Da teoria à prática


      «Desde logo, através do mais ou menos declarado financiamento, com dinheiros públicos, da confissão dominante – ainda há um quarto de século o então cardeal patriarca de Lisboa, José Policarpo, se queixava de haver pouca verba no Orçamento de Estado para a construção de igrejas, e só a partir de 2005, após a revisão da Concordata, os padres deixaram de beneficiar legalmente de isenção de IRS –, sendo fastidioso enumerar aqui todos os privilégios, económicos e outros, de que a Igreja Católica ainda goza face às outras confissões» («O Chega e a Bíblia de Tarantino», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 29.04.2026, p. 13). 

      Tem que ver com o Acordo Ortográfico, sim senhor: desde o início da sua aplicação, pessoas mal informadas — entre as quais boa parte são jornalistas — entendem, ou assim parece, que uma das alterações foi decepar tudo o que é hífen. Revejam-me esta convicção, se faz favor. E com urgência.

[Texto 22 899]

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Léxico: «camerata»

Mais música


      Carlos Tavares, o que foi ministro da Economia no XV Governo Constitucional, não o ex-director-executivo da Stellantis (e quantos mais homónimos não haverá...), foi um dos convidados do programa Uma Noite em Forma de Assim, na Antena 1. A certa altura, usou o termo «camerata», nascido italiano, mas usado universalmente. Portanto, já é nosso este ➜ camerata MÚSICA 1. conjunto de músicos, geralmente de pequena dimensão, dedicado à execução de música de câmara; 2. [por extensão] grupo de artistas ou eruditos reunidos em torno de interesses estéticos comuns, especialmente à semelhança das academias musicais italianas do Renascimento.

[Texto 22 898]

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Léxico: «transcriptoma | transcriptómica | transcriptómico»

E são três


      «Neste estudo, os investigadores combinaram técnicas de sequenciação de células individuais e transcriptómica espacial – tecnologia avançada que mapeia a expressão dos genes diretamente em cortes de tecido, preservando a localização original das células – para examinar cerca de 5,5 milhões de neurónios em mais de 300 ratinhos» («Cientistas criam o primeiro “mapa do olfato”», Rádio Renascença, 28.04.2026, 16h36). 

      Bem, muito bem, rebém — porque é, de facto, esta a palavra, com esta grafia, que se usa na maioria das vezes. Não é por acaso. Assim, proponho ➜ transcriptómica BIOLOGIA MOLECULAR ramo que estuda o transcriptoma; conjunto de métodos destinados à análise global da expressão génica. 

      E é assim porque vem do inglês transcriptome, comp. de transcript, «transcrito», + genome, «genoma», com -ome (do gr. -ōma, «conjunto, totalidade»), já que, termo científico e recente que é, não se formou na nossa língua, e daí ser errado escrevê-lo «transcritoma». 

      E, assim, também temos ➜ transcriptoma BIOLOGIA MOLECULAR conjunto de todas as moléculas de RNA (transcritos) presentes numa célula, tecido ou organismo, num dado momento ou em determinadas condições; reflecte o estado de expressão génica. 

      E ➜ transcriptómico BIOLOGIA MOLECULAR relativo ao transcriptoma ou à sua análise; que diz respeito ao estudo global da expressão génica.

[Texto 22 897]

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Léxico: «bailarina»

Esta não dança


      «O método mais usado, sobretudo no inverno, continua a ser a “bailarina”, um cilindro a lenha onde se faz fogo para aquecer cerca de 90 litros de água, utilizados depois em banho de imersão. “É o nosso luxo”, descrevem, embora exija tempo: o processo pode demorar entre 30 minutos e uma hora até estar pronto» («Quando a luz falha, eles continuam ligados. Como se vive fora da rede elétrica?», Lara Castro, Rádio Renascença, 28.04.2026, 6h48). 

      Trata-se de uma reportagem, e vêem-se duas fotografias da bailarina, que se poderá pensar que é a «vasilha de forma cónica para aquecer água» que o dicionário da Porto Editora acolhe. O que se vê nas imagens da reportagem, porém, é diferente, é isto ➜ bailarina aparelho doméstico tradicional, geralmente metálico e de forma cilíndrica, provido de fornalha interior a lenha, utilizado para aquecer água destinada a banhos de imersão, comum em meios rurais.

[Texto 22 895]

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Definição e etimologia: «maratona»

Nem dizem se é de estrada


      «Cuentan que el origen del maratón hay que agradecérselo al filólogo francés Michel Bréal. Fue él quien relató a Pierre de Coubertain la vieja historia de Filípides y su carrera desde Marathon hasta Atenas para anunciar el desembarco persa. También quien lo convenció para incluir una prueba similar en el programa olímpico. Y dicen que los 42,195 kilómetros no son la distancia real entre las dos ciudades, sino que se estableció así a partir de los Juegos de Londres 1908, cuando se alargó la prueba en poco más de dos kilómetros al inicio para que la Reina consorte pudiese ver la salida desde el balcón real del Palacio de Windsor» («El asalto a la barrera imposible: del pie descalzo de Bikila a unas zapatillas de 97 gramos», J. Asprón, El País, 27.04.2026, p. 33). 

      Dizem, dizem, dizem... Maratona não era cidade, como escreve o jornalista, nem aldeia, como se lê no Houaiss. Não passava de um povoado, um demo, mas designava sobretudo uma planície. Quanto à definição, podia dizer-se mais do que se lê na maioria dos dicionários, sem sobrecarregar, assim ➜ maratona DESPORTO prova de corrida pedestre de fundo, disputada em estrada, com distância oficial de 42,195 km, fixada internacionalmente desde os Jogos Olímpicos de Londres de 1908, integrando o programa do atletismo e exigindo elevada resistência física e gestão prolongada do esforço. 

      Já quanto à etimologia, vem do topónimo Maratona (grego Marathṓn), demo da Ática situado numa planície costeira; segundo a tradição, um mensageiro (identificado tardiamente como Fidípedes) correu daí até Atenas para anunciar a vitória ateniense sobre os Persas (490 a. C.); o episódio foi retomado no século XIX, dando origem à designação da prova de corrida de fundo; o topónimo remonta a maráthron, «funcho».

[Texto 22 894]

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Definição: «balalaica»

Porque se pode 


      Num romance que estou a rever, uma personagem toca balalaica, sempre umas musiquinhas lá da sua terriola russa. Ora, usa quase sempre palheta. Dado que nem todos os instrumentos de cordas se podem tocar com palheta, proponho ➜ balalaica MÚSICA instrumento musical de cordas dedilhadas, de origem russa, com braço trasteado e caixa de ressonância triangular, de três cordas, duas das quais em uníssono, tocado sobretudo com os dedos, usado sobretudo na música popular russa, tanto a solo como em acompanhamento de canto ou integrado em conjuntos instrumentais.

[Texto 22 893]

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Definição: «tartaruga-verde»

Omitido o traço mais distintivo


      «Se hace de noche en Long Beach, playa que bordea Georgetown, la capital de Isla de Ascensión. En la orilla, algo se mueve. Una masa oscura y enorme emerge del oleaje con una lentitud que parece de-liberada. Es una hembra de tortuga verde (Chelonia mydas), que puede llegar a medir 1,3 metros y pesar más de 150 kilos, y que acaba de cruzar 2.300 kilómetros de océano abierto desde las costas de Brasil. Ha tardado seis semanas. En el camino no ha comido nada. Está volviendo a la playa en la que nació» («La odisea para sobrevivir de la tortuga que desova a 2.000 kilómetros de casa», Patricia Fernández de Lis, El País, 26.04.2026, p. 42). 

      O pior das definições de «tartaruga-verde» dos nossos dicionários é a omissão desta odisseia de que fala o artigo. A maioria das definições fica-se pelo aspecto e pela taxonomia, quando o traço verdadeiramente distintivo desta espécie é comportamental: essa migração extraordinária e o regresso ao local de desova. Assim, proponho ➜ tartaruga-verde ZOOLOGIA (Chelonia mydas) espécie de tartaruga marinha de grande porte, da família dos Quelonídeos, com distribuição pantropical, caracterizada por realizar longas migrações oceânicas e por regressar às praias onde nasceu para desovar; apresenta carapaça oval de coloração variável (geralmente castanho-olivácea) e corpo esverdeado, podendo atingir cerca de 1,5 m de comprimento e pesar até cerca de 190 kg; na fase adulta, alimenta-se sobretudo de algas e ervas marinhas, sendo predominantemente herbívora.

[Texto 22 892]

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Léxico: «sacramentalidade»

Outro perdido nas mudanças


      «Que se não conformem com a análise espectral os discípulos de Pangloss: os que trazem às costas a opinião dos outros como uma mochila do regimento; os fetichistas do ídolo absoluto; os filhos desmiolados de papá, desatentos de tudo o que não seja o volante e a bola do seu clube; todos os lentaços e letrados, escaravelhos das ideias que andam pelo chão, e ainda aqueles que transformam os seus preitos em sacramentalidade — não se conformem e fujam de ler este livro que pode provocar-lhes a erisipela» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, pp. 8-9).

[Texto 22 891]

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Léxico: «gaélico | goidélico»

Acabamos assim


      Por acaso vi, sim, mais um filme: A Menina Silenciosa (The Quiet Girl, de Colm Bairéad, 2023). A fotografia é simplesmente impressionante. E a história não lhe fica atrás. Desta vez, não posso dizer que aqui ou ali está mal traduzido, porque é falado em gaélico, de que não percebo nada — eu e, curiosamente, mais de metade dos Irlandeses. Segundo o último censo, de 2022, apenas 40 % sabem falar (em graus muito variados, muitas vezes escolares) e, na prática, somente cerca de 1 % a 2 % usam a língua diariamente. Assim, fico menos triste. Mais triste só por aparecer nas legendas (de Patrícia Pimentel, assim como a tradução) «contatar». Década e meia depois de o AO90 se ter tornado parte do nosso dia-a-dia, como é que uma pessoa cuja ferramenta de trabalho é a língua dá estes erros? Dá para imaginar como será com a população em geral. Voltando ao gaélico, também era bom que aparecesse nos nossos dicionários definido como deve ser, talvez assim ➜ gaélico LINGUÍSTICA designação genérica das línguas célticas da Irlanda, da Escócia e da ilha de Man (irlandês, gaélico escocês e manês), pertencentes ao ramo céltico das línguas indo-europeias; em uso restrito, pode referir especificamente o gaélico escocês ou, por extensão corrente, o irlandês.  

      O que obrigaria a dicionarizar também ➜ goidélico LINGUÍSTICA relativo ou pertencente ao grupo das línguas célticas que inclui o irlandês, o gaélico escocês e o manês.

[Texto 22 890]

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Léxico: «flebotomista»

No Brasil, claro


      «O resultado é intrigante: encanadores, lavadores de pratos e flebotomistas — enfermeiros especializados em tirar sangue — aparecem quase intocados. Apenas 6% do que fazem os flebotomistas, por exemplo, poderia ser substituído por IA (basicamente um robô para agendar a picada). Já escritores e autores surgem como uma das profissões mais ameaçadas: 85% de suas funções seriam substituíveis pelos chats ditos inteligentes» («A inteligência artificial e o paradoxo de Euclides», Ubiratan Muarrek, Público, 20.08.2025, 7h00).

[Texto 22 889]

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Léxico: «ponte dos asnos»

Muitos não passam


      «Mas não vale a pena perdermo-nos em conjecturas, levados por aí fora a esbagoar raciocínios como os discípulos de Aristóteles na ponte dos asnos» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 147). 

      Há muitas pontes nos dicionários, não esta ➜ ponte dos asnos GEOMETRIA 1. nome tradicional do quinto teorema do Livro I dos Elementos de Euclides, segundo o qual, num triângulo isósceles, os ângulos da base são iguais. | 2. figurado dificuldade inicial de raciocínio lógico que constitui um obstáculo revelador da capacidade ou incapacidade de compreensão de um aluno ou interlocutor.

[Texto 22 888]

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Léxico: «taiconauta»

Vamos lá encarar isto


      «A corrida é sobretudo com a China, cujos planos de alunar taikonautas e instalar bases lunares coincidem com as ambições norte-americanas — a China quer pousar os seus astronautas em 2030» («Fim da espera. O voo de regresso dos humanos à Lua hoje para fazer história», Tiago Ramalho, Público, 1.04.2026, p. 2). Andamos a encontrá-lo há tantos anos, que é simplesmente estúpido fingirmos que não existe.

[Texto 22 887]

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Léxico: «casuísmo»

Completemos a dupla


      «Isto porque Pascal, nas célebres “Provinciais”, atacou com extraordinária verve o casuísmo, o laxismo e a hipocrisia dos jesuítas do seu tempo, pondo-se ao lado dos jansenistas, agostiniano austeros e devotos das ideias de graça e predestinação» («Deus escondido», Pedro Mexia, «Revista E»/Expresso, 14.07.2023, p. 66).

[Texto 22 886]

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Léxico: «trilateração»

Que não é o mesmo


      Ora aí está, vê-se bem que perceberam tudo: também nos falta ➜ trilateração GEOMETRIA, TELECOMUNICAÇÕES método de determinação da posição de um ponto com base no cálculo das suas distâncias a, pelo menos, três pontos de referência conhecidos; em telecomunicações e sistemas de localização (como GPS, redes móveis ou bluetooth), essas distâncias são geralmente inferidas a partir do tempo de propagação ou da intensidade dos sinais recebidos.

[Texto 22 885]

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Léxico: «triangulação»

Nem de propósito


      Hoje em dia, ouve-se com muita frequência o termo «triangulação», mas, logo por azar, numa acepção que os dicionários ainda não acolhem. Ainda ontem, no programa da Rádio Observador E o Resto É Ciência, José Manuel Fernandes dizia: «Mas antes disso, para quem não tem bem presente, o GPS basicamente o que faz é: nós temos um aparelho que está ligado a satélites e através da triangulação com os satélites, nos dá a nossa posição exacta.» Não é, em rigor, assim. O GPS recorre, de facto, a satélites, mas o que faz tecnicamente não é triangulação, e sim trilateração. Contudo, é este o entendimento mais difundido, o que se tem de acautelar na definição de ➜ triangulação TELECOMUNICAÇÕES determinação aproximada da posição de um dispositivo, emissor ou receptor, com base na combinação de medições efectuadas a partir de vários pontos de referência, como estações-base ou satélites (no uso corrente, designa genericamente métodos de localização por sinais, mesmo quando, em rigor técnico, assentam no cálculo de distâncias e não de ângulos).

[Texto 22 884]

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Léxico: «estação-base»

Um ano depois do apagão


      «“O envio de SMS foi iniciado às 17h15, com difusão efetiva apenas a partir das 20h00, quando parte significativa das estações-base já operava sem energia de rede; a taxa de entrega ficou abaixo dos 50%, tendo a rádio desempenhado um papel supletivo relevante”, pode ler-se no relatório» («Apagão: Relatório elaborado pelo PSD aponta falhas “graves na comunicação” e pede 72 horas de autonomia para infraestruturas críticas», Manuela Pires, Rádio Renascença, 26.04.2026, 6h00 ). 

      Dada a sua ausência dos dicionários, proponho ➜ estação-base TELECOMUNICAÇÕES instalação fixa de radiocomunicações, constituída por equipamentos emissores e receptores (nomeadamente antenas), que estabelece a ligação entre terminais móveis (como telemóveis) e a rede de telecomunicações, assegurando a cobertura de uma determinada área geográfica («célula») e o encaminhamento de chamadas ou dados.

[Texto 22 883]

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Léxico: «papel manila»

O costume


      A tradutora achou que seria «manilha», o que me leva a propor, antes que vejam a luz mais disparates (e porque até o tens em bilingues, Porto Editora), proponho ➜ papel manila tipo de papel espesso, resistente e geralmente de cor amarelada ou acastanhada, usado sobretudo no fabrico de envelopes e pastas de arquivo; deve o nome à antiga utilização de fibras provenientes de Manila, nas Filipinas, embora hoje seja produzido com outras matérias-primas.

[Texto 22 882]

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Léxico: «esqueletizado»

A beleza do mecanismo


      Só tenho um relógio esqueletizado, um Hruodland Pilot, um excelente relógio mecânico chinês com uma reserva de marcha de 72 horas. O que vejo é que esta acepção tão específica do termo não está nos nossos dicionários, pelo que proponho ➜ esqueletizado RELOJOARIA diz-se de relógio, ou do respectivo movimento, cujas placas e pontes foram recortadas ou vazadas, de modo a tornar visíveis os componentes internos (rodas, molas, balanço, etc.), através do mostrador, do fundo ou de ambos, sem comprometer o funcionamento.

[Texto 22 881]

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Como se traduz por aí

Falsos amigos para falsos tradutores


      «He picked up his service pistol, a 9 mm Walther P38, from the dressing table, checked the action, and slotted it into his holster.» Para o tradutor, é «verificou a acção», sem dedicar meio segundo a pensar se isso fazia sentido.

[Texto 22 880]

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Definição e etimologia: «Eleutérias»

Ainda bem que isto apareceu


      «“Eleutéria”, que em grego – eleuthería – significa “liberdade” estará exposta no cruzamento da Avenida da Liberdade com a Rua Barata Salgueiro. A peça foi desenvolvida em parceria com o designer Nuno Lacerda e representa, de forma simbólica, a instabilidade de regimes autoritários» («“Eleutéria”: a cadeira que “nasceu para cair” marca o 25 de Abril em Lisboa», Teresa Almeida, Rádio Renascença, 25.04.2026, 10h20, itálico meu).

      É como a jornalista diz, o grego ἐλευθερία (transliterado eleuthería) é o substantivo que designa «liberdade», «condição de ser livre», tanto no plano político como pessoal. Deriva do adjectivo ἐλεύθερος (eleútheros), «livre». Não temos o nome comum, mas a Porto Editora regista Eleutérias, as «festas em honra de Júpiter libertador, para comemorar uma vitória ou a expulsão de um tirano», mas não é bem, bem assim, porque não se restringiam ao contexto romano; porque não eram sempre para comemorar uma vitória ou a expulsão de um tirano, eram antes celebrações da liberdade, frequentemente associadas a vitórias, sim, mas não redutíveis a essa fórmula; porque a referência a Júpiter libertador é enganadora. Assim, proponho ➜ Eleutérias festividades da Grécia antiga, especialmente as de Plateias, celebradas em honra de Zeus Eleutérios («Libertador») para assinalar a vitória sobre os Persas (479 a. C.) e a consequente libertação, com carácter comemorativo e agonístico. 

      Quanto à etimologia completa, passa por explicar que vem do grego Ἐλευθέρια (Eleuthéria), plural substantivado de ἐλευθερία (eleuthería) «liberdade», termo que designa, por extensão, festividades associadas à libertação; passou ao latim como Eleutheria, -orum, nome de festas comemorativas, donde o português erudito «Eleutérias». 

[Texto 22 879]

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Sobre «palestino»

Princípio de Muphry, é isso 


      «Causou polémica a afirmação da comentadora da SIC, Maria João Tomás, de que Jesus era “palestino”. Na língua portuguesa, dizer que um palestiniano é “palestino” equivale a designar um francês como ‘franço’, ou um português como ‘portuga’. Mas não se pode exigir que uma professora universitária domine a própria língua. Sobretudo quando domina algo muito mais importante: a solução dos problemas mundiais» («Jesus até foi islâmico – e votaria em Seguro», João Cerqueira [escritor], Nascer do Sol, 30.01.2026, p. 41). 

      Eu não sei como não cai o céu quando se fazem afirmações tão estúpidas. Só ali as vírgulas a isolarem o nome da comentadora da SIC já dizem muito sobre o domínio da língua. Vamos lá ver: não se tem de ter sempre um cuidado acrescido quando estamos a fazer uma crítica? Então e não havia a porra de um dicionário, de um vocabulário, de uma enciclopédia, a internet? Veja se não encontra «palestino»/«Palestinos» imediatamente a seguir a «palestiniano»/«Palestinianos» na página 746 do Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. Em todos os dicionários, aliás. Também não deixa de me espantar que nos jornais se publiquem textos deste jaez. Há-de dizer-se que decorre da mera liberdade, mas no caso parece mais que é dar corda para alguém se enforcar. Em última instância, no entanto, quem se lixa sempre são os leitores, que pagaram e têm de ler estes disparates e que, em alguns casos, por falta de preparação, por falta de discernimento, os vão repetir. 

[Texto 22 878]

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Léxico: «barquinha»

Não só as dos aeróstatos


      Na semana passada, uma empresa de arboricultura em meio urbano, escalada e poda selectiva de árvores ornamentais, árvores de grande porte e árvores monumentais, a Árvores & Pessoas, andou aqui na avenida a tratar de todas as árvores. Entre os diversos equipamentos, usavam aquelas plataformas chamadas ➜ barquinha designação corrente de dispositivo elevatório instalado sobre viatura, constituído por braço articulado ou telescópico que sustenta uma pequena plataforma ou cesta destinada a elevar pessoas para trabalhos em altura (manutenção eléctrica, poda, telecomunicações, etc.), podendo atingir vários metros de elevação; no uso técnico, a designação refere-se mais estritamente à própria cesta.

[Texto 22 877]

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Definição: «optoelectrónica»

Weniger Licht!


      Viram bem: a a optoelectrónica não é só a «disciplina que estuda e desenvolve tecnologia eletrónica capaz de interagir com luz». Demasiado vaga. E mal orientada: «interagir com luz» diz muito pouco e pode abranger praticamente tudo, do sensor mais rudimentar a um simples interruptor fotoeléctrico. Não pode ser. Falta-lhe o núcleo conceptual da área. Assim, proponho ➜ optoelectrónica TECNOLOGIA ramo da ciência e da engenharia que estuda e desenvolve dispositivos e sistemas que convertem radiação luminosa em sinais eléctricos, e vice-versa, incluindo a sua detecção, emissão e modulação, com aplicações em comunicação, medição, imagem e controlo. 

      O caso obriga-nos a dizer o contrário de Goethe: não mais luz, mas menos luz. Que foram, bem sei que sabem, as derradeiras palavras de Goethe; mas esperemos que não venham a ser as nossas últimas: ainda fazemos falta a muita gente. Muita não; alguma.

[Texto 22 876]

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Léxico: «convoo | optrónica | optrónico»

Aprendamos


      «A Marinha receberá nesta sexta-feira (24) a primeira fragata construída no Brasil desde 1980. A entrada em operação da F200 Tamandaré é a culminação de mais um capítulo do atribulado processo de compras militares no país, e coincide com uma nova perspectiva para a Força» («Marinha recebe 1.ª fragata em 46 anos e ganha impulso com guerra no Irã», Igor Gielow, Folha de S. Paulo, 24.04.2026, p. A12). 

      Uma imagem com legendas desta nova fragata indica o nome de algumas partes e equipamentos, e entre eles ➜ convoo Brasil MARINHA convés de um navio destinado à operação de aeronaves, servindo de pista para aterragem e descolagem e de área de estacionamento, nomeadamente de helicópteros. 

      E também aparecem indicadas umas alças optrónicas, daí eu propor ➜ optrónico TECNOLOGIA relativo a sistemas que integram óptica e electrónica para captação, tratamento e análise de radiação luminosa, nomeadamente em dispositivos de observação, medição ou aquisição de alvos; optoelectrónico.

[Texto 22 875]

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Definição: «geofagia»

Macacos me mordam!


      «Los famosos monos del Peñón de Gibraltar [macaco-de-gibraltar] han desarrollado un comportamiento sorprendente a la par que astuto para sobrevivir a su dieta: ingerir tierra de forma intencionada para aliviar los efectos digestivos de la comida basura que consumen debido al contacto diario con turistas. Así lo revela un estudio liderado por la Universidad de Cambridge, que documenta por primera vez la práctica habitual de la “geofagia” en esta población, la única de monos en libertad en Europa» («Monos de Gibraltar comen tierra para digerir la comida basura», La Razón, 24.04.2026, p. 58).

      Não sei para que são as aspas na palavra. Enfim, lá como cá, é assim que entendem as coisas. Mas a geofagia também não é só o que os dicionários dizem, o hábito patológico de comer terra ou argila. Longe disso, pelo que proponho ➜ geofagia MEDICINA, ZOOLOGIA hábito de ingerir terra, argila ou outros materiais do solo, observado em humanos e noutras espécies animais; no ser humano, pode associar-se a perturbações alimentares, carências nutricionais ou práticas culturais. 

      Sim, não faltam casos, de África até aos Estados Unidos da América, de geofagia ligada a práticas culturais, sem nenhuma conotação patológica. E não faltam estudos.

[Texto 22 874]


⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Para quem quiser, seja ou não lexicógrafo, aprofundar o conhecimento destes casos, deixo quatro hiperligações: a primeira para o documentário Eat White Dirt (2015), sobre o consumo de caulino no Sudeste dos Estados Unidos; a segunda para o estudo «Geophagy: An Anthropological Perspective», que enquadra o fenómeno em termos culturais e adaptativos; a terceira para o projecto de investigação «Kaolin-Linked Appetites and Edibles (KLAE)», dedicado à geofagia no Sul dos EUA; a quarta para o ensaio Eating Clay at the Bend of the Road, sobre a persistência desta prática na cultura afro-americana.


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Definição: «clavecino»

Oh, la vache!


      «Avec une estimation de 1000 à 2000 clavecins historiques encore jouables éparpillés dans le monde, qu’on ne déplace presque plus en raison de leur fragilité, les instrumentistes n’ont pas assez d’une vie pour en faire le tour. Mais, lors de leurs recherches, ils ne sont pas à l’abri de redécouvertes miraculeuses» («Ces chasseurs de clavecins qui parcourent le monde à la recherche de l’oiseau rare», Thierry Hillériteau, Le Figaro, 24.04.2026, p. 26). 

      O dicionário da Porto Editora afirma que é o «instrumento semelhante ao cravo». Não é. O Houaiss é que resolve tudo de forma certa e económica: «MÚS m.q. cravo». Acho que estamos habilitados a fazer até melhor, o que intento propondo ➜ clavecino MÚSICA instrumento de teclado de cordas beliscadas; o mesmo que cravo; forma erudita, adaptação do francês clavecin.

[Texto 22 873]

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Léxico: «dia aberto»

Uma ida à Casa Sonotone ajudava


      Ontem vi o filme Brincar com o Fogo (Jouer Avec Le Feu, de Muriel Coulin e Delphine Coulin, 2024) e achei curioso que o tradutor (que não sabemos quem foi) optasse por «portas abertas» em vez do agora preponderante «dia aberto». Eis o que a personagem, que é a real detentora do cargo, Béatrice Pérez, disse: «Chères étudiantes, chers étudiants, chers parents, en tant que doyenne de la Faculté des Lettres, je suis honorée et fière de vous souhaiter la bienvenue aux portes ouvertes de la Sorbonne.» Tanto mais que nas legendas saiu desta forma pouco natural, até mesmo agramatical: «Caras alunas, caros alunos, caros pais, enquanto diretora da Faculdade de Letras, tenho a honra e o orgulho de vos dar as boas-vindas ao Portas Abertas da Sorbonne.» Na verdade, há uma via intermédia, e porventura a mais conforme à nossa língua, que passa por, aparentemente, se inspirar no inglês open day e no francês portes ouvertes, que é «dia de portas abertas». Seja como for, já bem enraizado nos nossos hábitos linguísticos está ➜ dia aberto evento em que uma instituição, sobretudo escola, universidade ou empresa, abre as suas instalações ao público para dar a conhecer o seu funcionamento, actividades e serviços.

[Texto 22 871]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Mas sabemos o nome da legendadora, que deixou passar uma coisa sem pés nem cabeça. À chegada a casa, depois de terem ido ao dia aberto na Faculdade de Letras da Sorbona, pai e filho mais novo, Louis, deparam-se com a surpresa de Fus ter preparado a refeição. Há ali uma troca rápida de falas breves, interjeições — «Oh, la vache!», «Ah ouais!», «Ah!», «Tu t’es chauffé», «J’ai mes petits secrets!», «Fus le cuistot!», «Dis donc...» —, com esta última, uma observação do pai, a aparecer assim nas legendas: «Elá...» Aqui, a culpa também é, obviamente, da legendadora, Patrícia Pimentel. No contexto, é qualquer coisa como «com que então...», ainda a expressar a surpresa de o filho, que já andava desencaminhado, ter preparado a refeição. (Fez-me lembrar a bojarda no anúncio dos Gato Fedorento para a Portugal Telecom (ainda alguns dos meus leitores não teriam nascido), em que aparecia «épa». Mas pronto, eles é que são bons.) Como é que a tradutora, com mais meios, não conseguiu ver isto?


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Léxico: «shekel»

É aproveitar


      «O shekel israelita tem sido uma das moedas com melhor desempenho desde o início da guerra, tendo já valorizado 5% face ao próprio dólar. A 17 de abril chegou mesmo a máximos de 31 anos, ao ficar abaixo da fasquia dos 3 shekels por dólar» («Moeda israelita é das que mais “fatura” com a guerra», C. P., Negócios, 23.04.2026, p. 11). 

      Oportunidade para definirmos melhor ➜ shekel ECONOMIA unidade monetária do Estado de Israel (novo shekel, desde 1985; símbolo ₪), subdividida em 100 agorot; designação moderna que retoma a antiga unidade de peso semítica conhecida em português por «siclo».

[Texto 22 870]

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Léxico: «turpitude | torpitude | túrpido»

Que são duas, com o mesmo étimo


      «Mas depois deste livro: Memórias do Cárcere, está absolvido de todas as turpitudes que praticou» (O Romance de Camilo, Vol. 3, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 61). Tudo do latim, claro — turpitude, torpitude, túrpido.

[Texto 22 869]

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Léxico: «internamento | internamento social»

Agora é todos os dias


      Agora, volta e meia, lê-se, ouve-se, usa-se ➜ internamento social SAÚDE, POLÍTICA permanência de um doente em unidade de saúde após alta clínica, motivada por insuficiência de respostas sociais adequadas à sua condição, como a inexistência de apoio familiar, de vaga em cuidados continuados ou de acolhimento em estrutura residencial.

      Ocasião para dizer também que a 5.ª acepção de «internamento» do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não tem pés nem cabeça está a precisar de cuidados intensivos: «DIREITO decisão judicial que determina a entrada e permanência em hospital psiquiátrico ou instituição adequada de indivíduo portador de anomalia psíquica grave que, por força dessa anomalia, seja considerado perigoso». Mas que raio... «internamento» não é, nem pode ser, uma decisão: é o acto, efeito ou situação que resulta de uma decisão (judicial, médica, administrativa). A definição confunde o plano jurídico (o acto decisório) com o plano factual (a execução ou estado de internamento). Assim, proponho ➜ internamento DIREITO medida determinada por decisão judicial que impõe a entrada e permanência de indivíduo em hospital psiquiátrico ou instituição adequada, em razão de anomalia psíquica grave e da perigosidade que dela decorre.

[Texto 22 868]

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Léxico: «clazomania | clafomania»

E respectivos adjectivos


      Este tinha tudo, o desgraçado: «Sufría tics vocales incontrolados, coprolalia aumentada (tendencia a decir palabrotas e insultos, uno de los síntomas que causan más estigma), klazomanía (emisión de gritos involuntarios) y clafomanía (destruir objetos)» («Un marcapasos cerebral para liberar a Josep de sus insultos descontrolados», Esther Armora, ABC, 22.04.2026, p. 58).   

      O pior é que os dicionários não acompanham esta necessidade de sabermos, pelo que proponho ➜ clazomania PSIQUIATRIA perturbação caracterizada pela emissão involuntária e compulsiva de gritos, frequentemente de forma repetitiva e descontextualizada, podendo surgir associada a síndromes neurológicas como a síndrome de Tourette ou a outros quadros de descontrolo dos impulsos vocais. (Vem do grego klázō, «gritar», + -mania, «impulso obsessivo».)

      E, claro, ➜ clafomania PSIQUIATRIA perturbação caracterizada por impulsos patológicos, repetitivos e dificilmente controláveis de destruir objectos, sem finalidade prática, podendo surgir associada a síndromes neurológicas ou a outros quadros de descontrolo dos impulsos. (Vem do grego klásis, «quebra, fractura», + -mania, «impulso obsessivo».)

[Texto 22 867]

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Léxico: «gigantografia | gigantográfico»

Mais um parzinho à maneira


      «Conduzimos em direcção ao passo de Ak Baital e depois a Murghab. A pequena cidade não tem atractivos, mas é importante por albergar o único hospital da região. Com apenas um piso, o edifício parece muito modesto, mas também aqui (como em toda a parte) se exibem gigantografias do presidente. Mais uma prova de que falar de culto da personalidade não é exagero jornalístico» («O senhor do Pamir», Paolo Moiola, Além-Mar, Maio de 2026, p. 34). 

      Pois, não a tens, o que resolvemos já propondo ➜ gigantografia ARTES GRÁFICAS técnica de reprodução e ampliação de imagens, sobretudo fotográficas, para grande formato, destinada a suportes como cartazes, painéis ou outdoors; 2. imagem de grande formato obtida por esse processo, geralmente utilizada para fins publicitários, informativos ou decorativos em espaços públicos; 3. descrição ou representação de gigantes.

[Texto 22 866]

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Extras! Extras! Extras!

Eles sabem


      «Pós-operatório de transplante capilar inclui despesas extras de R$ 4.000» (Ivan Finotti, Folha de S. Paulo, 22.04.2026, p. B13).

[Texto 22 865]

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Definição: «homeopatia»

Falta pouco


      «Por si alguien todavía tenía dudas, la homeopatía no sirve para el tratamiento de ninguna enfermedad y sus efectos son comparables al placebo. Así lo refleja un exhaustivo informe técnico titulado “Homeopatía y productos homeopáticos: Evaluación de las evidencias acerca de su eficacia y seguridad”, publicado por la Agencia Española de Medicamentos y Productos Sanitarios (Aemps), en el que se concluye de forma categórica que no existe evidencia cientifica que avale la eficacia de la homeopatía como instrumento terapéutico, tras una revisión sistemática de la literatura científica y de las evaluaciones de organismos estatales a nivel internacional» («El Ministerio de Sanidad concluye que la homeopatía no es eficaz para tratar ninguna enfermedad», C. Garrido, ABC, 22.04.2026, p. 57). 

       Em Espanha já chegaram a esta conclusão óbvia, e certamente cá não vai demorar. Não acredito, por isso, que haja um lóbi que trabalhe para impedir que nos dicionários se diga ➜ homeopatia MEDICINA sistema terapêutico criado por Samuel Hahnemann (1755-1843), baseado no princípio de que substâncias capazes de provocar certos sintomas num indivíduo saudável podem, em doses extremamente diluídas e após sucessivas diluições e agitações, tratar sintomas semelhantes num doente; as diluições empregadas são frequentemente tão elevadas que tornam improvável ou inexistente a presença de moléculas da substância original, assentando o método em pressupostos sem fundamento científico e não havendo prova fiável da sua eficácia terapêutica.

[Texto 22 864]

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Léxico: «varadouro»

Amazónia, Mato Grosso


      «Tudo começa com o desmatamento ilegal de uma área no interior da floresta, perto de um rio, para retirada de madeira, garimpo ou pecuária. Em seguida, são abertas trilhas (ou varadouros, como são chamados esses caminhos na Amazônia) para o tráfego de pessoas e produtos» («Estradas fantasmas turbinadas por políticos locais ameaçam a Amazônia, afirmam estudos», Flávio Ferreira, Henrique Santana e Jullia Gouveia, Folha de S. Paulo, 21.04.2026, p. A10).

      Não será apenas por esta que os dicionários brasileiros acolhem sete acepções de «varadouro» e os portugueses apenas duas.

[Texto 22 863]

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Definição: «meritocracia»

Estão a ver a coisa mal


      «Se há um viés cognitivo de ampla penetração, é a falácia do mundo justo —a ideia de que, no final, as pessoas receberão o que merecem. Somos condicionados desde criancinhas a crer nessa lorota. Ela está presente nas histórias infantis (vilões são sempre punidos), nas religiões (papai do céu recompensa os bons e castiga os maus) e até em justificações ideológicas (discurso da meritocracia). Aparece também em eleições» («Injustiça eleitoral», Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo, 17.04.2026, p. A3).

      Quando descemos (ou subimos, depende da perspectiva) a estes conceitos, as definições deixam muito a desejar. No caso, tanto o Houaiss (com a misturada na primeira acepção) como a Porto Editora, que põe toda a ênfase, e eu nem sei porquê, na liderança (salvo como simplificação didáctica), não vão ao cerne da questão, que tem que ver com a distribuição de posições. Assim, proponho ➜ meritocracia SOCIOLOGIA sistema de organização social ou princípio de distribuição segundo o qual posições, recompensas ou estatuto são atribuídos em função do mérito individual (aptidão, esforço, desempenho), e não da origem social, riqueza ou privilégios herdados; por extensão, conjunto de mecanismos de selecção e promoção baseados nesse critério.

[Texto 22 862]

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Léxico: «subdominante»

Mais música


      O músico Daniel Pereira Cristo, que acaba de lançar o seu terceiro disco, Malva Globo, foi recebido por Pedro Miguel Ribeiro no Mesa para Dois, da Antena 1. E que disse ele que nos interesse para aqui? Muita coisa, mas sobretudo isto: «Ora, dos Beatles até à Laurindinha e passando por uma série, uns milhares largos de música, da nossa música ocidental, é por aí, não é? Tónica dominante, às vezes vai à subdominante, mas pronto, tónica dominante, se a gente pensar em “We all live in a yellow submarine”.» Ora, Porto Editora, não registas ➜ subdominante MÚSICA quarto grau da escala diatónica, situado a uma quarta justa acima da tónica, com função harmónica intermédia entre a tónica e a dominante.

[Texto 22 861]

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Léxico: «rato-do-canavial | trionomídeo»

Marcha tudo


      «Nós, Combonianos, vivemos a missão na sua dupla dimensão de anúncio do Evangelho e promoção humana. Por isso, iniciámos na prisão [Ankaful Maximum Security Prison, Cape Coast, Gana] um projecto de criação de coelhos e de um roedor de grande porte e carne muito saborosa, o rato-do-canavial, a que aqui chamam grasscutter» («Olha para mim», Pepe Girau, Além-Mar, Maio de 2026, p. 45). 

      Ora, já os nossos militares da Guerra Colonial conheciam o ➜ rato-do-canavial ZOOLOGIA (Thryonomys swinderianus) roedor africano de grande porte, da família dos Trionomídeos, distribuído pela África Subsariana, associado a zonas de vegetação densa e a culturas agrícolas, sobretudo canaviais; de corpo robusto, pelagem acastanhada e de hábitos nocturnos, alimenta-se de gramíneas e outras plantas, sendo também apreciado como fonte de alimento em várias regiões africanas. 

      Lá se também os comiam, isso já não sei. Podia perguntar ao meu primo, primo em 2.º grau, Anselmo, o único da família, apesar de franzino, débil, baixote, que foi à guerra. Por sorte, veio inteiro e com a cabeça a funcionar mais ou menos. Ou seja, como anteriormente: mais ou menos.

[Texto 22 860]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 



P. S.: Ainda estou abismado e um pouco tonto (mas isto deve ser do Sprizz que acabei de beber, muitas horas depois de ter tomado o pequeno-almoço) por ver a riqueza do verbete «primo» nos dicionários brasileiros e a pobreza nos nossos. Vae mihi!



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Definição: «electrocromismo | electrocrómico»

Não é tanto a cor, não


      Ontem vi o filme Dias Perfeitos, de Wim Wenders. O protagonista, Hirayama, sai todos os dias de casa com um sorriso nos lábios, e isto quando é mero empregado de limpeza de casas de banho públicas em Tóquio. Até parece leitor do nosso José Tolentino Mendonça: «Chegará o momento em que compreenderemos que sabedoria é amar tudo. É saudar os dias sem esquecer a importância das horas» (in Para os Caminhantes Tudo É Caminho, Lisboa: Paulinas, 2026). Ora, algumas daquelas casas de banho são totalmente de vidro. Fazem parte de um projecto em Tóquio, mais concretamente em Shibuya, promovido pela Nippon Foundation, para tornar os sanitários públicos mais transparentes, literalmente, quanto à limpeza e segurança. Ao entrar, o utilizador gira o fecho interior e os vidros tornam-se opacos no mesmo instante. A este vidro inteligente dá-se o nome de electrocrómico, ou PDLC (de polymer dispersed liquid crystal). Como funciona isto, quase magia? O vidro tem uma camada interna com cristais líquidos dispersos. Quando não há corrente eléctrica, esses cristais estão desorganizados → a luz espalha-se → o vidro parece opaco (leitoso). Quando se aplica corrente, os cristais alinham-se → a luz passa directamente → o vidro fica transparente. 

      Agora a definição de «electrocrómico» no dicionário da Porto Editora: «que sofre mudança reversível de cor em resposta a estímulo eléctrico». Pois, não é verdade. Em causa estão alterações das propriedades ópticas — cor, transparência, opacidade, absorção de luz — em resposta a um estímulo eléctrico. Há logo aqui um problema, prévio, que se repete em inúmeros verbetes: se o núcleo conceptual está em «electrocromismo», que é o fenómeno, para que estamos a carregar a definição do adjectivo relacional correspondente? Não faz sentido. Assim, proponho ➜ electrocromismo FÍSICA, QUÍMICA fenómeno pelo qual certos materiais apresentam variação reversível das propriedades ópticas sob acção de um estímulo eléctrico, geralmente por efeito de processos electroquímicos internos | ➜ electrocrómico FÍSICA, QUÍMICA relativo a electrocromismo; que manifesta electrocromismo.

[Texto 22 859]

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Definição: «síndrome de Tourette»

Nem oito nem oitenta


      «Los tics se agravaron y a los 14 años le diagnosticaron síndrome de Tourette, trastorno neurológico crónico caracterizado por tics motores y vocales involuntarios, rápidos y repetitivos, que se inician antes de los 18 años» («Un marcapasos cerebral para liberar a Josep de sus insultos descontrolados», Esther Armora, ABC, 22.04.2026, p. 58).   

      Este sofria de coprolalia. Como eu argumentei, se apenas 10 % dos que sofrem desta síndrome têm coprolalia, não pode ficar na definição, como fazia a Porto Editora. Porque isso, afinal, não sendo definidor, é o mais estigmatizante. A Porto Editora acedeu, concordou, mas reduziu-a demasiado. É esse mesmo, aliás, o problema de muitas definições dicionarísticas, que, ao quererem ser demasiado genéricas, acabam por perder precisamente estes traços distintivos que a jornalista não omitiu. Assim, proponho ➜ síndrome de Tourette MEDICINA perturbação neurológica crónica caracterizada pela presença de tiques motores múltiplos e de pelo menos um tique vocal, involuntários, rápidos e repetitivos, com início na infância ou adolescência (antes dos 18 anos), podendo variar em intensidade e associar-se a outros distúrbios comportamentais ou neuropsiquiátricos.

[Texto 22 858]

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Oh diabo!

Assim começamos


      «Mazouco é uma aldeia portuguesa, mas parece espanhola. O habitante liga para o 112 e atendem do país vizinho. O regulador diz que não há incumprimento das operadoras. Ó diabo...» («Sobe & Desce», Correio da Manhã, 21.04.2026, p. 3). 

      Falam muito, mas interjeccionam mal. Na verdade, e ao contrário do que se lê num dicionário de certa academia, é de uma locução que se trata — oh diabo —, ocorre mesmo esta fusão para a expressão de um significado único, usada perante um acto de certa gravidade, exprimindo espanto, censura, recordação súbita de um acto a realizar, etc. Logo, sem vírgula. A Porto Editora não se quis comprometer e nada diz sobre isto. «— Oh diabo! Ao futebol não costumo ir, não. Mas, se fazes muito empenho em ir, arranjo-te um bilhete, se me prometeres ir lá co’uma rapariga séria, claro» (Futebol, Hugo Rocha. Lello & Irmão Editores, 1957, pp. 245-46).

[Texto 22 857]

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P. S.: Poderão ser muito diferentes em tudo o resto, mas Andrea Neves, Eduarda Maio e José Carlos Trindade, da Antena 1, mostraram hoje de manhã ser exactamente iguais numa coisa: ignoram que nem todos os nomes de países são antecedidos de artigo, e entre estes está Chipre. Assim, Andrea Neves, Eduarda Maio e José Carlos Trindade, os chefes de Estado e de governo da União Europeia iniciam hoje em Chipre uma cimeira informal de dois dias, que dirigirá essencialmente a atenção para a guerra no Médio Oriente e incluirá um encontro com parceiros na região. Agora só para Eduarda Maio: não diga que a sua colega está a falar «a partir de Nicósia», mas «de Nicósia». Agora só para José Carlos Trindade: devia preferir, por vários motivos, «trovejar» a «trovoar».


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