Irritações: véspera e dia anterior

Esta deixa-me doente


      Não sei se já disse isto nos vinte anos de blogue, mas, como todos os dias nascem tradutores, não fará mal, pelo contrário: por favor, não escrevam tantas vezes «no dia anterior». De certeza que conhecem, já ouviram da boca de pais, avós (mas devia ser «avôs), vizinhos, a palavra «véspera». Usem-na.

[Texto 22 343]

Irritações: «soar»

Porque não é tradutor

      «“You are?” Bob’s voice sounded surprised.» Se não é tradutor, caro leitor, de certeza que não verteu aquele «sounded» por «soou». Parabéns, é menos uma criatura, que me parecem, e são, demasiadas, que me enfurece com essa maneira tolinha de traduzir. Sim, tem razão, há alternativas, e entre elas estão, no contexto, «mostrar-se» ou «parecer».
[Texto 22 330]

Como se pontua por aí

Um mal ibérico


      «En una tertulia televisiva se burlan de Kiko Rivera porque le ha escrito a una mujer con la que mantiene una relación sentimental una carta sin faltas de ortografía, “incluso con tildes”, lo que atribuyen a que se ayudó de la inteligencia artificial. Mientras los ortógrafos del corazón charlan, en la parte inferior de la imagen aparece este rótulo: “Kiko Rivera, enamora con la IA”. La coma entre el sujeto y el verbo confirma la validez del dicho “No escupas hacia arriba, que te puede caer en la cara”. Y que tire la primera piedra el que nunca haya sido reo de cacografía» («La ortografía у el amor», Francisco Ríos, La Voz de Galicia, 24.01.2026, p. 18). 

      Como hoje mesmo já vi (e corrigi) este erro, tão frequente, num texto, nunca é em vão que aqui, e em português ou em castelhano, se fala nestes erros crassos. Eles são bons é em matérias complexas; em coisas assim comezinhas espalham-se com vergonhosa frequência.

[Texto 22 316]

Nomenclatura científica

Afinal, pouco mudou

      «Aparentemente inofensiva, a espécie Achatina Fulica transporta ocasionalmente um parasita que causa meningite nos humanos» («Miami luta contra praga de caracóis africanos gigantes», C. R. F., Diário de Notícias, 20.09.2011, p. 26).
      Voltamos aos erros de sempre. E ainda eu escrevia no Assim Mesmo, em Março deste ano, que a «nomenclatura científica lá está a entrar na compreensão de todos, depois de tantas cincadas e tantas críticas». É Achatina fulica que se escreve, caro C. R. F. A razão, se quiser sabê-la, encontra-a naquele blogue ou noutro sítio.
[Texto 500]

Caracteres especiais

É diferente

      Na obra pergunta-se se será significativo, patético ou irrisório «que, numa casa romena, os retratos detestados de Ceausescu tenham sido substituídos por fotografias, recortadas de revistas, das personagens da série televisiva Dallas». No original lê-se Ceauşescu, com o carácter especial ş, que equivale a um dígrafo. Ninguém, contudo, mudará a grafia — porque não é costume entre nós grafar esse nome com os caracteres originais. Mas também aparecia o nome Raphael Confiant e alguém emendou para Raphaël.

[Texto 392]

Revisão

Há sempre uma primeira

      Com os anos que já levo de revisor, nunca tinha sido referido, num contrato (das raríssimas vezes em que há contrato) por «criador intelectual». E também nunca me tinha acontecido que, numa tradução, uma personagem secundária aparecesse no início como radiologista e mais para o fim como psiquiatra. Autor, revisor e tradutor não viram o erro. Tenho outras histórias bem interessantes (algumas só posso contar nas minhas memórias), mas esta talvez as supere na cegueira que revela.
[Texto 379]

Aspas

A importância das aspas

      «De acordo com Ferreira de Oliveira, que falava durante a apresentação de resultados semestrais da companhia, as estações que encerraram eram de pequena dimensão e não conseguiram atingir a rentabilidade necessária para continuar a operar. Uma realidade que está a preocupar o presidente da Galp. “Há estações de serviço a morrer em Portugal”, conclui» («Galp já encerrou 17 ‘bombas’ este ano por causa da crise», Ana Baptista, Diário de Notícias, 30.07.2011, p. 33).
      A jornalista teve receio de que o pobre e ignorante leitor supusesse, pela leitura do título, que se tratava de engenhos explosivos, pelo que, ad cautelam, usou as aspas. Com as aspas, a acepção mudou logo, não é?

[Texto 359]

Infinitivo pretérito

Quando, exactamente?

      «Relendo o número 13 [de A Bem a Língua Portuguesa], de Janeiro-Fevereiro de 1972, lembrei-me de lê-lo e comentá-lo com o meu pai. Como jovem arquitecto naval, ele tinha desenhado vários cacilheiros e fascinava-o a dificuldade de arranjar palavras portuguesas para ferry-boat. Cacilheiro era uma solução engraçada mas desgraçadamente local. Como chamar as ferribotas com outros destinos que não Cacilhas?» («O canal da Manga», Miguel Esteves Cardoso, Público, 25.07.2011, p. 31).
      Quando é que Miguel Esteves Cardoso leu o boletim da SLP ao pai? Em 2011, tempo da escrita, ou antes? A dúvida levou-me a pesquisar na internet. Cá está: Joaquim Carlos Esteves Cardoso † 1994. A crónica começa assim: «A Bem da Língua Portuguesa: assim se chama, com justiça, o Boletim [sic] da Sociedade de Língua Portuguesa. Esta semana um amigo nosso deu-nos uma dúzia deles.» (Se escreveu a crónica no domingo, 24, quer dizer que lhos tinham oferecido nesse mesmo dia, porque a semana começa no domingo. Logo, em princípio, se não é ficção, terá sido na semana anterior. Mas a questão não é esta.) Como está escrito, o leitor é levado a pensar que, relendo agora, em Julho de 2011, o boletim n.º 13, se lembrou de o ler ao pai — o que sabemos ser impossível porque este já faleceu. Ora, só podemos concluir que o tempo verbal não é o correcto. Correcto seria ter usado o infinitivo pretérito impessoal: «lembrei-me [então] de o ter lido e comentado [antes] com o meu pai».
      «Lembrei-me de ter lido nos jornais locais que o grande ator e sua companhia davam espetáculos em Lima» (Solo de Clarineta, Érico Veríssimo. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1984, p. 334).

[Texto 357]

Arquivo do blogue