Como se traduz por aí

Falsos amigos para falsos tradutores


      «He picked up his service pistol, a 9 mm Walther P38, from the dressing table, checked the action, and slotted it into his holster.» Para o tradutor, é «verificou a acção», sem dedicar meio segundo a pensar se isso fazia sentido.

[Texto 22 880]

Tradução: «guardien de la paix»

Espetanços contra o espectador


      No filme Os Novos Vizinhos (Les Gens d’à côté, André Téchiné, 2024), Lucie (Isabelle Huppert) resume assim a Yann (Nahuel Pérez Biscayart) o seu percurso inicial na polícia: «Comecei como guardien de la paix aos 24 anos. Depois estive 3 anos na polícia administrativa e depois trabalhei com sem-abrigo, nas estações da Gare du Nord e da Gare de L’Est.» Isto, claro, nas legendas, et le spectateur qui ne comprend pas le français, tant pis pour lui. Não é isso, não é SÓ por estar ali aquele pedacinho em francês: está mal traduzido. Mas o que é isso de «polícia administrativa»? Bem, terão de perguntar à tradutora, Cláudia Brito. Vamos ao que a personagem diz, vamos ao áudio: «J’ai commencé gardien de la paix à 24 ans. Plus tard, j’ai fait police-secours à Paris pendant trois ans, puis je me suis occupée des sans-abris dans les gares. Gare du Nord, gare de l’Est.» Transpondo — não é o que se deve fazer na tradução? —, tanto quanto possível, para a realidade portuguesa, seria mais ou menos assim: «Comecei como polícia aos 24 anos. Mais tarde, estive três anos na intervenção rápida em Paris e, depois, ocupei-me de sem-abrigo nas estações: Gare du Nord e Gare de l’Est.»

[Texto 22 852]

Como se escreve por aí

Desta linda maneira


      «Um estúdio e uma escola que também conta com um museu e uma loja. Fernando Daniel acaba de inaugurar Nagana, um megaprojeto em Ovar dedicado à música, à gravação e ao ensino. O projeto abrange uma área de 1000 metros quadrados e assume-se já como um dos maiores e mais relevantes espaços do género a norte do País. O investimento é exclusivo do cantor e ronda os 2 milhões de euros. “Investi aqui quase todo o dinheiro que ganhei em oito anos na minha carreira. Abdiquei de muita coisa em prole deste projeto, em termos pessoais e profissionais, mas sinto que precisava de um espaço como este porque é isto que acredito que vou fazer para o resto da minha vida”, diz ao CM» («“Investi o que ganhei em oito anos de carreira”», Miguel Azevedo, Correio da Manhã, 18.04.2026, p. 35). 

      Ah, que desgosto, Miguel Azevedo. Já percebemos que faltou a esta aula. E agora já é tarde. Ou não, não sei, depende do brio.

[Texto 22 841]

Como se escreve por aí

Impera o desmazelo


      «Antes do lançamento, as dezenas de pessoas tentavam conter as borboletas na barriga. O nervosismo era indisfarçável, o orgulho também. O risco existia, mas era baixo: 0,5% de probabilidades de lançamento. As odds eram boas, mas para quem dedicou muito ao projeto, qualquer meio porcento é muito» («Portugal já lançou seis satélites para o espaço e quer criar o “Waze do mar”», Tomás Anjinho Chagas, Rádio Renascença, 30.03.2026, 12h17). 

      É assim que se escreve, Tomás Anjinho Chagas? Despiorando um pouco, teríamos: «Antes do lançamento, as dezenas de pessoas tentavam conter o nervosismo, que era indisfarçável, tal como o orgulho. O risco existia, mas era baixo: 0,5 % de probabilidade de falha no lançamento. As probabilidades eram favoráveis, mas, para quem dedicou tanto ao projecto, qualquer meio por cento pesa muito.»

[Texto 22 728]

Confusões: «à vontade» e «à-vontade»

Pese embora a nódoa


      «“Este é um clube de leitura dedicado ao teatro, mas igual a todos os outros. Não é uma aula”, sublinha Isabel Milhanas Machado. “O objectivo é fazer com que qualquer pessoa se sinta à-vontade, sem medo de falar, fazer perguntas, propor uma interpretação ou partilhar a sua experiência. Mas, se quiser, também pode car só a ouvir”» («Um pouco por todo o país, há leitores de teatro à procura de uma peça atrás da outra», Luís Ricardo Duarte, Público, 27.03.2026, p. 30). 

      O jornalista aqui borrou um pouco a pintura (Luís Ricardo Duarte, aprenda urgentemente a distinguir e a usar «à vontade» e «à-vontade»), mas o artigo é interessante, fala de clubes de leitura em Lisboa e no Porto. O resto é paisagem. Em Lisboa, é o Clube de Leitura do Teatro Variedades; no Porto, as Leituras no Mosteiro são uma iniciativa do Centro de Documentação do Teatro Nacional São João. São ambos clubes de leitura de peças de teatro, e os textos são lidos na íntegra.

[Texto 22 700]

Como se traduz por aí

Não chegam ao céu


      E quando o original diz algo tão banal como «Then he called up» e o tradutor resolve a coisa com esta elegância: «Vozeou»? Quantas vezes não encontro estas tretas? E sempre me vêm à mente vozes de animais. Como zorrar. Não façam isto.
[Texto 22 669]

Como se escreve por aí

Pormenores, mas relevantes


      «Não há uma segunda oportunidade para causar a primeira impressão e o Presidente António José Seguro aproveitou bem a sua tomada de posse. No discurso, ao falar da desordem no mundo, citou o filósofo inglês Thomas Hobbes, que chamou ao homem “lobo do homem”» («Os lobos dos homens», Carlos Fiolhais, Correio da Manhã, 17.03.2026, p. 3). Por pouco acertava. Aqui, a indeterminação é a chave: «Não há segunda oportunidade para causar uma primeira impressão.» Quanto à frase sobre o homem ser o lobo do homem, foi popularizada por Thomas Hobbes (1588-1679), mas é, como se sabe, de Plauto (254-184 a. C.): «Lupus est homo homini, non homo, quom qualis sit non novit.» («Um homem é um lobo para outro homem, e não um homem, quando não sabe com quem está a lidar.») Mas depois veio Rousseau e pôs as coisas nos termos que, a meu ver, são os correctos.

[Texto 22 640]

Uma ida ao teatro

Tudo na mesma


      Fui ver a peça O Quarto, de Harold Pinter, no Teatro Experimental de Cascais. Uns minutos antes de a peça começar, e até parecia que andavam ainda a carpintejar no palco, porque se atrasaram, um espertalhão ao meu lado, acompanhado de duas mulheres, dizia esperar que nenhuma delas sofresse de estroboscopia. E eu só espero que a criatura não seja professor e não ande por aí a ensinar parvoíces. Quanto à peça, os erros do costume. Na ficha técnica, do tradutor ao frente-de-casa (termo que em boa hora levámos para o dicionário da Porto Editora em Abril de 2024), aparece o nome de toda a gente — menos do revisor, porque os responsáveis acham que as peças de teatro não precisam de revisão. Como estão enganados... 

[Texto 22 590]

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