Definição: «conto»

Antiquado, mas tão presente


      Assim como esta precisa de ser mais bem definida ➜ conto ECONOMIA antiquado unidade de conta correspondente a um milhão de réis; após a reforma monetária de 1911, passou a equivaler a mil escudos (1000$00); sob a forma completa conto de réis, foi corrente no período monárquico, tendo a forma abreviada conto prevalecido no uso em Portugal até à substituição do escudo pelo euro (2002). 

      A etimologia, é claro, está incompletíssima, pois vem, de facto, do latim compŭtu-, «cálculo, conta»; mas, por especialização semântica, passou a designar, em contexto contabilístico, uma soma determinada, fixando-se em português como milhão de réis (conto de réis).

[Texto 22 906]

Léxico: «transcriptoma | transcriptómica | transcriptómico»

E são três


      «Neste estudo, os investigadores combinaram técnicas de sequenciação de células individuais e transcriptómica espacial – tecnologia avançada que mapeia a expressão dos genes diretamente em cortes de tecido, preservando a localização original das células – para examinar cerca de 5,5 milhões de neurónios em mais de 300 ratinhos» («Cientistas criam o primeiro “mapa do olfato”», Rádio Renascença, 28.04.2026, 16h36). 

      Bem, muito bem, rebém — porque é, de facto, esta a palavra, com esta grafia, que se usa na maioria das vezes. Não é por acaso. Assim, proponho ➜ transcriptómica BIOLOGIA MOLECULAR ramo que estuda o transcriptoma; conjunto de métodos destinados à análise global da expressão génica. 

      E é assim porque vem do inglês transcriptome, comp. de transcript, «transcrito», + genome, «genoma», com -ome (do gr. -ōma, «conjunto, totalidade»), já que, termo científico e recente que é, não se formou na nossa língua, e daí ser errado escrevê-lo «transcritoma». 

      E, assim, também temos ➜ transcriptoma BIOLOGIA MOLECULAR conjunto de todas as moléculas de RNA (transcritos) presentes numa célula, tecido ou organismo, num dado momento ou em determinadas condições; reflecte o estado de expressão génica. 

      E ➜ transcriptómico BIOLOGIA MOLECULAR relativo ao transcriptoma ou à sua análise; que diz respeito ao estudo global da expressão génica.

[Texto 22 897]

Definição e etimologia: «maratona»

Nem dizem se é de estrada


      «Cuentan que el origen del maratón hay que agradecérselo al filólogo francés Michel Bréal. Fue él quien relató a Pierre de Coubertain la vieja historia de Filípides y su carrera desde Marathon hasta Atenas para anunciar el desembarco persa. También quien lo convenció para incluir una prueba similar en el programa olímpico. Y dicen que los 42,195 kilómetros no son la distancia real entre las dos ciudades, sino que se estableció así a partir de los Juegos de Londres 1908, cuando se alargó la prueba en poco más de dos kilómetros al inicio para que la Reina consorte pudiese ver la salida desde el balcón real del Palacio de Windsor» («El asalto a la barrera imposible: del pie descalzo de Bikila a unas zapatillas de 97 gramos», J. Asprón, El País, 27.04.2026, p. 33). 

      Dizem, dizem, dizem... Maratona não era cidade, como escreve o jornalista, nem aldeia, como se lê no Houaiss. Não passava de um povoado, um demo, mas designava sobretudo uma planície. Quanto à definição, podia dizer-se mais do que se lê na maioria dos dicionários, sem sobrecarregar, assim ➜ maratona DESPORTO prova de corrida pedestre de fundo, disputada em estrada, com distância oficial de 42,195 km, fixada internacionalmente desde os Jogos Olímpicos de Londres de 1908, integrando o programa do atletismo e exigindo elevada resistência física e gestão prolongada do esforço. 

      Já quanto à etimologia, vem do topónimo Maratona (grego Marathṓn), demo da Ática situado numa planície costeira; segundo a tradição, um mensageiro (identificado tardiamente como Fidípedes) correu daí até Atenas para anunciar a vitória ateniense sobre os Persas (490 a. C.); o episódio foi retomado no século XIX, dando origem à designação da prova de corrida de fundo; o topónimo remonta a maráthron, «funcho».

[Texto 22 894]

Definição e etimologia: «Eleutérias»

Ainda bem que isto apareceu


      «“Eleutéria”, que em grego – eleuthería – significa “liberdade” estará exposta no cruzamento da Avenida da Liberdade com a Rua Barata Salgueiro. A peça foi desenvolvida em parceria com o designer Nuno Lacerda e representa, de forma simbólica, a instabilidade de regimes autoritários» («“Eleutéria”: a cadeira que “nasceu para cair” marca o 25 de Abril em Lisboa», Teresa Almeida, Rádio Renascença, 25.04.2026, 10h20, itálico meu).

      É como a jornalista diz, o grego ἐλευθερία (transliterado eleuthería) é o substantivo que designa «liberdade», «condição de ser livre», tanto no plano político como pessoal. Deriva do adjectivo ἐλεύθερος (eleútheros), «livre». Não temos o nome comum, mas a Porto Editora regista Eleutérias, as «festas em honra de Júpiter libertador, para comemorar uma vitória ou a expulsão de um tirano», mas não é bem, bem assim, porque não se restringiam ao contexto romano; porque não eram sempre para comemorar uma vitória ou a expulsão de um tirano, eram antes celebrações da liberdade, frequentemente associadas a vitórias, sim, mas não redutíveis a essa fórmula; porque a referência a Júpiter libertador é enganadora. Assim, proponho ➜ Eleutérias festividades da Grécia antiga, especialmente as de Plateias, celebradas em honra de Zeus Eleutérios («Libertador») para assinalar a vitória sobre os Persas (479 a. C.) e a consequente libertação, com carácter comemorativo e agonístico. 

      Quanto à etimologia completa, passa por explicar que vem do grego Ἐλευθέρια (Eleuthéria), plural substantivado de ἐλευθερία (eleuthería) «liberdade», termo que designa, por extensão, festividades associadas à libertação; passou ao latim como Eleutheria, -orum, nome de festas comemorativas, donde o português erudito «Eleutérias». 

[Texto 22 879]

Etimologia: «região»

Para dizer um pouco mais


      «Certains élus voudraient que l’Alsace redevienne une région autonome. Le mot vient du verbe latin regere, qui signifie diriger» («Région», Étienne de Montety, Le Figaro, 8.04.2026, p. 33). 

      O mesmo é dizer que os dicionários, ao indicarem que «região» vem do latim regiōne-, «idem», pouco adiantam. Assim, proponho ➜ do latim regio, -onis, «direcção, linha traçada, território delimitado», e este de regere, «dirigir, governar; traçar em linha recta».

[Texto 22 779]

Definição e etimologia: «loft»

Que espaço comum é esse?


      «Ce samedi seront célébrées les obsèques de Loana, qui fut la première vedette de l’émission de téléréalité “Le Loft”. Le mot vient directement de l’anglais et désigne un atelier, un grenier. Avec lui, on est conscient de flirter avec le franglais contemporain : ainsi un loft est un appartement trendy, cosy, aménagé dans un atelier haut perché; et son accès peut aller jusqu’à nécessiter le service d’un liftier» («Loft», Étienne de Montety, Le Figaro, 3.04.2026, p. 33). 

      É a nossa oportunidade de corrigir a definição de loft no dicionário da Porto Editora, que fala num «espaço comum» — comum a quem ou a quê? —, além de que na etimologia não adianta nada. Assim, proponho ➜ loft 1. habitação ou estúdio instalado num espaço amplo, geralmente situado em piso superior e originalmente destinado a uso industrial ou comercial, caracterizado pela ausência de divisórias internas e organização em plano aberto, com frequência com pé-direito elevado; 2. [por extensão] qualquer apartamento concebido segundo esse modelo espacial. 

      Quanto à etimologia, no mínimo tem de se indicar que vem do inglês loft, «sótão; piso superior de edifício». É o mínimo, mas já suficiente, porque o Houaiss diz assim: «ing. loft (sXIII) ‘sótão; galeria elevada (em igreja); um dos andares superiores de um galpão ou estabelecimento de negócio, esp. quando não dividido; esse espaço adaptado para moradia ou estúdio’».

[Texto 22 746]

Etimologia: «investir»

Tem de se dizer mais


      «Le week-end dernier, les villes ont procédé à l’investiture des maires élus il y a quelques semaines. Le mot vient du verbe latin investire, «revétir»: en l’occurrence, le nouveau venu revêt l’écharpe tricolore dévolue à l’édile, signe de ce que cette élection revêt elle aussi quelque chose: une grande importance» («Investiture», Étienne de Montety, Le Figaro, 31.03.2026, p. 34). 

      A nota etimológica dos nossos dicionários, como é habitual, limita-se a repetir o verbo português no latim e no francês, sem esclarecer o valor semântico original nem a evolução. Assim, proponho ➜ do latim investīre, «revestir, cobrir com vestes; conferir dignidade ou função mediante acto formal», pelo francês investir, «conferir oficialmente um cargo»; ulteriormente, «aplicar capitais».

[Texto 22 734]

Etimologia: «lemiste»

Quase uma história


      «Quando se foi embora, esqueceu-se dum colete. Um colete, àquela altura dos tempos, de fino lemiste, largas golas e largo decote, com abotoadura de madrepérola incrustada em prata ou oiro, era uma peça sumptuosa de vestiaria» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 252). 

      Infelizmente, a melhor parte, a mais interessante, da etimologia desta palavra é omitida pelos nossos dicionários. Não sei onde querem que os falantes vão saber. Do castelhano lemiste, «pano preto de lã», do inglês antigo lemster, e este de Lemster, grafia arcaica de Leominster, nome da cidade inglesa, no Herefordshire, onde se fabricava esse tecido.

[Texto 22 727]

Definição e etimologia: «eczema»

Sobretudo a etimologia


      «L’eczéma ou dermatite atopique, la plus fréquente des maladies inflammatoires de la peau, touche environ 20% des enfants en Suisse et 5% des adultes. Elle se caractérise par l’apparition sur la peau de plaques rouges et de lésions, de démangeaisons et de sécheresse de l’épiderme. Il s’agit d’une pathologie chronique, qui se manifeste par des pics de symptômes, entrecoupés de périodes de rémission» («Comment le stress exacerbe l’eczéma», Pascaline Minet, Le Temps, 20.03.2026, p. 10). 

      Os nossos dicionários definem muito mal «eczema», e a etimologia que indicam tem ampla margem para melhorar. Assim, proponho ➜ eczema MEDICINA designação genérica de dermatoses inflamatórias, de evolução aguda ou crónica, caracterizadas por eritema, prurido e lesões cutâneas variáveis, incluindo vesículas, crostas e descamação, frequentemente associadas a causas alérgicas, irritativas ou a predisposição atópica; dermatite. 

      Quanto à etimologia, vem do grego ékzema, «erupção cutânea», de ekzéō, «ferver, irromper», de ek, «fora» + zéō, «ferver».

[Texto 22 672]

Um possível parentesco: «ṣirāṭ» e «strata»

Realmente...


      Na quinta-feira, vi o filme Sirât (2025), de Oliver Laxe, cujo título remete para a ideia islâmica de travessia e prova, funcionando como chave simbólica para o percurso das personagens, entre caminho físico e limiar existencial, como se anuncia logo no início: «Há uma ponte chamada Sirat que liga o inferno ao paraíso, e o seu caminho é mais estreito do que um fio de cabelo.» É curioso notar, como por vezes sucede em percursos etimológicos deste tipo, a semelhança fonética entre sirāt e strata (estrada), ainda que essa aproximação, por si só, não constitua prova. Alguns estudiosos da filologia semítica e do léxico alcorânico, como Arthur Jeffery e Toshihiko Izutsu, admitiram a hipótese de ṣirāṭ não ser de origem árabe, propondo antes uma derivação do latim strata («estrada pavimentada»), eventualmente por via do grego ou do aramaico. Esta proposta, embora discutida e não consensual, insere-se no estudo mais amplo dos possíveis empréstimos no vocabulário alcorânico. No próprio Alcorão, a palavra surge 45 vezes, frequentemente na expressão «ṣirāṭ al-mustaqīm» («o caminho recto»), com forte valor ético e espiritual. Vejam o filme, uma autêntica experiência sensorial.

[Texto 22 670]

Etimologia: «filatelia»

Já fui coleccionador


      «Filatelia» vem do francês, Porto Editora? Está certo! Mas incompleto. Essa pecha de não reconhecer autorias é muito portuguesa. Então a ideia não foi, aí por 1864, do francês Georges Herpin, que pretendia substituir o menos feliz «timbre-mania»? Monsieur Herpin, je peux vous recommander un excellent cabinet d’avocats pour engager votre action en indemnisation.  Assim, proponho ➜ do francês philatélie, termo criado em 1864 por Georges Herpin (1842-1895), a partir do grego phílos, «amigo, amante», e atéleia, «isenção de taxa, franquia postal paga», significando literalmente «amor pela isenção (de porte)», isto é, pelo porte previamente pago nos selos. 

      (O grego atéleia significa propriamente «isenção de taxa ou imposto»; no contexto postal, remete para a dispensa de pagamento de porte no destino, uma vez que este já foi pago antecipadamente pelo remetente e assinalado pelo selo. E só passou a ser assim desde a reforma postal britânica de Penny Post, em 1840.)

[Texto 22 653]

Etimologia: «evoé»

Vamos dizer mais


      «Finda todavia o ano de 57 soltando um evoé quase dionisíaco à vida, parêntesis optimista raro quando se refere à sua pessoa: Que lindos dias! Como é donoso o sol, meu Barbosa! O sol e as mulheres não é o mais lindo que o mundo tem?» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 252). 

      Está nos dicionários, mas a etimologia deixa muito a desejar. Do lat. evŏe, interjeição usada nas festas em honra de Baco, do gr. εὐοῖ (euôi), variante εὐοῖε (euôie), grito ritual pronunciado nas bacanais e outros cultos dionisíacos; composto de εὖ (eu, «bem, de modo favorável») e elemento exclamativo -οἶ/-οἶε, típico de invocações religiosas. Entrou no português por via erudita, conservando o valor de aclamação jubilosa, sobretudo em contextos festivos ou artísticos.

[Texto 22 641]

Etimologia: «evasão»

Avancemos


      «Un détenu s’est évadé grâce à des complices ayant présenté de faux documents aux autorités pénitentiaires. Le mot vient du verbe latin vadere, qui signifie “aller, s’avancer”. Le détenu s’en est allé. On aimerait qu'il revienne et qu’on n’en entende plus parler : vade retro, pour ainsi dire» («Évasion», Étienne de Montety, Le Figaro, 12.03.2026, p. 34).

      É o sinal para passarmos a dizer alguma coisa de útil na etimologia de «evasão», e não meramente que vem do latim evasiōne. Assim, proponho: do latim evasio, -onis, «fuga, saída», derivado de evadere, «sair, escapar», formado por e- (de ex-, «para fora») + vadere, «ir, avançar».

[Texto 22 615]

O nome dos principais mares

Estava aqui a pensar


      Já pensaram porque temos o mar Vermelho, o mar Amarelo, o mar Negro e o mar Branco? E é assim há muitos séculos e em várias línguas: Red Sea, mer Rouge, Mar Rosso, Schwarzes Meer, White Sea. A ideia de identificar certos mares por cores está dispersa por grande parte da tradição geográfica do mundo. Só há explicação segura, unívoca, para dois deles: o mar Amarelo e o mar Branco. O primeiro deve a cor aos enormes sedimentos, vemo-lo em reportagens na televisão, que o rio Huang He (o rio Amarelo) arrasta das planícies da China e que ficam em suspensão na água, dando-lhe um tom amarelo-acastanhado. O segundo fica no Noroeste da Rússia, ligado ao oceano Árctico, e passa longos meses do ano rodeado ou coberto de gelo e neve. Já os outros dois entram no território das hipóteses. O nome mar Vermelho tem sido explicado de várias maneiras. Uma delas aponta para florações de uma cianobactéria (Trichodesmium erythraeum) que por vezes tingem a água de tons avermelhados. Outra hipótese é simbólica: em certas tradições asiáticas antigas, as cores estavam associadas aos pontos cardeais, e o vermelho correspondia ao sul, direcção onde esse mar se encontra relativamente ao mundo mediterrânico. O mar Negro também tem explicações concorrentes. Pode dever o nome ao aspecto muito escuro das águas durante tempestades frequentes e violentas. Mas há quem pense que o nome segue o mesmo sistema simbólico: em várias culturas da Ásia Central e turcas antigas, o preto correspondia ao norte. No fim de contas, aquilo que parece uma explicação evidente, mares com nomes de cores, revela-se bastante menos claro quando se procura a origem dos nomes. Em dois casos a explicação é simples; nos outros, ficamos apenas com conjecturas. O que nos conduz a uma conclusão: muitos dos nomes mais familiares da geografia mundial são muito mais antigos do que as explicações que hoje tentamos dar-lhes. Os nomes ficaram, as razões perderam-se quase por completo.

[Texto 22 600]

Definição e etimologia: «feminicídio»

Muito incompleto


      «No caso das vítimas mulheres, em muitos países do mundo este crime tem um nome específico e está tipificado na lei: feminicídio ou femicídio. Em Portugal, os homens (que são a esmagadora maioria dos autores destes crimes) são julgados por homicídio com agravantes, mas não existe o crime de feminicídio» («Portugal não segue tendência da Europa e recusa crime de femicídio», Amanda Lima, Diário de Notícias, 6.03.2026, p. 16). 

      Fazer-se equivaler «femicídio» a «feminicídio» é um grande disparate linguístico, originalmente dos dicionários, não da jornalista. Sim, o mal está feito, mas pode voltar-se atrás. A definição da Porto Editora («assassínio de mulher ou rapariga, em razão do seu sexo») apresenta um grande senão: não será compreendida por qualquer Zé taxista. Tem de ser uma formulação mais elaborada, e ao mesmo tempo mais explicativa. Assim, proponho ➔ feminicídio assassínio de mulher ou rapariga motivado por razões de género, isto é, por discriminação, ódio, estereótipos ou relações de poder desiguais associadas ao facto de a vítima ser mulher. 

      Quanto à etimologia, vem do castelhano feminicidio, difundido na literatura jurídica e sociológica latino-americana, formado de femin- (do latim femina, «mulher») + -cídio (do latim -cidium, «acto de matar»), sob influência do inglês femicide, termo popularizado na década de 1970 pela criminóloga Diana Russell para designar o homicídio de mulheres motivado pelo facto de serem mulheres.

[Texto 22 573]

Definição e etimologia: «jâmbico/iâmbico»

Eis a questão


      Não é totalmente descabida a crença de que os contemporâneos de Shakespeare falavam como as suas personagens. Afinal, ele escrevia para um público vivo, presente, e os seus diálogos tinham de parecer verosímeis aos ouvidos elisabetanos. Mas também é verdade que, só por si, Shakespeare terá introduzido mais de 1700 palavras novas na língua inglesa, entre elas assassination, eyeball, lonely ou swagger. Fê-lo não por capricho, mas por necessidade expressiva: os seus versos exigiam precisão, ritmo e impacto. E sim, disse «versos». Grande parte do que hoje associamos ao estilo de Shakespeare decorre de ele escrever, não em prosa, mas em verso branco, mais precisamente, em pentâmetro iâmbico. Esta forma métrica organiza cada verso em cinco pares de sílabas, com o acento rítmico a cair na segunda de cada par. O exemplo mais célebre é: to BE | or NOT | to BE | that IS | the QUEST | ion. A alternância fraca/forte, repetida cinco vezes (de algum lado havia de vir o penta), dá ao texto uma musicalidade discreta mas marcante, que ajuda tanto à memorização como à elevação do tom. Não é por acaso que as personagens mais nobres e importantes falam em verso, enquanto os criados, os rústicos ou os patifes falam em prosa. E, mesmo dentro da métrica, Shakespeare não hesita em dobrar as regras: se for preciso, transforma flower em monossílabo só para não quebrar o ritmo. O resultado é uma linguagem que soa simultaneamente natural e lapidar, nunca exactamente como as pessoas falavam, mas talvez como gostariam de falar. Se hoje Shakespeare nos parece difícil, não é por ter inventado um idioma novo. É porque o seu inglês é, por assim dizer, música. Para reconduzir isto, ou uma pequena fracção, cá ao nosso modesto cantinho, proponho uma clarificação de «jâmbico» e, muito mais urgente, emergente, o melhoramento da etimologia. Assim, proponho ➔ jâmbico 1. (métrica) relativo a iambo, pé métrico constituído por uma sílaba breve seguida de uma longa (na métrica quantitativa) ou por uma sílaba átona seguida de uma tónica (na métrica acentual); 2. (métrica) composto de iambos.

      Quanto à etimologia, vem do latim iambĭcus, por sua vez do grego ἰαμβικός (iambikós), derivado de ἴαμβος (íambos, «iambo», pé de verso usado sobretudo em poesia satírica e invectiva); de origem possivelmente pré-grega, ligada a formas rítmicas populares e jocosas.

[Texto 22 567]

Etimologia: «bisonte»

Não começou com o latim


      «Avec les départs vers les stations de ski, Bison futé reprend du service. Le mot vient du germanique wisund et désigne un bœuf sauvage» («Bison», Étienne de Montety, Le Figaro, 16.02.2026, p. 35). 

      A Porto Editora, contudo, afirma que vem do latim. Tem razão Étienne de Montety, que se refere à origem remota da palavra. Um dicionário tem a obrigação de não cortar a cadeia etimológica demasiado cedo e omitir a origem germânica do vocábulo, que, de facto, se pode reconstruir como wisund ou *wisundaz, que designava precisamente o auroque ou um grande bovino selvagem. Foi este étimo germânico que passou ao latim tardio sob a forma bison, bisontis, e daí às línguas românicas.

[Texto 22 473]

Etimologia: «pódio»

Que diga alguma coisa


      «Podium vient de pes, qui désigne “le pied”. [...] Dans l’Antiquité, le podium désignait un socle, construit dans une arène, où siégeaient les personnalités» («Podium», Étienne de Montety, Le Figaro, p. 34).

      Exactamente, e por isso devemos tornar a nota etimológica útil, não mera excrescência que nada acrescenta. Assim, proponho pódio ➔ do latim podium, ii, «muro baixo que circundava a arena dos anfiteatros, estrado, base elevada», do grego pódion, diminutivo de poús, podós, «pé»; originalmente «pequeno pé», depois «base, apoio, plataforma elevada».

[Texto 22 466]

Definição: «mandarim»

Porque é bem mais do que afirmas


      Explicaria de uma penada porquê o nome mandarim para a língua e para o alto funcionário, mas isso ficará para outra ocasião. Agora, e com urgência, importa corrigir e enriquecer a definição de «mandarim» no dicionário da Porto Editora. Assim, proponho ➔ mandarim HISTÓRIA designação europeia dos altos funcionários da administração dos antigos Estados da China, do Vietname e da Coreia, pertencentes à classe letrada e recrutados por exames públicos, integrados numa hierarquia burocrática ao serviço do monarca, com funções administrativas, judiciais, fiscais ou, em certos casos, militares.

      Quanto à etimologia, deverá dizer-se que já estava atestado em português desde 1514; do malaio menteri, «ministro, conselheiro», do sânscrito mantri, «conselheiro»; a forma portuguesa terá sido influenciada pelo verbo mandar, difundindo-se depois do português para outras línguas europeias.

[Texto 22 456]

Etimologia: «tiramisu»

Acrescenta alguma coisa


      «O tiramisù da Tiramisusi é uma verdadeira homenagem à tradição italiana: caseiro, feito sempre “come lo fa la mamma” (como a mãe faz) e preparado com ingredientes cuidadosamente selecionados, de produtores locais. A palavra significa “puxa-me para cima” ou “eleva-me” – e é exatamente essa sensação depois de provar esta sobremesa que, ao contrário da maioria, não contém álcool» («Difíceis de resistir, fáceis de pedir: dez doces que pode encomendar nas plataformas de entregas», Margarida Vieira dos Santos, Observador, 15.02.2026, 10h21). 

      É tão certo, que vai servir para completar, melhorar, a nota etimológica do verbete «tiramisu». Assim, proponho ➔ do italiano tiramisù, também grafado tirami su, imperativo de tirare, «puxar; elevar», + pronome átono mi, «me», + advérbio su, «para cima», literalmente «puxa-me para cima», em alusão às supostas propriedades energéticas da sobremesa.

[Texto 22 444]

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