Como se pensa por aí

Vá lá, curou-se

      «Eu confesso! No passado, já abracei a heresia, de inspiração levemente heideggeriana, segundo a qual palavras conservariam um sentido original que seria mais verdadeiro que os demais e ao qual teríamos acesso pela análise etimológica. [...] E isso deveria bastar para nos fazer abandonar certos mitos, como a ideia de que a origem da palavra revela verdades secretas sobre ela e sobre o mundo, ou a de que existe certo e errado em matéria de idioma, ou mesmo a de que uma palavra não registrada nos dicionários não existe. Ora, o lexicógrafo só pode abonar aquilo que as pessoas falam» («Na ponta da língua», Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo, 30.11.2025, p. A3).
[Texto 23 788]

Etimologia: «acampada», de novo

Porque continua na ordem do dia

      A Porto Editora eliminou do seu Dicionário da Língua Portuguesa a acepção que atribuía a «acampada», com a marca «Brasil», o sentido de «acto ou efeito de permanecer temporariamente em tendas num lugar ao ar livre; acampamento». Folgo com isso. A acepção não encontrava apoio em nenhuma fonte brasileira. A melhor prova veio do próprio Brasil. Ao noticiar os protestos da geração Z no Rossio, a Folha de S. Paulo escreveu a palavra sempre entre aspas: «A “acampada” deu-se em torno da estátua de dom Pedro 4º». Noutra peça, o mesmo jornalista foi mais longe e explicou-a aos leitores: «Neste sábado (24), milhares de estudantes portugueses desafiaram as autoridades e desceram a avenida da Liberdade em direção ao Rossio com o objetivo de fazer mais uma “acampada” —montagem de tendas onde os estudantes passam a noite em protesto contra os alugueis altos» («Geração Z de Portugal e Espanha tenta articular greve geral conjunta», João Gabriel de Lima, Folha de S. Paulo, 25.10.2026, p. A40). Pena é que, ao corrigir aqui, a Porto Editora tenha errado ali. A etimologia dizia antes «feminino substantivado de acampado, segundo o espanhol acampada, “idem”»; agora fica-se por «feminino substantivado de acampado». Quanto à forma, nada a objectar. O que está em causa, porém, é a semântica: «acampada» como forma de protesto é decalque do castelhano, das acampadas do movimento 15-M, em 2011. É a própria Folha a lembrar que os jovens portugueses se inspiraram na Porta do Sol. Sem a referência ao castelhano, a etimologia explica a palavra e deixa por explicar o sentido, que é afinal o que justifica a entrada. Espero que a reponham.
[Texto 23 768]

Etimologia: «bugio»

Aproveitemos


      «A origem exata do nome Bugio é incerta, embora a teoria mais popular sugere [sic] que deriva do francês ‘bougie’ (vela). A estrutura circular da fortificação e a sua forma cónica faziam lembrar uma vela acesa num castiçal. Já outra versão aponta que o nome satiriza a corte afrancesada, comparando o forte a um bugio, um macaco» («Macaco ou vela acesa em castiçal», Manuela Guerreiro, Correio da Manhã, 27.07.2026, p. 14). 
      A jornalista refere-se, é claro, ao nome do Farol do Bugio, porque quanto à origem do vocábulo «bugio», não há muitas dúvidas. E até merece ser mais bem explicado na nota etimológica dos dicionários, assim ➠ do topónimo Bugia (actual Béjaïa, na Argélia), e este do árabe Budjāya (árabe vulgar Budjîa), cidade de cujo porto se exportavam velas de cera (bugias) e, provavelmente, macacos; do topónimo derivou bugia; posteriormente, por reinterpretação do -a final como desinência de feminino, formou-se o masculino bugio.

[Texto 23 685]

Definição: «sanhaço | assanhaço | saí-açu»

Falemos disto


      «O sufixo já é interessante. Primeiro porque pode ser enganador. Nem toda palavra que termina com “aço” é parte da mesma família, digamos. Em algumas (como “sanhaço”) o que aparece é uma versão do tupi “açu”, que quer dizer “grande” e pode até ter tido um papel na popularização brasileira do uso do outro “aço”, derivado do latim “aceus”. (Aliás, é essa raiz latina que explica que a grafia “correta” do sufixo seja com cedilha.)» («Língua não respeita nenhuma fronteira», Caetano W. Galindo, Folha de S. Paulo, 24.09.2026, p. A50). 
      Vejamos: a Porto Editora regista «sanhaço», «assanhaço» e «saí-açu», mas com vários problemas: 1. «sanhaço» não está marcado como brasileirismo; 2. «assanhaço» recebe apenas a marca genérica «Brasil, regionalismo», sem a localização mais precisa em Sergipe; 3. «saí-açu» reúne numa única definição usos que o Houaiss distingue: duas denominações específicas e, na Amazónia, o emprego como sinónimo de «sanhaço»; 4. o tratamento etimológico é incompleto: «saí-açu» não tem etimologia e «sanhaço/assanhaço» apresentam-na sem análise dos constituintes; 5. «assanhaço» mantém a classificação taxonómica ultrapassada nos Emberizídeos. 
      Sendo assim, proponho ➠ sanhaço Brasil ORNITOLOGIA designação comum a diversas aves passeriformes da família dos Traupídeos, especialmente dos géneros Thraupis e Stephanophorus, de plumagem geralmente cinzento-azulada ou esverdeada | assanhaço Brasil Sergipe, ORNITOLOGIA o mesmo que sanhaço | saí-açu Brasil ORNITOLOGIA 1. o mesmo que saíra-sapucaia (Tangara peruviana); 2. o mesmo que saíra-negaça (Tangara punctata); 3. Amazónia o mesmo que sanhaço. (Quanto à etimologia, comum aos três, é do tupi antigo as’iûasu, «saí grande», de sa’i, «saí» + ûasu, «grande».)

[Texto 23 589]

Etimologia: «almôndega»

Ainda no domínio da comezaina


      «Aquella primera edición, la conocida como Diccionario de autoridades, indicaba varias posibles etimologías de albóndiga. Con el tiempo, la RAE se ha quedado con albúnduga, del árabe hispánico, procedente a su vez del árabe clásico bundugah, y este del griego (káryon) pontikón ‘(nuez) póntica’, por similitud en la forma» («Ojo con las almóndigas», Francisco Ríos, La Voz de Galicia, 19.09.2026, p. 14).
      Ora, o dicionário da Porto Editora, tal como outros, indica que a etimologia de «almôndega» é «do árabe al-bundqâ, “bola; bolinha”». Ou seja, dá como significado próprio do étimo aquilo que parece ser já um desenvolvimento semântico. Assim, proponho ➠ do árabe al-bunduqa, «avelã; bolinha», do árabe clássico bunduqah, «avelã», por sua vez do grego [káryon] pontikón, «[noz] pôntica».

[Texto 23 563]

Etimologia: «dodô»

Me ligue quando descobrir esse elo, valeu?


      Caetano W. Galindo, na edição de 3 do corrente da Folha de S. Paulo, parte da conhecida variação histórica entre ou e oi em português e recorda que, no século XVI, os navegadores portugueses chegaram às ilhas Maurícias, onde encontraram a grande ave incapaz de voar que viria a extinguir-se no século XVII. Segundo a explicação tradicional, os portugueses, impressionados com a mansidão e aparente falta de esperteza da ave, ter-lhe-iam chamado doudo, forma antiga ou variante de doido. O nome teria sido depois adoptado pelos Holandeses e, sobretudo, pelos Ingleses, em cuja língua se fixou como dodo. Mais tarde, o português teria recebido de volta a palavra, já sob a forma dodó ou dodô. Teríamos, assim, um curioso caso de uma palavra portuguesa que viajou por outras línguas e regressou modificada. Há, porém, um elo importante — na verdade, o mais importante — que falta neste raciocínio: não se conhece fonte portuguesa contemporânea dos primeiros contactos com as Maurícias em que doudo (ou forma semelhante) seja usado para designar a ave. Os primeiros testemunhos que atribuem o nome aos Portugueses são de autores ingleses: Emmanuel Altham, em 1628, afirma numa carta que a ave era chamada pelos Portugueses Do Do; e Thomas Herbert volta a apresentar Dodo como nome português, relacionando-o expressamente com a suposta «simplicidade» da ave. E isto faz bastante diferença. Temos testemunhos seiscentistas de que os Ingleses julgavam que o nome era português; não temos, até onde se sabe, o testemunho português que demonstraria que efectivamente o era. Uma fonte antiga chega mesmo a observar que a experiência portuguesa da ilha se perdeu documentalmente e que, antes da chegada dos Holandeses, em 1598, pouco se pode afirmar com segurança. Temos, portanto, testemunhos seiscentistas de que autores ingleses consideravam dodo uma designação portuguesa; falta-nos, porém, o testemunho português contemporâneo que permita demonstrar que a ave foi efectivamente chamada doudo pelos Portugueses. A etimologia tradicional é plausível, mas não suficientemente segura para ser apresentada, como faz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, sem qualquer reserva. 
      Uma nota etimológica mais prudente poderia ser ➠ do inglês dodo, «idem», de origem incerta, talvez do português doudo, «doido, tolo»; segundo outra hipótese, relacionado com o neerlandês dodaars, antiga designação da ave, de dod, «tufo (de penas)», + aars, «traseiro», em alusão ao característico tufo de penas da sua parte posterior. 

[Texto 23 484]

Etimologia: «caleidoscópio»

A história é bem mais interessante


      «A palavra caleidoscópio — e o respectivo brinquedo óptico — foram patenteados em Edimburgo no início do século XIX. Este ano, nem de propósito, o Festival Fringe escolheu como símbolo o aparelhinho de infinitos padrões coloridos feitos de reflexos e luz» («Todos os castelos de Edimburgo são teatros», Jorge Louraço Figueira, Público, 25.08.2026, p. 22). 
      Mas os nossos dicionários apresentam-no-la como saída de um congresso de lexicografia: do grego kallós, «belo» +eĩdos, «forma» +skopeĩn, «ver». Na realidade, é assim: do inglês kaleidoscope, «caleidoscópio», termo criado em 1817 pelo físico escocês David Brewster (1781-1868), do grego kalós, «belo» + eîdos, «forma; aspecto», + skopeîn, «ver; observar».

[Texto 23 467]

Etimologia: «trailer»

É pena é misturarem tudo


      «Gracias al eco de los medios convencionales y las redes sociales, se impone un breve resumen de la película que llamamos tráiler porque, en origen, se proyectaban después de la película (ahora se proyectan antes)» («Ultracuerpos lingüísticos», Sergi Pamies, La Vanguardia, 18.08.2026, p. 13). 
       No essencial, é assim. Infelizmente, nos nossos dicionários é de trailer, «idem», e já está. O termo do cinema, e só desse estou a falar — o que implicaria separar as acepções — vem, de facto, do inglês trailer, «idem», originalmente «o que segue, o que vem atrás», derivado de to trail, «seguir; ir atrás» [a acepção cinematográfica deve-se ao facto de estas peças promocionais serem originalmente exibidas depois do filme que promoviam].

[Texto 23 433]

Etimologia: «biquíni»

Pardon, Monsieur Réard !


      «On considère Louis Réard, un ingénieur qui a dû reprendre après la guerre la boutique de lingerie de sa mère, comme l’inventeur de ce vêtement. Si le maillot de bain deux pièces existait déjà dans les années 30, il cachait un détail anatomique alors tabou: le nombril. La trouvaille de Réard tient dans la sobriété du bikini: quatre triangles de tissu, deux en haut et deux en bas, reliés par de minces liens» («La révolution bikini, quatre triangles de tissu qui ont bouleversé la société», Julia Werner, Le Matin Dimanche, 26.07.2026, p. 38). 
      Não devíamos ser tão ingratos, e por isso a etimologia devia ser ➠ do francês bikini, nome dado pelo estilista francês Louis Réard, por alusão ao atol de Bikini, nas ilhas Marshall, onde haviam sido realizados ensaios nucleares norte-americanos, numa referência ao impacto explosivo que esperava causar o novo fato de banho.

[Texto 23 363]

Pronúncia e etimologia: «horda»

Na verdade, acampamento


      Recomendo-te, Porto Editora, tendo em conta até o que ouvi hoje de manhã, que indiques a pronúncia da palavra «horda», que tem a vogal tónica aberta, como «corda». É uma indicação útil, já que não são raros os falantes que tendem a fechar o o por analogia com outras palavras. Vejo também que a nota etimológica pode ser melhorada: a glosa «guarda militar» é pouco rigorosa, pois orda significava antes «acampamento militar» ou «exército»; a origem é hoje geralmente enquadrada no domínio turco-mongol, e não apenas tártaro; a forma horda na língua de origem é discutível, uma vez que a proveniência do h- inicial permanece incerta; além disso, a nota omite a evolução semântica que conduziu do sentido original ao actual. 
      Assim, proponho ➠ do francês horde, «idem», do turco-mongol orda, «acampamento militar; exército», aparentado com o turco ordu, «exército».

[Texto 23 358]

Etimologia: «reactor»

Vamos reagir


      «La forte canicule qui sévit actuellement en France a contraint EDF à arrêter plusieurs réacteurs de son parc nucléaire. Le mot vient du verbe latin agere, “agir”. La forte chaleur, qui n’épargne ni les personnes ni les bâtiments, entraîne de la part d’EDF une réaction – qui n’est pas encore en chaîne : l’entreprise a prudemment décidé l’arrêt de trois d'entre eux» («Réacteur», Étienne de Montety, Le Figaro, 26.06.2026, p. 40). 
      É um bom contributo para melhorarmos a nota etimológica do verbete «reactor» nos nossos dicionários. Assim, proponho ➠ do inglês reactor, «idem», ou do francês réacteur, «idem», ambos derivados do latim reactum, supino de reagĕre, «agir de novo; reagir», de re- + agĕre, «agir».

[Texto 23 273]

Etimologia: «biquíni»

Sem esse elo, nada feito


     «Este domingo [ontem] celebra-se o Dia Mundial do Biquíni, data que assinala a apresentação pública da peça criada pelo designer francês Louis Réard, em 1946, na Piscine Molitor, em Paris. Na altura, o modelo foi recebido como uma provocação. Mostrava o que até então era escondido, desafiava regras sociais e colocava o corpo feminino no centro de uma discussão que ia muito além da praia» («E se a guerra puder ser lida pela roupa que os líderes usam? Do bikini ao hijab», Teresa Almeida, Rádio Renascença, 5.07.2026, 8h15). 
      Na etimologia, a Porto Editora não deixa de dizer que vem «de Bikini, topónimo, ilhota do grupo das ilhas Marshall, na zona tropical do oceano Pacífico», mas omite precisamente o motivo por que esse topónimo deu origem ao nome da peça de vestuário. Sem esse elo, a nota fica algo enigmática: por que razão havia um fato de banho de chamar-se biquíni? Assim, proponho ➠ do topónimo Bikini, atol das ilhas Marshall, adoptado pelo estilista francês Louis Réard (1897-1984) para designar a peça por si criada em 1946, em alusão aos ensaios nucleares então aí realizados, evocando o impacto que a nova criação pretendia causar.
[Texto 23 240]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Olha, Porto Editora, aproveita e regista, além do adjectivo e do gentílico, o vocábulo ➠ marshallês LINGUÍSTICA língua austronésia do ramo micronésio, falada nas Ilhas Marshall, de que é língua oficial, a par do inglês. 
Já agora, e antes que alguém repita o disparate recorrente, convém esclarecer que, embora muitas vezes se associe o elemento bi- de «biquíni» ao facto de a peça ser constituída por duas partes, se trata de uma falsa etimologia. O vocábulo deriva integralmente do topónimo Bikini, nome de um atol das ilhas Marshall, sendo bi- apenas a parte inicial desse topónimo. Imagino que todos estejam familiarizados com o conceito de coincidência.

Etimologia: «puta»

Ninguém o defende


      A Porto Editora está claramente a navegar na maionese ao indicar «puto» como étimo de «puta». Não conheço um único estudo etimológico de referência que sustente essa derivação. E não faltam estudos: trata-se de uma palavra comum a várias línguas românicas — português, espanhol, catalão, francês, italiano, entre outras —, com uma longa história e uma forte carga social e cultural, que há muito suscita o interesse de linguistas, filólogos e historiadores da língua. A hipótese mais geralmente aceite faz remontar o vocábulo ao latim vulgar *putta («rapariga; moça»), embora a etimologia continue a ser discutida.

[Texto 23 238]

Etimologia: «concerto»

Acabamos em harmonia


      «La pression monte pour que le chanteur Patrick Bruel, mis en cause par des femmes qui l’accusent d’agressions, renonce à donner des concerts. Le mot vient de l’italien concerto, qui signifie “accord”. On ne peut pas dire qu’il y en ait un autour de la question de savoir si l’artiste doit poursuivre son activité ou l’interrompre – à titre conservatoire» («Concert», Étienne de Montety, Le Figaro, 23.05.2026, p. 38). 

      O mesmo é dizer que temos muito por onde melhorar a nota etimológica de «concerto», sem nos limitarmos a afirmar que vem «do italiano concerto, “idem”». De facto, por detrás está a ideia de acordo, harmonia. Não temos nós, por exemplo, a locução prepositiva «em concerto com»? Lá que os dicionários não a registem é outra coisa. Assim, proponho ➠ do italiano concerto, «acordo, harmonia; composição musical», derivado de concertare, «harmonizar, ajustar, combinar», do latim concertare, «disputar; rivalizar; concertar».

[Texto 23 058]

Etimologia: «montra»

Porque mostra


      «La mise en vente d’une montre exceptionnelle a provoqué ce week-end des débordements dans certains magasins. Le mot vient du latin populaire monstrare, qui signifie désigner, indiquer. C’est pourquoi on a ainsi qualifié le cadran: il montre l’heure» («Montre», Étienne de Montety, Le Figaro, 19.05.2026, p. 32). 

      É como se Étienne de Montety nos estivesse a incentivar a completarmos, finalmente, a nota etimológica de «montra», Porto Editora, não achas? É o que nós fazemos assim ➠ do francês montre, «vitrina», do francês antigo mostre, derivado do latim vulgar monstrare, «mostrar, indicar». 

      A «montre exceptionnelle» não é um relógio excepcional no sentido relojoeiro estrito, como seria um Patek Philippe Grand Complication ou um Audemars Piguet de alta complicação, mas antes um objecto de desejo produzido em série limitada, com enorme carga simbólica e mediática. O texto explora precisamente isso: a peça torna-se uma montra social.

[Texto 23 016]

Etimologia: «final»

Afinal...


      «Pour la deuxième année consécutive, le Paris Saint-Germain s’est qualifié pour la finale de la Ligue des champions. Le mot vient du latin finis, qui désigne la frontière : celle qui sépare une bonne équipe d’une équipe légendaire» («Finale», Étienne de Montety, Le Figaro, 8.05.2026, p. 32). 

      Na etimologia, a Porto Editora pensa que resolve sempre tudo com «idem». E isso é particularmente absurdo aqui, porque «final» tem uma família lexical e semântica riquíssima, perfeitamente explorável numa nota etimológica minimamente cuidada. Assim, proponho ➜ do latim finālis, e, «relativo ao fim, terminal», derivado de finis, «fim, limite, fronteira».

[Texto 22 951]

Definição: «conto»

Antiquado, mas tão presente


      Assim como esta precisa de ser mais bem definida ➜ conto ECONOMIA antiquado unidade de conta correspondente a um milhão de réis; após a reforma monetária de 1911, passou a equivaler a mil escudos (1000$00); sob a forma completa conto de réis, foi corrente no período monárquico, tendo a forma abreviada conto prevalecido no uso em Portugal até à substituição do escudo pelo euro (2002). 

      A etimologia, é claro, está incompletíssima, pois vem, de facto, do latim compŭtu-, «cálculo, conta»; mas, por especialização semântica, passou a designar, em contexto contabilístico, uma soma determinada, fixando-se em português como milhão de réis (conto de réis).

[Texto 22 906]

Léxico: «transcriptoma | transcriptómica | transcriptómico»

E são três


      «Neste estudo, os investigadores combinaram técnicas de sequenciação de células individuais e transcriptómica espacial – tecnologia avançada que mapeia a expressão dos genes diretamente em cortes de tecido, preservando a localização original das células – para examinar cerca de 5,5 milhões de neurónios em mais de 300 ratinhos» («Cientistas criam o primeiro “mapa do olfato”», Rádio Renascença, 28.04.2026, 16h36). 

      Bem, muito bem, rebém — porque é, de facto, esta a palavra, com esta grafia, que se usa na maioria das vezes. Não é por acaso. Assim, proponho ➜ transcriptómica BIOLOGIA MOLECULAR ramo que estuda o transcriptoma; conjunto de métodos destinados à análise global da expressão génica. 

      E é assim porque vem do inglês transcriptome, comp. de transcript, «transcrito», + genome, «genoma», com -ome (do gr. -ōma, «conjunto, totalidade»), já que, termo científico e recente que é, não se formou na nossa língua, e daí ser errado escrevê-lo «transcritoma». 

      E, assim, também temos ➜ transcriptoma BIOLOGIA MOLECULAR conjunto de todas as moléculas de RNA (transcritos) presentes numa célula, tecido ou organismo, num dado momento ou em determinadas condições; reflecte o estado de expressão génica. 

      E ➜ transcriptómico BIOLOGIA MOLECULAR relativo ao transcriptoma ou à sua análise; que diz respeito ao estudo global da expressão génica.

[Texto 22 897]

Definição e etimologia: «maratona»

Nem dizem se é de estrada


      «Cuentan que el origen del maratón hay que agradecérselo al filólogo francés Michel Bréal. Fue él quien relató a Pierre de Coubertain la vieja historia de Filípides y su carrera desde Marathon hasta Atenas para anunciar el desembarco persa. También quien lo convenció para incluir una prueba similar en el programa olímpico. Y dicen que los 42,195 kilómetros no son la distancia real entre las dos ciudades, sino que se estableció así a partir de los Juegos de Londres 1908, cuando se alargó la prueba en poco más de dos kilómetros al inicio para que la Reina consorte pudiese ver la salida desde el balcón real del Palacio de Windsor» («El asalto a la barrera imposible: del pie descalzo de Bikila a unas zapatillas de 97 gramos», J. Asprón, El País, 27.04.2026, p. 33). 

      Dizem, dizem, dizem... Maratona não era cidade, como escreve o jornalista, nem aldeia, como se lê no Houaiss. Não passava de um povoado, um demo, mas designava sobretudo uma planície. Quanto à definição, podia dizer-se mais do que se lê na maioria dos dicionários, sem sobrecarregar, assim ➜ maratona DESPORTO prova de corrida pedestre de fundo, disputada em estrada, com distância oficial de 42,195 km, fixada internacionalmente desde os Jogos Olímpicos de Londres de 1908, integrando o programa do atletismo e exigindo elevada resistência física e gestão prolongada do esforço. 

      Já quanto à etimologia, vem do topónimo Maratona (grego Marathṓn), demo da Ática situado numa planície costeira; segundo a tradição, um mensageiro (identificado tardiamente como Fidípedes) correu daí até Atenas para anunciar a vitória ateniense sobre os Persas (490 a. C.); o episódio foi retomado no século XIX, dando origem à designação da prova de corrida de fundo; o topónimo remonta a maráthron, «funcho».

[Texto 22 894]

Definição e etimologia: «Eleutérias»

Ainda bem que isto apareceu


      «“Eleutéria”, que em grego – eleuthería – significa “liberdade” estará exposta no cruzamento da Avenida da Liberdade com a Rua Barata Salgueiro. A peça foi desenvolvida em parceria com o designer Nuno Lacerda e representa, de forma simbólica, a instabilidade de regimes autoritários» («“Eleutéria”: a cadeira que “nasceu para cair” marca o 25 de Abril em Lisboa», Teresa Almeida, Rádio Renascença, 25.04.2026, 10h20, itálico meu).

      É como a jornalista diz, o grego ἐλευθερία (transliterado eleuthería) é o substantivo que designa «liberdade», «condição de ser livre», tanto no plano político como pessoal. Deriva do adjectivo ἐλεύθερος (eleútheros), «livre». Não temos o nome comum, mas a Porto Editora regista Eleutérias, as «festas em honra de Júpiter libertador, para comemorar uma vitória ou a expulsão de um tirano», mas não é bem, bem assim, porque não se restringiam ao contexto romano; porque não eram sempre para comemorar uma vitória ou a expulsão de um tirano, eram antes celebrações da liberdade, frequentemente associadas a vitórias, sim, mas não redutíveis a essa fórmula; porque a referência a Júpiter libertador é enganadora. Assim, proponho ➜ Eleutérias festividades da Grécia antiga, especialmente as de Plateias, celebradas em honra de Zeus Eleutérios («Libertador») para assinalar a vitória sobre os Persas (479 a. C.) e a consequente libertação, com carácter comemorativo e agonístico. 

      Quanto à etimologia completa, passa por explicar que vem do grego Ἐλευθέρια (Eleuthéria), plural substantivado de ἐλευθερία (eleuthería) «liberdade», termo que designa, por extensão, festividades associadas à libertação; passou ao latim como Eleutheria, -orum, nome de festas comemorativas, donde o português erudito «Eleutérias». 

[Texto 22 879]

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