Etimologia: «biquíni»

Pardon, Monsieur Réard !


      «On considère Louis Réard, un ingénieur qui a dû reprendre après la guerre la boutique de lingerie de sa mère, comme l’inventeur de ce vêtement. Si le maillot de bain deux pièces existait déjà dans les années 30, il cachait un détail anatomique alors tabou: le nombril. La trouvaille de Réard tient dans la sobriété du bikini: quatre triangles de tissu, deux en haut et deux en bas, reliés par de minces liens» («La révolution bikini, quatre triangles de tissu qui ont bouleversé la société», Julia Werner, Le Matin Dimanche, 26.07.2026, p. 38). 
      Não devíamos ser tão ingratos, e por isso a etimologia devia ser ➠ do francês bikini, nome dado pelo estilista francês Louis Réard, por alusão ao atol de Bikini, nas ilhas Marshall, onde haviam sido realizados ensaios nucleares norte-americanos, numa referência ao impacto explosivo que esperava causar o novo fato de banho.

[Texto 23 363]

Pronúncia e etimologia: «horda»

Na verdade, acampamento


      Recomendo-te, Porto Editora, tendo em conta até o que ouvi hoje de manhã, que indiques a pronúncia da palavra «horda», que tem a vogal tónica aberta, como «corda». É uma indicação útil, já que não são raros os falantes que tendem a fechar o o por analogia com outras palavras. Vejo também que a nota etimológica pode ser melhorada: a glosa «guarda militar» é pouco rigorosa, pois orda significava antes «acampamento militar» ou «exército»; a origem é hoje geralmente enquadrada no domínio turco-mongol, e não apenas tártaro; a forma horda na língua de origem é discutível, uma vez que a proveniência do h- inicial permanece incerta; além disso, a nota omite a evolução semântica que conduziu do sentido original ao actual. 
      Assim, proponho ➠ do francês horde, «idem», do turco-mongol orda, «acampamento militar; exército», aparentado com o turco ordu, «exército».

[Texto 23 358]

Etimologia: «reactor»

Vamos reagir


      «La forte canicule qui sévit actuellement en France a contraint EDF à arrêter plusieurs réacteurs de son parc nucléaire. Le mot vient du verbe latin agere, “agir”. La forte chaleur, qui n’épargne ni les personnes ni les bâtiments, entraîne de la part d’EDF une réaction – qui n’est pas encore en chaîne : l’entreprise a prudemment décidé l’arrêt de trois d'entre eux» («Réacteur», Étienne de Montety, Le Figaro, 26.06.2026, p. 40). 
      É um bom contributo para melhorarmos a nota etimológica do verbete «reactor» nos nossos dicionários. Assim, proponho ➠ do inglês reactor, «idem», ou do francês réacteur, «idem», ambos derivados do latim reactum, supino de reagĕre, «agir de novo; reagir», de re- + agĕre, «agir».

[Texto 23 273]

Etimologia: «biquíni»

Sem esse elo, nada feito


     «Este domingo [ontem] celebra-se o Dia Mundial do Biquíni, data que assinala a apresentação pública da peça criada pelo designer francês Louis Réard, em 1946, na Piscine Molitor, em Paris. Na altura, o modelo foi recebido como uma provocação. Mostrava o que até então era escondido, desafiava regras sociais e colocava o corpo feminino no centro de uma discussão que ia muito além da praia» («E se a guerra puder ser lida pela roupa que os líderes usam? Do bikini ao hijab», Teresa Almeida, Rádio Renascença, 5.07.2026, 8h15). 
      Na etimologia, a Porto Editora não deixa de dizer que vem «de Bikini, topónimo, ilhota do grupo das ilhas Marshall, na zona tropical do oceano Pacífico», mas omite precisamente o motivo por que esse topónimo deu origem ao nome da peça de vestuário. Sem esse elo, a nota fica algo enigmática: por que razão havia um fato de banho de chamar-se biquíni? Assim, proponho ➠ do topónimo Bikini, atol das ilhas Marshall, adoptado pelo estilista francês Louis Réard (1897-1984) para designar a peça por si criada em 1946, em alusão aos ensaios nucleares então aí realizados, evocando o impacto que a nova criação pretendia causar.
[Texto 23 240]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Olha, Porto Editora, aproveita e regista, além do adjectivo e do gentílico, o vocábulo ➠ marshallês LINGUÍSTICA língua austronésia do ramo micronésio, falada nas Ilhas Marshall, de que é língua oficial, a par do inglês. 
Já agora, e antes que alguém repita o disparate recorrente, convém esclarecer que, embora muitas vezes se associe o elemento bi- de «biquíni» ao facto de a peça ser constituída por duas partes, se trata de uma falsa etimologia. O vocábulo deriva integralmente do topónimo Bikini, nome de um atol das ilhas Marshall, sendo bi- apenas a parte inicial desse topónimo. Imagino que todos estejam familiarizados com o conceito de coincidência.

Etimologia: «puta»

Ninguém o defende


      A Porto Editora está claramente a navegar na maionese ao indicar «puto» como étimo de «puta». Não conheço um único estudo etimológico de referência que sustente essa derivação. E não faltam estudos: trata-se de uma palavra comum a várias línguas românicas — português, espanhol, catalão, francês, italiano, entre outras —, com uma longa história e uma forte carga social e cultural, que há muito suscita o interesse de linguistas, filólogos e historiadores da língua. A hipótese mais geralmente aceite faz remontar o vocábulo ao latim vulgar *putta («rapariga; moça»), embora a etimologia continue a ser discutida.

[Texto 23 238]

Etimologia: «concerto»

Acabamos em harmonia


      «La pression monte pour que le chanteur Patrick Bruel, mis en cause par des femmes qui l’accusent d’agressions, renonce à donner des concerts. Le mot vient de l’italien concerto, qui signifie “accord”. On ne peut pas dire qu’il y en ait un autour de la question de savoir si l’artiste doit poursuivre son activité ou l’interrompre – à titre conservatoire» («Concert», Étienne de Montety, Le Figaro, 23.05.2026, p. 38). 

      O mesmo é dizer que temos muito por onde melhorar a nota etimológica de «concerto», sem nos limitarmos a afirmar que vem «do italiano concerto, “idem”». De facto, por detrás está a ideia de acordo, harmonia. Não temos nós, por exemplo, a locução prepositiva «em concerto com»? Lá que os dicionários não a registem é outra coisa. Assim, proponho do italiano concerto, «acordo, harmonia; composição musical», derivado de concertare, «harmonizar, ajustar, combinar», do latim concertare, «disputar; rivalizar; concertar».

[Texto 23 058]

Etimologia: «montra»

Porque mostra


      «La mise en vente d’une montre exceptionnelle a provoqué ce week-end des débordements dans certains magasins. Le mot vient du latin populaire monstrare, qui signifie désigner, indiquer. C’est pourquoi on a ainsi qualifié le cadran: il montre l’heure» («Montre», Étienne de Montety, Le Figaro, 19.05.2026, p. 32). 

      É como se Étienne de Montety nos estivesse a incentivar a completarmos, finalmente, a nota etimológica de «montra», Porto Editora, não achas? É o que nós fazemos assim do francês montre, «vitrina», do francês antigo mostre, derivado do latim vulgar monstrare, «mostrar, indicar». 

      A «montre exceptionnelle» não é um relógio excepcional no sentido relojoeiro estrito, como seria um Patek Philippe Grand Complication ou um Audemars Piguet de alta complicação, mas antes um objecto de desejo produzido em série limitada, com enorme carga simbólica e mediática. O texto explora precisamente isso: a peça torna-se uma montra social.

[Texto 23 016]

Etimologia: «final»

Afinal...


      «Pour la deuxième année consécutive, le Paris Saint-Germain s’est qualifié pour la finale de la Ligue des champions. Le mot vient du latin finis, qui désigne la frontière : celle qui sépare une bonne équipe d’une équipe légendaire» («Finale», Étienne de Montety, Le Figaro, 8.05.2026, p. 32). 

      Na etimologia, a Porto Editora pensa que resolve sempre tudo com «idem». E isso é particularmente absurdo aqui, porque «final» tem uma família lexical e semântica riquíssima, perfeitamente explorável numa nota etimológica minimamente cuidada. Assim, proponho ➜ do latim finālis, e, «relativo ao fim, terminal», derivado de finis, «fim, limite, fronteira».

[Texto 22 951]

Definição: «conto»

Antiquado, mas tão presente


      Assim como esta precisa de ser mais bem definida ➜ conto ECONOMIA antiquado unidade de conta correspondente a um milhão de réis; após a reforma monetária de 1911, passou a equivaler a mil escudos (1000$00); sob a forma completa conto de réis, foi corrente no período monárquico, tendo a forma abreviada conto prevalecido no uso em Portugal até à substituição do escudo pelo euro (2002). 

      A etimologia, é claro, está incompletíssima, pois vem, de facto, do latim compŭtu-, «cálculo, conta»; mas, por especialização semântica, passou a designar, em contexto contabilístico, uma soma determinada, fixando-se em português como milhão de réis (conto de réis).

[Texto 22 906]

Léxico: «transcriptoma | transcriptómica | transcriptómico»

E são três


      «Neste estudo, os investigadores combinaram técnicas de sequenciação de células individuais e transcriptómica espacial – tecnologia avançada que mapeia a expressão dos genes diretamente em cortes de tecido, preservando a localização original das células – para examinar cerca de 5,5 milhões de neurónios em mais de 300 ratinhos» («Cientistas criam o primeiro “mapa do olfato”», Rádio Renascença, 28.04.2026, 16h36). 

      Bem, muito bem, rebém — porque é, de facto, esta a palavra, com esta grafia, que se usa na maioria das vezes. Não é por acaso. Assim, proponho ➜ transcriptómica BIOLOGIA MOLECULAR ramo que estuda o transcriptoma; conjunto de métodos destinados à análise global da expressão génica. 

      E é assim porque vem do inglês transcriptome, comp. de transcript, «transcrito», + genome, «genoma», com -ome (do gr. -ōma, «conjunto, totalidade»), já que, termo científico e recente que é, não se formou na nossa língua, e daí ser errado escrevê-lo «transcritoma». 

      E, assim, também temos ➜ transcriptoma BIOLOGIA MOLECULAR conjunto de todas as moléculas de RNA (transcritos) presentes numa célula, tecido ou organismo, num dado momento ou em determinadas condições; reflecte o estado de expressão génica. 

      E ➜ transcriptómico BIOLOGIA MOLECULAR relativo ao transcriptoma ou à sua análise; que diz respeito ao estudo global da expressão génica.

[Texto 22 897]

Definição e etimologia: «maratona»

Nem dizem se é de estrada


      «Cuentan que el origen del maratón hay que agradecérselo al filólogo francés Michel Bréal. Fue él quien relató a Pierre de Coubertain la vieja historia de Filípides y su carrera desde Marathon hasta Atenas para anunciar el desembarco persa. También quien lo convenció para incluir una prueba similar en el programa olímpico. Y dicen que los 42,195 kilómetros no son la distancia real entre las dos ciudades, sino que se estableció así a partir de los Juegos de Londres 1908, cuando se alargó la prueba en poco más de dos kilómetros al inicio para que la Reina consorte pudiese ver la salida desde el balcón real del Palacio de Windsor» («El asalto a la barrera imposible: del pie descalzo de Bikila a unas zapatillas de 97 gramos», J. Asprón, El País, 27.04.2026, p. 33). 

      Dizem, dizem, dizem... Maratona não era cidade, como escreve o jornalista, nem aldeia, como se lê no Houaiss. Não passava de um povoado, um demo, mas designava sobretudo uma planície. Quanto à definição, podia dizer-se mais do que se lê na maioria dos dicionários, sem sobrecarregar, assim ➜ maratona DESPORTO prova de corrida pedestre de fundo, disputada em estrada, com distância oficial de 42,195 km, fixada internacionalmente desde os Jogos Olímpicos de Londres de 1908, integrando o programa do atletismo e exigindo elevada resistência física e gestão prolongada do esforço. 

      Já quanto à etimologia, vem do topónimo Maratona (grego Marathṓn), demo da Ática situado numa planície costeira; segundo a tradição, um mensageiro (identificado tardiamente como Fidípedes) correu daí até Atenas para anunciar a vitória ateniense sobre os Persas (490 a. C.); o episódio foi retomado no século XIX, dando origem à designação da prova de corrida de fundo; o topónimo remonta a maráthron, «funcho».

[Texto 22 894]

Definição e etimologia: «Eleutérias»

Ainda bem que isto apareceu


      «“Eleutéria”, que em grego – eleuthería – significa “liberdade” estará exposta no cruzamento da Avenida da Liberdade com a Rua Barata Salgueiro. A peça foi desenvolvida em parceria com o designer Nuno Lacerda e representa, de forma simbólica, a instabilidade de regimes autoritários» («“Eleutéria”: a cadeira que “nasceu para cair” marca o 25 de Abril em Lisboa», Teresa Almeida, Rádio Renascença, 25.04.2026, 10h20, itálico meu).

      É como a jornalista diz, o grego ἐλευθερία (transliterado eleuthería) é o substantivo que designa «liberdade», «condição de ser livre», tanto no plano político como pessoal. Deriva do adjectivo ἐλεύθερος (eleútheros), «livre». Não temos o nome comum, mas a Porto Editora regista Eleutérias, as «festas em honra de Júpiter libertador, para comemorar uma vitória ou a expulsão de um tirano», mas não é bem, bem assim, porque não se restringiam ao contexto romano; porque não eram sempre para comemorar uma vitória ou a expulsão de um tirano, eram antes celebrações da liberdade, frequentemente associadas a vitórias, sim, mas não redutíveis a essa fórmula; porque a referência a Júpiter libertador é enganadora. Assim, proponho ➜ Eleutérias festividades da Grécia antiga, especialmente as de Plateias, celebradas em honra de Zeus Eleutérios («Libertador») para assinalar a vitória sobre os Persas (479 a. C.) e a consequente libertação, com carácter comemorativo e agonístico. 

      Quanto à etimologia completa, passa por explicar que vem do grego Ἐλευθέρια (Eleuthéria), plural substantivado de ἐλευθερία (eleuthería) «liberdade», termo que designa, por extensão, festividades associadas à libertação; passou ao latim como Eleutheria, -orum, nome de festas comemorativas, donde o português erudito «Eleutérias». 

[Texto 22 879]

Etimologia: «região»

Para dizer um pouco mais


      «Certains élus voudraient que l’Alsace redevienne une région autonome. Le mot vient du verbe latin regere, qui signifie diriger» («Région», Étienne de Montety, Le Figaro, 8.04.2026, p. 33). 

      O mesmo é dizer que os dicionários, ao indicarem que «região» vem do latim regiōne-, «idem», pouco adiantam. Assim, proponho ➜ do latim regio, -onis, «direcção, linha traçada, território delimitado», e este de regere, «dirigir, governar; traçar em linha recta».

[Texto 22 779]

Definição e etimologia: «loft»

Que espaço comum é esse?


      «Ce samedi seront célébrées les obsèques de Loana, qui fut la première vedette de l’émission de téléréalité “Le Loft”. Le mot vient directement de l’anglais et désigne un atelier, un grenier. Avec lui, on est conscient de flirter avec le franglais contemporain : ainsi un loft est un appartement trendy, cosy, aménagé dans un atelier haut perché; et son accès peut aller jusqu’à nécessiter le service d’un liftier» («Loft», Étienne de Montety, Le Figaro, 3.04.2026, p. 33). 

      É a nossa oportunidade de corrigir a definição de loft no dicionário da Porto Editora, que fala num «espaço comum» — comum a quem ou a quê? —, além de que na etimologia não adianta nada. Assim, proponho ➜ loft 1. habitação ou estúdio instalado num espaço amplo, geralmente situado em piso superior e originalmente destinado a uso industrial ou comercial, caracterizado pela ausência de divisórias internas e organização em plano aberto, com frequência com pé-direito elevado; 2. [por extensão] qualquer apartamento concebido segundo esse modelo espacial. 

      Quanto à etimologia, no mínimo tem de se indicar que vem do inglês loft, «sótão; piso superior de edifício». É o mínimo, mas já suficiente, porque o Houaiss diz assim: «ing. loft (sXIII) ‘sótão; galeria elevada (em igreja); um dos andares superiores de um galpão ou estabelecimento de negócio, esp. quando não dividido; esse espaço adaptado para moradia ou estúdio’».

[Texto 22 746]

Etimologia: «investir»

Tem de se dizer mais


      «Le week-end dernier, les villes ont procédé à l’investiture des maires élus il y a quelques semaines. Le mot vient du verbe latin investire, «revétir»: en l’occurrence, le nouveau venu revêt l’écharpe tricolore dévolue à l’édile, signe de ce que cette élection revêt elle aussi quelque chose: une grande importance» («Investiture», Étienne de Montety, Le Figaro, 31.03.2026, p. 34). 

      A nota etimológica dos nossos dicionários, como é habitual, limita-se a repetir o verbo português no latim e no francês, sem esclarecer o valor semântico original nem a evolução. Assim, proponho ➜ do latim investīre, «revestir, cobrir com vestes; conferir dignidade ou função mediante acto formal», pelo francês investir, «conferir oficialmente um cargo»; ulteriormente, «aplicar capitais».

[Texto 22 734]

Etimologia: «lemiste»

Quase uma história


      «Quando se foi embora, esqueceu-se dum colete. Um colete, àquela altura dos tempos, de fino lemiste, largas golas e largo decote, com abotoadura de madrepérola incrustada em prata ou oiro, era uma peça sumptuosa de vestiaria» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 252). 

      Infelizmente, a melhor parte, a mais interessante, da etimologia desta palavra é omitida pelos nossos dicionários. Não sei onde querem que os falantes vão saber. Do castelhano lemiste, «pano preto de lã», do inglês antigo lemster, e este de Lemster, grafia arcaica de Leominster, nome da cidade inglesa, no Herefordshire, onde se fabricava esse tecido.

[Texto 22 727]

Definição e etimologia: «eczema»

Sobretudo a etimologia


      «L’eczéma ou dermatite atopique, la plus fréquente des maladies inflammatoires de la peau, touche environ 20% des enfants en Suisse et 5% des adultes. Elle se caractérise par l’apparition sur la peau de plaques rouges et de lésions, de démangeaisons et de sécheresse de l’épiderme. Il s’agit d’une pathologie chronique, qui se manifeste par des pics de symptômes, entrecoupés de périodes de rémission» («Comment le stress exacerbe l’eczéma», Pascaline Minet, Le Temps, 20.03.2026, p. 10). 

      Os nossos dicionários definem muito mal «eczema», e a etimologia que indicam tem ampla margem para melhorar. Assim, proponho ➜ eczema MEDICINA designação genérica de dermatoses inflamatórias, de evolução aguda ou crónica, caracterizadas por eritema, prurido e lesões cutâneas variáveis, incluindo vesículas, crostas e descamação, frequentemente associadas a causas alérgicas, irritativas ou a predisposição atópica; dermatite. 

      Quanto à etimologia, vem do grego ékzema, «erupção cutânea», de ekzéō, «ferver, irromper», de ek, «fora» + zéō, «ferver».

[Texto 22 672]

Um possível parentesco: «ṣirāṭ» e «strata»

Realmente...


      Na quinta-feira, vi o filme Sirât (2025), de Oliver Laxe, cujo título remete para a ideia islâmica de travessia e prova, funcionando como chave simbólica para o percurso das personagens, entre caminho físico e limiar existencial, como se anuncia logo no início: «Há uma ponte chamada Sirat que liga o inferno ao paraíso, e o seu caminho é mais estreito do que um fio de cabelo.» É curioso notar, como por vezes sucede em percursos etimológicos deste tipo, a semelhança fonética entre sirāt e strata (estrada), ainda que essa aproximação, por si só, não constitua prova. Alguns estudiosos da filologia semítica e do léxico alcorânico, como Arthur Jeffery e Toshihiko Izutsu, admitiram a hipótese de ṣirāṭ não ser de origem árabe, propondo antes uma derivação do latim strata («estrada pavimentada»), eventualmente por via do grego ou do aramaico. Esta proposta, embora discutida e não consensual, insere-se no estudo mais amplo dos possíveis empréstimos no vocabulário alcorânico. No próprio Alcorão, a palavra surge 45 vezes, frequentemente na expressão «ṣirāṭ al-mustaqīm» («o caminho recto»), com forte valor ético e espiritual. Vejam o filme, uma autêntica experiência sensorial.

[Texto 22 670]

Etimologia: «filatelia»

Já fui coleccionador


      «Filatelia» vem do francês, Porto Editora? Está certo! Mas incompleto. Essa pecha de não reconhecer autorias é muito portuguesa. Então a ideia não foi, aí por 1864, do francês Georges Herpin, que pretendia substituir o menos feliz «timbre-mania»? Monsieur Herpin, je peux vous recommander un excellent cabinet d’avocats pour engager votre action en indemnisation.  Assim, proponho ➜ do francês philatélie, termo criado em 1864 por Georges Herpin (1842-1895), a partir do grego phílos, «amigo, amante», e atéleia, «isenção de taxa, franquia postal paga», significando literalmente «amor pela isenção (de porte)», isto é, pelo porte previamente pago nos selos. 

      (O grego atéleia significa propriamente «isenção de taxa ou imposto»; no contexto postal, remete para a dispensa de pagamento de porte no destino, uma vez que este já foi pago antecipadamente pelo remetente e assinalado pelo selo. E só passou a ser assim desde a reforma postal britânica de Penny Post, em 1840.)

[Texto 22 653]

Etimologia: «evoé»

Vamos dizer mais


      «Finda todavia o ano de 57 soltando um evoé quase dionisíaco à vida, parêntesis optimista raro quando se refere à sua pessoa: Que lindos dias! Como é donoso o sol, meu Barbosa! O sol e as mulheres não é o mais lindo que o mundo tem?» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 252). 

      Está nos dicionários, mas a etimologia deixa muito a desejar. Do lat. evŏe, interjeição usada nas festas em honra de Baco, do gr. εὐοῖ (euôi), variante εὐοῖε (euôie), grito ritual pronunciado nas bacanais e outros cultos dionisíacos; composto de εὖ (eu, «bem, de modo favorável») e elemento exclamativo -οἶ/-οἶε, típico de invocações religiosas. Entrou no português por via erudita, conservando o valor de aclamação jubilosa, sobretudo em contextos festivos ou artísticos.

[Texto 22 641]

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