Extras! Extras! Extras!

Isto está a melhorar


      «Diretiva de 2016 torna horas extras em trabalho escravo na PSP» (João Carlos Rodrigues, Correio da Manhã, 3.02.2026, p. 18).

[Texto 22 354]

Extras! Extras! Extras!

Os primeiros nesta nova casa


      «Mais de um terço dos médicos com horas extras tinha atingido limite anual em Novembro» (Ana Maia, Público, 15.01.2026, 7h01).

[Texto 22 278]

Ortografia: «terra-nova»

A terra pelo cão 

      O pai da nossa personagem principal pôs «the last Newfoundland back in its bed of shavings». O tradutor verteu «o último Terra Nova na respectiva caminha de aparas de madeira». Quanto a «respectiva», já se deixa ver que é desnecessário. Quanto à raça canina, já duas vezes, pelo menos, tratei da matéria (aqui e aqui). Escrever-se-á correctamente terra-nova, que pluraliza (ah sim, outro erro comum) em terra-novas.
[Texto 339]

«Frente-a-frente»: plural

Deixem assentar mais a poeira

      «O disparate, neste episódio, é que se a lei regula e impõe tempos de antena, não regula (nem pode fazê-lo), os frente-a-frentes, porque são iniciativas estritamente editoriais, tal como não regula notícias, reportagens ou entrevistas» («A democracia não é imposta por tribunais», Público, 2.06.2011, p. 38).
      Não sei se é doutrina se é gralha — o certo é que não falta quem pluralize este neologismo. A tendência da língua, já o escrevi mais de uma vez, é para fazer os plurais desta forma regular. Lembrem-se de um caso semelhante, «sem-abrigo». De vez em quando, lá nos escorrega a língua ou a tecla e sai o plural «sem-abrigos».
[Texto 98]

«Extra», «recorde», «ultravioleta»

A (quase) anómala invariância

      Primeiro: toda a língua portuguesa tende para a concordância. Segundo: excepções são casos anómalos que não deverão servir de paradigma. Terceiro: os adjectivos «extra», «recorde» e «ultravioleta» não são usados da mesma forma pelos falantes. Quarto: quando verifico que há hesitações, propendo sempre para a defesa dos princípios gerais da língua. Quinto: assim, defendo inequivocamente que «extra» e «ultravioleta» pluralizam em «extras» e «ultravioletas». «Recorde» é visto pela quase generalidade dos falantes como sendo invariável. «Dívidas recorde? Mas a que classe gramatical pertence “recorde”? Hum... talvez à dos advérbios...», tripudiava o leitor Montexto no Assim Mesmo. Bem, por muito que nos repugne, há adjectivos invariáveis quanto ao género e quanto ao número. Só não estranhamos se o próprio singular termina em s, como «pires» (que revela mau gosto; ridículo; vulgar; pretensioso). O que revela incompreensão da língua é grafá-lo como se fosse um determinante específico, o que de vez em quando no Público têm a infeliz ideia de fazer: «No final de 2009, mais de 563 mil pessoas estavam sem trabalho. Mas este número-recorde, que elevou para 10,1 por cento a taxa de desemprego, depressa foi ultrapassado» («Taxas-recorde de desemprego marcaram esta legislatura do PS», Raquel Martins, Público, 22.04.2011, p. 12).
[Texto 60]

«Fora-da-lei»

A desacautelada

      «Ora, perante o grande número de foras-da-lei que aterrorizavam a zona [Carolina do Sul] em determinada altura, a população deu ao juiz Lynch carta branca para passar aquela que ficou conhecida como a lei de Lynch e que consistia na execução imediata do réu, dado como culpado, sem possibilidade de apelo e como parte integrante da sentença, execução essa que era feita nas instalações do tribunal e à vista de todos. Como se imagina, a injustiça, pela sua crueldade, passar desapercebida e o juiz que a praticou, John Lynch, deu origem ao verbo “linchar” e à expressão “ser linchado”» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 9.05.2011).
      Fora-da-lei é invariável, como se pode ver em qualquer dicionário: um fora-da-lei, mil fora-da-lei. Quanto a «desapercebida», é erro muito comum e já aqui tratado mais de uma vez. «Homem desapercebido, meio combatido», diz o adágio.

[Post 4763]

Plural dos etnónimos

Perdeu, perdemos

      «Estudo na cama, estudo na lama», costumava dizer o Prof. Ruy de Albuquerque (com i grego, sim senhor). Mas Proust, enfermiço em busca da melhor posição, trabalhava sempre na cama, num quarto à prova de som. Ontem à noite, pus-me a estudar algumas questões na Moderna Gramática Portuguesa, de Bechara (37.ª ed. Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 2002), que já aqui citei hoje numa caixa de comentários. Ora vejam isto: «Por convenção internacional de etnólogos, está há anos acertado que, em trabalhos científicos, os etnônimos que não sejam de origem vernácula ou nos quais não haja elementos vernáculos não são alterados na forma plural, sendo a flexão indicada pelo artigo plural: os tupi, os nambiquara, os caiuá, os tapirapé, os bântu, os somali, etc.» (p. 129). Reparem: «Em trabalhos científicos», não no Público ou no Correio da Manhã. Na conferência em que se deliberou nesse sentido, o representante do Brasil ainda ponderou «que todos os escritores luso-brasileiros, inclusive um clássico da excelsitude de Vieira, sempre adoptaram a forma do plural nos nomes de tribos ou grupos indígenas, ad instar das demais coletividades humanas», mas ficou assim.

[Post 4741]

«Livre-pensador»: plural

O autor de Os Burros ensina

      «Mais tarde, em França, passaram a ser designados por libertinos os chamados livre-pensadores, e sobretudo aqueles que defendiam o fim do regime monárquico e que ditaram o fim da monarquia com a Revolução Francesa» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 2.05.2011).
      Vê-se e ouve-se muito por aí. Nome composto de adjectivo + substantivo: pluralizam ambos. Livres-pensadores. Oh, diabo!, ainda alguém virá dizer-me que «livre» é advérbio, e por isso não pluraliza. Livre-pensador é quem pensa livremente, logo será «livre-pensadores». Solto, sem hífen, ainda era mais fácil tirar esta conclusão: livre seria, sintacticamente, complemento circunstancial de modo. Há aqui, porém, pseudocircunstância, como afirma José R. Macambira (A Estrutura Morfo-Sintática do Português: Aplicação do Estruturalismo Lingüistico. Fortaleza: Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará, 1974, p. 304). Mas não, é adjectivo. Livre porque, em matéria religiosa, tem o poder de decidir por si próprio, porque pensa apenas segundo a razão, sem subordinação dogmática. Porque é que os dicionários, mormente os disponíveis em linha, não registam o plural dos vocábulos? Sr.ª Eng.ª Helena Figueira, é o próximo passo?
      «O homem sisudo não pode olhar sem indignação para essa interminável coorte dos que neste século se dizem livres pensadores, quando contempla o soberbo, e ultrajante gesto, ou amargo sorriso com que eles olham para o homem de bem, que fiel a seus princípios, e consequente em sua crença, e conduta, respeita sua Religião, e a reconhece divina em sua fonte, e sua origem» (Sermão contra o Filosofismo do Século XIX, José Agostinho de Macedo, Lisboa: Impressão Régia, 1811, pp. 7-8 [actualização ortográfica minha]).
[Post 4738]

«Sem-abrigo»: plural

Entre graça e desgraça

      «Um ou outro quadro foi um verdadeiro achado, como o da entrevista de Márcia Rodrigues (Rueff), de véu islâmico, a Khadafi (Monchique) e a Sopa dos Pobres, com sem-abrigos deliciados com pratos de comida molecular preparados por um chef que dá nomes imaginativos às suas performances gastronómicas» («Entre a graça e a desgraça», Eduardo Cintra Torres, «P2»/Público, 22.04.2011, p. 7).
      Já aqui nos ocupou mais de uma vez esta palavra. Não é raro ouvi-la pluralizada. Veremos como será daqui a cem anos.

[Post 4718]


Falsos plurais

Dá-me o meu binóculo

      «— E ali está o caminho por onde nós viemos... a estrada — disse João. — Onde está o meu binóculo? Dá-mo, Dina. Ena! Com ele avisto milhas e milhas. Vejo como a estrada corre e serpenteia... o trânsito que passa por ela... os automóveis parecem aqueles brinquedos que nós tivemos. Filipe, dá uma vista de olhos com o binóculo» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, pp. 59-60).
      Já aqui falámos de outros falsos plurais. Este é o mais comum. É raríssimo ler ou ouvir no singular.

[Post 4583]

«Moto-quatros»?

Só se for nas pampas

      «O gaúcho é uma personagem da pampa, rebelde e insubmissa, que resume a identidade da Argentina. Mas está em vias de extinção, encurralado pelo avanço da soja e da produção de gado intensiva. “Em muitos campos, em vez de cavalos há moto-quatros para juntar o gado”, diz Lisandro Foral, enquanto conduz o seu todo-o-terreno pela fazenda de 3800 hectares de que é encarregado, sempre atento ao telemóvel e ao GPS» («Gaúchos ameaçados pela tecnologia», Oscar Laski, Diário de Notícias, 20.02.2011, p. 33).
      Oscar Laski não tem culpa: o texto é uma tradução. O plural de «moto-quatro» (o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «moto quatro») é «moto-quatros»? Haja paciência! Quer dizer, fica invariável a palavra variável e varia a palavra invariável?

[Post 4467]

«Ex-números um»?

Noves fora


      «O nível de ténis exibido ontem na sua estreia no Open da Austrália foi bom, mas faltou qualquer coisa à ex-número um mundial para dar uma alegria aos inúmeros fãs que tem naquela região do globo» («Ex-números um expatriadas do Open», Pedro Keul, Público, 19.01.2011, p. 31).
      Um leitor é que me comunicou a estranheza, e fiquei a pensar. «Ex-números um»? Dizemos mesmo «números um»? Ou diremos antes «números uns»? Não pluralizamos os números?

[Post 4349]

Plurais duplos

Convém lembrar


      «O primeiro recenseamento geral da população portuguesa feito segundo as regras internacionais foi em 1864 — ano em que nasceu o DN — e contou cerca de quatro milhões de almas. Mas antes já se tinham realizado várias contagens — dos “róis de besteiros” de Afonso III ao “numeramento de Pina Manique”» (Trinta mil pessoas na rua vão custar mais de 50 milhões», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 4.01.2011, p. 12).
      «Rol» é um bom termo, mas aposto que muitos falantes duvidam quando precisam de o pluralizar. Se conhecerem o étimo (do latim médio rollus, mas através do francês rôle), a dúvida até se pode avolumar. E, depois, o plural de aval, cal, fel, gel e mel, por exemplo, não pode ser também avales, cales, feles, geles e meles?
      Quanto ao vocábulo numeramento, desapareceu de quase todos os dicionários.

[Post 4269]

Marca automóvel. Plural

Não ouve

      «Os dois Skoda “podem circular, mas vão ficar parados porque não é bom para a imagem da instituição andar com carros batidos”, adiantou o porta-voz da GNR na Guarda» («Jovem sem carta travado a tiro após abalroar 2 carros da GNR», Amadeu Araújo, Diário de Notícias, 30.12.2010, p. 21).
      Na verdade, é Škoda que se escreve. Mais importante: Amadeu Araújo, ouça bem se as pessoas não dizem «dois Škodas». E dizem bem.
[Post 4258]

Plural de «refrão»

Pode continuar igual


      «Se lhe falássemos em Stefani Germanotta, a associação com a loira explosiva de 24 anos que pôs o mundo a cantarolar os seus refrães não seria imediata» («Lady Gaga. De carne e osso para os pequenos monstros», Nelma Viana, i, 10.12.2010, p. 34).
     Refrães. Perfeito. Dantes, era este o único plural de refrão. É o que regista, por exemplo, o Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. Ultimamente, como que a pedido, pela possível estranheza causada, alguns dicionários passaram a acolher também o plural refrãos.

[Post 4202]

Plural: «ravióis/raviolos»

Como graffiti


      Era a mulher mais bonita que eu vi nos últimos anos. Quis comprovar que falava, e o facto de ela estar num hipermercado a promover certos produtos possibilitou o desiderato. Não precisei de lhe perguntar nada, pois duas senhoras idosas anteciparam-se. «São raviolis da Buitoni.» Contudo, o plural é ravióis ou raviolos. Ravioli, o étimo italiano, já é um plural, o singular é raviolo.

[Post 3929]

Sobre «graffiti», de novo

Há sempre pior


      É o que podemos concluir: «O plano da Câmara Municipal de Lisboa tem como objectivo limpar as tags (rabiscos e assinaturas a marcador) e grafitis (pinturas a spray) que nos últimos anos têm sido uma praga no Bairro Alto» («Bairro Alto tenta limpar a cara», Cristiano Pereira, Jornal de Notícias, 11.09.2010, p. 16). E mais: «A intervenção decorre em duas fases distintas. Na primeira, realiza-se a recuperação do suporte ao nível do piso térreo, nomeadamente das fachadas, vãos de portas e janelas, com reparação dos rebocos, caixilhos, carpintarias e limpezas de cantarias, passando à manutenção das áreas recuperadas e protegidas com tratamento antigrafiti.» E, quer eles queiram quer não, são grafiteiros: «Perante esta realidade crescente dos grafitis nas paredes de Lisboa, a Câmara criou uma Galeria de Arte Urbana [GAU] que pretende ser um espaço para que os grafiteiros possam, legalmente, dar asas à sua imaginação.»

[Post 3871]

Países Baixos

Plural, of course


      Um ex-soldado canadiano visita, alguns anos depois, os campos de batalha da Grande Guerra. «Unrecognizable, of course. Neat and trim in the manner of the Low Countries.» «Claro que estavam irreconhecíveis. Estavam limpos e arranjados, à maneira dos Países Baixos.» Como se vê, também os anglo-saxónicos se referem no plural àquele país: Low Countries. Lembrei-me desta entrada aqui.

[Post 3867]

Plural «graffiti»

Falta algo


      «Os graffitis estão do lado da Cisjordânia, a umas dezenas de metros do check-point da estrada para Jerusalém» («O muro», Humberto Lopes, Jornalismo&Jornalistas, n.º 43, p. 66).
      Bonita publicação, sim senhor, mas falta-lhe o toque de um revisor... Já aqui vimos que o plural é graffiti. Conheço um disléxico que, nesta circunstância, diria: na melhor nódoa cai o pano. Desçamos o pano.

[Post 3866]

Plural: «corta-ventos»

Pensar também é um hábito

      Os agentes da PSP vão ter novo fardamento. Em certas circunstâncias, vão parecer gaúchos — pois vão usar ponchos. «Identificação mais fácil. Blusões, anoraques, corta-vento, fatos de motociclista, pólos de manga curta ou comprida e ponchos têm bem visível atrás a palavra “polícia”» («Polícias pedem mais apoio», Carla Soares, Jornal de Notícias, 10.08.2010, p. 8).
      Esqueçam os ponchos, eu queria é falar daquele «corta-vento». Já aqui falei duas vezes deste vocábulo, mas por outros motivos. O plural é então, senhores revisores do Jornal de Notícias, «corta-vento», invariável? Não me parece. Por analogia, lembro-me logo de «guarda-vento», composto em que guarda também é uma forma verbal do verbo guardar, e o plural deste é guarda-ventos.

[Post 3773]

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