Bê-á-bá: o plural

Portanto, eles é que sabem português


      E escrevem todos assim, não apenas este ou aquele: «Isso nos leva às motivações profundas dos Bolsonaros» («O que querem os Bolsonaros?», Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo, 24.07.2026, p. A5). «Contavam que os partidos cairiam no colo dos Bolsonaros por gravidade, identificação ideológica e rejeição ao PT de Luiz Inácio da Silva» («Direita profissional acha Flávio amador», Dora Kramer, Folha de S. Paulo, 24.07.2026, p. A5).

[Texto 23 349]


Os Trovantes

Uma pluralização inevitável


      Hoje de manhã, na Antena 1, ao deixar o seu testemunho sobre Luís Represas, por ocasião da sua morte, Ana Sofia Carvalhêda acentuou muito enfaticamente, de modo professoral, o Trovante. Se conhecesse melhor a língua, não o faria. É conhecida a posição do fundador da banda Manuel Faria, que disse que era no singular «porque representa algo maior do que cada elemento e merecedor de respeito». Vale o que vale. Se quisessem mesmo ter mais sorte nessa vontade, que escolhessem o nome O Trovante. Não o fizeram, pelo que têm de se sujeitar à forma como, em português, e habitualmente, nos referimos ao nome de bandas ou grupos musicais — fazendo-o preceder de artigo definido plural, independentemente do traço de número do nome próprio. Logo, os Trovante. Claro que isto levanta questões linguísticas complexas e interessantes, mas não vamos agora tratar delas.

[Texto 23 328]

Plural de «acordo»

Ora bolas


      «Mergulhemos no verão, descobrindo lugares que se abram aos nossos sentidos como um fruto apetecível. Que entretanto assessores diligentes possam explicar ao primeiro-ministro e a muitos senhores deputados, prontos para irem a banhos, que o plural de “acordo” se pronuncia “acôrdos” e não “acórdos”» («Mergulhemos no verão», Fernando Alves, TSF, 17.07.2026). Assim é. Só é pena que ao longo do texto ora se sigam as regras do Acordo Ortográfico de 1990, ora as do Acordo Ortográfico de 1945, ora nenhumas.

[Texto 23 307]

Plural dos apelidos

De novo, porque me apetece


      «Era o velho um nobilíssimo descendente dos melhores Sampaios destes reinos» (O Santo da Montanha, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1972, p. 6).
      Já se sabe como os nossos escribas e plumitivos, ainda que assistidos por IA, escrevem isto hoje em dia. Mas então, eles é que sabem.

[Texto 23 258]

Extras! Extras! Extras!

Não se esqueçam


      «As horas extras no Serviço Nacional de Saúde (SNS) custaram, em 2025, 468 milhões de euros, representando um aumento de 11,4% em relação ao ano anterior» («Horas extras valem 468 milhões em 2025», Rui Miguel Godinho, Correio da Manhã, 30.06.2026, p. 6).

[Texto 23 222]

Extras! Extras! Extras!

Está a entrar


      «Uma das incompatibilidades é a prestação de serviços de médicos que não estão dispostos a fazer horas extras para além do previsto» («Governo quer menos peso dos tarefeiros na urgência», Edgar Nascimento, Correio da Manhã, 8.05.2026, p. 19). «Governo aprovou diploma que regula prestações de serviços, bem como regime de incentivos às horas extras na urgência» («Medidas “draconianas” podem levar a fuga do SNS», Inês Schreck e Ana Maia, Público, 8.05.2026, p. 12). «É o que está previsto no decreto-lei, aprovado pelo Governo na quinta-feira, que estabelece a atribuição de incentivos remuneratórios aos médicos que fazem mais horas extraordinárias na urgência do que as previstas na lei (150 horas extras/ano ou 250 horas, se for em dedicação plena)» («Médicos disponíveis para urgências terão bónus mesmo que não sejam chamados», Inês Schreck, Público, 9.05.2026, p. 19).

[Texto 22 966]

Extras! Extras! Extras!

Eles sabem


      «Pós-operatório de transplante capilar inclui despesas extras de R$ 4.000» (Ivan Finotti, Folha de S. Paulo, 22.04.2026, p. B13).

[Texto 22 865]

Extras! Extras! Extras!

Porque andam muito folgados


      «O ex-diretor executivo do SNS António Gandra d’Almeida afirmou ontem que o INEM “só funcionava com muitas horas extras e prestação de serviços, tal como o resto do SNS”» («INEM só funciona com horas extras», E. N., Correio da Manhã, 27.03.2026, p. 19).

[Texto 22 775]

Extras! Extras! Extras!

Não se esqueçam


      «O ex-diretor executivo do SNS António Gandra d’Almeida afirmou ontem que o INEM “só funcionava com muitas horas extras e prestação de serviços, tal como o resto do SNS”» («INEM só funciona com horas extras», E. N., Correio da Manhã, 27.03.2026, p. 19).

[Texto 22 702]

Extras! Extras! Extras!

Hoje são cirurgias


      «Despesa com cirurgias extras dispara 212 milhões» (António Sérgio Azenha, Correio da Manhã, 26.01.2026, p. 10).

[Texto 22 618]

Extras! Extras! Extras!

Hoje são serviços


      «Perante três ofertas, onde deve o consumidor português investir o dinheiro? A resposta depende menos da música disponível — que é virtualmente a mesma em todos — e mais da qualidade do som, do preço mensal, dos serviços extras e do tipo de dispositivo que o utilizador traz no bolso» («Spotify, Tidal ou Apple Music? Qual a melhor escolha», Sérgio Magno, Público, 9.01.2026, p. 39).

[Texto 22 602]

Plural: «pequeno-burguês»

Para evitar disparates


      Podia citar Marx, ou Cunhal, ou até Mário Cláudio, mas vai assim a seco: Porto Editora, tens de indicar urgentemente o plural de «pequeno-burguês». Citar Mário Cláudio ou Cunhal teria um duplo escopo: mostrar que também existe e se usa o termo «médio-burguês».

[Texto 22 526]

Plural: «cabra-montês»

Não é a melhor escolha


      «Estas, nestas alturas, tendem a assumir as dores do povo, afastando as suas próprias responsabilidades em anos ou décadas de relaxe, de autorização de construção em leitos de ribeiras e até de rios, como no Mondego, construção sob ou sobre arribas e na linha de costa, como em Almada, falta de obras em estradas municipais que mais parecem caminhos de cabras-monteses e noutras construções da responsabilidade autárquica, como edifícios de serviços públicos» («O povo reivindica pela televisão», Eduardo Cintra Torres, Correio da Manhã, 22.02.2026, p. 37).

      Não será a mim que me vão apanhar a usar «cabra-montês». Regular e com plural inequívoco é «cabra-montesa». Bem podia a Porto Editora indicar o plural de «cabra-montês», sempre contribuiria para haver menos erros.

[Texto 22 488]

Plural: «irós»

Congenialmente complicados


      Tal como ilhó tem duas formas de singular, «ilhó» e «ilhós», e por conseguinte outras duas de plural, o mesmo acontece com filhó, iró e pió. Assim, temos no singular «uma filhó ou uma filhós», «uma iró ou uma irós», «uma pió ou uma piós». Portanto, no plural, «duas ou mais filhós» ou «duas ou mais filhoses», «duas ou mais irós» ou «duas ou mais iroses», «duas ou mais piós» ou «duas ou mais pioses». É claro e simples — mas não, ou nem sempre, nos dicionários. Depois de sucessivas alterações no dicionário da Porto Editora, falta agora apenas indicar em «irós» que pluraliza em «iroses».

[Texto 22 414]

Extras! Extras! Extras!

Porque não são apenas horas


      «Camas extras não chegam para resolver problema de casos sociais» (Patrícia Carvalho, Público, 20.01.2026, p. 16).

[Texto 22 403]

Extras! Extras! Extras!

Isto está a melhorar


      «Diretiva de 2016 torna horas extras em trabalho escravo na PSP» (João Carlos Rodrigues, Correio da Manhã, 3.02.2026, p. 18).

[Texto 22 354]

Extras! Extras! Extras!

Os primeiros nesta nova casa


      «Mais de um terço dos médicos com horas extras tinha atingido limite anual em Novembro» (Ana Maia, Público, 15.01.2026, 7h01).

[Texto 22 278]

«Os Obamas e os Clintons»

Há quem aprenda

      «Os Obamas e os Clintons, os casais políticos mais poderosos da América, foram juntos ao cemitério de Arlington, em Washington, prestar homenagem ao Presidente John Fitzgerald Kennedy (JFK), morto a 22 de Novembro de 1963. [...] E ao mesmo tempo, a cerimónia em que Obamas e Clintons surgem juntos a homenagear Kennedy oferece a Hillary Clinton o que parece ser uma legitimidade de herdeira, num momento em que a especulação sobre a sua possível candidatura à presidência em 2006 está nos píncaros» («Dois Presidentes homenagearam Kennedy e... nomearam uma herdeira», Clara Barata, Público, 21.11.2013, p. 31).
[Texto 3559]

«Os Sousas»

Vejamos: 1 + 1?

      «Já Eddie Sousa e “Clarkie” Sousa, açorianos e operários têxteis de Fall River, Massachusetts, lá estiveram em 1950, alinhando pela vulgar seleção dos EUA. Em Belo Horizonte, eles jogaram contra a Inglaterra, a inventora do futebol. Pela primeira vez esta fazia o favor ao resto do mundo de ir a um Mundial. Três anos antes, o império britânico perdera a joia da coroa, a Índia, mas naquela tarde perdeu um mito mais fundo: a seleção dos Sousa operários deu-lhes 1-0» («Carta aos rapazes de logo à noite», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 19.1.2013, p. 56).
[Texto 3556]

E o singular é?...

O mundo às avessas

      «“Sefiró” — remonta a Sefer Jezirah e significava “algarismo”. Na cabala, é o nome dado às emanações de Deus. Os sefirós são 10 e a cada um corresponde um nome divino» (O Livro das Maravilhas, Carlos Vale Ferraz. Lisboa: Editorial Notícias, 1999, p. 238).
      É a segunda vez, tanto quanto me lembro, que vejo esta palavra assim aportuguesada; habitualmente, é sefirot ou sephiroth — plural de sefira ou sephira — que se vê. Para o autor, porém, o singular é «sefiró». Se aportuguesamos, é claro que num vocábulo desta natureza o plural se faz por simples acrescentamento do s. Mas formar o singular com base no plural?
[Texto 3494]

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