AOLP90 ainda por assimilar

Oh, Luís, que desilusão


      «Foi no gabinete de José Guerreiro que alguém abriu a boca e propôs o nome que agora é maldito. Parecia inofensivo, era internacional e ninguém se chatearia. Ao presidente do IPMA pareceu-lhe bem. Ligou aos colegas europeus e todos aprovaram que seria menina a tempestade que os meteorologistas do sul da Europa previram que chegaria mais pujante a Portugal do que a qualquer outro lugar. O “K” não é letra do alfabeto que conheçamos, mas é rabisco obrigatório em quase todo o lado e funcionou como álibi, assim ninguém se chatearia por ter o seu nome associado a uma vingança... mesmo que da natureza» («O pai de Kristin é português», Luís Osório, Diário de Notícias, 3.02.2026, p. 4).

      E é logo um adepto desta ortografia avariada que vem dizer isto, que o k (porquê a maiúscula?) não faz parte do nosso alfabeto. Estude lá bem isto. Não por causa da mudança da grafia, mas da imigração, é ver agora a lista de nomes permitidos do Instituto dos Registos e do Notariado começados por k

[Texto 22 348]

Acordo Ortográfico

Erro manifesto

      «Tudo à roda, como já perceberam, das temíveis contradições entre o que se diz e o que se escreve. Daí que os génios do AO tenham descoberto aquela que ficará como uma das afirmações mais idiotas deste jovem século: “Não se pronuncia, não se escreve.” É isso que dita, no AO, a morte das consoantes mudas. Mas serão assim tão mudas? Um exemplo curioso e brasileiro: no infinitivo impessoal dos verbos terminados em –er ou –ar, nunca o “r” é pronunciado. Comer, correr, bater, dever, diz-se naturalmente “comê”, “corrê”, “batê”, “devê”; tal como nadar, comprar, voar, andar, se diz “nadá”, “comprá”, “voá”, “andá”. Para lá da etimologia, não é difícil perceber que a vogal final é aberta por causa do “r” que fecha a palavra. Sem “r”, teríamos de ler “come”, “corre”, “bate”, “nada”, “compra”, “voa” e por aí fora. Por isso, a consoante aparentemente muda de tais palavras, afinal, “fala”. E acentua as vogais. Mas, como “não se pronuncia, não se escreve”, ainda um dia esse “r” final será abatido» («São mudam mas “falam”», Nuno Pacheco, Público, 19.09.2011, p. 3).
      «Nunca» é mentira ou exagero ou loucura. Por outro lado — no caso, o único lado que merece um minuto de reflexão —, não estamos a falar de registos do português padrão, logo, longe das cogitações dos «cientistas» que negociaram o acordo. Quando, em 1819, frei Francisco dos Prazeres (1790-1852) comentou o português falado por indivíduos rústicos do Maranhão, deu como exemplo precisamente, entre outros, a queda do r final (má, pescá, abraçá, feitô, amô). Erre final de qualquer vocábulo — não apenas de verbos e muito menos, valha-me Deus, do infinitivo impessoal. E o infinitivo pessoal fica de fora porquê?

[Texto 493]

Acordo Ortográfico

Tu és Pedro, e sobre esta pedra

      Há minutos, Pedro Rolo Duarte, no programa Hotel Babilónia, da Antena 1, usou a palavra «estupefacção». E pronunciou — coisa que eu nunca tinha ouvido em dias da minha vida — sonoramente o primeiro c: estupefaCção. Estupefacto fiquei eu. Bem, sendo assim, não está capaz de aplicar as regras do Acordo Ortográfico. Agora leia-se esta afirmação do consultor D’Silvas Filho no Ciberdúvidas: «Os cientistas que estudaram o novo AO resolveram uniformizar foneticamente as sequências consonânticas. Assim, consegue-se mais facilmente saber se a consoante se escreve ou não: cai se for muda na pronúncia. Por exemplo, em Portugal, deve escrever-se estupefacto porque o c se pronuncia, mas estupefação porque nesta palavra já não se pronuncia o c.» (A primeira frase é um tudo-nada esotérica, acho eu, e não é tanto pelos «cientistas».)
[Texto 489]

Acordo Ortográfico

Logomaquias

      «No PÚBLICO de 9 de Agosto, Fernando dos Santos Neves apresenta “onze teses contra os inimigos do Acordo Ortográfico”. Vendo bem, não são onze teses. Fernando dos Santos Neves limita-se a contabilizar os parágrafos do seu texto e nem todos são teses. Alguns parágrafos repetem, por outras palavras, o que é dito em parágrafos anteriores; outros limitam-se a insultar quem está contra o Acordo Ortográfico.
      Na verdade, o texto de Fernando dos Santos Neves assenta em dois ou três pressupostos que já foram por diversas vezes rebatidos, inclusivamente neste jornal, mas que, aparentemente, teremos de continuar a rebater.
      Diz Fernando dos Santos Neves que o Acordo Ortográfico é apenas um Acordo sobre a ortografia “e não um Acordo sobre o vocabulário, a sintaxe, a pronúncia, a literatura e tudo o resto”. Não é um Acordo sobre o vocabulário?! Não prevê o AO “um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, tão completo quanto desejável e tão normalizador quanto possível” — o qual, diga-se de passagem, ainda não existe?» («Acordo Ortográfico: o que importa, agora, é rejeitá-lo de vez», Rui Valente, Público, 13.08.2011, p. 36).
      Estarão Fernando dos Santos Neves e Rui Valente, que se apresenta como subscritor da Iniciativa Legislativa de Cidadãos pela revogação da entrada em vigor do AO90, a falar do mesmo?

[Texto 393]

Acordo Ortográfico

Genocídio cultural, estético, racional e político

      Miguel Esteves Cardoso escreveu mais uma vez (e, com sorte, não será a última) sobre o Acordo Ortográfico na sua crónica no Público: «Muitas coisas pedimos ao Verão e a Agosto, que o Acordo Ortográfico (AO) já despromoveu para verão e agosto. Para tomarmos banho, exigimos calor, sol e mar manso. É uma coincidência muito rara e uma desculpa muito boa para ficar na esplanada, a beber Água das Pedras ou, se calhar, na volta, água das pedras.
      Foto-reportagem passa a ser fotorreportagem (com um érre a mais, que não pertence nem a “fotor” nem a “rreportagem”) e mini-saia exige, pela perda do hífen, um ésse a mais: minissaia. Que artigo de vestuário é que é mini? É a “ssaia”, pois claro. Embora defenda o hífen, não sou totalmente sectário. Escrevemos “hás-de” e o AO manda, com razão, esquecer o hífen. “Hás de” é mais bem grafado do que “hás-de” e, na volta, é capaz de remover o incentivo analfabeto para dizer “há-des”.
      Mesmo assim, apesar de menos de uma mão-cheia de mudanças que fazem sentido, o AO é um acto de genocídio cultural, estético, racional e político. O AO é como querermos unir, à força, os verões e os climas brasileiros, portugueses e cabo-verdianos, procurando semelhanças superficiais e despromovendo diferenças profundas, só para chegarmos à conclusão que todos sentimos frio e calor e que todos somos molhados pela chuva.
      Por muito que aceditemos [sic] no contrário, os nossos tempos, como as nossas línguas — e as maneiras como as escrevemos graficamente — são parecidos de mais para fingirmos que somos diferentes. Mergulhamos no conhecido e aprendemos como deve ser» («Calor e mar bravo», Miguel Esteves Cardoso, Público, 12.08.2011, p. 33).
      É impressão minha ou o último parágrafo também poderia rematar qualquer texto de um paladino (ou fanático, segundo outros) do Acordo Ortográfico como Fernando dos Santos Neves? Que acha, Fernando Venâncio?
[Texto 389]

Acordo Ortográfico

Pois parece

      Fernando dos Santos Neves, criador da primeira licenciatura portuguesa de Ciência Política, tem na edição de hoje do Público as «Onze Teses contra os inimigos do Acordo Ortográfico». Eis a segunda «tese»: «O “Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa” quer ser isso mesmo e nada mais: um acordo sobre a ortografia e não um acordo sobre o vocabulário, a sintaxe, a pronúncia, a literatura e tudo o resto (que é, indubitavelmente, o mais importante) que constitui uma língua viva e, ainda por cima, uma língua potencialmente universal como a língua portuguesa e até uma das pouquíssimas línguas potencialmente universais do século XXI, como já Fernando Pessoa anteviu nos princípios do século XX.»
      Parece mentira, mas há quem — mesmo professores, a um mês de terem de ensinar a nova ortografia — não saiba isto. Claro que, ao contrário do que parece decorrer do texto, não é isso, ser «meramente» um acordo ortográfico, que o torna inócuo. E por mentiras: afirmar-se que vai contribuir para a unificação da língua portuguesa é uma grande mentira, que só o tempo, e não será decerto o nosso, vai desmascarar.

[Texto 382]

Acordo Ortográfico

O vocalismo átono

      No Público, prossegue o debate em torno do Acordo Ortográfico de 1990. Do texto de Francisco Miguel Valada de hoje, extracto o que me parece mais relevante.
      «Lendo o texto de Jorge Miranda (escrito segundo o AO90), reparo que, relativamente às constituições americana e brasileira e para indicar os artigos correspondentes, utiliza o advérbio de modo “respetivamente”, sem C. Partindo do princípio de que o Diário da República a partir de 1.1.2012 utilizará esta grafia, convido Jorge Miranda a ler atentamente o Diário Oficial da União (o homólogo brasileiro do DR) e a verificar que “respectivamente”, com C, é a forma usada. A partir de 1.12.2012, teremos “respetivamente” no DR e “respectivamente” no DOU. Actualmente, temos “respectivamente” em ambos. A divergência entre grafias é criada pelo instrumento que Jorge Miranda imagina como a concretização de “ortografia com um mínimo de diferenças”.
      Espero que Jorge Miranda se tenha dado conta da simultaneidade da discrepância criada pelo AO90. Seria desnecessário repetir, mas por vezes é necessário: esta discrepância não existia antes do AO90. Além de “respectivamente” e “respetivamente”, temos também “receção” em Portugal e “recepção” no Brasil, “aspeto” em Portugal e “aspecto” no Brasil, “conceção” em Portugal e “concepção” no Brasil. Reparará que, actualmente e em ambas as costas atlânticas, se escreve “recepção”, “concepção”, “respectivamente” e “aspecto”. Estas divergências gráficas (fiquemo-nos por este aspecto e nem entremos no carácter irrestrito do conceito “facultatividade”) são criadas pelo AO90.
      Seguindo o raciocínio de Jorge Miranda, verifica-se que a aplicação do AO90 nos dois jornais oficiais conduzirá à situação contrária da por si defendida. Algo de errado se passa no raciocínio? Não. Algo de errado se passa no AO90. Entre a realidade das duplas grafias criadas pelo AO90 e o desiderato de Jorge Miranda “uma ortografia com um mínimo de diferenças revela-se indispensável” o fosso é enorme. Este fosso leva-me a partir do princípio de que a função de papel para forrar gavetas dos pareceres científicos solicitados pelo poder político foi devidamente cumprida: não foram lidos.
      Pergunta Jorge Miranda: “Por que razão havia de ser o português europeu a determinar a língua escrita em confronto com o português do Brasil, usado por quase 200 milhões de pessoas?”. O português europeu não deve determinar a forma escrita de qualquer outra das normas, nem qualquer dessas normas deve determinar a norma escrita do português europeu. Isto, em termos programáticos. Agora, quanto ao resto, no que diz respeito ao português europeu, já aqui se referiu o processo do vocalismo átono, factor importante e diferenciador de realidades da língua portuguesa.
      Para que Jorge Miranda perceba o que é o processo do vocalismo átono, convido-o a fazer como na Idade Média: em vez de ler silenciosamente este texto, leia-o em voz alta e verifique que as sílabas na sua maioria são átonas e que, dessas átonas, praticamente todas são reduzidas. Praticamente. Porque há excepções que podem ser marcadas por, imagine-se só, uma consoante não pronunciada. Como esta palavra que acabo de escrever: “excepções”. A palavra “excepções” constitui uma excepção à regra, tal como a palavra excepção. Parece complicado, mas não é. Agora, se Jorge Miranda convidar um falante de português do Brasil a ler este texto em voz alta, descobrirá um admirável mundo novo. E descobrirá o porquê de “exceção” no Brasil e de “excepção” em Portugal.
      Após nove anos de itinerância pela Europa institucional, confesso não ter percebido como é que através do AO90 se poderá “afirmar o português, o português internacional, na União Europeia”, como refere Jorge Miranda. Através da introdução de “aspetos” e “conceções” que eram “aspectos” e “concepções” em Portugal e no Brasil e que agora só são “aspectos” e “concepções” no Brasil? Confesso que não percebo e admito que gostaria imenso de perceber» («Aspectos & aspetos: a simultaneidade da discrepância», Francisco Miguel Valada, Público, 2.08.2011, p. 28).

[Texto 367]

Acordo Ortográfico

Caos das chamadas facultatividades

      A propósito do Acordo Ortográfico, Vasco Graça Moura interpela hoje Jorge Miranda no seu próprio campo, o do direito. Contudo, deixo um excerto mais atinente à ortografia: «O Acordo Ortográfico significa a perversão intolerável da língua portuguesa. Sempre admirei o saber jurídico, a obra académica e a postura cívica do meu amigo Jorge Miranda. Mas não posso concordar com as considerações que ele faz sobre tão sinistro instrumento, no Público de 13.7.2011.
      Uma pessoa pode deixar-se embalar por uma concepção tão poética quanto irrealista da pretensa unidade ortográfica (ontológica, mítica, sublimada…) da nossa língua; pode mesmo prestar tributo a um certo darwinismo, em que o facto de o Brasil ter 200 milhões de pessoas seria razão bastante para sacrificar a norma seguida por mais de 50 milhões de outros seres humanos…
      Mas o que ninguém pode é passar em claro que o AO leva ao agravamento da divergência e à desmultiplicação das confusões entre as grafias e faz tábua rasa da própria noção de ortografia, ao admitir o caos das chamadas facultatividades. Sobre tudo isso existe, de há muito, abundante material crítico, com destaque para os estudos essenciais, demolidores e, note-se, não contrariados, de António Emiliano» («Deveras decepcionado», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 27.07.2011, p. 54).

[Texto 349]

Acordo Ortográfico

O que fazia falta

      A escritora e ensaísta brasileira Maria Lúcia Lepecki morreu ontem, domingo, acabei de ouvir na Antena 1. «Em 2008», lê-se na edição em linha do Público, «por ocasião do encontro literário Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, manifestou-se publicamente contra o novo acordo ortográfico. “Eu sempre achei que o acordo ortográfico não é preciso: um brasileiro lê perfeitamente a ortografia portuguesa e um português lê perfeitamente a ortografia brasileira”, sustentou na altura.»
      É esta, parece-me, a grande e simples verdade. Se algo era preciso fazer, era seguramente uma reforma ortográfica bem estudada.
[Texto 338]

Acordo Ortográfico

Os velhos argumentos

      O Prof. Jorge Miranda publicou hoje no jornal Público «Brevíssimas notas sobre três questões sérias» (p. 36). Só nos interessa a segunda: «Tenho lido neste jornal, ultimamente, vários artigos a atacar o Acordo Ortográfico e a pedir que seja suspensa a sua aplicação. Não posso concordar.
      Não sou especialista em linguística e não pretendo que o Acordo seja perfeito. Contudo, o que está em causa situa-se muito para além de qualquer deficiência ou erro que contenha ou de qualquer gosto estético. O que está em causa é a afirmação da língua portuguesa como grande língua internacional — a terceira língua de matriz europeia mais falada e falada em quatro continentes; e, para esse efeito, uma ortografia com um mínimo de diferenças revela-se indispensável.
      Por que razão havia de ser o português europeu a determinar a língua escrita em confronto com o português do Brasil, usado por quase 200 milhões de pessoas? Pretendê-lo seria totalmente inviável e acabaria por reduzir o português europeu à dimensão do húngaro, do checo ou do sueco, quando, bem pelo contrário, se mostra também necessário afirmar o português, o português internacional, na União Europeia. E não houve reformas muito mais radicais de ortografia do que esta, a começar pela precipitada reforma de 1911, que provocou o corte com o Brasil? Espero bem, por isso, que finalmente, em 1 de Janeiro de 2012, se cumpra o que foi convencionado há mais de 20 anos!
    A verdadeira defesa do português não pode consistir no conservadorismo ortográfico, mas sim na exigência da qualidade do seu ensino e da sua prática na comunicação social, no ensino universitário por professores portugueses para alunos portugueses em português (ao contrário do que sucede em algumas faculdades), no não uso de designações estrangeiras, em suma, na aplicação rigorosa do art. 11.º da Constituição, que o declara língua oficial da República.»
[Texto 298]

Acordo Ortográfico

O denunciante denunciado

      Hoje já ninguém se lembrará, mas ontem não terão sido poucos os leitores do Público que terão pensado como o texto de Nuno Pacheco estava escrito assim-assim mas mal pensado. E, por paradoxal que possa parecer afirmá-lo aqui, teria sido preferível o contrário. Vejamos. O título já prometia vindicta ou denúncia: «O caçador caçado». Começa assim: «Há muitas maneiras de dizer isto. Buscar lã e ser tosquiado, virar-se o feitiço contra o feiticeiro, caçador caçado. O significado é o mesmo, só as palavras mudam. No caso, retrata bem uma polémica que estalou no Brasil há mais de um mês e que ainda se desenrola, com estrondo mas sem desfecho à vista.» Refere depois o tal livro de que já aqui falei e entra então o «caçador caçado»: «Francisco Marins, presidente da Academia Paulista de Letras, escreveu e fez divulgar um texto inflamado onde acusa a “infeliz publicação” de aconselhar a que os alunos brasileiros escrevam, “sem nenhum castigo, mesmo em provas escolares, palavras e expressões de linguagem oral, chula, como estas: os menino pega peixes ou nois vai, nois vem, nois fica”.» Bem, parece-me meritório que alguém chame a atenção para os disparates que se vão fazendo. Nuno Pacheco, neste ponto, não parece divergir desta opinião. Introduz outra personagem secundária e prossegue assim: «O curioso é que tal polémica surja em plena aplicação do Acordo Ortográfico, pretensamente assinado para “facilitar” o ensino (no Brasil, dir-se-ia aprendizado).» Dá depois um exemplo irrelevante, para atingir o número de caracteres que lhe fora atribuído, e eis o parágrafo final: «Ora Francisco Marins, que tanto se indigna com o duvidoso livro, orgulha-se, na mesma missiva, de ter colaborado em Lisboa no Acordo Ortográfico, que mais não é do que, a pretexto da unificação linguística, a caixa de Pandora ideal para todos os erros, tergiversações e analfabetismos. É o caçador caçado. E na armadilha que montou.»
      Querem ver que a colaboração, independentemente de qual tenha sido, de Francisco Marins na redacção do Acordo Ortográfico deslegitima, para todo o sempre, qualquer intervenção sua relacionada com a língua no espaço público? E, vamos lá, não sou defensor do AOLP90, de que já apontei erros e lacunas e não estou sequer a aplicar, e preferia mesmo nunca ter de vir a fazê-lo, mas esta implicação (refiro-me à relação de consequência, não à embirração, que também transparece) não tem pés nem cabeça.
[Texto 191]

Ortografia: «hidático»

Um caso clínico

      Então aqui o nosso autor escreveu que não sei quem tem «um quisto hidáctico». O Acordo Ortográfico de 1990 vai fazendo estragos insuspeitáveis há meia dúzia de anos. «Hidático», caro senhor, «hidático», nunca teve c — nem mudo nem falante. Ter-nos-á vindo do francês hydatique. Está, assinala o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por «hidatídico». Este quisto é causado por uma ténia, a hidátide. Se quiserem ficar maldispostos, pesquisem «hydatic» nas imagens do Google. Não, não precisam de acrescentar «cyst». Uma doença terrível, parece.

[Texto 185]

Acordo Ortográfico

O acento diferencial

      Francisco Miguel Valada responde hoje no Público ao que José Mário Costa escreveu no mesmo jornal no dia 7 do corrente. Mas isso é o menos importante do texto. A argumentação acerca do erro que é suprimir o acento na forma verbal «pára» merece mais atenção, e os leitores decerto se lembrarão de que já várias vezes me referi, com exemplos, a esta alteração, que está a par de outras. Temos, porém, de convir que as consequências de suprimir o acento em «pólo» não serão as mesmas de o suprimir em «pára».
      «Há alguns meses, após ter apresentado uma comunicação no Instituto Franco-Português, em Lisboa, em seminário organizado pela União Latina, fui publicamente confrontado pelo senhor embaixador Lauro Moreira, defensor do Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90) e então embaixador do Brasil junto da CPLP, com o facto de insistentemente me referir à supressão do acento da flexão verbal “pára”. Tratava-se de reacção ao exemplo de que me munira: um título do PÚBLICO de 13/4/2009 (“Bloqueio nos fundos da UE pára projecto de milhões na área do regadio”). Após supressão do acento agudo, tal como prescrito pelo AO 90 na sua base IX, 9.º, qualquer leitor poderia ser induzido em erro, pois “para” tanto poderia ser preposição, como flexão verbal, com óbvias consequências sintácticas e semânticas de tal “simplificação” na frase em apreço.
      Nesse longínquo mês de Novembro de 2009, recorri a uma ficção para ilustrar as consequências nefastas noutros planos, para além do grafofonémico. Infelizmente, com a adopção acrítica, obediente e arbitrária do AO 90 por parte de alguns meios de comunicação social, a comedida simulação deu lugar a uma perceptível realidade. Um exemplo recente da RTP põe em causa valores fundamentais do elementar bom senso. Aparentemente, os comboios adquiriram o direito à greve.
      Com “greve na CP para comboios em todo o país”, como se pode ler em notícia da RTP, estamos perante a descarrilada hipótese de os comboios poderem fazer greve. Admite-se, desta forma, que a greve se aplique aos comboios e não a quem é responsável pela sua circulação, independentemente da forma verbal elíptica (neste caso, “convocada”). Assim, considerando que “para” funciona na perfeição como preposição, a frase “convocada greve na CP para comboios em todo o país” é perfeitamente plausível. Poderia ser gralha, mas não é. É determinação do AO 90.
      […]
     Quando S. Tomás de Aquino, no De ente et essentia, remetia para o Acerca do Céu de Aristóteles, manifestava uma das grandes preocupações de todos aqueles que reflectem sobre os actos e as acções: o pequeno erro inicial resultará, no final, num enorme erro. Uma supressão perfeitamente arbitrária de um acento numa flexão verbal, tornando-a homógrafa de uma preposição, é esse pequeno erro inicial. Se a esta supressão juntarmos todas as supressões arbitrárias, temos o AO 90 como um conjunto de pequenos erros iniciais, que resultarão num erro final ainda maior do que o próprio: a sua adopção» («O acordo ortográfico e o direito dos comboios à greve», Francisco Miguel Valada, Público, 19.06.2011, p. 33).

[Texto 179]

Acordo Ortográfico

Mentiras e trapalhadas

      O Público continua, deliciado, a dar voz a todos quantos são contra o Acordo Ortográfico de 1990. Faz mal — sobretudo quando se trata de disparates. Foi o caso da carta de um leitor, João Fraga de Oliveira, de Santa Cruz da Trapa. A carta ocupa mais de metade da secção «Cartas à Directora», e termina assim: «Mas, até há dias, tinha ainda sobre o memorando uma preocupação acrescida, mais “adjectiva”: a tradução para português. Ora, agora, o memorando foi traduzido para português sob a “exclusiva responsabilidade do Governo” e este resolveu mandar às malvas a Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011 (um Governo a desobedecer ao Conselho de Ministros, uma delícia...) e não adoptou o famigerado Acordo Ortográfico. Estou finalmente relaxado e, mais, (re)ler o memorando é para mim uma delícia quotidiana.»
      É grave que o Público propine tão irresponsavelmente estas mentiras aos leitores. Eis o que se lê no n.º 1 da Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011: «Determinar que, a partir de 1 de Janeiro de 2012, o Governo e todos os serviços, organismos e entidades sujeitos aos poderes de direcção, superintendência e tutela do Governo aplicam a grafia do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, aprovado pela Resolução da Assembleia da República n.º 26/91 e ratificado pelo Decreto do Presidente da República n.º 43/91, ambos de 23 de Agosto, em todos os actos, decisões, normas, orientações, documentos, edições, publicações, bens culturais ou quaisquer textos e comunicações, sejam internos ou externos, independentemente do suporte, bem como a todos aqueles que venham a ser objecto de revisão, reedição, reimpressão ou qualquer outra forma de modificação.»
      O Sr. João Fraga de Oliveira devia dedicar-se a um passatempo mais inócuo. Palavras cruzadas, por exemplo.
[Texto 164]

Sobre «espectro»

Ainda é cedo

      Vital Moreira lá continua, quando não desiste ou se esquece, a escrever segundo as novas normas ortográficas: «Ao ultrapassar o CDS pela direita, o qual adotou posições menos aventureiras e mais prudentes em qualquer dos referidos domínios, o PSD não questiona somente a dimensão social e o liberalismo moderado da sua herança política e doutrinária, por mais indefinida que esta fosse. Reposiciona-se também no nosso espectro político-partidário, baralhando as tradicionais fidelidades ideológicas e sociológicas. Decididamente, o nosso sistema político não precisava de mais este fator de imprevisibilidade e de instabilidade…» («Troca de posições», Vital Moreira, Público, 31.05.2011, p. 37).
      O Vocabulário Ortográfico do Português (VOP), do Instituto de Linguística Teórica e Computacional, refere apenas que «espectro» e «espetro» são variantes, mas, tanto quanto me lembro, nunca ouvi um português articular o c. Já vi foi uma professora de Português corrigir um aluno que o fez. Contudo, como não é vocábulo muito comum, não anda na boca de toda a gente, haverá provavelmente sempre hesitações. Aguardemos para ver.

[Texto 80]

Ortografia: «anti-social»

Demasiado previsível

      «“Não estava doente. Era reclusa”, disse o jornalista Bill Deedman, da MSNBC, que fez uma reportagem de investigação sobre a vida da filha daquele que foi, no seu tempo, um dos homens mais ricos dos EUA, e a quem o The New York Times chamou “a socialite antissocial”» («A multimilionária que viveu e morreu longe do mundo», Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 43).
      Será assim de acordo com as novas regras ortográficas, mas, como o Diário de Notícias ainda segue a ortografia do AOLP45, está incorrecto. O jornalista deveria ter escrito «anti-social». Quando o jornal adoptar a nova ortografia, alguns jornalistas estarão anos seguidos a escrever em conformidade com as regras do AOLP45. Tudo demasiado previsível.
[Texto 74]

 

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