Como se escreve por aí

Pormenores, mas relevantes


      «Não há uma segunda oportunidade para causar a primeira impressão e o Presidente António José Seguro aproveitou bem a sua tomada de posse. No discurso, ao falar da desordem no mundo, citou o filósofo inglês Thomas Hobbes, que chamou ao homem “lobo do homem”» («Os lobos dos homens», Carlos Fiolhais, Correio da Manhã, 17.03.2026, p. 3). Por pouco acertava. Aqui, a indeterminação é a chave: «Não há segunda oportunidade para causar uma primeira impressão.» Quanto à frase sobre o homem ser o lobo do homem, foi popularizada por Thomas Hobbes (1588-1679), mas é, como se sabe, de Plauto (254-184 a. C.): «Lupus est homo homini, non homo, quom qualis sit non novit.» («Um homem é um lobo para outro homem, e não um homem, quando não sabe com quem está a lidar.») Mas depois veio Rousseau e pôs as coisas nos termos que, a meu ver, são os correctos.

[Texto 22 640]

Uma ida ao teatro

Tudo na mesma


      Fui ver a peça O Quarto, de Harold Pinter, no Teatro Experimental de Cascais. Uns minutos antes de a peça começar, e até parecia que andavam ainda a carpintejar no palco, porque se atrasaram, um espertalhão ao meu lado, acompanhado de duas mulheres, dizia esperar que nenhuma delas sofresse de estroboscopia. E eu só espero que a criatura não seja professor e não ande por aí a ensinar parvoíces. Quanto à peça, os erros do costume. Na ficha técnica, do tradutor ao frente-de-casa (termo que em boa hora levámos para o dicionário da Porto Editora em Abril de 2024), aparece o nome de toda a gente — menos do revisor, porque os responsáveis acham que as peças de teatro não precisam de revisão. Como estão enganados... 

[Texto 22 590]

Como se escreve por aí

Não avançámos nada, nem com a IA


      «Os narcosubmarinos, que na realidade são semissubmersíveis que navegam com a parte superior à tona de água, fazem parte de um modus operandi conhecido há mais de 20 anos na costa americana» («Artur Vaz. “Os narcosubmarinos são uma grande ameaça”», Isabel Laranjo, Nascer do Sol, 5.03.2026, 8h01). 

      O sol da ortografia e da lógica quando nasce não é para todos — nem para o Nascer do Sol, onde também (como no Observador) não sabem escrever «narcossubmarino». Aqui, com a agravante de a jornalista até ter sabido que se escreve «semissubmersível». Sendo assim, reúne as condições mínimas, mas tem de treinar mais.

[Texto 22 560]

Como se escreve por aí

Mais uma escolha infeliz


      «Araghchi garantiu que o Irão mantém “uma boa relação” com os países do Golfo e que estes “não têm nenhum problema” com Teerão. “Não estamos a atacar os nossos vizinhos nos Estados do Golfo, mas a presença americana nesses países. Sabemos que os países do Golfo estão chateados com estes ataques, mas eles deviam saber que esta guerra nos foi imposta”, declarou, acrescentando que tem mantido o contacto com os seus pares nestes países» («MNE iraniano: países do Golfo estão “chateados” mas “não podem esperar que Irão fique em silêncio”», Madalena Moreira, Observador, 1.03.2026, 14h35).

      Procurei na versão em inglês das declarações de Abbas Araghchi algum termo que pudesse, ainda que de forma forçada, justificar o coloquial «chateados», mas em vão. As formulações usadas na imprensa anglófona são, como seria expectável em contexto diplomático, do tipo expressed concern, voiced objections ou were dissatisfied. Traduzir esse registo por «chateados» não é apenas uma opção estilística discutível, é uma descida clara de nível, que trivializa o discurso político e aproxima a linguagem jornalística da conversa de café. Nada que não veja, atenção, nos livros que revejo, mas francamente...

[Texto 22 558]

Como se escreve por aí

Como assinante o exijo: em português!


      Outra vez a guerra. Mas porque optam no Observador por escrever ayatollahs quando até donas de casa com a 4.ª classe nascidas na década de 30 já escrevem aiatolas? Já agora, deixem de escrever «Supremo Líder», que até parecem fanáticos do regime.

[Texto 22 544]

Como se escreve por aí

Desta linda maneira


      Há coisas muito estranhas, e esta é uma delas: «Passou um mês e não sei se já chegou a notícia a Lisboa. Ainda há cerca de duas mil pessoas sem luz e uns milhares, não se sabe bem ao certo, sem internet e comunicações. [...] Esta semana, numa reportagem na CNN Portugal, um casal com mais de 80 anos contava e mostrava como se repara um telhado esventrado pela ventania» («Ainda há gente sem luz», João Fernando Ramos, Nascer do Sol, 1.03.2026, 13h34). 

      Mas porquê o itálico em «internet» e em «CNN Portugal»? Umas linhas mais à frente, contudo: «A imagem de drone é esmagadora mostrando o homem no topo do telhado e a destruição que o envolvia.» Isto são tretas do jornal, mas há erros do jornalista: «A pergunta da jornalista é se ainda não chegou ninguém para ajudar. A resposta foi simples; ‘Pois não menina. Mas nós cá estamos de saúde para resolver isto’.» Pelo menos no que toca à pontuação, estou certo de que o trolha não faria muito pior. E podemos ter a certeza de que não usaria itálico.

[Texto 22 542]

Topónimos não antecedido de artigo

Um caso paradigmático


      «O Reino Unido está a tomar “medidas ativas” em relação ao conflito no Médio Oriente, declarou o ministro da Defesa John Healey à Sky News. “Ativámos as nossas forças defensivas no Médio Oriente. Estamos a abater dornes [sic] que estão a ameaçar as nossas bases, o nosso pessoal ou os nossos aliados. E isto é uma situação muito séria e que se está a deteriorar”, elaborou, detalhando que Londres mobilizou aviões de guerra no Chipre e no Qatar» («Reino Unido “abateu drones” no Médio Oriente, anuncia ministro da Defesa britânico», Madalena Moreira, Observador, 1.03.2026, 9h57). 

      Um dia, que até pode ser hoje (e só não foi no domingo porque eu tinha outras prioridades), Madalena Moreira vai ficar a saber que não se diz «no Chipre», mas «em Chipre». Em rigor, nenhum nome próprio precisaria de ser antecedido de artigo, mas isso é outra história, que passaria por mostrar porque não é — como ouvimos até escritores, professores universitários, jornalistas — «o Camões» nem «o Helder Guégués», mas pode ser «o Macaco» ou «o Xuxas». Como poderá comprovar em qualquer dicionário decente, Madalena Moreira, cipriota é «referente a Chipre» ou o «natural ou habitante de Chipre». Há muitas vias e oportunidades para aprender.

[Texto 22 540]

Como se escreve por aí

Falta a cultura do cuidado


      «Os alarmes começaram a soar no dia 2 de fevereiro, quando a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X (FSSPX), o célebre grupo ultra-tradicionalista que vive há várias décadas às margens da Igreja Católica, emitiu um comunicado bombástico, anunciando que, daí a cinco meses, a 1 de julho de 2026, seriam ordenados novos bispos tradicionalistas no seio da organização» («Igreja Católica. Após proposta de diálogo recusada, cisma entre Vaticano e grupo ultra-tradicionalista parece inevitável», João Francisco Gomes, Observador, 22.02.2026, 17h21). 

      Recebem prémios de jornalismo, mas aos de ortografia nunca poderiam aspirar. Então, João Francisco Gomes, não é «ultratradicionalista» que se escreve? E o que é isso de «às margens»?

[Texto 22 537]

Como se escreve por aí

Só vêem o argueiro


      «“O discurso de Marco Rubio”, disse Alexandria Ocasio-Cortez a propósito da intervenção do Secretário de Estado dos EUA em Munique, “foi um apelo puro à cultura Ocidental”. Seria necessária uma imaginação invulgarmente fértil para conjecturar a frase que escreverei de seguida, mas aqui vai: concordo com Ocasio-Cortez. Está certa. O discurso de Rubio foi indubitavelmente uma ode à cultura e à civilização Ocidental» («Em defesa da cultura Ocidental», Gonçalo Nabeiro, Nascer do Sol, 25.02.2026, 9h26).

      Parece que nem no ISEG nem no jornal se ocupam destas minudências ortográficas, isso é para ociosos como nós. E lá aparece também Michelangelo, agora grafia obrigatória.

[Texto 22 527]

Como se pontua por aí

Não seria barato


      Iam precisar de um revisor só para corrigir a pontuação: «Quando morreu, em 2013, os obituários publicados nos jornais sobre Ewald-Heinrich von Kleist, descreveram-no como o último dos oficiais alemães que estiveram envolvidos na conspiração para matar Adolf Hitler na fase final da Segunda Guerra Mundial» («O mundo visto de Munique», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 11.02.2026, p. 2). «A ministra não respeitou esse princípio, o que revelou um lamentável défice de autoconhecimento – como é que alguém que se revelou tão ridiculamente frágil, aceitou ser ministra e logo na pasta da Administração Interna?» («A pobre ministra não será salva por um príncipe», Luís Osório, Diário de Notícias, 11.02.2026, p. 4).

[Texto 22 404]

Irritações: véspera e dia anterior

Esta deixa-me doente


      Não sei se já disse isto nos vinte anos de blogue, mas, como todos os dias nascem tradutores, não fará mal, pelo contrário: por favor, não escrevam tantas vezes «no dia anterior». De certeza que conhecem, já ouviram da boca de pais, avós (mas devia ser «avôs), vizinhos, a palavra «véspera». Usem-na.

[Texto 22 343]

Irritações: «soar»

Porque não é tradutor

      «“You are?” Bob’s voice sounded surprised.» Se não é tradutor, caro leitor, de certeza que não verteu aquele «sounded» por «soou». Parabéns, é menos uma criatura, que me parecem, e são, demasiadas, que me enfurece com essa maneira tolinha de traduzir. Sim, tem razão, há alternativas, e entre elas estão, no contexto, «mostrar-se» ou «parecer».
[Texto 22 330]

Como se pontua por aí

Um mal ibérico


      «En una tertulia televisiva se burlan de Kiko Rivera porque le ha escrito a una mujer con la que mantiene una relación sentimental una carta sin faltas de ortografía, “incluso con tildes”, lo que atribuyen a que se ayudó de la inteligencia artificial. Mientras los ortógrafos del corazón charlan, en la parte inferior de la imagen aparece este rótulo: “Kiko Rivera, enamora con la IA”. La coma entre el sujeto y el verbo confirma la validez del dicho “No escupas hacia arriba, que te puede caer en la cara”. Y que tire la primera piedra el que nunca haya sido reo de cacografía» («La ortografía у el amor», Francisco Ríos, La Voz de Galicia, 24.01.2026, p. 18). 

      Como hoje mesmo já vi (e corrigi) este erro, tão frequente, num texto, nunca é em vão que aqui, e em português ou em castelhano, se fala nestes erros crassos. Eles são bons é em matérias complexas; em coisas assim comezinhas espalham-se com vergonhosa frequência.

[Texto 22 316]

Como se escreve nos jornais

«Seria aqui que seria»?

      «Seria aqui que Carlsen seria “descoberto” por Simen Agdenstein, o seleccionador norueguês, que na sua época chegara a integrar o top 50 mundial e que, curiosamente, também pertencera à selecção principal de futebol» («Aos 22 anos, Magnus Carlsen é o novo campeão mundial», Jorge Guimarães, Público, 23.11.2013, p. 49).
[Texto 3574]

Uma letra a mais

E é outra coisa

      «A história das centenas de cartas inéditas trocadas entre Camilo Castelo Branco e o amigo de infância, Carlos Ramiro Coutinho, visconde de Vouguela, agora publicadas em Camilo Íntimo (Clube do Autor, 378 págs.), é um enredo que exigiria deliberação a Calisto Elói Barbuda, o inocente morgado de província, corrompido pelos costumes da capital, no clássico A Queda de um Anjo» («As cartas perdidas de Camilo», Sílvia Souto Cunha, Visão, 1.11.2012, p. 110).
      Que diria neste caso o autor do tal blogue «político»? Talvez que a jornalista devia ter mais cuidado. É verdade que, mais à frente, é Ouguela — o correcto — que se lê, mas esta é a primeira ocorrência, e no leitor que desconheça de quem se trata fica a dúvida. E mais: terá tido Camilo apenas este amigo na infância? Bem, algo certo, para contrabalançar: «Este tesouro camiliano inédito faz, igualmente, um vívido retrato da sociedade da época, e das convulsões sociais e políticas; nomeadamente, a conspiração que levou Ouguela à prisão, que pretendia afastar os Braganças do poder e destituir D. Luiz I.»

[Texto 3514]

Como se escreve nos jornais

Dizem que Fosgluten faz bem

      «Se olharmos para os vídeos mais populares em Portugal na totalidade do período analisado — um anúncio da Coca-Cola em parte filmado em Portugal, um vídeo tirado de um programa de [sic] SIC, outro anúncio, desta vez da Kia, um videoclip da cantora Miley Cyrus e um vídeo de um vendedor de bolas-de-berlim em Monte Gordo — vemos que o nosso país irmão no YouTube não é a Espanha nem o Brasil, mas sim a Suíça. [...] E há fenómenos difíceis de explicar, como o videoclipe do grupo ucraniano MMDance[,] que conseguiu seduzir grande parte da América Latina, o Egito, Indonésia e Filipinas e é ignorado pelo resto do mundo» («O que é que nós (e o resto do mundo) vemos no YouTube?», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 11.11.2013, p. 10).
[Texto 3500]

Dois pesos, duas medidas

Ou não fosse ele indígena

      «No Ocidente, o abandono do cristianismo em qualquer das suas variedades tem sido progressivo desde o princípio do século XIX e reforçado, a partir de 1850-1870, pela crítica bíblica e pelo evolucionismo de Darwin. [...] Mas, fatalmente, a cada concessão, irá crescendo a ideia de uma mudança radical na Igreja, que a deixaria irreconhecível como, por exemplo, sucedeu ao Anglicanismo» («O inquérito do Papa Francisco», Vasco Pulido Valente, Público, 9.11.2013, p. 52).
[Texto 3484]

Revisão

É a vida

      Depois de agradecer a dezenas de pessoas, de lordes e ilustres para cima, Virginia Woolf deixa, em Orlando, este agradecimento final: «Por último agradeceria, se não tivesse perdido o seu nome e morada, a um cavalheiro americano que generosa e gratuitamente corrigiu a pontuação, a botânica, a entomologia, a geografia e a cronologia de anteriores obras minhas e que, segundo espero, não irá privar‐me desta vez dos seus serviços.» Um revisor informal, decerto competente — e de nome desconhecido para sempre.

[Texto 3443]

«Situação», uma acepção

As aspas são mesmo uma doença

      «A segunda fase (1945-1961), que se caracteriza por um táctico abrandamento do regime e pela admissão de algum pluralismo limitado, em que a Assembleia Nacional passa a ser presidida por um dos mais “liberais” líderes políticos da situação, que na tradição republicana de que era oriundo mantinha uma postura de franco apoio e empenho, mas sem subserviência» (Os Deputados da Assembleia Nacional 1935-1974, J. M. Tavares Castilho. Lisboa: Texto Editores, 2009, p. 141).
      O autor — não este, outro — quer forçosamente aspas em «situação», na mesma acepção. Porque o pobre leitor pode julgar que é literalmente o acto ou efeito de situar. Isto é que é confiança na inteligência do leitor.
[Texto 3368]

Como se escreve nos jornais

Como calha

      «Neto de avós portugueses e filho de um shaper [fabricante de pranchas], Henrique parece ter já vindo com destino traçado quando veio ao mundo» («Pedro Henrique. Um surfista contra natura [sic] e um emigrante contra corrente», Beatriz Silva, i, 25.05.2013, p. 53).
      Queixamo-nos do preço dos jornais, mas temos de ver que nos dão a conhecer factos mais ou menos verdadeiros e ainda nos ensinam línguas, sobretudo inglês. Servido como se fosse português, sem aspas nem itálico. E é claro que os parênteses rectos não são os adequados. Pormenores.
[Texto 2887]

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