Como se traduz por aí

Sim, boa sorte


      No 3.º episódio da série Vigilantes (Brigade Anonyme), Castaneda recebe uma nova chamada de pais em pânico: Adèle Hayat, a filha de 20 anos, desapareceu antes de embarcar num avião para se juntar a eles em Ajaccio. Quando descobriram que a última pessoa que estivera com ela era Damien, um empregado do Grande Hotel, em Royan, a equipa foi lá apertar com ele. Conversaram e, vendo que era inocente, Castaneda despede-se: «OK, on va te laisser travailler. Bon courage.» Pois, mas o que estava nas legendas, de Susana Serrão? «Podes voltar ao batente. Boa sorte.» Boa sorte também para os espectadores, pode ser que 0,5 % percebam isto.

[Texto 22 934]

AO90 no dia-a-dia

Da teoria à prática


      «Desde logo, através do mais ou menos declarado financiamento, com dinheiros públicos, da confissão dominante – ainda há um quarto de século o então cardeal patriarca de Lisboa, José Policarpo, se queixava de haver pouca verba no Orçamento de Estado para a construção de igrejas, e só a partir de 2005, após a revisão da Concordata, os padres deixaram de beneficiar legalmente de isenção de IRS –, sendo fastidioso enumerar aqui todos os privilégios, económicos e outros, de que a Igreja Católica ainda goza face às outras confissões» («O Chega e a Bíblia de Tarantino», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 29.04.2026, p. 13). 

      Tem que ver com o Acordo Ortográfico, sim senhor: desde o início da sua aplicação, pessoas mal informadas — entre as quais boa parte são jornalistas — entendem, ou assim parece, que uma das alterações foi decepar tudo o que é hífen. Revejam-me esta convicção, se faz favor. E com urgência.

[Texto 22 899]

Sobre «palestino»

Princípio de Muphry, é isso 


      «Causou polémica a afirmação da comentadora da SIC, Maria João Tomás, de que Jesus era “palestino”. Na língua portuguesa, dizer que um palestiniano é “palestino” equivale a designar um francês como ‘franço’, ou um português como ‘portuga’. Mas não se pode exigir que uma professora universitária domine a própria língua. Sobretudo quando domina algo muito mais importante: a solução dos problemas mundiais» («Jesus até foi islâmico – e votaria em Seguro», João Cerqueira [escritor], Nascer do Sol, 30.01.2026, p. 41). 

      Eu não sei como não cai o céu quando se fazem afirmações tão estúpidas. Só ali as vírgulas a isolarem o nome da comentadora da SIC já dizem muito sobre o domínio da língua. Vamos lá ver: não se tem de ter sempre um cuidado acrescido quando estamos a fazer uma crítica? Então e não havia a porra de um dicionário, de um vocabulário, de uma enciclopédia, a internet? Veja se não encontra «palestino»/«Palestinos» imediatamente a seguir a «palestiniano»/«Palestinianos» na página 746 do Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. Em todos os dicionários, aliás. Também não deixa de me espantar que nos jornais se publiquem textos deste jaez. Há-de dizer-se que decorre da mera liberdade, mas no caso parece mais que é dar corda para alguém se enforcar. Em última instância, no entanto, quem se lixa sempre são os leitores, que pagaram e têm de ler estes disparates e que, em alguns casos, por falta de preparação, por falta de discernimento, os vão repetir. 

[Texto 22 878]

Pero se entiende, ¿no?

Tudo na mesma


      «“Pero se entiende, ¿no?”, suelen alegar los sorprendidos en pecado que creen que el contexto resuelve cualquier desaguisado. Ya Sancho le pedía a don Quijote que no le enmendase los vocablos si entendía lo que quería decir. Seguimos en las mismas» («Hablar con propiedad», Francisco Ríos, La Voz de Galicia, 18.04.2026, p. 12). Pascácios da Península Ibérica, uni-vos e dizei sempre isto, que o que interessa é que se perceba.

[Texto 22 850]

Como se fala por aí

Ou é a prosa que é adormecente?


      «Quanto à difusão, Bacelar Gouveia enfrenta sentimentos contraditórios. Por um lado, está satisfeito, porque o livro (lançado em Fevereiro, com chancela da Almedina) “tem vendido bem”, mas por outro está convencido de que este tema “não interessa às pessoas”: “Nós não temos em Portugal uma questão linguística, reconheço, mas temos pequenas questões linguísticas: o acordo [ortográfico] é uma questão controversa; o modo de escrever; a linguagem inclusiva, que tem muito que se lhe diga; ou a parte da informática, que aqui não está tratada. O problema é que em Portugal há pouco diálogo científico e as elites universitárias, aqui tenho uma visão muito pessimista, são muito frágeis e estão muito adormecentes.” Há, segundo Bacelar Gouveia, razões para isso: “O processo de Bolonha veio burocratizar o trabalho universitário, os professores gastam metade do seu tempo a preencher relatórios e a fornecer estatísticas, e não têm tempo para ler, escrever e pensar”» («“O uso generalizado e até abusivo do inglês começa a ser inadmissível”», Nuno Pacheco, Público, 17.04.2026, p. 30). 

      As elites universitárias, seja lá isso o que for, «são frágeis e estão adormecentes»... O que me parece é que é muito má ideia usarmos palavras que não conhecemos bem.

[Texto 22 836]

Como se traduz por aí

Não temos cá disso


      Quarto episódio da série Na Sombra. Francœur, apertado por escândalos e suspeitas, propõe a Marie-France Trémeau uma candidatura conjunta, à americana. O Eliseu para ele, para ela o Matignon. Ela, embora replique de imediato que não acredita nestas soluções bicéfalas, não deixa de ponderar ali mesmo. Mas diz também: «Quand tu auras vu ma liste de courses, je ne sais pas si ta proposition sera toujours une si bonne idée.» Nas legendas, estava assim: «Quando tiveres visto a minha “lista de compras”, a tua proposta talvez não tenha sido uma ideia assim tão boa.» E esta «lista de compras» já tinha aparecido noutro episódio. Para um francês, a expressão francesa não é obscura, a sua equivalência literal é que não existe em português. É um caso clássico de assimetria idiomática. 

      Temos de ver que é um filme, em geral o espectador não anda para a frente e para trás para perceber, nem pára para ir consultar um dicionário. Tem de se optar sempre pela formulação mais clara, mais directa. Por isso, eu optaria por uma solução assim: «Quando vires a minha lista de exigências, não sei se a tua proposta continuará a parecer uma tão boa ideia.» Ou até mais simples: «Quando vires as minhas exigências, não sei se a tua proposta continuará a parecer uma tão boa ideia.» Ou ainda: «Quando vires as minhas contrapartidas, não sei se a tua proposta continuará a parecer uma tão boa ideia.» É que, para aceitar, ela vai querer os ministérios mais importantes, como o do Interior e o da Justiça, entre outras exigências relacionadas com a linha política.

[Texto 22 802]

Tradução: «permanent»

Encore faut-il savoir écouter


      Terceiro episódio de Na Sombra. Ça commence à chauffer. Já na posse das imagens não editadas (os tais brutos...), César Casalonga e Marylin vêem que Le Major, alguns minutos antes de o sistema informático vir abaixo, segredou qualquer coisa a um dos informáticos. Qualquer coisa não, César leu inequivocamente nos lábios: «Vai agora.» E que informático era esse? O indivíduo que lhes tentara vender os discos rígidos com a prova da fraude. Caligny, que assistia à projecção a um canto da sala, também reconheceu o indivíduo do incidente na ponte. César e Marylin decidem então marcar um jantar com Le Major para o confrontarem. Quando César lhe mostra, no telemóvel, o fotograma em que Le Major aparece a segredar ao ouvido do informático, Le Major deixa-se rir e diz: «Conheço esse tipo de vista. Estava sempre lá, um militante.» «Permanente ou militante?», pergunta Marylin. Isto, claro, nas legendas, mas a tradução está errada e compromete seriamente a compreensão. 
      Ao traduzir desta forma a fala de Marylin, tinham de soar todos os alarmes e levar o tradutor a pensar bem, a voltar atrás. Vamos ao original. Le Major: «Ce type, je le connais sans le connaître. Il était là comme un permanent, un militant.» Ao que Marylin, e com razão, dispara logo: «Un permanent ou un militant?» Ou seja: «Esse tipo, conheço-o de vista. Era funcionário do partido, um militante.» A própria hesitação da personagem autorizava o tradutor a verter assim: «Esse tipo, conheço-o de vista. Era, sei lá, funcionário do partido, militante.» E, claro, a pergunta de Marylin só podia traduzir-se assim: «Funcionário ou militante?» Tudo isto, Karim Vieira Mesmoudi, porque permanent, no contexto, é clarissimamente o «membre d’un parti, d’un syndicat, etc., rémunéré pour se consacrer entièrement à son organisation», como se lê no Larousse ou em qualquer dicionário de francês.
[Texto 22 793]

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