Como se conjugam os verbos por aí

Voltemos ao básico


      «[Peggy] Atirava constantemente para o lado o cabelo solto, caído até aos ombros, e penteava-lo com a mão» (Pessoas Normais, Sally Rooney. Tradução e notas de Ana Falcão Bastos e revisão de Isabel Castro Silva. Lisboa: Relógio D’Água, 2022, p. 79). 
      Com Peggy está tudo mais ou menos bem, se abstrairmos da sua falsidade, petulância e inveja. Mas com a tradutora e a revisora já não tenho a certeza: parecem confundir os pronomes, já que «penteava-lo» só pode corresponder a «tu penteavas + o». Na terceira pessoa, como é o caso da frase, «ela penteava + o = ela penteava-o». Porque trago isto para aqui? Porque é erro que vejo com alguma frequência.

[Texto 23 546]

Como se traduz por aí

Vamos experimentar


      «Agora, como vou levar a Veronica lá para baixo? Embora seja mais alta do que eu, é muito magra. Testo as águas, agarrando-a pelos tornozelos e arrastando-a pelo chão, e a verdade é que é mais fácil do que esperava. Tenho algum receio de magoar as costas, ainda assim» (O Divórcio, Freida McFadden. Tradução de Carla Ribeiro e revisão de Mariana Félix. Odivelas: Alma dos Livros, 2026, p. 214). Valha-me Deus... É uma expressão idiomática corrente, está dicionarizada. Por todos, veja-se no Collins English Dictionary, que tanto regista test the water como test the waters: fazer uma abordagem exploratória, sondar, experimentar primeiro para ver qual será o resultado ou a reacção.
      A tradutora revela certa preferência pelo verbo «testar», tão português como uma sanduíche, ainda quando não é — claramente — o adequado: «O portão do jardim das traseiras está fechado, mas, quando o testo, não está trancado» (p. 177). [«The gate to the backyard is closed, but when I try it, it’s not locked.»] A minha avó diria assim, e eu, seu neto, não diria melhor: «O portão do jardim das traseiras está fechado, mas, quando tento abri-lo, vejo que não está trancado.»

[Texto 23 540]

Como se traduz por aí

Quanto mais concreto, pior


      «O bairro é relativamente seguro, por isso não me preocupo assim tanto com trancar tudo ao sair, mas é certo que notei que a placa do caixilho nem sempre fecha completamente à primeira tentativa» (O Divórcio, Freida McFadden. Tradução de Carla Ribeiro e revisão de Mariana Félix. Odivelas: Alma dos Livros, 2026, p. 101). 
      Quanto mais concreta e identificável é a realidade designada, mais arriscado é traduzir as palavras sem primeiro perceber a que objecto ou mecanismo se referem. («The neighborhood is relatively safe, so I am not that concerned with locking up tight when I leave, but I did notice that the plate on the doorframe doesn’t always latch completely on the first try.») O que se passa mecanicamente é simples: ao encostar a porta, o trinco entra no orifício da chapa fixada no aro e mantém a porta fechada. Plate é essa chapa (mais precisamente, chapa-testa); latch refere-se ao engate do mecanismo. Logo: «O bairro é relativamente seguro, por isso não me preocupo muito em deixar tudo bem trancado quando saio, mas reparei que o trinco nem sempre encaixa completamente na chapa do aro da porta à primeira tentativa.»

[Texto 23 531]

Como se escreve por aí

Ainda estamos nesta fase?


      «O ashram era modesto, sóbrio sem severidade e mais parem um colégio do que com um convento. Atravessámos am pequeno pátio com dois relvados murchos e duas árvorezinhas» (Vislumbres da Índia, Octavio Paz. Tradução de José Colaço Barreiros e revisão de João Carlos Alvim. Lisboa: Relógio D’Água, 2017, p. 35). 
      Mau... Pensava que já toda a gente sabia isto, ou pelo menos quem anda a traduzir e a rever livros. A forma correcta é «arvorezinhas», sem acento. Ao juntar-se -zinho/-zinha a uma palavra proparoxítona, desloca-se o acento tónico para o sufixo: árvorearvorezinha; lâmpada lampadazinha; príncipe → principezinho. A vogal que era tónica na palavra primitiva torna-se átona, e desaparece, portanto, o acento gráfico que apenas se justificava pela proparoxitonia.

[Texto 23 524]

Como se traduz por aí

Bem precisamos deles, dos climáticos


      «Estrada estreita, de uma só faixa, com refúgios para cruzamento» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., p. 247). 
      Porquê refúgios? Como agora estamos sempre a ouvir falar, e bem precisamos, de refúgios climáticos, confundiram-se. «Single-track road with passing points.» Até na legislação portuguesa encontro o nome certo: zona de cruzamento, tão simplesmente. Ou, como vejo em legislação recentíssima, de 2023, baia de cruzamento.

[Texto 23 520]

Definição: «aspartame»

Grande equívoco


      «Autorizado em diversos alimentos e bebidas sem açúcar ou com teor energético reduzido, como refrigerantes e iogurtes, este adoçante decompõe-se após a ingestão em duas substâncias: o aspartame e o acessulfame K, recordou a EFSA, cuja sede é em Parma, Itália» («Aspartame não apresenta riscos para a saúde, segundo agência da UE», RTP Notícias, 11.09.2026, 7h28). 
      Há aqui, em relação ao aspartame, um grande equívoco, e como os dicionários também caem nele, vejo-me obrigado a dizer alguma coisa. O aspartame não se distingue por ter, em si mesmo, um teor calórico excepcionalmente baixo, mas pelo seu elevadíssimo poder adoçante: é cerca de 200 vezes mais doce do que a sacarose, pelo que basta empregar quantidades muito pequenas, tornando reduzidíssimo o seu contributo energético nos alimentos. É, pois, enganador afirmar, como faz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que o aspartame é utilizado como edulcorante «por ter baixo teor calórico e alto poder adoçante»: é precisamente o elevado poder adoçante que permite utilizá-lo em quantidades tão pequenas que o aporte calórico se torna desprezável. Também a caracterização inicial como simples «composto cristalino» é manifestamente insuficiente. Ser cristalino é uma propriedade física comum a inúmeras substâncias e não identifica a natureza química do aspartame. Este é, mais precisamente, o éster metílico de um dipéptido formado por ácido aspártico e fenilalanina. «Cristalino» pode naturalmente figurar na definição como característica da substância — apresenta-se como um pó cristalino branco —, mas não deve substituir a sua caracterização química. 
      Assim, proponho ➠ aspartame éster metílico do dipéptido aspartil-fenilalanina (C₁₄H₁₈N₂O₅), de elevado poder adoçante, cerca de 200 vezes superior ao da sacarose, utilizado como edulcorante artificial na indústria alimentar.

[Texto 23 516]

Estado, estado...

E o critério, qual é?


      «Mas ela teve suas amizades em outros lugares. Por exemplo, na escola onde trabalhou como professora de educação infantil. E de vez em quando, por lá, surgia alguma pessoa nova (normalmente nova também em idade) que dava uma sacudida na pasmaceira curitibana do grupo e gerava uma passageira noção de integração, de sororidade» («Dolly Parton mudou o mundo da minha mãe», Caetano W. Galindo, Folha de S. Paulo, 27.08.2026, p. A42).  
      Claro que está no dicionário da Porto Editora, mas não estão todas as usadas naquela crónica. Seja como for, não é disso que quero falar, mas sim da definição, naquele dicionário, de curitibano, «relativo a Curitiba, capital do Estado do Paraná, no Brasil». Está perfeito. Agora comparemo-lo com este (mas podia ser com dezenas de outros): sergipano: «relativo ao estado de Sergipe (Brasil)». É uma de várias palavras em que grafar-se com maiúscula ou minúscula nos indica logo o que está em causa. Isto, numa qualquer obra, seja qual for a sua natureza. Num dicionário, contudo, tem outro peso, e seja como for, tem de haver um critério, ou é sempre com minúscula, que não devia ser, ou sempre com maiúscula.

[Texto 23 511]

Como se pontua por aí

Nada bem


      «Os prémios eram públicos; os poemas, secretos. Aceitar o prémio, não seria quebrar o segredo, atraiçoar-me?» (Vislumbres da Índia, Octavio Paz. Tradução de José Colaço Barreiros e revisão de João Carlos Alvim. Lisboa: Relógio D’Água, 2017, p. 35). 
      Uma vírgula ali? Não pode ser. Deixou-se simplesmente levar pelo original: «Aceptar el premio, ¿no era romper el secreto, traicionarme?» Mesmo em castelhano, a pontuação de Paz só é defensável se «Aceptar el premio» for interpretado como tópico exterior à interrogativa, e não como sujeito de «era». Se for sujeito, a vírgula é incorrecta. O tradutor até podia manter a vírgula no mesmíssimo sítio, mas tinha de dar esta, ou semelhante, redacção à frase: «Quanto a aceitar o prémio, não seria quebrar o segredo, atraiçoar-me?» Não o fez, errou.

[Texto 23 504]

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