Como se traduz por aí

Pobres espectadores


      Último episódio da série inglesa Ludwig, na RTP2. Sala de interrogatórios. «I need to remind you», diz o inspector Carter, «you are still under caution, Mrs. Betts-Taylor.» Já ouvimos isto centenas e centenas de vezes. Under caution significa que está a ser interrogada como suspeita, depois de informada de que não é obrigada a responder e de que as suas declarações poderão ser usadas como prova. A fórmula inglesa não tem equivalente nominal directo e transparente em português. O tradutor e legendador da série, Luís M. A. Freitas, achou que resolvia tudo assim: «Relembro-lhe que ainda está sob aviso.» Puro disparate. Teria de se ir além das palavras, da fórmula, para transmitir ao espectador, imerso noutra cultura, o que está em causa. Podia ser assim: «Recordo-lhe que continua a ser interrogada na qualidade de suspeita [e de que tudo o que disser poderá ser usado como prova], senhora Betts-Taylor.»

[Texto 23 376]

Vocabulário, precisa-se

É dos nervos


      «Maria do Rosário Mendes estava em casa, a dormir, quando “por volta da 1h20 da madrugada” sentiu “a casa a abanar”. “Ouviu-se um ronco enorme e tudo a tremer”, conta à Renascença esta professora residente na cidade de Évora. “Estivemos debaixo da ombreira da porta dos quartos durante um bom bocado”, diz a testemunha. Ela, o marido e a filha cumpriram “os procedimentos que a Proteção Civil recomenda”» («Terra tremeu em Évora. “Estivemos debaixo da ombreira da porta dos quartos durante um bom bocado”», Hugo Monteiro, Rádio Renascença, 22.07.2026, 9h45). 
      Para uma professora, não está mal — está péssimo. Que eu saiba, só teremos a ombreira de uma porta por cima de nós se a casa já tiver tombado. Falta de vocabulário, de conhecimento das coisas. As ombreiras, como o nome indicia, ficam de cada lado dos nossos ombros quando passamos por uma porta (ou janela). Por cima fica a verga, ou padieira. Estive a ler o folheto de sensibilização para o risco sísmico da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil (ANEPC) e o que se lê é «vãos de portas interiores». Vá lá, tiveram tempo para pensar bem.

[Texto 23 330]

Como se escreve por aí

Conta-me histórias


      «A regra até já foi invocada após Miguel Almirón, jogador do Paraguai, ter colocado a mão á [sic] frente da boca enquanto falava com um jogador da Turquia no final da semana passada. O árbitro assistente de vídeo (VAR) interviu para apresentar o cartão vermelho» («Fotografia de Bellingham a tapar a boca em jogo do Mundial levanta dúvidas sobre nova regra da FIFA», Nascer do Sol, 26.06.2026, 12h58). 
       Não sabemos é o nome do artista, e por isso jamais poderemos dizer que o romance tal ou o livro de poesia tal é deste plumitivo que hoje, em 2026, não sabe nem quer saber como se conjuga o verbo «intervir». Já tenho apanhado obras assim, mas alguém replica que o autor «sabe contar uma história». É o que parece interessar.

[Texto 23 278]

Grande Manchester, grandes erros, enormes descuidos

Não devia ser assim


      «O primeiro-ministro Keith Starmer demitiu-se e vem aí um ‘D. Sebastião’, sob o nome de Andy Burnam (o ‘rei do Norte’, por ter presidido à Grande Manchester, uma espécie de Grande Porto)» («A crise da esquerda europeia», Carlos Fiolhais, Correio da Manhã, 30.06.2026, p. 2). É verdade que não passa de clichés e banalidades — além de nem sequer ter acertado no nome do protagonista, que é Andy Burnham —, mas soube ver que era Grande Manchester que devia escrever, o que Ana Sá Lopes, jornalista, que também cai noutros erros, não viu: «O seu abandono do lugar de deputado em 2017 para ser mayor de Greater Manchester ajudou à transformação — mal comparado, é um bocado a transformação de André Ventura num militante semi-obscuro [sic] do PSD em líder da direita populista do Chega. Aqui não há um novo partido, mas Burnham quer dar a ideia de que sim» («A importância de um par de pestanas e uma T-shirt preta», Ana Sá Lopes, Público, 29.06.2026, p. 39).

[Texto 23 216]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Diga-se também que Ana Sá Lopes escrever, nesta mesma crónica, três vezes «azul escura» e «semi-obscuro» não é confusão com coisa nenhuma, já que com o Acordo Ortográfico de 1990 nada disto mudou. São erros ou descuidos ou convicções perdoáveis num cidadão que conduz táxis ou que é talhante num supermercado, não num jornalista.


Como se escreve por aí

Faltam dois dias


      «A instituição ultra conservadora da Igreja Católica que ameaça desobedecer ao Papa e causar um cisma já na próxima quarta-feira está a crescer em Portugal e acaba de inaugurar uma nova igreja em Lisboa. No passado dia 10 junho, a Fraternidade Sacerdotal Pio X – é assim que se chama a instituição – abriu as portas de uma nova capela em Marvila, onde todos os dias há missas em latim e se reúnem os seguidores de Marcel Lefebvre, o arcebispo francês que se tornou no símbolo da versão mais tradicionalista da Igreja e que se opõe às reformas do Concílio do Vaticano II» («Igreja Católica. Tradicionalistas abrem cisma», Catarina Guerreiro, Nascer do Sol, 26.06.2026, 7h00). 
      Que maravilha, missas em latim. Agora é que vamos passar a ter católicos fervorosos e cultos. A jornalista também podia passar a frequentá-las, mas entretanto fica já a saber que se escreve «ultraconservador».

[Texto 23 208]

Ortografia: «fluido»

Talento nato

      «Há palavras que dizem mais de quem as profere do que de quem estas visam. Foi o que aconteceu na última terça-feira, na Faculdade de Direito de Lisboa, quando Pedro Passos Coelho, a apresentar A Constituição Fluída, de Blanco de Morais, avisou que o político postiço acaba “como um prostituto sem carácter”» («O caráter que Passos não viu ao espelho», Davide Amado, Diário de Notícias, 1.06.2026, p. 8).
      Eles lá se arranjam sempre para nos trazer um erro ou outro. Felizmente não é jornalista, mas deputado. Claro que o jornal também tem culpa: limpava-lhe o acento de «fluida» e serviam-nos melhor. Para tal, bem sei, tinham de se verificar duas condições: saberem e verem.
[Texto 23 091]
 

Como se traduz por aí

É como se vê


      Na quarta-feira vi, na RTP2, o primeiro episódio da série italiana Um Tempo Após Outro (Un’Estate Fa, 2023), de Davide Marengo e Marta Savina. Como envolve linguagem e conceitos jurídicos, a probabilidade de haver erros na tradução era muito alta. Como de facto. Quando Elio Santamaria está na iminência de levar um murro bem assente, de que será salvo in extremis pela intervenção de um traficante de droga, diz: «Articolo 582, percosse volontarie.» Nas legendas, da responsabilidade de Florinda Lopes (assim como a tradução), aparece isto: «Art. 582.: agressões voluntárias.» Não significa rigorosamente nada para o espectador português, não temos tal figura. É verdade, mas irrelevante para a tradução, que a personagem mistura duas figuras penais próximas do direito italiano. Ao citar o artigo 582.º do Código Penal, refere-se na realidade ao crime de lesões pessoais («lesioni personali»), isto é, à produção de danos físicos ou psíquicos noutra pessoa. Contudo, usa a expressão «percosse volontarie», que remete antes para o crime de «percosse» (artigo 581.º), correspondente grosso modo às vias de facto ou agressões sem lesão relevante. A confusão é plausível numa personagem jovem e sob tensão, sobretudo porque ambas as figuras pertencem ao mesmo campo semântico da agressão física. De volta à tradução, havia duas opções: «Artigo 582.º, ofensas à integridade física dolosas.» Ou, mais verosímil perante a situação de tensão e a condição de caloiro de Direito que a personagem seria, assim: «Artigo 582.º, agressão dolosa.» A tradução correcta exige reconhecer que o italiano está a assinalar o dolo e depois encontrar a categoria equivalente no nosso ordenamento, não apenas o correspondente vocabular.

[Texto 23 021]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Mas encontrei mais erros. Como este, ainda menos desculpável: «O fato, inspetor, é que não me lembro de nada daquele verão», diz Elio Santamaria ao inspector Zancan, à saída da missa. Um dia, só semialfabetizados saberão, sem qualquer espécie de hesitação, que se escreve «facto», porque tradutores, jornalistas e outros que ganham a vida a escrever é o que se vê. Mais uma coisa: escreve-se 581.º, não 581., assim amputado. Para onde mando a factura?


Ortografia: «bruaá»

Nós é que ficamos


      «Paulo Pedroso e Francisco Assis, que são do PS, concordam com Rangel e os seus argumentos são claros. Assis insurgiu-se contra uma “retórica infantil e extremista”, enquanto Paulo Pedroso lembrou que Portugal “sempre deu grande latitude” aos EUA na utilização das Lajes, mesmo no tempo dos vários governos do PS (a diferença está no “bruá” e no “alarido” de cada Administração norte-americana no poder, sublinhou o ex-ministro)» («Rangel e a base das Lajes no meio do “bruá”», Helena Pereira, Público, 19.05.2026, p. 6). 

      E logo no editorial... Helena Pereira, consulte dicionários e vocabulários, não vai ficar mais cansada ao fim do dia. Nós é que ficamos quando lemos estes erros. Em português é bruaá, com dois aa, o que se explica pelo étimo, francês, que é brouhaha.

[Texto 23 020]

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