Como se escreve por aí

Olhos novos e olhos velhos

      Por vezes, o adjectivo pode ir cair no pior lugar da frase, e não será por excesso de ponderação, antes por pouca ou nenhuma: «Meg equilibrou o pó compacto no colo e começou a testar rapidamente os produtos para os olhos novos – gotas e rímel rico em péptidos de uma empresa de cosméticos selvagens – e terminou a pulverizar uma camada de sombra branca no canto de cada olho. Iria ajudá-la a ter um ar mais desperto e os olhos mais abertos» (Crime no Expresso de Natal, Alexandra Benedict. Tradução de Nuno Carvalho e revisão de Maria Ferro. Lisboa: Guerra & Paz, 2023, p. 41). E mesmo o «pó compacto», enfim... Mas já falaremos dele.
[Texto 23 817]

Como se traduz por aí

Era só copiar

      «— Eu também posso ir — disse Craig a Liv. — Embora não seja teu advogado, posso certificar-me de que o interrogatório é justo e livre de preconceitos» (Crime no Expresso de Natal, Alexandra Benedict. Tradução de Nuno Carvalho e revisão de Maria Ferro. Lisboa: Guerra & Paz, 2023, p. 151). 
      No original, «fair and non-prejudicial». Só que prejudicial neste contexto jurídico não tem que ver com prejudice = «preconceito», mas com prejudicar, lesar a posição ou os direitos de alguém, aqui os de Liv. E o português até tem o cognato exacto. Logo: «— Eu também posso ir contigo — disse Craig a Liv. — Embora não seja teu advogado, posso certificar-me de que o interrogatório é justo e não te prejudica.»
      É um caso de manual ao contrário. Normalmente o erro é decalcar o cognato quando ele é falso amigo. Aqui o cognato era verdadeiro: prejudicial tem em português exactamente o sentido jurídico do inglês. Fica para a próxima.
[Texto 23 798]

O AO90 em 2026

Quinze anos depois, isto

      «Os autores colocaram um ponto de interrogação a seguir à designação de auto-retrato, ou seja, têm dúvidas. Eu não. O nariz é mais fino e comprido, a própria estrutura do rosto parece diferente. Mas há outro aspeto ainda mais decisivo: é o único destes retratos em que o retratado não olha para nós» («O retrato fora do baralho», José Cabrita Saraiva, «Versa»/Nascer do Sol, 30.10.2026, p. 46). 
      Eu fiz quase o mesmo: pus um ponto de interrogação a seguir à designação de «auto-retrato». E porquê?, perguntará José Cabrita Saraiva. Porque, ao contrário do autor, eu tenho dúvidas. E ele faz muito mal em não as ter, pois aí estão as consequências: o texto segue a malfadada ortografia do AO90, mas o autor escreveu sete vezes «auto-retrato», quando devia ter escrito «autorretrato». Se quem vive da escrita não está atento a estes aspectos, imagine-se o zé-povinho, que pouco mais lê do que os talões do Multibanco.
[Texto 23 793]

Como se traduz por aí

Até já me perguntam se não é assim

      «— Fiquem todos onde estão — gritou Beefy, sem fôlego, o medo evidente na voz —, enquanto tentamos perceber o que aconteceu!» (Crime no Expresso de Natal, Alexandra Benedict. Tradução de Nuno Carvalho e revisão de Maria Ferro. Lisboa: Guerra & Paz, 2023, p. 117). 
      Agora quase não há tradução em que não veja esta merda isto. As palavras são todas portuguesas, sim, mas a construção é alienígena. E é tão simples, caramba: «— Fiquem todos onde estão — gritou Beefy, ofegante, com o medo bem patente na voz —, enquanto tentamos perceber o que aconteceu.»
[Texto 23 787]

Como se traduz por aí

Um beijo perdido

      Nem sempre os erros que encontramos nas traduções são da responsabilidade do revisor, evidentemente. Quantas e quantas vezes o revisor assinala um erro, propõe a correcção e o tradutor, convencidíssimo de que tem razão, ignora a observação? Quem acaba por pagar é, naturalmente, o leitor. Vem isto a propósito de um curioso artigo publicado no Irish Daily Mail de 22 de Outubro, em que se explica a origem do uso da letra x para representar um beijo no final de cartas, bilhetes e mensagens. Trata-se de uma tradição antiga, que remonta, pelo menos, à Idade Média. Numa época em que muitas pessoas não sabiam escrever, era frequente assinarem os documentos com uma cruz ou um x, símbolo que tinha também uma conotação religiosa, por estar associado à cruz de Cristo. Segundo uma das explicações mais difundidas, quem assim assinava beijava depois a marca, como sinal de sinceridade e boa-fé. Com o tempo, o x passou a representar o próprio beijo e, mais tarde, a ser usado como manifestação de afecto. No século XIX, já se encontram exemplos deste uso em correspondência privada. O artigo referia, nomeadamente, o romance Seaforth, de Florence Montgomery, publicado em 1878, no qual aparecem cartas terminadas com várias cruzes, correspondentes a beijos. No final desse século, a convenção estava suficientemente difundida para que até Winston Churchill terminasse algumas cartas com xxx. 
      Ora, há poucos meses, ao rever a tradução de um romance, deparei-me com um x no final de uma carta. O contexto não deixava a menor dúvida: era um beijo. O tradutor, porém, resolvera substituí-lo por um asterisco, algo assim de sentido burocrático-académico. Assinalei o erro e expliquei que devia manter-se o x do original, precisamente por ter aquele significado. De nada serviu. O tradutor não deu o braço a torcer, e lá ficou o asterisco, que não representa beijo nenhum. Um beijo transformado num sinal tipográfico sem sentido no contexto. E o leitor, como tantas vezes acontece, sem sequer suspeitar do que perdeu.
[Texto 23 779]

Como se traduz por aí

Não estou a ver o rio

      «Roz e Craig mantiveram as cabeças baixas enquanto vadearam pela neve sempre junto à parte lateral do comboio» (Crime no Expresso de Natal, Alexandra Benedict. Tradução de Nuno Carvalho e revisão de Maria Ferro. Lisboa: Guerra & Paz, 2023, p. 176). 
      Wade não implica necessariamente água: significa avançar com dificuldade através de qualquer matéria que ofereça resistência, e wade through the snow é simplesmente avançar/caminhar penosamente pela neve, sobretudo sendo funda. É tão simplesmente assim: «Roz e Craig avançaram de cabeça baixa pela neve, mantendo-se junto à lateral do comboio.»
[Texto 23 777]

Como se traduz por aí

Há sempre pior

      «Roz tinha entrevistado pessoas suficientes para saber que isso significava muitas vezes que estava prestes a ser contada uma verdade, ou uma meia-verdade» (Crime no Expresso de Natal, Alexandra Benedict. Tradução de Nuno Carvalho e revisão de Maria Ferro. Lisboa: Guerra & Paz, 2023, p. 172). É erro que se repete. Não, o «had interviewed» do original não tem nada que ver com entrevistar, mas com interrogar. Roz é polícia, não uma jornalista metediça de microfone em punho. E nem sequer estamos perante uma subtileza semântica que exija grandes investigações: basta abrir um dicionário de inglês. Qualquer um. Podia ser pior? Podia, mas também se encontra nesta tradução: «— A única coisa que o posso aconselhar a fazer é selar o compartimento para que as provas não sejam adulteradas e colocar o Grant noutro compartimento se for possível. Não é provável que vá fugir. O mais certo seria apanhar uma hipotermia se o fizesse, mas temos de nos assegurar de que ele fica aqui, pronto para ser questionado quando a polícia chegar» (idem, ibidem, p. 131).
[Texto 23 771]

Como se escreve por aí

Problemas com os topónimos?

      «Contudo, alegrei-me: daria uma vista de olhos ao Cairo, ao seu museu e às pirâmides, atravessaria o Mar Vermelho e visitaria Adem antes de chegar a Bombaim» (Vislumbres da Índia, Octavio Paz. Tradução de José Colaço Barreiros e revisão de João Carlos Alvim. Lisboa: Relógio D’Água, 2017, p. 12). «A travessia foi agradável embora a monotonia da paisagem ao atravessar o mar Vermelho por vezes oprimisse o espírito: à direita e à esquerda estendem-se umas terras áridas e só levemente onduladas» (idem, ibidem, pp. 12-13).

[Texto 23 764]

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