Léxico: «pensionamento»

Pela primeira vez

      Acabei de a ver num texto de natureza económica, de autor português. Pensionamento. Os dicionários gerais da língua portuguesa desconhecem-na. Mas existe pensionado, pensionar, pensionário, pensioneiro, pensionista. Encontro-a nos dicionários de italiano: «Il mettere o il mettersi in pensione, collocamento in pensione di un lavoratore che ha cessato la propria attività» (in Enciclopédia Treccani). Não dirá a nossa palavra «aposentação» rigorosamente o mesmo?
[Texto 2385]
Etiquetas
edit

Acordo Ortográfico

O desastre está aí

      O número de falantes que adoptaram o novo Acordo Ortográfico e que escrevem «contato» revela-se, a cada dia que passa, assustador. E estou a falar de licenciados para cima. Professores universitários, investigadores... Convenhamos que ainda não foi ultrapassado o pior desconchavo nesta matéria: o daquela professora de Português que introduzira paulatinamente, mesmo antes de frequentar uma «ação de formação» específica, as novas regras nos textos que dava aos alunos, «adatando-os». Assim mesmo, sem p nem pés nem bom senso.
[Texto 2384]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «cremona»

Também do francês

      «Quando acordou[,] viu que Raul, de tronco nu, fazia a barba olhando-se no espelho pequeno que tinha por hábito pendurar na cremona da janela mais pequena» (Nunca É de mais, Maria Roma. Lisboa: Bertrand Editora, 2003, p. 214). Conheci-a ontem. Na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «ferrolho duplo, comprido, da altura da porta ou da janela, que fecha simultaneamente em cima e em baixo». Também se diz carmona.
[Texto 2383]
Etiquetas
edit

Sobre «impasse»

Se são meramente descritivos

      «Encontro», escreve a autora sobre Lisboa, «ruas que vão dar a impasses e escadas que acabam de repente.» Sempre achei muito curioso este galicismo. Impasse é o mesmo que beco sem saída. O termo, que talvez tenha sido introduzido na língua na década de 1940, já está nos dicionários, mas há imprecisões que é necessário corrigir. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, estão registadas duas acepções — e nenhuma é esta. No Dicionário Priberam da Língua Portuguesa aparece como terceira acepção, mas com esta particularidade: «[Portugal: Madeira] Rua sem saída». Ai sim? Experimentem pesquisar no sítio Lisboa Interactiva e verão quantos impasses por ali estão. Se acolheram o galicismo, têm de registar todas as acepções usadas na nossa língua, que são precisamente as do étimo, como se pode comprovar no Le Trésor de la Langue Française Informatisé: «Rue sans issue. Synon. cul-de-sac» e «position ou situation qui ne présente pas d’issue favorable».
[Texto 2382]
Etiquetas ,
edit

Dia da Espiga

Pois então

      Na obra Festividades Cíclicas em Portugal, de Ernesto Veiga de Oliveira (Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1984, p. 113), é Dia da Espiga, com maiúsculas iniciais, que se pode ler. Por analogia com outras datas, também sou de opinião que se deve grafar desta forma.
[Texto 2381]
Etiquetas
edit

Léxico: «feijão-mungo»

Nutritivos

      Hoje comprei rebentos de feijão mungo no supermercado, para fazer com ravióis. É o que se lia na embalagem, e eu pensei logo que havia de ser designação mal traduzida do inglês: mung beans sprouts... Engano o meu: está na honestíssima Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (vol. 11, p. 28): feijão-mungo, nome vulgar do Phaseolus mungo Lin., também conhecido como feijão-do-congo. Não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 2380]
Etiquetas ,
edit

«Catarense»/«catariano»

Seria melhor

      «Há ainda outros dois trunfos que reforçam a esperança do xeque do Qatar. Uma delas é a amizade entre Mourinho e o presidente do Paris Saint-Germain, o também catari Nasser Al-Khelaifi, que numa entrevista recente ao jornal espanhol Marca desfez-se em elogios a Mourinho. “É muito inteligente e está a fazer um grande trabalho em Madrid”, disse» («PSG seduz José Mourinho com oferta estratosférica», Carlos Nogueira e Madalena Esteves, Diário de Notícias, 29.11.2012, p. 37).
      Está longe de ser português, como salta à vista. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista catariano, que remete para catarense.
[Texto 2379]

 

Etiquetas ,
edit

Como se escreve nos jornais

Está na hora de mudar de jornal

      «A ausência do Presidente da Rússia, Vladimir Putin, durante as últimas semanas na comunicação social causou estranheza e especulação entre a população, com o chefe de Estado a vir ontem explicar-se: Putin, 60 anos feitos em maio e cinturão negro em judo, garantiu ter-se magoado num combate, tendo lesionado-se na coluna, o que lhe tem provocado dores nas costas» («Putin lesiona coluna no judo», Diário de Notícias, 29.11.2012, p. 26).
[Texto 2378]
Etiquetas ,
edit

Aspas escusadas

Pecha muito vista

      «Tanto ela [Ana Saltão] como o marido tinham ido ao funeral da octogenária assassinada, cerimónias que decorreram este sábado. Mas, apesar de estar habituada e ter conhecimentos técnicos sobre como ‘ler’ cenários de crime, a inspetora terá cometido alguns deslizes, cruciais para o sucesso desta investigação. A arguida, de 36 anos, natural da Figueira da Foz, estava de baixa médica devido a uma intervenção cirúrgica» («Inspetora da PJ recusa explicar porque matou», Paula Carmo, Diário de Notícias, 29.11.2012, p. 19).
       Não interessa se é um sentido principal ou um sentido figurado — não precisa das aspas.

[Texto 2377]
Etiquetas
edit

Ortografia: «inclusive»

Para a próxima

      «Ao longo dos meses, a investigação conseguiu também reunir muitas outros tipo de prova, nomeadamente através da vigilância realizada tanto na Sé como junto às habitações. O agente em causa foi inclusivé visto a sair da casa de Aurélio, pertencente ao grupo de detidos e que está em prisão domiciliária à espera de ser julgado por tráfico de droga. Terá avisado os restante detidos de rusgas agendadas e terá inclusivé reunido com os advogados dos indivíduos. Nos autos constam ainda escutas telefónicas onde [sic] o polícia participa» («Chefe da PSP que avisava traficantes fica em preventiva», A. T., Diário de Notícias, 29.11.2012, p. 19).
      Pode ler-se assim, pode, mas não se escreve dessa forma, pois trata-se de uma palavra grave.
[Texto 2376]
Etiquetas ,
edit

Como se escreve nos jornais

Não é para aqui

       «Depois de várias negas, Ana Filipa [Miranda] apresenta-nos o primeiro classificado. Certamente um dos poucos que não terá sofrido ataques de ansiedade» («Cardiologia e neurocirurgia no topo das escolhas de novos médicos», Diana Mendes, Diário de Notícias, 29.11.2012, p. 17).
      «Negas»... Tanto informalismo ficava melhor numa conversa à esquina, entre amigos, a jornalista deve saber isso.
[Texto 2375]
Etiquetas ,
edit

Como se escreve nos jornais

Não era necessário

      «Já o juiz presidente tentou, sem sucesso, que Anabela Moreira fizesse um esforço de memória ao listar algumas das célebres prendas enviadas por Manuel Godinho por alturas do Natal apreendidas pela PJ na residência de José Penedos» («MP passou rasteira a ex-secretária de José Penedos», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 29.11.2012, p. 12).
      Listar é, mais propriamente, pôr em lista, inscrever, alistar; catalogar. Creio que nenhuma se adequa ao contexto. Não seria melhor «enumerar» ou «mencionar»? E, se escrevem «juiz-conselheiro», não deviam escrever «juiz-presidente»?
[Texto 2374]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «grife»

Como tantas outras

      «Miranda Kerr pode deixar de ser um dos ‘anjos’ da Victoria’s Secret. A notícia caiu como uma bomba uma vez que a australiana é uma das manequins preferidas da marca, mas a justificação é simples: foi noticiado que a conhecida grife de lingerie usava produtos tóxicos na sua confeção, segundo o The Daily Telegraph» («Miranda Kerr quer deixar de ser ‘anjo’», Ana Lúcia Sousa, Diário de Notícias, 28.11.2012, p. 53).
      Parece que já é portuguesa... No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o verbete remete para «griffe». A acepção é a primeira: «empresa produtora e/ou distribuidora de artigos de vestuário e acessórios de luxo».
[Texto 2373]
Etiquetas ,
edit

Sobre «operacional»

Então está errado

      «Em junho de 2011, Nuno Pereira, inspetor-chefe da Polícia Judiciária (PJ) na reforma, matou a empregada que fazia a limpeza em sua casa com um tiro na cabeça, alegadamente por motivos passionais. O crime ocorreu no escritório da sua casa e pensa-se que foi motivado pela recusa da vítima, uma ucraniana de 45 anos, em iniciar um relação amorosa com o ex-operacional» («Homicídio passional», Diário de Notícias, 28.11.2012, p. 18).
      Mas «operacional» não se aplica apenas a militares? É o que se pode comprovar nos dicionários. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só está registado como adjectivo. Se, em vez da Polícia Judiciária, se tratasse da GNR, que é uma força de segurança de natureza militar, talvez se adequasse.

[Texto 2372]
Etiquetas ,
edit

Pronúncia de «cônjuge»

Impressionante!

      E no mesmo Jornal das 8 da TVI, a jornalista Judite de Sousa contribuiu activamente para divulgar entre as massas uma calinada das grandes: «Uma marcha que acontece no dia em que as Mulheres Socialistas apelaram à mudança da lei que permite ao assassino de um cônjugue ser herdeiro da vítima e ter direito a pensão de sobrevivência.» Tão experiente, e sai-nos com uma destas. Saiba a jornalista que essa palavra não existe. Existe «cônjuge», que só tem uma forma de ser pronunciada: /côn–ju–je/. Um conselho: consulte o Prontuário Sonoro da RTP.
      Aproveitemos também para lembrar que «cônjuge» é um substantivo sobrecomum, isto é, tem um género determinado e invariável, masculino, neste caso, para designar as pessoas de um ou outro sexo: seja homem ou mulher, diz-se sempre «o cônjuge».
[Texto 2371]
Etiquetas ,
edit

«Terá abrido fogo»

Mas estava assustado

      Tiroteio em São Miguel d’Acha. Anteontem, no Jornal das 8 da TVI, o alferes da GNR Tiago Delgado, ainda com ar assustado, afirmou: «Um dos indivíduos que tinha fugido terá regressado numa moto. Os militares, ao avistarem a moto, estranharam porque o indivíduo até estaria sem capacete. Ao tentarem abordá-lo, o indivíduo imediatamente sacou de uma caçadeira e terá abrido fogo sobre os militares.» É o particípio passado regular do verbo «abrir» — mas caiu em desuso. O alferes Delgado, com vinte e tal anos, devia saber isto.
[Texto 2370]
Etiquetas ,
edit

Conjunção subordinativa causal

Pois

      «A conjunção pois não tem sido classificada como conjunção [subordinativa] causal», escreveu o consultor do Ciberdúvidas numa consulta datada de 6 de Março deste ano. Tem a certeza? Veja lá, é que eu tenho a certeza do contrário — e provo-o já: Celso Cunha e Lindley Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo. Lisboa: Edições Sá da Costa, 1984, pp. 381-82) integram-na entre as conjunções subordinativas causais, o que abonam com uma frase de Érico Veríssimo de Um Lugar ao Sol: «Tio Couto estava sombrio, pois aparecera um investigador da polícia perguntando por Gervásio.» Lá está a iniciar oração subordinada denotadora de causa.
[Texto 2369]
Etiquetas ,
edit

Ortografia: «alto-mar»

Como neste caso

      «A EDP, que tem a única eólica de alto mar em operação em Portugal, quer instalar mais cinco novas torres de produção de energia, desta vez no mar perto da Nazaré. “Com grande probabilidade será desenvolvido na zona-piloto [de energia das ondas] em São Pedro de Moel”, referiu ao DN/Dinheiro Vivo fonte da empresa» («EDP quer cinco eólicas de alto mar perto da Nazaré», Ana Baptista, Diário de Notícias, 26.11.2012, p. 30).
[Texto 2368]
Etiquetas ,
edit

Ortografia: «borboleta-do-mar»

Espécime dos pterópodes

      «O animal em causa, Limacina helicina antarctica, é uma espécie de caracol marinho, conhecido popularmente como borboleta dos mares. Num artigo publicado na revista Nature Geoscience, uma equipa de investigadores da British Antartic Survey, coordenada por Nina Bednarsek, confirmou que esta espécie já revela enfraquecimento ou mesmo dissolução de duas estruturas laterais duras, que caracterizam esta espécie» («Borboleta dos mares afetada por maior acidez do oceano austral», Diário de Notícias, 26.11.2012, p. 30).
      E os hífenes? E não apenas isso: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora grafa-o assim: borboleta-do-mar.
      (O apelido da investigadora na verdade é Bednaršek, mas isso talvez não tenha qualquer importância.)

[Texto 2367]
Etiquetas ,
edit

Ortografia: «micrometeorito»

Da pressa não é, porque demora mais

      «Na mira destes caçadores de meteoritos estão, não apenas os de dimensão média de uma pequena pedra, mas também os chamados micro-meteoritos, com tamanhos inferiores a dois milímetros, que são os mais abundantes de todos» («Caçadores de meteoritos a caminho da Antártida», Filomena Naves, Diário de Notícias, 26.11.2012, p. 30).
      Quando é necessário hífen, como já vimos inúmeras vezes, não o usam. Vá lá a gente percebê-los.

[Texto 2366]
Etiquetas ,
edit

Ortografia: «Celsius»

Inexplicável

      «Esta não é a primeira vez que equipas conjuntas de investigadores belgas e japoneses trabalham em colaboração nesta busca, que exige olhos treinados e capacidade de resistência ao frio intenso que nesta altura ronda ali os 20 graus Célsius negativos» («Caçadores de meteoritos a caminho da Antártida», Filomena Naves, Diário de Notícias, 26.11.2012, p. 30).
      O acento em Celsius é para quê, podemos saber?
[Texto 2365]
Etiquetas ,
edit

«Encapuzado»

Vivem noutro mundo

      «Cerca de 80 objetos, alguns com mais de três mil anos, foram roubados do museu em fevereiro por dois homens armados e encapuçados. A polícia grega já tinha detido um dos suspeitos, que acabou por revelar a identidade dos cúmplices» («Grécia recupera obras roubadas», Diário de Notícias, 26.11.2012, p. 49).
      E acaso não estamos nós fartos de saber que é «encapuzado», ou seja, «coberto com um capuz», que se diz? Nós, sim, mas não os jornalistas.
[Texto 2364]
Etiquetas ,
edit

«Folhar»: outra acepção

Acrescente-se

      «Ao contrário da maioria das massas, a massa folhada não se pode amassar e voltar a estender “porque perde a capacidade de folhar” [diz o chefe Daniel Estriga]» («O segredo da massa folhada», Adriana Freire, Notícias Magazine, n.º 1070, p. 84).
      De ficar folhado, ou seja, semelhante a folha? É acepção deste verbo intransitivo que não consta do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 2363]
Etiquetas ,
edit

«Decoração de interiores»

É mesmo

      «Foi no dia 22 de novembro que a INAIN, marca do design de interiores, assinalou o seu 20.º aniversário. A empresa de Mário Azevedo e Paula Ferreira Alves foi fundada em 1992 e, desde aí, tem sobressaído no mercado ao executar projetos de interiorismo que se adaptam a diferentes situações» («INAIN celebra 20 anos», Notícias Magazine, n.º 1070, p. 18).
      Pois é, mas em português diz-se decoração de interiores. Interiorismo é espanhol, «arte de acondicionar y decorar los espacios interiores de la arquitectura».
[Texto 2362]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «papável»

Não percebo

      «Luis Antonio Tagle. Filipino, 55 anos, arcebispo de Manila, é um dos mais novos cardeais, apontado como papabile, pelo dinamismo da Igreja na Ásia» («Quem é quem», Diário de Notícias, 25.11.2012, p. 26).
      Se temos o adjectivo papável — que pode ser eleito papa —, para quê usar um termo estrangeiro, italiano no caso? E porque dirá o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora que é um termo coloquial?
[Texto 2361]
Etiquetas ,
edit

«Tratar-se de»

E eles agradecem?

      «No quinto consistório do seu pontificado, Bento XVI nomeou ontem seis novos cardeais, com a particularidade de se tratarem, todos, de personalidades de fora da Europa: Américas (norte-americano e colombiano), Ásia (indiano e filipino), Médio Oriente (libanês) e África (nigeriano)» («Bento XVI nomeia seis cardeais de fora da Europa», Albano Matos, Diário de Notícias, 25.11.2012, p. 26).
      A construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular. É, a todos os títulos, lamentável que um jornalista não o saiba.
[Texto 2360]
Etiquetas ,
edit

Aspas escusadas

Quando é que isto acaba?

      «Os portugueses estão a abandonar o hábito de tomar a ‘bica’. Desde o início do ano, as vendas de café nos hotéis, restaurantes e cafés caíram 4%. São menos seis milhões de euros, qualquer coisa como 10 milhões de ‘bicas’. A crise, a quebra nos rendimentos das famílias, o aumento IVA e a forte concorrências das pastilhas e cápsulas, a preços bem mais baixos, explica a recessão do mercado, diz a Associação Industrial e Comercial do Café (AICC)» («Crise obrigou a consumir menos 10 milhões de bicas», Paula Brito e Virgínia Alves, Diário de Notícias, 25.11.2012, p. 29).
      E por aí fora, sempre com aspas, excepto no título. É para não ofender, porque se trata de regionalismo...
[Texto 2359]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «ínsula»

Anatomia

      «Outra conclusão [de um estudo da Universidade de Granada] é a de que quando mentimos sobre os nossos sentimentos, as mudanças ocorrem no nariz. Quando tal sucede, se há sentimentos reais envolvidos, é ativada uma área no cérebro, a ínsula, que se encontra ligada ao seu sistema de recompensa» («O nariz aquece quando mentimos», Helder Robalo, Diário de Notícias, 24.11.2012, p. 26).
      Mais uma que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista. Na definição do Houaiss, é a «região oval do córtex cerebral que compõe o sulco lateral do cérebro».
[Texto 2358]
Etiquetas ,
edit

«Protocaso» e «protopimba»

Curioso...

       «Do que é que estamos a falar quando discutimos a cedência de imagens da RTP à PSP? Se estivermos a falar apenas de imagens editadas/transmitidas, como a polícia ontem afirmou, então este protocaso não passa de um enorme absurdo» («Imagens exageradas», Filomena Martins, Diário de Notícias, 24.11.2012, p. 8).
      «E, para concorrer com os DJ sets, Portugal passara a levar música pimba (ou protopimba, o que no fundo ia dar ao mesmo)» («Não faz falta nenhuma», Joel Neto, Diário de Notícias, 24.11.2012, p. 45).

[Texto 2357]
Etiquetas ,
edit

Parece uma brincadeira

Com muita pedagogia

      Já fiz, mais do que uma vez, sugestões para o Prontuário Sonoro, do portal da RTP. Não sei, nem isso agora interessa, se as aceitaram ou não. Convém que aceitem esta: corrijam «uxorcida», que não existe. Se o radical é uxori, que fizeram do i? É uxoricida. A transcrição também está mal, mas é coerente com o primeiro erro: /ukssurssida/. E, por fim, alguém pronuncia a palavra que não existe. Não estiveram envolvidas menos de quatro pessoas — e tudo para tamanho erro. E estão a ensinar os colegas...

[Texto 2356]
Etiquetas
edit

Como se escreve nos jornais

De borracha fina e flexível

      Hoje, o Diário de Notícias intitulava assim um artigo: «Associações com poucos preservativos para doentes». Percebe-se perfeitamente. Todos sabemos como estes invólucros de borracha fina e flexível estão sujeitos a ruptura, não é assim? Por isso, o Público, para falar do mesmo, titulou assim: «Preservativos gratuitos próximos da ruptura». Nada como pôr o leitor a pensar...
[Texto 2355]
Etiquetas
edit

«Grama» é masculino

Péssimo exemplo, isso sim

      «E todos sabem que o silêncio do Presidente da República é de ouro. Hoje, a cotação do ouro foi 1730 dólares por onça. Uma onça são trinta e uma gramas, mais 1,7 % do que a cotação do ouro naquele dia de Setembro em que a generalidade dos Portugueses ficou a saber do significado da conjugação de três letras do alfabeto português: tê, esse, u [TSU]», afirmou Aníbal Cavaco Silva ontem à noite, na cerimónia de entrega dos Prémios Gazeta, atribuídos pelo Clube de Jornalistas (CJ). Quis imitar Barack Obama em acontecimentos semelhantes. Ficou muito, muito longe — e na gramática é o que se vê.
[Texto 2354]
Etiquetas ,
edit

«Mandado/mandato»

Trapalhada

      «Trata-se de um tema noticioso em curso. A menos que um tribunal emita um mandato, o diretor de Informação do órgão em causa tem de autorizar (pelo menos isso) a cópia dessas imagens» («Um imbróglio tipo RTP», Joel Neto, Diário de Notícias, 23.11.2012, p. 52).
      Lamentável confusão entre mandato e mandado, de que já tratei vezes sem conta. Como é que alguém que escreve todos os dias para a imprensa cai numa destas? Pois é.
[Texto 2353]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «holárctico»

Outras duas falhas

      «“Este animal é uma relíquia que não tem parentes próximos em todo a região holártica (hemisfério norte) e é uma evidência de que já houve outro tipo de fauna nesta zona que foi mudando com as alterações climáticas”, explicou a bióloga [Ana Sofia Reboleira] à agência Lusa» («Animal “raríssimo” descoberto», Diário de Notícias, 21.11.2012, p. 22).
      Não está em todos os dicionários. Não está, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. No Houaiss: «relativo à região zoogeográfica que compreende as regiões paleártica e neártica». E, contudo, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «paleárctico». Mas também não regista «neárctico».
[Texto 2352]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «degradê»

Qual delas?

      «Um baixo-relevo em degradê que permite que, independentemente da posição do Sol, o painel seja sempre visível a quem passa no Terreiro do Paço e a existência de 14 buracos de balas foram algumas das surpresas encontradas, desde agosto, pela equipa responsável pela restauração da estátua de D. José I, situada naquela praça lisboeta. Os trabalhos, orçados em 490 mil euros, resultam de uma parceria entre o Estado, a Câmara Municipal e a World Monuments Fund Portugal [WMFP] e a previsão é de que terminem em agosto. A iniciativa, explicou o presidente da autarquia, que ontem visitou a obra, insere-se no projeto de requalificação da praça» («490 mil euros para restaurar estátua», I. B., Diário de Notícias, 22.11.2012, p. 21).
      Em vez do termo aportuguesado, o mais correcto seria um termo equivalente português, mas qual? «Esbatimento»? «Gradação»?
[Texto 2351]
Etiquetas
edit

«Elaborou sobre o conceito»

Então não estamos

      Não estamos perante um anglicismo semântico? «No artigo da revista, Jorge Silva Carvalho elaborou sobre o conceito de “Conhecimento Empresarial”, o qual, segundo o antigo diretor das secretas, “consiste no produto resultante da recolha, processamento, integração, análise e interpretação de toda a informação, legal e eticamente disponível, sobre o negócio ou negócios de uma empresa”» («Ex-chefe do SIED rompe silêncio e dá conselhos a empresários», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 21.11.2012, p. 10).

[Texto 2350]
Etiquetas
edit

Léxico: «stalking»

Sem o inglês, não há crime

      O tribunal considerou que a conduta do arguido pode conformar uma situação de stalking, crime em que o sujeito invade repetidamente a esfera de privacidade da vítima, empregando táticas de perseguição e diversos meios» («Multa de 4000 euros por ‘massacrar’ por sms [sic]», Diário de Notícias, 19.11.2012, p. 19).
[Texto 2349]
Etiquetas ,
edit

PIDE, pide, Formiga Branca, formiga branca

Ou não?

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista Formiga Branca — «sociedade secreta de revolucionários civis que surgiu em Portugal pouco depois de proclamada a república». Era uma milícia, criada pelo governador civil de Lisboa Daniel José Rodrigues, constituída por antigos carbonários, ao serviço do Partido Democrático. Assim, ainda é mais estranho que este dicionário, e não é a primeira vez que o afirmo, não acolha os termos PIDE e pide. E, na mesma lógica, o nome comum formiga branca.
      «Entretanto, a minha tia tem vindo ver-me e também ela, apesar da presença de um pide a seu lado, conseguiu aludir ao clamor da solidariedade comigo no estrangeiro» (Assim Se Esvai a Vida, Urbano Tavares Rodrigues. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 40).
      «— Foste um valente. Atiravas-te a eles com uma gana... Os formigas-brancas sempre apanharam um arrepio! Ouve lá!» (Os Reinegros, Alves Redol. Lisboa: Publicações Europa-América, 1986, p. 283).

[Texto 2348]
Etiquetas ,
edit

Sobre «regalismo»

Uma pergunta

      Na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, regalismo é o «sistema político dos que defendem os direitos do Estado nas suas relações com a Igreja». A definição não é pouco precisa? Não será antes o sistema dos que defendem a supremacia do poder civil sobre o poder eclesiástico?

[Texto 2347]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «marginália»

Bagatelas

      Pode impressionar mais em latim, pois claro, mas a verdade é que a palavra está aportuguesada — marginália, «conjunto de anotações na margem de um livro, caderno, manuscrito, etc.» (na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora).
[Texto 2346]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «pertússis»

Seria mais uma

      Ultimamente, não se ouve nem lê com muita frequência a palavra «coqueluche». Para evitar o galicismo, temos tosse convulsa — que é apenas um dos sintomas desta doença infantil infecto-contagiosa provocada pelo bacilo Bordetella pertussis. Em português, é também chamada pertússis, coisa que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ignora, mas não o Houaiss. Em castelhano, é conhecida por tos ferina. Parece que a palavra francesa se formou do latim cuculuccia, por sua vez derivado de cucullus, «capuz». Antigamente, em França, os doentes de tosse convulsa eram obrigados a cobrir a cabeça com um capuz.
[Texto 2345]
Etiquetas
edit

A propósito de «talvez»

Se calhar

      E a propósito. Ontem perguntaram-me a que classe gramatical pertence a palavra «talvez». «É um advérbio», respondi prontamente. Grande espanto: «Advérbio?! De quê?» «É um advérbio de dúvida.» Novo espanto. Pertence, suspeito, à geração que, na faculdade, andou vários anos a aprender as teorias de Chomsky. No início, «talvez» era advérbio de tempo, equivalente a «certa vez». «Tal vez se viu uma criança ainda viva puxar pela teta da mãe já morta» (Nova Floresta, Manuel Bernardes, com actualização ortográfica minha). Se antes indicava uma incerteza de tempo, como escreve Said Ali, passou depois a indicar uma incerteza de facto.
[Texto 2344]
Etiquetas
edit

Palavras substantivadas

Podem saber, mas esquecem-se

      «Quando substantivada, uma palavra pertencente a qualquer classe flexiona-se normalmente: “Sem senões nem talvezes” — “Ouvimos os prós e os contras” — “Sins e nãos foram ouvidos a um só tempo” — “Os setes e os noves do baralho estão marcados” — “Ais lancinantes se ouviam”» (Gramática Metódica da Língua Portuguesa, Napoleão Mendes de Almeida. São Paulo: Edição Saraiva, 1973, 24.ª ed., p. 104).
[Texto 2343]
Etiquetas
edit

«Wind shear»

Foi só esperar

      Em Dezembro do ano passado, escrevi aqui a propósito da expressão «cisalhamento do vento»: «Eu não conhecia a expressão, de cariz técnico. Só me espanta uma coisa: que se não tenha copiado a expressão inglesa: wind shear.» Foi só esperar. Meteorologista Maria João Frada, em declarações na sexta-feira: «O wind shear é a variação do vento com a altitude em direcção e/ou intensidade.» Ainda mais estranho: «É assim: a análise [que] tinha sido feita logo pela manhã levou a que nós não ficássemos estranhos com o facto de isto acontecer, porque nós sabíamos que havia condições para que se formasse este tipo de fenómenos.»
[Texto 2342]
Etiquetas
edit

Léxico: «sazonalidade»

Ora esta

      «O presidente da Câmara [Municipal do Fundão] serrana garante que a comercialização de cogumelos silvestres, apesar da sua sazonalidade, vale cerca de 15 milhões de euros. Mas “a forma desorganizada como se apanha os cogumelos faz que os coletores os vendam a 5 ou 6 euros e depois eles são vendidos em Lisboa a 30 euros”. Daí a importância do centro de recolha» («15 mil visitaram feira de míscaros», Helder Robalo, Diário de Notícias, 19.11.2012, p. 25).
      Pois acreditem: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o vocábulo «sazonalidade».
[Texto 2341]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «passa-palavra»

Também importada?

      «Quando o último volume apareceu, em janeiro de 2012, já se falava nos EUA da novela como um sucesso de vendas através do passa-palavra dos leitores – na verdade, de leitoras, já que o seu público foi desde o início sobretudo constituído por mulheres acima dos 30, o que levou os críticos a cunhar o termo mother-porn (porno para mamãs)» («Sessenta milhões de bêdêésseémicos?», Diário de Notícias, 18.11.2012, p. 30).
      Estranho não a ver nos dicionários — e não há-de ser, suponho, por vir do francês passe-parole.

[Texto 2340]
Etiquetas ,
edit

É mais fino

Consommé de poulet

      «Mas o mais estranho ficou guardado para o almoço. Além do papão de ovos para a sobremesa, de que a pesquisa pantagruélica da Vespa não encontrou qualquer resultado, Angela teve direito a um consommé de aves, que as nossas avós chamavam simplesmente de canja – mas sem massa. Logo todos se recordaram que o humorista Ricardo Araújo Pereira propusera como slogan para as manifestações “Gaspar, tudo se arranja, vê lá se a gorda quer uma canja”. Terá sido Vítor Gaspar o chef da cozinha do Forte?!» («“Caro Pedro”, obrigada pela canja mas quase não vi nada», Vespa, Diário de Notícias, 18.11.2012, p. 14).
[Texto 2339]
Etiquetas
edit

Léxico: «incubadora»

Importada

      Também não vejo nos dicionários a acepção de «incubadora» usada mais atrás: «Sem precisar de financiamento extra, a Câmara Municipal de Lisboa prepara-se para abrir mais duas incubadoras de empresas e um laboratório de prototipagem» («Costa abre duas novas incubadoras em Lisboa», Ana Rita Guerra, Diário de Notícias, 17.11.2012, p. 19). Vem, pois claro, do inglês: «an organization or place that aids the development of new business ventures especially by providing low-cost commercial space, management assistance, or shared services» (in Merriam-Webster).
[Texto 2338]
Etiquetas ,
edit

Sobre «capela»

Mais ou menos

      «Consta dos autos da canonização de Martinho, originário da que hoje é a Hungria, que nessa noite lhe apareceu o próprio Cristo dizendo-lhe que o pobre a quem ele tinha dado metade da sua capa era ele. Convertido, abandonou a carreira militar, passando a dedicar-se a obras de misericórdia. A meia capa, ou capela, pendurou-a para sempre numa pequena casa, daí resultando uma inovação arquitetónica: a capela» («Vai-se à adega... e inova-se um bocadinho!», Fernando Melo, Notícias Magazine, 11.11.2012, p. 68).
      É mais ou menos assim. A metade da capa ficou, por assim dizer, uma pequena capa — capella, que é um diminutivo, em latim. «A pouco e pouco», lê-se no Dicionário da Origem das Palavras, de Orlando Neves, «capella, do latim medieval, vem a significar, por confusão do continente com o conteúdo, o mesmo que ermida, igreja pequena, templozinho.»
[Texto 2337]
Etiquetas
edit

Como se escreve nos jornais

Anónimos e reformados

      «Este domingo é dia de São Martinho. Hoje comemora-se o patrono dos alfaiates, dos cavaleiros, dos pedintes, dos restauradores (hotéis e pensões), dos produtores de vinho e dos alcoólicos reformados, dos soldados, dos cavalos, dos gansos. Em muitos lugares e localidades, de Portugal à Argentina» («Aí vem o São Martinho», Cláudia Carvalho e Susana Ribeiro, Notícias Magazine, 11.11.2012, p. 8).
      Eu também, confesso, gostava de ter sido restaurador,­ mas de móveis. Para restaurar estômagos, teria escolhido Medicina. E os «alcoólicos reformados»? Só se for por invalidez.
[Texto 2336]
Etiquetas
edit

Léxico: «prototipagem»

Vê-se por aí

      «Sem precisar de financiamento extra, a Câmara Municipal de Lisboa prepara-se para abrir mais duas incubadoras de empresas e um laboratório de prototipagem. A Startup Lisboa 2 será lançada no dia 28 de novembro, na Rua Castilho, e o Lab vai aparecer ao lado da Cidade Universitária no início de 2013» («Costa abre duas novas incubadoras em Lisboa», Ana Rita Guerra, Diário de Notícias, 17.11.2012, p. 19).
      Não a vejo nos dicionários. «A prototipagem é o processo de construir um sistema experimental rapidamente e a baixo custo para demonstração e avaliação, de modo que os futuros clientes ou usuários do sistema possam melhor determinar os requerimentos dele» (Engenharia de Software e Sistemas de Informação, Denis Alcides Rezende. Rio de Janeiro: Brasport, 2005, 3.ª ed., p. 134).
[Texto 2335]
Etiquetas ,
edit

Que rica televisão

Vejam, vejam, alienem-se

      «3. Veja-se, ouça-se a metódica destruição das mais delicadas nuances da língua portuguesa nas injeções diárias desse programa sinistro que é Casa dos Segredos (TVI). O militante cinismo de alguns responsáveis televisivos insistirá sempre em proclamar que as grandes audiências são eloquentes... Claro que são (para as contas da publicidade, pelo menos). E importa reconhecer que, no fundo, é de eloquência que se trata: fenómenos de tal dimensão promovem a continuada degradação dos mais genuínos valores que nos fazem ser um país e uma comunidade. Incluindo no modo de falar. Decididamente, já era tempo de as televisões pensarem um pouco sobre a sua própria crise» («Falar mal e não pensar», João Lopes, Notícias TV, n.º 252, p. 72).
[Texto 2334]
Etiquetas
edit

«Há seis meses»

Cá estamos para o que der e vier

      «2. A crise gera as mais diversas formas de austeridade. Exceto na fala. Há dias, um comentador de futebol pontuava mesmo o seu interminável discurso (duas horas sem se calar é obra!) com a inusitada evocação da dramática infância de um dos jogadores... Já nem sequer se acredita na justeza de expressões como “há seis meses”. Poderia dizer-se também “seis meses atrás”. Mas não. Agora passou a ser chique mostrar que se conhecem as duas hipóteses: “há seis meses atrás”. Não, não estou a inventar: ouça-se o anúncio de um automóvel que anda a passar em todas as televisões. E já se sabe: mesmo o mais triste disparate, quando é aplicado pela todo-poderosa publicidade, transforma-se em norma social» («Falar mal e não pensar», João Lopes, Notícias TV, n.º 252, p. 72).
      Qual chique! Ignorância da língua. E não são apenas os mais novos que falam assim, mas todos. Júlio Machado Vaz, no programa da rádio O Amor É, não fala de outra forma: «há ... atrás». Talvez também aqui o soberano senhor que é o uso desfaça inexoravelmente o que é lei.
[Texto 2333]
Etiquetas ,
edit

«À última (da) hora»

«O uso é soberano senhor»

      «1. “Dizer que...” “Lembrar que...” “Acrescentar que...” A epidemia começou com os comentadores de futebol e foi tomando conta de muitos repórteres e jornalistas: já não há tempos de verbos, a não ser o infinito. Claro que o erro na fala, em particular na sempre difícil tarefa que é o direto televisivo, é coisa normal e perfeitamente compreensível. Mas não é isso que está em causa. É, isso sim, o horror da norma a consagrar o desconchavo gramatical. Afinal de contas, vivemos no país em que já quase ninguém sabe dizer “à última hora”, consagrado que está o macabro “à última da hora”. Dúvida pedagógica: qual o papel (e o efetivo poder) dos responsáveis editoriais face à degradação da língua?» («Falar mal e não pensar», João Lopes, Notícias TV, n.º 252, p. 72).
      Já tratámos desta questão no Assim Mesmo, tendo então lembrado o que, a propósito das expressões à última hora e à própria hora, escreveu Vasco Botelho de Amaral no Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português (Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 236): «Não resta dúvida que estas formas (sem da) são mais correctas, porém menos correntes. Inclusivamente os que prezam a gramática deixam fugir a dição preposicionada.» Terminava, contudo, afirmando que «quanto à sua correcção ou incorrecção, não se aflijam os gramáticos, não se impacientem os curiosos, nem se precipitem os indisciplinados: — o uso é soberano senhor que vai fazendo e desfazendo leis».
[Texto 2332]
Etiquetas
edit

«Quadrado», «square»

Importado com as telenovelas?


      «Os matristas, mais inclinados ao “ser” do que ao “fazer”, tendem a deixar que os outros sigam o seu próprio caminho. Normalmente, não irão insistir com os puritanos para que estes ponham de parte as suas inibições e adquiram novos hábitos. Podem zombar deles, chamar-lhes square, tentar, mesmo, envergonhá-los um pouco; mas não estabelecem dispositivos de controle» (Pensar o Futuro: Uma Solução Progressiva, Gordon Rattray Taylor. Tradução de Virgílio dos Reis Cadete Valadas. Lisboa: Editorial Verbo, 1973, p. 63).
      O leitor Rui Almeida, que me enviou a citação acima, diz que «uns anos depois poderia muito bem ser substituído por “quadrado”, vulgarizado entre nós por via da cultura brasileira». Para começar, o tradutor devia ter evitado aquele inconcebível square. Foram os Brasileiros que forjaram o sentido e no-lo mandaram juntamente com as telenovelas? É verdade que o Houaiss afirma que é regionalismo brasileiro — mas diz o mesmo, erradamente, de outros vocábulos, como já vimos. Já em Vieira, segundo Morais, homem quadrado era o homem constante nas adversidades. Não se terá passado daqui para o sentido de pouco receptivo a inovações; convencional; retrógrado; tradicionalista? Claro que, como facilmente se conclui, nada disto impede que esta particular acepção tenha sido forjada no Brasil.
[Texto 2331]

Etiquetas ,
edit

«Craniofacial», de novo

Mas agora o erro é num jornal

      «Cristiano Ronaldo integrou, sem limitações, o treino de ontem do Real Madrid, quatro dias depois de ter sido atingido com uma cotovelada por David Navarro, defesa do Levante. O português sofreu um traumatismo crânio-facial com ferida no olho esquerdo que provocou tonturas, perturbações na visão e dores de cabeça, conforme explicou Henrique Jones, médico da seleção» («Jogador regressa aos treinos no Real», Diário de Notícias, 16.11.2012, p. 39).
[Texto 2330]
Etiquetas
edit

«Forças vivas»

Mas não no sítio certo

      «A ideia partiu da presidente da Junta de Freguesia do Porto Martins, Rita Branco, e arrancou há cerca de um mês, apenas com a colaboração dos funcionários da autarquia e do grupo de escuteiros, mas neste momento já envolve todas as forças vivas da localidade, desde o grupo de idosos à comissão da Igreja Católica» («Iluminações de Natal serão feitas com lixo em freguesia dos Açores», Diário de Notícias, 16.11.2012, p. 22).
      Tanto quanto pude apurar, a locução começou a ser usada no início do século XIX e há-de ser a tradução do francês forces vivantes. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o, mas talvez não no sítio certo, pois está no verbete «vivo»: «forças vivas conjunto de entidades que contribuem para a vida e prosperidade de um lugar ou de uma região».
[Texto 2329]
Etiquetas ,
edit

Dicionários

Pega chapéu!

      «Bom dia. CTT Expresso.» Chegou o Dicionário de Falares dos Açores – Vocabulário Regional de Todas as Ilhas, de J. M. Soares de Barcelos (Coimbra: Edições Almedina, 2008, 614 pp.).
      Na última LER, Francisco Belard escreve sobre um glossário que também nos interessa: Variantes Cariocas da Língua Portuguesa, de António Correia de Pinho (Lisboa: Chiado Editora, 2012, 744 + 768 pp.).
[Texto 2328]
Etiquetas
edit

Como se escreve nos jornais

Só faltam os coronéis

      «O objetivo do Grupo de Ações Táticas (GAT) da Polícia Marítima (PM) era resgatar um fazendeiro sequestrado pelo seu capataz insatisfeito com a vida e que o ameaçava matar. O incidente situava-se [sic] numa herdade na zona de lezírias banhada pelo rio Tejo» («Polícia Marítima resgata com motos de água», Diário de Notícias, 15.11.2012, p. 26).
[Texto 2327]
Etiquetas ,
edit

Como se escreve nos jornais

É da pressa, dizem eles

      «“Há muitas perguntas que não me foram permitidas [sic] fazer”, disse. “A menos que haja critérios duplos, isso não deve ser permitido.” A procuradora e o juíz discutiram durante alguns minutos, mas as diferenças terminaram quando FitzGerald disse: “Um dia, Ms. Rosenthal, vai usar esta batina negra. Mas, por agora, sou eu que faço as regras e, quer goste, quer não goste, terá de cumpri-las”» («Seabra ausente de julgamento devido a cansaço», Alexandre Soares, Diário de Notícias, 15.11.2012, p. 23).
      Senhor jornalista, na América os juízes (atenção: juiz/juízes) vestem batina? Também têm 33 botões como aquelas que nós conhecemos, ou são de outro modelo?
[Texto 2326]
Etiquetas ,
edit

Chuteiras, pitões, ‘pitons’, grampões

Estas por 89,95 euros

      «O encontro de Luís Figo e Murilo Benício até podia ter acontecido por causa de Avenida Brasil, a novela da TV Globo que a SIC emite de segunda a sexta-feira à noite, e em que o ator surgiu a jogar futebol nos primeiros episódios. Mas a trama já terminou no Brasil e Tufão, nome do personagem, também arrumou cedo as chuteiras» («Luís Figo e Tufão de ‘Avenida Brasil’ inauguraram juntos loja de luxo», Filomena Araújo, Diário de Notícias, 15.11.2012, p. 53).
      Está, como bem sabemos, em todos os dicionários. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «calçado próprio para jogar futebol; bota de futebolista». E como se chama cada uma das peças pontiagudas que este calçado costuma ter nas solas? Para aquele dicionário, «pitão». Tal como para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que o define como «travessa de chuteira». Travessa? Sempre tenho ouvido, para referir o mesmo, o galicismo piton, que podemos e devemos evitar. Se formos à Decathlon, trazemos sapatilhas com grampões.
[Texto 2325]
Etiquetas ,
edit

Ortografia: «dignitário»

Lá isso é verdade

      «Perante este quadro, qual o papel da Maçonaria e do seu grão-mestre? “E o que dizem os dignatários do GOL? Nada! E o que tem dito o nosso grão-mestre? Nada. Não tem dito nada”, afirmam os maçons da Loja Pátria. Contactado pelo DN, Fernando Lima limitou-se a dizer que não comenta, uma vez que esta loja não é reconhecida pelo GOL» («Loja Pátria critica grão mestre [sic] do GOL», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 14.11.2012, p. 13).
      Independentemente do que registem alguns dicionários, certo é que de dignitas não podia sair «dignatário», mas já todos vimos coisas igualmente estranhas.
[Texto 2324]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «prancha»

Monomania

      «“Os portugueses estão a pagar muitos milhões de euros, grande parte em juros escandalosos, pelas más ações de poderosos que levaram bancos ao descalabro”, lê-se na última “prancha” (comunicado) dos maçons da Loja Pátria, acrescentando que, para “os erros dos políticos”, “propõe-se como receita o desemprego, incentiva-se a emigração, alienam-se setores estratégicos e vendem-se os ativos lucrativos do País”. [...] Entretanto, a direcção [sic] do GOL já emitiu uma “pracha” [sic] pelas lojas, dizendo que irá investigar a autoria do comunicado da Loja Pátria, que “O [sic] GOL não reconhece”, lê-se no texto» («Loja Pátria critica grão mestre [sic] do GOL», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 14.11.2012, p. 13).
      Ora, e para quê as aspas? Galhos inestéticos. Está nos dicionários. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, lê-se que prancha é a «circular enviada por uma seita, nomeadamente uma loja maçónica, aos membros de outras seitas». Talvez nenhuma acepção, das que constem no mesmo dicionário, assente muito bem na Maçonaria. Não sei, digo eu. Para o Houaiss, «prancha» é a «circular que uma loja maçónica envia às outras».
[Texto 2323]
Etiquetas ,
edit

Os irmãos e as aspas

Incongruências

      «Depois de ter pedido uma investigação no seio da Maçonaria à conduta do irmão Miguel Relvas, a Loja Pátria, uma espécie de loja clandestina criada no Grande Oriente Lusitano, critica agora o papel do grão-mestre, Fernando Lima, pelo silêncio deste sobre a atual crise financeira do País. [...] Os “irmãos” da Loja Pátria recordaram ainda o pedido feito a uma averiguação à conduta do irmão Miguel Relvas: “Decorridos três longos meses, mantemos os nossos pedidos e continuamos a aguardar resposta, conscientes de ser fundamental separar o trigo do joio”» («Loja Pátria critica grão mestre [sic] do GOL», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 14.11.2012, p. 13).
[Texto 2322]
Etiquetas ,
edit

«Arco governativo»

Devia, pois

      Acabei de ler que a expressão «arco governativo» é uma herança do 25 de Novembro. Bem, até pode ser, contanto que com isso não se pretenda afirmar que saiu daquelas cabeças exaltadas. Em inglês diz-se governmental arch; em francês, arc gouvernemental; em espanhol, arco gubernamental; em italiano, arco governativo. Não me parece que tenha sido exportada para estas línguas. Também se usa entre nós, mas talvez menos, «arco governamental». Depois de ter perguntado a mim próprio, pergunto aos meus leitores: a expressão não devia estar nos dicionários?
[Texto 2321]
Etiquetas ,
edit

Ortografia: «Bombaim»

Saltos e amendoins

      «O local escolhido é o Shivadji Park, um dos poucos espaços verdes de Bombaím (Mumbai), e lá praticam-se estranhos desportos, como o Mallakhamb, que desafia a gravidade» («Índia. Desporto tradicional», Diário de Notícias, 13.11.2012, p. 11).
      Muito interessante, mas dois reparos: quando o i (e o u) é seguido de consoante diferente de s que com ele forme sílaba (-im), não é acentuado. Logo, Bombaim. Como «amendoim». E em todo o lado apenas encontro a grafia Shivaji.
[Texto 2320]
Etiquetas ,
edit

«Democrato-social»

Nunca antes vista

      Sabiam que no início de 1961 o Directório Democrato-Social, a grande organização da oposição ao Estado Novo, lançou o Programa para a Democratização da República? Não vamos aqui adiantar nada quanto ao que esse documento propunha, mas antes reflectir sobre o vocábulo «democrato-social». Só conhecíamos o adjectivo uniforme «democrata» e o adjectivo biforme «democrático». Assim, «democrato» só pode ser a forma truncada de «democrático».
[Texto 2319]
Etiquetas
edit

Léxico: «saial»

O homem tinha razão

      Debaixo do saial, há al. Conhecem este provérbio? Ah, não conhecem... O que sei é que o antiquário disse que aquela mesa de encostar de pau-santo tinha saial talhado. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora no verbete «saial» só regista uma acepção: «Antiga vestimenta grosseira para os dois sexos.» Entretanto, podem anotar na margem da página.
      «O saial em talha vazada é decorado com motivos em S e em gancho, terminando por bilros» (O Paço Ducal de Vila Viçosa, Sua Arquitectura e Suas Colecções, José Teixeira. Lisboa: Fundação Casa de Bragança, 1983, p. 199).
[Texto 2318]
Etiquetas ,
edit

É um facto

O AOLP explicado aos maluquinhos

      «Qual será a razão para um escrevente, falante de português europeu e utilizador, por imitação, por gosto ou por imposição, do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) não grafar o C de facto? Por exemplo: “união de fato”. Sim, de fato. Quem diz “união de fato”, poderá também dizer “pressupostos de fato e de direito”, “alterações de fato e de direito”, “razões de fato e de direito”, “fundamentos de fato e de direito” ou “situações de fato...”. E de direito. De fato e de direito. Até mesmo “fatos imputáveis”» («Contra fatos: os argumentos», Francisco Miguel Valada, Público, 13.11.2012, p. 55).
      Há muito que alertei para esta estupidez. No texto de Francisco Miguel Valada, só não percebo a enumeração — que o autor parecia querer, para nosso desespero, exaustiva — de expressões em que o termo «facto» figura. É concebível que o «escrevente, falante de português europeu e utilizador, por imitação, por gosto ou por imposição, do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)» umas vezes escreva «fato» e outras «facto» para exprimir a mesma ideia? O que me parece é que isto é tudo tão absurdo, que não precisamos de caricaturas ou especulações crípticas.

[Texto 2317]
Etiquetas
edit

Ortografia: «craniofacial»

Não lhes liguem...

      «Ronaldo foi dispensado da viagem ao Gabão por causa dum [sic] traumatismo cranio-facial», lia-se na legenda da respectiva notícia no Telejornal de ontem, às 20h42. Errado. Escreve-se craniofacial.

[Texto 2316]
Etiquetas ,
edit

Borbom

Vai sendo tradição

      «Mas uma pequena falha de comunicação entre os serviços jurídicos da Casa Real e os assessores da infanta fez que a irmã de Felipe de Borbom tivesse, agora, o fisco à perna. Enquanto a Casa Real espanhola esperava que os assessores jurídicos de Elena declarassem o fim da atividade da empresa, o mesmo se passou com os funcionários da Infanta. “A sociedade nunca foi liquidada”, confirmou um porta-voz da Casa Real ao jornal espanhol, admitindo: “Cometemos um erro.”» («Infanta Elena deve 510 euros às Finanças», Márcia Gurgel, Diário de Notícias, 13.11.2012, p. 53).
[Texto 2315]
Etiquetas
edit

Léxico: «padieira»

Dia de vistoria da obra

      Dia de vistoria da obra. Sou (não me gabo...) um dos louvados. Tenho a impressão de que o engenheiro não sabia o que era a padieira da porta. «Onde? Onde? Ah, no topo.» Topo... É triste, mas é assim.
      «Esta casa, por exemplo, com a data de 1784 na padieira da porta, esta casa viu-a Camilo deste mesmo sítio onde o viajante põe os pés, o mesmo espaço ocupado por ambos, em tempos diferentes, com o mesmo Sol por cima da cabeça e o mesmo recorte dos montes» (Viagem a Portugal, José Saramago. Lisboa: Editorial Caminho, 1997, p. 44).
[Texto 2314]
Etiquetas
edit

Erros em todas as línguas

Enfeites de Natal

      «Em setembro último, um vasto artigo do El País intitulado “Angela fue una chica divertida” revelava o que tinha mudado na vida de Angela Merkel e a transformação de uma jovem que trabalhou como barmade numa discoteca e que chegou a ser “ocupa” numa casa de Berlim em plena Alemanha comunista, até à cancheler [sic] austera de hoje» («Os sete fatos de Angela», Lília Bernardes, Diário de Notícias, 12.11.2012, p. 30).
      Então mas não é barmaid — «a woman who serves liquor at a bar» — que se escreve? E «ocupa» tem aspas para quê, pode saber-se, cara Lília Bernardes? Devem ser já os enfeites de Natal. Nunca precisou delas, e agora até já está dicionarizado. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo: «pessoa que se apodera de coisa ou lugar abandonado ou ainda não apropriado sem ser o seu legítimo proprietário».
[Texto 2313]
Etiquetas
edit

Léxico: «mondioring»

O pior é o português

      «Mais de mil cães e gatos passaram este fim de semana pelo Parque de Exposições de Braga. Só na exposição canina, estiveram representados mais de 900 animais, que participaram nos concursos e nas demonstrações de obediência, ordem pública, busca e salvamento e de mondioring – um tipo de desporto que testa a capacidade do cão proteger a sua integridade e a do dono» («Mais de mil cães e gatos em exposição», Diário de Notícias, 12.11.2012, p. 23).
      Como? «A capacidade do cão proteger»?! Bem, esqueçam, está na hora de aprendermos mais inglês.

[Texto 2312]
Etiquetas
edit

É «titubeação» que se diz

Quando não se sabe...

      Carlos Abreu Amorim, vice-presidente do grupo parlamentar do PSD: «Aquilo que se passa é que... Estamos numa hora tremenda, e... Não é uma hora para hesitações, para titubeâncias, nem para talvezes, nem para nins. O País precisa de respostas afirmativas.»
      Até pode ser um sufixo produtivo na língua portuguesa, mas não vale a pena inventar: já temos titubeação. «D. Luiz olhou d’esta vez para o filho mais seriamente, porque lhe causára impressão a firmeza e promptidão da resposta, em vez das titubeações que esperava» (Os Fidalgos da Casa Mourisca, Júlio Diniz. Porto: Tipografia do Jornal do Porto, 1871, p. 66).
[Texto 2311]
Etiquetas
edit

Ortografia: «faz-de-conta»

Mais uma acha

      «A enciclopédia online escreve que o romance ‘A Mancha Humana’ é “alegadamente inspirado na vida do escritor Anatole Broyard”. Considerado [sic] esta informação incorreta, Roth escreveu à Wikipédia, mas a sua correção não foi aceite. Não foi considerado “uma fonte credível”. “Escrever um romance é um jogo de faz de conta”, alegou Roth» («Carta à Wikipédia», Diário de Notícias, 11.11.2012, p. 49).
      Pelo menos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora afiança — e eu acredito — que faz-de-conta continua, depois do acordo, com hífenes. Tudo é possível. No sítio da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, entre os casos em que se mantém o hífen nos compostos consagrados pelo uso (conceito indeterminado — e mais um erro dos autores do acordo), encontra-se «água-de-colónia», que para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora tem dupla grafia. Este dicionário também regista o termo «dia a dia» assim grafado, sem hífenes. No sítio da INCM, é outro composto consagrado pelo uso...

[Texto 2310]
Etiquetas
edit

Brasileirismo: «garrancho»

Temos, mas não iguais

      A personagem, enfermeiro louco entre loucos, acabou por desistir de ler os garranchos negros que se viam no caderno. Nesta acepção — letra mal traçada, pouco legível — é brasileirismo, e poucos leitores portugueses o conhecerão. Também temos o vocábulo, mas com outros sentidos. Garranchos são garatujas, rabiscos, gatafunhos.
[Texto 2309]
Etiquetas
edit

Verbo «importar»

Têm importância — importam

       «Não importa aqui traços culturais como, etc.», escreve o nosso autor — mas mal. O verbo já não concorda com o sujeito? No sentido de «ter importância, ter interesse», como intransitivo, o verbo «importar» é frequentemente sujeito a este erro. Qual a dificuldade? Não está o núcleo do sujeito no plural? Então...
      «Muito zombeteiro estulto, muito praguento sem alma, há-de fechar o livro neste passo; mas como Vossa Majestade o leia, e há-de lê-lo, pouco importam aqueles desdéns» (O Outono, António Feliciano de Castilho. Lisboa: Imprensa Nacional, 1863, p. XIII [actualização ortográfica minha]).
[Texto 2308]
Etiquetas ,
edit

E o primeiro nome?

Maldita macaqueação

      Já o escrevi há anos no Assim Mesmo. Infelizmente, a tendência é para se usar cada vez mais. «Há, em seguida, uma pequena interrupção no deleite (que maçada, não?): “No domingo, Botella regressou a Espanha, para assistir ao velório de uma das jovens falecidas no Madrid Arena.”
      (Outro estrangeirismo cultural, este anglo-saxónico, que assassina a elegância e gentileza latinas: tratar uma senhora pelo apelido. Botella! Alguma mulher pode ser chamada de Botella? Garrafa, para mais? Em português, a minha língua, a língua de que me orgulho porque sabe ter tonalidades de ternura e de requinte, uma senhora nunca é só o seu apelido: é o seu nome – e depois o apelido. Malvada hora em que se escreveu Ferreira Leite sem antepor Manuela, Nogueira Pinto sem preceder de Maria José. Que eu saiba, só as enfermeiras é que trazem – ou traziam – a placa só com o apelido: “Enfermeira Marques, faça isto, se não se importa. Enfermeira Rodrigues, traga-me aquilo, por favor.” Sempre achei que era uma deselegância para com elas. Aqui garanto que jamais tratarei uma senhora – da mulher da praça à de um Presidente – por Senhora Dona Fonseca! Muito feliz ficaria se isto fizesse escola, por exemplo no Livro de Estilo do DN, que anda a ser elaborado a querosene, de tão lento que avança...)» («Tem de haver limites ao direito de o público escrutinar os políticos», Oscar Mascarenhas, Diário de Notícias, 10.11.2012, p. 47).
[Texto 2307]
Etiquetas
edit

Deixem-se de «detalhes»

Pois é

      «(Que pena esta ocupação francesista da nossa língua que nos obriga a ver “detalhes” onde mais bem ficam “pormenores”. Qualquer dia, ainda germanizamos a língua, de tão colonizados que nos resignamos! Achtung!, compatriotas!)» («Tem de haver limites ao direito de o público escrutinar os políticos», Oscar Mascarenhas, Diário de Notícias, 10.11.2012, p. 47).
[Texto 2306]
Etiquetas
edit

«A partir de»

Economia e elegância

      «Tudo começou num beijo e não devia passar daí», escreveu Nelson Rodrigues em Meu Destino É Pecar (Rio de Janeiro: Editora Agir, 2007, p. 162). Podemos então corrigir esta frase: «Discute-se como tudo pode ter começado a partir de um sonho.» Mais breve e incisivo: «Discute-se como tudo pode ter começado num sonho.»
[Texto 2305]
Etiquetas
edit

Tradução: «teacher’s gear»

Parece-me que sim

      Na última LER, Maria Filomena Mónica revela que está a escrever dois livros em simultâneo, e diz: «Durante uns anos despirei a minha farda de historiadora e vestirei a de socióloga» (p. 74). Em sentido figurado, pois claro. E aqui? «You were still in your teacher’s gear but your jacket was off and enough buttons were open on your blouse to show me the black bra I bought you and the freckles on your chest.» E esta expressão, despir a farda, não devia estar dicionarizada? Só para o caso...
[Texto 2304]
Etiquetas
edit

Sobre «contraciclo»

Para pensar

      «Ninguém perguntou a Jonet a que estrutura se referia, e foi pena. Porque, quiçá inconscientemente, Jonet está a reconhecer o papel das políticas sociais que lograram reduzir não só a taxa de pobreza como, até, recentemente, diminuir a desigualdade – a contra-ciclo do que se passou com a generalidade dos países europeus. O efeito combinado de uma série de medidas – do subsídio de desemprego ao RSI, passando pelo Complemento Solidário para Idosos – logrou essa proeza» («Obrigada, Isabel Jonet», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 9.11.2012, p. 7).
      Não está em muitos dicionários, mas é usado com alguma frequência, sobretudo em contextos económicos. Em nenhum estará, de certeza, com hífen. Provavelmente, começou por se escrever a contra ciclo. Ora, ouve-se e vê-se mais a expressão com a preposição «em». Mas não se diz, por exemplo, «a contrapelo»?
      «Acrescentavam tratar-se de empresas, que não eram multinacionais mas, repetiam, familiares e algumas com longa tradição, e que asseguram cerca de dois terços dos empregos no sector privado europeu e uma grande estabilidade de detenção do capital, muitas vezes funcionando positivamente em contraciclo» (Alfreda ou a Quimera, Vasco Graça Moura. Lisboa: Bertrand, 2008, p. 60).
[Texto 2303]
Etiquetas ,
edit

Verbo «assistir»

É a evolução, estúpido

      «Portugal voltou a acordar, ontem de manhã, com mais uma agressão num reality show da TVI. Ao fim de 54 dias encerrado na Casa dos Segredos, o concorrente Wilson agrediu o companheiro Hélio, acabando expulso do programa. Uma história que os espectadores assistem pela terceira vez desde 2000: primeiro foi Marco Borges, que, no Big Brother, pontapeou Sónia; depois foi Vítor, que, levado pelo ciúme, agrediu Ana Isabel, concorrente e sua própria namorada, na primeira edição de Casa dos Segredos» («Estar no limite e frustração conduzem à agressividade», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 9.11.2012, p. 50).
      No Brasil, o último autor a afirmar que o verbo assistir, com o sentido de «presenciar, ver», é transitivo indirecto terá sido Napoleão Mendes de Almeida. Desde então, até parece que todos os autores, brasileiros e portugueses, estão a fazer um favor quando afirmam que é transitivo indirecto e directo. Adeus, ortodoxia gramatical.
[Texto 2302]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «dopaminérgico»

Da fisiologia

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o termo «dopamina», que é o «mediador químico sintetizado por certas células nervosas, presente nos sistemas nervoso [sic] central e periférico, e cuja acção é semelhante à da noradrenalina». (Não são dois sistemas nervosos?) Esperava-se que acolhesse igualmente o adjectivo «dopaminérgico». Mas esperem lá: a definição não é completamente obscura para o leigo que consulta o dicionário? Alguém, um médico, escreveu para toda a gente perceber: «A dopamina é uma substância química que serve para fazer a passagem de informação entre neurónios responsáveis por muitas funções importantes do cérebro humano.»

[Texto 2301]
Etiquetas ,
edit

A Sra. Lente

Lembramo-nos logo da outra

      «Lente é o ou a que lê (lat. legente). Portanto, se alguma professora não se contentar com êste título, chamar-lhe-emos a sr.ª Lente. Lenta não, a não ser que ensine de-vagar. A palavra é comum aos dois géneros, como ausente, crente ou doente. A lente com que lemos ou vemos as coisas miüdinhas nada tem com legere, ler, mas sim com lens, lentis, a lentilha» (Glossário de Incertezas, Novidades, Curiosidades da Língua Portuguesa, e também de Atrocidades da Nossa Escrita Actual, Agostinho de Campos. Lisboa: Livraria Bertrand, 1938, p. 183).
[Texto 2300]
Etiquetas ,
edit

Sobre «iúca»

Com que então, uma árvore...

      Aqui a nossa protagonista está em casa a comer «cold yuca with hot oil». «Iúca», verte o tradutor, e bem. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porém, iúca é apenas a «árvore da família das Liliáceas (género Yucca), própria das regiões da América, cultivada em Portugal com fins ornamentais». Incompleto, pelo menos. A iúca tanto pode ser um arbusto como uma árvore. A iúca comestível é uma raiz tuberculosa (tadinha... poor thing!), extraída do arbusto, e usada para fazer pão e tapioca. Os dicionários têm muito por onde melhorar e nós estamos cá para ajudar.
[Texto 2299]
Etiquetas ,
edit

Tradução: «cocoa pañyol»

Ou não?

      A rapariga, nascida em Trindade, era «cocoa pañyol». Está bem, mas podemos saber o que significa em português? O conceito em inglês: «someone of mixed race». Ah, mestiço, então.
[Texto 2298]
Etiquetas
edit

Tradução: «pussy»

Coño

      «And I have to touch her pussy...» «E eu levo-lhe a mão ao chocho...» Nunca tinha ouvido ou lido tal. Em português, digo, porque isto é vulgarismo espanhol: cona, rata. Vá lá perceber-se o que leva a estas opções descabeladas...
[Texto 2297]
Etiquetas ,
edit

Sobre «livre-arbítrio»

Qual a vossa preferida?

      Há algum problema com o livre-arbítrio? Talvez haja dois: não é raro vê-lo escrito — mesmo por professores universitários, tradutores, escritores — sem hífen. O outro problema é o da definição. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «poder de escolher ou não escolher um acto ou uma atitude, quando não se tem razão para se inclinar mais para um lado do que para o outro». Para o Dicionário Houaiss, é a «possibilidade de decidir, escolher em função da própria vontade, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante». Com mais quatro caracteres, é a minha preferida. E agora leio outra, quase lapidar, com 58 caracteres, de um livro em edição: capacidade de actuar sobre as coisas do mundo por iniciativa própria. Mais breve do que esta, em inglês, do Merriam-Webster: «freedom of humans to make choices that are not determined by prior causes or by divine intervention».
[Texto 2296]
Etiquetas ,
edit

«Dedo auricular»

Onde se fala da digitoagnosia

      Ao ler, agora mesmo, a palavra «digitoagnosia» (sim, talvez demasiado técnica para estar nos dicionários comuns — mas estão lá outras igualmente técnicas), lembrei-me de outro caso recente de tradução do inglês. Havia uma personagem, e não era pirata, que tinha um diamante... onde? No auricular. Pobre leitor... «Dedo auricular, o mínimo, porque é o que acode aos ouvidos», escreveu Madureira Feijó. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o, e remete para «mendinho». Como podia remeter para mínimo, mindinho, minguinho, meiminho...
[Texto 2295]
Etiquetas ,
edit

«Hiperceratose/hiperqueratose»

Essa muleta

      «Oitenta e cinco por cento dos portugueses sofre de doenças dos pés», disse o jornalista João Tomé de Carvalho na edição de ontem do Bom Dia Portugal. Não falta quem afirme que, nestes casos, é indiferente que o verbo fique no singular ou no plural. Não é assim para mim. Não está tudo no plural? Então, o predicado deve ir para o plural, concordando com o sujeito, que também está no plural. Este foi apenas o intróito para a entrada do podologista Pedro Lopes, que tinha um bordão da linguagem menos ouvido agora: usou, em dois minutos, oito «portantos». (Agora espero que, lá por ser podologista, não me queira pisar os calos...) E, por fim, usou, e bem, a palavra «hiperqueratose». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista a variante «hiperceratose».
[Texto 2294]
Etiquetas ,
edit

«Raízes tuberculosas»

Rabanetes e parvoíces

      A ignorância é sempre atrevida. O autor disse que o Homem começou por se alimentar de raízes tuberculosas... «Tuberosas», julgou corrigir a virago abigodada lá ao fundo. Mas tuberculoso é o relativo a tubérculo, que é o cormo engrossado, em regra subterrâneo, com folhas reduzidas e carregadas de reservas nutritivas.

[Texto 2293]
Etiquetas ,
edit

«Topographical error»

Quase

      «In mentioning the rivers which the missionaries had lately crossed, our author has been guilty of a great topographical error in placing the river Dissennith between the Maw and Traeth Mawr, as also in placing the Arthro between the Traeth Mawr and Traeth Bychan, as a glance at a map will shew» (The Itinerary of Archibishop Baldwin through Wales, Giraldus Cambrensis. Middlesex: The Echo Library, 2007, p. 107).
      Agora imaginem que alguém traduzia topographical error por «gralha topográfica». Que pensaria o pobre leitor sem acesso ao original? Ia acontecendo...

[Texto 2292]
Etiquetas
edit

Léxico: «subsidência»

Nem todos faltam

      «Além do já “habitual culpado” aquecimento global, que faz subir o nível médio do mar, Veneza ainda sofre os efeitos de décadas de bombeamento de águas subterrâneas, que causaram danos significativos à frágil fundação da cidade e deram origem a um fenómeno denominado de subsidência. Este consiste no progressivo afundamento do solo devido à extração de águas subterrâneas. Ou seja, a cidade está cada vez mais “afundada” relativamente ao nível médio do mar» («Ações do homem agravam fortes inundações que alagam toda a cidade de Veneza», Ricardo Simões Ferreira, Diário de Notícias, 2.11.2012, p. 25).
      Está registado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «movimento de descida do fundo de uma bacia de sedimentação».
[Texto 2291]
Etiquetas
edit

Ortografia: «coro alto»

Porquê?

      «Voltaram os andaimes ao Mosteiro de Santa Clara-a-Velha por causa do desprendimento de um brasão de pedra de grandes dimensões, que estava desde a década de 40 do século passado no topo do coro-alto» («Engenheiros testam ‘culpa’ do som na queda de brasão», Paula Carmo, Diário de Notícias, 2.11.2012, p. 22).
      Por vezes, vê-se assim, com hífen, mas não vejo razões para isso. Há séculos que se usa coro alto, e é assim que continuarei a escrever.
[Texto 2290]
Etiquetas
edit

Sobre «bufete»

Pode não ser

      «No documento, que estabelece os alimentos a retirar dos bufetes das escolas – que o DN noticiou em setembro (ver caixa) –, a DGS enuncia um conjunto de alimentos e produtos “que contêm glúten”, e que deve ser tido em conta pelas escolas e empresas que confecionam as refeições para os alunos» («DGS previne alergias nas cantinas», P. S. T., Diário de Notícias, 3.11.2012, p. 15).
      Das quatro acepções de «bufete» registadas no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, qual é a do artigo acima? Bem, talvez nenhuma.
[Texto 2289]
Etiquetas
edit

Arquivo do blogue