Extras! Extras! Extras!

Os primeiros nesta nova casa


      «Mais de um terço dos médicos com horas extras tinha atingido limite anual em Novembro» (Ana Maia, Público, 15.01.2026, 7h01).

[Texto 22 278]

«Cortar relações»

Se lessem mais — ou melhor...

      «O jornal Sunday Telegraph encontrou entretanto em Trípoli documentos mencionando duas visitas do antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair à Líbia, em Junho de 2008 e Abril de 2009, quando Trípoli ameaçava cortar as relações comerciais com o Reino Unido, se o bombista de Lockerbie, Abdelaset al-Megrahi, não fosse libertado de uma prisão escocesa onde cumpria pena pela morte de 270 pessoas» («Líbia falha governo para um país que tenta regressar à normalidade», Maria João Guimarães, Público, 19.09.2011, p. 14).
      Cá está o Sr. Gerúndio numa festa para a qual não foi convidado e — motivo deste post — Trípoli a cortar as relações como quem corta, a comparação é de Camilo, as unhas.

[Texto 496]

«De resto»

De reliquo

      Agora já encontrei autores que afirmam que «de resto» é um galicismo fraseológico, que está em vez de «quanto ao mais». Mas Vittorio Bergo (Erros e Dúvidas de Linguagem. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1986, p. 121) escreve: «DE RESTO – Locução acoimada de galicismo mas defendida e abonada por bons autores, já que traduz o latim de reliquo. “De resto, tratavam-se com aparente cordialidade.” (AH, Lendas, II, 252).» Se Alexandre Herculano usou...
      Por acaso estou a ler uma tradução do francês, com o original à frente, e comprovei que as seis ocorrências de du reste que apresenta foram todas pobremente vertidas por «de resto». Ora, não se podia traduzir uma ou outra por «finalmente», «aliás», «além de que»?... Nem temos necessidade de lançar mão de formas mais coriáceas como «ademais» e mesmo «quanto ao mais».
[Texto 491]

Como se escreve nos jornais

Uma tentativa

      «Alvejado em órgãos vitais, Hilário Soares acabaria por morrer no local. Depois de consumar o homicídio, Adelino Almeida regressou à sua vivenda. Terá esboçado o suicídio, mas entretanto chegaram os bombeiros» («Discussão de honra acaba com morte a tiro», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 16.09.2011, p. 18).
      Um dos sentidos figurados de esboçar é iniciar uma acção ou gesto sem o completar, mas não deixa de ser estranho escrever «terá esboçado o suicídio».

[Texto 482]

Colocação do pronome

Saberão os taxistas

      «Entre as coisas que desaparecem e fazem falta, muitas não têm importância nenhuma. Mas o efeito cumulativo de todas elas – que é sísmico – faz com que valha a pena mencionar cada uma. Desde os meus 25 anos que ando à caça de copos de vidro fininhos. Na Rua de São Bento, em Lisboa, no encalço dos restos das fábricas condenadas da Marinha Grande – imaginando-me o anjo vingador dos irmãos Stephens –, dei por duas vezes com a Amália Rodrigues, incandescente e espirituosa, que morava e continua a morar naquela rua, como todos os taxistas de Lisboa sabem e orgulham-se de saber. Disse-me coisas que nunca mais esqueci. Era incapaz de dizer uma coisa que se pudesse esquecer» («Escrito no vidro», Miguel Esteves Cardoso, Público, 15.08.2011, p. 31).
      Pode ter que ver com o ouvido, mas eu anteporia o pronome ao verbo, pela atracção exercida ainda, pese embora o afastamento, pelo pronome indefinido: «como todos os taxistas de Lisboa sabem e se orgulham de saber».
[Texto 397]

Palavras para o tempo

É um avanço

      Sabemos bem como a noção do tempo, que não é inata, nas crianças é confusa e imprecisa. Agora, porém, a minha filha (que resolveu, depois de saber fazê-lo em inglês, aprender a contar até dez em português e em italiano), inesperadamente, sentiu necessidade de ser mais precisa e passou a usar a palavra «trasantontem», que jamais me ouviu. Vá lá, podia dizer, como se ouve em algumas zonas do País, «ontesdonte(m)».
[Texto 396]

Linguagem

Nada de gralhas, mais uma vez

      «Não consigo é parar de ler quando estou enlevado. Nem sou capaz de abandonar um livro para fazê-lo durar mais tempo. É a única regra. Mas é raro o romance que não tenha longueurs. Por outro lado, há livros menos bons que são viciantes e que nos obrigam a lê-los até ao fim, sejam mais curtos (The Small Hand, de Susan Hill) ou mais compridos (The Stranger’s Child, de Alan Hollinghurst)» («O vira dos livros», Miguel Esteves Cardoso, Público, 13.08.2011, p. 39).
      Prefiro, e não sou o único, colocar o pronome antes do verbo («fazer», no caso), visto este estar no infinitivo precedido de «para». (E, desta vez, não será um anglicismo a empecer a leitura do texto, mas um galicismo.)
[Texto 394]

Sobre «motim»

Talvez tenha razão, Sr.ª Abbott

      «A palavra motins não é correcta para descrever os saques na Inglaterra. Anteontem a BBC ralhou com Diane Abbott, a deputada por Hackney North e Stoke Newington, por ter falado em “pilhagens recreativas”. Abbott, uma mulher desde sempre de esquerda, defendeu-se bem, dizendo que a pilhagem era roubo e tanto a pilhagem como o roubo eram crimes. A pilhagem era recreativa — não só porque dava lucro e prazer, mas, sobretudo, porque nada tinha de sério ou de político, no sentido altruísta e, por conseguinte, ideológico» («Uma questão de tempo», Miguel Esteves Cardoso, Público, 11.08.2011, p. 31).
Por coincidência, ao ouvir hoje, mais uma vez, a palavra num noticiário da Antena 1, também me pus a reflectir se está a ser usada com propriedade neste caso. Mas talvez, pois motim é, como se lê, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «rebelião, geralmente organizada, contra a autoridade estabelecida, tumulto popular, sublevação, revolta, arruaça».
[Texto 387]

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