«Congénere de»

Confusões e trocas

     «A Polícia Judiciária (PJ) foi convidada, esta semana, para participar e colaborar com a Ameripol, Comunidade de Polícias da América (a organização americana congénere à Europol), com o estatuto de observador» («PJ com papel de observador na união de polícias americanas», A. T., Diário de Notícias, 29.10.2012, p. 20).
      Como é? «Congénere à»? Há-de ser cruzamento de «semelhante à» com «congénere de». Tem é de se rever mais de uma vez aquilo que se escreve, sobretudo se vivemos disso.
[Texto 2269]
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Uso da maiúscula

Porque a nossa é mais pequena...

      «Christopher O’Neill [noivo da princesa Madalena da Suécia] exerce funções na Bolsa de Nova Iorque e descende de uma família abastada dos EUA» («Madalena está noiva e casa-se no verão de 2013», Diário de Notícias, 26.10.2012, p. 53).
      «A bolsa de Lisboa encerrou a primeira sessão da semana em terreno negativo, a acompanhar as perdas registadas pelas pares europeias, pressionada pelos títulos do sector financeiro e pelo pesos-pesados» («Grécia e ‘Sandy’ assustam bolsas», Diário de Notícias, 30.10.2012, p. 35).
[Texto 2268]
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Léxico: «gearing»

Temos de saber

      «Em Portugal, o Pingo Doce e o Recheio, apesar da envolvente muito difícil, continuaram a reforçar as respetivas quotas de mercado. O resultado líquido consolidado cresceu 6,2%, atingindo 271,5 milhões de euros. O cash flow gerado, após investimento, foi de 147,1 milhões de euros. A dívida líquida consolidada cifrou-se em 251,8 milhões de euros e o gearing foi de 16,0% no final de setembro» («Jerónimo Martins ganha na Polónia», Diário de Notícias, 26.10.2012, p. 31).
      Temos de saber inglês e economia. «Gearing é», leio no sítio da Deco Proteste, «o rácio entre o endividamento da empresa (dívida financeira) e os seus capitais próprios. Um gearing elevado é, em regra, um sinal de maior risco.»
[Texto 2267]
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Tradução: «tile»

Combinem melhor

      «Depois das janelas, os mosaicos. A Microsoft deixou cair tudo o que era confortável no Windows e reinventou o seu sistema operativo, transformando-o em algo fluido e adaptado às expectativas de consumidores habituados a ecrãs táteis. O Windows 8 é lançado hoje em todo o mundo e traz uma vaga de novos computadores, incluindo portáteis com ecrã tátil e tablets que se convertem em portáteis» («Windows 8 é a mais ambiciosa reinvenção da Microsoft», Ana Rita Guerra, Diário de Notícias, 26.10.2012, p. 32). Num texto de apoio, lê-se: «Redesenho total, com interface organizada em torno de “telhas” (tiles) e mais parecida com os ambientes de smartphones e tablets.»
[Texto 2266]
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«Procuradoria Anticorrupção»

Vamos esperar

      «O ex-presidente do grupo Bankia e ex-diretor-geral do Fundo Monetário Internacional Rodrigo Rato vai ser ouvido no próximo dia 20 de dezembro na Audiência Nacional espanhola imputado na queixa sobre o processo de nacionalização daquela entidade bancária. [...] O juiz Fernando Andreu adotou a decisão depois de a Procuradoria Anticorrupção ter apresentado um texto a favor da queixa que a União Progresso e Democracia (UPyD) entregou por burla e outros delitos contra todos os membros do conselho de administração da Bankia e da sua holding, a BFA» («Rato ouvido na Audiência Nacional», Diário de Notícias, 26.10.2012, p. 26).
      Procuradoria Anticorrupção. Pois bem, aqui e aqui, como vimos, usaram a locução «fiscal anticorrupção». Ainda há esperança. «Imputado» também já nos passou sob os olhos, e foi aqui.

[Texto 2265]
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Léxico: «melada»

Não chegam lá

      «Desde 2008 que o mel de rosmaninho, de urze, de castanheiro e de melada de carvalho, obtido por métodos totalmente biológicos da BioApis tem sido distribuído pelo País como produto gourmet. Ao sucesso da empresa não será alheia a paixão que Jorge Fernandes, engenheiro agrónomo na Universidade de Trás os Montes [sic] e Alto Douro, em Vila Real, coloca no métier» («Abelhas de Trás-os-Montes batem concorrentes orientais», José António Cardoso, Diário de Notícias, 27.10.2012, p. 14).
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «melada» é «a produção de mel de uma época». No contexto, não é. Os Afídeos — pulgões e outros insectos — alimentam-se da seiva das plantas e expelem grandes quantidades de açúcares que se acumulam sobre a folhagem — é a essa substância açucarada que se dá o nome de melada (e honeydew em inglês). É uma excreção, ia escrever, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não deixa, pois afirma que excreção é a «função que tem por fim eliminar de um organismo produtos de desassimilação»...
[Texto 2264]
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Ortografia: «braço direito»

Não o real, o outro

      «Já Ana, para além de ser o braço direito da diretora, é uma mulher fatal que sonha ser atriz» («Nova ‘sitcom’ brinca com o jornalismo e a crise», Cynthia Valente, Notícias TV, n.º 250, p. 27).
      Bem diz Montexto: sempre mais compridos e complicados, isto é, o pior do barroco. E, para distinguir o sentido denotativo do conotativo, não se escreve, neste caso, «braço-direito»? Não há tempo para aperfeiçoar...
[Texto 2263]
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Ortografia: «eldorado»

Mas está nos dicionários

      «Com o País em crise, houve quem encontrasse na China o seu eldourado. Produtos portugueses como vinho, azeite, charcutaria, mel e até... arroz estão a fazer sucesso do outro lado do mundo. Tanto que nos primeiros oito meses do ano, Portugal exportou bens no valor de 821,5 milhões de euros, de acordo com as estatísticas chinesas citadas pelo embaixador em Pequim, José Tadeu Soares» («Já vendemos arroz e mel para a China», Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 27.10.2012, p. 14).
      Cara Ana Bela Ferreira, então não é eldorado que se escreve? «El, lo, la são formas arcaicas do artigo definido, usadas no período em que o português se estava formando. El é hoje apenas empregado em el-rei (= o rei) e Eldorado (região fantástica situada entre o rio Amazonas e o rio Orenoco)» (Gramática Metódica da Língua Portuguesa, Napoleão Mendes de Almeida. São Paulo: Edição Saraiva, 1973, 24.ª ed., p. 115).
[Texto 2262]
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«Pôr em marcha»

Saramago foi o último

      Pôr é para esquecer. Pelo menos nos próximos anos. «Colocar em marcha o novo mapa judiciário, que reduz para 23 as atuais 231 comarcas, vai custar cerca de 29 milhões de euros. A reforma da organização judiciária em curso, que deverá entrar em vigor ainda durante 2013, implica obras de adaptação em vários edifícios» («Novo mapa judiciário vai custar 29 milhões», Licínio Lima, Diário de Notícias, 29.10.2012, p. 18).
       «Quero-os aqui em três quartos de hora, às dez em ponto, disse, teremos de discutir, aprovar e pôr em marcha os paliativos necessários para minorar as confusões e balbúrdias de toda a espécie que a nova situação inevitavelmente criará nos próximos dias» (As Intermitências da Morte, José Saramago. Lisboa: Bis/Leya, 2011, 4.ª ed., p. 114).
[Texto 2261]
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«Influir em»

Ainda se vê

      «Influir em (e não sôbre). — Não raro sucede que uma forte asneira francesa vem substituir a lógica mais perfeita da nossa língua, e êste é o caso, por exemplo, de influir sôbre. Influir, do latim in-fluere, significa, literal e etimològicamente, fazer fluir ou correr para dentro, como quando se deita qualquer líquido dentro de uma vasilha. Se é para dentro, ¿a que vem o sôbre? Tudo o que influi, influe em, como bem mostra o prefixo latino.
      Portanto; o clima influe na saúde e é visível a influência de Fulano em Beltrano» (Glossário de Incertezas, Novidades, Curiosidades da Língua Portuguesa, e também de Atrocidades da Nossa Escrita Actual, Agostinho de Campos. Lisboa: Livraria Bertrand, 1938, p. 161).
[Texto 2260]
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Verbo «intervir»

Até nisto erram

      «O Governo alemão já interviu nesta matéria e aprovou um projeto de lei que obriga o Google, bem como outros agregadores de notícias, a pagar uma taxa por indexar conteúdos de sites de informação profissionais alemães. A proposta, que aguarda aprovação parlamentar, visa garantir que os media recebam parte do lucro gerado pelo gigante norte-americano em publicidade» («Governo quer que o lucro seja repartido», Diário de Notícias, 28.10.2012, p. 43).
      Já o escrevi uma vez, mas volto a escrevê-lo: na oralidade, e proferido por um analfabeto, admito; um jornalista não tem qualquer desculpa para conjugar desta forma o verbo «intervir».
[Texto 2259]
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Acordo Ortográfico revisto

Já que falamos nisso

      «O meu trabalho consiste, em suma, na revisão de traduções do Inglês para o Português de manuais de instruções e interfaces do utilizador de equipamento médico. [...] O que me chega às mãos está 90% das vezes muito longe do nível de qualidade que seria de esperar para qualquer tradução, quanto mais para traduções nesta área. Os exemplos são infindáveis, mas escolhi um que servirá para demonstrar aquilo de que falo. Na tradução do manual de um ventilador, feita por um tradutor brasileiro, lê-se:
      “Usar o ventilador de maneira diferente como foi instruída pode causar danos ao digitalizar de RM.”
      Uma tradução correcta do original em Inglês poderia ser assim:
      “A utilização do ventilador de maneira diferente da que foi indicada nas instruções, pode causar danos ao aparelho de RM (ressonância magnética)”» («O Acordo Ortográfico e a tradução para português», Paula Blank, Público, 28.10.2012, p. 56).
      Tudo verdades: a sintaxe e parte do léxico do Brasil são estranhas para nós. Contudo, nunca se diz isto demasiadas vezes, um acordo ortográfico não serve para eliminar essas diferenças. Aliás, com este acordo, nem sequer o que seria de esperar que fosse uniformizado o foi. E já que o texto começa por falar em revisão, impõe-se dizer que também ele precisa de revisão: o «nível» podia aspar-se à vontade: «muito longe da qualidade que seria de esperar». Também não estou a ver porque hão-de os termos «inglês» e «português» ser grafados com maiúscula inicial. E a vírgula depois de «instruções» é uma intrusa assassina. Não devia estar lá.
[Texto 2258]
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«Produto-bandeira»

Esta não sugiro a ninguém

      «O duplo lançamento deixou a audiência de boca aberta, porque é inédito a Apple renovar um produto-bandeira em apenas sete meses. O iPad 4.ª geração custa o mesmo que o anterior (509 euros em Portugal, 499 dólares nos EUA) e vai funcionar em mais redes 4G. No entanto, continua a não ser compatível com as frequências usadas em Portugal» («Apple surpreende mercado com iPad 4 e iPad mini em novembro», Ana Rita Guerra, Diário de Notícias, 24.10.2012, p. 28).
[Texto 2257]
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Sobre «pork»

Vamos lá

      «Há nos EUA uma expressão muito usada na política: pork. Este pork, ou seja, carne de porco, refere situações em que se desperdiça o dinheiro público para benefício de clientelas. Em Portugal não temos palavras assim, tão despachadas e carregadas de ironia, para designar ocorrências típicas da política» («Leite com chocolate», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 26.10.2012, p. 9).
      Somos uns pobretanas, não temos nada. O melhor é renunciarmos a esta língua, também ela paupérrima. Temos sempre o inglês, em que há muitos especialistas em Portugal.
[Texto 2256]
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Sobre «smartshop»

As lojas espertas

      Nos últimos tempos, tenho ouvido muito, na rádio e na televisão, a palavra smartshop. «Um rapaz de 17 anos e uma rapariga de 15 foram assistidos, no espaço de 48 horas, no Hospital de Évora, depois de terem, alegadamente, fumado um produto comprado numa “smartshop”. [...] Segundo o comandante distrital da PSP, o rapaz terá fumado um produto designado Cm21, que é vendido como incenso. “A rotulagem diz que não é para consumo humano”, realçou o responsável» («Intoxicação com produtos de ‘smart shop’», Diário de Notícias, 27.10.2012, p. 17).
      A loja é esperta, os clientes é que nem todos. E lá porque se pode escrever smart shop e smartshop, não me parece muito atilado escrever das duas formas no mesmo artigo.
[Texto 2255]
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Tradução: «mantelpiece»

Não vale a pena inventar

      E depois devia ainda levar «two ancient French silver candlesticks from the mantelpiece». «Do rebordo da chaminé do fogão», verteu o tradutor. Já vimos várias vezes, no Assim Mesmo, que «lintel (ou cornija) da lareira» é a melhor tradução.
[Texto 2254]
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Tradução: «mangle room»

Clothes-pressing machine

      «She showed him the mangle room.» «Mostrou-lhe a seguir a casa de secar», verteu o tradutor. Ainda se fosse «casa de secar roupa», como já ouvi. Só «de secar», tanto pode ser roupa como cereais... Não, não. Mangle é a calandra para passar a roupa (ver aqui), não para a secar. «Casa de tratamento de roupa»? Demasiado grande, mas mais certeiro. «Área de lavagens»? A mesma imprecisão. «Lavandaria»? Talvez. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «lavandaria» é a «divisão de uma casa, de um hotel, etc., onde a roupa é lavada e passada a ferro».
[Texto 2253]
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Dicionários e gramáticas

Onde estão os dicionários

       «There’s nothing more untidy than a dictionary on a chair», diz aquela cabeça oca. (Oca? Mas já começou a planear a morte do marido.) Devia passar cá por casa, para ver onde estão os dicionários. E as gramáticas? Ainda ontem me chegaram, oferta do maior escritor português vivo, a Gramática Metódica da Língua Portuguesa, de Napoleão Mendes de Almeida, e outras duas.
[Texto 2252]
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Léxico: «valutário»

Isto soa-me

      Ia jurar, agora que acabei de a ler aqui num romance de Nabokov, que já alguma vez ouvi a palavra «valuta». De uma coisa tenho a certeza: em Direito das Obrigações estudam-se as obrigações valutárias, que são obrigações em moeda estrangeira. Como é que uma palavra assim pode estar ausente do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora? Parece latim, mas é do italiano. Valuta: «Nel linguaggio bancario, riferito a biglietti e monete di altri stati (sottintendendo l’agg. estera)» (in Trecanni).

[Texto 2251]
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«Peacock cushions»

Pois é

      Aqui a nossa protagonista comprou «two peacock cushions», que o tradutor verteu por «duas almofadas com ocelos de pavão», o que jamais, apesar de conhecer a palavra, confesso, me ocorreria. Ocelo vem directamente do latim, língua em que é um diminutivo. Olhinho. Está bem, vê-se na cauda dos pavões um ocelo iridescente.
[Texto 2250]
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Tradução: «miscarriage»

Ganha a maioria?

      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, podemos ler no verbete «desmancho» que é o termo popular para «aborto». Todos os abortos? No volume 2 da Biblioteca de Formação Popular (1968), leio: «O aborto pode ser espontâneo ou provocado; o espontâneo, que ocorre no início da gravidez, é denominado vulgarmente de “desmancho”» (p. 209). O Houaiss em linha e a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, porém, afirmam (no caso desta, deduz-se) o contrário: desmancho é a interrupção voluntária da gravidez. Nos Estudos de Lexicologia do Português (Coimbra: Livraria Almedina, 1994, p. 55), Mário Vilela também afirma que «desmancho» é o aborto provocado. Que é a ideia que eu sempre tive. Cheguei aqui por causa da tradução do vocábulo inglês miscarriage, que o tradutor verteu por «desmancho», e, a avaliar pelo que vimos acima, mal, pois «when the interruption occurs spontaneously, it is clearer to refer to it as a miscarriage» (Maternal and Child Health Nursing: Care of the Childbearing and Childbearing Family, Adele Pillitteri. Filadélfia: Lippincott Williams & Wilkins, 2009, 6.ª ed., p. 555). Há-de haver, aposto, dicionários e outras obras que afirmarão que desmancho tanto designa o aborto espontâneo como o provocado.
[Texto 2249]
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Vocativo e formas de tratamento

Então não acho

      «‘Avoid vocatives,’ thought Franz quickly.» Ora aqui está um bom conselho desta personagem de um romance (King, Queen, Knave) de Nabokov para quem não domina as formas de tratamento. E para quem não se quer mostrar inferior.
[Texto 2248]
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Como se escreve nos jornais

Haja saúde

      «Por razões de saúde, Francisco José Viegas prepara-se para deixar nos próximos dias o cargo de secretário de Estado da Saúde. Segundo noticiou ontem a edição online do Expresso, citando um assessor de imprensa do governante, a sua substituição terá lugar na próxima semana» («Viegas deixa Secretaria de Estado», Diário de Notícias, 25.10.2012, p. 12). 
      Erro de simpatia, claro, mas antipático para nós, leitores. Mas não revêem mesmo nada, nenhum texto?
[Texto 2247]
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«Sarjeta/sumidouro»

Senhores ladrões

      «Uma, duas, três, quatro. No espaço de 500 metros, treze sarjetas sem tampa. [...] A história passa-se na Avenida Rio de Janeiro, em plena capital portuguesa» (jornalista Sandra Claudino, no Telejornal de ontem). Contudo, o que aparece nas imagens é o que eu conheço por sumidouros. Sim, um sumidouro é uma sarjeta; uma sarjeta é que não é um sumidouro. Este é a sarjeta cuja boca se ajusta à superfície a drenar, o que confirmo no Vocabulário de Estradas e Aeródromos, do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, publicado em 1962.
      Os senhores ladrões, como diz a outra, ao que parece vendem cada grade aos sucateiros por cerca de 3,5 euros, ou seja, a 19 cêntimos o quilo, porque têm cerca de 20 quilos. Se só não conseguem furtar as que estão presas com dobradiças, porque não são paulatinamente substituídas por grades com estas características?
[Texto 2246]
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«Ilharga da cama»

Levo o aparador Henrique II

     À ilharga de no sentido de ao lado, ao pé já eu conhecia. «Fazia o mesmo no guarda-roupa; e, fechadas as portas e janellas, se deitava com uma espada ou montante á ilharga da cama» (Memoria Historica da Villa de Barcellos, Barcelinhos e Villa Nova de Famalicão, Domingos Joaquim Pereira. Viana: Tipografia de André J. Pereira & Filho, 1864, p. 30). Ontem, contudo, o antiquário referiu-se à barra da cama dessa forma. «Um recadinho, vinha por um recadinho, um pedido. Acabou por entrar, encostou-se à barra da cama que era de ferro» (Nocturno em Macau, Maria Ondina Braga. Lisboa: Editorial Caminho, 1991, p. 12). No Brasil, ao que parece, ao lado oposto à cabeceira dão o nome, que não vejo dicionarizado, de peseira.
[Texto 2245]
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«Tarolo de borracha»

Vamos ouvindo

      Ontem, o engenheiro, não o queimado por mil sóis africanos, mas o outro mais novo, a quem eu chamo Tuck por causa do corte de cabelo, disse que a tubagem de ventilação nas coberturas superiores tinha de estar apoiada em «tarolos de borracha». Catacrese. Tarolo é o pequeno toro de lenha, o carolo da espiga do milho e a porção de terra ou outro material obtido por perfuração com sonda rotativa. É verdade que, momentos antes, só na minha presença, tinha sugerido sinoblocos para o mesmo fim, palavra que analisámos aqui.
[Texto 2244]
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«Em linha»

Do economês

      Imaginemos esta frase: «Os dados, em linha com outras estimativas independentes, exibem um retrato dramático do estado das empresas gregas.» Isto não é economês puro? (Ah, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não acolhe o termo «economês»...) Se alguém do século XIX, para não recuarmos mais, ressuscitasse, entenderia o que significa? Será, por outras palavras, «em sintonia»?

[Texto 2243]
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«Casamansa»

Eu lembro-me

      «O MNE da Guiné, Faustino Fuduti Imbali, disse entretanto que a ação dos homens vindos de Casamança não visava só atacar os Paracomandos, mas também as residências dos membros do Governo e das chefias militares para provar que as tropas dos países da Comunidade Económica dos Estados de África Ocidental (CEDEAO) não estão a fazer nada em Bissau e que é necessário a ONU autorizar a vinda das tropas da CPLP, fazendo regressar o contingente militar angolano que fora expulso de Bissau» («Bissau acusa Portugal por ataque a quartel», António Nhaga, Diário de Notícias, 23.10.2012, p. 24).
      Mas não escreviam «Casamansa»? Escreviam pois, que eu lembro-me: «Aquele local — próximo da vila de São Domingos, no Noroeste da Guiné-Bissau e junto à fronteira com o Senegal — está cercado há vários dias pelas forças militares de Bissau» («Bombas contra os rebeldes de Casamansa», Manuel Carlos Freire, Diário de Notícias, 14.4.2006, p. 14). O Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, é Casamansa que regista, na página 223.
[Texto 2242]
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«Homicídio por negligência»

Negligência, sim

      «O processo aos cientistas acusados de homicídio na sequência do terramoto ocorrido em 2009 na cidade de Áquila, em Itália, que matou 309 pessoas, conheceu ontem o veredicto. Os seis cientistas italianos e um ex-oficial do Governo foram acusados de “negligência e imprudência” por não terem fornecido com exatidão dados sobre o terramoto, de 6,3 de magnitude, que provocou a morte de várias pessoas. O tribunal regional onde estavam a ser julgados condenou-os a seis anos de prisão por “homicídio por imprudência”, avançou a AFP. Em protesto, o advogado de um dos acusados, Alfredo Biondi, disse que “não se pode julgar a ciência”» («Cientistas condenados por terramoto», Diário de Notícias, 23.10.2012, p. 27).
      A imprensa italiana fala em omicidio colposo (na verdade, omicidio colposo plurimo e lesioni colpose), que se poderá traduzir por homicídio por negligência. Hoje de manhã, no Bom Dia Portugal, o jornalista João Tomé de Carvalho foi nestes termos que se exprimiu. E será mesmo um «ex-oficial do Governo», como também este jornalista disse, ou «responsável governamental»?
[Texto 2241]
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«Crise dos mísseis»

Importante, mas

      «No seu texto, Fidel aproveita ainda para lembrar a Crise dos Mísseis, de há 50 anos. “Cuba não teve nada a [sic] ver com a arma nuclear”, escreve, acrescentando que a conduta da ilha foi “eticamente inatacável”. Lembrando que só aceitou a ajuda russa para se defender dos planos dos norte-americanos de invadir Cuba, Fidel conclui: “Nunca pediremos desculpa a ninguém pelo que fizemos. A verdade é que já passou meio século e continuamos aqui, de cabeça erguida”» («Fidel: “Nem me lembro o que é uma dor de cabeça”», Susana Salvador, Diário de Notícias, 23.10.2012, p. 26).
      Será que a expressão realçada a amarelo merece as maiúsculas iniciais? Não me parece — nem nunca antes tinha visto.
[Texto 2240]
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Sobre «amiguismo»

Agora sim

      «Ou seja, [Alberto da Ponte] contrata sem fazer concurso, sem cuidar da existência de outras empresas que fizessem o mesmo trabalho por um preço mais baixo. Erro: não se escapou de acusações de amiguismo por parte da Comissão de Trabalhadores da empresa que agora dirige» («Falsa partida», Nuno Azinheira, Diário de Notícias, 22.10.2012, p. 52).
      Há dois anos, eu escrevia aqui que, se quiséssemos mesmo ler uma definição do vocábulo «amiguismo», tínhamos de consultar um dicionário espanhol. Agora já não é assim, pois o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o: «preferência dada a alguém que tem poder a familiares ou amigos, independentemente do seu mérito pessoal; favoritismo».
[Texto 2239]
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«Copeque», mas já foi «copeca»

Contou o Pápotchka

      Numa loja, duas senhoras conversavam esta manhã: «O arroz-doce ainda está em promoção, e por isso continua a não haver.» Fez-me lembrar aquela anedota do preço dos ovos na antiga União Soviética. Uma senhora entra numa loja e pergunta o preço dos ovos. O merceeiro responde-lhe que estão a 30 copeques a dúzia. «Ali na loja em frente estão a 26!» «Então porque não vai lá comprá-los?» «Não têm, estão esgotados.» «Pois então, quando eu não tiver, também os vendo a esse preço.»
      Em português, a centésima parte do rublo já se escreveu «copeca», que é a forma ainda hoje usada em castelhano.
[Texto 2238]
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Símbolos de unidades de medida

Está na hora

      «O paraquedista caiu de bruços em terra batida perto de uma ruína e à velocidade calculada de mais de 300 kms./hora. O salto previa uma queda livre durante 20 ou 30 segundos, a que se seguiria a abertura do paraquedas» («Paraquedista inglês morto era um praticante experiente», José Manuel Oliveira, Diário de Notícias, 22.10.2012, p. 20).
      O jornalista não terá nunca tido notícia de que os símbolos técnicos não têm plural nem são seguidos de ponto abreviativo?
[Texto 2237]
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A língua no dia-a-dia

2280 sem IVA

      Um «comercial» da oficina de caixilharia de alumínio veio aqui ao prédio tomar as medidas para uma porta nova com as caixas de correio para fora. Quase um executivo. Com iPhone. Instantes depois, já me estava a entregar a declaração de conformidade, o título de registo da empresa e o orçamento, no qual se lê que são «22 caixas do correio formato A4 omolgadas pelos C. T. T.». Não lhe será adjudicado o trabalho, não por ter amolgado a ortografia, mas porque já tenho um orçamento que se fica pelos 1900 euros.

[Texto 2236]
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Dr. Hífen, traído

Nasceu um novo topónimo?

      Todos já ouvimos ou lemos Entre-Douro-e-Minho. Apareceu algo parecido. Foi nesta sinopse, que se pode ler no sítio da Leya, da obra Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, de Paulo Feytor Pinto: «Neste livro apresentam-se todas as regras da ortografia em vigor em Portugal segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, de 1990. Tal significa que inclui as regras que constituem novidade e que, por isso, estão devidamente assinaladas a vermelho, mas também as regras que se mantêm inalteradas. Além disso, diante da possibilidade de dupla grafia no conjunto dos países de língua oficial portuguesa, apresenta-se aqui a ortografia a utilizar em Portugal, em contextos formais, de acordo com a pronúncia da norma culta do português europeu, baseada no dialeto de entre-Lisboa-e-Coimbra, de acordo com o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa.»
[Texto 2235]
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Esqueceram-se do «pôr»

É inadmissível que se escreva assim

      «Rosário Rodrigues, desempregada de 44 anos, não tem medo do trabalho duro da agricultura. Instalada desde 2007 na aldeia de Pedra do Altar, no concelho de Proença-a-Nova, há muito que se agarrou à terra para dela tirar muito do que coloca na mesa, onde se senta com a filha» («O mercado onde o campo entra no saco de quem compra», Célia Domingues, Diário de Notícias, 21.10.2012, p. 32).
      «Coloca na mesa»! Como é que um jornalista pode escrever assim? Ouviu alguma vez os pais ou os avós falarem assim? Isto está a merecer uma petição no Facebook (que nunca será subscrita por mim, porque não estou no Facebook).
      «— O que eu disse, basta. E se o senhor entendeu, para que dizer mais? Monsenhor põe na mesa a mão enorme» (O Casamento, Nelson Rodrigues. Rio de Janeiro: Agir, 2006, p. 175).
[Texto 2234]
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Plural de «igualzinho»

Até prova em contrário

      «Por azar, nem o sr. Mendes nem a gente fixe em geral explica o que julgam restar do país depois de lixada a troika. Talvez imaginem uma folia permanente, na qual uma minoria convencida do seu esclarecimento usa o dinheiro da ralé para obter os privilégios que a ralé não alcança e não compreende. Ou seja, o costume. Não admira que a “cultura” à portuguesa viva agarrada ao Estado: no fundo, são igualzinhos» («Gente fixe», Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 21.10.2012, p. 55).
      Aqui, o sociólogo espalhou-se ao comprido. Ali onde está um l devia estar um i: iguaizinhos. Tanto quanto sei, o plural dos diminutivos faz-se juntando os sufixos -zinho ou -zito no plural às formas do plural das respectivas palavras primitivas, depois de suprimido o s final. Iguaizinhos, como animaizinhos, como jornaizinhos... Até parece que já estou a ver o comentário da Rainha das Palavras: «Pois, muito bem. E o que fazer quando o VOP, o vocabulário ortográfico oficializado em Portugal, regista “igualzinhos”? E esta, hein?» E não pode pensar pela sua régia cabeça? Compreender o que está bem e o que está mal?
      «Rubião pôs a cabeça de fora, recolheu-a e ficou a ouvir os cavalos das ordenanças, tão iguaizinhos, tão distintos, apesar do estrépito dos outros animais. Era tal a tensão do espírito do nosso amigo, que ainda os ouvia, quando já a distância não permitia audiência. Catrapus... catrapus... catrapus...» (Quincas Borba, Machado de Assis).
[Texto 2233]
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«Estada/estadia»

Agora ainda se lê mais

      «Estada. — Em vez disto lê-se agora muito estadia: “A estadia do negus na Palestina”. Morais não consigna estadia. Figueiredo apresenta esta palavra como têrmo jurídico: demora forçada de um navio no pôrto» (Glossário de Incertezas, Novidades, Curiosidades da Língua Portuguesa, e também de Atrocidades da Nossa Escrita Actual, Agostinho de Campos. Lisboa: Livraria Bertrand, 1938, p. 122).

[Texto 2232]
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«Dia a dia», segundo o AOLP90

Era só reler

      «Carregado de simbolismo, a verdade é que o traje usado pelos padres se torna pouco prático no dia-a-dia. Talvez os 33 botões verticais, em representação da idade de Cristo, ou os cinco em cada punho sejam desencorajadores até dos [sic] mais ligados à iconografia do clero. Para o padre Feytor Pinto, a questão da batina “é completamente secundária”. O seu uso, diz, “justifica-se em algumas situações específicas. No dia a dia não”» («O hábito faz o monge? Padres dizem que não», André Rito, Diário de Notícias, 21.10.2012, p. 15).
      No mesmíssimo parágrafo, ora com hífenes ora sem hífenes. Não há desculpa para semelhante desconformidade.
[Texto 2231]
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Condicional composto

Teria feito, sim

      «Em tempo: a frase “[Vasco] Cordeiro, que a última sondagem publicada favorece” é… referência a sondagem. Em dia de reflexão, tem efeito de propaganda, mesmo que não desejado. Se o DN tivesse estado calado faria melhor» («Respeitar o dia de o eleitor pensar pela sua cabeça», Oscar Mascarenhas, Diário de Notícias, 20.10.2012, p. 47).
      A forma composta do condicional (teria feito) não se emprega para indicar um facto que teria acontecido no passado sob certa condição? Se o DN tivesse estado calado, teria feito melhor. O DN teria feito melhor se tivesse estado calado. No outro lado do Atlântico, chamam futuro do pretérito ao condicional, sabiam?
[Texto 2230]
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Uso do itálico

Guardem-no para outras

      «Portanto, a indignação que se apodera das redes sociais não é contra um programa que mostre um concorrente a snifar coca, perdão Betadine, às escondidas. A indignação que se apodera das redes sociais é contra um possível favorecimento da apresentadora desse programa a determinados concorrentes. Para a coca e o voyeurismo da TV sobre ela o que é guardado é, pura e simplesmente, a curiosidade» («Desabafo mensal», Joel Neto, Diário de Notícias, 20.10.2012, p. 44).
      Se são ambas palavras portuguesas — passaram a ser —, não vejo para que serve o itálico.

[Texto 2229]
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Léxico: «tapa»

Prefiro as espanholas

      «Sem imagens captadas pelos repórteres fotográficos da casa, e sem poderem recorrer aos serviços da agência Lusa (que cumpria ontem o segundo de quatro dias de greve), a mesma fonte conta como se preencheram os espaços em branco do Público de hoje. “Provavelmente vai ser usada publicidade da casa, os chamados ‘tapas’ e, possivelmente, terá um número reduzido de páginas”» («Jornal que sai hoje foi feito por 25 pessoas», A. F. S. e R. C., Diário de Notícias, 20.10.2012, p. 40).
[Texto 2228]
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Só inglês

Justamente

      «Para Hélio Martins (agência Just), modelo há seis anos, licenciado em Educação Física e Desporto, ser modelo é uma “profissão com regras e obrigações como qualquer outra”. Pratica desporto regularmente, alimenta-se adequadamente, hidrata a pele diariamente, tem cuidados acrescidos com as mãos e os pés. “Nunca sabemos quando o nosso booker nos vai ligar a dizer que temos uma shooting, um desfile, logo temos de estar prontos a ir trabalhar”» («Os cuidados essenciais para um corpo quase perfeito», Catarina Vasques Rito, Diário de Notícias, 20.10.2012, p. 40).
      Não há palavras portuguesas para dizer o mesmo, querem ver? Mas tem de ser, não é assim?

[Texto 2227]
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«No Sabugal»

E todavia

      «Havia uma palavra que o fascinava. Talvez pela suavidade do som, porque nos poetas o vocábulo é sua forma de música. Palavra, à primeira vista, aparentemente banal, comum, vazia por dentro, sem ramos como a palavra “árvore” tem. A palavra que Manuel António Pina afagava, como se fosse um dos seus imensos gatos, era “todavia”» («Poeta e cronista da palavra original e irreverente», Francisco Mangas, Diário de Notícias, 20.10.2012, p. 38). E é uma boa palavra, pois com certeza. Todavia, nos tempos que correm, a preferência vai para «porém».
      E depois: «Com outras palavras, com a mesma singeleza, lega-nos uma obra múltipla e admirável. “A poesia vai acabar”, escreveu um dia, os poetas deviam ocupar “lugares mais úteis”. [...] Manuel António Pina nasceu em Sabugal, a 18 de novembro de 1943» (idem, ibidem). Sempre ouvi — e a quem mora por ali perto — «o Sabugal», «no Sabugal», etc. A última vez foi no dia 6 do corrente, em Belmonte.

[Texto 2226]
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«À vista desarmada/a olho nu»

E com aspas... Safa!

      «A proteção especial sugerida pela ARH visava evitar o impacte do estacionamento continuado na degradação ainda mais acelerada dos muros. Foi há um ano. Certo é que nem condutores nem as autoridades estão a cumprir as normas impostas. As anomalias são visíveis “a olho nu”: grandes fendas nos muros, desnivelamento de passeios, pavimento irregular» («Excesso de areia no Mondego ameaça muros ao longo do rio», Paula Carmo, Diário de Notícias, 20.10.2012, p. 19).
      «Quando se detetam gases como metano ou o etano num determinado ambiente, não é possível perceber à vista desarmada se eles foram produzidos por organismos vivos, ou se resultam simplesmente de processos geológicos» («Do Alentejo para Marte», Filomena Naves, Diário de Notícias, 20.10.2012, p. 33).
      E ambas na mesma edição. Já aqui vimos o que é nosso e o que foi emprestado. Emprestado a quem não precisava.
[Texto 2225]
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Como se escreve nos jornais

Desmazelo

      «O rio [Mondego] tem 234 metros de extensão mas é na cidade de Coimbra que o perigo das suas águas volta à ordem do dia. “O assoreamento, que prejudica a prática de desportos náuticos, a navegabilidade do barco turístico [“Basófias”] e está a provocar danos nos muros, é um problema grave” admite ao DN o atual presidente da Câmara Municipal de Coimbra. “Não podemos deixar que aconteça uma desgraça em Coimbra”, alerta» («Excesso de areia no Mondego ameaça muros ao longo do rio», Paula Carmo, Diário de Notícias, 20.10.2012, p. 19).
      É verdade que há, com espanto o comprovo, algumas divergências sobre a extensão do rio Mondego, mas, ao que sei, ninguém jamais afirmou que era de 234 metros. Uma releitura a tudo o que escrevem não faria mal.
[Texto 2224]
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Tudo é possível dizer

Não é assim?

      Tudo (ou quase...) é possível dizer nesta língua, por mais intricado: «Advertiu Angelino em que Preciosa chorava, e ela, que no seu reparo fez advertência, lhe disse» (Alegoria Sagrada intitulada a Precioza. Em que se descreve, com rara, e singular elegancia, a peregrinação da alma nesta vida, para a eterna. Escrita pela muyto Religioza Senhora Jozefa Téreza dos Serafins. Monja Cisterciense, em o Real Mosteyro de Odivelas. 1722, mss., 454 pp., 23 caps. ANTT: Manuscritos da Livraria, 2038).
[Texto 2223]
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Não é «beneficiência»

Que lhe chegue a notícia

      Jornalista Fátima Marques Faria às 20h42 no Telejornal de ontem: «Ironia, humor e sentido de autocrítica. Este foi o menu principal de um jantar de beneficiência que ontem à noite juntou Barack Obama e Mitt Romney à mesma mesa.»
      Não está no Prontuário Sonoro este erro de todos os dias? Devia estar. Vou sugerir que o incluam.

[Texto 2222]
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Sobre «conflitivo»

Mas não precisamos

      «Conflictivos», acabei de ler num texto em língua portuguesa. Mas conflictivo é espanhol (e mais próximo, como quase sempre nestas comparações, do étimo latino). Suponho, no entanto, que o autor consentirá somente em aspar o c, ficando «conflitivo», que até hoje só li em textos escritos por brasileiros. Para o Aulete, que o regista, é o «que tem caráter conflituoso, colidente; conflitante». Também «conflitante» nunca é visto por cá... A mesma língua, sim, mas com bastas diferenças.
[Texto 2221]
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Sobre «misoginia»

Não para nós

      «O que é um misógino? É alguém que odeia mulheres, ou alguém que tem um preconceito profundo contra elas? O dicionário australiano Macquarie, considerado a autoridade no inglês da Austrália, resolveu mudar a definição, na sequência de um debate, quando a primeira-ministra, Julia Gillard, acusou o líder da oposição, Tony Abbott, de sexismo e misoginia. [...] E uma semana depois, surge novamente com a decisão do dicionário de mudar a definição de misoginia não só para “um ódio patológico às mulheres” mas também “um preconceito enraizado contra as mulheres”. A editora do dicionário, Sue Butler, explicou: “Havia uma definição, de ódio, mas não é assim que a palavra tem sido usada nos últimos 20, 30 anos, especialmente na linguagem feminista”, disse à rádio ABC» («A misoginia segundo Gillard já está no dicionário», Maria João Guimarães, Público, 17.10.2012, p. 23).
      Na Austrália e na língua inglesa, pois segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é o «horror ou aversão às mulheres», que é a acepção mais imediatamente derivada do étimo, e a «aversão patológica do homem ao contacto sexual com as mulheres».
[Texto 2220]
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«Perguntado»

A ignorância é mãe de todolos erros

      Quem é que disse que não se podia escrever assim? «Demócrito, Philósofo de alta estatura, perguntado porque razão casàra com mulher pequenita, respondeu: Do mal, o menos» (Rafael Bluteau, in Vocabulario Portuguez & Latino, Aulico, Anatomico, Architectonico, Bellico, Botanico, Brasilico, Comico, Critico, Chimico, Dogmatico, Dialectico, Dendrologico, Ecclesiastico, Etymologico, Economico, Florifero, Forense, Fructifero... autorizado com exemplos dos melhores escritores portugueses, & latinos..., Coimbra, no Colégio das Artes da Companhia de Jesu, 1712–1728, p. 543).
[Texto 2219]
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«Preciso»

Parece invariável

      «Preciso. — Bons escritores cometem erros feios por falta de reflexão. Exemplo: “Para traduzir êsse poder de visão era-lhe preciso uma língua ágil e vibrante”.
      Correcto será: “Era-lhes precisa uma língua...”, assim como: “Para pregar o quadro na parede são-me precisos pregos e é-me preciso um martelo. Ao sapateiro são precisas tachas para pregar os tacões”. O adjectivo concorda com o substantivo em género e número, diz a gramática elementar; mas, como nas expressões é preciso trabalhar, é preciso viver (ou necessário, indispensável, etc.) parece invariável, esta aparência faz escorregar muita gente naquela incoerência» (Glossário de Incertezas, Novidades, Curiosidades da Língua Portuguesa, e também de Atrocidades da Nossa Escrita Actual, Agostinho de Campos. Lisboa: Livraria Bertrand, 1938, p. 249).
[Texto 2218]
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Sobre «mal-entendido»

Se estou a ver bem

      Toda a gente sabe (?) que «mal-entendido» é galicismo (de malentendu) facilmente substituível por termo português, mas agora interessa-me outro aspecto. Quando entrou na nossa língua? Para o Dicionário Houaiss, a primeira abonação é do século XIX. Mas não é a mesma palavra (grafada então mal entendido) que lemos na obra, datada de 1630, o Casamento Perfeito, de Diogo de Paiva de Andrada? «Não persuadimos pelo menos às que são ricas, e servidas, que tudo sejam rocas, e almofadas, porque não faltam outras ocupações, e exercícios, em que possam gastar algumas horas, como ler por livros devotos, que é a lição mais conveniente, e acomodada para toda a gente cristã; ou também de histórias, contanto que não sejam lascivas, nem amorosas; porque nestes há muitos perigos, mal-entendidos que às vezes causam danos bem certos» (Casamento Perfeito, Diogo de Paiva de Andrada. Lisboa: Jorge Rodriguez, 1630, pp. 184–85 [ortografia actualizada por mim]).
      Apenas se a palavra do excerto da obra de Paiva de Andrada for um adjectivo, mal interpretado; incompreendido; mal apreciado, é que não se tratará de galicismo. E é certamente assim. «Porque nestes há muitos perigos mal-entendidos que às vezes causam danos bem certos». Escreverem-se ambos, adjectivo e substantivo, da mesma forma, e não é o único caso na ortografia (ou ortografias...) actual, não ajuda a distinguir.
[Texto 2217]
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«Ter direito a»

De quem é o direito?

      O tal engenheiro queimado por mil sóis africanos chegou ontem muito atrasado à reunião com o empreiteiro e deitou logo as garras de fora: «Têm direito a uma multa de 2,5 % por cada semana de atraso na obra. Façam as contas.» Garras rombas, afinal. Está errado, Sr. Eng.
[Texto 2216]
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«Enquanto damas»

Agora não

      «Não lhes aprovamos maiores estudos, enquanto Damas. Preferimos vê-las revolvendo jasmins em vez de um Tito Lívio, rociando-se com água de âmbar e não suando com a Arte Poética de Escalígero», escreveu D. Francisco de Portugal (1585-1632) na Arte de Galanteria. Cá está: «enquanto damas».

[Texto 2215]
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Açoriano, açoreano, açorano, açorense

Pois é, mas

      Aqui esta professora universitária escreve então «legado camoneano». Ora, como sabemos, o adjectivo relativo a Camões ou ao que se assemelha ao estilo de Camões grafa-se com i, camoniano. No Ciberdúvidas, pode ler-se: «No entanto, alguns dicionários registam a forma açoreano como variante ortográfica de açoriano, uma vez que até 1911 houve grande variação na grafia da vogal de ligação. Note-se ainda que foneticamente não há diferença entre iano e -eano.» Não sei se é assim, se há dicionários que registam «açoreano». Sei é que se vê com alguma frequência. Mesmo em obras revistas: «Eu queria alçar à minha janela uma bandeira açoreana em homenagem ao dom de José Medeiros» («É sempre a mesma canção», in Crónica Feminina, Inês Pedrosa. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2005, p. 389). Alçar uma bandeira...
      Vários autores — e entre eles Leite de Vasconcelos e Botelho de Amaral — defendem que é «açoreano» que se deve escrever, ou, se não se quiser manter o e, «açorano». Estes autores estabelecem comparação com o topónimo Maçores, cujo gentílico é maçorano.
[Texto 2214]
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«O facto de o meu quintal ser»...

Portanto, ele sabia...

      ... ou parece que sabia. Estará assim no autógrafo da arca? Fernando Pessoa citado na revista Portucale (p. 191) datada de 1950: «O bom regionalismo é amá-lo por ele estar na Europa. Mas quando chego a este regionalismo, sou já português, e já não penso no meu quintal. (O facto de o meu quintal ser inteiramente metafórico não diminui a verdade de tudo isto: Deus, e o próprio universo, são metáforas também.)»
[Texto 2213]
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Placares e ateliês

Bem podia ser

      «“As mãos que cosem estas roupas já andaram de armas na mão. Eis o que fazem estas mãos hoje em dia pela Colômbia”, anuncia um placard à porta do seu ateliê, no primeiro andar de um imóvel de tijolo, praticamente anónimo, num bairro popular de Bogotá» («Paz na Colômbia: um novo modelo para o antigo alfaiate das FARC», Diário de Notícias, 15.10.2012, p. 26).
      Estávamos à espera que ambas aparecessem aportuguesadas ­— tanto mais que já o têm feito. Não que eu aprecie a palavra placard, bem pelo contrário. «O edifício ficou assim excluído de uma iniciativa que ontem concedeu a Times Square — a praça onde confluem algumas das maiores avenidas da cidade — uma aura azulada, proveniente das luzes de edifícios e placares» («Católicos celebram os cem anos do nascimento da ‘santa dos pobres’», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 27.08.2010, p. 29).

[Texto 2212]
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Léxico: «fundeadouro»

E aqui fica

      «Contudo, a hipótese só poderá ser confirmada com o avanço de trabalhos de escavação que, consoante os resultados obtidos agora, poderão realizar-se em 2013, já que a zona pode ter servido apenas como fundeadouro, referiu o mesmo investigador» («Arqueólogos procuram sinais de barco romano no Arade», Diário de Notícias, 16.10.2012, p. 30).
      É palavra que pouco se vê, dada a especificidade do seu uso, e por isso merece ser aqui lembrada.

[Texto 2211]
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«Virgemmente»

Deixa-me ver...

      Com dois mm? Hum... Comummente, claro. E virgemmente! «Não fui alguém./ Minha alma estava estreita/ Entre tão grandes almas minhas pares,/ Inutilmente eleita,/ virgemmente parada.» Fala o infante D. João pela boca de Fernando Pessoa, na Mensagem. «Virgemmente é uma das muitas palavras arbitràriamente fabricadas por Fernando Pessoa. Virginalmente é que é palavra portuguesa», escreveu, talvez virgineamente purpureado, João Ilharco no Libelo contra a Poesia Modernista (Coimbra, 1955).

[Texto 2210]
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«Canábis/cannabis»

Ao sabor dos humores e saberes

      «O ministro da Educação francês, Vincent Peillon, gerou controvérsia ao defender um debate sobre a despenalização do consumo de canábis. Segundo a AFP, o ministro socialista disse, no domingo, durante o programa Tous Politique [sic], que a despenalização do consumo de canábis poderia ser uma forma de lutar contra o tráfico de drogas» («Polémica sobre canábis em França», Diário de Notícias, 16.10.2012, p. 27).
      Muito bem. Canábis e não, como habitualmente escrevem, cannabis. O problema é que hoje escrevem assim e amanhã, para nossa desilusão e desespero, já escreverão cannabis. Não têm ninguém que uniformize e tente estabelecer critérios.
[Texto 2209]
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Léxico: «concertino»

Desafinado

      «Primeiro, enquanto judeu polaco, [Michel Schwalbé (1919–2012)] foi inevitavelmente afetado pela II Guerra Mundial. Por “sorte”, este aluno de Enescu (ganhou o Prémio Sarasate de 1938) estava em Paris em 1940 (na Polónia natal, suas mãe e irmã acabariam em Treblinka...). Foge para Lyon, onde é nomeado concertino da Orq. Sinf. de França» («De fugido do nazismo a concertino da era-Karajan», B. M., Diário de Notícias, 15.10.2012, p. 43).
      Concertino: «chefe de naipe dos primeiros violinos de uma orquestra». Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porque na definição do Houaiss é, «hierarquicamente, o segundo de cada naipe de cordas numa orquestra». Quanto ao resto... «suas mãe e irmã»? «Era-Karajan»?

[Texto 2208]
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Sobre «avocar»

Nunca vira

     «Sidónia Silva, 18 anos, estudante de Fenais da Luz que votou ontem pela primeira vez, diz ter “esperança que isto vire”. E se a maioria do PS se concretizar, não tem dúvida de que é por causa do que o governo central fez (como aliás o próprio primeiro-ministro acaba de reconhecer, avocando a si a responsabilidade da derrota antes da declaração de Berta, que só falará às 21 horas), mas tudo “porque quem nos meteu nisto foi o Sócrates – que é do PS, não é?”» («A maioria absoluta para o PS veio do Continente», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 15.10.2012, p. 8).
     Avocar é chamar a si — responsabilidades, por exemplo, sim —, mas nunca antes li o verbo empregado neste sentido. É muito usado em Direito: chamar a um tribunal uma causa ou processo que corria por outro.
[Texto 2207]
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«Madrugueiro»?

Do galego

      «Dawn ships clouted aground». «Madrugueiros barcos retidos em terra». Nunca tinha lido ou ouvido o vocábulo. «Queria dizer: margueiro, madruguei, madrigueira, madrugueis?», pergunta, de novo solícito, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora em linha. O dicionário da Real Academia Galega não o regista, mas é termo galego. Sol madrugueiro, non dura o día enteiro.
[Texto 2206]
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Léxico: «reptilíneo»

Não cabe nos dicionários?

      «A seu ver, não estaria ainda terminada a hominização do homem. Os três estádios da sua evolução — reptilíneo, mamífero e humano — coexistiriam nas várias partes do cérebro» (As Grades e o Rio, Urbano Tavares Rodrigues. Porto: Editorial Inova, 1974, p. 123).
      «Queria dizer: rectilíneo?», pergunta, solícito, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora em linha.

[Texto 2205]
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Sobre «pub»

Pâbes ou tascas finas

      «Quando se fala de universitários e pubs, a primeira imagem que vem à cabeça não é a de grupos de estudantes a fazerem um inventário de todas as típicas public houses (casas públicas) de Londres para apresentar a sua candidatura a Património da Humanidade. Mas é isso que está a acontecer na Universidade de Kingston. Os alunos de Arquitetura uniram-se para mostrar à UNESCO as razões para a preservação destes pontos de encontro da sociedade britânica» («‘Pubs’ de Londres querem ser património da UNESCO», Susana Salvador, Diário de Notícias, 13.10.2012, p. 47).
      Prossegue a bom ritmo o objectivo de tornar os portugueses fluentes na língua inglesa. Casas públicas... A definição de pub mais curiosa é a do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa: «Estabelecimento onde se servem bebidas alcoolizadas, especialmente na Grã-Bretanha, e que entretanto começou a vulgarizar-se em Portugal.» A única indefinição é sobre este «entretanto».

[Texto 2204]
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Léxico: «estufeiro»

Não só nem principalmente

      «“Há uma nova geração que surge com esta coisa maravilhosa que foi a democracia em Portugal. Que saíram para estudar e voltaram.” Aos 46 anos, José Carlos Frias parece falar como se tivesse muito mais – mas porque, apenas, viu mudar radicalmente a sua terra. Filho de um estufeiro sindicalista da Fajã de Baixo, São Miguel (a terra de Natália Correia) – “Era uma profissão muito nobre aqui nos Açores, a de quem cuida da produção do ananás desde o cultivo da planta até o ver crescer”» («Bom tempo no canal», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 14.10.2012, p. 27).
      Quase todos os dicionários afiançam que estufeiro é o que faz estufas. O que me parece, e as palavras de José Carlos Frias comprovam, é que nem todos os estufeiros fazem estufas: alguns, talvez a maioria, trabalham nas estufas. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, também é aquele que faz estufas. Contudo, no Dicionário de Português-Inglês da Porto Editora, o termo inglês correspondente a «estufeiro» é greenhouse keeper — que não é quem faz estufas. Mais perto da verdade anda o Dicionário Houaiss, que define como estufeiro o indivíduo que se ocupa de estufas. Semear, plantar, mondar, sachar, regar, colher... Também comprovei que todos os dicionários ignoram os leiveiros...
[Texto 2203]
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Léxico: «Mindanaus»

Deixou de se ver

      De dicionário para dicionário, já o comprovámos mais de uma vez, consoante nos aproximamos da actualidade, inúmeros verbetes deixam de ser registados. Mindanaus, por exemplo, gentílico que se lê na obra do P. António Vieira e na Peregrinação de Mendes Pinto, deixou de estar nos dicionários. O Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa de Cândido de Figueiredo (Lisboa: Livraria Bertrand, 1945, 10.ª ed.) ainda o regista. «Mindanaus, m. pl. Habitantes de Mindanau.»
[Texto 2202]
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«Uma das top model»?!

Esta não anda

      «Namorar com uma das top model mais aclamadas dos últimos tempos parece não ser o suficiente para o craque da bola. De acordo com informações publicadas na última edição da revista italiana Novella 2000, Cristiano Ronaldo teria tentado uma aproximação com a namorada de Boateng» («Ronaldo troca mensagens com noiva de Boateng», Nuno Cardoso, Diário de Notícias, 13.10.2012, p. 53).
      Agora já não fazem a concordância em nenhuma língua, nem em português nem em inglês. Então não é «uma das top models»? Tão mal andamos?
[Texto 2201]
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O império da informática

Esta não morde

       «Os jornalistas sabem disto. Sabem-no. Infelizmente, esta terrível crise apanhou o sector dos media em aflição. Resultado: é aproveitar o soundbyte a cada oportunidade. E, portanto, aí vamos nós, sensacionalismo fora, justiceirismo atrás de justiceirismo, incendiando os ânimos» («Tempos terríveis», Joel Neto, Diário de Notícias, 13.10.2012, p. 52).
      Já vimos que é sound bite ou soundbite que se escreve, não sound byte. E «media» — sem acento, sem itálico, sem aspas — arrasa-me os nervos. Ter-se-ão os leitores já habituado? É o que vamos saber.

[Texto 2200]
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Como se escreve nos jornais

Ora esta

      «No total, foram exibidas mais de cem fotografias durante a audição do detetive Ricardo Yanes, um dos elementos da Polícia de Nova Iorque responsáveis pelo processamento do local do crime. O corpo estava posicionado no canto do quarto, junto à janela, completamente nu, de barriga virada para cima. O seu rosto estava inchado, todo negro e vermelho, com uma enorme ferida na parte superior da cabeça, que deixava ver o branco do crânio, e duas chagas no lugar dos olhos» («Fotos exibidas em tribunal mostram horror na morte de Carlos Castro», Alexandre Soares, Diário de Notícias, 13.10.2012, p. 22).
      Já todos tínhamos ouvido falar em «processamento de salsichas», por exemplo, nunca do local de um crime.
[Texto 2199]
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Infinitivo pessoal

Resta a eufonia, a música interior

      «Também Garrett era muito bom estilista, e aqui temos, no Frei Luís de Sousa: “Vai e deixa-te lá estar até veres chegar o bergantim.” Ver chegar era bastante para a clareza. Mais ênfase em veres do que em ver, não se lobriga. Resta a eufonia, a música interior: com veres cortou-se a série estar-ver-chegar. Seria isto?... Ao certo não sabemos nada, por muitas regras que a Gramática nos dê» (Glossário de Incertezas, Novidades, Curiosidades da Língua Portuguesa, e também de Atrocidades da Nossa Escrita Actual, Agostinho de Campos. Lisboa: Livraria Bertrand, 1938, p. 149).
[Texto 2198]
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A dengue

Não quis saber

      Hoje ofereceram-me o Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa de Cândido de Figueiredo (Lisboa: Livraria Bertrand, 1945, 10.ª ed.). Lá está «dengue» (p. 434) registada como sendo do género feminino. O tal «sábio» estava mesmo enganado. Não se quis dar ao trabalho de pesquisar, foi o que foi.

[Texto 2197]
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«Fazer o possível»

E os impossíveis

      «Fazer o possível. — Assim dizem os cultos. O povo, porém, ouviu e aperfeiçoou: Farei os impossíveis — ouve-se na Beira e alhures. Assim a expressão, quer era baça e somítica, se tornou mais imaginosa, mais amável, e portanto mais expressiva» (Glossário de Incertezas, Novidades, Curiosidades da Língua Portuguesa, e também de Atrocidades da Nossa Escrita Actual, Agostinho de Campos. Lisboa: Livraria Bertrand, 1938, p. 136).
[Texto 2196]
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«Entrevistar a testemunha»

Coisas dos amaricanos

      «A procuradora do caso, Maxine Rosenthal, foi a primeira a entrevistar a testemunha. Fez Vanda Pires recuar dois anos, até ao dia em que ouviu o nome Renato Seabra pela primeira vez. A 23 de outubro de 2010, pelo Facebook, Castro contava-lhe que ia aos EUA com “alguém muito especial” e “pedia segredo” da identidade do seu companheiro» («Últimos dias de Carlos Castro recordados no julgamento de Seabra», Alexandre Soares, Diário de Notícias, 11.10.2012, p. 19).
      Desde as Ordenações que as testemunhas eram inquiridas em tribunal — agora passaram a ser entrevistadas. Esperemos que seja apenas nos Estados Unidos da América.
[Texto 2195]
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«Sine data»

Para variar

      «A empreitada, orçada em 16 milhões de euros, visa permitir que circulem na Linha Verde comboios com seis carruagens, algo que, uma vez prolongado o cais, vai continuar a não ser possível. Isto porque, para que tal acontecesse, seria necessário que a estação de Arroios fosse também intervencionada – um investimento que foi adiado sine data. [...] É que, para que possam efetivamente circular na Linha Verde comboios de seis carruagens, também a estação de Arroios terá de ser intervencionada – uma empreitada que foi adiada sine data pelos conhecidos constrangimentos financeiros do Metropolitano de Lisboa, E. P. E., bem como da conjuntura económica do País» («Obras no Areeiro sofrem novo atraso e só vão acabar em 2014», Inês Banha, Diário de Notícias, 11.10.2012, p. 21).
      Quase nunca se vê esta locução latina — que significa o mesmo que sine die —, mas desta vez foi logo um par no mesmo texto. (A jornalista gostou tanto da locução, que quase repetiu a frase. Ninguém deu por nada.) Agora vejam lá é como a pronunciam.
[Texto 2194]
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Como se escreve nos jornais

Desnecessário, afinal

      «A polaroid do atual momento do sector dos media foi debatida no painel dedicado aos publishers (editores), durante o eShow Lisboa, organizado pela ACEPI» («Quebra de publicidade obriga jornais e TV a repensar negócio», Ana Marcela, Diário de Notícias, 11.10.2012, p. 31).
      Há muitas outras formas de dizer o mesmo, mas, para ficarmos na área da fotografia, não seria melhor «instantâneo», por exemplo? Que alguns dicionários não registam nesta acepção. E, afinal, fica demonstrado que não precisava de ter usado o termo «publishers».
[Texto 2193]
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Toscana

Toscanejam

      «O estabelecimento [L’e’ Maiala!] de Donella Faggioli e do marido, Frank, encontrou uma nova forma de combater a crise: aceita vegetais e outros bens de consumo em troca de uma verdadeira refeição da Toscânia, a região de Itália onde fica Florença» («No L’e’ Maiala! trocam-se bens por refeições», Diário de Notícias, 11.10.2012, p. 9).
      Senhor jornalista, então em português não é Toscana que se diz? Ah, sim, também está no Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, na página 1014.
[Texto 2192]
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«Dengue», mais uma vez

Esqueçam isso

      «“O vírus tem quatro serotipos identificados. No caso da Madeira, revelou fortes semelhanças com o serotipo um que circula na Colômbia e na Venezuela. Todos os serotipos provocam febre do dengue, mas este aparentemente está associado a quadros mais benignos e ao surgimento de mais casos em menos tempo”, explicou ao DN Maria João Alves, responsável pelo Centro de Estudos de Vetores e Doenças Infecciosas do INSA» («Dengue na Madeira menos grave mas mais contagioso», Ana Maia, Diário de Notícias, 10.10.2012, p. 17).
      O tal «sábio» é que escrevia que só tinha encontrado o género feminino para a doença na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Já não seria pouco, mas não: Rebelo Gonçalves, na página 319 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa, regista-o como feminino.
[Texto 2191]
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Aportuguesamento: «napalme»

Estranho seria que não

      Aportuguesada, pois. Conheço várias abonações, Luísa, mas deixo-te só uma: «Votou-se ainda o teor dum telegrama, mais incendiário que uma bomba de napalme, a dirigir ao presidente da Duma e, depois de muitos vivas e morras, abraços e parabéns, cada mocho foi para seu soito a ruminar na noitada» (Um Escritor Confessa-se, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Bertrand Editora, 1974, p. 179).
[Texto 2190]
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Léxico: «tranqueira»

Quase obscuro

      Podemos estar sempre a aprender, se quisermos, se mantivermos os olhos abertos. Hoje, por exemplo, fiquei a conhecer a palavra «tranqueira» na acepção de cercado de madeira para fortificar. Esta a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Tranqueira de Balibó, tranqueira de Kailako... Em Timor. Nunca antes tinha visto. Obra de defesa indígena.
[Texto 2189]
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Rifoneiro

Grandes certezas

      «Não é “à”, mas “na”.» Já me tinha corrigido noutra ocasião. Desta vez não podia deixar passar em claro. Dá-me aí o Rifoneiro Português, de Pedro Chaves. Cá está: «Casa roubada, trancas à porta.» Expliquei pacientemente. Outro rifão semelhante e a significar mais ou menos o mesmo: «Porco morto, cevada ao rabo.»
[Texto 2188]
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«Dengue», de novo

Tudo na mesma

      Virgílio Nóbrega, jornalista da RTP Madeira, no Jornal da Tarde de ontem: «A população de mosquitos transmissores do dengue tem alastrado, mas, de acordo com o Instituto de Higiene e Medicina Tropical, está controlada e monitorizada.»
      E se os jornalistas consultassem mais amiúde os dicionários, não seria bom? A palavra «dengue», na acepção da doença infecciosa, é do género feminino. Só do género feminino. Espera aí... eu já tinha escrito isto! Os jornalistas repetem os mesmos erros.
[Texto 2187]
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«White cube»

Cubo branco

      Vou ter a coragem de ser humilde e admitir: eu não sabia o que era o white cube. Meu Deus. Quer dizer, literalmente, sabia o que era. No âmbito das artes plásticas, porém, remete para o conceito que designa a sala de exposição branca e neutra, cubo branco, onde até as cartelas das obras expostas escasseiam. Mas tem mesmo de estar em inglês?
[Texto 2186]
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Sobre «demão»

Sinónimo de «ajuda»

      Sim, «demão» também significa «ajuda». É verdade que as acepções mais usadas e conhecidas são outras: camada de tinta, cal, etc., que se aplica numa superfície e cada uma das vezes que se retoma um trabalho ou um assunto.
      «Aliás, não fosse querer dar uma demão na venda dos livros ao velho camarada e grande amigo Alberto Pratas e Isidro Pacheco que aquele lançamento promovera, não estaria ali» (O Autógrafo, Dias de Melo. Lisboa: Edições Salamandra, 1999, p. 77).
[Texto 2185]
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Baiona

Mas a memória

      «Aquilino Ribeiro Machado, que nasceu em Baiona, a cidade do Sul de França onde os pais estavam exilados, a 6 de abril de 1930, vivendo de seguida em Vigo e em Tuy (até o autor de Quando os Lobos Uivam regressar a Portugal, em 1932), licenciou-se em Engenharia Civil e começou a trabalhar na autarquia lisboeta em 1956, passando a diretor de serviços do Gabinete de Estudos e Planeamento do Fundo de Fomento da Habitação em 1969» («Primeiro presidente de Lisboa eleito depois do 25 e Abril», Diário de Notícias, 9.10.2012, p. 24).
      Muito bem — o pior é que se vão esquecer de que escreveram desta forma. Aliás, quase sempre escrevem Bayonne, como nesta notícia de Maio: «Há duas semanas, Valls [ministro do Interior francês], nascido em Espanha e naturalizado francêrs [sic], qualificou a ETA de “terrorista”, mostrando que a mudança política em França não altera este ponto. Oroitz Gurruchaga Gogorza e o seu número dois, Xabier Aramburu, estão em prisão preventiva em Bayonne» («Ministro francês em Madrid após prisão de etarras», Diário de Notícias, 29.05.2012, p. 29).
[Texto 2184]
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«Dengue» é do género feminino

Dêem-lhes uso


      Jornalista Filipe Gonçalves, no Telejornal de ontem: «A noite cai em Santa Luzia e a calma contrasta com a agitação causada pelo mosquito. Foi nesta zona que em 2005 apareceram os primeiros casos. Agora é o dengue que tira o sono a muitos residentes.»
      E se os jornalistas consultassem mais amiúde os dicionários, não seria bom? A palavra «dengue», na acepção da doença infecciosa, é do género feminino. Só do género feminino.
[Texto 2183]
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«Tratar-se de»

É disso que se trata

      Jornalista João Botas, no Telejornal de ontem: «Nas últimas décadas, as investigações de dois cientistas, um britânico e um japonês, provaram que também as células maduras podem ser reprogramadas e passarem a funcionar como se de células estaminais se tratassem.»
      Os leitores já não se satisfazem com questões formais, e por isso aqui fica uma substancial. A construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular. Erro é erro, mas, se é difundido pela comunicação social, é mais grave. E é menos desculpável se quem o dá é jornalista, como é o caso.
[Texto 2182]
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Unidades de medida

Têm alternativa

      «O norte-americano David Blaine planeia ficar durante 72 horas de pé, numa plataforma de seis metros de altura, sem comida, e ainda por cima no meio de uma tempestade de relâmpagos artificiais que têm uma potência de um milhão de volts. ‘Electrified: One Million Volts Always On’ é o nome do número de Blaine, que começou na sexta-feira, em Nova Iorque. E, se tudo correr bem, ele ficará assim até ao final do dia de hoje. O ilusionista, de 39 anos, é conhecido por protagonizar truques arriscados em que testa os limites do corpo. Para ficar no meio desta “tempestade elétrica”, Blaine usa um fato de malha metálica, que o impede de levar um choque, tem um sistema de ventilação para respirar e um capacete com um visor especial que o protege da radiação ultravioleta» («72 horas de pé, sob tempestade elétrica», Diário de Notícias, 7.10.2012, p. 42).
      As unidades de medida grafadas em itálico? Hum, não é preciso. E porque não escrevem «vóltio»? «Demasiado rebuscado», li algures. Não me digam. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, no verbete «vóltio», remete para «volt».
[Texto 2181]
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Mindanau

Ah, lembraram-se

      «O Governo das Filipinas e os rebeldes da Frente de Libertação Islâmica Moro chegaram ontem a um acordo preliminar de paz, que poderá pôr fim a quatro décadas de conflito. Segundo o acordado, o maior grupo separatista muçulmano renuncia à ideia de independência de Mindanau, em troca de autonomia. Os pormenores têm ainda que ser estabelecidos e sujeitos a referendo, temendo-se que o acordo possa acabar como outros no passado: em nada» («Um acordo de paz nas Filipinas para pôr fim a 40 anos de conflito», Susana Salvador, Diário de Notícias, 8.10.2012, p. 24).
[Texto 2180]
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Como se escreve nos jornais

Mil descuidos

      «D. Carlos I – que foi assassinado na Praça do Comércio a 1 de fevereiro de 1908, tal como o príncipe D. Luís Filipe – era um amante das prospeções marítimas na Arrábida, chegando aqui a passar longas temporadas, mesmo contra a oposição da Corte, que estava instalada em Cascais» («Aposentos reais abandonados e a saque em forte de Setúbal», Roberto Dores, Diário de Notícias, 8.10.2012, p. 20).
      Nada de especial, talvez, mas demonstra, mais uma vez, como não há qualquer espécie de revisão neste jornal.
[Texto 2179]
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Segundo o AOLP90

Já não é assim

      «O grupo parlamentar de Os Verdes questionou o Governo sobre a eventual destruição de dunas em Tróia para criar um novo acesso à praia, revelou ontem o partido. José Luís Ferreira disse ter alguns dados sobre conversações “para tornar a zona urbanizada da Soltróia num condomínio de acesso e uso privado”» («Verdes questionam Governo sobre Tróia», Diário de Notícias, 8.10.2012, p. 12).
      Com a adopção do Acordo Ortográfico de 1990, o topónimo Tróia (e o nome comum «tróia», nome de um antigo jogo que simulava um combate) perde o acento agudo, passando a Troia.
[Texto 2178]
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