Artigo nos topónimos

Teoria final

      «Vitorino Salomé Vieira nasceu no Redondo a 11 de junho de 1942, com muita música em casa. Os pais, tios, os quatro irmãos e até o barbeiro se faziam ouvir e cantar. Cantavam uns com os outros» («“O meu avô era o ‘pisa-flores’, sempre que bebia um copinho subia a rua com uma delicadeza que parecia pisar flores”», Júlio Isidro, Expresso, 16.07.2026, 6h45). 
      Vá lá, pelo menos Júlio Isidro e Vitorino Salomé — e aqui este vosso criado — dizem «o Redondo, no Redondo, ao Redondo». Nunca conheci ninguém, do Redondo ou a viver no Redondo, que omitisse o artigo definido. Se as há, e parece que sim, dirão talvez também «pra futuro», como certo ex-primeiro-ministro que, ganhando as eleições, perdeu o poder. Tenho, aliás, uma teoria sobre a origem desta tendência para omitir o artigo definido que tradicionalmente acompanha certos topónimos, como «o Redondo». Suspeito que tudo começou, aí por meados do século XX, na linguagem burocrático-administrativa, quando as câmaras municipais e outros organismos públicos passaram, sabe-se lá porquê, a escrever os nomes dessas terras sem artigo. O bom povo continuou a falar como sempre falara; os semialfabetizados e os pretensiosos, esses, trataram de imitar os burocratas. E assim se vai substituindo a língua viva pela língua dos impressos.
[Texto 23 809]

Como se escreve por aí

Problemas com os topónimos?

      «Contudo, alegrei-me: daria uma vista de olhos ao Cairo, ao seu museu e às pirâmides, atravessaria o Mar Vermelho e visitaria Adem antes de chegar a Bombaim» (Vislumbres da Índia, Octavio Paz. Tradução de José Colaço Barreiros e revisão de João Carlos Alvim. Lisboa: Relógio D’Água, 2017, p. 12). «A travessia foi agradável embora a monotonia da paisagem ao atravessar o mar Vermelho por vezes oprimisse o espírito: à direita e à esquerda estendem-se umas terras áridas e só levemente onduladas» (idem, ibidem, pp. 12-13).

[Texto 23 764]

Ortografia: «Dôver»

Nem os topónimos escapam


      «Um grupo de dezenas de manifestantes, muitos deles mascarados, bloqueou ontem o trânsito de entrada e saída do porto de Dover, o mais movimentado do Reino Unido, numa manifestação do grupo de extrema-direita Movimento Patriota, que pretende denunciar a chegada de migrantes através do canal da Mancha» («Manifestantes encapuzados de extrema-direita bloquearam porto britânico de Dover», Público, 6.09.2026, p. 31).
      Ainda os jornalistas têm, ou julgam ter ou dizem outros que eles têm, desculpa, mas nas traduções é o mesmo: se o topónimo está aportuguesado há larguíssimas décadas em Dôver, porque havemos de usar a grafia inglesa? Não têm brio, orgulho, em usar o que é nosso?

[Texto 23 480]

Sorbona, pois claro. Léxico: «igualizador»

Sejamos minoria


      Por vezes, o nome esconde a origem: estava escrito que um dia (que por acaso é hoje) saberiam que o nome Sorbonne (ou Sorbona, aportuguesado) para designar a célebre universidade de Paris era inicialmente o nome de um colégio (collegium) fundado em 1250 pelo teólogo Robert de Sorbon (1201-1274). Desde o século XIV este veio a ser a sede da faculdade de Teologia. Só no início do século XIX o nome se estendeu a toda a universidade. 

      Se puderem, se a mamã deixar, escrevam sempre Sorbona, só para contrariar a imparável vaga igualizadora: «Contra os ataques da Sorbona, Francisco I abriga os humanistas do Collége Royal, e a própria universidade é atingida pelo vírus: em 1533 o seu reitor Nicolau Cop, amigo de Calvino, pronuncia um discurso inaugural em que defende teses heterodoxas, com tal escândalo que teve de abandonar o cargo e refugiar-se em Basileia» (O Humanismo em Portugal, António José Saraiva. Lisboa: Edição do Jornal do Foro, 1954, p. 37).

[Texto 22 855]

Duala, Camarões

Parece mentira


      Então, c’um caraças, até no portal da Air France aparece Duala e os nossos jornalistas, apesar de advertidos mais de uma vez, insistem em escrever Douala?!

[Texto 22 853]

Topónimos não antecedido de artigo

Um caso paradigmático


      «O Reino Unido está a tomar “medidas ativas” em relação ao conflito no Médio Oriente, declarou o ministro da Defesa John Healey à Sky News. “Ativámos as nossas forças defensivas no Médio Oriente. Estamos a abater dornes [sic] que estão a ameaçar as nossas bases, o nosso pessoal ou os nossos aliados. E isto é uma situação muito séria e que se está a deteriorar”, elaborou, detalhando que Londres mobilizou aviões de guerra no Chipre e no Qatar» («Reino Unido “abateu drones” no Médio Oriente, anuncia ministro da Defesa britânico», Madalena Moreira, Observador, 1.03.2026, 9h57). 

      Um dia, que até pode ser hoje (e só não foi no domingo porque eu tinha outras prioridades), Madalena Moreira vai ficar a saber que não se diz «no Chipre», mas «em Chipre». Em rigor, nenhum nome próprio precisaria de ser antecedido de artigo, mas isso é outra história, que passaria por mostrar porque não é — como ouvimos até escritores, professores universitários, jornalistas — «o Camões» nem «o Helder Guégués», mas pode ser «o Macaco» ou «o Xuxas». Como poderá comprovar em qualquer dicionário decente, Madalena Moreira, cipriota é «referente a Chipre» ou o «natural ou habitante de Chipre». Há muitas vias e oportunidades para aprender.

[Texto 22 540]

Léxico: «sinedóquico»

Entre ignorância e omissão


      Há quem tenha descoberto anteontem que, afinal, «já» não se diz Holanda, mas sim Países Baixos. Aprenderam metade, felizmente e decerto por acaso, a mais importante. A outra metade é que só por um curto período, de 1806 a 1810, o país se chamou oficialmente Reino da Holanda (Koninkrijk Holland), com Luís Bonaparte, irmão de Napoleão, como rei. Em 1810, Napoleão anexou directamente o território ao Império Francês. Desde 1815, após a derrota de Napoleão em Waterloo, o nome do país é Reino dos Países Baixos (Koninkrijk der Nederlanden). Pelas minhas contas, ainda nenhum de vocês tinha nascido. Dito isto, Porto Editora, parece-me difícil justificar que em «holandês» continues a afirmar que é a «língua falada na Holanda». Ainda por cima sem nenhuma nota que explique o uso sinedóquico (Holanda é somente o nome de duas das doze províncias do país — era como chamar Alentejo a todo o Portugal) nem referência ao termo mais correcto: neerlandês.

[Texto 22 423]

Es heißt „Baviera“ auf Portugiesisch – merkt’s euch, ihr Zapfer!

Coisa de cervejistas


      Vou vendo — e corrigindo sempre — Bavária em vez de Baviera. É bem verdade que Rebelo Gonçalves, na página 155 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa, diz ser preferível a primeira, mas já então notava que o uso consagrou Baviera. Então, deixemos tudo como está. Aliás, Rebelo Gonçalves não acertou sempre.

[Texto 22 411]

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