Sorbona, pois claro. Léxico: «igualizador»

Sejamos minoria


      Por vezes, o nome esconde a origem: estava escrito que um dia (que por acaso é hoje) saberiam que o nome Sorbonne (ou Sorbona, aportuguesado) para designar a célebre universidade de Paris era inicialmente o nome de um colégio (collegium) fundado em 1250 pelo teólogo Robert de Sorbon (1201-1274). Desde o século XIV este veio a ser a sede da faculdade de Teologia. Só no início do século XIX o nome se estendeu a toda a universidade. 

      Se puderem, se a mamã deixar, escrevam sempre Sorbona, só para contrariar a imparável vaga igualizadora: «Contra os ataques da Sorbona, Francisco I abriga os humanistas do Collége Royal, e a própria universidade é atingida pelo vírus: em 1533 o seu reitor Nicolau Cop, amigo de Calvino, pronuncia um discurso inaugural em que defende teses heterodoxas, com tal escândalo que teve de abandonar o cargo e refugiar-se em Basileia» (O Humanismo em Portugal, António José Saraiva. Lisboa: Edição do Jornal do Foro, 1954, p. 37).

[Texto 22 855]

Duala, Camarões

Parece mentira


      Então, c’um caraças, até no portal da Air France aparece Duala e os nossos jornalistas, apesar de advertidos mais de uma vez, insistem em escrever Douala?!

[Texto 22 853]

Topónimos não antecedido de artigo

Um caso paradigmático


      «O Reino Unido está a tomar “medidas ativas” em relação ao conflito no Médio Oriente, declarou o ministro da Defesa John Healey à Sky News. “Ativámos as nossas forças defensivas no Médio Oriente. Estamos a abater dornes [sic] que estão a ameaçar as nossas bases, o nosso pessoal ou os nossos aliados. E isto é uma situação muito séria e que se está a deteriorar”, elaborou, detalhando que Londres mobilizou aviões de guerra no Chipre e no Qatar» («Reino Unido “abateu drones” no Médio Oriente, anuncia ministro da Defesa britânico», Madalena Moreira, Observador, 1.03.2026, 9h57). 

      Um dia, que até pode ser hoje (e só não foi no domingo porque eu tinha outras prioridades), Madalena Moreira vai ficar a saber que não se diz «no Chipre», mas «em Chipre». Em rigor, nenhum nome próprio precisaria de ser antecedido de artigo, mas isso é outra história, que passaria por mostrar porque não é — como ouvimos até escritores, professores universitários, jornalistas — «o Camões» nem «o Helder Guégués», mas pode ser «o Macaco» ou «o Xuxas». Como poderá comprovar em qualquer dicionário decente, Madalena Moreira, cipriota é «referente a Chipre» ou o «natural ou habitante de Chipre». Há muitas vias e oportunidades para aprender.

[Texto 22 540]

Léxico: «sinedóquico»

Entre ignorância e omissão


      Há quem tenha descoberto anteontem que, afinal, «já» não se diz Holanda, mas sim Países Baixos. Aprenderam metade, felizmente e decerto por acaso, a mais importante. A outra metade é que só por um curto período, de 1806 a 1810, o país se chamou oficialmente Reino da Holanda (Koninkrijk Holland), com Luís Bonaparte, irmão de Napoleão, como rei. Em 1810, Napoleão anexou directamente o território ao Império Francês. Desde 1815, após a derrota de Napoleão em Waterloo, o nome do país é Reino dos Países Baixos (Koninkrijk der Nederlanden). Pelas minhas contas, ainda nenhum de vocês tinha nascido. Dito isto, Porto Editora, parece-me difícil justificar que em «holandês» continues a afirmar que é a «língua falada na Holanda». Ainda por cima sem nenhuma nota que explique o uso sinedóquico (Holanda é somente o nome de duas das doze províncias do país — era como chamar Alentejo a todo o Portugal) nem referência ao termo mais correcto: neerlandês.

[Texto 22 423]

Es heißt „Baviera“ auf Portugiesisch – merkt’s euch, ihr Zapfer!

Coisa de cervejistas


      Vou vendo — e corrigindo sempre — Bavária em vez de Baviera. É bem verdade que Rebelo Gonçalves, na página 155 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa, diz ser preferível a primeira, mas já então notava que o uso consagrou Baviera. Então, deixemos tudo como está. Aliás, Rebelo Gonçalves não acertou sempre.

[Texto 22 411]

Léxico: «estromboliano»

Ou ilhas Eólias

      «Segundo Erik Klemetti, geofísico da Universidade de Denison (EUA), citado pelo site noticioso Nature World News, esta mais recente erupção aconteceu na nova cratera sudeste do vulcão e foi classificada como sendo [sic] “estromboliana” — isto é, uma erupção de relativamente baixa intensidade (a palavra deriva do nome de um outro vulcão, situado na ilha de Stromboli, ao largo da Sicília)» («Última erupção do Etna: um autêntico fogo-de-artifício», Ana Gerschenfeld, Público, 21.11.2013, p. 33).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-a (e não fui eu que lá a pus): «que se refere ao vulcão Estrômboli, nas ilhas Líparas (Lipari), italianas, no mar Tirreno; do mesmo tipo eruptivo do vulcão Estrômboli».
      Líparas não conhecia; em Xavier Fernandes tinha lido ilhas Lipárias, que é também como se lê na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, e é o que me ficou na mente. Isto dos dicionários... Ainda ontem um escritor me dizia: «Como é possível que no “Grande” e volumoso dicionário da Porto Editora falte “descaso”?» O que é curioso é que Cândido de Figueiredo o abona com uma citação de Filinto, embora não saiba o que significa: «inoportunidade?» É, ou foi, muito mais usado no Brasil.

[Texto 3560]

«Campos Elísios»

O que é que se diz?

      «A polícia diz que o homem, que se estima ter uns 40 anos, terá sido o autor de disparos, horas mais tarde, contra a fachada de uma das duas torres do banco Societé Générale [sic] no distrito financeiro da capital, sem provocar vítimas, e que obrigou um condutor a levá-lo para a zona dos Campos Elíseos» («Caça ao homem em Paris para encontrar o “atirador louco”», Maria João Guimarães, Público, 19.11.2013, p. 24).
      Aprenda aqui com Albano Matos, do DN: «Ainda a polícia estabelecia comparações com o homem que disparara no átrio do Libération quando apareceu um automobilista a jurar ter sido sequestrado perto de La Défense por um homem armado que o obrigou a conduzi-lo até à Avenida George V, perto dos Campos Elísios» («Caça ao homem em Paris para apanhar invasor do ‘Libération’», Albano Matos, Diário de Notícias, 19.11.2013, p. 23).
[Texto 3555]

Parece mentira: «Oxónia»

Depois de Lípsia...

      «— Escute… há tubarões fora da jangada. — Era de nacionalidade indefinida, mas falava inglês com o acento vagaroso e arrastado de Oxónia. — Ontem devoraram dois marinheiros ingleses, da esquadra do Golfo Juan» (Terna É a Noite, F. Scott Fitzgerald. Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Portugália Editora, 1966, 2.ª ed., p. 12).
[Texto 3387]

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