Léxico: «superlua»

Ou perigeu


      «Nesse dia [23 de Junho] vai ser possível contemplar a maior e mais brilhante lua cheia do ano, que vai ser entre 14% maior e 30% mais brilhante do que o habitual. [...] Se a meteorologia ajudar e não houver nuvens a cobrir o horizonte, será motivo para vir à janela espreitar a superlua, como é conhecido este fenómeno» («Maior e mais brilhante lua do ano a 23 de junho», Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 29.05.2013, p. 27).
      Superlua ou, como é mais conhecido, perigeu. Mas poderá ver-se se não houver nuvens no horizonte ou no céu?
[Texto 2899]
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Um toque de italiano

O sabor seria o mesmo

      «Mario De Biasi foi o grande repórter fotográfico do levantamento de Budapeste, em 1956, mas foi outra foto sua que me ficou estampada na memória. De Biasi é o autor da foto que teve o mesmo papel das alcachofras alla giudia, os contos de amores difíceis de Italo Calvino e as cores velhas de Roma – o de formar a minha ideia de Itália» («Olhares em vias de extinção», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 29.05.2013, p. 56).
      Até na poesia de Jorge de Sena há alcachofras à judia. Porquê só umas tinturas de italiano? Já agora, carciofi alla giudia. Ou a frase toda: «De Biasi è l’autore della foto che ha avuto lo stesso ruolo dei carciofi alla giudia, di storie d’amore difficile da Italo Calvino e dei colori vecchi di Roma – per formare la mia idea di Italia.» Ou toda a crónica: «Mario De Biasi è stato il grande fotoreporter della sollevazione di Budapest nel 1956, ma, etc.»
[Texto 2898]
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«Retrete à turca»

Já vi, em Portugal

      «No sábado, segundo contou às autoridades, terá dado à luz quando estava na casa de banho, com sanitários à turca (ao nível do chão), tendo o bebé caído» («Bebé retirado com vida de um cano de esgoto», Susana Salvador, Diário de Notícias, 29.05.2013, p. 25).
      «A senhora viu? Espreitou? Não sabia que se chama retrete à turca. Talvez seja mais limpeza, talvez, mas também se entopem. Aquilo é mesmo só pra se fazerem as necessidades. A gente o banho toma-o nos nossos quartos porque às vezes nem lá se pode entrar» (Este Verão o Emigrante là-bas, Olga Gonçalves. Lisboa: Moraes Editora, 1978, p. 135).
[Texto 2897]
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«O facto de»

Então, se é assim...

      «Por Charlie Sheen ter delapidado com escândalos o seu patronímico de duas gerações e por os nomes “latinos” serem hoje mais aceites nos EUA, assistimos a este regresso ao passado, oportunista como deve ser para quem está no mercado da fama» («O artista antes conhecido como Sheen», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 28.05.2013, p. 56).
      Estão a ver como Ferreira Fernandes não precisou de usar a muleta «o facto de»? Pois é. Por outro lado, porque há quase sempre outro lado, as aspas em «latinos» eram escusadas. Carlos Estévez não é um nome latino, ou seja, usado num país cuja língua deriva do latim e que foi influenciado pela civilização mediterrânica?
[Texto 2896]
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«Verdade verdadinha»

Os nossos queridos diminutivos

      «Verdade, verdadinha, a Noruega teve de fazer 32 poços para conseguir descobrir as suas reservas [de petróleo]», disse Ferreira de Oliveira, vice-presidente da Galp. («Só falta encontrar crude em Portugal», Diário de Notícias, 28.05.2013, p. 33).
      Expressão curiosa, não é? Como curiosas são as expressões «franqueza franquezinha» e «certeza certezinha». Nem sempre aparecem separadas por vírgulas.
      «E, verdade verdadinha, antes obedecer aos astros do que a outros. A nossa obediência aos astros é a um tempo involuntária e heróica. Involuntária, porque a vontade é a deles, e heróica, porque não há-de ser vencida pela dos humanos» (Nome de Guerra, José Almada Negreiros. Lisboa: INCM, 1986, p. 199).
      «– A sério, a sério, que não és capaz? Tens a certeza, Abel? A certeza certezinha?» (Contos da Montanha, Miguel Torga. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011, 2.ª ed., p. 110).
      «E formulei-me a proposição debaixo de tais palavras, visto que sou animal de ar livre, de claridade, dos primeiros impulsos, da franqueza franquezinha, e dado o meio em que vivemos porque me sinto deslocado e fora do tempo» (Estrada de Santiago, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Bertrand Editora, 1985, p. 57).
[Texto 2895]
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Léxico: «pasteleira»

É preciso ter força

      «Antigamente usavam-se as pasteleiras, o que requeria bastante mais esforço físico [diz a carteira Paula Pereira]» («“Os carteiros aproveitam e fazem manutenção ao corpo”», Joana Capucho, Diário de Notícias, 28.05.2013, p. 56).
      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, encontramo-lo no verbete de «bicicleta»: «bicicleta pasteleira: bicicleta pesada e robusta, com características que em geral já não são comuns em bicicletas actuais, como é o caso de sistemas de três velocidades, travões de alavanca e faróis alimentados com dínamo». Na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, ocorre explicitamente como substantivo: «Certa forma antiquada de bicicletas com o guiador alto, talvez por ter sido o seu uso comum entre os pasteleiros que faziam entregas aos domicílios» (Vol. XX, p. 571).
      E uma verdadeira pasteleira, daquelas pesadonas, uma Yé-Yé ou uma Vilar, não terá antes carreto simples?
[Texto 2894]
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«Precursor/percussor»

Só faltou percursor

      «“Em 1991, o Curso de Chinês na Missão de Macau era quase o único existente em Portugal, mas hoje em dia, os cursos de chinês encontram-se por todas as partes de [sic] país. Recebo constantemente pedidos para ensino de mandarim, por parte de instituições ou particulares”, conta a docente universitária Wang Suoying, que em conjunto com o marido[,] Lu Suoying, foram percussores do ensino da língua chinesa em território nacional a partir do início da década de 90» («Mandarim, uma língua do futuro», Liliana Duarte, Público, 25.05.2013).
      Não temos de memorizar os milhares de caracteres do mandarim, mas alguma coisa temos de memorizar. Percussor é o que percute, o que bate, e precursor é o que vai adiante, o que anuncia ou faz algo com antecipação. Os Suoyings foram precursores do ensino do mandarim, porque foram os primeiros a ensinar, em Portugal, esta língua.
[Texto 2893]
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Sobre «colégio»

Menos formal

      Ora vejamos: «Apesar de ter reunido um colégio de especialistas, que fez a despistagem das pinturas, a PJ não sabe ainda se o conjunto das pinturas foi feito por apenas um ou vários falsificadores» («Mais de 300 pinturas falsas de Palolo e Paula Rego apreendidas pela PJ», Vanessa Rato, Público, 25.05.2013, p. 28).
      «Colégio» remete sempre para uma ideia de corporação, de algo que permanece no tempo. O que a Polícia Judiciária fez foi contratar vários especialistas, e, até talvez de forma individual, ouvir a sua opinião sobre as pinturas.
[Texto 2892]
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«Falsos Palolo»?

Não pode ser

      Há diversos tipos de falta de concordância, de desconcordância. «De qualquer forma, a quantidade de falsos Palolo encontrados aponta para um inundar do mercado onde muitas das falsificações podem ter entrada [sic] há já bastante tempo» («Mais de 300 pinturas falsas de Palolo e Paula Rego apreendidas pela PJ», Vanessa Rato, Público, 25.05.2013, p. 28).
[Texto 2891]
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Optar pelo que é nosso

Et cetera

      Por vezes, o melhor seria os tradutores seguirem exactamente algumas das palavras que encontram do original. «In un passo decisivo dell’Etica Nicomachea, etc.» «Questo passo è stato citato innumeravoli volte, etc.» Ou então: trecho, excerto, relanço, lugar, etc. Outras vezes, pelo contrário, o mais acertado era procurarem, não por qualquer sanha persecutória, antes por amor à língua, formas mais vernáculas: «Mi rendo conto di essere forse, etc.» E escolherem algum dos sinónimos de que já falámos: advertir, atentar, cair na conta de, dar conta, dar fé, dar por, dar razão, enxergar, observar, reconhecer, etc.
[Texto 2890]
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«Bagagem de cabina»

Tragam a fita métrica

      Então e sabiam que «50 cm por 40 cm e 20 cm é o novo limite que os passageiros da companhia aérea [easyJet] terão de cumprir para a bagagem de cabina»? («EasyJet tem novo limite de tamanho para as malas de cabina», «Liv»/i, 25.05.2013, p. 3).
      Mero pretexto, este, para lembrar que talvez seja mais habitual usar-se «bagagem de mão», que significa o mesmo. Também salta à vista que a frase não saiu lá muito bem.
      «Eles entravam no avião carregados de bagagem de cabina, sentavam-se nos seus lugares com o chapéu preto enfiado na cabeça, comprimiam os sacos e saquinhos, com chouriços e queijos para presentear os familiares que os aguardavam ansiosos num moderno aeroporto dum mundo desconhecido, entre as pernas, e o guarda-chuva no colo» (A Deriva dos Continentes, Clara Pinto Correia. Lisboa: Relógio D’Água, 1997, p. 159).
[Texto 2889]
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«No último Censos»!

Agora é assim

      «Carlos Santos é um dos milhão e 200 mil idosos que vivem sozinhos em Portugal. O número foi identificado no último Censos, que mostra que 60% da população idosa vive sozinha ou na companhia de outros idosos» («Isolados. Para lá dos 65 anos há uma luta escondida contra a solidão», Filipe Morais, i, 25.05.2013, p. 18).
      Aqui falei de alguém normal. Mas agora isto é que vai sendo a norma, escrever com flagrantes desconcordâncias.
[Texto 2888]
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Como se escreve nos jornais

Como calha

      «Neto de avós portugueses e filho de um shaper [fabricante de pranchas], Henrique parece ter já vindo com destino traçado quando veio ao mundo» («Pedro Henrique. Um surfista contra natura [sic] e um emigrante contra corrente», Beatriz Silva, i, 25.05.2013, p. 53).
      Queixamo-nos do preço dos jornais, mas temos de ver que nos dão a conhecer factos mais ou menos verdadeiros e ainda nos ensinam línguas, sobretudo inglês. Servido como se fosse português, sem aspas nem itálico. E é claro que os parênteses rectos não são os adequados. Pormenores.
[Texto 2887]
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«Promotor público»?

Enganou-se, pois então

      «Na década de 30, o promotor público de Nova Iorque, Thomas Dewey, bem tentou passar a certidão de óbito da Máfia. Enganou-se» («Louis Ferrante. Palavra de honra que se aprende com a Máfia», Maria Ramos Silva, «Liv»/i, 25.05.2013, p. 9). Ora escrevem «promotor público», ora «promotor de justiça», como vimos aqui, tudo menos o correcto. Mesmo que seja apenas uma moda, vai deixar marcas.

[Texto 2886]
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«Quando mais não seja»

Macaqueando e ensinando

      «Matéria relevante — parece-me — para ser noticiada, quanto mais não seja porque o exemplo de alguém tão conhecido é importante e formativo» («Isaltino e Angelina», Rui Patrício, i, 25.05.2013, p. 14).
      É mais ou menos isso, Sr. Dr. E trago-a aqui porque é matéria relevante — parece-me — para ser tratada, quando mais não seja porque o exemplo de alguém tão conhecido é importante e formativo.

[Texto 2885]
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Como se fala por aí

Excessivo

      «Miguel Sousa Tavares já veio admitir ter sido “excessivo”. “É muito simples, eu não tenho nenhuma consideração política pelo professor Cavaco Silva, conforme é público, mas tenho pelo chefe de Estado, seja ele quem for e nesse sentido reconheço que não devia ter dito aquilo”, afirmou à Lusa, qualificando as suas palavras como um “deslize”. “Obviamente que lhe chamei palhaço no sentido político”, ressalvou ao “Expresso”» («Código Penal. “Palhaço”, mas só em sentido político. Será insulto?», Susete Francisco, i, 25.05.2013, p. 32). 
      «Palhaço» em sentido político? E se eu — ou, para ser mais realista, Miguel Sousa Tavares — chamar palhaço a um vizinho, é o quê, em sentido vicinal?
[Texto 2884]
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Tradução: «prosecutor»

Peter Zinner é...

      «“Este não foi um roubo de sorte. Existem fortes indícios de que Jamie Filan sabia que o senhor Mourinho e a sua família estavam hospedados no quarto e que estes foram o seu alvo por saber que faria uma ‘bela colheita’”, declarou o promotor de justiça, Peter Zinner, no tribunal de Southwark Crown, revelando que o treinador ficou extremamente “angustiado” com o sucedido» («Assaltante de Mourinho leva 31 meses de prisão», Marlene Rendeiro, Diário de Notícias, 15.05.2013, p. 53).
      Peter Zinner é prosecutor ou, como se lê em alguns sítios, «London Crown Advocate». Isto traduz-se por «promotor de justiça»? Não será antes «procurador da Coroa» ou «advogado da Coroa»?
[Texto 2851]
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«Desgranar»?

Mas é bonito

      «Muitos [peregrinos a caminho de Fátima] vão a pé, desgranando as contas do rosário, apoiados num bordão, de mochila às costas e bolhas nos pés» («Oásis», Gonçalo Portocarrero de Almada, i, 11.05.2013, p. 13).
      À puridade lhe digo, Sr. Padre: acho que só para lá de Badajoz é que se diz dessa forma. Aliás, é pronominal, desgranarse, pois é o que se diz das contas de um colar, de um rosário, etc., quando se soltam. Claro que, em sentido figurado, até das horas se pode dizer o mesmo. Mas para lá de Badajoz.

[Texto 2828]
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Léxico: «narsa»

Com que então falam assim

      «“A lei muda hoje? ‘Tamos feitos, temos de apanhar uma ganda narsa.” A reacção é imediata. Concha, Mar e Sebastião têm 16 anos e costumam sair entre uma vez por mês e sempre que não há aulas no dia seguinte, a regra de quase todos» («Nova lei do álcool. “Muda hoje? ‘Tamos feitos. Vamos apanhar uma ganda narsa”», Marta F. Reis, i, 2.05.2013, p. 26).
      Narsa ou nassa — ou moca. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o: «entorpecimento ou euforia induzido por drogas ou álcool; pedrada, ganza».
[Texto 2799]
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Já há chefes

Até que enfim

      «No novo artigo, o cerco aperta: dado que a maioria dos chefes não cumpre, deverá haver maior colaboração com nutricionistas: “Uma vez que o público os valoriza como fonte de conhecimento, é essencial e uma responsabilidade profissional melhorarem as receitas”» («Chefes famosos. E se os pratos deles fizerem mal à saúde?», Marta F. Reis, i, 30.04.2013, p. 29).
      Vá lá, já vai havendo jornalistas que compreendem que não têm de usar o termo francês chef para se referirem aos cozinheiros profissionais. Nem tenho bem a certeza, mas creio que foi por sugestão minha que «chefe» (sim, o mesmo termo, mas aportuguesado), nesta acepção, passou a figurar no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 2798]
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Léxico: «bicho-de-prata»

Insecto tisanuro!

      O pintor diz que guarda tudo em caixinhas, e que embrulha todos os trabalhos em plástico para não lhes dar o bicho-da-prata. Não conhecia a palavra. Agora já sei que são os bichinhos que vejo aqui por casa de vez em quando. Nojentos, como quase toda a bicharada. Também conhecidos por lepisma ou peixinho-de-prata, únicos que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista. E não será antes «bicho-de-prata»?
[Texto 2797]
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«Dissecação/dissecção»

Isto é que é fascismo

      O poeta-cantor, muito conhecido, escreveu «mesa de dissecção». Pré-acordo. O revisor, destes novos, alterou para «dissecação». Normalizou o texto. Isto é que é fascismo.
[Texto 2796]
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Pronúncia de «intoxicação»

Pronúncia intoxicada

      «O restaurante espanhol El Celler de Can Roca, de Girona, foi eleito o melhor do mundo. O restaurante catalão é gerido na sala e na cozinha por três irmãos e tem três estrelas no Guia Michelin. Foi premiado numa selecção dos 50 melhores restaurantes a nível internacional realizada pela conceituada revista britânica Restaurant. Nos últimos dois anos, ocupou a segunda posição. O restaurante Noma, da Dinamarca, que liderou a classificação nos últimos três anos, perdeu o lugar em Fevereiro quando 63 clientes sofreram uma intoxicação alimentar» (Carla Trafaria, Bom Dia Portugal, 30.04.2013).
      Já todos ouvimos a palavra «intoxicação» ser erradamente pronunciada, como se o x valesse ch e não ks (como em anexo, crucifixo, maxilar, prolixo...). Ora, desta vez, a jornalista optou por uma terceira forma: /intossicação/. Se a conhecerem pessoalmente, digam-lhe.
[Texto 2795]
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