Léxico: «carrocho»

Num covão da serra de S. Macário



      Apesar de ser a aldeia com mais cabras em todo o País (3000 cabras para 40 habitantes), Covas do Monte, no concelho de S. Pedro do Sul, tem um queijo tradicional, hoje quase desconhecido, feito de leite de vaca, chamado carrocho. No programa Portugal em Directo de ontem, ficámos a saber como se faz: «Deitava-se [o leite] dentro de uma panela, a ferver com uma pouca de água, e depois aquilo coalhava. Ficava da forma do tacho em que estivesse. Depois deitava-lhe um bocadinho de azeite. Saía, depois quando estivesse cozido, coalhava, tirava-o fora, punha num prato e cortava às fatiinhas» (José da Cruz, presidente da junta de freguesia). «Isso aqui atrasado», disse o Sr. José da Cruz, «essa gente utilizava muito isso.» «Aqui atrasado» — José Leite de Vasconcelos também recolheu esta expressão: «aqui há um tempo».
[Texto 2905]
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Léxico: «caraquenho»

Isso está certo

      «Com as ossadas levadas para a salinha de estar, para a velha senhora continuar a ver a telenovela preferida, esta história sórdida ganharia a generosidade dos bandidos caraquenhos e bêbados baianos. Na despensa, é só uma história de netos rascas» («As ossadas da avó? Ao pé das cebolas...», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 30.05.2013, p. 56).
      Não há erro nenhum, pois não, caraquenho é o natural ou o habitante de Caracas.
[Texto 2904]
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«Procureur de la République»

O Sr. Moulin é procurador

      «Alexandre D. também é francês e, ao ser apanhado pela polícia em casa de uma amiga, em la Verrière (Yvelines), “reconheceu logo os factos”, disse, em conferência de imprensa, o procurador, que referiu “uma vontade de matar muito evidente” da parte do suspeito» («Jovem que atacou soldado em Paris converteu-se há pouco ao islão», Albano Matos, Diário de Notícias, 30.05.2013, p. 31).
      «Procurador», vá lá. Claro que ajuda — ou é determinante? — que no original seja «procureur de la République».
      «Alexandre D., 22 ans, suspect de la tentative d’assassinat du militaire samedi à La Défense, a été arrêté ce mercredi à 6h10 devant le domicile de l’une de ses amies à La Verrière (Yvelines). Pour le procureur de la République de Paris, François Molins, ce jeune homme originaire de Trappes et converti à l’islam «à la fin de sa minorité», a «agi au nom de son idéologie religieuse contre un représentant de l’Etat», ce qui relève de l’incrimination terroriste» (in Libération).
      Mas agora reparem: no jornal português lê-se «la Verrière»; no francês, «La Défense». Tem de haver sempre qualquer erro ou gralha ou distracção.
[Texto 2903]
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«Empregado/empregue»

É esse o escopo

      «De sorriso no rosto, CR7 dá mostras que não por [sic] mal empregue o tempo que esteve na sala de espectáculos de Lisboa, aproveitando o resto da folga concedida pelo Real Madrid. [...] Quanto a Rihanna também não desiludiu na hora de fazer pose e fez-se fotografar ao lado do internacional com a famosa duck face (forma dos lábios)» («Rihanna recebe Ronaldo nos bastidores do concerto em Lisboa», Fernanda Mira, Diário de Notícias, 30.05.2013, p. 53).
      Empregue, diga-se lá o que se disser, não é particípio passado, mas apenas presente do conjuntivo. E o objectivo de nos fazer falar e escrever em inglês prossegue. Duck face é intraduzível, não querem ver?

[Texto 2902]
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«Quinhungueiro», conhece?

A hora da urologia

      É verdade que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe alguns regionalismos angolanos. Mas não muitos e não este, que Óscar Ribas registou no seu dicionário: quinhungueiro, que é o «que tem quinhunga. Aquele que não sofreu o corte do prepúcio. Incircunciso. Embora a amputação do prepúcio liberte o pénis da formação do esmegma, afecta, por outro lado, a sensibilidade da glande, pelo que outros povos estão abandonando essa prática milenar, a cuja regra Cristo não escapou» (p. 344).
      Não sei se Óscar Ribas escreveu o verbete em tempos pré-sida, mas parece que a «evidência» médica actual (que a todo o momento pode ser a oposta...) é de que a circuncisão diminui o risco de infecção pelo VIH.

[Texto 2901]
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Regionalismos angolanos

Línguas da terra

      Acabei agora mesmo de receber pelo correio um exemplar do Dicionário de Regionalismos Angolanos, de Óscar Ribas (Luanda: Ministério da Cultura, 2009, 430 pp.). Só 8 euros!? Não é nenhuma obsessão, mas vamos lá de novo ao verbete «efundula»: «Ritual de puberdade ou de nubilidade feminina. O mesmo que efico entre os Gambos, ehico entre os Muílas, e essuco entre os Dimbas e Ximbas» (p. 144). Bem, o homem sabia alguma coisa, pois não cai nos dois erros habituais quando se trata de gentílicos. Lamentavelmente, de «muchique» (ou vocábulo de grafia aproximada) nada consta.
[Texto 2900]
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Léxico: «superlua»

Ou perigeu


      «Nesse dia [23 de Junho] vai ser possível contemplar a maior e mais brilhante lua cheia do ano, que vai ser entre 14% maior e 30% mais brilhante do que o habitual. [...] Se a meteorologia ajudar e não houver nuvens a cobrir o horizonte, será motivo para vir à janela espreitar a superlua, como é conhecido este fenómeno» («Maior e mais brilhante lua do ano a 23 de junho», Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 29.05.2013, p. 27).
      Superlua ou, como é mais conhecido, perigeu. Mas poderá ver-se se não houver nuvens no horizonte ou no céu?
[Texto 2899]
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Um toque de italiano

O sabor seria o mesmo

      «Mario De Biasi foi o grande repórter fotográfico do levantamento de Budapeste, em 1956, mas foi outra foto sua que me ficou estampada na memória. De Biasi é o autor da foto que teve o mesmo papel das alcachofras alla giudia, os contos de amores difíceis de Italo Calvino e as cores velhas de Roma – o de formar a minha ideia de Itália» («Olhares em vias de extinção», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 29.05.2013, p. 56).
      Até na poesia de Jorge de Sena há alcachofras à judia. Porquê só umas tinturas de italiano? Já agora, carciofi alla giudia. Ou a frase toda: «De Biasi è l’autore della foto che ha avuto lo stesso ruolo dei carciofi alla giudia, di storie d’amore difficile da Italo Calvino e dei colori vecchi di Roma – per formare la mia idea di Italia.» Ou toda a crónica: «Mario De Biasi è stato il grande fotoreporter della sollevazione di Budapest nel 1956, ma, etc.»
[Texto 2898]
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«Retrete à turca»

Já vi, em Portugal

      «No sábado, segundo contou às autoridades, terá dado à luz quando estava na casa de banho, com sanitários à turca (ao nível do chão), tendo o bebé caído» («Bebé retirado com vida de um cano de esgoto», Susana Salvador, Diário de Notícias, 29.05.2013, p. 25).
      «A senhora viu? Espreitou? Não sabia que se chama retrete à turca. Talvez seja mais limpeza, talvez, mas também se entopem. Aquilo é mesmo só pra se fazerem as necessidades. A gente o banho toma-o nos nossos quartos porque às vezes nem lá se pode entrar» (Este Verão o Emigrante là-bas, Olga Gonçalves. Lisboa: Moraes Editora, 1978, p. 135).
[Texto 2897]
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«O facto de»

Então, se é assim...

      «Por Charlie Sheen ter delapidado com escândalos o seu patronímico de duas gerações e por os nomes “latinos” serem hoje mais aceites nos EUA, assistimos a este regresso ao passado, oportunista como deve ser para quem está no mercado da fama» («O artista antes conhecido como Sheen», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 28.05.2013, p. 56).
      Estão a ver como Ferreira Fernandes não precisou de usar a muleta «o facto de»? Pois é. Por outro lado, porque há quase sempre outro lado, as aspas em «latinos» eram escusadas. Carlos Estévez não é um nome latino, ou seja, usado num país cuja língua deriva do latim e que foi influenciado pela civilização mediterrânica?
[Texto 2896]
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«Verdade verdadinha»

Os nossos queridos diminutivos

      «Verdade, verdadinha, a Noruega teve de fazer 32 poços para conseguir descobrir as suas reservas [de petróleo]», disse Ferreira de Oliveira, vice-presidente da Galp. («Só falta encontrar crude em Portugal», Diário de Notícias, 28.05.2013, p. 33).
      Expressão curiosa, não é? Como curiosas são as expressões «franqueza franquezinha» e «certeza certezinha». Nem sempre aparecem separadas por vírgulas.
      «E, verdade verdadinha, antes obedecer aos astros do que a outros. A nossa obediência aos astros é a um tempo involuntária e heróica. Involuntária, porque a vontade é a deles, e heróica, porque não há-de ser vencida pela dos humanos» (Nome de Guerra, José Almada Negreiros. Lisboa: INCM, 1986, p. 199).
      «– A sério, a sério, que não és capaz? Tens a certeza, Abel? A certeza certezinha?» (Contos da Montanha, Miguel Torga. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011, 2.ª ed., p. 110).
      «E formulei-me a proposição debaixo de tais palavras, visto que sou animal de ar livre, de claridade, dos primeiros impulsos, da franqueza franquezinha, e dado o meio em que vivemos porque me sinto deslocado e fora do tempo» (Estrada de Santiago, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Bertrand Editora, 1985, p. 57).
[Texto 2895]
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Léxico: «pasteleira»

É preciso ter força

      «Antigamente usavam-se as pasteleiras, o que requeria bastante mais esforço físico [diz a carteira Paula Pereira]» («“Os carteiros aproveitam e fazem manutenção ao corpo”», Joana Capucho, Diário de Notícias, 28.05.2013, p. 56).
      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, encontramo-lo no verbete de «bicicleta»: «bicicleta pasteleira: bicicleta pesada e robusta, com características que em geral já não são comuns em bicicletas actuais, como é o caso de sistemas de três velocidades, travões de alavanca e faróis alimentados com dínamo». Na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, ocorre explicitamente como substantivo: «Certa forma antiquada de bicicletas com o guiador alto, talvez por ter sido o seu uso comum entre os pasteleiros que faziam entregas aos domicílios» (Vol. XX, p. 571).
      E uma verdadeira pasteleira, daquelas pesadonas, uma Yé-Yé ou uma Vilar, não terá antes carreto simples?
[Texto 2894]
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«Precursor/percussor»

Só faltou percursor

      «“Em 1991, o Curso de Chinês na Missão de Macau era quase o único existente em Portugal, mas hoje em dia, os cursos de chinês encontram-se por todas as partes de [sic] país. Recebo constantemente pedidos para ensino de mandarim, por parte de instituições ou particulares”, conta a docente universitária Wang Suoying, que em conjunto com o marido[,] Lu Suoying, foram percussores do ensino da língua chinesa em território nacional a partir do início da década de 90» («Mandarim, uma língua do futuro», Liliana Duarte, Público, 25.05.2013).
      Não temos de memorizar os milhares de caracteres do mandarim, mas alguma coisa temos de memorizar. Percussor é o que percute, o que bate, e precursor é o que vai adiante, o que anuncia ou faz algo com antecipação. Os Suoyings foram precursores do ensino do mandarim, porque foram os primeiros a ensinar, em Portugal, esta língua.
[Texto 2893]
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Sobre «colégio»

Menos formal

      Ora vejamos: «Apesar de ter reunido um colégio de especialistas, que fez a despistagem das pinturas, a PJ não sabe ainda se o conjunto das pinturas foi feito por apenas um ou vários falsificadores» («Mais de 300 pinturas falsas de Palolo e Paula Rego apreendidas pela PJ», Vanessa Rato, Público, 25.05.2013, p. 28).
      «Colégio» remete sempre para uma ideia de corporação, de algo que permanece no tempo. O que a Polícia Judiciária fez foi contratar vários especialistas, e, até talvez de forma individual, ouvir a sua opinião sobre as pinturas.
[Texto 2892]
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«Falsos Palolo»?

Não pode ser

      Há diversos tipos de falta de concordância, de desconcordância. «De qualquer forma, a quantidade de falsos Palolo encontrados aponta para um inundar do mercado onde muitas das falsificações podem ter entrada [sic] há já bastante tempo» («Mais de 300 pinturas falsas de Palolo e Paula Rego apreendidas pela PJ», Vanessa Rato, Público, 25.05.2013, p. 28).
[Texto 2891]
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Optar pelo que é nosso

Et cetera

      Por vezes, o melhor seria os tradutores seguirem exactamente algumas das palavras que encontram do original. «In un passo decisivo dell’Etica Nicomachea, etc.» «Questo passo è stato citato innumeravoli volte, etc.» Ou então: trecho, excerto, relanço, lugar, etc. Outras vezes, pelo contrário, o mais acertado era procurarem, não por qualquer sanha persecutória, antes por amor à língua, formas mais vernáculas: «Mi rendo conto di essere forse, etc.» E escolherem algum dos sinónimos de que já falámos: advertir, atentar, cair na conta de, dar conta, dar fé, dar por, dar razão, enxergar, observar, reconhecer, etc.
[Texto 2890]
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«Bagagem de cabina»

Tragam a fita métrica

      Então e sabiam que «50 cm por 40 cm e 20 cm é o novo limite que os passageiros da companhia aérea [easyJet] terão de cumprir para a bagagem de cabina»? («EasyJet tem novo limite de tamanho para as malas de cabina», «Liv»/i, 25.05.2013, p. 3).
      Mero pretexto, este, para lembrar que talvez seja mais habitual usar-se «bagagem de mão», que significa o mesmo. Também salta à vista que a frase não saiu lá muito bem.
      «Eles entravam no avião carregados de bagagem de cabina, sentavam-se nos seus lugares com o chapéu preto enfiado na cabeça, comprimiam os sacos e saquinhos, com chouriços e queijos para presentear os familiares que os aguardavam ansiosos num moderno aeroporto dum mundo desconhecido, entre as pernas, e o guarda-chuva no colo» (A Deriva dos Continentes, Clara Pinto Correia. Lisboa: Relógio D’Água, 1997, p. 159).
[Texto 2889]
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«No último Censos»!

Agora é assim

      «Carlos Santos é um dos milhão e 200 mil idosos que vivem sozinhos em Portugal. O número foi identificado no último Censos, que mostra que 60% da população idosa vive sozinha ou na companhia de outros idosos» («Isolados. Para lá dos 65 anos há uma luta escondida contra a solidão», Filipe Morais, i, 25.05.2013, p. 18).
      Aqui falei de alguém normal. Mas agora isto é que vai sendo a norma, escrever com flagrantes desconcordâncias.
[Texto 2888]
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Como se escreve nos jornais

Como calha

      «Neto de avós portugueses e filho de um shaper [fabricante de pranchas], Henrique parece ter já vindo com destino traçado quando veio ao mundo» («Pedro Henrique. Um surfista contra natura [sic] e um emigrante contra corrente», Beatriz Silva, i, 25.05.2013, p. 53).
      Queixamo-nos do preço dos jornais, mas temos de ver que nos dão a conhecer factos mais ou menos verdadeiros e ainda nos ensinam línguas, sobretudo inglês. Servido como se fosse português, sem aspas nem itálico. E é claro que os parênteses rectos não são os adequados. Pormenores.
[Texto 2887]
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«Promotor público»?

Enganou-se, pois então

      «Na década de 30, o promotor público de Nova Iorque, Thomas Dewey, bem tentou passar a certidão de óbito da Máfia. Enganou-se» («Louis Ferrante. Palavra de honra que se aprende com a Máfia», Maria Ramos Silva, «Liv»/i, 25.05.2013, p. 9). Ora escrevem «promotor público», ora «promotor de justiça», como vimos aqui, tudo menos o correcto. Mesmo que seja apenas uma moda, vai deixar marcas.

[Texto 2886]
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«Quando mais não seja»

Macaqueando e ensinando

      «Matéria relevante — parece-me — para ser noticiada, quanto mais não seja porque o exemplo de alguém tão conhecido é importante e formativo» («Isaltino e Angelina», Rui Patrício, i, 25.05.2013, p. 14).
      É mais ou menos isso, Sr. Dr. E trago-a aqui porque é matéria relevante — parece-me — para ser tratada, quando mais não seja porque o exemplo de alguém tão conhecido é importante e formativo.

[Texto 2885]
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Como se fala por aí

Excessivo

      «Miguel Sousa Tavares já veio admitir ter sido “excessivo”. “É muito simples, eu não tenho nenhuma consideração política pelo professor Cavaco Silva, conforme é público, mas tenho pelo chefe de Estado, seja ele quem for e nesse sentido reconheço que não devia ter dito aquilo”, afirmou à Lusa, qualificando as suas palavras como um “deslize”. “Obviamente que lhe chamei palhaço no sentido político”, ressalvou ao “Expresso”» («Código Penal. “Palhaço”, mas só em sentido político. Será insulto?», Susete Francisco, i, 25.05.2013, p. 32). 
      «Palhaço» em sentido político? E se eu — ou, para ser mais realista, Miguel Sousa Tavares — chamar palhaço a um vizinho, é o quê, em sentido vicinal?
[Texto 2884]
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«Jubilação/aposentação»

En archē ēn ho logos

      Isso mesmo, no princípio era o Verbo. «Eticamente é lamentável o que se está a passar. Mas não comento decisões judiciais nem tão pouco [sic] os acórdãos do Tribunal Constitucional. Optei por me jubilar, embora as condições sejam mais restritivas do que as proporcionadas pela aposentação. Mas mantenho as mesmas regalias do que se estivesse no activo», disse o ex-procurador-geral da República Pinto Monteiro («O que estes pensionistas dizem do corte nas reformas», i, 25.05.2013, p. 25).
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «jubilar-se» é «obter a jubilação; aposentar-se». Primeiro problema. Segundo problema: no verbete «jubilação», lê-se: «(ensino superior) aposentação honrosa, por limite de idade». Isto está a precisar de uma revisão.
[Texto 2883]
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Sobre «marxista»

Incompleto ou errado

      O original, italiano, fala «dell’idea marxiana di società senza classi», e o tradutor deixou «marxiana», que nós não usamos, porque há-de ter consultado um dicionário, talvez o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que para «marxista» regista que é o «relativo ao marxismo». Ora, não é apenas isso, é o relativo a Karl Marx, à sua obra ou ao marxismo. Em italiano, há especialização de sentidos, pois «marxista» diz respeito apenas ao marxismo e às ideias de Karl Marx.
      Todas as obras são susceptíveis de aperfeiçoamento, de melhoramento, e os dicionários mais do que todas.
[Texto 2882]
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Léxico: «efundula»

E «muchique»?

      Tenho de voltar à Feira do Livro para comprar um exemplar do Dicionário de Etnologia Angolana, de Eduardo Parreira, publicado pela Plural Editores/Porto Editora. Ainda na semana passada revi um texto em que foi usada a palavra «efundula», que vem do cuanhama e está registada no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Pois, mas «muchique» onde está e o que significa? (Ah, sim: efundula é o nome que se dá à cerimónia, que durava quatro dias, anunciadora da chegada da puberdade das raparigas cuanhamas.)
      O desconto que fazem no preço do dicionário vai dar para comprar um churro... mas esperem: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora assegura que a etimologia de «churro» é sordĭdu-, «sujo». Fantasias. O étimo é castelhano, e nesta língua considera-se que provém de voz onomatopeica.

[Texto 2881]
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Rima exótica

Não confere

      Ontem, um conhecido desembargador subia a Alameda Edgar Cardoso e parou junto de um banco. Cansado, de olhar desconfiado e abdómen proeminente. Despiu o casaco, arregaçou as mangas da camisa, voltou a vestir o casaco e foi-se embora. Foi a única pessoa conhecida (Rui Lagartinho já se tinha ido embora) que vi a caminho da Feira do Livro, onde comprei, entre outros, o Rimário d’«Os Lusíadas», de Fernanda Carrilho, de onde respigo: «Limitando-se a uma única ocorrência em todo o poema, surge a rima exótica, quando rima com palavras estrangeiras, mais precisamente como [sic] o soneto de Petrarca: tra la spica a la man, qual muro he messo (IX, 78, 8» (Lisboa: INCM, 2012, p. 26). No original, porém, está: «Tra la ſpica & la man, qual muro he meſſo.»
[Texto 2880]
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Chancela, selo, marca...

Dicionário de sinónimos

      No Bom Dia Portugal de ontem, o repórter Rui Lagartinho (agora com um penteado um pouco excêntrico, puxado para cima) esteve a acompanhar os últimos preparativos para a Feira do Livro. «Uma pequena precisão. Quando se fala aqui em 480 editoras, não são na realidade 480 editoras, são os selos que cada editora tem, porque tem sido uma tendência cada editora ter várias colecções e vários selos próprios.»
      É a criatividade a impor-se. A receita parece-me bem simples: pega-se nos sinónimos e lá vai: selo, rubrica, marca, sinete, cunho, estampilha...
[Texto 2879]
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Pronúncia: «cutelo»

Na pronúncia como no demais

      Jornalista João Botas, no Telejornal de ontem: «No local do crime, a polícia procura pistas que possam ajudar a explicar o assassinato com golpes de cutelo de um soldado britânico em plena luz do dia num bairro do Sul de Londres.» Se há mais de uma forma, escolhem sempre a pior. Mas vamos antes falar da pronúncia do vocábulo «cutelo». É aberto aquele e, mas o jornalista pronunciou-o bem fechado: /cutêlo/. Em dicionários antigos, até aparece com acento agudo sobre o e. Merecia ir para o Prontuário Sonoro, mas mais urgente eram limparem os erros que lá estão, como aquela grande estupidez do «uxorcida». Há 26 semanas que os avisei, e nada. Muito diligentes.
[Texto 2878]
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O desgraçado verbo «haver»

Ao que isto chegou

      Nuno Carvalhinho, presidente da Associação Nacional de Pequenas e Médias Empresas (ANPME), considera as medidas positivas: «[...] e eu creio que vão haver empresas que vão aproveitar estes incentivos [...] e não deverão haver muitas empresas [...] eu acredito que sim, que vão haver empresas que vão fazer este tipo de investimentos.»
[Texto 2877]
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«De encontro a/ao encontro de»

Sempre ao contrário

      Cecília Meireles, deputada do CDS: «Estas medidas vêm no momento possível, que é um momento que é difícil do ponto de vista da economia portuguesa, dos trabalhadores e das empresas e por isso mesmo são ainda mais necessárias e vêm de encontro àquilo que o CDS sempre defendeu.» Parece o falar trocado de outros tempos.
[Texto 2876]
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Sobre «dramático»

Comovente

      «Nos estaleiros da Navaltagus, no Seixal, o Trafaria Praia sofreu mudanças dramáticas: o interior tem uma instalação têxtil em tons de azul que evoca a experiência do útero; no exterior, o barco será revestido com uma imagem inspirada pelo Grande Panorama de Lisboa (guardado no Museu do Azulejo, na capital), datado do primeiro quartel do século XVIII [...]» («Cortejo no Tejo para cacilheiro de Joana Vasconcelos», S. S. C., Visão, 2.05.2013, p. 11).
      Agora, para escreverem três linhas em português, pensa-se como se escreveria em inglês e traduz-se — mal. Dramático, sim.
[Texto 2875]
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«Coincidir», uma acepção

Não se usa muito

      «Eu coincido com a sua análise. O País está bloqueado», disse António José Seguro a propósito das opiniões de Jorge Sampaio, entrevistado hoje na Antena 1. Não é de uso muito corrente esta acepção do verbo «coincidir (com»), que significa «concordar (com)».
      «Se neste ponto coincidimos com a “hipótese de trabalho” sugerida por Nuno Espinosa Gomes da Silva — e que referimos no número anterior desta nota —, já outro tanto não sucede quando este se mostra propenso a crer que “ambas [as edições] constituem impressão de um mesmo texto, confiado a dois diferentes impressores”» (Obras Esparsas, Vol. II, Guilherme Braga da Cruz. Coimbra: Universidade de Coimbra, p. 324).
[Texto 2874]
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Símbolos de minuto e de segundo

Desalinhados

      Já todos vimos, referido a filmes, que têm tantos minutos e segundos, e os supostos símbolos: 44' 25". A cores, a preto-e-branco. Tudo muito bonito. Acontece, porém, que esses símbolos, chamados plicas ou linhas, dizem respeito a unidades de medida de ângulo plano e não a unidades de tempo. Convenção ou distracção? Há convenções contra outras convenções?
[Texto 2873]
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Plural de «sopro»

São 80 euros da consulta

      O cardiologista pediátrico António Macedo esteve ontem no Bom Dia Portugal para falar de sopros no coração. O jornalista João Tomé de Carvalho começou por dizer: «Quarenta por cento das crianças saudáveis têm um sopro no coração. Este é de resto o motivo da maioria das consultas pediátricas.» O que foi logo desmentido pelo convidado: «Não há manifestações, é um dado auscultatório.» E como 90 e muitos por cento são sopros inocentes, está-se mesmo a ver que isto não é problema nenhum, mas alguém quer que seja. A meu ver, o único problema é o médico não saber pronunciar bem o plural de «sopro», que não é /sòpros/, como ele repetidamente disse. «Sopros» não é um plural metafónico — é /sôpros/.

[Texto 2872]
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O plural de «órix»

Era poeta e sabia

      «Depois começamos a cair na monotonia e à 50.ª zebra já ninguém diz nada. Pelo meio, aparecem muitas gazelas, antílopes e órix» («As cores da Namíbia», Catarina Serra Lopes, «Tabu»/Sol, 19.04.2013, p. 54).
      Os dicionários afiançam que é invariável, mas lembro-me bem de ter lido numa obra de Ruy Duarte de Carvalho «órixes». Pelo menos em inglês tem dois plurais: oryx ou oryxes.

[Texto 2871]
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«Arguência/arguição»

Coisa diversa

      Desta vez, e para compensar, veio o Jogo da Língua em boa hora alertar para uma confusão que por aí anda — sobretudo nas universidades —, e que é dizer e escrever «arguência» como se fosse sinónimo de «arguição». «Arguência de tese», lê-se aqui e ali. Erro, mas erro já com muitos anos. O acto ou efeito de arguir designa-se por arguição, que é um exame. «Arguência», se existisse, significaria outra coisa.

[Texto 2870]
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Léxico: «chiuaua»

Raça discriminada

      «[Gabriela Carrilho] Está perfeitamente enquadrada com o (bom) estilo de vida de Miami, onde é verão durante quase todo o ano. As corridas matinais, os passeios de bicicleta e a ausência de stresse no percurso diário entre a casa e o escritório, [sic] não lhe trazem grandes saudades de Portugal. “Saio a pé, às vezes com a minha cadela – a Linda, uma chiuaua –, vou passear com ela na marina em frente da casa, vou até à praia, ando muito de bicicleta... A minha vida passou a ser muito mais saudável”» («A menina da rádio», João Paulo Vieira, Visão, 2.05.2013, p. 92).
      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, encontramos caniche, bigle, boxer, dálmata, dogue, husky, rottweiler, samoiedo, terra-nova, etc., mas não chiuaua, e não certamente apenas porque a variante chihuahua é mais usada, porque também não regista esta.

[Texto 2869]
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Tudo importado

Comfortable, lecture...

      «Finalmente, porque alguns professores, ideologicamente republicanos, não se sentiam confortáveis a ministrar a historiografia oficial, mas também não queriam assumir o papel de D. Quixotes e fazer outra leitura daquele período» («A lição da I República», José António Saraiva, «Tabu»/Sol, 19.04.2013, p. 72).
       Esta acepção de «leitura», que vem, como vimos aqui, do francês, não tarda está em todos os dicionários. E nem me desagrada completamente. Não posso dizer o mesmo desta extensão de sentido do vocábulo «confortável», que, por sua vez, vem do inglês.
[Texto 2868]
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Gentílicos

Isto é que é pensar mal

      «Uma das principais preocupações [em relação à Birmânia] prende-se com o aumento das violências confessionais. No mês passado, 40 pessoas morreram em protestos contra os Rohingya (muçulmanos)» («Apelo ao fim da violência em encontro histórico», Susana Salvador, Diário de Notícias, 21.05.2013, p. 22).
      É uma teoria dos jornalistas portugueses que eu já revelei ao mundo: se se trata de povos da Antiguidade ou povos de zonas remotas, é com maiúscula inicial que escrevem o nome; se se trata de nós próprios e de outros povos, do Ocidente ou do Oriente, então é com minúscula.
[Texto 2867]
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«Sede de poder/fome de poder»

São necessidades

      «Admiro um português capaz de tudo para conseguir ser alcaide. Ao arriscar meter-se com magrebinos, ele que é do tipo, digamos, mais gordobino (visto de perfil, parece ter mais fome do que sede de poder), CAA [Carlos Abreu Amorim] revela ser um autêntico herdeiro de suevos do Norte» («De frase em frase, enchendo-se de focos», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 21.05.2013, p. 56).
      Madame de Staël sobre o Pequeno Corso: «Napoleão Bonaparte, minha boa amiga, é um homem voraz com uma insaciável fome de poder absoluto» (As Luzes de Leonor, Maria Teresa Horta. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011, 3.ª ed., p. 874).
[Texto 2866]
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Tradução: «conflicting»

Artigo 151.º

      «Também o senador democrata de Nova Iorque [Charles Schumer] se referiu à jovem luso-americana: “Geralmente faço um pequeno discurso e explico como a minha namorada acabou comigo no dia da graduação e de como superei o trauma. Tenho a certeza que esta manhã tanto eu como vocês estamos a viver emoções mistas e conflituosas...”» («Aldeia de Sócrates reza por jovem morta a tiro em Nova Iorque», Luís Fontes, Diário de Notícias, 21.05.2013, p. 18). Arriscam-se a ser acusadas de participação em rixa, as pobres emoções.
       «Usually I give a happy little speech about getting dumped by my girlfriend at graduation and how I overcame it,” Schumer said to the crowd in the student center on the Hempstead, L.I., campus, where the commencement was held. “But I am sure you, like me, have conflicting and mixed emotions this morning.”»
[Texto 2865]
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«Colocado em causa»!

Já tinha saudades

      «As palavras também não foram bem aceites na Ordem dos Advogados, em que corre um processo disciplinar no Conselho de Deontologia, por suposta violação de estatuto no exercício da profissão e que terá colocado em causa o prestígio da advocacia» («Advogado paga 6900 euros por ofender Santuário», Paula Carmo, Diário de Notícias, 21.05.2013, p. 19).
      «O poder económico é duplamente posto em causa: por ter sido um pilar da ditadura; por querer sabotar a economia e impedir a revolução» (Anatomia de Uma Revolução, António Barreto. Lisboa: Publicações Europa-América, 1987, p. 81).
[Texto 2864]
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«Júri/jurado»

Corrigi outros

      «Está mais perto da ironia corrosiva do austríaco Thomas Bernhard do que das teorias da felicidade do indiano Krishnamurti e é afinal... um livro de viagens que é também um conjunto de short-stories vividas ou imaginadas pelo escritor britânico Geoff Dyer, que este mês se estreou em Portugal como escritor e como júri do Bes Photo» («As viagens de quem não tem paciência para fazer turismo», Joana Emídio Marques, Diário de Notícias, 21.05.2013, p. 46).
      Então ele sozinho é júri, hem? Cara Joana Emídio Marques, dê lá uma olhadela nos dicionários. Sim, num de inglês também, porque o que vejo é que se escreve short story, sem hífen.
[Texto 2863]
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Da próclise

Alguém me está a ler?

      «Alertada a Polícia Judiciária, que já estava a investigar os suspeitos, deteve o grupo. Todos sos [sic] suspeitos encontram-se em prisão preventiva» («Funcionário da alfândega ajudava rede de tráfico», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 19.05.2013, p. 21).
      Na oralidade, passava; num artigo, não. O jornalista não sabe acaso que alguns indefinidos, como todos, tudo, outro, qualquer, alguém, atraem a próclise, ou seja, exigem que se anteponha o pronome ao verbo? Tudo isto é sabido, mas convém relembrar sempre.
[Texto 2862]
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Tradução: «fabric»

A Syriza em cima do bolo

      «Numa reportagem publicada na sexta-feira no jornal Guardian, a freira [Teresa Forcades i Vila] disse admirar o o [sic] partido de esquerda radical grego Syriza. “A crise económica em Espanha chegou a um ponto que ameaça o fabrico da sociedade. Isso também aconteceu na Grécia”, disse ao diário britânico» («A freira catalã que quer nacionalizar a banca», Albano Matos, Diário de Notícias, 19.05.2013, p. 24).
      A freira falou sempre em inglês, e, quanto ao que nos interessa, disse: «The economic crisis in Spain has got to a point where it threatens the fabric of society.» Pena que, assim traduzido, nada signifique em português. Fabric traduz-se, no contexto, por «estrutura». Mais: tanto quanto vejo, nenhuma das acepções do termo inglês se traduz por «fabrico». Estes é que são erros graves, porque comprometem irremediavelmente a compreensão da frase.
[Texto 2861]
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«Combustível naval»

Agrícola, florestal, naval...

      «A Ecoslops Portugal, empresa com sede em França, está a construir no porto de Sines uma fábrica para produzir combustível naval a partir dos óleos residuais recolhidos nos navios de carga, aproveitando material que atualmente é incinerado» («Resíduos dos navios transformados em combustível naval», Diário de Notícias, 19.05.2013, p. 33).
      Não sabia que havia combustível naval. Enfim, acho sempre curioso o uso de adjectivos nestes casos. Só conhecia o «gasóleo agrícola», que, na verdade, se destina a maquinaria usada na agricultura, na floresta e nas embarcações, ou pelo menos em algumas, e só difere do outro na cor e por ter um aditivo. Mas este «combustível naval» é diferente.
[Texto 2860]
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«Statu quo»

É melhor não

      «José Alberto Carvalho e Judite Sousa empreenderam nos últimos anos uma tal remodelação na abordagem de Queluz de Baixo à atualidade que se torna quase heroico só agora terem dado razões de queixa ao status quo cessante» («Queluz de Baixo», Joel Neto, Diário de Notícias, 19.05.2013, p. 52).
      Já tive oportunidade de o dizer mais de uma vez, mas cá vai de novo: está errado, mesmo que haja dicionários a dizerem que está correcto. Como é que o ablativo da expressão latina completa, in statu quo ante, passava a nominativo na expressão reduzida, não querem explicar-me? Não sabem, não inventem.

[Texto 2859]
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«Grande Maçã»

Vá, agora agradeçam-lhe

      «Foi na Grande Maçã que [Madalena da Suécia] conheceu o corretor de bolsa, tendo o romance começado no início de 2011» («O príncipe plebeu que salvou a princesa sueca», Raquel Costa, Diário de Notícias, 19.05.2013, p. 53).
      Grande Maçã, muito bem. Mas agora reparem como já não se pode ser somente «corretor», mas «corretor de bolsa». Tudo graças ao Acordo Ortográfico de 1990.
[Texto 2858]
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«Malvisto»

Nem sempre mal, só 99 %

      «Em Portugal [os hambúrgueres] foram malvistos e renasceram, cada vez mais especializados mas baratos» («A nova vida do hambúrguer», Ricardo J. Rodrigues, Notícias Magazine, 19.05.2013, p. 36).
      É raro ver-se bem escrito. Normalmente, a coisa é mal vista — e fica «mal visto». «[...] a frouxidão do Governo animando os inimigos do rei e os desafectos ao systema, involveram quasi duas provincias: e mais teria progredido se a decisão de alguns generaes, que por isso mesmo foram malvistos e quasi perseguidos pelo governo, lhes não pozesse limites, e os não desfizesse completamente» (Obras Completas: Prosas, Almeida Garrett. Lisboa: Empresa da História de Portugal, 1904, p. 566).

[Texto 2857]
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«O mais possível»

Descomplicando

      Outro excerto da conversa do crítico literário e escritor Eduardo Pitta com Luís Caetano, na edição de ontem do programa A Força das Coisas: «É complicado [fazer a crítica de obras de amigos], mas enfim, temos que tentar ser o mais honestos possíveis
      Nas construções «o mais», «o pior», «o melhor», o adjectivo «possível» permanece no singular, porque no singular se encontra o artigo definido.
[Texto 2856]
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«Meia estruturalista»

Descuido ou convicção?

      Eduardo Pitta foi o convidado de hoje de Luís Caetano no programa A Força das Coisas. Um excerto em que podemos ver algo já aqui tratado: «O texto de Maria Estela Guedes era uma coisa imensa, eram duas páginas no Diário Popular, escrito numa linguagem muito da época, meia estruturalista, meia herbertiana
[Texto 2855]
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E os professores?

Alguns reconhecem

      «Se considerarmos os programas escolares e também a preparação que nas últimas décadas terá sido dada aos professores de português, o mais provável é que aqueles que hoje têm entre quarenta e cinquenta anos, e se encontravam, portanto, na mais tenra infância à data do 25 de Abril de 1974, tenham sido sujeitos a tantas experiências pedagógicas de duvidosa consistência, a tantas abstrusas injecções teóricas e práticas de nenhuma utilidade, a tantos descasos em matéria de formação cultural, que, salvas as honrosas excepções do costume, é legítimo alimentar as mais sérias dúvidas sobre se estarão em condições de ler Aquilino Ribeiro ou de, questão mais geral, ensinar correctamente o português nas nossas escolas» («Celebrar Aquilino», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 15.05.2013, p. 54).
[Texto 2854]


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Usar o dicionário

Celebrar a palavra

      «Dada a riquíssima complexidade lexical da sua obra, de há muito que ela, só por si, teria justificado fosse introduzida nos programas de português uma utilização eficaz do dicionário, em que tirar significados constituísse uma obrigação corrente na prática escolar. Isto sem falar na questão do estabelecimento de um cânone mínimo, de que já tive ocasião de falar aqui e que também não pode existir sem a reabilitação do dicionário...» («Celebrar Aquilino», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 15.05.2013, p. 54).
[Texto 2853]
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«Informação-exame»?

Está tudo ligado

      Agora lê-se por aí, em todas as escolas e na Internet, «informação-exame de equivalência à frequência» desta e daquela disciplina. É o Despacho Normativo n.º 6/2012 («despacho-normativo», lia-se aqui, escrito por algum maluquinho do hífen): «Ao departamento curricular compete propor ao conselho pedagógico a Informação-Exame de equivalência à frequência de cada disciplina no ensino básico ou a Informação-Prova de equivalência à frequência de cada disciplina no ensino secundário, cuja estrutura deve ser análoga à informação-prova final ou à informação-exame elaborada pelo GAVE para as provas finais de ciclo e para os exames finais nacionais, respetivamente, da qual devem constar os seguintes aspetos: objeto de avaliação, características e estrutura, critérios gerais de classificação, material e duração».
      A dúvida é sobre aquele hífen a ligar «informação» e «exame». Faz algum sentido estar ali?

[Texto 2852]
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Tradução: «prosecutor»

Peter Zinner é...

      «“Este não foi um roubo de sorte. Existem fortes indícios de que Jamie Filan sabia que o senhor Mourinho e a sua família estavam hospedados no quarto e que estes foram o seu alvo por saber que faria uma ‘bela colheita’”, declarou o promotor de justiça, Peter Zinner, no tribunal de Southwark Crown, revelando que o treinador ficou extremamente “angustiado” com o sucedido» («Assaltante de Mourinho leva 31 meses de prisão», Marlene Rendeiro, Diário de Notícias, 15.05.2013, p. 53).
      Peter Zinner é prosecutor ou, como se lê em alguns sítios, «London Crown Advocate». Isto traduz-se por «promotor de justiça»? Não será antes «procurador da Coroa» ou «advogado da Coroa»?
[Texto 2851]
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Como se escreve nos jornais

Nem um duende

      «Pedro Lourenço escondera-se no meio das ervas. A movimentação de um arbusto fez desconfiar os guardas, que, usando as pistolas Uzi 9 mm, alvejaram o recluso foragido numa perna» («Guardas travam a tiro fuga de dois reclusos algemados», Luís Fontes e Rute Coelho, Diário de Notícias, 15.05.2013, p. 22).
      Há quem não saiba distinguir um arbusto de uma árvore, nem um camelo de um dromedário, mas confundir ervas com arbustos há-de ser mais raro.
[Texto 2850]
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Léxico: «gicleur»

Anglicizado

      «“Aos 16 anos, a meias com o meu irmão, comprámos uma motorizada a cair de madura. O meu irmão desistiu logo porque aquilo dava muitas dores de cabeça. Eu andava com um alicate no bolso de trás dos calções porque como havia pouco dinheiro para a gasolina o gigler do carburador passava a vida a entupir. Sacava do alicate[,] desapertava o gigler, chupava, voltava a pôr e siga”, recorda [Pedro Branco]» («“Ainda estou aí para as curvas”», Maria Assunção Oliveira, Jornal Sénior, 9.05.2013, p. 22).
      Talvez a jornalista ouça mal, ou então não sabe que há uns livros em que se encontram, por ordem alfabética, palavras de uma língua. Parece, assim deturpado, inglês, mas é francês: gicleur, que é, lê-se no Dicionário Francês-Português da Porto Editora, o «pulverizador do carburador; injector». Se, juntamente com o injector e outras peças, faz parte, pelo que vi, do carburador, não devia usar-se ali a palavra «injector». Os Brasileiros, práticos e com aquela relação leve com a língua, aportuguesaram para «giclê». Cá, só com autorização do papa ou referendo nacional. Talvez doseador, pulverizador ou calibrador fossem formas acertadas de nos referirmos a esta peça.
      «Ali, naquela aquática vastidão deserta, sem remos, sem vela, sem probabilidades de auxílio externo, o maquinista desmontou o carburador, soprou no “gicleur” sobre a água do mar (e se ele lhe caía das mãos?) e, tornando a montar as peças, pôs a manivela em movimento» (Uma Jornada Científica na Guiné Portuguesa, António Augusto Mendes Corrêa. Lisboa: Agência Geral das Colónias, 1947, p. 57).

[Texto 2849]
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Léxico: «biomarcador»

Marcador biológico

      «Uma equipa internacional que integra o português Pedro Castelo-Branco descobriu um novo biomarcador, testado com sucesso em tumores cerebrais pediátricos, seguindo-se os estudos com outros tipos de cancro» («Português descobre novo biomarcador para o cancro», Diário de Notícias, 9.05.2013, p. 27).
      Este já está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «substância que pode ser medida e indica a ocorrência de processos biológicos (normais ou patológicos) ou respostas farmacológicas a intervenções terapêuticas».
[Texto 2848]
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Sobre «aparatoso»

Como se fosse um espectáculo

      «Depois da sua queda aparatosa durante um comício na terça-feira, Imran Khan foi aconselhado a ficar acamado. Ferido na cabeça, o antigo campeão de críquete transformado em estrela em ascensão da política paquistanesa está a ser alvo de uma vaga de simpatia que, a três dias das eleições, lhe podem valer votos nas urnas» («Queda deixa Imran Khan fora da campanha mas pode render votos», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 9.05.2013, p. 25).
[Texto 2847]
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«Perdiz-vermelha»

Ou sim ou sopas

      «Em causa está o facto de estar a decorrer a época de nidificação da perdiz vermelha, uma espécie endémica da Península Ibérica e que tem, “naquela zona do Parque Florestal de Monsanto, nesta altura do ano, um ‘oásis’ para a sua reprodução”. “Quantos países não quereriam ter uma espécie endémica?”, questiona João Pinto Soares, acusando a autarquia de ter “duas caras” relativamente a questões ambientais» («“Câmara está a tentar justificar o injustificável”», Inês Banha, Diário de Notícias, 9.05.2013, p. 20).
      A jornalista trabalha num jornal que adoptou o Acordo Ortográfico de 1990, e por isso tem obrigação de saber que nas palavras compostas que designam espécies botânicas e zoológicas se emprega o hífen. Logo, perdiz-vermelha.
[Texto 2846]
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Léxico: «zooerastia»

Bestial

      «Em causa estão “danos morais” sofridos por Murat na sequência de várias notícias publicadas pelo diário da Cofina que, segundo o tribunal, lhe atribuem “uma personalidade doentia, da área não só da pedofilia como até da zooerastia, compatível com a prática de ilícito criminal relacionado com o desaparecimento da criança”» («‘CM’ vai pagar 15 mil euros a Murat», Diário de Notícias, 9.05.2013, p. 51).
      Não sei onde vão desencantar estes termos... Se calhar é lá no Limoeiro, no recreio. Sempre se disse «bestialismo», mas, é óbvio, este anda aí em textos em língua inglesa. Não é preciso mais.

[Texto 2845]
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Tradução: «pop-up book»

Muito bem

      Pensava que tinha sido já neste blogue que falara do que os Ingleses chamam pop-up book. Não foi; foi no Assim Mesmo. Encontrei um dado novo: quando, a 19 de Dezembro de 2006, Bárbara Guimarães entrevistou, no seu Páginas Soltas, o encenador Ricardo Pais, usou a expressão «livro de armar» para designar este tipo de livros. Está bem visto.
[Texto 2844]
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«Dusseldórfia», pois claro

Hallo, Leute!

      «Uma produção do teatro Rheinoper, em Dusseldórfia, foi banida após reação do público a cenas relacionadas com a presença de alusões à Alemanha nazi» («Polémica produção de ópera de Wagner com tema nazi», Diário de Notícias, 10.05.2013, p. 49).
[Texto 2843]
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«Rendibilidade», pois claro

Melhor é impossível

      «Redução da rendibilidade representa 20 % do corte nas PPP» (Maria João Babo, Negócios, 13.05.2013, p. 10).
      É de admirar que num jornal económico se escreva «rendibilidade», quando até em livros se escreve daquela outra forma que não quero agora lembrar. E, por vezes, quando emendamos, o autor (ou, santo Deus!, o próprio editor) não aceita — «porque o mais vulgar é usar-se» daqueloutra forma. Mesmo a sigla PPP costumamos vê-la, nos sítios mais insuspeitos, com outros apêndices: s final ou apóstrofo e s final.

[Texto 2842]
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Concordância com numerais

Não pode ser

      «A Alma’s Design fechou em Março um acordo para passar a ser o fornecedor de vasos do IKEA. A primeira encomenda ultrapassará as quatro milhões de peças, estimando a empresa de Águeda que, em termos acumulados, o negócio valha perto de cinco milhões de euros nos próximos três anos» («Empresa de Águeda vai fornecer quatro milhões de vasos ao IKEA», António Larguesa, «Negócios mais»/Negócios, 13.05.2013, p. 4).
      «Milhão» não é um substantivo do género masculino? Então qual é a dúvida? E não está subentendido o vocábulo «loja» a anteceder IKEA? Logo, «a IKEA». (A empresa é portuguesa, centenária e chama-se Alma’s Design? Hum...)
[Texto 2841]
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Léxico: «panglossiano»

E o pessimismo schopenhaueriano

      «O doutor Pangloss, surgido na sátira “Cândido” de Voltaire, era um obtuso observador da realidade: até nas maiores desgraças via um sinal de optimismo. Tem muitos seguidores em Berlim, Bruxelas e Lisboa» («Pangloss e o Governo», Fernando Sobral, Negócios, 13.05.2013, p. 40).
      É personagem da ficção de tal forma marcante, que até se criou um adjectivo derivado do seu nome: panglossiano, que é o que encara tudo com optimismo, à semelhança do Doutor Pangloss.

[Texto 2840]
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«Encalir/encalar/entalar»

Ai é assim?

      O Jogo da Língua — sim, regressou — de anteontem era sobre se se diz «encalir» ou «entalar» um alimento. Magna questão sobre a língua que deve preocupar todas as donas de casa do presente e do futuro. Do passado não vale a pena falar, o que lá vai lá vai. Entalada ficou logo a concorrente. Lá fez o choradinho da praxe, mas errou. Quer dizer, errou porque a nossa especialista em língua portuguesa assim o quis. Que «entalar» era popular e não sei que mais. E «encalir» é o quê? Dar uma leve fervura a qualquer alimento diz-se dessas duas formas e ainda destoutra: encalar.
[Texto 2839]
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Gentílicos em maiúscula

De vez em quando, lembram-se

      «Por onde quer que passe, D. Amélia é aclamada, numa demonstração de afecto que não esperava em tal dimensão. As visitas prosseguem mas a cobertura jornalística vai diminuindo, não fossem os Portugueses ficarem [sic] demasiado exaltados com a presença da sua rainha» («A rainha D. Amélia visitou Portugal em 1945 a convite de Salazar», José Alberto Ribeiro, «Q»/Diário de Notícias, 11.05.2013, p. 19).
      Para ser honesto, quem sabe que é assim (os poucos que parece saberem), e por isso escreve ou emenda nesse sentido, tem a oposição, tenaz e ignorante, da maioria.
[Texto 2838]
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«Pespinete» ou «pespineta»?

Os dicionários não ajudam

      «Nas provas de admissão para o Conservatório, João Villaret recitou dois vilancetes e um soneto de Camões. “Recitei-os como eu os sentia e, no fim, o mestre, que era professor conceituado da casa, olhou-me com severidade e disse: O menino tem boa voz, mas os versos não se dizem assim, mas como se fossem prosa. E eu, muito pespinete, nervoso e irritado, respondi: Então porque é que são versos? E o mestre: O menino é insolente mas inteligente, está admitido”» («João Villaret desafiou o modo como se dizia poesia», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 10.05.2013, p. 46).
      «Desembarcámos os dois e um pespineta de um turco que não prestava para nada. Moço de câmara. Nós viemos para Belém; mas as coisas em Belém não deram muito acerto. Santarém é melhor» (Herta Teresinha Joan, Agostinho da Silva. Lisboa: Cotovia, 1990, p. 43).
[Texto 2837]
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«Nada trespassou sobre o motivo»?

Nunca me avistei com ele

      «Insiste-se para que o escritor [Goce Smilevski] revele a sua opinião sobre o facto de Freud não ter levado as irmãs: “Este enigma nunca será resolvido porque as cartas onde poderá ter dado explicações sobre isso não foram reveladas e continuam guardadas pelos herdeiros do seu legado, que não permitem a sua leitura. Freud teve oportunidade de levar as irmãs consigo, como aconteceu com as outras pessoas de quem se fez acompanhar, mas não o fez. Porquê? Talvez um dia se venha a saber a razão, mas até agora nada trespassou sobre o motivo”» («A confissão da irmã abandonada por Freud», João Céu e Silva, «Q»/Diário de Notícias, 11.05.2013, p. 19).
      «Nada trespassou sobre o motivo»? Em sentido figurado, «trespassar» significa «transgredir». Não me parece que nenhuma das outras acepções se adeque ao contexto. Não será antes «transpirar», que, também em sentido figurado, significa «deixar transparecer; manifestar»?
[Texto 2836]
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Inglês, o novo latim

Por preguiça, não vão querer

      «O ministro do Orçamento espanhol [Cristóbal Montoro] deseja ver os conteúdos estrangeiros que são transmitidos pela TVE, estação pública de Espanha, com legendas na língua original, no caso, em inglês» («Espanha discute troca de dobragens pelas legendas», Tiago Henriques, Diário de Notícias, 11.05.2013, p. 42).
      No caso? Mas qual caso? Ora, já suspeitávamos que não se aplicava a «conteúdos» em mandarim ou em tagalo. Os Espanhóis têm de aprender inglês, e o Governo acha que esta é a melhor maneira.

[Texto 2835]
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«Chá das cinco»

Lá é às 4 e meia


      «Príncipe Harry tomou chá das cinco com Michelle Obama» (Diário de Notícias, 11.05.2013, p. 45).
      Investiguei e foi infusão de camomila o que beberam, ou seja, nem sequer um verdadeiro chá, o que não fica bem ao neto em 7.º grau (inventei: façam os leitores as contas) da imperatriz das Índias.
      «Em Portugal fala-se no five o’ clock tea, o chá das cinco. Na Inglaterra o que se diz é afternoon tea, chá da tarde, que o Inglês muito aprecia» (A Língua Inglesa e a Vida em Londres, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, p. 192).
[Texto 2834]
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«Castela Velha»

Talvez seja

      Gonçalo Ribeiro Telles: «Havia o trabalho de estirador e as viagens. O Caldeira Cabral todos os anos levava um pequeno grupo de alunos a visitar a universidade na Alemanha para aprender o que os paisagistas andavam a fazer. A minha primeira viagem foi de Volkswagen até Hanôver. Atravessámos a Espanha, pelas estradas de Castela Velha, a França e depois subimos o Reno. Imagine o que se vê! A Alemanha era uma paisagem destruída pela guerra. Estavam a reconstruir tudo e tivemos oportunidade de assistir. A referência e o estudo comparativo são fundamentais. Estas coisas deram-me uma leitura do meu território» («“Nunca saí deste lugar. Tive essa sorte”», Ana Soromenho, «Revista»/Expresso, 20.04.2013, p. 51).
      Já aqui tinha andado à volta deste topónimo. Ei-lo aqui sem a: não Castela a Velha, mas Castela Velha. Verdadeira variante ou economia de quem fala?
[Texto 2833]
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Léxico: «taradice»

Infindável

      «Ao reaparecimento das motos vintage inglesas aparecerem [sic] as café racers — que são motos ‘customizadas’ ao estilo ‘bife’ dos anos 60/70. Não é um mero epifenómeno. É a taradice do momento» («O triunfo das café racers», Luís Pedro Nunes, «Revista»/Expresso, 20.04.2013, p. 66).
      De novo, quase não acreditamos: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o vocábulo «taradice».
[Texto 2832]
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Etimologia de «dinheiro»

Está tudo explicado

      «[Jacques] Ellul recorda justamente que a raiz hebraica do termo ‘dinheiro’ deriva do verbo ‘desejar’, ‘ansiar por alguma coisa’. Quem quer que se ponha a amar o dinheiro nunca se dará por satisfeito: pequena ou grande, nenhuma quantidade lhe parecerá suficiente. Desejará sempre mais e mais, transformando esse desejo na procura alucinada de uma eternidade tangível» («O dinheiro», José Tolentino Mendonça, «Revista»/Expresso, 20.04.2013, p. 6).
[Texto 2831]
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Plural de «rês»

Olho nisso

      Chegou esta semana às bancas, vi anteontem numa reportagem do Telejornal, o Jornal Sénior, que vai sair de quinze em quinze dias e procura informar os mais idosos, uma parte cada vez maior da população portuguesa. Às tantas, ouve-se alguém da redacção dizer: «Eu, quando vi que tinha palavras-cruzadas, fiquei feliz.» Então, cuidado com a página 46, com a 3 horizontal, que diz: «Diz-se das rezes que têm chifres pequenos ou quebrados.» Isto, pela televisão, depois hei-de ler. Erro muito comum, esse. Está bem, os substantivos terminados em as e es tónico, os, us, r e z pluralizam com o acrescento de es, mas as consoantes do singular não se transmutam, nem o plural de noz passa a noses, nem o de rês a rezes. Não é assim?
[Texto 2830]
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«Em ordem a»

Depende, depende

      D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima: «[...] ver que é todo o povo que sofre e que diante deste sofrimento, deste crescimento da própria pobreza é necessário um novo impulso em ordem a encontrar um consenso básico fundamental para todos sairmos da crise, por conseguinte é também um apelo à liderança da Europa [...]» (Telejornal, 12.05.2013).
      A construção «em ordem a» é um anglicismo sintáctico? Uns afirmam que sim, outros, como Mário de Carvalho, que nem pensar: «Recusei-me, durante anos, a usar a expressão “em ordem a” porque um mestre de Português, fortemente repugnado, a rejeitou como anglicismo espúrio. Depois encontrei-a, repetidamente, em Francisco Manuel de Melo...» Creio que este escritor leu mal. No sentido de «a fim de», «para», como na frase do bispo de Leiria-Fátima, é inequivocamente anglicismo; no sentido de «relativamente a», é construção clássica.
[Texto 2829]
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«Desgranar»?

Mas é bonito

      «Muitos [peregrinos a caminho de Fátima] vão a pé, desgranando as contas do rosário, apoiados num bordão, de mochila às costas e bolhas nos pés» («Oásis», Gonçalo Portocarrero de Almada, i, 11.05.2013, p. 13).
      À puridade lhe digo, Sr. Padre: acho que só para lá de Badajoz é que se diz dessa forma. Aliás, é pronominal, desgranarse, pois é o que se diz das contas de um colar, de um rosário, etc., quando se soltam. Claro que, em sentido figurado, até das horas se pode dizer o mesmo. Mas para lá de Badajoz.

[Texto 2828]
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Tradução: «view»

Ah, isso

      «Tamerlan Tsarnaev, um dos suspeitos dos atentados bombistas de Boston de 15 de Abril, morto durante uma perseguição policial no rescaldo do ataque na maratona da cidade do Massachusetts, “já tinha visões extremistas” quando, em 2012, esteve na Rússia» («Boston. Tamerlan “já tinha visões extremistas”», i, 11.05.2013, p. 11).
      Com nome tão profético, tinham mesmo de fazer qualquer coisa de extraordinário — bom ou mau. E as visões, suspeito, não se assemelharão às de Santa Teresa de Ávila. Fui espreitar as fontes, sobretudo para confirmar se eram os famosos insights, mas não: «Boston bombing suspect Tamerlan Tsarnaev already held extreme views when he visited Russia, Islamists in Dagestan have told US media.» Views...

[Texto 2827]
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«Torino»?

Safa

      «Um dos soldados desta história, que trabalha em part-time como gigolo, foi inspirado numa vida real, por exemplo. “Mas a maior parte dos personagens foram construídos a partir dos meus 20 anos, com quem convivi até há pouco tempo e com quem partilhei esta casa perto de Torino, ‘La Cascina’, a que o livro é dedicado”» (Maria Espírito Santo, entrevista a Paolo Giordano, «Liv»/i, 11.05.2013, p. 9).
      Há aí pano para mangas, mas fica a nota: em português não dizemos Torino, mas Turim. Então não é, Maria?
[Texto 2826]
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Plural de «Inês»

Ler e tresler

      «Como é que dá nome às suas personagens?», perguntou Maria Ramos Silva, do i, ao escritor Carlos Vale Ferraz, que respondeu: «Tenho uma tabela mental de associações, mas é inexplicável. Certas mulheres são Leonores, outras Inês, outras Ninas, ou Vandas. Certos homens são Antónios, outros Joaquins...» («Liv»/i, 11.05.2013, p. 13).
      Ora bolas, então «Inês» não tem plural? Isso é o que Carlos Vale Ferraz pensa — mas erradamente. «Há muitas Marias na terra, e muitas mais Ineses de Castro na imaginação dos nossos escritores» (Ler & Tresler, Agostinho de Campos. Lisboa: Livrarias Aillaud & Bertrand, 1924, p. 78).
[Texto 2825]
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Como se escreve nos jornais

Dos títulos mentirosos

      «Isaltino Morais pediu a suspensão do mandato como presidente da Câmara de Oeiras» («Oeiras. Isaltino Morais renunciou ao mandato de presidente da câmara», Sílvia Caneco, i, 11.05.2013, p. 56).
      Se um autarca pode renunciar ao mandato (art. 76.º da Lei 169/99, de 18 de Setembro) ou suspender o mandato (art. 77.º da mesma lei), o título é logo desmentido na primeira frase do artigo. Que vai claudicando por ali fora, até terminar assim: «Mesmo que não renunciasse ao cargo, Isaltino não poderia exercer porque o artigo 67 do Código Penal dita que “o arguido definitivamente condenado a pena de prisão” fica suspenso de funções.» Em que ficamos, afinal?
[Texto 2824]
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Léxico contrastivo: «firula»

Disse «pírulas»?

      «Falta uma política linguística mais assertiva da parte do Brasil, diagnostica o professor [Ataliba de Castilho, autor da Nova Gramática do Português Brasileiro, Contexto]. Seu raciocínio não tem firulas: “A língua caminha junto com a mercadoria, desde sempre. É a economia, ainda mais que a cultura, que expande as fronteiras da língua. Então, é só ver o tamanho e a ambição do Brasil, em face da situação de Portugal hoje. Por que ainda sofremos desse complexo de colônia em relação ao idioma?”» («Essa língua que nos papagueia», Laura Greenhalgh, «Caderno 2»/O Estado de S. Paulo, 11.05.2013, C12).
      Firula. Não temos, pois não. É brasileirismo e de uso coloquial: rodeio, floreio. Claro que também o título é meio enigmático: «Essa língua que nos papagueia». Mas isso há-de ser defeito meu.

[Texto 2823]
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Léxico: «tenístico»

Erro, diz ele

      «“Os nossos pensamentos estão com a família de Brad [Drewett] neste dia extremamente triste para eles, para a ATP e para toda a comunidade tenística”, concluiu a nota» («Presidente da ATP que esteve ligado ao ténis durante 35 anos», Diário de Notícias, 5.05.2013, p. 43).
      Imagino que o revisor antibrasileiro daria pinotes com «tenística», como dava, sabem porque eu vos disse, com «clubístico». Feitios...
[Texto 2822]
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Léxico: «assimilacionista/assimilacionismo»

Contra as leis da Natureza

      «Não foi esta, porém, a posição que veio a ser assumida pelo Estado Novo. Já não o era, em 1934, a título oficial, mantendo-se uma directriz proteccionista e não assimilacionista. Mas aceitava ainda que surgissem ideias neste sentido, o que, obviamente, já não seria possível na altura em que, para salvar a face, nos anos cinquenta, o Estado optou por um assimilacionismo (sempre controlado) e terminou nos anos sessenta numa lógica assimilacionista completa, provavelmente contra natura [sic], extinguindo a lei do indigenato (existente em certas colónias ou “províncias” até 1961), e conferindo aos naturais a cidadania portuguesa» (Estados Novos, Estado Novo, Luís Torgal Reis. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2009, p. 484).
      Mais duas ausências em alguns dicionários, e nomeadamente no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. (E claro que em vez de contra naturam se pode escrever, e com vantagem, contranatura.)

[Texto 2821]
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«Imperatriz/imperadora»

Antes fosse

      Mercedes Balsemão foi ontem ao programa À volta dos Livros falar do seu primeiro romance, A Imperatriz Que Veio de Portugal. A determinada altura, pareceu-me que tinha dito, a propósito de D. Isabel, mulher do imperador Carlos V, «imperadora», mas, confirmei-o agora, a palavra que usou foi «governadora». E, segundo a opinião de dois consultores do Ciberdúvidas, não podia ser de outra forma. Contudo, para alguns dicionários, «imperadora» é o mesmo que «imperatriz», o que significa que tanto designa a mulher de imperador como a soberana de uma nação. Nunca seria esse o erro.
      Mas agora reparem neste extracto da entrevista: «É uma história de amor que, contra todas as expectativas, depois de um casamento político, um casamento dinástico, em que não se conheciam um ao outro, havia rumores, obviamente, sobre a personalidade do futuro marido, chegavam-lhe de todos os lados rumores, e ela, embora quisesse muito casar com ele, porque era esse o destino de uma princesa do seu ranking, do seu nível, que era a princesa do rei mais rico da Cristandade, o rei D. Manuel, tinha de aspirar ao que havia de melhor, mais poderoso, e era esse o seu objectivo.»
      «Do seu nível» — tradução de ranking, é isso? Bem, ranking é a classificação ordenada de acordo com determinados critérios. Mas a entrevistada queria dizer, como se comprova logo de seguida, «categoria», «classe», que em castelhano (e muitas das fontes para a escrita do romance terão sido em castelhano) se diz rango, mas só lhe ocorreu, pela vaga semelhança, a palavra inglesa ranking.

[Texto 2820]
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Léxico: «auto-referência»

O paradoxo do Cavaleiro Branco

      Houaiss, Houaiss... Lembramo-nos logo do problema filosófico da auto-referência (o nome do nome), não é assim? Claro que me recordo do que se afirma na proposição 4.126 do Tractatus, mas Carnap defendia, pelo contrário, que um nome pode ser perfeitamente nomeado através da sua inclusão entre aspas, o que foi refutado por Reach. Etc. (É quase, Jorge, como a questão do emudecimento do português europeu, com a diferença de que as asserções relativas a este são verificáveis, ao contrário do que se possa dizer sobre a auto-referência. É só esperar para ver. Esperar para ver a «ado[p]ção» ficar, também na pronúncia, parente do «adoçante», como exemplifica Pedro Correia.)
[Texto 2819]
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Léxico: «empregatício»

Intervalo entre dois valores

      Acabei de conhecer uma palavra: «empregatício». É adjectivo que não consta dos nossos dicionários, mas que não falta, obviamente, no Houaiss, e o leitor que neste momento, às 19h04, está a ler o blogue algures entre Matupá e Novo Mundo, no Brasil, há-de conhecê-lo. (E é claro que Millôr Fernandes se referia ao Houaiss em papel — e, por isso, ao Houaiss — e não ao Houaiss de carne e osso, mais osso que carne, parece que era magro. Tirando casos patológicos, apenas de um dicionário é que se pode afirmar que conhece todas as palavras, só não sabe juntá-las.)
      Mau, mau... No mesmo texto onde encontrei «empregatício», leio que determinados dados apontam para «uma fourchette entre 80 % e 90 %». Eu sabia lá que isto se usava em estatística... Para francófonos?

[Texto 2818]


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«Africano/negro»

Continua a ser assim

      Rua das Pretas. Pois é, das Pretas. Ainda o politicamente correcto, essa estupidez erigida em moda, há-de querer mudar o nome da rua. Aposto que escolheriam Rua das Africanas. Rua das Negras não, pois continuo a ler e a ouvir «africano» a querer significar «negro». Ora, todos nós conhecemos africanos brancos e até de cores intermédias. Felizmente – e que o Diabo seja cego, surdo e mudo –, os dicionários, pelo menos os que interessam, ainda só registam que africano é o natural ou habitante de África. Quanto à cor, essa é outra história.
[Texto 2817]
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Léxico: «macroninfia»

Eh lá

      Outra ausente dos dicionários, mas esta muito menos notada, e já vão ver porquê. A macroninfia — e não quero pornografar (quem sabe do que veio aqui ver o leitor que estava, às 4 da manhã, no meio da rua!, junto da Estação Central de Belo Horizonte) — é a hipertrofia dos pequenos lábios da vulva, que chegam a ter 5 a 8 centímetros.
[Texto 2816]
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A minha memória de África

De chapéu colonial

      Há quem se lembre (e tenha saudades!) do Senhor do Adeus, figura habitual no Saldanha, que eu nunca vi. Lembro-me, isso sim, de ver de quando em quando um senhor baixo e franzino, já idoso, na estação de Metro de Picoas ataviado como se fosse para uma caçada em África: de casaco-camisa com cinto, dito à rodesiana, chapéu de explorador africano e — calções.
[Texto 2815]
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Léxico: «chassidismo»

Vale, Baal Shem Tov

      Já que os meus vizinhos me acordaram, aproveito para dizer que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora aceitou a minha sugestão de entesourar o vocábulo «chassidismo», variante de «hassidismo», nome dado a uma corrente mística judaica, de raiz popular, surgida no século XVIII na Polónia.

[Texto 2814]
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