As aspas servem para tudo

O recurso mais económico


      «Quanto ao nome escolhido é de salientar que “Sr. Engenheiro” é propositadamente colocado entre aspas pela organização depois de um pedido da Ordem dos Engenheiros. “Recebemos um pedido da Ordem dos Engenheiros por razões que as pessoas penso que conhecem: ‘Por favor, não lhe chamem engenheiro.’ E nós atendemos. Pusemos engenheiro entre aspas” [diz Rui Melo, o encenador]» («“Já só nos resta rir”. Musical sobre Sócrates estreia no Tivoli», João Maldonado, Rádio Renascença, 31.03.2026, 6h30). As aspas servem para tudo. Basta o Homem querer e a Mulher deixar.

[Texto 22 747]

Sobre «bife»

Sem ofensa

      «Ninguém diz aos jornalistas, claro está, exercita-se o stiff upper lip, o “lábio superior inteiriçado” tão característico dos britânicos (linda metáfora, esta, para o hábito que os “bifes” têm de não deixar transparecer as emoções — em Portugal isto dava uma bela peixeirada)» («O Nobel da Injustiça», João Magueijo, Público, 15.10.2013, p. 31).
      Não precisa das aspas, caro João Magueijo, mesmo que, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, se leia que é termo «antiquado». Ou não quer melindrar os seus anfitriões?
[Texto 3389]

«Situação», uma acepção

As aspas são mesmo uma doença

      «A segunda fase (1945-1961), que se caracteriza por um táctico abrandamento do regime e pela admissão de algum pluralismo limitado, em que a Assembleia Nacional passa a ser presidida por um dos mais “liberais” líderes políticos da situação, que na tradição republicana de que era oriundo mantinha uma postura de franco apoio e empenho, mas sem subserviência» (Os Deputados da Assembleia Nacional 1935-1974, J. M. Tavares Castilho. Lisboa: Texto Editores, 2009, p. 141).
      O autor — não este, outro — quer forçosamente aspas em «situação», na mesma acepção. Porque o pobre leitor pode julgar que é literalmente o acto ou efeito de situar. Isto é que é confiança na inteligência do leitor.
[Texto 3368]

«Salto», uma acepção

As aspas são uma doença

      «Naquela época, dar o salto para França era uma empreitada dura, arriscada. Construíra casa na aldeia, mais para mostrar aos vizinhos que fizera fortuna, já não era um jornaleiro pobretão» (O Rei do Volfrâmio, Miguel Miranda. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, pp. 18-19).
      O autor — não este, outro — quer forçosamente aspas em «salto», na mesma acepção. Porque o pobre leitor pode julgar que é literalmente o acto ou efeito de saltar. Isto é que é confiança na inteligência do leitor.
[Texto 3367]

Como o indígena ignorante

A atracção das aspas

      Já por duas ou três vezes critiquei o uso excessivo das aspas nos textos de Vasco Pulido Valente. Com algumas intermitências, nada melhorou. A intenção, a ideia (tratando-se de Vasco Pulido Valente, tinha de haver uma ideia) é dar a entender que o indígena é que se exprime daquela maneira — que ele usa apenas para se fazer compreender, porque afinal está a escrever para o indígena ignorante. Por vezes, porém, como na crónica publicada hoje, a intenção não é essa, simplesmente escreve como o indígena ignorante. «O jornal Expresso, em homenagem ao seu proprietário, resolveu este mês publicar uma sequela de Os Maias, que, como o nome indica, é uma continuação da história de Carlos da Maia e de João da Ega, a partir do momento que eles correm atrás do “americano” para não chegarem tarde a um jantar de amigos» («A atracção da asneira», Público, 17.08.2013, p. 44).
[Texto 3187]

As aspas intrometidas

Não se justificam

      «Até aos anos 1980, os comboios portugueses tinham não um segundo maquinista mas sim um “condutor”, que tinha como função dar o alerta à aproximação dos sinais, dizendo em voz alta “aberto” ou “fechado” consoante a posição destes. Uma medida destinada a reforçar a segurança no caso de o maquinista ir distraído. [...] Os “condutores” — que descendiam dos antigos fogueiros que punham carvão nas locomotivas — passaram a ser uma classe em extinção e hoje só se mantêm nos comboios de mercadorias» («Acidentes abrem debate sobre as vantagens de um segundo maquinista a conduzir comboios», Carlos Cipriano, Público, 12.08.2013, p. 9).
      As aspas devem ser porque «condutor» é quem conduz — e este segundo elemento apenas assinala, alerta. Mas nada justifica as aspas, porque é esse o nome da função. E mais, o próprio jornalista afirma que «a mesma evolução tecnológica que tornou dispensável o segundo elemento na condução do comboio, etc.». Na condução, então.
[Texto 3176]

Ah, as aspas

Eles gostam

      O autor falava das «guerras “médicas” entre Gregos e Persas». Assim mesmo, com aspas, para o leitor não pensar (pois é para isso que as aspas servem...) que se tratava da pessoa que exerce medicina. Os pobres leitores têm lá meios de saber que o adjectivo é relativo à Média ou aos Medos.
      Parece que ainda nunca lhes passou pela cabeça, coitados, que o significado das palavras polissémicas é clarificado pelo respectivo contexto.
[Texto 3128]

«O facto de»

Então, se é assim...

      «Por Charlie Sheen ter delapidado com escândalos o seu patronímico de duas gerações e por os nomes “latinos” serem hoje mais aceites nos EUA, assistimos a este regresso ao passado, oportunista como deve ser para quem está no mercado da fama» («O artista antes conhecido como Sheen», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 28.05.2013, p. 56).
      Estão a ver como Ferreira Fernandes não precisou de usar a muleta «o facto de»? Pois é. Por outro lado, porque há quase sempre outro lado, as aspas em «latinos» eram escusadas. Carlos Estévez não é um nome latino, ou seja, usado num país cuja língua deriva do latim e que foi influenciado pela civilização mediterrânica?
[Texto 2896]

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