Como se escreve por aí

Afinal não podia ser


      «A CMTV entrevista André Ventura, na vigésima-oitava entrevista do líder do Chega a uma televisão portuguesa este ano» («E para beber, prefere branco ou extinto?», Miguel Somsen, «Versa»/Nascer do Sol, 18.09.2026, p. 47). Só parei nas páginas desta rubrica porque me parecia ver Luiz Pacheco na fotografia do autor. Sim, eu sei que ele morreu vai fazer vinte anos. Afinal, era Miguel Somsen. E Luiz Pacheco não dava estes erros. Até porque foi também revisor. Quando é que se aprende de uma vez por todas que os ordinais não levam hífen? É «vigésima oitava», como também é «centésima quarta», «milésima primeira» e assim todos sem excepção. O texto padece de muitos outros erros, sobretudo de ortografia («contra ataque», «pequeno almoço», «Belas Artes», «ideias-feitas», «mal-vistas») e de pontuação, mas nada que mais dez ou vinte anos de crónicas com algum estudo pelo meio não resolvam.

[Texto 23 552]

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P. S.: Detesto ver os nomes de televisões e de rádios em itálico. Isso não faz sentido. Claro que é imposição do livro de estilo da casa, de que o autor não tem culpa. Mas como é que lhe alteram isto no texto e não lhe corrigem os erros? Ah, pois.


Erros de sempre e para sempre

Um de muitos


      «Primeiro ponto: o Estabelecimento Prisional do Vale dos Judeus continua sem as duas torres de vigilância. A contratação pública sofreu alguns revezes» («Dois anos após fuga, torres de Vale de Judeus começam a ser construídas», Ana Cristina Pereira, Público, 8.09.2026, p. 15). Não há Erasmus, docs e pós-docs que cheguem para evitar estes erros.

[Texto 23 500]

Como se traduz por aí

Não tente novamente


      «O general Ratko Mladic, criminoso de guerra condenado por liderar as forças responsáveis pelo bombardeamento de Sarajevo e o massacre de Srebrenica, foi alvo de homenagens antes e durante o seu funeral. Milhares de pessoas juntaram-se ontem em Belgrado para o funeral do antigo militar, que servia uma pena de prisão perpétua após ter sido condenado por crimes de guerra e contra a humanidade» («Milhares em funeral do criminoso de guerra Ratko Mladi na Sérvia», Miguel Dantas, Público, 8.09.2026, p. 24). 

      Ou seja, Miguel Dantas pegou na frase da Reuters e tentou traduzir: «A Serbian government plane brought the body of former army commander Ratko Mladic, who died last week serving a life sentence for war crimes, back to Belgrade […].» Correu muito mal.

[Texto 23 494]

Como se escreve nos jornais

Não se faz assim


      «Paralelamente a estas, existe uma variada comunidade de passeriformes, como o rouxinol-dos-caniços-comum ou o rouxinol-grande-dos-caniços durante a época de reprodução, ou o rouxinol-de-garganta-azul durante o período de Inverno» («Nenúfar-mexicano esverdece o Guadiana entre Badajoz e fronteira portuguesa», Carlos Dias, Público, 5.09.2026, p. 18). 
      A fonte espanhola do jornalista poderá ter sido o «Estudio de viabilidad de métodos para el control y eliminación del nenúfar mejicano (Nymphaea mexicana Zucc.) en el río Guadiana a su paso por Badajoz», elaborado para a Confederación Hidrográfica del Guadiana. Só que os dois nomes assinalados terão sido criados na tradução/adaptação para o artigo do jornal, e não retirados da nomenclatura ornitológica portuguesa, como devia ter sido. Era assim: «Paralelamente a estas, existe uma variada comunidade de passeriformes, como o rouxinol-dos-caniços ou o rouxinol-grande-dos-caniços durante a época de reprodução, ou o pisco-de-peito-azul durante o período de Inverno.»

[Texto 23 482]

Como se escreve por aí

Ainda não averiguaram o caso


      «No ano em que a cidade assume o título de Capital Europeia da Democracia, os concertos afirmam-se como um dos grandes acontecimentos do verão» («Daniela Mercury abre hoje as tradicionais Festas do Mar», Vanessa Fidalgo, Correio da Manhã, 20.08.2026, p. 28). Tão abelhudos, mas ainda não aprenderam que Cascais é vila. Claro que não são os únicos. Roberto Bessa Moreira, por exemplo, só hoje fica a saber que anda por aí a espalhar o erro: «Na execução do plano, descreve a acusação do Ministério Público, vários elementos da organização criminosa fizeram, desde 2024, “várias viagens” a Portugal para “conhecerem o território, as marinas de Portimão e de Cascais” e ainda para “obterem alojamento” nas mesmas cidades» («Carro funerário entrou seis vezes na marina de Portimão para carregar cocaína», Roberto Bessa Moreira, Jornal de Notícias, 22.08.2026, p. 18). (Em contrapartida, sabe que já não levamos os mortos para o cemitério numa carreta.)

[Texto 23 442]

Um exemplo: «burca»

Não devia ser assim


      «O Presidente da República, António José Seguro, promulgou ontem a chamada “lei das burqas”, considerando tratar-se de uma “matéria de grande sensibilidade social e cultural, em que é de extrema dificuldade definir fronteiras e valorizar de forma equilibrada direitos e deveres”» («Seguro promulga lei das burqas. Rosto destapado é ‘confiança social’», José Volta e Pinto, Público, 19.08.2026, p. 39). 
      Nisto, o Público continua a prestar-nos um péssimo serviço. Então a própria lei escreve burca, aportuguesamento já aceite e devidamente dicionarizado, e um jornal que, por outro lado, é um precioso, louvável e até abençoado bastião contra a porcaria do Acordo Ortográfico de 1990 resolve impingir-nos a abstrusa grafia burqa? Para quê este estrangeirismo perfeitamente escusado, quando temos uma palavra portuguesa estabelecida, transparente e sem nenhuma ambiguidade? 

[Texto 23 416]

Como se escreve (e pensa!) por aí

Andam aos papéis


      «O gabinete do Chega na Assembleia da República foi encontrado vandalizado ontem de manhã. A porta do gabinete, sabe o Correio da Manhã, não foi rebentada nem sequer forçada e terá sido uma empregada de limpeza a verificar o vandalismo e a alertar a GNR» («Ventura denuncia invasão ao gabinete do Chega», Miguel Bravo Morais e Diogo Carreira, Correio da Manhã, 29.07.2026, p. 6). 
      Isto é que é rigor jornalístico: vandalizado. Vi imagens na CNN Portugal, e apareciam papéis, livros, gavetas, até um exemplar do Correio da Manhã (deve ter sido este a testemunha do jornal, a fonte) que pareciam ter sido cuidadosamente postos no chão. Documentos sensíveis... Quem é que guarda documentos sensíveis numa sala que não fecha à chave?

[Texto 23 379]

Grande Manchester, grandes erros, enormes descuidos

Não devia ser assim


      «O primeiro-ministro Keith Starmer demitiu-se e vem aí um ‘D. Sebastião’, sob o nome de Andy Burnam (o ‘rei do Norte’, por ter presidido à Grande Manchester, uma espécie de Grande Porto)» («A crise da esquerda europeia», Carlos Fiolhais, Correio da Manhã, 30.06.2026, p. 2). É verdade que não passa de clichés e banalidades — além de nem sequer ter acertado no nome do protagonista, que é Andy Burnham —, mas soube ver que era Grande Manchester que devia escrever, o que Ana Sá Lopes, jornalista, que também cai noutros erros, não viu: «O seu abandono do lugar de deputado em 2017 para ser mayor de Greater Manchester ajudou à transformação — mal comparado, é um bocado a transformação de André Ventura num militante semi-obscuro [sic] do PSD em líder da direita populista do Chega. Aqui não há um novo partido, mas Burnham quer dar a ideia de que sim» («A importância de um par de pestanas e uma T-shirt preta», Ana Sá Lopes, Público, 29.06.2026, p. 39).

[Texto 23 216]

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P. S.: Diga-se também que Ana Sá Lopes escrever, nesta mesma crónica, três vezes «azul escura» e «semi-obscuro» não é confusão com coisa nenhuma, já que com o Acordo Ortográfico de 1990 nada disto mudou. São erros ou descuidos ou convicções perdoáveis num cidadão que conduz táxis ou que é talhante num supermercado, não num jornalista.


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