Léxico: «problema de Monty Hall»

Ficamos a saber


      «Imagine um concurso televisivo em que o apresentador pede ao concorrente para escolher, aleatoriamente, uma de três opções: A, B ou C. Depois de o concorrente escolher, digamos, a opção B, o apresentador revela que uma das opções restantes (por exemplo, C) não contém o prémio. Na fase final, o concorrente é questionado se quer mudar de opinião e escolher a opção que resta, A, ou manter a sua escolha original, B. Conhecido como o problema de Monty Hall, em homenagem a um apresentador de um concurso televisivo americano, este famoso enigma tem entretido matemáticos durante décadas. Mas também pode ensinar-nos algo sobre o funcionamento da mente e do cérebro humanos» («O que acontece no cérebro quando mudamos de opinião?», The Conversation/Reuters/Rádio Renascença, 6.09.2025, 8h30). 

      Isto merecia um verbete. Assim, proponho problema de Monty Hall MATEMÁTICA, PROBABILIDADES problema clássico de probabilidade condicional, inspirado num concurso televisivo norte-americano, no qual um participante escolhe uma entre três portas, atrás de uma das quais está um prémio; após essa escolha inicial, o apresentador, que sabe o que está por trás de cada porta, abre uma das duas restantes, revelando uma porta vazia, e oferece ao concorrente a possibilidade de mudar a sua escolha inicial: contra‑intuitivamente, a probabilidade de ganhar o prémio duplica se o concorrente aceitar mudar de porta; é objecto frequente de estudo e extrapolação em contextos de teoria da decisão, psicologia cognitiva e comunicação de ciência.

[Texto 23 067]

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Definição: «insumo»

Pode não servir para tudo


      «O subdirector-geral e representante regional da FAO para a América Latina e as Caraíbas, René Orellana Halkyer, salientou que a agência apoia os países na identificação de territórios prioritários, lacunas críticas e investimentos facilitadores para reduzir as vulnerabilidades, executando medidas preventivas «em conjunto com governos e parceiros em nove países da região, que beneficiaram centenas de comunidades rurais, com apoio directo, reabilitação de sistemas de água e irrigação, distribuição de insumos [isto é, sementes, fertilizantes e outros materiais agrícolas] e reforço de capacidades, protegendo meios de subsistência e aumentando em até 40 % a produção de culturas básicas» («El Niño aumenta o risco de insegurança alimentar», Jairo García, Além-Mar, Junho de 2026, p. 15). 

      Como se pode ver, o autor, ou alguém por ele (que até posso ter sido eu), viu-se na necessidade de explicar o que significa «insumo» no contexto. E digo no contexto porque não é sempre o mesmo, ao contrário do que fazem crer os nossos dicionários. Seja como for, a palavra é desconhecida do leitor médio português. Muito usada e conhecida é no Brasil, ainda que os dicionários brasileiros também não a definam bem. A definição dos dicionários é demasiado técnica e abstracta para quem encontra a palavra num contexto prático como este. 

      Assim, proponho insumo 1. ECONOMIA factor de produção utilizado na criação de bens ou serviços (matéria-prima, trabalho, capital, energia, etc.); 2. AGRICULTURA (sobretudo no plural) materiais e produtos aplicados na lavoura — sementes melhoradas, adubos, fertilizantes, agroquímicos, defensivos, etc. — com vista a aumentar a produtividade e a resiliência das culturas.

[Texto 23 066]

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Léxico: «antíopa»

Também o tens em bilingues


      «É raro que na sua ara se levante chama que atraia e queime as asas de tão deslumbráveis antíopas» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 203).

[Texto 23 065]

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Léxico: «rato-gigante-das-flores»

Que já foi nossa


      No episódio de segunda-feira da semana passada, «A tragédia da Ilha das Flores (e os seus muitos mistérios)», do programa E o Resto É Ciência, na Rádio Observador, falaram no rato-gigante-das-flores, endémico naquela ilha indonésia que já foi portuguesa. Convém, então, acolher este rato-gigante-das-flores ZOOLOGIA (Papagomys armandvillei) espécie de roedor murídeo endémica da ilha de Flores, na Indonésia, de grande porte (cerca de 41-45 cm de comprimento corporal), com corpo robusto, orelhas pequenas e pelagem densa escura; possui cauda longa, podendo igualar ou ultrapassar o comprimento do corpo; habita florestas tropicais, com hábitos sobretudo terrestres e alimentação maioritariamente vegetal, complementada por invertebrados; encontra-se ameaçado pela perda de habitat e pela caça.

[Texto 23 064]

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Definição: «Maoris»

Falámos neles recentemente


      «Há dias, Te Arikinui Kuini NgaWai hono ite po foi recebida no palácio de Buckingham pelo rei Carlos III, no que foi o primeiro encontro entre o monarca britânico e a rainha maori desde que esta subiu ao trono em 2024. [...] Foi nessa língua que, um ano exato após a morte do pai e a sua ascensão ao trono, terminado o período oficial de luto, a rainha Te Arikinui fez o seu primeiro discurso como soberana. “Ser maori não se define por ter um inimigo ou um desafio a superar. Ser maori é falar a nossa língua. É cuidar do ambiente. É ler e aprender sobre a nossa história. É a escolha de ser chamado pelo nosso nome maori. Há muitas formas de manifestar o facto de ser maori, não apenas em momentos de protesto”, afirmou. E acrescentou: “Ser maori é para sempre, mas temos de cultivar continuamente essa expressão de ser maori para controlar o nosso próprio destino”» («A rainha que quer pôr a sabedoria maori ao serviço dos problemas do século XXI», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 22.05.2026, p. 25). 

      Tudo para depois os dicionários dizerem que os Maoris são o povo indígena da Nova Zelândia, de origem polinésia. Quase serviria igualmente para definir outros povos austronésios transplantados para diferentes arquipélagos. A definição actual identifica pouco da especificidade maori.  Assim, proponho Maoris ETNOGRAFIA povo indígena da Nova Zelândia, de origem polinésia, cuja presença nas ilhas remonta a vários séculos antes da chegada dos europeus; organiza-se tradicionalmente em tribos e clãs (iwi e hapū), possui língua própria (maori) e uma cultura distinta marcada por tradições orais, tatuagem ritual (moko), danças cerimoniais como o haka e forte ligação ancestral à terra e aos antepassados.

[Texto 23 063]

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Definição: «desclassificação»

Incompleto por natureza


      «O Parlamento discute esta tarde um projeto de lei do Bloco de Esquerda que pretende desclassificar informação relativa à violência política no pós-revolução. E que define também um regime especial de acesso a documentos referentes às FP 25 de Abril. O Bloco sugere a criação de uma comissão que fique incumbida de organizar a desclassificação dos documentos» (Rádio Observador, noticiário, 20.05.2026, 12h00). Em desclassificar, Porto Editora, tens esta acepção (que é a última); em desclassificação, não a tens.

[Texto 23 062]

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Definição: «Magiares» Léxico: «madgiar»

Deixemo-nos de simplismos


      No episódio de quinta-feira da semana passada do programa E o Resto É História, na Rádio Observador, o historiador Rui Ramos disse a propósito dos Magiares: «Há alguns historiadores, talvez exagerando um bocadinho, que dizem que verdadeiramente os Magiares não são uma nação, são uma classe social. Isto é uma coisa muito importante para compreender a Europa Oriental. Na Europa Ocidental, basicamente, a nobreza e a população trabalhadora falam a mesma língua e são da mesma nação. Na Europa Oriental, não. As nobrezas falam uma língua diferente do resto da população. E era o que acontecia no Reino da Hungria. No Reino da Hungria, basicamente, a nobreza era magiar, os grandes e os pequenos nobres eram todos magiares. Os húngaros eram uma nobreza no Reino da Hungria, basicamente. E a população de trabalhadores eram os eslavos, eram ucranianos, eram eslovacos ou eram romenos. E depois, por exemplo, os comerciantes e os profissionais liberais nas cidades eram alemães e eram judeus. Digamos que as diferenças sociais correspondiam a diferenças de nacionalidades na Europa Oriental.»

      Claro que a formulação «os Magiares não são uma nação, são uma classe social» é provocatória e simplificadora, ele próprio o admite, mas aponta para um fenómeno real: durante séculos, no Reino da Hungria, a identidade magiar esteve fortemente ligada à nobreza; ao poder político; à administração; à cultura dominante do reino. Como é que disto se passou a considerá-los sinónimos puros? O próprio uso historiográfico mostra precisamente o contrário: «magiar» existe porque há necessidade de distinguir algo. No mínimo, e como acepção principal, tem de se acrescentar esta dimensão histórica. Ainda pensei, ingenuamente, que o Houaiss o definiria melhor. Pelo contrário. 

      Assim, proponho magiar HISTÓRIA, ETNOLOGIA indivíduo pertencente ao grupo etnolinguístico de origem fino-úgrica que se estabeleceu na bacia dos Cárpatos no final do século IX e que constituiu historicamente o grupo dominante do Reino da Hungria; húngaro etnicamente magiar.

[Texto 23 061]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Porque vem mesmo a pêlo, também é altamente recomendável dicionarizar e vocabularizar a variante madgiar. Até ajudaria os nossos queridos compatriotas, sobretudo os jornalistas, a pronunciar o nome do primeiro-ministro húngaro, Péter Magyar. Sempre seria menos um desconchavo a perambular pelo éter já saturado.


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Léxico: «microteatro»

Que nós também usamos


      Entre os novos vocábulos que incluídos recentemente no dicionário da Real Academia Espanhola está «microteatro». Ora, em Portugal e no Brasil também se usa o termo, porque esta forma de teatro também existe por cá. Assim, proponho microteatro TEATRO formato teatral constituído por peças curtas, geralmente com duração até 15 minutos, apresentadas em espaços muito pequenos, para públicos reduzidos, privilegiando a proximidade com os espectadores e a viabilidade da produção.

[Texto 23 060]


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Definição: «intifada»

Analisemos isto melhor


      «Nascido em 1987, em Jerusalém, durante a primeira Intifada, ou “revolta das pedras”, Fawadleh [pároco da Igreja de Cristo Redentor, em Taybeh] descobriu a sua vocação no ano 2000, quando começou a segunda Intifada, uma sublevação de atentados suicidas. Foi ordenado sacerdote em 2014, na Igreja da Sagrada Família em Ramallah, na noite de um violento ataque israelita. Nesta via dolorosa, diz ele, continua a “ver Deus ao fundo do túnel”» («A última aldeia 100 % cristã da Palestina recusa ser “uma memória do passado”», Margarida Santos Lopes, Além-Mar, Junho de 2026, p. 23). 

      É justamente por ter havido duas, consensuais — a Primeira Intifada (1987-1993), muitas vezes chamada «Intifada das Pedras», e a Segunda Intifada (2000-2005), também conhecida como «Intifada de Al-Aqsa» —, que a definição nos dicionários deve ser diferente, até na previsão de outras (há quem fale na «Terceira Intifada», em 2015-2016, chamada «Intifada das Facas»). Assim, proponho intifada cada um dos levantamentos populares palestinos contra a ocupação israelita dos territórios árabes, especialmente os ocorridos entre 1987 e 1993 e entre 2000 e 2005. 

      Quanto à etimologia, vem do árabe intifāḍa, «levantamento, sublevação», derivado de faḍḍa, «sacudir, libertar-se, revoltar-se».

[Texto 23 059]

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Etimologia: «concerto»

Acabamos em harmonia


      «La pression monte pour que le chanteur Patrick Bruel, mis en cause par des femmes qui l’accusent d’agressions, renonce à donner des concerts. Le mot vient de l’italien concerto, qui signifie “accord”. On ne peut pas dire qu’il y en ait un autour de la question de savoir si l’artiste doit poursuivre son activité ou l’interrompre – à titre conservatoire» («Concert», Étienne de Montety, Le Figaro, 23.05.2026, p. 38). 

      O mesmo é dizer que temos muito por onde melhorar a nota etimológica de «concerto», sem nos limitarmos a afirmar que vem «do italiano concerto, “idem”». De facto, por detrás está a ideia de acordo, harmonia. Não temos nós, por exemplo, a locução prepositiva «em concerto com»? Lá que os dicionários não a registem é outra coisa. Assim, proponho do italiano concerto, «acordo, harmonia; composição musical», derivado de concertare, «harmonizar, ajustar, combinar», do latim concertare, «disputar; rivalizar; concertar».

[Texto 23 058]

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Léxico: «clique | coda»

Se queremos acompanhar a ciência


      «Sperm whales communicate using short sequences of clicks known as codas, which they exchange while coordinating within their groups. Scientists have long classified these sequences using the number of clicks and the timing between them» («Sperm whale clicks' have complex patterns similar to human speech», Anirban Mukhopadhyay, The Hindu, 21.05.2026, p. II). 

      Nem sequer «clique», nesta acepção, está nos nossos dicionários, e andamos a encontrá-lo há décadas, quanto mais «coda». Há quem possa argumentar que «clique» corresponde, no caso do dicionário da Porto Editora, à 1.ª acepção, «ruído curto e seco». Nesse caso, replico que a acepção relativa à Linguística também ficava abrangida e se tornaria desnecessária. Mas não, porque é uma acepção concreta, com especificidades — como a relativa aos cetáceos. Assim, proponho clique ZOOLOGIA som breve e seco produzido por certos animais, especialmente cetáceos, usado na ecolocalização e na comunicação.

      Quanto ao outro termo, defini-lo-íamos assim coda ZOOLOGIA sequência estruturada de cliques produzida por cachalotes, cuja organização temporal varia entre grupos e indivíduos e que desempenha funções de comunicação social.

[Texto 23 057]

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Léxico: «fébrua | februais»

Tijolos, ovos, palavras


      Ao escrever uma crónica infanto-juvenil a explicar a origem do ano com doze meses, deparei-me com um curioso problema lexicográfico. Quando pesquisava sobre o mês romano de Februarius, descobri que os rituais de purificação celebrados nessa época eram chamados fébrua, vocábulo já registado no VOLP da Academia Brasileira de Letras, que também acolhe o sinónimo februais. Parece-me, por isso, inteiramente justificável que os dicionários portugueses passem também a acolher estes vocábulos, já que têm interesse histórico, religioso e etimológico, directamente ligados à origem do nome do mês de Fevereiro. Como se diz aqui em Cascais, you can’t make bricks without straw. (Porque leram a Bíblia, Ex 5, 7.) Assim, proponho fébrua/februais HISTÓRIA na Roma Antiga, ritos ou cerimónias de purificação celebrados em Fevereiro; festividades purificatórias associadas ao mês de Fevereiro (Februarius).

[Texto 23 056]

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Léxico: «corredor sanitário»

A juntar ao humanitário


      «La OMS pide un corredor sanitario para atajar el ébola» (S. S., La Razón, 24.05.2026, p. 37). Que devemos levar para os dicionários, assim corredor sanitário 1. SAÚDE PÚBLICA zona ou via de circulação sujeita a controlo sanitário especial, destinada a limitar a propagação de doenças infecciosas; 2. SAÚDE PÚBLICA via de circulação segura, geralmente criada em contexto de epidemia, pandemia ou outra emergência sanitária, destinada a permitir a passagem controlada de equipas médicas, ajuda humanitária, medicamentos, doentes ou outros bens e pessoas essenciais entre zonas afectadas, incluindo através de fronteiras sujeitas a restrições sanitárias.

[Texto 23 055]

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Léxico: «trinitita»

Mais um bocadinho de ciência e História


      «On July 16, 1945, the U.S’s “Trinity” nuclear test in New Mexico changed history. The explosion released energy equivalent to 21,000 tons of TNT, vaporised a steel tower, and melted the surrounding desert sand into a glassy green crust called trinitite. Decades later, this mineral still holds secrets» («New crystal found in the detritus of the first-ever nuclear blast», Vasudevan Mukunt, The Hindu, 21.05.2026, p. II).).

      Agora já sabemos, é a trinitita GEOLOGIA vidro residual rico em sílica, formado pela fusão e vitrificação da areia do deserto durante o teste nuclear Trinity, realizado em 1945 no Novo México; apresenta geralmente coloração esverdeada devido a minerais e metais vaporizados pela explosão.

[Texto 23 054]

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Léxico: «psicotrauma»

Se ela o diz


      «Esta mulher afirma ainda que acompanha pessoas em questões ligadas à sexualidade, ao psicotrauma e ao desenvolvimento pessoal, defendendo uma abordagem “pragmática” e orientada para a transformação. Diz que a sexualidade deve ser “plenamente vivida com alegria” e apresenta-se como alguém capaz de criar formações com “rigor, humanismo e generosidade”» («O perfil digital da mãe e do homem com quem viajou», Joana Gorjão Henriques, Público, 23.05.2026, p. 21).

[Texto 23 053]

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Definição: «dioptra»

Não explicaria o uso nas minas


      «Esta historia se explica mediante una serie de paneles, maquetas, materiales audiovisuales y réplicas de antiguos artefactos, como una dioptra —un instrumento topográfico empleado en las labores mineras—, hachas que se usaban para abrir galerías o lámparas y sacos utilizadas por los mineros» («El único museo de Galicia dedicado a la minería romana», Francisco Albo, La Voz de Galicia, 24.05.2026, p. 37).

      Está no dicionário da Porto Editora: «HISTÓRIA, TOPOGRAFIA instrumento topográfico usado na Antiguidade para medir diferenças de nível entre dois pontos, calcular ângulos, etc.». O artigo do jornal revela bem que é mais do que um instrumento «para medir diferenças de nível», o que faz pensar sobretudo num nível topográfico; era antes utilizado na observação e alinhamento em agrimensura, engenharia e astronomia. Assim, proponho dioptra HISTÓRIA, TOPOGRAFIA instrumento de visada usado na Antiguidade em trabalhos de agrimensura e engenharia, destinado à medição de ângulos horizontais e verticais, ao estabelecimento de alinhamentos e à determinação de diferenças de nível entre pontos do terreno; precursor do teodolito. 

      Uma nota etimológica mais completa dirá que vem do grego διόπτρα (dióptra), «instrumento de visada» ou «instrumento para ver através», formado por diá, «através de», + radical opt-, «ver».

[Texto 23 052]

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Léxico: «neurotipicidade»

Porque já temos «neurotípico»


      «En las antípodas de la neurodivergencia se situaría, según el modelo tradicional, la neurotipicidad: una ausencia de rasgos que indiquen dificultades en áreas como la escolaridad o las relaciones interpersonales. Pero ¿qué supone ser neurotípico?» («Los difusos límites de la neurotipicidad», Lois Balado e Laura Miyara, La Voz de Galicia, 24.05.2026, p. 38).

[Texto 23 051]

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Definição: «bávaro»

Grupo dialectal, não dialecto


      Num estudo recente de linguística computacional da Universidade Cornell dedicado ao «multi-dialect Bavarian», os investigadores partem do pressuposto de que o bávaro constitui um conjunto dialectal complexo, internamente diversificado, e não um único dialecto homogéneo. A própria divisão tradicional em bávaro setentrional, central e meridional continua plenamente reconhecida pela dialectologia germânica. Por isso, a definição apresentada pela Porto Editora — «dialecto do alto-alemão falado na Baviera e noutras regiões próximas» — parece-me excessivamente simplificadora, desde logo por omitir a forte implantação austríaca do bávaro e por reduzir a uma unidade aquilo que é geralmente tratado como um grupo dialectal. Assim, proponho bávaro LINGUÍSTICA grupo dialectal do alto-alemão, pertencente ao domínio austro-bávaro, falado na Baviera, em grande parte da Áustria e em regiões limítrofes.

[Texto 23 050]

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Léxico: «colhida», de novo

O caçador caçado


      «A IP, enquanto gestora da rede ferroviária nacional, explica que “a grande maioria dos acidentes significativos com consequências humanas resulta de factores externos ao sistema ferroviário, designadamente da intrusão no espaço ferroviário em locais de acesso proibido e devidamente sinalizados, bem como do desrespeito pelas regras de atravessamento em passagens de nível”. Nos últimos cinco anos, 89% das mortes e 90% dos feridos graves em acidentes ferroviários ocorreram precisamente em resultado de colhidas em plena via ou em passagens de nível. [...] Em 2025, o gabinete abriu 74 processos de análise preliminar a acidentes envolvendo a colhida de pessoas nos sistemas ferroviários, dos quais 67 ocorreram na ferrovia pesada, dois no metro pesado e cinco no metro ligeiro» («Portugal no topo dos países com mais acidentes mortais na ferrovia», Carlos Cipriano, Público, 26.05.2026, p. 26). 

      É verdade que ele próprio é colhido pela ortografia — «Nos carris portugueses morreram 6,2 pessoas, em média, por mil quilómetros de vias férreas, um valor que fica à frente da Hungria (5,8), Eslováquia (5,7), Lituânia (4,6) e Polónia (4,3).» — e por um verbo — «Estas estatísticas do Eurostat excluem os suicídios, que são comunicados separadamente por não se tratarem exactamente de acidentes.» 

[Texto 23 049]

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Definição: «sachê»

Tem utilidade


      Lembram-se do termo «sachê»? Óptimo, estão a carburar bem. Ora bem, temos novidades: «A proposta do Governo para regulamentar as bolsas de nicotina abre a porta ao fabrico deste tipo de produto em Portugal, a crer no decreto-lei que a tutela aprovou e que vai apresentar ao Parlamento. [...] “Obviamente que a OMS faz recomendações para um mundo global e, com isso, tenta responder a todas as necessidades. Mas a OMS não diz assim: ‘Introduzam um produto que nunca existiu no país e agora regulem-no.’ Não. Isto é uma hipocrisia”, afirma a especialista [Margarida Tavares, médica infecciologista e ex-secretária de Estado da Promoção da Saúde]. “Quem é que em Portugal tem o hábito de ter um corpo estranho ao pé de uma gengiva? Entre os dentes e a gengiva?”, questiona» («Governo abre a porta ao fabrico de bolsas de nicotina em Portugal», Daniela Carmo, Público, 26.05.2026, p. 13).

      É assim que as nossas queridas autoridades interpretam a realidade. Vamos ao que interessa: podemos desde já acrescentar um sinónimo àquela 2.ª acepção de sachê: «pequena embalagem descartável, geralmente com porção individual de determinado produto; saqueta; bolsa».

[Texto 23 048]

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Léxico: «nauruano»

Vai acontecer


      «O Parlamento nacional aprovou uma emenda constitucional que propõe rebatizar o país como “Naoero”, numa tentativa de reforçar a identidade cultural local e romper com as marcas deixadas pelo colonialismo. A medida foi aprovada no passado dia 12 e ainda depende de um referendo popular para entrar em vigor definitivamente. “Naoero” é a designação tradicional utilizada pelos próprios habitantes da ilha antes da chegada dos europeus» («País mais pequeno do mundo (cabe no concelho de Cascais) quer mudar de nome», Nascer do Sol, 26.05.2026, 13h00). 

      Eu dou já a coisa como certa (tal como aconteceu com a Macedónia do Norte). O que vai mudar para nós? Então, o nome do país e o gentílico, que poderá vir a fixar-se em «naoeruense» e/ou «naoeruano». O que podemos fazer já (e devíamos ter feito há sessenta anos) é definir como deve ser a língua, pelo menos para ultrapassarmos a obviedade e quase inutilidade de «língua de Nauru». Oficialmente, foi sempre dorerin Naoero, isto é, «língua de Naoero». Para nós e para o mundo, é, por enquanto, nauruano LINGUÍSTICA língua austronésia do grupo micronésio, bastante diferenciada das restantes línguas desse ramo, falada em Nauru.

[Texto 23 047]

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Como se escreve por aí

Quanto mais simples, mais escorregam


      Legenda à Foto do Dia do Correio da Manhã de 21.05.2026: «Vaticano. Uma delegação dos Catholicos da Igreja Apostólica Arménia da Cilícia esteve ontem presente na Audiência Geral presidida pelo Santo Padre, Papa Leão XIV, na Praça de São Pedro.» Escrevem assim por não saber escrever como deve ser. É católicos. Tão simples quanto isto.

[Texto 23 046]

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Léxico: «opacificante»

Está a acontecer


      Vais inteirar-te de mais um episódio doméstico, Porto Editora. Apareceram umas manchas no tecto de uma das casas de banho. Com a superfície a pintar limpa e seca, apliquei (sim, eu mesmo o fiz) duas demãos de primário aquoso opacificante da Robbialac. Agora só falta aplicar a tinta de acabamento, um esmalte aquoso 100 % acrílico, branco acetinado, da mesma marca. E pronto, é só isto, não envolve crimes nem traições, para decepção de muitos leitores, aposto.

[Texto 23 045]

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Definição: «marimba» Léxico: «cristalofone»

Confusão material


      «Depuis, le marimba, cet étrange xylophone muni de résonateurs, originaire d’Afrique, développé au XIXᵉ siècle en Amérique latine, puis perfectionné au XXᵉ siècle en Europe ainsi qu’en Asie, a encore fait bien du chemin» («Le marimba, nouvelle star du classique», Thierry Hillériteau, Le Figaro, 26.05.2026, p. 22). 

      O jornalista mostra conhecer muito bem este instrumento, que a Porto Editora define assim: «1. MÚSICA espécie de tambor de origem africana; 2. MÚSICA instrumento formado de lâminas de vidro ou metal, graduadas em escala, que se percutem com martelinhos de madeira; xilofone». Ambas as definições estão profundamente erradas. Quanto à primeira acepção: a marimba sempre foi entendida como uma espécie de xilofone. Logo, eu proporia marimba 1. MÚSICA designação de diversos instrumentos africanos de percussão melódica, aparentados ao xilofone, constituídos por lâminas sonoras associadas a ressoadores. 

      A 2.ª acepção ainda está pior, e por vários motivos. Se é uma espécie de xilofone, as lâminas não são de vidro, pois nesse caso seria um cristalofone, nem de metal, pois nesse caso seria um vibrafone. Para esta acepção, proponho marimba 2. MÚSICA instrumento de percussão melódica, usado na música de concerto, constituído por lâminas de madeira graduadas em escala e tubos ressoadores, que se percutem com baquetas.

[Texto 23 044]

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Léxico: «readesão | reindustrialização»

Ei-los


      «O partido de Nigel Farage reagiu, aliás, com grande alvoroço, acusando o Labour de querer “reabrir as portas” do Reino Unido à imigração e prometendo fazer uma campanha eleitoral assente na oposição à readesão britânica à UE. [...] “Um voto em mim será um voto a favor da mudança no Partido Trabalhista; porque o Partido Trabalhista precisa de mudar se quisermos reconquistar a confiança das pessoas. Será um voto para tornar a vida mais acessível novamente, um voto para dinamizar as regiões, um voto a favor da reindustrialização”, prometeu [Andy Burnham, presidente da Câmara de Manchester, candidato a um lugar de deputado no Parlamento britânico]» («Regresso do Reino Unido à UE entra na “pré-campanha” trabalhista», António Saraiva Lima, Público, 19.05.2026, p. 20).

[Texto 23 043]

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Definição: «phishing»

Já foi assim, já


      Um vizinho idoso, muito aflito, veio mostrar-me uma SMS em que lhe pediam quase 50 euros por uma dívida ao Ministério da Saúde. Bem-vindo ao século XXI. Desafligi-o e elucidei-o acerca do mundo em que vivemos. You know, he could have been one of those survivalist crackpots who live hidden away in caves for years. Não o mandei foi consultar a definição de phishing (e muito menos de smishing) no dicionário da Porto Editora: «actividade criminosa que consiste em enviar emails não solicitados cujo objectivo é induzir o utilizador a fornecer dados pessoais e/ou financeiros». É tão anos 2000, meu Deus, que até nos faz sorrir. Temos é de ter uma definição abrangente, robusta, quase à prova do obsoletismo e que contemple todos os canais, dispensando assim smishing e outras que tais. Tudo visto, proponho phishing técnica fraudulenta que consiste em fazer-se passar por entidade legítima através de mensagens, sítios Web ou outros meios de comunicação electrónicos, com o objectivo de induzir alguém a revelar informações, efectuar pagamentos, instalar programas maliciosos ou realizar outras acções que beneficiem o atacante.

[Texto 23 042]


⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: A expressão vender-se como canela, que vimos ontem numa citação de Aquilino, significa vender-se muito bem, com grande rapidez e facilidade, aproximadamente o que hoje se diria «vender-se como pãezinhos quentes». Surge registada em estudos de fraseologia portuguesa como uma comparação fixa tradicional. A explicação parece estar ligada ao enorme valor e procura da canela noutras épocas. Durante séculos, a canela era uma especiaria cara, apreciadíssima e muito comerciada, pelo que algo que se vendia como canela era algo de saída rápida e garantida. Portanto, passou a significar «vender-se muito rapidamente e com grande aceitação; ter procura imediata e abundante». Não ser corrente hoje em dia e aparecer na literatura são a melhor recomendação para a dicionarizarmos.


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Definição: «cachorro-quente»

Mais compostinho


      «É habitual ver um oceano de mãos a saudar ou a mandar beijos ao Papa ao final de cada audiência geral, mas um fiel decidiu mudar esta rotina. Enquanto Leão XIV se despedia, voou na sua direção um peluche em forma de cachorro-quente – e o Santo Padre alinhou na brincadeira. Apesar de não ter conseguido apanhar o boneco, este episódio desencadeou uma interação com o público. “Sendo de Chicago, o Senhor comeu mais cachorros-quentes do que qualquer outro Papa na história”, disse um peregrino, entre risos, já que a famosa receita é original da cidade onde nasceu Leão XIV. E o Papa respondeu: “Só com mostarda e ketchup”» («Um cachorro-quente para o Papa e engarrafamento no Everest. Veja as fotos da semana», Catarina Magalhães, Rádio Renascença, 22.05.2026, 23h58). 

      Mais valia ser convicção do peregrino, mas não, é mesmo da jornalista. A verdade é que a origem é muito mais complexa e disputada, e entre as cidades que a reivindicam estão Chicago, sim, mas igualmente Nova Iorque, Coney Island e St. Louis. De origem indisputável é o chamado «Chicago-style hot dog», uma variante muito específica, carregada de acompanhamentos, que se consolidou sobretudo durante a Grande Depressão. Mas não sou especialista na pequena História, pelo que avancemos para o que nos traz aqui. A Porto Editora define assim «cachorro-quente»: «CULINÁRIA sanduíche de salsicha quente, geralmente servida em pão alongado e acompanhada com mostarda ou outro molho». 

      O problema está na alternativa exclusiva, «mostarda ou outro molho», que se revela quase tão restritiva como o hábito de Chicago de banir o ketchup do cachorro-quente como heresia gastronómica, algo que transpareceu na primeira réplica de Leão XIV: «Just mustard.» Mas logo depois acrescentou, mais ecuménico, mais católico: «Mustard and ketchup.» Não somos de Chicago, pelo que proponho cachorro-quente CULINÁRIA sanduíche constituída por uma salsicha quente servida em pão alongado, geralmente acompanhada com molhos, como mostarda e ketchup, condimentos e outros ingredientes, como batata-palha.

[Texto 23 041]

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Léxico: «contraperícia | contraperitagem»

Palavras não


      «El pasado martes 19 de mayo, tras llegar arrestado –y esposado a la espalda– a los juzgados de Martorell, su defensa subrayó, tras tener acceso a los 1.400 folios de la causa, que trabaja para demostrar su inocencia desmontando los indicios señalados, para lo que aportarán, entre otros, contrapericiales –es decir, informes de parte–» («La caída inexplicable de Isak Andic», Elena Burés e Pablo Muñoz, ABC, 24.05.2026, p. 61). 

      Também temos, e abundam em acórdãos, contraperícia e contraperitagem. Falta-nos qualquer coisa (que também tem nome), mas não certamente palavras.

[Texto 23 040]

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Léxico: «élfico | elfo»

Anão? Não


      «Desenhada por Thomas T. Docherty, numa face a moeda apresenta o Anel Único com a icónica inscrição em élfico: “Um Anel para os governar a todos”. Na outra, está o retrato oficial do Rei Carlos III» («Casa da Moeda Real Britânica lança moeda comemorativa dos 25 anos do primeiro filme de “Senhor dos Anéis”, SIC Notícias, 2.05.2026, 8h21).

      Se até a seriíssima Royal Mint se meteu nisto, a coisa é relevante. De facto, se os nossos dicionários já registam «élfico» como adjectivo relativo a elfo, dada a importância universal da obra de Tolkien, bem se podia acolher élfico nome masculino LITERATURA designação genérica das línguas fictícias faladas pelos elfos no universo literário de J. R. R. Tolkien, especialmente o quenya e o sindarin, desenvolvidas com gramática e sistemas de escrita próprios.

[Texto 23 039]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: A definição da Porto Editora, ao descrever os elfos como criaturas anãs, acompanha uma tendência presente também em vários dicionários modernos de outras línguas, influenciados sobretudo pelo imaginário folclórico e literário desenvolvido a partir da época moderna. Contudo, os estudos sobre a mitologia nórdica antiga mostram geralmente os elfos (álfar) como seres sobrenaturais associados à luz, à beleza e à magia, distintos dos anões (dvergar). Curiosamente, a literatura fantástica moderna acabaria até por popularizar a imagem de elfos altos e esguios. Reponha-se então a verdade.


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Léxico: «banco de horas»

Tens muitos outros


      Como sabem, a reforma laboral prevê a introdução do banco de horas por acordo, com o alegado objectivo de garantir maior flexibilidade na organização do tempo de trabalho. Ora, nós já temos vários bancos nos dicionários, mas não este banco de horas DIREITO DO TRABALHO sistema de organização do tempo de trabalho em que as horas prestadas além do horário normal ficam acumuladas para compensação posterior sob a forma de descanso, férias ou pagamento, dentro dos limites previstos na lei ou em regulamentação colectiva.

[Texto 23 038]

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Léxico: «guerra assimétrica»

David contra Golias


      «A utilização destes drones pelo Hezbollah é característica da guerra assimétrica, explicou o investigador do INSS Mizrahi. O grupo tem-se apoiado mais nestes drones, uma mudança em relação às rajadas de rockets que lançou nas semanas iniciais da guerra» («Drones de fibra ótica do Hezbollah desafiam Israel», Jornal de Notícias, 25.05.2026, p. 26, itálicos meus). 

      Deparamo-nos com isto por todo o lado, é estudado nas academias militares, pelo que deve estar nos dicionários. Assim, proponho guerra assimétrica MILITAR conflito armado entre forças com capacidades militares muito desiguais, em que a parte mais fraca recorre frequentemente a tácticas não convencionais, como guerrilha, terrorismo, drones baratos ou ciberataques, para compensar a inferioridade face ao adversário.

[Texto 23 037]

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Léxico: «ter boa/má imprensa | imprensa cor-de-rosa»

Porque será?


      «Aníbal Cavaco Silva tem má imprensa, no sentido literal de que a imprensa (ou a comunicação social) não gosta dele. Sempre foi assim: no seu tempo de primeiro-ministro, a imprensa de esquerda (naturalmente) dizia mal dele, mas a de direita, através do então fulgurante Independente, fazia gala de ostentar um anti-cavaquismo [sic] sobranceiro. E as coisas nunca mudaram» («Não dá Cavaco», Luciano Amaral, Correio da Manhã, 25.05.2026, p. 2). 

      Não é tanto ter boa/má imprensa e imprensa cor-de-rosa estarem apenas em dicionários bilingues da Porto Editora que me espanta, mas sim que acolha apenas «imprensa marrom».

[Texto 23 036]

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Léxico: «síndrome aerotóxica | aerotóxico»

No sítio errado


      Ouvi na TSF que decorreu ontem em Lisboa, promovida pelo Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil, uma conferência internacional dedicada à qualidade do ar nas cabines de aeronaves comerciais, conhecida no sector pelos chamados «fumes». Nas notícias, mencionarem a síndrome aerotóxica, que fui encontrar no dicionário da Porto Editora, não no verbete «síndrome», onde encontramos muitas (e deviam estar todas, ou a lógica não passará de uma palavra), mas no verbete de «aerotóxico». 

      Assim, proponho síndrome aerotóxica MEDICINA síndrome atribuída à inalação de ar contaminado nas cabinas de aeronaves, geralmente por vapores provenientes de óleos de motor ou fluidos hidráulicos introduzidos no sistema de ventilação, associada a sintomas neurológicos, respiratórios e cognitivos, como cefaleias, tonturas, fadiga, dificuldades de concentração, náuseas e perturbações visuais.

      Quanto ao adjectivo, tão carregado, coitado, submetia-o a este tratamento aerotóxico 1. MEDICINA relativo à síndrome aerotóxica ou à contaminação do ar nas cabinas de aeronaves por substâncias tóxicas; 2. diz-se do ar ou do ambiente da cabine de uma aeronave contaminado por substâncias tóxicas provenientes, geralmente, de óleos de motor ou fluidos hidráulicos.

[Texto 23 035]

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Léxico: «joule-segundo»

Acabamos assim


      A correcção da definição de «quilograma» obriga-nos também, é claro, a dicionarizar joule-segundo FÍSICA unidade derivada do Sistema Internacional, de símbolo J·s, correspondente ao produto de um joule por um segundo; usada nomeadamente para exprimir a constante de Planck e outras grandezas físicas associadas à acção ou ao momento angular angularizado sem dimensão rotacional macroscópica explícita.

[Texto 23 034]

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Definição: «quilograma»

Mais três que dois


      «Estas coisas topológicas começaram por volta de 1979 ou 1980. Depois, Klaus von Klitzing [Nobel da Física em 1985] descobriu, também como um resultado acidental e inesperado, o efeito quântico de Hall, que é agora a base do sistema de unidades — a medição do quilograma em Paris foi substituída, essencialmente, pelo efeito quântico de Hall [em vez de um artefacto físico como até 2018]» («“Se a inteligência artificial fizer tudo por si, não saberá nada”», Tiago Ramalho, Público, 24.05.2026, pp. 22-23).

      O que Duncan Haldane, aqui entrevistado, está a fazer é a condensar numa frase curta toda a cadeia metrológica moderna. Logo, até se poderia mencionar o efeito quântico de Hall na definição de «quilograma», mas já não seria para um dicionário geral. Seja como for, a actual definição da Porto Editora tem dois erros, qual deles o maior: por um lado, afirma que o valor da constante de Planck é aproximado, quando hoje é exacto por definição; por outro, indica erradamente «joules por segundo», quando deveria dizer «joule-segundo». É que joules por segundo corresponde a potência — isto é, à quantidade de energia transferida ou consumida por segundo — e usa-se sobretudo em contextos como a electricidade, a mecânica ou a engenharia, sendo equivalente ao watt. Na verdade, três erros: o símbolo kg não se grafa em itálico. 

      Assim, proponho quilograma FÍSICA unidade de massa do Sistema Internacional (SI), de símbolo kg; corresponde actualmente à massa definida pela fixação exacta do valor da constante de Planck em 6,62607015 × 10⁻³⁴ joule-segundo, substituindo desde 2019 a definição anterior baseada num protótipo metálico conservado em França.

[Texto 23 033]

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Léxico: «farmacodependência | farmacodependente»

Mais duas peças


      «“Sucre et alcool ont une longue histoire commune en recherche”, confirme Mickael Naassila, professeur à l’Université de Picardie Jules Verne et directeur du groupe de recherche sur l’alcool et les pharmacodépendances à l’Inserm» («Le sucre est une sorte d’“alcool sans ivresse”», Soline Roy, Le Matin Dimanche, 24.05.2026, p. 45).

[Texto 23 032]

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Léxico: «vender-se como canela»

Dizia-se isto


      «O transeunte que subia de S. Bento batia com os olhos naquela feira de folhetos, que se vendiam como canela» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 20).

[Texto 23 031]

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Definição: «múrex | múrice»

Têm de dizer o mesmo


      «Los decretos se preocuparon, en primer lugar, de establecer y después de mantener un monopolio imperial sobre la producción de sedas destinadas al consumo cortesano, siendo las principales las sedas púrpuras teñidas con murex (un tipo de caracol)» («El poder de la seda: gusanos e imperios», Marisa Bueno, La Razón, 20.05.2026, p. 44). 

      Como é que a Porto Editora diz coisas diferentes — muito diferentes! — em «múrex» e em «múrice», dois sinónimos perfeitos, é que é espantoso. Não tenhamos dúvidas de que é a associação à púrpura imperial que torna o termo culturalmente interessante e aspecto digno de figurar na definição, mas só em «múrice», variante menos conhecida, se refere essa associação. O leitor comum dificilmente consultará «múrex» por interesse taxonómico. Consultá-lo-á por causa da púrpura de Tiro, de Bizâncio, de Roma, da Bíblia, da Antiguidade clássica, etc. Até a etimologia é em «múrice» que está mais completa. O que mais ressalta da análise dos dois verbetes é a desnecessidade de duas acepções, e pela mais óbvia das razões: se na primeira se diz que é a designação comum, na segunda afirmar-se que é «extensiva a outros moluscos gastrópodes marinhos» não faz sentido. É sobretudo uma distinção taxonómica moderna, relevante para zoologia especializada, mas pouco útil para o leitor comum. 

      Tudo visto, proponho assim múrex, múrice ZOOLOGIA designação comum de certos moluscos gastrópodes marinhos da família dos Muricídeos, geralmente de concha espinhosa e longo canal sifonal, de algumas das cujas espécies se extraía, na Antiguidade, a púrpura, valioso corante usado no tingimento de tecidos de luxo e associado ao poder imperial. 

      Quanto à etimologia, diria que vem do latim murex, ĭcis, «múrice», nome de um molusco marinho de que se extraía a púrpura.

[Texto 23 030]

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Léxico: «arquetaria | arqueteiro»

Não desprezemos isto


      Não viram mal, não: é mesmo «arquetaria» que escrevi ali atrás. E há aqui uma curiosidade lexicográfica: o dicionário da Porto Editora marca «arquete» como antiquado, mas isso não impede que a família derivacional continue viva ou reactivável em contextos especializados. Acontece frequentemente nos léxicos técnicos. Acontece neste caso, já que vejo publicitados cursos de arquetaria (e até, na verdade, archetaria) no Brasil. Assim, proponho arqueteiro fabricante, reparador ou ajustador de arcos (arquetes) para instrumentos de corda friccionada, como o violino, a viola ou o violoncelo | arquetaria arte, técnica, oficina ou actividade de fabrico, reparação e ajustamento de arcos (arquetes) para instrumentos de corda friccionada.

[Texto 23 029]

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Definição: «pau-brasil | brasil»

Muito me contam


      E por pau-brasil... Santo Deus, então esta árvore tem a importância que todos nós conhecemos e está tão pobremente (até desactualizada) definida nos dicionários? Não pode ser. Assim, proponho pau-brasil 1. BOTÂNICA (Paubrasilia echinata [sin. Caesalpinia echinata]) árvore tropical da família das Fabáceas, nativa da Mata Atlântica brasileira, de madeira muito dura, densa e avermelhada, explorada desde o período colonial para extracção de matéria corante vermelha e para marcenaria fina; teve grande importância económica na colonização portuguesa da América do Sul e deu nome ao Brasil; 2. madeira dessa árvore, muito dura, pesada e resistente, usada em marcenaria fina, arquetaria e na extracção de matéria corante vermelha.

[Texto 23 028]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Estranho, estranhíssimo mesmo, é no verbete de «brasil» do dicionário da Porto Editora não encontrarmos o sentido «relativo a brasa» — a origem de tudo!


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Assim, 1.º ciclo, 2.º ciclo, secundário, ensino superior

Isto já está


      Vá lá, no Público — nos outros jornais não sei — já perceberam que é assim que se deve escrever, 1.º ciclo, 2.º ciclo, secundário, ensino superior. Mas há alguma razão para ser de outra maneira? Agora só falta convencer os restantes dez milhões de portugueses. Mas essa antevê-se como a parte mais fácil, depois de pôr jornalistas, revisores, editores, professores a escrever como deve ser. Há esperança. «No “limite” da sobrecarga e exaustão, os educadores de infância e os professores do 1.º ciclo vão estar em greve no dia 15 de Junho» («Professores do 1.º ciclo e educadores de infância em greve a 15 de Junho», Cristiana Faria Moreira, Público, 19.05.2026, p. 16). 

      Se estivéssemos no Brasil, porém, ainda teríamos um trabalho suplementar: convencer a galera — incluindo as pessoinhas, que me tinham por inimigo, do Não-Sei-Quê & Gramática, ora extinto — do acerto (entretanto convertido em regra graças ao uso continuado por décadas) do ponto: 1.º e não , que isto são graus, porra. Cá continua, e continuará,  a ver-se muitas vezes sem ponto, mas tal decorre do mero desmazelo e ignorância, não de obstinação pétrea como o pau-brasil.

[Texto 23 027]

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Léxico: «irritante»

Não só adjectivo, Porto Editora


      Na SIC Notícias, na terça-feira, o jornalista perguntou a Clara Ferreira Alves se as declarações sobre a disponibilidade de Portugal para a utilização da Base das Lajes poderão tornar-se um irritante entre os dois países. Ora, já andamos a ouvir isto há demasiado tempo, Porto Editora, nada justifica a sua ausência do dicionário.

[Texto 23 026]

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Léxico: «concessionante | glifo»

Em que se explica tudo


      «À Transdev compete-lhe também assegurar a manutenção e reparação dos 16 comboios enquanto durar o contrato. Mas o investimento nas oficinas é público e foi feito pelo concessionante» («Liberalização do comboio Marselha–Nice mudou tudo menos a vista», Carlos Cipriano e Ruben Martins, Público, 19.05.2026, p. 26).

[Texto 23 025]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Ainda bem que apareceu aqui isto, e concretamente a palavra «oficinas». Sempre que copio texto do PDF do Público, o glifo fi simplesmente desaparece, ou seja, ao colar o texto, «oficinas» aparece «o cinas». Certo dia, por distracção, não vi e publiquei um texto em que isso aconteceu, mas não, ao que julgo, com este glifo. Lembro-me é de ter sido estupidamente increpado, porque parecia demonstrar que eu não sabia escrever a palavra, por um desses maluquinhos que aqui vinham conspurcar o blogue com comentários chocarreiros, agressivos e inúteis. No caso, um que também é autor de um blogue e que escreve de maneira amalucada e com ortografia desactualizada. Estão a ver quem é? Nunca me lembro do nome do diabo invejoso, graças a Deus. O que acontece é que, para permitir que o texto seja copiável e pesquisável, o PDF inclui uma tabela chamada ToUnicode CMap. Esta tabela tenta mapear cada glifo de volta para caracteres Unicode normais. Quando esta tabela está incompleta ou malfeita (o que é frequente em PDF de impressão), o leitor de PDF não sabe que aquele glifo bonito corresponde a f + i. Resultado: o par fi desaparece completamente ao copiar. Corrigir isto pode ser difícil ou não, depende, mas evidentemente não é prioridade dos jornais, que são feitos para impressão. Chegados aqui, já todos perceberam que os dicionários não acolhem a acepção predominante hoje em dia de glifo INFORMÁTICA, TIPOGRAFIA representação gráfica específica de um ou mais caracteres numa fonte tipográfica ou sistema de escrita digital; inclui letras, símbolos, ligaturas e outros sinais gráficos.


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Definição: «ébola»

Conjunto, não só um


      «O Ébola é um conjunto de vírus altamente contagiosos e com taxas de mortalidade altas. Desde que foi detectado pela primeira vez, em 1976, já houve mais de 40 surtos – este é o 17.º surto registado na República Democrática do Congo. [...] Há quatro tipos de vírus do Ébola que podem ser transmitidos a humanos: a do Zaire, a do Sudão, a da Floresta de Tai e a Bundibugyo. Segundo a OMS, é este último o responsável pelo actual surto» («Novo surto de Ébola: o que é a Bundibugyo e porque é uma emergência?», Tiago Ramalho, Público, 19.05.2026, p. 28). 

      Até concordaria que a definição tivesse duas acepções, como faz a Porto Editora, mas precisamente na ordem inversa. Afinal, quando se afirma que se registaram não sei quantos mortos por ébola, a que nos referimos, ao vírus ou à doença? À doença, evidentemente, pelo que é esta a acepção principal. Mais: se é um conjunto de vírus, não podes defini-lo, Porto Editora, como o «vírus causador». Mas termos duas acepções, no caso, pode não ser desnecessário, para maior clareza, pelo que proponho ébola 1. MEDICINA doença infecciosa grave causada por vírus do género Ebolavirus, caracterizada por febre, hemorragias e elevada taxa de mortalidade; 2. [por extensão] designação comum desses vírus.

[Texto 23 024]

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Léxico: «colhida»

Se assim é, registe-se


      «Entre Marselha e Nice, as regras por que se rege a concessão são rigorosas. Desde logo, o índice de pontualidade tem de ser de 97,5%, sob pena de a empresa sofrer penalizações. Jean-Pierre Serrus, responsável da empresa no Sul de França, diz que este valor até é superado, já que a pontualidade tem sido de 99%. Mas — hélas! —, na prática, é de apenas 80%. O motivo da diferença é que só contam para o contrato de concessão os atrasos da exclusiva responsabilidade da Transdev. E estes mal chegam a 1%. Os outros devem-se a incidentes externos (por exemplo, colhidas) ou a problemas na infra-estrutura, da responsabilidade do Réseau Ferré de France (a Rede Ferroviária de França, que pertence à SNCF)» («Liberalização do comboio Marselha–Nice mudou tudo menos a vista», Carlos Cipriano e Ruben Martins, Público, 19.05.2026, p. 26). 

      Mais que voient mes yeux ? Des journalistes qui utilisent des termes français. Oh là là ! Voyons maintenant si la partie en portugais est correcte. Tiens, tiens... A imprensa usa sobretudo a construção adjectival/participial: «morreram colhidas por um comboio», «foi colhida por um comboio». Esta substantivação fora do campo tauromáquico estou a vê-la pela primeiríssima vez. Mas admito que possa ser gíria do meio ferroviário, e, se for colhida FERROVIA acto ou ocorrência em que uma pessoa, animal ou veículo é atingido por um comboio; atropelamento ferroviário.

[Texto 23 023]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Não é «Marselha–Nice», mas «Marselha-Nice»: nos encadeamentos vocabulares, é o hífen que se deve usar.


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Definição: «moa | maori»

Centenas, não milhões


      «Según la empresa [Colossal Biosciences], esta novedosa tecnología supone “un gran avance” para su programa de desextinción de aves, especialmente para devolver a la vida al moa gigante de la Isla Sur (Nueva Zelanda), un ave no voladora desaparecida hace 600 años tras la llegada de los maoríes de la Polinesia, que la cazaron sin tregua, y la desaparición de su hábitat natural» («Un huevo artificial acelera la vuelta a la vida de especies extintas», Judith de Jorge, ABC, 20.05.2026, p. 56). 

      É pelo menos isto que se tem de dizer na definição, ou quem consulta o dicionário vai pensar que desapareceu há milhões de anos. Assim, proponho moa ORNITOLOGIA designação comum de várias aves não voadoras da família dos Dinornitídeos, outrora endémicas da Nova Zelândia e desaparecidas há cerca de 600 anos, caracterizadas pelo grande porte, patas traseiras robustas e corpo desprovido de asas; algumas espécies ultrapassavam os 3 metros de altura.

[Texto 23 022]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: E há toda a vantagem em definir melhor a língua de que provém a palavra «moa», o maori LINGUÍSTICA língua polinésia oriental da família austronésia, falada pelos Maoris da Nova Zelândia, caracterizada pela distinção entre vogais breves e longas; é uma das línguas oficiais do país.


Outro P. S.: A referência à «ausência total de asas» merece talvez alguma cautela, ou uma bicada: os moas conservavam ainda um pequeno escápulo-coracóide vestigial, associado aos membros anteriores, pelo que, em rigor anatómico, Porto Editora, não se tratava de uma ausência absoluta de asas, mas antes de uma redução extrema dessas estruturas. Ou acham que precisamos de consultar o Dr. Vasco Leitão, já que «ele até sabe o que é o mastóideo»?



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Como se traduz por aí

É como se vê


      Na quarta-feira vi, na RTP2, o primeiro episódio da série italiana Um Tempo Após Outro (Un’Estate Fa, 2023), de Davide Marengo e Marta Savina. Como envolve linguagem e conceitos jurídicos, a probabilidade de haver erros na tradução era muito alta. Como de facto. Quando Elio Santamaria está na iminência de levar um murro bem assente, de que será salvo in extremis pela intervenção de um traficante de droga, diz: «Articolo 582, percosse volontarie.» Nas legendas, da responsabilidade de Florinda Lopes (assim como a tradução), aparece isto: «Art. 582.: agressões voluntárias.» Não significa rigorosamente nada para o espectador português, não temos tal figura. É verdade, mas irrelevante para a tradução, que a personagem mistura duas figuras penais próximas do direito italiano. Ao citar o artigo 582.º do Código Penal, refere-se na realidade ao crime de lesões pessoais («lesioni personali»), isto é, à produção de danos físicos ou psíquicos noutra pessoa. Contudo, usa a expressão «percosse volontarie», que remete antes para o crime de «percosse» (artigo 581.º), correspondente grosso modo às vias de facto ou agressões sem lesão relevante. A confusão é plausível numa personagem jovem e sob tensão, sobretudo porque ambas as figuras pertencem ao mesmo campo semântico da agressão física. De volta à tradução, havia duas opções: «Artigo 582.º, ofensas à integridade física dolosas.» Ou, mais verosímil perante a situação de tensão e a condição de caloiro de Direito que a personagem seria, assim: «Artigo 582.º, agressão dolosa.» A tradução correcta exige reconhecer que o italiano está a assinalar o dolo e depois encontrar a categoria equivalente no nosso ordenamento, não apenas o correspondente vocabular.

[Texto 23 021]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Mas encontrei mais erros. Como este, ainda menos desculpável: «O fato, inspetor, é que não me lembro de nada daquele verão», diz Elio Santamaria ao inspector Zancan, à saída da missa. Um dia, só semialfabetizados saberão, sem qualquer espécie de hesitação, que se escreve «facto», porque tradutores, jornalistas e outros que ganham a vida a escrever é o que se vê. Mais uma coisa: escreve-se 581.º, não 581., assim amputado. Para onde mando a factura?


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Ortografia: «bruaá»

Nós é que ficamos


      «Paulo Pedroso e Francisco Assis, que são do PS, concordam com Rangel e os seus argumentos são claros. Assis insurgiu-se contra uma “retórica infantil e extremista”, enquanto Paulo Pedroso lembrou que Portugal “sempre deu grande latitude” aos EUA na utilização das Lajes, mesmo no tempo dos vários governos do PS (a diferença está no “bruá” e no “alarido” de cada Administração norte-americana no poder, sublinhou o ex-ministro)» («Rangel e a base das Lajes no meio do “bruá”», Helena Pereira, Público, 19.05.2026, p. 6). 

      E logo no editorial... Helena Pereira, consulte dicionários e vocabulários, não vai ficar mais cansada ao fim do dia. Nós é que ficamos quando lemos estes erros. Em português é bruaá, com dois aa, o que se explica pelo étimo, francês, que é brouhaha.

[Texto 23 020]

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Léxico: «empoado | empoador»

Porque depois aparecem em livros


      «Luísa abre o leque diante do rosto empoado, desejosa de esconder o rubor das faces.» E que utensílio usou Luísa para empoar o rosto? Ora, um empoador. Para isso, convém termos o instrumento e o adjectivo nos dicionários.

[Texto 23 019]

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Definição: «magnetosfera»

E para que serve? Pois


      «Elle visualisera les défenses de la Terre. La mission Smile dont le lancement est prévu ce mardi à 5h52 depuis le centre spatial de Kourou à bord d’une fusée Vega-Cest dédiée à l’étude de la magnétosphère, le puissant bouclier magnétique qui défend notre planète contre les fureurs du Soleil» («Smile, une mission pour filmer le bouclier magnétique de la Terre», Vahé Ter Minassian, Le Temps, 19.05.2026, p. 9). 

      Ora aí está, é precisamente deste aspecto nuclear que a definição da Porto Editora se esquece: «região que envolve um planeta, como é o caso da Terra, em que o seu campo magnético exerce uma influência dominante no controlo dos processos físicos que aí acontecem». Diz apenas que o campo magnético domina os processos físicos «que aí acontecem», mas não explica que processos são esses nem porque existe uma magnetosfera. Assim, proponho magnetosfera ASTRONOMIA região do Espaço em torno de um planeta ou outro corpo celeste em que o campo magnético desse astro domina o comportamento das partículas carregadas, desviando ou aprisionando o vento solar e outras radiações cósmicas.

[Texto 23 018]

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Léxico: «ratinho-africano-espinhoso»

Talvez seja hoje


      «Em fevereiro de 2022, um artigo publicado na revista científica “Developmental Cell” apontava para uma descoberta capaz de mudar o paradigma da biologia. “Por acaso e com muita sorte, descobrimos que o ratinho espinhoso africano (Acomys dimidiatus) é capaz de regenerar espontaneamente o sistema nervoso central”, esclarece Mónica Sousa» («Cientistas com “mente e olhos abertos” para criar impacto a partir do Porto», Rita Neves Costa, Jornal de Notícias, 18.05.2026, p. 18). 

      A jornalista Rita Neves Costa, infelizmente, ainda não teve oportunidade de entrar no conhecimento desta regra do Acordo Ortográfico de 1990. Talvez hoje. Assim, proponho ratinho-africano-espinhoso ZOOLOGIA (Acomys dimidiatus) espécie de pequeno roedor da família dos Murídeos, distribuída pelo Nordeste de África e pelo Médio Oriente, sobretudo em regiões áridas, semiáridas e rochosas; apresenta dorso coberto por pêlos rígidos e espinhosos, ventre claro, orelhas grandes e cauda relativamente comprida; de hábitos nocturnos e crepusculares, alimenta-se principalmente de sementes e outros materiais vegetais, podendo também consumir pequenos invertebrados; pertence a um género conhecido pela invulgar capacidade de regeneração de tecidos cutâneos e cartilaginosos.

[Texto 23 017]

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Etimologia: «montra»

Porque mostra


      «La mise en vente d’une montre exceptionnelle a provoqué ce week-end des débordements dans certains magasins. Le mot vient du latin populaire monstrare, qui signifie désigner, indiquer. C’est pourquoi on a ainsi qualifié le cadran: il montre l’heure» («Montre», Étienne de Montety, Le Figaro, 19.05.2026, p. 32). 

      É como se Étienne de Montety nos estivesse a incentivar a completarmos, finalmente, a nota etimológica de «montra», Porto Editora, não achas? É o que nós fazemos assim do francês montre, «vitrina», do francês antigo mostre, derivado do latim vulgar monstrare, «mostrar, indicar». 

      A «montre exceptionnelle» não é um relógio excepcional no sentido relojoeiro estrito, como seria um Patek Philippe Grand Complication ou um Audemars Piguet de alta complicação, mas antes um objecto de desejo produzido em série limitada, com enorme carga simbólica e mediática. O texto explora precisamente isso: a peça torna-se uma montra social.

[Texto 23 016]

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Léxico: «neuroterapia»

No sítio certo e actualizado


      Já ouviram falar no Centro de Neuroterapias Digitais da Fundação Champalimaud? Com todo o avanço dos últimos tempos, a definição nos nossos dicionários (onde aparece, em poucos) está claramente ultrapassada, pelo que proponho neuroterapia MEDICINA intervenção terapêutica destinada ao tratamento, reabilitação ou modulação de funções do sistema nervoso, especialmente em doentes com perturbações neurológicas, neurodegenerativas, neuropsiquiátricas ou sequelas de lesões cerebrais, podendo recorrer a técnicas farmacológicas, comportamentais, físicas, cirúrgicas ou digitais.

[Texto 23 015]

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Definição: «guarda-nocturno»

Ainda vão a tempo


      «A Câmara do Porto abriu o concurso para a contratação de 11 guardas-noturnos, para as zonas de Lordelo do Ouro e Massarelos, Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde e Ramalde. O prazo para submissão de candidaturas encerra no próximo dia 26» («Porto abre concurso para 11 guardas-noturnos», Jornal de Notícias, 18.05.2026, p. 8).

      Também me parece inequívoco que o verbete de «guarda-nocturno» deve ter duas acepções, como faz a Porto Editora, mas não com as definições que tem agora, que contradizem até o que a lei estabelece: «1. indivíduo que, de noite, vigia e guarda as habitações numa certa área; 2. indivíduo encarregado da vigilância de um estabelecimento fabril, banco, etc., durante a noite». Devemos ter, sim senhor, duas acepções, mas uma geral, aplicada tanto a um guarda-nocturno de Lisboa, por exemplo, como da China, e outra que atende ao que a legislação portuguesa estatui. Assim, proponho guarda-nocturno 1. indivíduo que, durante a noite, vigia habitações, estabelecimentos ou determinada área; 2. profissional licenciado para assegurar a vigilância nocturna de uma zona determinada, colaborando preventivamente com as forças de segurança e prestando serviços a moradores e comerciantes.

[Texto 23 014]

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Léxico: «tote bag»

É assim


      Aqui um grupo de betinhas organizou-se mais formalmente e uma das primeiras iniciativas foi um encontro para cada participante fazer a sua tote bag, termo agora tão em voga e que certo dicionário bilingue diz ser um saco. Vá, tomai lá um hiperónimo bem amplo. Só que sacos há muitos. ➠ Tote bag é o saco de pano, geralmente de algodão ou lona, de formato simples e aberto, com duas alças paralelas que permitem transportá-lo ao ombro ou na mão; usado sobretudo para compras ou para transporte quotidiano de objectos, destacando-se pelo carácter reutilizável e pela frequente personalização gráfica; saco de pano com alças.

[Texto 23 013]

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Definição e etimologia: «porcelana»

Em que se fala de porcas


      A definição de «porcelana» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é excessivamente vaga e redutora, sobretudo por fazer assentar a caracterização do material apenas em «argilas muito finas»: «material cerâmico vitrificado, translúcido em pequenas espessuras, impermeável, preparado com argilas muito finas». Tal formulação não contempla adequadamente variedades importantes de porcelana, como a bone china inglesa, cuja composição inclui cinza óssea calcinada. Mais e pior: a definição é demasiado genérica e omite aquilo que distingue histórica e tecnicamente a porcelana de outras cerâmicas vitrificadas. Assim, proponho porcelana 1. material cerâmico vitrificado de elevada dureza e baixa porosidade, geralmente branco e translúcido em pequenas espessuras, obtido por cozedura a alta temperatura de uma pasta composta sobretudo por caulino, feldspato e quartzo, podendo incluir outros materiais, como cinza óssea calcinada, conforme a variedade; distingue-se da faiança e do grés pela maior vitrificação, resistência e finura; 2. louça ou objecto feito desse material. 

      A etimologia tem mais que se lhe diga, não pode (ou pelo menos não devia) ser despachada com o habitual «idem». Vem do italiano porcellana, nome inicialmente dado a certas conchas marinhas lustrosas do género Cypraea, especialmente à espécie Cypraea porcellana, cujo aspecto branco, liso e brilhante evocava a superfície da porcelana chinesa; por extensão semântica, o termo passou depois a designar a cerâmica oriental de alta qualidade importada para a Europa; o italiano porcellana deriva de porcellano, vocábulo relacionado com porco, porque a abertura inferior dessas conchas foi tradicionalmente comparada, por analogia de forma, aos órgãos genitais de uma porca jovem.

[Texto 23 012]

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Léxico: «periquito-arco-íris»

Tomai lá este


      Prossigamos o nosso labor neste dia muito especial em que o rei Carlos III não morreu. (Podemos, porque nos apetece, variar: «Prossigamos o nosso labor muito especial neste dia em que o rei Carlos III não morreu.» «Prossigamos o nosso labor neste dia em que o muito especial rei Carlos III não morreu.» São todas verdadeiras, só a última não soa tão bem.) Vamos lá. «O periquito-arco-íris (Trichoglossus haematodus), provavelmente oriundo de Espanha, de acordo com a anilha que trazia, foi capturado em Arcos de Valdevez e entregue ao Instituto de Conservação da Natureza» («À procura do canguru fugitivo em Viana do Castelo», Ana Peixoto Fernandes, Jornal de Notícias, 15.05.2026, p. 11, itálicos meus).

[Texto 23 011]

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Definição e etimologia: «estorninho» | Léxico: «esturnídeo»

A mais impressiva


      «Icónico es el caso de Eugene Schieffelin, inmigrante alemán, miembro de la Sociedad Estadounidense de Aclimatación y fervoroso fan de Shakespeare. Inspirado por las obras del genio inglés, soltó un centenar de estorninos, un pájaro común en el Viejo Continente, en el neoyorquino Central Park. Dos siglos después, se calcula que hay 200 millones de estorninos en toda América del Norte que causan cerca de 1.000 millones de dólares de pérdidas anuales en el sector agrícola» («El ‘pecado’ ecológico de España», Patricia Biosca, ABC, 16.05.2026, p. 57). 

      Pela definição da Porto Editora, não ficamos a saber de onde é originária esta ave, e a nota etimológica deixa-nos com a cabeça um pouco à roda: «Do latim *sturnīnu-, “da cor do estorninho”, de sturnu-, “estorninho”». Também falta um traço distintivo importante, obrigatório nesta definição: o comportamento gregário e os grandes bandos, porventura a característica mais imediatamente reconhecível dos estorninhos. 

      Tendo em conta todos esses aspectos, proponho estorninho ORNITOLOGIA designação comum das aves passeriformes do género Sturnus, da família dos Esturnídeos, originárias da Europa, Ásia e Norte de África, de plumagem geralmente escura e iridescente, bico recto e afilado e comportamento gregário, frequentemente reunidas em grandes bandos; algumas espécies foram introduzidas noutras regiões do mundo, onde podem causar forte impacto ecológico e agrícola. 

      Quanto à etimologia, vem do latim sturnus, «estorninho», provavelmente por via de formas derivadas medievais.

[Texto 23 010]

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Léxico: «armadilha de Tucídides»

Começou uma nova era


      Desta vez, a multissecular sabedoria chinesa não bastou: Xi teve de recorrer às teorias ocidentais para ameaçar nada subtilmente Trump, isto apenas com uma referência à armadilha de Tucídides POLÍTICA INTERNACIONAL, RELAÇÕES INTERNACIONAIS teoria segundo a qual, quando uma potência emergente ameaça substituir ou ultrapassar a potência dominante, aumenta fortemente o risco de guerra ou de confronto grave entre ambas; a expressão, inspirada na narrativa de Tucídides sobre a rivalidade entre Atenas e Esparta que conduziu à Guerra do Peloponeso, foi popularizada pelo politólogo norte-americano Graham Allison no contexto das relações entre os Estados Unidos e a China.

[Texto 23 009]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: A expressão inglesa original, Thucydides Trap, foi criada pelo politólogo norte-americano Graham Allison. Embora alguns autores considerem discutível a tradução literal por «armadilha de Tucídides», por esta poder sugerir uma espécie de fatalidade histórica ou uma teoria explicitamente formulada pelo historiador grego, a designação consolidou-se amplamente no debate geopolítico contemporâneo e é hoje usada sobretudo como metáfora para situações de rivalidade entre uma potência dominante e uma potência emergente. E já cá chegou, pois: «A segunda conclusão é a forma muito directa como o líder chinês colocou a questão de Taiwan e a ambiciosa ascensão chinesa com a evocação da armadilha de Tucídides. O Presidente chinês deixou claro que existe o “risco de uma situação extremamente perigosa” para a relação entre as duas potências, que poderão entrar “em fricção, ou mesmo em conflito”, se a questão de Taiwan for mal gerida» («Trump não fez um “negócio da China”», Amílcar Correia, Público, 19.05.2026, p. 8).


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Léxico: «fogo técnico»

Para quem percebe


      «Los mecanismos propuestos van desde el pastoreo o el uso de cortafuegos verdes a la utilización del fuego técnico y la renaturalización o rewilding, una técnica que, aunque a priori pueda parecerlo, nada tiene que ver con el abandono del monte» («La ciencia mira al pasado para luchar contra los grandes incendios», M. C., La Voz de Galicia, 16.05.2026, p. 12). 

      Nada de confusões, não se trata nem de queimas nem de queimadas. E está previsto na legislação portuguesa, porque, si fuera sólo un concepto y una realidad de España, coño, ¿creen que yo lo traería aquí? Assim, proponho fogo técnico SILVICULTURA, PROTECÇÃO CIVIL uso planeado e tecnicamente supervisionado do fogo em espaço rural ou florestal, para fins de prevenção, gestão de combustíveis ou combate a incêndios, abrangendo o fogo controlado e o fogo de supressão; em Portugal, a sua execução está sujeita a normas legais específicas e a credenciação técnica.

[Texto 23 008]

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Léxico: «lefebvriano | lefebvrista»

E é a mais usada


      «Los lefebvrianos no dan marcha atrás a su pretensión de ordenar, en principio, a cuatro obispos el próximo 1 de julio saltándose el proceso exigido por Roma para este tipo de consagraciones. Y la Santa Sede no levantará la mano» («Los lefebvrianos: la huida hacia delante del cisma», José Beltrán, La Razón, 17.05.2026, p. 38).

      Não, Porto Editora, nesta acepção, tão comum, de membro, fiel ou adepto do movimento não a registas. Além disso, a tua definição parece-me um tanto desequilibrada: insiste muito na biografia de Lefebvre e pouco no fenómeno religioso e eclesiológico associado ao termo. E o que é mais importante para o caso? E «dissidente da Igreja Católica» é formulação discutível e simplificadora, porque a situação canónica da Fraternidade Sacerdotal São Pio X é historicamente mais ambígua e complexa do que isso.

      Assim, proponho lefebvriano 1. RELIGIÃO relativo a Marcel Lefebvre (1905-1991), arcebispo francês fundador da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, ou às posições católicas tradicionalistas por ele defendidas, caracterizadas pela oposição a vários aspectos das reformas do Concílio Vaticano II; 2. RELIGIÃO seguidor de Marcel Lefebvre ou membro, simpatizante ou adepto da Fraternidade Sacerdotal São Pio X e do movimento tradicionalista a ela associado; 3. RELIGIÃO relativo às posições tradicionalistas católicas defendidas por Lefebvre.

[Texto 23 007]

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P. S.: Registe-se que, no Brasil, sobretudo em textos académicos e teológicos (que isto não é assunto para o zé-povinho), ocorre com frequência a forma «lefebvrista», morfologicamente talvez mais previsível e paralela a vocábulos como «marxista» ou «leninista», por exemplo. Em Portugal, porém, ainda que também se use esporadicamente, o uso parece favorecer claramente «lefebvriano», provavelmente por influência francesa.


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Erros de sempre e para sempre

E não há esperança


      «Estrelas em ascenção à boleia da história de amor de Kennedy Jr.» (Margarida Cerqueira, Jornal de Notícias, 18.05.2026, p. 31).

      Ainda um dia (hoje?) em que não tenha nada de mais importante para fazer, Margarida Cerqueira, experimente consultar um dicionário. Verá coisas extraordinárias, que não lhe vou revelar, e coisas banais, como esta de a palavra se escrever «ascensão». De verbos terminados em «-ender», retenha, temos substantivos derivados com «-são». Logo, ascender, ascensão. Simples, não é? Partilhe, diga ao seu editor.

[Texto 23 006]

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Léxico: «pombograma»

Tão vasta é a realidade


      Estou agora a ler uma história da filatelia e aparece, como não, o termo pombograma COMUNICAÇÕES mensagem transportada por pombo-correio; impresso, formulário ou documento destinado a esse tipo de transmissão postal. 

      Claro que não ignoro que um filatelista, como eu cheguei a pretender ser, tenderia a defini-lo antes assim pombograma FILATELIA peça postal ou documento relativo ao correio por pombo-correio, especialmente a mensagem transportada por esse meio.

[Texto 23 005]

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P. S.: Para exprimir a mesma ideia apenas com uma única palavra, só o português, pombograma, e o inglês, pigeongram. O alemão, por outros motivos, também está a par, com o seu Brieftaubenpost.


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