Léxico: «caipirosca»

Semiburlesco

      Um artigo do Diário de Notícias revela-nos onde beber as melhores caipirinhas em Lisboa. Pelo meio, também fala das variantes: caipirosca, em que em vez de cachaça se adiciona vodca, e caipirão, quando em vez de cachaça se acrescenta Licor Beirão. E não é que o seriíssimo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «caipirosca»?! E «caipirão» também regista, mas somente como diminutivo de «caipira».
[Texto 1895]
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Léxico: «malhassol»

Fora, mas usada todos os dias

      O engenheiro queimado por mil sóis africanos não quer rede galinheira no terraço, mas malhassol. E o vocábulo não devia estar nos dicionários? Malhassol = malha + soldada. Welded steel mesh, se preferem em inglês...
[Texto 1894]
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Sobre «condimento»

Não faltam condimentos

      «Para evitar os assaltos no parque de campismo, a segurança foi reforçada. Além de mais iluminação, há também, segundo Luís Montez, mais arruamentos e um segurança em cada cruzamento. Os campistas contam ainda com um supermercado, inovação introduzida no ano passado, para fazerem as suas compras. No entanto, admite o responsável, nota-se que quem já chegou ao recinto vai carregado de condimentos para evitar gastos maiores. Um reflexo da crise, tal como a tendência verificada na venda de ingressos» («Eddie Vedder obriga a criar pista de helicóptero», Sofia Fonseca, Diário de Notícias, 31.07.2012, p. 45).
      Parece ser uma citação indirecta, e nesse caso é erro de Luís Montez, mas a jornalista devia ter corrigido. Condimentos, meus caros, são substâncias que realçam o sabor dos alimentos: ervas aromáticas, especiarias, etc.
[Texto 1893]
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«Idêntico/semelhante»

Repetimo-nos

      «Os materiais da caverna Border são, por outro lado, muito idênticos aos que posteriormente – há 24 mil anos – foram produzidos e utilizados pelas populações pré-históricas na região, conhecidas por povo San» («‘Flinstones’ africanos já eram modernos há 44 mil anos», Filomena Naves, Diário de Notícias, 31.07.2012, p. 33).
      Já o perguntei várias vezes: a identidade tem graus? Ora, se temos o vocábulo «semelhante», porque havemos de usar sem propriedade o vocábulo «idêntico»?
[Texto 1892]
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Léxico: «bilocação»

É diferente

      Ah, não se designa por ubiquidade, não... Ao acto ou capacidade de uma pessoa poder estar, por milagre, em dois lugares distintos ao mesmo tempo dá-se o nome de bilocação. «Por milagre» é como o define o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas nunca se sabe. São habitualmente referidos os casos de António de Pádua e de Francisco Xavier. Para os Brasileiros, talvez o mais conhecido seja o caso de Frei Galvão.
[Texto 1891]
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Léxico: «empequenecer»

Para não morrer

      «E, em todos esses anos, desde que tiraram Perón do poder, em meados dos anos 50, o obrigaram ao exílio e lhe pediram depois que regressasse para os salvar, a Argentina foi empequenecendo até ficar sem moeda nacional» (A Ordem do Tigre, J. J. Armas Marcelo. Tradução de Miranda das Neves e revisão de José Costa. Lisboa: Editorial Teorema, 2010, p. 97).
      Este vocábulo, que já ouvira e lera, também ainda não desapareceu dos dicionários. «Empequenecer não me desagrada, mas nunca o li, e nunca o ouvi, se bem que sou beirão [de Lobão da Beira, Tondela]» (Falar e Escrever, Cândido de Figueiredo. Lisboa: A. M. Teixeira, 1921, p. 148). Agora Fernando Venâncio pode vir, estraga-prazeres, comentar que vem do castelhano empequeñecer.
[Texto 1890]
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Léxico: «assucatar»

Vou usar

      Nunca tinha lido ou ouvido. O engenheiro, queimado por mil sóis africanos, acusou o empreiteiro de ter assucatado a fachada do prédio. Assucatar é construir mal, fazer mal.

[Texto 1889]
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Sequelas do AOLP90

Empatados

      No Bom Dia Portugal de sexta-feira, o jornalista João Tomé de Carvalho perguntou à médica alergologista Susana Piedade em que se distinguia a rinite alérgica da vulgar constipação. Respondeu a médica: «Portanto, as constipações são limitações autolimitadas no tempo.» A abrir, o jornalista tinha dito: «A rinite alérgica afecta cerca de 2,5 milhões de portugueses.» O jornalista talvez não padeça de rinite, mas da chamada síndrome de AO, que afecta a fala, é certo que sim: o falante não sabe se a consoante é muda ou não. E lá saiu o c de «afecta» bem articulado...
[Texto 1888]
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Os dislates no «Público»

Procurador às Cortes...

      O texto do provedor do leitor do Público é hoje inteiramente dedicado aos dislates que se vão lendo nas páginas deste jornal de referência (sem aspas...). Deixo o último parágrafo.
      «Valerá a pena acres­cen­tar que, tenham ou não ori­gem em cha­ma­das de aten­ção dos lei­to­res, essas cor­rec­ções devem ser sem­pre sina­li­za­das. O lei­tor José Orti­gão Oli­veira assi­na­lou um erro numa notí­cia do pas­sado dia 20 sobre o fale­ci­mento de José Her­mano Saraiva: escrevera-se que o antigo minis­tro da Edu­ca­ção fora “pro­cu­ra­dor às Cor­tes”, quando se pre­ten­de­ria infor­mar que inte­grara a Câmara Cor­po­ra­tiva do Estado Novo. A ano­ma­lia his­tó­rica terá tido ori­gem num des­pa­cho da agên­cia Lusa (foi aliás repro­du­zida em outros órgãos de comu­ni­ca­ção) e foi, no caso do PÚBLICO, rapi­da­mente detec­tada e cor­ri­gida. Porém, tendo o erro estado em linha, a cor­rec­ção deve­ria ter sido assi­na­lada, e não o foi. Quando esse pro­ce­di­mento não é seguido, tornam-se incom­pre­en­sí­veis as men­sa­gens de lei­to­res que per­ma­ne­cem nas cai­xas de comen­tá­rios, aler­tando para o erro no texto original» («Os erros de escrita não são inevitáveis», José Queirós, Público, 29.07.2012, p. 55).
[Texto 1887]
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Sobre «surto»

Cuidado com eles

      «O caso recente de Hugo Sequeira, que continua internado na ala de Psiquiatria do Hospital de Cascais, na sequência da queda de um segundo andar da sua casa na zona da Parede, em Cascais, há uma semana, devido a um alegado surto psicótico, voltou a trazer para a ordem do dia uma questão que tem tido muito destaque nos últimos anos» («Quando eles não aguentam a pressão», Nuno Cardoso, Diário de Notícias, 29.07.2012, p. 47).
      Está correcto: surto psicótico. Mas a primeira acepção que vem à mente da maioria dos falantes é surgimento de vários casos da mesma doença numa região, epidemia. No surto psicótico é outra coisa: é o aumento significativo e rápido de um fenómeno ou de um processo. Vem tudo de trás...
[Texto 1886]
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«Ready to rock»

Mais uma lição de amaricano

      «“Vamos falar nos balneários”, adiantou Lochte após a prova. A sua sétima medalha olímpica – quarta de ouro, uma de prata e duas de bronze – foi a recompensa por “quatro anos de trabalho árduo” e, agora, diz-se pronto para arrasar – ready to rock, foi a expressão que utilizou – em Londres 2012» («Phelps sem pilhas para ‘rock’ de Lochte», Pedro Sequeira, Diário de Notícias, 29.07.2012, p. 27).
      Arrasar — ou algo próximo. To rock é, em sentido figurado, abalar, agitar, fazer tremer. «I’m ready to rock this thing», disse ele. «Go big or go home.»
[Texto 1885]
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Sobre «fileira»

Vai sendo usado

      «Seja qual for o modelo que o Executivo de Passos Coelho venha a escolher para regular o jogo online, de entre os três apontados pelo relatório da Comissão Interministerial a que o DN teve acesso, uma coisa é certa: a legislação de apostas mútuas hípicas existente é para mudar, passando também a incluir a possibilidade de apostar via Internet e em corridas de cavalos realizadas no estrangeiro. Uma situação que responde a antigas aspirações de todos os parceiros da fileira do cavalo. Tutela da Santa Casa é o único ponto dissonante» («Apostas hípicas são mesmo para avançar sob tutela da Santa Casa», Marina Marques, Diário de Notícias, 29.07.2012, p. 7).
      Os dicionários continuam a ignorar esta acepção do vocábulo «fileira», de que falei no Assim Mesmo há seis anos. Fazem bem ou fazem mal?
[Texto 1884]
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Plural de «puro-sangue»

A doutrina divide-se

      «Atenta a esta questão, a comissão defende que, numa primeira fase, “a restruturação desta atividade tem de ser suportada financeiramente pelas receitas provenientes das apostas online nas corridas de cavalos, de molde a permitir desenvolver, nomeadamente, a criação de cavalos puro-sangue, a construção de hipódromos e a formação de jóqueis”» («Apostas hípicas são mesmo para avançar sob tutela da Santa Casa», Marina Marques, Diário de Notícias, 29.07.2012, p. 7).
      O Dicionário Houaiss regista, tanto para o adjectivo como para o substantivo, o plural «puros-sangues», e o mesmo faz o Vocabulário Ortográfico Português. Ou, porque se trata de um adjectivo composto por justaposição e o último elemento é um nome, na pluralização permanecem ambos invariáveis? A doutrina, como se costuma dizer em Direito, divide-se, mas já o dissemos muitas vezes: a língua portuguesa tende para a concordância.
[Texto 1883]
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É fazer a conta

Ai querem ser minuciosos?

      «Mas Lupe Ontiveros não correspondia ao estereótipo: era bacharel em Psicologia, pela Universidade do Texas, e chegou a trabalhar como assistente social antes de enveredar pela representação» («A atriz que foi a eterna criada latina mas que era muito mais», Diário de Notícias, 29.07.2012, p. 43).
      Então se vamos descer a esses pormenores, está bem: era bacharel em Psicologia, mas não pela Universidade do Texas. Há muitas universidades no Texas. A actriz Lupe Ontiveros estudou na Texas Woman’s University, em Denton. E, por outro lado, tendo a actriz trabalhado quinze anos como assistente social, eu não teria escrito que «chegou a trabalhar como assistente social». Quinze anos equivale a um terço do tempo que a maioria das pessoas dedica à profissão.
[Texto 1882]
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«Horário nobre»

Isso é que é extraordinário

      «A concorrência entre as novelas da SIC e da TVI em horário nobre nunca esteve tão quente como neste verão. Dancin’ Days tem estado, desde a estreia a 4 de junho, no encalço do enredo da TVI, Louco Amor, assinado por Tozé Martinho. Contudo, há sete dias que a primeira – fruto da coprodução SIC/Globo – vence a segunda, tendo registado, anteontem, uma diferença de quase 150 mil espectadores» («‘Dancin’ Days’ ameaça liderança da TVI nas novelas», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 28.07.2012, p. 46).
      O que me parece mesmo extraordinário é que andem a preterir um estrangeirismo tão bem cotado. O esquecimento também tem mérito?
[Texto 1881]
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«Relações públicas»

Como calha e se se lembram

      «No entanto, desta vez não há registos fotográficos da passagem de CR7 pelo Seven, ao contrário do que aconteceu na madrugada de quinta-feira quando, na página oficial do Facebook do espaço, foi divulgada uma foto sua com amigos e com os mentores da discoteca. “Desta vez não há fotografias. O Cristiano Ronaldo esteve tranquilo a divertir-se com o irmão, o primo, o cunhado e amigos”, disse a relações-públicas do Seven, Helga Barroso, ao DN» («Ronaldo indiferente à polémica na discoteca do cunhado», Sara Oliveira, Diário de Notícias, 28.07.2012, p. 47).
      De vez em quando, voltam atrás: então com hífen não era antes de terem adoptado («adotado», dizem eles) o Acordo Ortográfico de 1990? Bem, para mim nunca teve, nem para Rebelo Gonçalves, que no tempo dele não existia a palavra.
[Texto 1880]
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Léxico: «bruxa»

Sem vassoura e fora do dicionário

      «Os viveiros são no meio das rochas e mesmo debaixo da esplanada do restaurante. Aqui há dezenas de lagostas, sapateiras, lavagantes, bruxas à espera da sua hora, como se estivessem no mar. O espaço é oxigenado e monitorizado e a água vem do mar, puxada por uma bomba» («Comer lagosta com vista para o mar», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 28.07.2012, p. 49).
      Estas não praticam bruxaria, mas também não são os peixes seláquios que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista.
[Texto 1879]
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É isso mesmo

Eu, eu, eu, eu, eu

      «Nuno Markl não é Herman José. Não tem a idade de Herman, não tem o património artístico dele e, a avaliar por aquilo que ambos sempre fazem questão de revelar sobre a sua vida pessoal, não tem as contas para pagar que Herman tem. Que use tantas vezes a palavra “eu” ao longo de cada emissão de 5 Para a Meia-Noite não apenas é constrangedor, como é desnecessário. Ao contrário do que talvez tema, o fim do seu tempo não está assim tão próximo» («O humorista no labirinto», Joel Neto, Diário de Notícias, 28.07.2012, p. 48).
      E, por sorte, a nossa língua até prescinde bem, na maioria das vezes, sem confusões nem equívocos, do pronome pessoal. Mas eles não o sabem — e são «artistas».
[Texto 1878]
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«Rectificações ortográficas»

Não é só cá

      Um leitor descobriu lá em casa um recorte de um artigo do Jornal de Notícias de 8 de Dezembro de 1990. O título é: «Profunda reforma da ortografia francesa». Graficamente, é um primor, com antetítulo («Paris altera três mil palavras») e subtítulo («É a primeira proposta vitoriosa em 200 anos»), as três linhas com caracteres de alturas bem diferentes. No lead, lê-se: «Os partidários da reforma da ortografia francesa obtiveram ontem uma vitória com a publicação na folha oficial de alterações à grafia de cerca de três mil palavras e a adopção de novas regras na formação dos neologismos científicos e técnicos.» e, por fim, no corpo da notícia pode ler-se: «Para tentar calar os protestos dos puristas, evitou-se a expressão “Reforma ortográfica” e adoptou-se a designação “Rectificações ortográficas”, sublinhando-se que não há uma rotura com os princípios habituais da ortografia francesa, mas um esforço das regras pela limitação das excepções.
      A guerra da reforma ortográfica, que opõe há séculos os defensores do “statu quo” e os reformadores, foi relançada em 26 de Novembro de 1988 com a publicação, no semanário dos professores primários, dos resultados de um inquérito: 90% de respostas favoráveis a uma simplificação prudente e progressiva.
      Em 2 de Junho de 1989, o primeiro-ministro Michel Rocard criou o Conselho Superior da Língua Francesa, que elaborou, com a participação de representantes da Bélgica e do Quebeque, o projecto de simplificação aprovado por unanimidade pela Academia Francesa.
      Exemplos desta revolução que faz eriçar os cabelos dos puristas da língua francesa: “nenufar” deixa de se escrever “nenuphar”; o acento circunflexo caiu na palavra “abime”; “punch” transformou-se em “ponch” e “sage­-femme” (parteira) passa a “sagefemme”.
      A nova reforma ortográfica começará a ser aplicada nas escolas francesas a partir do próximo ano lectivo, mas a antiga ortografia continua a ser tolerada na edição de livros.
Esta reforma toca essencialmente em seis pontos:

– Supressão, em muitas palavras, do traço de união (croquemonsieur, portemonnaie, cineclub).

– Nas palavras compostas desaparece o “s” no singular (compte-goutte, chasse-neige), enquanto no plural, junta-se sistematicamente a indicação do plural (compte-gouttes, chasse-­neiges).

– Supressão do acento circunflexo em centenas de palavras (ile, out), mas manutenção nos casos em que permite distinguir homógrafos, no pretérito perfeito e no conjuntivo e nos nomes próprios.

– Os particípios passados dos verbos reflexos (se laisser e se promener), seguidos de infinito, passam a ser invariáveis (elle s’est laisse mourir, on les a laisse frapper).

– Centenas de palavras de origem estrangeira passam a escrever-se sem hífen e a formar o plural como em francês (whiskys em vez de whiskies, cow-boy em vez de cowboy).

– Correcção de algumas anomalias: ballottage passa a ballotage, oignon a ognon).

Comentando esta reforma, apoiada pelo Ministério da Educação e pela maioria dos professores e editores, o primeiro-ministro francês minimizou a sua amplitude.

“As propostas de rectificação eram necessárias, são limitadas e respeitam a história da nossa língua, afirmou ontem Michel Rocard.

      Desde 1789 foram feitas mais de dez tentativas de reforma, mas nunca conseguiram ir até ao fim. Desta vez, os reformadores parecem ter obtido, enfim, uma vitória.»

[Texto 1876]
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«Colocar à prova»!

Era uma vez um verbo

      Pelo segundo dia consecutivo, o Diário de Notícias publica um artigo sobre o lançamento do livro Por que choramos quando cortamos uma cebola, da autoria das suas jornalistas de ciência Teresa Firmino e Filomena Naves. Na notícia de ontem, sob uma fotografia das jornalistas, aparecia uma legenda: «Jornalistas colocaram crianças à prova».
[Texto 1875]
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«Académico de topo»

Isto é português?

      «Matemático brilhante, licenciado aos 20 anos e professor universitário aos 25. Tal como James Holmes, o único suspeito pelo massacre da passada sexta-feira num cinema de Aurora, no Colorado, também Ted Kaczynski, o terrorista americano que ficou conhecido como Unabomber, era um académico de topo» («O ‘Joker’ é fã do terrorista ‘Unabomber’», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 25.07.2012, p. 23).
[Texto 1874]
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Verbo «faltar»

Água mole, etc.? Não me parece

      «“Chegámos à parte mais emocionante das investigações”, disse Silvano Vinceti, chefe da equipa de arqueólogos, e especialista na resolução de mistérios relacionados com o mundo da arte. Por agora, faltam realizar testes aos restos mortais que confirmem as suspeitas dos investigadores. “Abrimos um túmulo com um esqueleto completo, o que é muito importante, porque numa primeira fase da investigação não tínhamos encontrado restos humanos, haviam sido transportados para outro local.”» («A história da musa que inspirou a Mona Lisa de Leonardo Da Vinci», André Rito, Diário de Notícias, 26.07.2012, p. 25).
      Não vejo a dificuldade em compreender regra tão simples. Vejo é que a não aprenderam nem provavelmente a irão aprender.
[Texto 1873]
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Dicionário da Academia

Nada entre «compilar» e «compita»

      Bem cedo, já um escritor amigo me estava a escrever para comunicar a surpresa do dia: o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa não regista o vocábulo «compincha». Bem, é mais uma triste e lamentável falha deste dicionário. Que eu consulto, se tanto, uma vez por ano, e sou um profissional das palavras. Mas, sejamos justos, também o Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves o não regista.
      «Aprendi com elas: Deus não era punitivo, mas amigo e compincha, as tragédias que fazíamos a respeito de namoros e rupturas eram desproporcionadas, a vaidade era uma patetice e a própria irreverência, quando inteligente, era desculpável» (A Menina É Filha de Quem?, Rita Ferro. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 103).
[Texto 1872]
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«Tratar-se de»

Vou insistindo, pode ser que

      «Os responsáveis do ministério responderam que tinham pedido um parecer ao Infarmed, que concluiu que os produtos Angelicalm devem ser classificados como medicamentos e respeitar os requisitos destes. Segundo fonte do Infarmed, o processo de autorização demora tempo até porque são necessários estudos para comprovar as qualidades, a eficácia e a segurança para a saúde. Provas que estão dispensadas quando se tratam de suplementos alimentares» («Proibida venda de ‘Angelicalm’ como suplemento alimentar», Céu Neves, Diário de Notícias, 25.07.2012, p. 14).
[Texto 1871]
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Agora escrevem «teem»

E não é a primeira vez que vejo

      «Os técnicos da Deco analisaram os componentes e concluíram que teem melatonina e valeriana» («Proibida venda de ‘Angelicalm’ como suplemento alimentar», Céu Neves, Diário de Notícias, 25.07.2012, p. 14).
      Querem estar tão, mas tão adiantados — que dão quase a volta completa e ficam então atrasados. Já se escreveu dessa forma, sim, mas com o Acordo Ortográfico de 1990 escreve-se têm. Há-de ser confusão com a abolição do acento circunflexo nas formas verbais paroxítonas que contêm um e tónico oral fechado em hiato com a terminação -em da 3.ª pessoa do plural do presente do indicativo ou do conjuntivo, conforme os casos: creem, deem (conj.), descreem, desdeem (conj.), leem, preveem, redeem (conj.), releem, reveem, tresleem, veem. Como costuma comentar Montexto, é a confusão do que é aproximado.

[Texto 1870]
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Léxico: «galrejar»

Para tentar salvar do oblívio

      «Bruscamente, tomou a criança nos braços, e dispunha-se a atirá-la, pela janela, na calçada da rua, quando o pequenino abriu os olhos azuis e risonhos, galrejando» (A Paixão de Uma Religiosa, Nuno de Montemor. Lisboa: União Gráfica, [195?], 6.ª ed., p. 57).
      É sempre louvável, parece-me, tentar salvar do esquecimento completo certas palavras. Como galrejar ou galrear: começar, a criança, a emitir sons, balbuciar. Por enquanto, ainda não foi escorraçada dos dicionários.
[Texto 1869]
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«Alvanéu» e variantes

É só escolher

      Acabo de ler aqui: «Alvanéu significa taipeiro (construtor em taipa).» Antigamente, porque agora alvanéu é simplesmente o pedreiro de alvenaria. A par de gergelim, deve ser a palavra portuguesa com mais variantes. Variantes, sim. Sousa da Silveira é que fala, a propósito de «alvanel» e «alvanéu», de «formas ainda oscilantes». Só as que eu conheço e sem pesquisar: albanês, alvanéu, alvanel, alvenéu, alvener, alvenel.
[Texto 1868]
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Léxico: «caniço»

Mas doravante

      Que os bairros suburbanos à volta da cidade de Luanda se chamam musseques (ou muceques, como também, mas menos bem, ao que parece, se escreve), creio que toda a gente sabe. O que menos saberão é que ao bairro dos subúrbios com as mesmas características, mas em Moçambique, se dá o nome de caniços.
[Texto 1867]
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Léxico: «autocine»

Bom exemplo

      Abram aí o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e vejam se encontram o vocábulo «autocine». Nada, não é assim? Regista apenas drive-in, que até é mais genérico: «estabelecimento comercial (cinema, bar, etc.) em que o cliente tem acesso ao produto ou serviço sem sair do carro». E, no entanto, na revista Binário (Lisboa: Soc. Ind. Tipografia, n.º 83, Agosto de 1965, pp. 863-869) vejo um «Projecto para um autocine na ilha de Luanda», do arquitecto Vasco Santos. O dicionário da Real Academia Espanhola regista-o: «Recinto al aire libre donde se proyecta una película que se puede seguir desde el interior de un automóvil.»
[Texto 1866]
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«Paisagem naturada»

Antigo e moderno

      João Pinharanda, comissário do Parque de Escultura Contemporânea Almourol, em Vila Nova da Barquinha, no último Câmara Clara: «A paisagem naturada, não é, a paisagem construída pelo Homem, que é o parque, exactamente, é muito intervencionada.»
      Parece invencionice recente, mas talvez só metade: juntamente com natureza naturante, natureza naturada foi uma expressão que surgiu no século XII com as traduções latinas dos textos de Aristóteles.

[Texto 1865]
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«Ser suposto»

Quem disse que era recente?

      Então, os materiais usados eram em tudo iguais ao da metrópole em edificações semelhantes e a «construção é suposta ser de tejolo, ou blocos de cimento, cimento armado e madeira, com cobertura de telha cerâmica» («Projecto de Casas para Funcionários – África», peças escritas, 1944: 2. Arquivo Histórico Ultramarino).
[Texto 1864]
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Sobre «partido»

Uma acepção menos habitual

      «O novo partido arquitectónico praticado pelos técnicos da ***, etc.» Algo inesperado, este sentido de «partido», mas que encaixará em alguma das acepções registadas nos dicionários.
[Texto 1863]
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Léxico: «sovaqueiro»

Faltam outras

      «Outra preciosidade é o trabalho solitário do agente Abraão Cunha, da Polícia de Investigação Criminal, que fez um álbum de reconhecimento de “gatunos” e “gatunas”, com fotos de frente, perfil e chapéu. O índice indica o tipo de criminoso: gatunos de especialidade, de arrombamento, carteiristas ou sovaqueiros (entravam nas lojas e escondiam artigos no sovaco). Nas mulheres, referia gatunas, angariadoras de prostituição, ladras de estendais e prostituição clandestina» («Transparências foram o avô do retrato-robô», Luís Fontes, Diário de Notícias, 23.07.2012, p. 20).
      Esta até está, como adjectivo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «diz-se do ladrão que esconde os roubos debaixo do braço». Mas porquê apenas como adjectivo? «Ó tenente, que linguagem é essa, você pensa que eu sou algum sovaqueiro? Olhe que posso mandá-lo prender» (Espingardas e Música Clássica, Alexandre Pinheiro Torres. Lisboa: Editorial Caminho, 1995, p. 166).
[Texto 1862]
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Léxico: «estado-novista»

A todos os interessados

      Ia jurar que já uma vez tinha lido num dicionário «guterrismo», mas consultei agora vários, e dos mais atreitos a tais proezas, e não o encontrei. Como também não encontrei «cavaquismo», valha a verdade. Só encontrei «gonçalvismo» (e o homem merece?). Tudo isto a propósito de um adjectivo que acabei de encontrar: «estado-novista». Também deste não há rasto. Há dois anos, uma assistente editorial perguntou ao Ciberdúvidas como era correcto, se com hífen ou sem hífen. (Pergunta infeliz, mas que querem?) A consultora começou por responder: «Não encontrámos registo, nos dicionários que consultámos, de nenhum adjectivo formado a partir de Estado Novo.» Ora que grande novidade. E depois: «De qualquer modo, na medida em que o sistema morfológico português permite formas (que nem sempre os falantes aceitam, e vice-versa), o adjectivo estado-novista poderá ser encarado como um neologismo, razão pela qual é aconselhável que essa particularidade seja referida, sempre que a consulente o utilizar, uma vez que não está atestado pelos dicionários nem pelos vocabulários ortográficos de língua portuguesa (por exemplo, os realizados a partir dos acordos de 1945 e o de 1990.» Estão a ver: usa-se e, antes ou depois: atenção, esta palavra não está registada em nenhum dicionário. Depois não digam que não avisei. Ridículo.
[Texto 1861]
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Léxico: «cobogó»

Só novidades

      Outra palavra nova para mim: «cobogó». (Vejam aqui uma imagem.) E numa obra séria, sobre arquitectura. No sítio certo, pois é, lê-se no Aulete, a «peça de construção vazada, feita de cerâmica, cimento, gesso etc., utilizada em paredes e fachadas com o fim de obstruir a incidência direta dos raios solares mas permitir a ventilação e a entrada de luz natural». Das iniciais dos sobrenomes Coimbra, Boeckmann e Góis, os engenheiros que redescobriram este elemento de construção. Tijolos perfurados, pois (perforated bricks, ficou a língua inglesa desarmada).
[Texto 1860]
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Léxico: «portuguesofonia»

Venha o Diabo e

      Li hoje pela primeira vez a palavra «portuguesofonia» — o mesmo (mas ainda pior...) que «lusofonia». Esta, ao que se diz, foi inventada por Fernando dos Santos Neves, o ex-reitor da Universidade Lusófona, agora na berlinda. Aquela, sem paternidade conhecida, os dicionários mais vanguardistas ainda não a apanharam. Deo gratias.
[Texto 1859]
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Tradução: «trip wire»

Basta pensar

      Na notícia, da autoria do jornalista João Botas, do Telejornal de ontem sobre a chacina no Cinema Century 16 de Aurora, Denver, ouvimos e vimos o chefe da polícia local, Daniel Oates, que, segundo as legendas, afirmou: «A nossa investigação apurou que o seu apartamento está armadilhado com vários dispositivos incendiários e químicos, bem como fios de tração aparentes.»
      Fios de tracção é o que se usa em cirurgia, ao que sei. Para que usaria o assassino estes fios no seu apartamento? Para decapitar quem entrasse a 100 à hora? Trip wires, que é o que ouvimos («It’s booby trapped with various incendiary and chemical devices and trip wires.»), traduzir-se-á antes por fios detonadores (ou detonantes).
[Texto 1858]
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«Pitão» é do género masculino

Na Gorongosa

      «A equipa da SIC não correu riscos, mas chegou a assustar-se, como relata Cândida Pinto. “Apanhamos um pequeno susto com uma pitão que surgiu no caminho, mas nada demais. Noutra altura, eu e o repórter de imagem Jorge Pelicano estávamos a chegar ao Chitengo [zona central do PNG], já noite, numa picada, caminho de terra batida, e fomos surpreendidos por uma manada de gnus. Ainda avançaram para nós, mas pouco depois espalharam-se mato adentro”» («Cândida Pinto apanhou susto com pitão na Gorongosa», Filomena Araújo, Diário de Notícias, 22.07.2012, p. 39).
      A serpente também se terá assustado, até porque lhe mudaram o género — é o pitão.
[Texto 1857]
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«Santuário de vida selvagem»

De caras

      «África do Sul: Shamwari – Santuário de vida selvagem», li na revista Caras há dias. Está certo ou errado, este título?
      «Vem esta pergunta a propósito de uma notícia publicada num diário da Capital, cujo título era o seguinte: “Os templos de Anckor transformados em ‘Santuários’ pelas forças comunistas.” Pareceu-me estranho os comunistas preocuparem-se com santuários. Ao ler, porém, a notícia, verifiquei que os comunistas se tinham servido dos templos da região para neles instalarem o hospital de campanha, depósito de munições e grupos de refugiados. Os templos da região estavam, portanto, transformados em redutos, em locais de refúgio e protecção, a que os Ingleses chamam sanctuaries (no singular sanctuary). A tradução errada do inglês originou o disparate em português. Esta de chamarem santuários aos lugares de refúgio, aos redutos, nem ao Diabo lembraria! A palavra inglesa sanctuary é derivada do francês sanctuaire e esta do latim sanctuarium (santuário). O sentido primitivo de sanctuary é realmente santuário. Mas como tudo neste mundo está em mudança contínua, a palavra inglesa adquiriu com o decorrer do tempo o sentido de refúgio. O caso deu-se assim: antigamente os fugidos à justiça livravam-se da prisão recolhendo-se aos santuários (santuaries). Por isso o inglês sanctuary (santuário) passou a significar também refúgio ou protecção. É lamentável que a tradução das notícias publicadas nos nossos periódicos nem sempre seja confiada a pessoa competente: a quem saiba suficientemente a língua estrangeira e a nossa» («Um anglicismo», in A Bem da Língua Portuguesa, boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, 1971, n.º 7, pp. 37-38).
[Texto 1856]
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«Mar da Palha»

Muita palha

      Sempre que passamos pelo restaurante A Pastorinha, na Marginal, diz-me que o nome é um contra-senso, por estar perto do mar. Não vejo porquê. Nunca falámos sobre o Mar da Palha.
      «Quanto à causa da designação, temos em Palha, não o nome da “haste seca de certas plantas, depois de despojada de grãos”, mas um sinónimo de palheta, “cada uma das pequenas partículas de ouro, que aparecem em alguns cursos de água» («Mar da Palha», in A Bem da Língua Portuguesa, boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, 1974, números 5/6, p. 247).
[Texto 1855]
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«Sobre/sob»

E alguma vez aprenderão?

      «Os escândalos não querem deixar a família real espanhola. Depois do envolvimento do marido da infanta Cristina num caso de desvio de dinheiros públicos e da polémica com a caçada do rei no Botswana, agora é a vez de a família de Letizia Ortiz estar sobre os holofotes» («Família de Letizia suspeita de ocultar bens», Público, 21.07.2012, p. 37).
      Se fosse apenas ela, vá que não vá, magrinha e pequenina como é, o holofote não vinha abaixo. Com várias pessoas em cima, o holofote vai partir-se.
[Texto 1854]
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Sobre «certo»

Eu não encontro

      «Assim, a uma pergunta em que respondeste tudo o que sabias e que, por isso, entendas que não irás acrescentar mais nada, poderás pôr um risco vertical do lado esquerdo e/ou eventualmente um certo» (de autor anónimo do século XXI).
      Onde está, ao certo, esta acepção nos nossos dicionários, alguém sabe? Podia e devia estar num de dois verbetes, mas não está em nenhum.
[Texto 1853]
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«Leitura (na) diagonal»

E os dicionários nada

      Assim? «Numa leitura diagonal, apercebera-se dela, daquela menina deslocada, telemóvel entre dedos, gaguejando justificações apressadas em voz de baixa vibração» (Mágoas Furtadas, Inês Tavares Rodrigues. Vialonga: Coisas de Ler, 2005, p. 47).
      Ou assim? «Fez uma leitura na diagonal, superficial — não queria desconcentrar-se e perder de vista o essencial, o sensual rebolar das ancas da bela Paula Cristina —, mas mesmo assim conseguiu descortinar todo o seu potencial» (Cinco Balas contra a América, Jorge Araújo. São Paulo: Editora 34, 2008, p. 47).

[Texto 1852]
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Uso impessoal do verbo «ter»

Hoje não tem perigo

«Madalena
(falando ao bastidor)
— Vai, ouves, Miranda? Vai e deixa-te lá estar até veres chegar o bergantim; e quando desembarcarem, vem-me dizer para eu ficar descansada. (Vem para a cena.) Não há vento, e o dia está lindo. Ao menos não tenho sustos com a viagem. Mas a volta... quem sabe? O tempo muda tão depressa...
Jorge — Não, hoje não tem perigo» (Frei Luís de Sousa, Acto I, cena 10, Almeida Garrett).

      «Já disse uma vez e repito-o hoje: quanto melhor se conhece a língua arcaica e mais se investigam os falares portugueses, menor é o número de brasileirismos. Eu próprio tive de corrigir-me, como o fiz diversas vezes em aula e o faço agora pela primeira vez ante público maior. Em A Língua do Brasil arrolei como brasileirismo o uso impessoal de ter, a indicar existência de acto ou facto. Mas, andando pelo Alto-Minho, dei com o fenómeno em Póvoa-de-Lanhoso (e bons conhecedores da fala popular portuguesa me informaram que ele ocorre em outros sítios), o que me animou a retirar as dúvidas e reservas que punha na interpretação deste passo do Frei Luís de Sousa, de Garrett» («A unidade da língua-padrão», Gladstone Chaves de Melo, in A Bem da Língua Portuguesa, boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, 1971, n.º 7, p. 6).
[Texto 1851]

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Tradução: «rejoneador»

Cavalos e touros

      Podemos traduzir rejoneador por «garrochador»? Rejoneador é a pessoa que rejonea, isto é, o que, no toureio a cavalo, fere o touro com rejón, que é a «asta de madera, de metro y medio de largo aproximadamente, con una cuchilla de acero en la punta». Claro que garrocha («pau com ponta de ferro com que se toureava antes do uso das bandarilhas») também veio do castelhano, mas «garrochador» já se formou na nossa língua. No Dicionário Espanhol-Português da Porto Editora, na versão em linha, não constam, estranhamente, nem rejón nem rejonear nem rejoneador.
[Texto 1850]
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«Sufixo» e «piara»

Só cavalos

      «Quando montamos o haras, nós resolvemos que todos os cavalos, a partir de então, levariam o sufixo Amir. Hoje eles se chamam Cimarrom Amir, Mui Amigo Amir, Meia Noite Amir e assim por diante» (A Cavalo, Anita Garibaldi!, Elma Sant’Ana. Porto Alegre: Editora Age, 1993, p. 70).
      Desconhecia esta acepção do vocábulo «sufixo». Eu e, ao que parece, todos os dicionaristas. Não consta ainda do vocabulário do Assim Mesmo, a que acrescentei agora mesmo o termo «piara», porque, ao contrário do que eu pensava, usa-se também em relação a cavalos.
[Texto 1849]
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«Enfrentamento»

A propósito de fantasmas

      Ontem, no Bom Dia Portugal, foi entrevistada a jornalista Virginia López, correspondente em Portugal do jornal El Mundo e da rádio Cadena SER, a propósito do lançamento do seu livro De Espanha, nem Bom Vento nem Bom Casamento. A viver em Portugal há dez anos e casada com um português, pouco no seu discurso revela a nacionalidade. Talvez apenas quando usou o termo «enfrentamento». Ou será mais um casticismo de origem castelhana? «Há muitos mais casamentos, mas também tivemos alguns confrontos, alguns enfrentamentos, algumas guerras.» Demos a palavra ao especialista Fernando Venâncio.
[Texto 1848]
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Estado da língua

Preparado para tudo

      Anteontem, e durante todo o dia, no Público em linha, lia-se que «o plano do Governo francês de apoio à indústria automóvel deverá direccionar-se para empresas que apostem em veículos próprios». Só depois de muita chacota por esses blogues fora é que corrigiram. Que se pode dizer? Que podia ter sido pior. A partir da frase «L’État promet un soutien massif aux voitures propres», podia dar-lhes na veneta traduzirem por «o Estado promete um sutiã massivo às viaturas próprias». Porque não, se estou aqui a ler num texto que certos tipos eram «bons vivãs»? Temos é de estar preparados para tudo. E há, em contrapartida, quem veja fantasmas por todo o lado: «Enfatizo, passe o francesismo, mais os efeitos», disse um professor universitário muito conhecido.
[Texto 1847]
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«Gozam direito»

Interessa saber

      «O professor da Faculdade de Direito de Lisboa Ivo Miguel Barroso defende que a AR deve aprovar uma norma que desvincule o Estado português do Acordo Ortográfico em vigor. Numa queixa que entrega esta semana na Provedoria de Justiça, Barroso argumenta que os cidadãos “gozam direito de resistência” ao Acordo» («“Resistência ao Acordo Ortográfico», Diário de Notícias, 17.07.2012, p. 22).

«Gozam direito». Esta regência está correcta?

      Escreveu outro homem do Direito: «Portanto na nossa organisação social as propostas emanadas de qualquer dos ramos do poder legislativo devem ser necessariamente admittidas a discussão naquelle dos outros ramos aonde forem dirigidas: ou, o que val o mesmo, cada um delles goza do direito da iniciativa» (Projectos de Ordenações para o Reino de Portugal, Silvestre Pinheiro-Ferreira. Paris: na Oficina Typographica de Casimir, 1831, p. 485).
[Texto 1846]
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Tradução: «inchworm»

E depois?

      Ainda hoje estou para saber porque é que o tradutor quis que a palavra ficasse por traduzir. Inchworm. Nem sequer havia (e se houvesse?) nenhum jogo linguístico a salvaguardar, mas ele achava que tinha de ficar no original. Inchworm. Está bem, dizia que não era um inchworm, mas que era do tamanho de um inchworm. Isso não chega a ser um jogo. E o leitor português sabe lá o que é um inch. Vermes.

[Texto 1845]
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«Ser alvo»

Querem mudar tudo

      «Outros membros do Governo também já foram alvos de manifestações de protesto. Casos de, por exemplo, Miguel Relvas (vaiado na abertura dos jogos da CPLP em Mafra, no passado dia 7), de Álvaro Santos Pereira, ministro da Economia, numa visita ao Parque da Ciência e Tecnologia da Covilhã, e do ministro da Saúde, Paulo Macedo, quando inaugurou uma unidade de saúde em Vila Viçosa» («CGTP organizou protestos contra Passos em Borba», Diário de Notícias, 17.07.2012, p. 11).
      Na expressão ser alvo de o termo «alvo» não fica sempre no singular? Não é uma expressão fixa?

[Texto 1844]
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«Tratar-se de», de novo

Tinha de ser

      Há-de ter-lhe chegado aos ouvidos ou aos olhos o que aqui se disse, e por isso Manuel Morujão, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, desta vez afirmou: «Trata-se de afirmações pessoais, cuja autoridade e responsabilidade é da pessoa própria, o que acho que é bom sempre proclamar a verdade, no equilíbrio, na justiça, procurando o bem comum.»
      Mas alguém tinha de errar, era inevitável, e por isso o repórter José Ramos e Ramos disse: «O porta-voz da Conferência Episcopal sublinhou tratarem-se de declarações pessoais, mas frisou as obrigações da Igreja.»
[Texto 1843]
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«Imã/íman»

E pedra-de-cevar

      Um leitor anda a ler E Se Eu Gostasse Muito de Morrer (Rui Cardoso Martins. Lisboa: Dom Quixote, 2009, 4.ª ed.). «Um bom romance, bem contado e de grande riqueza de vocabulário, sem exageros», afirma. Mas eis que na página 103 lhe aparece esta frase: «Nessa noite, a copa do plátano protegeu as ruas, foi imã dos relâmpagos.»
      O autor seguiu a lição de Rebelo Gonçalves, que no seu Vocabulário da Língua Portuguesa, na página 547, regista: «imã, s. m. pedra-de-cevar. Forma preferível a íman, que o uso, todavia, consagrou.» Saberá o autor disto? Seja como for, na linha imediatamente a seguir, lê-se: «É tão largo que parece um daqueles bichos do Dali, que só se aguentam no ar com bengalinhas nas banhas.» Não é dali nem daqui, é Dalí.

[Texto 1842]
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«Tratar-se de», desta vez certo

Mas algo está mal

      Por um momento, pareceu-me que também Jorge Moreira da Silva, coordenador da Comissão Política Nacional do PSD, tinha dito, a propósito do bispo das Forças Armadas, «tratam-se de afirmações», mas voltei a ouvir e não. Disse bem, desde já o anuncio ao País. Mas a gravata estava à banda e a camisa não é adequada para aparecer na televisão, por ter riscas pouco espaçadas, que fazem batimento e arrastamento, confundindo-nos os olhos. Como diria alguém do PSD, não esteve bem. Mas não lhes ensinam isto na Universidade de Verão? Ah, não é para aprender nada...
[Texto 1841]
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«Têm havido»

Só não sabemos quem foi

      «Quais eram os teus principais rivais?», perguntaram as jornalistas Ana Filipa Rosa e Marina Almeida a Miguel Santos, que obteve uma medalha de ouro nas Olimpíadas Internacionais da Matemática. «Há muita variedade. Ultimamente, têm havido medalhas de ouro de países menos comuns. Estas coisas nem sempre são assim tão certas. Há equipas que têm um treino diferente. Mais intenso» («“Treinamos em conjunto há muito tempo nos estágios”», Ana Filipa Rosa e Marina Almeida, Diário de Notícias, 17.07.2012, p. 56).
      Não é improvável, como estamos fartos de saber, que o erro seja das jornalistas; se for dele, aqui fica o conselho: dedique-se um pouco à língua portuguesa.
[Texto 1840]
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«Tratar-se de»

Dantes sabiam latim

      Manuel Morujão, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), a propósito das declarações do bispo das Forças Armadas: «Naturalmente que se tratam de declarações pessoais de um certo senhor bispo, não é propriamente uma declaração da Conferência Episcopal. [...] Certamente que os nossos bispos apelam sempre à justiça social, mas aqui tratam-se simplesmente de declarações a nível pessoal.»

[Texto 1839]
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Tradução: «non-sequitur»

E por isso

      «But he then continues with an apparent non-sequitur.» Claro que se pode traduzir non-sequitur por «solução de continuidade». O problema é que, em geral, os falantes (não me refiro aos 3 % que lêem blogues como este, mas aos 7 % que lêem livros) interpretam de forma errada aquela expressão. Que, de qualquer maneira, parece arrevesadamente técnica, antiliterária.
[Texto 1838]
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Léxico: «ajeitadela»

Mais uma falha

      Um leitor quis saber se a palavra «ajeitadela» está registada em algum dicionário, vocabulário ou prontuário. Nunca a vi escrita, foi o que respondi e confirmo. E, contudo, usa-se de norte a sul do País, não é regionalismo. Ora, devia figurar nos dicionários ao lado de outras da mesma natureza, como amassadela, cagadela, comedela, cuspidela, engraxadela, gabadela, mijadela, mordidela, penteadela, telefonadela, torcedela... Refiram outras. (Mas também não vejo dicionarizadas «enrabadela», «esporradela» ou «fodidela».)
      «Será que os autores dos dicionários não têm ouvidos?», pergunta, desiludido, o leitor.

[Texto 1837]
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Mais português

Acertam quando erram

      «Gordon Ramsay, chef de cozinha britânico e apresentador de reality shows como Hell’’s [sic] Kitchen, Kitchen Nightmares e MasterChef, terá voltado a “ferver em pouca água”. O cozinheiro, conhecido no meio televisivo pelo feitio difícil, é agora acusado de ter ofendido um colega de profissão ao dirigir-lhe palavras racistas. [...] O mediático apresentador de televisão, segundo revela Marcus Samuelsson em declarações ao jornal britânico Daily Mail, terá explodido de raiva porque Samuelsson não o elegeu como um dos chefes de cozinha de referência de Inglaterra» («Famoso ‘chef’ da TV acusado de racismo por um colega», Irina Fernandes, Diário de Notícias, 16.07.2012, p. 47).
      O plural de chef é então «chefes»? Se metessem na cabeça que têm obrigação de escrever em português, isto já não acontecia.
[Texto 1836]
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O diagnóstico do AOLP90

Mais uma voz no deserto

      Mais uma carta aberta, desta vez do ex-cineasta, escritor e professor universitário António de Macedo, e está dirigida aos governantes de Angola e Moçambique. Eis os parágrafos finais: «Quando José Eduardo Agualusa (angolano) e Mia Couto (moçambicano) declaram a sua adesão ao AO90, será que sabem ao que é que estão a aderir? Ao modelo do AO90 para Portugal, ou ao modelo do AO90 para o Brasil?
      Perante estes dois modelos vigentes do AO90, escusado será dizer que a atitude correcta seria a suspensão imediata do Acordo, atendendo aos “estrangulamentos” e “constrangimentos” denunciados na Declaração Final da VII Reunião dos Ministros da Educação da CPLP (30 de Março de 2012), na qual se reconhece a necessidade de se proceder a um “diagnóstico” relativo a esses mesmos constrangimentos e estrangulamentos inevitáveis na aplicação do AO90.
      Em consequência, dirijo-me publicamente aos governantes de Angola e de Moçambique, e especialmente a estes dois pelas razões já invocadas, porque, caso venham a ratificar o AO90, vão ter de optar necessariamente por um dos dois modelos atrás referidos, com especial atenção às soluções que terão de encontrar na delicada área do ensino, a menos que se decidam por alguma forma de modelo misto, adequado a cada um dos países lusófonos, o que sem dúvida acarretaria mais confusos males do que bens.
      Pergunto por que se não aproveita, mui sensata e simplesmente, a porta deixada aberta pelos próprios ministros da Educação de todos os países da CPLP, e se suspende o Acordo até que os estudos do diagnóstico proposto estejam concluídos, deliberando-se então em conformidade?» («Carta Aberta aos Governos de Angola e de Moçambique», Público, 16.07.2012, p. 47).

[Texto 1835]
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De vez em quando

Como homenagem

      Ora oiçam bem: «Mas apesar de esta ser “mais uma solução” em caso de desaparecimento, a PSP alerta para o facto da pulseira não substituir a responsabilidade de pais e de educadores. A iniciativa acaba a 15 de Setembro, mas a PSP coloca a hipótese de a alargar “a outros períodos fora do verão”, confirmou o comissário» («Mil crianças já têm pulseira de localização», A. F. R., Diário de Notícias, 16.07.2012, p. 17).
      É só para confirmar que o pobre verbo «pôr» morreu mesmo. Se de vez em quando o quiserem homenagear...
[Texto 1834]
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Léxico: «subadjacente»

Isso é que era precisão

      Na ilha Terceira, Açores, uma mulher morreu ao cair de uma arriba. A vítima estava com a filha a ver o mar, na freguesia de Serreta, quando caiu. Repórter Francisco Fayal, no Bom Dia Portugal de ontem: «Como vemos, um acidente do qual há a lamentar uma vítima mortal, de 53 anos, do sexo feminino, residente numa freguesia aqui subadjacente à freguesia da Serreta, na freguesia dos Altares.»
      Palavra muito bonita, pelo que não admira que o repórter se tenha enamorado dela — mas infelizmente mal usada no contexto. Subadjacente significa que está situado junto e por baixo de.

[Texto 1833]
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Léxico: «senso-motor»

Nunca a viram

      «E numa coisa os pais podem ficar descansados: tal como aprender a gatinhar e andar, a natação é uma “técnica senso-motora; uma vez aprendida, não é esquecida”» («Dez minutos que podem salvar a vida duma criança», André Rito, Diário de Notícias, 15.07.2012, p. 14). O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apenas regista «sensitivo-motor» e «sensório-motor».
[Texto 1832]
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Balcões nas salas de audiência?

Para ouvir o sermão

      «Sentado no banco dos réus ainda em recuperação da cirurgia à coluna a que foi submetido, e com uma mão apoiada no balcão de madeira, Paco Bandeira ouviu a juíza presidente do coletivo do Tribunal de Oeiras condená-lo a três anos e quatro meses de prisão, suspensa, pelos crimes de violência doméstica contra a ex-companheira Roseta Ferreira e detenção de arma proibida» («Paco Bandeira ouve sermão da juíza ao ser condenado», Rute Coelho, Diário de Notícias, 14.07.2012, p. 18).
      Nas salas de audiência há balcões? Não será apenas nas secretarias dos tribunais? E nas tabernas, e... Não quereria a jornalista dizer balaustrada?
[Texto 1831]
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Sobre «finning»

Eles é que são bons

      «A eurodeputada Maria do Céu Patrão Neves (na foto) considera “absolutamente inaceitável” a prática do finning (remoção das barbatanas dos tubarões, sendo as restantes partes do corpo do animal lançadas ao mar), proibida para toda a frota europeia em 2003» («Eurodeputada contra ‘finning’», J. C., Diário de Notícias, 15.07.2012, p. 19).
      Já uma vez vimos isto no Assim Mesmo (aqui). É claro que ninguém se dá ao trabalho ou se atreve a usar um termo português novo, como desbarbatanagem, ou desbarbatanação, ou desbarbatanamento. Inventivos são só os outros.
[Texto 1830]
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«Face a»

Não tinha de ser assim

      «Um total de 24 066 alunos fizeram ontem os exames de Português (639) do ensino secundário, referentes à segunda fase de avaliação. As provas contaram com uma taxa de participação elevada, de 91%, face aos inscritos» («24 mil fizeram teste de Português da 2.ª fase», Pedro Sousa Tavares, Diário de Notícias, 14.07.2012, p. 17).
      Aqui, a «face» pode perder-se sem desdouro. «Estiveram presentes [ou fizeram a prova] 91 % dos [alunos] inscritos.» Melhor e somente um terço dos caracteres.
[Texto 1829]
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«Sustentabilidade»

Coisas da engenharia, talvez

      «Recorde-se que a prova em causa foi também notícia devido à denúncia de uma alegada fuga de informação que teria levado à divulgação, por SMS, de informações relativas a conteúdos e a autores, nomeadamente à utilização de um excerto de Os Lusíadas, de Luís de Camões. Alegações que, após um pedido de averiguação à Inspeção-Geral da Educação e Ciência, o Ministério considerou não terem sustentabilidade» («24 mil fizeram teste de Português da 2.ª fase», Pedro Sousa Tavares, Diário de Notícias, 14.07.2012, p. 17).
      Não se aguentam nas pernas, é isso? Então agora já não se diz que por não terem fundamento as investigações não se fazem?
[Texto 1828]

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Sobre: «lóbi»

Deixe-se disso

      «Quando Carolina do Mónaco, os filhos e os respectivos namorados entraram no lóbi do exclusivo hotel da estância de esqui de Crans Montana, nos Alpes suíços, era impossível não reparar que todos vestiam casacos Moncler» («Quem é a nova princesa do Mónaco?», Sónia Bento, Sábado, n.º 428, 12 a 18.07.2012).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, no verbete «lóbi», remete para «lobby», e neste regista: «grupo de pressão; grupo dos que frequentam as antecâmaras dos parlamentos com o objectivo de influenciar os deputados no sentido de votarem de acordo com os seus interesses». Nesta acepção faz falta, mas na de «corridor or hall connected with a larger room or series of rooms and used as a passageway or waiting room» nem pouco mais ou menos. É que temos não uma mas três ou quatro palavras para significar o mesmo — e a jornalista não as pode ignorar a todas. É simplesmente lamentável.

[Texto 1827]
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«Rinque de patinagem»

Há quem saiba

      «Depois é que comecei a fazer ginástica, com 16 anos. E quando acabava os treinos ia para um rinque de patinagem com as minhas colegas» («“Fui a primeira portuguesa a ir aos Jogos Olímpicos”», Pedro Jorge Castro entrevista Dália Cunha Sammer, Sábado, n.º 428, 12 a 18.07.2012).
      Há sempre quem saiba. Já em tempos alertei, e mais de uma vez, no Assim Mesmo, para a lamentável confusão — que vi em jornais e livros — entre ringue e rinque. Talvez tenha valido a pena.

[Texto 1826]
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Como interpretar

O mesmo ou dois?

      «A autorização para reprodução total ou parcial dos conteúdos desta obra deve ser solicitada ao autor e editor.» Pode a frase entender-se de outra forma que não que autor e editor são a mesma pessoa, a mesma entidade — ou esta interpretação é só, como estão aqui a dizer-me, má vontade minha? Digam com sinceridade, eu aguento.
[Texto 1825]

 

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Doutores e engenheiros

Costumes indígenas imorredouros

      Um leitor recomendou-me a leitura da última crónica do «grande cínico Alberto» na revista Sábado, mormente do trecho que transcrevo a seguir: «Na língua caseira, a tradução daria algo semelhante a: “Médico Esteves, ando com enxaquecas diárias.” Não sendo clínico, restaria ao historiador ou ao bacharel em Psicopatologia Curativa suportar um “sr. Esteves”, vexame que o sr. Esteves definitivamente não suporta. Falar em bom português e ser um bom português são realidades incompatíveis.
      Há uns anos, Eduardo Prado Coelho (EPC) descreveu o sofrimento experimentado sempre que o privavam do direito ao “dr.” durante um diálogo: “O sujeito é assaltado por um sentimento de irrealidade que é mais próprio da literatura fantástica do que do realismo quotidiano. Por uma simples forma de tratamento passa-se de repente para o lado de lá. E o pesadelo consiste em não saber se a viagem tem regresso...” Para o falecido EPC, pois, perder o título era o equivalente a entrar nos comboios nazis rumo a Auschwitz.
      A maioria dos nossos “doutores” concordará. E se os “doutores” roçarem a vida política, a concordância é dobrada. Basta lembrar a reacção ao pedido de Álvaro Santos Pereira para que os jornalistas se lhe dirigissem somente por “Álvaro”. Vindo de uma inocente carreira no Canadá, o ministro da Economia descurou os costumes indígenas e, conforme se notou na indignação subsequente, incorreu numa ofensa grave aos principais valores da pátria, comparável a cuspir na bandeira, subverter a letra do hino ou desejar a derrota da selecção da bola» («Esta crónica não é sobre o “dr.” Relvas», Alberto Gonçalves, Sábado, n.º 428, 12 a 18.07.2012).
[Texto 1824]
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«Os linguistas é que sabem»

Mas a língua é nossa

     Merece maior divulgação e debate a carta aberta a Maria Helena Mateus que Teolinda Gersão fez aparecer hoje no Público, de que extracto o penúltimo parágrafo: «Se grande parte do país leu o meu texto e se identificou com ele, é algo que está fora do teu controle, e do meu. Por muito que isso te desagrade (e a todos os que te olharem como porta-voz), será o país a decidir que ensino quer – os pais, os professores, os cidadãos, e o ministério (que será julgado por tudo o que fizer ou não). Vivemos há décadas no enorme equívoco de que “os linguistas é que sabem, por isso o poder é deles”. (O que te deve parecer tão óbvio que nem dás conta da imensa arrogância do teu artigo.) Mas é altura de o país – se assim quiser – dizer basta. A língua não é propriedade dos linguistas. O ensino da língua também não» («Carta Aberta a Maria Helena», Teolinda Gersão, Público, 13.07.2012, p. 53).
[Texto 1823]
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«Ajudante de marechal»

Como pode isto ser?

      Ora bem, retomemos a questão da omosessualità e da bestialità. Continua o artigo do Diário de Notícias: «O manual, datado de dezembro de 2011 e aprovado pelo comandante Pasquale Santoro, destinava-se aos candidatos que no dia 25 de junho deste ano se apresentaram em Pádua para fazerem o exame para ajudante de marechal» («Homossexualidade é desvio para ‘carabinieri’», Maria João Caetano e Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 13.07.2012, p. 24).
      A minha filha, com 5 anos, não podia nem tinha de suspeitar — mas duas jornalistas? As jornalistas acham mesmo que maresciallo é o equivalente ao nosso oficial-general de quatro estrelas douradas? Valha-me Deus! No contexto, maresciallo equivale ao nosso sargento. Aqui, a uma crítica nossa, o jornalista Miguel Marujo defendeu-se dizendo que a expressão condenada tinha sido acrescentada por alguém que não ele. Provavelmente, tinha escrito algo correcto, e foi alterado para pior. Neste caso, duas jornalistas escrevem esta barbaridade e o editor ou quem quer que seja acha tudo correctíssimo. Este não é claramente apenas um problema de tradução, mas de cultura geral.
[Texto 1822]
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Léxico: «bestialismo»

Fu!

      «Um manual para os carabinieri, a polícia militar italiana, colocou em pé de igualdade a homossexualidade, o bestialismo e o incesto, designando-os a todos como “comportamentos desviantes”. Os responsáveis pediram depois desculpa por este “erro” e o texto do manual foi corrigido» («Homossexualidade é desvio para ‘carabinieri’», Maria João Caetano e Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 13.07.2012, p. 24).
      É uma coisa tão aberrante, mas tão aberrante, que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não a acolhe. Ora toma.
[Texto 1821]
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«Púlpito/tribuna»

Fora da igreja

      Jornalista Daniela Santiago, no Telejornal de ontem: «Foi colocado inclusive aqui um púlpito com microfone especificamente para o ministro responder às questões e a todas as questões que se têm levantado nas últimas semanas ligadas a esta licenciatura.»
      Ninguém ignora que tribuna e púlpito são vocábulos parcialmente sinónimos. Se alguma destas duas coisas estivesse na sala do Palácio Foz, onde o ministro estava, seria mais uma tribuna, não um púlpito nem um ambão. Mas nem isso: é uma simples estante de leitura ou leitoril ou atril de acrílico com um microfone o que podíamos ver na imagem.
      «O padre é o jornalista de sobrepeliz. O púlpito alarga-se em tribuna. O sacerdote volta-se para o Cristo do altar e grita-lhe: peço a palavra sobre a ordem» (As Farpas, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão. Lisboa: Principia, 2004, 3.ª ed., p. 485).
[Texto 1820]
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«Tratar-se de»

Juram que sabem e depois...

      Jornalista Tiago Contreiras, no Telejornal de ontem: «Segundo relatos de sociais-democratas presentes no encontro, Passos terá qualificado a ausência como inaceitável e lamentável por se tratarem de reuniões fundamentais.»
[Texto 1819]
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«Sob/sobre»

Estes jornalistas, estes autores...

      Simão Mateus, formado em Engenharia Zootécnica e autor da Pré-História na Lourinhã e Arqueologia para Principiantes, ontem no Portugal em Directo: «Lourinhã ficava sobre a dependência de Óbidos. Assim como a Lourinhã hoje está sobre a dependência política do distrito de Lisboa, na altura a divisão romana estaria sobre a dependência política de Óbidos.» Claro que o autor teve a preciosíssima ajuda (obrigadinho!) do repórter Mário Galego, que lhe perguntara: «Segundo conta no seu livro, Lourinhã ficou sobre a dependência de Óbidos.»
[Texto 1818]
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Sobre «unidade»

Esta não é militar

      «O presidente da unidade [Unidade Técnica para a Reorganização Administrativa (UTRA)] que vai analisar as propostas de agregação de freguesias quer manter o máximo possível de autarquias e defende que a reforma administrativa “deveria ser mais ambiciosa”, promovendo a descentralização» («Manter o máximo de autarquias», Diário de Notícias, 12.07.2012, p. 13).
      Esta acepção ainda não chegou aos dicionários, que de unidade só afirmam que é o agrupamento militar de estrutura orgânica e funcional definidas.
[Texto 1817]
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«Primeiro Mundo»

Pela mesma razão

      «É mais do que simples coincidência. A doença de Alzheimer é hoje uma espécie de “epidemia” do primeiro mundo, para a qual contribui o envelhecimento da população nas nações ricas. Em média, mais de 5% das pessoas com mais de 60 anos do mundo industrializado sofrem de demência, dois terços das quais por Alzheimer, e a prevalência da doença quase duplica acima dos 65 anos – acima dos 90 anos ultrapassa mesmo os 25%» («Cientistas caracterizam evolução da Alzheimer», Filomena Naves, Diário de Notícias, 12.07.2012, p. 30).
      Deverá escrever-se Primeiro Mundo, com maiúsculas, exactamente pela mesma razão que se escreve Terceiro Mundo.
[Texto 1816]
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«Beta-amilóide»

Alfa, beta, gama...

     «Já na Nature, o grupo do islandês Thorlakur Jonsson descreve uma mutação genética que, por uma vez, é positiva: os seus portadores estão mais protegidos contra a Alzheimer. A mutação ocorre no gene APP, precursor da proteína beta-amiloide, e diminui em 40% as hipóteses de acumulação da proteína no [sic] tecidos neuronais» («Cientistas caracterizam evolução da Alzheimer», Filomena Naves, Diário de Notícias, 12.07.2012, p. 30).
      Certíssimo — segundo, abstraindo do acento, qualquer grafia. O pior é o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registar que antes se escrevia «betaamilóide». Mas de ß-amilóide, que não é prático escrever —, só beta-amilóide, ou não? Já vimos aqui, no Assim Mesmo (que caminha alegremente para as 600 mil visualizações), esta questão.
[Texto 1815]
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Como se escreve nos jornais

Como se vê

      «Passados 100 anos, as causas de morte do fundista continuam a suscitar muitas dúvidas. Recorrendo a documentos e relatos do início do século passado, Gustavo Pires, a lecionar as disciplinas de Gestão do Desporto e Olimpismo e Jogos Olímpicos na Faculdade de Motricidade Humana na Cruz Quebrada, apresenta hoje (18.00) nessa instituição o livro “Francisco Lázaro, o Homem da Maratona”, onde coloca em causa a versão oficial que procura explicar a morte do atleta pela sua própria negligência. Na mais profunda investigação sobre o tema, Gustavo Pires analisa o homem na sua época: as divergências entre desporto e educação física e a fundação do Comité Olímpico de Portugal. “Sem tirarmos conclusões, recusamo-nos a aceitar de uma forma acrítica o discurso conveniente: o rapaz era simples, modesto, estúpido e ignorante. Como queria ganhar, ensebou-se, depois, apanhou sol e morreu”, critica para defender que “Francisco Lázaro foi vítima de uma cultura. À semelhança dos outros atletas, também se socorria de produtos (enborcamento) como kola e estricnina” que o ajudavam a suportar esforços violentos» («Livro lança pistas para a morte de Francisco Lázaro», C. L., Diário de Notícias, 12.07.2012, p. 40).
[Texto 1814]
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«Planeta anão»

Não vale a pena

      «Cinco luas – até agora – é uma boa marca para um planeta-anão, e os próprios astrónomos, que detectaram a nova lua graças a observações feitas com o telescópio Hubble, mostram-se surpreendidos com a complexidade do sistema de Plutão. A descoberta vem dar força à tese de que todas estas luas são restos de uma brutal colisão entre Plutão e outro corpo da cintura de Kuiper» («Descoberta quinta lua de Plutão», Diário de Notícias, 12.07.2012, p. 30).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «planeta anão», e eu também não vejo para que serve, no caso, o hífen.
[Texto 1813]
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«Garantiu-o informador»

Pelo menos ambíguo

      «Em 1998 foi testemunha de defesa de Maurice Papon, o funcionário de Vichy e depois prefeito de Paris, condenado por crimes contra a humanidade. [Robert de] La Rochefoucauld garantiu-o informador da Resistência e até lhe deu o passaporte com que Papon fugiu durante o processo... dois dias» («O conde que se tornou uma lenda na luta contra os nazis», Diário de Notícias, 12.07.2012, p. 43).
[Texto 1812]
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«Escritor fantasma»

Não resistir aos avanços

      «No seu livro In Command of History (2004), David Reynolds revelou a história por dentro da escrita das memórias de guerra de Churchill. A descoberta de que grande parte do texto foi escrita por um escritor fantasma ou de que era avaro com a verdade teve, curiosamente, pouco efeito na sua reputação: a construção de mitos contou, talvez, como um dos seus direitos como pessoa famosa» («A guerra fez de Churchill uma lenda e dos seus livros uma mina de ouro», Paul Addison. Tradução e adaptação de Cristina Queiroz, «Q.»/Diário de Notícias, 7.07.2012, p. 18).
      Sendo uma tradução, é de aplaudir que a tradutora tenha sabido resistir a ghost writer. Claro que estar no original um verbo também terá ajudado: «The discovery that much of the text was ghost written...» Não soube ou não quis, porém, resistir aos advances do original: «Os enormes avanços que obtinha dos editores eram despendidos na crença de que poderia sempre arranjar mais, se e quando o dinheiro acabasse, o que invariavelmente acontecia.» No mundo editorial, é o termo usado, mas como é acepção que nem sequer está nos melhores dicionários e há um termo sinónimo usual, não foi a melhor escolha.

[Texto 1811]
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«Net Cafés»!

Retrocessos

      «Nos nossos dias, há pontos de Internet e Net Cafés por toda a parte. Quando Ray Bradbury era novo e nenhum escritor de ficção científica (FC) tinha ainda antecipado a Internet (na realidade, nunca nenhum o fez), havia nos EUA locais onde se podia pagar para escrever à máquina» («Ray Bradbury nunca escreveu num computador», Eurico de Barros, «Q.»/Diário de Notícias, 7.07.2012, p. 20).
      E não se diz e está mesmo dicionarizado «cibercafé»? E para quê as maiúsculas iniciais?
[Texto 1810]
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Manobras: margens e campos

Manuel Tiago não está

      As expressões campo de manobra e margem de manobra são mesmo sinónimas? Parece que sim, mas os dicionários, estranhamente, não as registam. A primeira, que há-de ser mais antiga, tem origem militar. A segunda é, de longe, muito mais usada.
      «Conforme temos afirmado, abalada pela luta popular, pela solidez das instituições e pelos seus próprios fracassos e escândalos, a “AD” está a perder terreno, vê reduzir-se o seu campo de manobra, tem cada vez mais estreito apoio político social» (Avanço e Derrota do Plano Subversivo, AD 1980, Vol. 2, Álvaro Cunhal. Lisboa: Edições Avante!, 1981, p. 167).
[Texto 1809]
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E «rover» é?...

O leitor que se esforce

      «Nesta altura, leva já 3008 dias de operação e, só nos últimos três anos, percorreu 21 quilómetros, entre a região de Victoria e a cratera Endeavour, sempre colhendo dados à passagem. Em breve terá novo companheiro, o Curiosity, o novo rover da NASA, que tem chegada prevista para agosto» («Marte como nunca se viu antes», Diário de Notícias, 10.07.2012, p. 30).
       Atiram assim as palavras estrangeiras para cima do leitor desprevenido, e este que se avenha. Rover: remotely operated vehicle for emplacement & reconnaissance.
[Texto 1808]
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Vai de vento em popa

Um sinónimo, um sinónimo

      «A partir dos mosquitos transgénicos desenvolvidos no Reino Unido, investigadores da Universidade de São Paulo, onde Aldo Malavasi foi professor até recentemente, fizeram a sua adaptação para as condições do Brasil. “Desenvolvemos a tecnologia para criar de forma eficiente os insetos transgénicos aqui no Brasil, pelo que não temos de os comprar em Inglaterra, o que reduz os custos”, explicou ainda o líder do projeto» («Brasil produz mosquitos transgénicos para travar a dengue», Filomena Naves, Diário de Notícias, 11.07.2012, p. 27).
      Já entrou na cabeça da maioria que não há nem nunca houve alternativa à palavra «líder».
[Texto 1807]
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