Sobre «cor-de-rosa» no AOLP90

Quem sabe

      «Dominique Strauss-Khan e a mulher, Anne Sinclair, anunciaram ontem que “decidiram processar” na justiça “por atentado à vida privada” a revista cor de rosa Closer, a qual afirmou que o casal está atualmente separado» («DSK e mulher processam revista», Diário de Notícias, 30.06.2012, p. 32). «Mesmo perante a insistência da imprensa cor-de-rosa, Rafaella Fico remeteu-se ao silêncio, não confirmando nem desmentindo o estado de graça. Quem sabe se Fico já avisou Balotelli e este, tal como Ronaldo, está a marcar golos em honra de um filho?» («Apresentadora Rafaella Fico poderá estar grávida de Balotelli», Diário de Notícias, 30.06.2012, p. 26).
      Eles têm uma certeza: a palavra ou leva ou não leva hífenes. O resto não interessa, são especulações.

[Texto 1749]
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«Transfusão autóloga»

O próprio

      No Bom Dia Portugal de ontem, o jornalista João Tomé de Carvalho perguntou ao imuno-hemoterapeuta Robalo Nunes: «Não temos em prática aquela versão em que é o próprio doente que dá sangue para si próprio?» Chama-se a isto transfusão autóloga, mas o médico não o disse. Também os dicionários desconhecem o termo «autólogo». Bem, mas «imuno-hemoterapeuta» também não está nos dicionários, e até precisava mais, porque se vê por todo o lado sem hífen...
[Texto 1748]
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«Meia paralítica»

Algo parecido

      «Com as “bocas” e o “manzanilla”, de que vinham providos, nos fizemos “amigos”, e à saída o pai convidou-me a ir a sua casa, onde havia uma pequena “tertulia”, com música e dança, para entreter a mulher, meia paralítica» (Novelas Eróticas, M. Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, s/d [mas de 1961], 2.ª ed., p. 99).
      Montexto já aqui demonstrou mais de uma vez, recordar-se-ão, que, embora os advérbios sejam invariáveis, exemplos em tudo iguais ao do texto, a par do que hoje geralmente se tem por canónico, estão nos clássicos — onde decerto Teixeira-Gomes os foi beber. Qual o alcance, hoje em dia, dessa demonstração? Perante o seu uso, deliberado ou não, não devemos, pese a tentação, padronizá-los, actualizá-los. Muito menos, se podemos dizê-lo assim, em reedições. Evidentemente (mas nem todas as obras terão a sorte dos Fastos Geniais Tirados da Tumba de Merlim, não é, Fernando Venâncio?). Se o autor escreveu «meia paralítica», assim o devemos deixar.
[Texto 1747]
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«Quantas menos, melhor»

Medida e proporção

      «E já sabe, chefe: quantas menos alterações houver, melhor para todos nós», preveniu-me, de dedo em riste, o homenzinho. Para as gramáticas modernas, a estrutura de uma oração subordinada adverbial proporcional só pode ser «quanto mais/menos..., melhor». Nem sempre, porém, foi assim.

[Texto 1746]
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«Auto-segurei-me»!

Herói é o leitor

      «Nuno foi atrás, até onde o cabo o deixou avançar. Teve de largá-lo e evoluir sem essa segurança, sustentado nos “longes”, duas fitas com mosquetões que foi agarrando, à vez, ao ferro da ponte, sobre dezenas de metros de vazio. [...] “Ele não foi cooperante”. De baixo pareceu agressivo. “Auto-segurei-me com os ‘longes’”» («Nuno, o bombeiro que salvou uma vida ao som dos aplausos», Ivete Carneiro, Jornal de Notícias, 29.06.2012, p. 18).
      Montexto é que vai gostar de ver um bombeiro a «evoluir» e a «auto-segurar-se» nos «longes». Bem, «longe» nunca antes vi nem ouvi. Quanto ao «auto-segurar-se», é um disparate tremendo. E duplo, pois, ao que me assegura um leitor habitual, o jornal segue, ou vai tentando seguir, o Acordo Ortográfico. Logo, «autossegurei-me» (cruzes, canhoto!).
[Texto 1745]
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É feminino

Enfaticamente

      «Ontem, o ministro não se cansou de repetir o ênfase dado à “clareza” das metas que, explicou, não serão apenas um referencial para o trabalho dos professores mas para as provas externas que serão produzidas» («Frações e escrita entre problemas dos alunos», Pedro Sousa Tavares, Diário de Notícias, 29.06.2012, p. 14).
      Problemas dos alunos, mas não só, não é assim? «Ênfase», já o escrevi muitas (mas não demasiadas) vezes, é do género feminino.
[Texto 1744]
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Um incêndio com nome

Lá é tudo assim

      «Centenas de casas ficaram destruídas em Colorado Springs, segunda maior cidade do estado do Colorado, num incêndio que já consumiu pelo menos 7500 hectares de vegetação. [...] Este incêndio, batizado Waldo Canyon Fire, é um entre os vários que estão a afetar a região oeste do país» («Fogo destrói centenas de casas na segunda maior cidade do Colorado», Diário de Notícias, 29.06.2012, p. 35).
      Tudo, é claro, à dimensão do imenso país, eu sei. Grande, imenso. Até os incêndios, pelo menos os grandes, têm nome. Ia-lhe bem o itálico: Waldo Canyon Fire.
[Texto 1743]
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Tradução: «plume»

Ainda não chegou cá

      «Ao analisar e comparar os dois registos de resultados, a equipa verificou que havia uma mudança radical, com sinais claros de uma pluma de gás a escapar-se do planeta à velocidade estonteante de pelo menos mil toneladas por segundo» («Atmosfera de exoplaneta evaporou-se em direto», Filomena Naves, Diário de Notícias, 29.06.2012, p. 35).
      Já tínhamos visto isto, é verdade, mas foi noutro lugar. E os dicionários continuam a não registar a acepção aqui usada, um anglicismo semântico. Plume: «an elongated and usually open and mobile column or band (as of smoke, exhaust gases, or blowing snow)» (in Merriam-Webster).
[Texto 1742]
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«Era glaciar»!

Na página de ciência

      «A datação dos fragmentos mostra que os recipientes foram produzidos num pico da última era glaciar e terão servido provavelmente para cozinhar os alimentos, mas isso não é exatamente uma certeza» («Humanos já tinham olaria há 20 mil anos», Diário de Notícias, 29.06.2012, p. 35).
      Isto mesmo na página de ciência do Diário de Notícias. Claro que, a avaliar pelo Google, agora a medida de todas as coisas, é já indiferente usar «glaciar» ou «glacial». Mas não: «glaciar» continua a ser somente substantivo. Pode ser confusão — mais uma, mas vá lá a gente saber o que se passa na cabeça desta gente — entre «glaciar» e «glaciário». É que também se diz era glaciária, pois «glaciário» é adjectivo.
[Texto 1741]
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Tradução: «roomette»

No Amtrak

      «To escape the confines of our roomette…» É em vão que procuramos no Dicionário Inglês-Português da Porto Editora tradução para a palavra «roomette». Regista «roommate», e já é um pau. Bem, é «a small private single room on a railroad sleeping car». «Compartimento»? «Cabina»? No sítio da CP, lemos que os passageiros do Lusitânia «podem optar por lugares cama em compartimentos para 1, 2 ou 4 pessoas».

[Texto 1740]
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«Desportivismo»

Jogo limpo

      «Quero felicitar muito calorosamente todos os jogadores e a equipa técnica, que por terras da Polónia e da Ucrânia se bateram com brio, com determinação e com muito desportivismo e que alcançaram um excelente resultado. Os Portugueses estão orgulhosos da sua selecção nacional de futebol», disse o Presidente da República. Fosse outro o titular ou — talvez até para sermos mais justos — o redactor dos discursos, e teríamos ali fair play. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista fair play, pois claro, mas não remete para «desportivismo». Grandes promotores da lingua franca.

[Texto 1739]
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Léxico: «petrechado»

Agora imaginem

      «N’essa mesma noite partiu Gonçalo para a côrte, petrechado de boas recommendações para debelar quaesquer ardis judiciarios da consorte, favorecidos pelos valiosos amigos de Heytor Azinheiro» (Estrellas Funestas, Camilo Castelo Branco. Porto: Viúva Moré Editora, 1869, 2.ª ed., p. 77).
      Agora imaginem que, numa reedição, desta ou de qualquer outra obra, em vez de «petrechado» na editora entendiam que «apetrechado» é que estava correcto, e alteravam nesse sentido. Agora imaginem que isso já aconteceu.
[Texto 1738]
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Czar, tzar, tçar

Esquecidas

      «Por todos os lados, na tolda do imenso barco, a confusão e o movimento são intensos: há centenas de soldados russos que voltam da ilha de Creta (em cuja baía a esquadra do tzar permanece, pronta, dizem, para intervir no conflito turco-grego), e tantos ou mais peregrinos, da mesma nacionalidade, que regressam de Jerusalém» (Novelas Eróticas, M. Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, s/d [mas de 1961], 2.ª ed., pp. 165-66).
      A fiável Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira regista o que provavelmente nenhum dicionário regista: «Tçar, s. m. Título do antigo Imperador da Rússia; o mesmo e melhor que tzar e czar, mas menos usado.» Rebelo Gonçalves, no seu Vocabulário da Língua Portuguesa, regista somente «czar», mas com a ressalva de que é a «forma consagrada pelo uso: a correcta seria tçar». Em francês, recorde-se, é tsar ou tzar, e em castelhano e em italiano zar (Zar em alemão).
[Texto 1737]
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Coisas dos dicionários

Ignotíssimo

      «As duas familiares (a mais velha era mãe solteira de uma criança de ano e meio) perderam a vida num acidente, pelas 00.30, quando seguiam no estradão florestal de Calvão» («Álcool e velocidade excessiva em despiste com três mortos», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 27.06.2012, p. 17).
      Um estrangeiro que esteja a aprender a língua consulta, ingenuamente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e que vê? «Estradão: aumentativo, masculino singular de estrado (nome)». Pois é...
       «Graças, porém, a um estradão florestal de construção relativamente recente, a serra oferece acesso fácil até ao limiar dos mil metros» (Alto Douro Ignoto, Sant’Anna Dionísio. Lisboa: Lello Editores, 1973, p. 129).
[Texto 1736]
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«De conta própria»

Era assim

      «— Já teve..., antes de meu pai se estabelecer de conta própria. Eu ainda lhe não disse o nome do meu pai, chama-se Cruteman» (Novelas Eróticas, M. Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, s/d [mas de 1961], 2.ª ed., p. 32).
       Se agora escrevemos e dizemos sempre «por conta própria», dantes era quase sempre como se lê na novela de Teixeira-Gomes.
[Texto 1735]
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Deste livrámo-nos

Uf...

      «No carácter geral da cidade havia mais homogeneidade, de modo que a catedral — a incomparável — com as suas naves tenebrosas, onde se acendem as fulgurações dos vitrais; o claustro composto, deduzido, como sinfonia magistralmente orquestrada na série das suas capelas de retábulos polilhados, entrevistos através de vetustíssimas e imaginosas grades de ferro batido; a sua catedral — a única — não dava ainda essa impressão de flagrante anacronismo que depois foi tomando passo a passo, com a abertura das infinitas avenidas rectilíneas, dos esquares geométricos, das vastas praças rectangulares» (Novelas Eróticas, M. Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, s/d [mas de 1961], 2.ª ed., pp. 120-21).
      Deste lá escapámos, caro Montexto, valha-nos Deus. «Esquare»! Talvez assentasse bem na escrita do cosmopolita e esteta Teixeira-Gomes.
[Texto 1734]
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Plural de apelidos estrangeiros

Ele sabia

       O apelido do pai da amante do protagonista é Cruteman. Logo, são os?... «De Nieuwe Markt a Oude Schans, onde era o escritório do Kater, havia dez minutos de caminho e, embora a ocasião não fosse própria para o procurar, pois àquela hora de volta da Bolsa encontrá-lo-ia certamente na crise diária de trabalho, cercado de empregados, transmitindo ordens e fechando contratos, o ouvido colado ao telefone e a voz ditando, imperiosamente, concisos mas importantes telegramas, não resisti à tentação de o importunar para colher qualquer informe acerca desses Crutemans que deixavam uma filha tão linda e caprichosa à solta e vestida miseràvelmente» (Novelas Eróticas, M. Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, s/d [mas de 1961], 2.ª ed., p. 33).
[Texto 1733]
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«Indispensável/”nécessaire”»

Amor da língua

      «Assim era que levava a melhor parte dos dias flanando, sempre com um romance do Querido — espécie de Zola holandês — no indispensável, um depósito de côdeas de queijo, pedaços já secos de pão com passas de Corinto, na algibeira a que ela recorria — chamando-lhe o seu Entrepôt-dok ou porto franco — sem a menor cerimónia, fosse onde fosse, para meter na boca o primeiro bocado que topava» (Novelas Eróticas, M. Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, s/d [mas de 1961], 2.ª ed., pp. 25-26).
      Agora vejam: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista a acepção: «antiquado saquinha ou maleta de senhora para transportar objectos de uso pessoal». E no mesmíssimo dicionário, também está o termo francês nécessaire: «bolsa ou estojo para guardar objectos de uso pessoal ou de toilete».
[Texto 1732]
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Assim se escreve nos jornais

Nada de novo

      Ainda me enganaram durante cinco minutos. No Correio da Manhã lê-se que Eusébio tem estado internado no «Hospital Odozial Ratunkowi, em Poznan». Trapalhada. Szpitalny Oddział Ratunkowy — é assim que se escreve — significa «urgência hospitalar» em polaco. Como é natural, há urgências em vários hospitais. O Pantera Negra, que devia ter ficado em casa, está internado no Wielospecjalistyczny Szpital Miejski im. Józefa Strusia (Hospital Municipal Multidisciplinar Jozef Strus).
[Texto 1731]
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Assim se fala na Selecção

Sem (mais) comentários

      Em declarações à imprensa, Henrique Jones (nas legendas do Jornal da Tarde de ontem, contudo, lia-se «Enrique Jones»), médico da Selecção, afirmou: «E portanto [os médicos em Poznan] acham por bem que ele deva ser evacuado num avião aeromédico.» E pronto, lá temos o legendarny Eusebio w szpitalu w Poznaniu.
[Texto 1730]
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Plural de «campus»

Vejam lá isso

      Não sei quê, tal, «em campus universitários». O plural de campus, porém, é campi. Plural abominável, exclamam certas almas sensíveis. O vocábulo chegou-nos através do inglês, logo, argumentam outros, o plural não se faz como na língua latina. Se consultarmos o Vocabulário Ortográfico Português, lá está: «singular: campus; plural: campus». E depois, na última linha, naquela linguagem alienada de máquina (que Turing me desculpe): «estrangeirismo de latim». Estou esclarecido.
[Texto 1729]
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«Moto próprio»

Conforme o mote

      «A história do projeto europeu mostra que a Europa avançou como desafio unitário mais por necessidade do que por mote próprio» («Desafio Europa é desafio global», Nilza Mouzinho de Sena, Público, 25.06.2012, p. 47).
      Já temos visto este erro aqui e ali. Neste caso, é menos desculpável, pois o texto onde aparece é da autoria de uma doutora em Ciências Sociais. Em português, é de (ou por) moto próprio. Em latim, donde provém, é motu proprio­ — sem preposição.
[Texto 1728]
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«Aguarda-se conclusões»!

Aguardam-se notícias

      João Adelino Faria no Telejornal de ontem: «Esta reunião de todos os governantes terminou há minutos. Aguarda-se a qualquer minuto, então, as conclusões desta reunião, em domingo, do Governo.»
      Vamos pôr o duque de Palmela a ensinar-lhe como deve ser: «Não se perdeu ainda a esperança de induzir os turcos a retractarem-se das ameaças contidas no seu manifesto, e de ter mão por outro lado na Rússia; e aguardam-se ansiosamente as primeiras comunicações de S. Petersburgo» (Despachos e Correspondência do Duque de Palmela, tomo III, coligidos por J. J. dos Reis e Vasconcellos. Lisboa: Imprensa Nacional, 1854, p. 433 [ortografia actualizada por mim]).
[Texto 1727]
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Plural: «néon»

Mehr Licht!

      Não sei quem foi, e talvez nem um rigoroso inquérito fosse concludente, mas não aceitou o plural «néones». Quer «néons». Vá para o Brasil e escreva «neons», o mais aproximado. Rebelo Gonçalves, na segunda coluna da página 704 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa: «néon, s. m. Pl.: néones.»
      «Tudo numeroso: os néones intermitentes, as letras que escorrem dos lumes coloridos, o frio pesado» (Gente Feliz com Lágrimas, João de Melo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2003, 17.ª ed., p. 332).

[Texto 1726]
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Tradução: «watering hole»

No buraco

      O jornalista descrevia então «the trendiest watering holes» daquela cidade. O tradutor, alguém, aposto, como o leitor e como eu, com duas pernas, dois braços e uma cabeça, verteu assim: «descreveu os furos mais em voga». O Dicionário Merriam-Webster, por exemplo, define a locução como «a social gathering place, such as a bar or saloon, where drinks are served».
[Texto 1725]
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Ainda ontem

Um erro valente

      «Agora, a mais de meio caminho, talvez seja a altura para falar das perplexidades que me trouxe o Euro 2012. Não que não tenha visto os jogos de Portugal com um relativo prazer e até com uma certa ansiedade; e não também que não se tenha já escrito centenas de páginas sobre o assunto» («Rir ou chorar?», Vasco Pulido Valente, Público, 23.06.2012, p. 56).
      É melhor chorar. Se até Vasco Pulido Valente já escreve assim, que nos resta nesta triste vida? Qual padre António Vieira... Pode ser o cunhado de Jorge de Sena a responder: «Com efeito, e em que pese a todas as Imitações de Cristo que se tenham escrito ou exemplarmente vivido, nem mesmo um crente católico pode considerar como sendo já definível um Modelo acabado (ou, em termos psicanalíticos, um Superego) daquela plenitude humana moral e estética acessível a qualquer pessoa, quando as próprias estruturas de relação social humana permanecem instáveis, sabe-se lá por quantos séculos ainda» (Entre Fialho e Nemésio, Óscar Lopes. Lisboa: INCM, 1987, p. 534).
[Texto 1724]
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Uma variante perdida

O que fica pelo caminho

      «O Resumido só marca antístite. G. Viana fez melhor em registar também antiste. Aquela forma tira-se do acusativo, esta vulgarizou-se quer por necessidade haplológica quer por molde do nominativo latino antistes» (Estudos Críticos de Língua Portuguesa: contra os Gramáticos, Vasco Botelho de Amaral. Porto: edição do autor, 1948, p. 23).
      O cânone ortográfico vertido no Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves veio a acolher apenas «antístite». «antístite, s. m. Inexacta a forma antiste» (p. 87). Antístite é o chefe dos sacerdotes; pontífice; prelado.
[Texto 1723]
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Acordo Ortográfico

Não tinham mais nada para fazer

      Vasco Graça Moura, na Antena 1 na segunda-feira passada: «Hoje estamos com um problema muitíssimo maior. Há três grafias da língua portuguesa: a que é usada no Brasil, a que é usada em países como Angola e Moçambique, tem uma enorme importância para o português de Portugal, e a que é usada em Portugal, que é a pior delas todas e a mais inautêntica, e que é completamente ilegal e subverte o próprio Acordo Ortográfico. É nessa situação que estamos. Há que esperar que alguém tenha um acesso de bom senso.»
[Texto 1722]
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Só os antigos

Por entranhado respeito

       «E, tal como faziam os Celtas há três mil anos, tudo é colocado num recipiente de cobre. “São os quatro elementos mais fortes do universo: terra, ar, água e fogo (representado pelo sol)”, elucida o mestre de cerimónias que depois de tudo misturar e munido de uma vara de Aveleira [sic] (símbolo do poder do sol) aguarda o nascer do Sol» («Marão recebeu dezenas para verem solstício», José António Cardoso, Diário de Notícias, 23.06.2012, p. 13).
      Já aqui tinha falado disto: para os jornais, mas não só, também em traduções, por exemplo, gentílicos com maiúscula, só os antigos. Uma regra inventada por eles.
[Texto 1721]
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«Colocar em risco»

Rei morto, rei posto

      Jornalista João Fernando Ramos no Jornal da Tarde de ontem: «O arcebispo de Filadélfia foi condenado a sete anos de prisão pelo crime de pedofilia. Os juízes consideraram Monsenhor William Lynn, de 61 anos, culpado. No julgamento, que decorreu durante três meses, Lynn foi ainda acusado de encobrir casos de violação de menores e de colocar crianças em risco.»
[Texto 1720]

 

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Imã, imame, imamo...

Não chegaram

      «Entre as várias competências deste órgão [Conseil Français du Culte Musulman] destaca-se a criação de um grupo de reflexão sobre o desenvolvimento de um curriculum oficial, e reconhecido, para os imams em França» («Será que Deus não precisa de passaporte? Islão “imigrante”, normatividades seculares e islamofobias», José Mapril. In Imigração e Racismo em Portugal: O Lugar do Outro (org. Bruno Peixe Dias e Nuno Dias). Lisboa: Edições 70, «Colecção Livros de Bolso Le Monde Diplomatique», 2012, p. 147).
      Temos, em português, três vocábulos, três, para designar o sacerdote muçulmano, mas o autor tinha logo de usar, onze vezes, um termo estrangeiro. Temos, ora tome nota, imã (imãs), imame (imames) e imamo (imamos). Temos, que diacho! de prezar o que é nosso.
[Texto 1719]
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O desgraçado verbo «pôr»

RIP

      É oficialíssimo: o verbo «pôr» morreu mesmo. Depois de alguns anos em coma, morreu esta madrugada. Vai estar esta noite em câmara-ardente na capela do Público. À família enlutada (antepor, apor, compor, contrapor, contrapropor, decompor, depor, descompor, dispor, entrepor, impor, indispor, interpor, justapor, opor, pospor, predispor, prepor, pressupor, propor, recompor, repor, sobpor, sobrepor, sotopor, subpor, supor, transpor, etc.) apresentamos as nossas condolências. Como todos os defuntos, era uma excelente pessoa. Segundo o testemunho emocionado de alguns colegas, como o Dr. Meter e o Eng.º Colocar, nos últimos anos o Sr. Pôr sentia-se muito combalido e maltratado.
      «Esta longa enumeração de pecadilhos não deve obnubilar a imensa capacidade narrativa de [Afonso] Cruz, patente não apenas no minucioso encadeamento das situações como no cinzelar de cada cena, nos diálogos (não é de mais elogiá-los de novo) ou no talento para colocar uma personagem em movimento» («Tragicomédia alentejana», João Bonifácio, «Ípsilon»/Público, 22.06.2012, p. 31).
[Texto 1718]
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«Seu merdas»

No plural, aos baldes

      E a propósito de coprofilia, o que será mais comum em calão: «Seu merda» ou «seu merdas»? Acabei de ver no singular (a traduzir o francês ordure), mas, não sei porquê, a mim o plural soa-me mais ofensivo, se tal é possível.
      «Mate-me não uma vez mas dez vezes, é o que lhe peço, e dê-me a mesma morte que você, seu merdas, deu ao cardeal de Saragoça, porque você é que o matou, não foi outra pessoa» (O Adeus às Virgens, Alexandre Pinheiro Torres. Lisboa: Editorial Caminho, 1992, p. 123).
[Texto 1717]
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Tradução: «cameo»

E camafeus

      «Ao longo dos anos, LeRoy Neiman tornou-se cada vez mais bem-sucedido, frequentando programas de televisão onde desenhava, em direto, caricaturas de personalidades como Frank Sinatra ou Muhammad Ali. Pintou ainda outras figuras, como Leonard Bernstein, Suzanne Farrell, Marianne Moore ou Sylvester Stallone. Este último proporcionou a LeRoy Neiman vários cameos nos três filmes sobre Rocky» («Um dos artistas oficiais dos Jogos Olímpicos», Diário de Notícias, 22.06.2012, p. 47).
      Assim mesmo: sem aspas nem itálico. (O leitor que se lixe, não é?) E é uma coisa comezinha como isto (definição do Dicionário Inglês-Português da Porto Editora): aparição de actor convidado. E que difícil seria compor uma frase com esta ideia...
[Texto 1716]
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O verbo «faltar»

Só não aprendem se não quiserem

      «Ainda faltam vender perto de cinco mil bilhetes para domingo» («Camarim de Madonna esterilizado», Paula Carmo, Diário de Notícias, 22.06.2012, p. 49).
      Erro muito comum, este, e não apenas na imprensa, é claro. O sujeito do verbo faltar, que é pessoal, é outro verbo, o verbo vender, que está no infinitivo. O valor nominal do verbo no infinitivo exige assim que o verbo faltar esteja no singular. Difícil?
[Texto 1715]
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Tradução: «rastrello»

Falta de experiência

      «Em volta, os jogadores, homens e mulheres, velhos e novos, de todos os países e de todas as condições, uns sentados, outros de pé, apressavam-se nervosamente a dispor pequenos montículos de luises, de francos e de notas nos números amarelos dos quadrados; os que não conseguiam aproximar-se, ou o não queriam, diziam ao banqueiro os números e as côres em que queriam jogar, e logo o destro banqueiro, com a sua rasoira, dispunha maravilhosamente as jogadas» (O Falecido Matias Pascal, Luigi Pirandello. Tradução de José Marinho. Lisboa: Inquérito, s/d [mas de 1945], 2.ª ed., p. 61).
      Aqui o filósofo, o tradutor, digo, errou. No original, está rastrello. Em inglês diz-se rake; em francês, râteau; em castelhano, rastrillo. Talvez se hesitasse entre rodo e ancinho, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista como acepção de «rodo» o utensílio semelhante para aproximar e recolher o dinheiro nas bancas do jogo. Agora «rasoira»... Só quem nunca viu nenhuma é que pode confundir.
[Texto 1714]
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Léxico: «medianímico»

Poucas vezes a vemos

      «Antes mesmo de saber que tinha faculdades medianímicas, já ela comunicava com o espírito de Max» (O Falecido Matias Pascal, Luigi Pirandello. Tradução de José Marinho. Lisboa: Inquérito, s/d [mas de 1945], 2.ª ed., p. 162).
      Esta pouco aparece, o que se compreende, pois não se refere a nada propriamente do nosso dia-a-dia. Medianímico: relativo a médium; que tem a qualidade ou a faculdade de médium.

[Texto 1713]
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Léxico: «percevejo»

Não é o insecto hemíptero

      «Na porta do quarto andar havia duas placas: Paleari, de um lado, Papiano, do outro; por baixo desta última, um cartão de visita, prêso com dois percevejos de cobre dizendo: Silvia Caporale» (O Falecido Matias Pascal, Luigi Pirandello. Tradução de José Marinho. Lisboa: Inquérito, s/d [mas de 1945], 2.ª ed., p. 105).
      É raro, mas já tenho visto: o vernáculo percevejo em vez do galicismo pionés. No original, está «due bullette di rame». Rame, «cobre» em italiano, partilha com o nosso «arame» o mesmo étimo latino, aeramen.
[Texto 1712]
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Tradução: «dress code»

Vá lá

      «Este ano, Royal Ascot, que se realiza no condado de Berkshire desde 1711, começou na segunda-feira, mas com mais decoro do que em edições passadas. Isto porque a organização decidiu reformular o código de vestuário» («Ascot. Desfile de extravagância», Diário de Notícias, 21.06.2012, p. 2).
      Não terem usado a locução inglesa dress code — que há já quem julgue intraduzível, arreigada, etc. — já foi, por si só, extraordinário. E é claro que há outras formas de dizer o mesmo que não passam pela tradução do inglês. É só querermos.
[Texto 1711]
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Tradução: «croupier»

É outra forma

      «A bola, por fim, caía, e o banqueiro, na mesma voz morta, repetia a fórmula usual e anunciava o número e a côr» (O Falecido Matias Pascal, Luigi Pirandello. Tradução de José Marinho. Lisboa: Inquérito, s/d [mas de 1945], 2.ª ed., p. 62).
      Será o proprietário de um banco? Não: é aquele que, no jogo, maneja as cartas. Croupier, crupiê. Nunca José Marinho usa outra palavra que não seja «banqueiro».
[Texto 1710]
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Tradução: «rosolio»

Mais genérico

      «Bebi o rossolis de que Malagna e a mãe beberam também» (O Falecido Matias Pascal, Luigi Pirandello. Tradução de José Marinho. Lisboa: Inquérito, s/d [mas de 1945], 2.ª ed., p. 35).
      Ah, sim, sim, conheço bem, rossolis, «le liqueur fabriquée en Italie et Turquie principalement, à base d’eau-de-vie, de sucre, d’aromates et d’une macération de pétales de roses, de fleurs d’oranger (ou parfois de jus de fruits)», diz o Trésor. Em português, é rosólio. De qualquer maneira, no original lê-se rosolio, que é qualquer licor, e não somente rosólio.
[Texto 1709]
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Género de «entorse»

Ainda um dia

      «Ora sabemos que Sousa Coutinho, depois do gesto incendiário a que terá sido levado por uma questão pessoal com aqueles (e que ele mesmo descreve num poema em latim), se deslocou a Madrid, para se acolher à protecção real de Filipe III, a quem dedicou em 1600 as obras coligidas de Jaime Falcão. E ali terá permanecido dois anos. Garrett não hesitou em ajustar a História às suas conveniências dramáticas, justificando teoricamente esse entorse» («A morte de Simão», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 20.06.2012, p. 54).
      Ainda um dia, hão-de ver, a pedido de tanta e tão importante gente, a palavra «entorse» muda de género.
      Mas entretanto: «Ele, de métodos drásticos, curava definitivamente uma chaga, uma entorse, um inocente furúnculo, de serrote em punho» (Fogo na Noite Escura, Fernando Namora. Lisboa: Publicações Europa-América, 1988, p. 205).
[Texto 1708]
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Álbuns e canções

É pedir muito

      «Ontem [Bono Vox] conheceu mais uma das lutadoras por quem nutre tanta admiração: Aung San Suu Kyi, líder da oposição birmanesa e Nobel da Paz, a quem há mais de uma década dedicou a música Walk On (do álbum intitulado All That You Can’t Leave Behind)» («Bono fica “deslumbrado” com a birmanesa a quem dedicou ‘Walk On’», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 19.06.2012, p. 19).
      Se compararmos um álbum com um livro, uma canção será então um capítulo, pelo que, até para evitar confusões, devia ser grafada entre aspas: música «Walk On» do álbum All That You Can’t Leave Behind. Mas há tempo e flexibilidade para mudar alguma coisa nos jornais?
[Texto 1707]
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«Entre ‘x’ e ‘y’»

Demasiado frequente

      «Morsi convocou uma conferência de imprensa durante a madrugada de ontem para dizer que foi eleito com 52,5% dos votos, para logo depois ouvir um desmentido de Chafiq, que diz ter reunido entre 51 a 52% dos votos» («Irmão muçulmano reclama presidência egípcia», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 19.06.2012, p. 18).
      Ficamos entre as dez e as onze com estes erros. Parece que só não é simples para os jornalistas. Bem, e para alguns tradutores.

[Texto 1706]
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«Longíssimo»

Populares, dizem eles

      Mais chefes: «O chefe da diplomacia portuguesa sublinhou ainda que Joana Vasconcelos chegou “longíssimo pelo seu pé e ainda vai chegar mais longe porque é muito nova”» («Joana Vasconcelos é a rainha de Versalhes», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 19.06.2012, p. 48).
      Aqui já o «chefe» está bem, até para variar e evitar formas mais espúrias. E agora vejam o advérbio «longíssimo», que algumas gramáticas previnem que é, juntamente com «pertíssimo», popular. É vê-lo na literatura. «Os montes que longíssimo se alcançam», escreveu Feliciano de Castilho. Mais perto de nós, António Lobo Antunes usa-o muitas vezes.
[Texto 1705]
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«Juiz-chefe»

Ó chefe!

      «O jovem português Renato Seabra, acusado do homicídio do colunista social Carlos Castro em Nova Iorque, vai ficar pelo menos mais dois meses a aguardar julgamento. Em nova audiência no tribunal de Nova Iorque, o juiz-chefe Michael Obus relegou para 23 de julho uma decisão sobre o início do julgamento, mas o advogado de defesa de Seabra, David Touger, afirma ser “improvável” um arranque antes de setembro» («Julgamento de Renato Seabra deverá atrasar-se», Diário de Notícias, 19.06.2012, p. 17).
      Então agora é assim que os jornalistas escrevem: «juiz-chefe». Não há designações analógicas em português nem nada que se pareça. E será que o juiz relegou ou adiou a decisão?
[Texto 1704]
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Os ditongos ‘iu’ e ‘ui’ não têm acento

Falar por falar

      «Mesmo numa escola secundária lisboeta a dar pelo nome de Camões, Os Lusíadas não deixavam de ser um dos receios dos alunos que ontem fizeram as provas de Português do 12. º ano» («As redes sociais ao lado de ‘Os Lusíadas’ e da ‘Mensagem’», Pedro Sousa Tavares, Diário de Notícias, 19.06.2012, p. 39).
      O que tem uma coisa que ver com a outra, senhor jornalista? Por essa ordem de ideias, diríamos que mesmo num jornal deu estes erros: «O autor, como se previa, saíu mesmo no enunciado. Mas, no final, eram poucos os que se queixavam da exigência do exame. [...] “Penso que terei nota positiva”, disse o estudante, que espera candidatar-se a um curso de cinema mas tem ainda uma disciplina do secundário para tentar concluír. Diogo Bugalho, 21 anos, que veio fazer o exame para concluír o secundário e poder candidatar-se a um curso de Informática, também não sentiu “grandes dificuldades” com os autores e a parte gramatical da prova. Mas o que o deixou particularmente optimista foi o tema do último grupo, em que os os alunos são convidados a escrever um texto, não podia ter sido mais adequado: “para mim foi o mais fácil. Tinhamos de falar sobre as redes sociais e sobre a forma como estas se relacionam com a busca pela popularidade”, descreveu.»
[Texto 1703]
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Português do além-mar

Portugal Day

      A comemoração do Dia de Portugal no Central Park, Nova Iorque, juntou 7500 pessoas. Fados, corridinhas, sandes com atum Bom Petisco... Pedro Mota Soares, in halting Portuguese, também marcou presença. Domitília dos Santos, famosa gestora de fortunas a residir nos Estados Unidos, da organização, afirmou: «A idade média destas pessoas é dos 35 aos 50 anos e o seu renda anual é superior a 150 000 dólares.»
[Texto 1702]
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Tradução: «position paper»

E agora?

      Estamos literalmente cercados, mas ninguém parece reparar. Blá-blá-blá, «diz o “position paper” da Santa Sé». Parece mesmo que carecemos de palavras portuguesas para exprimir metade das ideias fabulosas que povoam os cérebros inteligentíssimos de todos os estrangeiros, mas sobretudo dos anglo-saxónicos. Desisto. Pelo menos por hoje, que ainda tenho muito que fazer. Até amanhã.
[Texto 1701]
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Pronúncia: «Niágara»

Naiágara fols

      «Pé ante pé, sobre um cabo de cinco centímetros, caminha Nik Wallenda, a 60 metros de altura sobre as Cataratas de Niagara», disse anteontem a repórter da RTP Raquel Ramalho Lopes, e pronunciou «Niagára». Niágara — vamos ver quando a levam para o Prontuário Sonoro — é um termo proparoxítono. Rebelo Gonçalves, na página 707 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa: «Niágara, top. m. Incorrecta a acentuação Niagara (gá).» Sabem tudo, mas quando toca a escrever e a falar é que são elas.

[Texto 1700]
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