O que se diz por aí

Que mais irão inventar?


      «Ainda assim, escrevo caos propositadamente em itálico, pois convém preservar o valor das palavras e o seu significado. Caos remete para um abismo inicial, para a ausência completa de ordem; e a política interpretada como sucessão de episódios caóticos obedece a uma estratégia: arquiteturar a realidade como um falhanço sistémico gerador de emoções extremas e promotor de engajamento nas redes sociais» («Anatomia do caos, agora na educação», Pedro Adão e Silva, Público, 15.07.2026, p. 40). 
      Com que então agora o itálico tem também esta serventia... Os jornalistas julgam alcançar o mesmo objectivo com aspas, muitas aspas. Nós, que não somos jornalistas nem ex-ministros, podemos dispensar todos esses pobres artifícios.

[Texto 23 294]

Léxico: «cante»

Exagero

      «Completam-se na terça-feira cinco meses sobre a entrega, no comité internacional da UNESCO, da candidatura do cante alentejano a Património Cultural Imaterial da Humanidade» («Um canto pelo cante», Nuno Pacheco, «2»/Público, 25.08.2013, p. 32).
      Já mais de uma vez me ocupei deste vocábulo. Aqui, aventei a hipótese, pouco arriscada, de o étimo estar no castelhano cante, e lamentei, do mesmo passo, que não estivesse dicionarizado. Como ainda não está, decorridos quatro anos. Seja como for, é manifesto exagero grafá-lo em itálico. Desconfio muito mais ali daquela construção — «cinco meses sobre a entrega». Hum...
[Texto 3240]

«Os Kennedy»?!

Custava tão pouco

      «Seria uma sucessão dinástica — afinal ao jeito dos Kennedy e dos Bush nos Estados Unidos, comentou o conhecido lobbyista Luigi Bisagnani no programa de rádio Un Giorno da Pecora, em que revelou ter havido um jantar na villa de Silvio Berlusconi nos arredores de Milão em que Marina convenceu o seu pai de que ela seria a melhor escolha para dar novo fôlego ao centro-direita italiano» («Depois de Silvio, Marina será o novo rosto da marca política Berlusconi?», Clara Barata, Público, 29.06.2013, p. 22).
      Os plurais dos apelidos continuam errados, não é? Tenho aqui à minha frente As Kennedys ­— sim, lembro-me que já falei nele —, traduzido por Fernanda Pinto Rodrigues (Lisboa: Editorial Minerva, 1971). Segundo parágrafo: «Terá sido uma maldição, a maldição que tem perseguido implacàvelmente todos os Kennedys?» Cara Clara Barata, dou de barato que é como já toda a gente escreve, mas é erro crasso. Emende-se. E «lobbyista» não precisa de ser grafado em itálico. E já está aportuguesado em «lobista», caso não saiba.
[Texto 3037]

Léxico: «transfobia»

Além de

      «A Rede Ex Aequo registou 37 denúncias de episódios de homofobia e transfobia ocorridos nas escolas portuguesas, entre Janeiro de 2011 e Dezembro de 2012» («Bullying homofóbico chegou às escolas do primeiro ciclo do básico», Natália Faria, Público, 13.03.2013, p. 12).
      Ah, mas esta já está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «rejeição ou preconceito contra os transexuais ou o transexualismo». O nome da associação não precisa de ser grafado em itálico, mas os jornalistas sabem lá disso.
[Texto 2670]

Uso do itálico

Guardem-no para outras

      «Portanto, a indignação que se apodera das redes sociais não é contra um programa que mostre um concorrente a snifar coca, perdão Betadine, às escondidas. A indignação que se apodera das redes sociais é contra um possível favorecimento da apresentadora desse programa a determinados concorrentes. Para a coca e o voyeurismo da TV sobre ela o que é guardado é, pura e simplesmente, a curiosidade» («Desabafo mensal», Joel Neto, Diário de Notícias, 20.10.2012, p. 44).
      Se são ambas palavras portuguesas — passaram a ser —, não vejo para que serve o itálico.

[Texto 2229]

Unidades de medida

Têm alternativa

      «O norte-americano David Blaine planeia ficar durante 72 horas de pé, numa plataforma de seis metros de altura, sem comida, e ainda por cima no meio de uma tempestade de relâmpagos artificiais que têm uma potência de um milhão de volts. ‘Electrified: One Million Volts Always On’ é o nome do número de Blaine, que começou na sexta-feira, em Nova Iorque. E, se tudo correr bem, ele ficará assim até ao final do dia de hoje. O ilusionista, de 39 anos, é conhecido por protagonizar truques arriscados em que testa os limites do corpo. Para ficar no meio desta “tempestade elétrica”, Blaine usa um fato de malha metálica, que o impede de levar um choque, tem um sistema de ventilação para respirar e um capacete com um visor especial que o protege da radiação ultravioleta» («72 horas de pé, sob tempestade elétrica», Diário de Notícias, 7.10.2012, p. 42).
      As unidades de medida grafadas em itálico? Hum, não é preciso. E porque não escrevem «vóltio»? «Demasiado rebuscado», li algures. Não me digam. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, no verbete «vóltio», remete para «volt».
[Texto 2181]

Judite

Polícia Judiciária

      Porquê em itálico? Não, não estou a ver nenhuma razão. Confundir com uma mulher com o mesmo nome? E com o livro da Bíblia, também se confunde?
      «Agora, o que lhe faz confusão é porque é que eles vieram ter com a Judite quando tinham a Guarda Fiscal à mão» (Balada da Praia dos Cães, José Cardoso Pires. Lisboa: BIS/Leya, 2010, pp. 200-1).

[Texto 2164]

Itálico

Itálico desnecessário

      «Os quatro painéis solares que vão ser colocados no telhado do Pavilhão Ferrié vão providenciar metade da água quente do monumento, usada principalmente nos restaurantes e nas casas de banho do primeiro andar. Além disso, quatro turbinas eólicas vão gerar cerca de oito mil kWh por ano e as turbinas hidráulicas formarão uma espécie de “minicentral elétrica”. Haverá ainda um reaproveitamento da água da chuva, que poderá ser usada nas casas de banho» («Um futuro mais verde para a ‘dama de ferro’», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 6.08.2012, p. 22).
[Texto 1935]

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