Léxico: «cante»

Exagero

      «Completam-se na terça-feira cinco meses sobre a entrega, no comité internacional da UNESCO, da candidatura do cante alentejano a Património Cultural Imaterial da Humanidade» («Um canto pelo cante», Nuno Pacheco, «2»/Público, 25.08.2013, p. 32).
      Já mais de uma vez me ocupei deste vocábulo. Aqui, aventei a hipótese, pouco arriscada, de o étimo estar no castelhano cante, e lamentei, do mesmo passo, que não estivesse dicionarizado. Como ainda não está, decorridos quatro anos. Seja como for, é manifesto exagero grafá-lo em itálico. Desconfio muito mais ali daquela construção — «cinco meses sobre a entrega». Hum...
[Texto 3240]

Unidades de medida

Têm alternativa

      «O norte-americano David Blaine planeia ficar durante 72 horas de pé, numa plataforma de seis metros de altura, sem comida, e ainda por cima no meio de uma tempestade de relâmpagos artificiais que têm uma potência de um milhão de volts. ‘Electrified: One Million Volts Always On’ é o nome do número de Blaine, que começou na sexta-feira, em Nova Iorque. E, se tudo correr bem, ele ficará assim até ao final do dia de hoje. O ilusionista, de 39 anos, é conhecido por protagonizar truques arriscados em que testa os limites do corpo. Para ficar no meio desta “tempestade elétrica”, Blaine usa um fato de malha metálica, que o impede de levar um choque, tem um sistema de ventilação para respirar e um capacete com um visor especial que o protege da radiação ultravioleta» («72 horas de pé, sob tempestade elétrica», Diário de Notícias, 7.10.2012, p. 42).
      As unidades de medida grafadas em itálico? Hum, não é preciso. E porque não escrevem «vóltio»? «Demasiado rebuscado», li algures. Não me digam. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, no verbete «vóltio», remete para «volt».
[Texto 2181]

Itálico

É claro que não é preciso

      «As leis memoriais abriram uma corrida entre “memórias concorrentes”, exacerbando velhos conflitos históricos ou de identidade. Acusa Assouline: “Os lobbyistas e políticos de todas as áreas, que atiraram azeite para o fogo com a ajuda dos velhos combustíveis da demagogia por motivos eleitoralistas, deverão responder por esta nova restrição das liberdades intelectuais.”» («Políticos, juízes e verdade histórica», Jorge Almeida Fernandes, «P2»/Público, 3.03.2012, p. 12).
      Se a palavra está aportuguesada, caro Jorge Almeida Fernandes, para quê o itálico?

[Texto 1174]

«Eldorado»

Olha quem fala!

      «Há quem acredite que, com jeito, o país pode tornar-se um centro mundial de tecnologia, há quem acredite que a agricultura tem condições para garantir a auto-suficiência em produtos básicos como os cereais, há quem acredite que no mar pode estar o eldorado que durante séculos os portugueses não foram capazes de descobrir em terra firme» («Um olhar inteligente sobre o mar», Público, 20.06.2011, p. 34).
      Se se argumenta que deve ser grafado em itálico porque vem do castelhano — então milhares de outros vocábulos teriam de passar a ser grafados da mesma forma. E logo no Público, que até o negregado media grafa sem aspas nem itálico, nem mais. «Eldorado» é português, não precisa por isso de ser grafado em itálico.

[Texto 189]

Uso do itálico

Latins

      O uso do itálico também intriga. Alguém tem alguma teoria? Há latim e latim... «Assim, os seres humanos são classificados (ironicamente, segundo alguns) como a espécie Homo sapiens, do género Homo, pertencente à família Hominidae, superfamília Hominoidea, da infra-ordem Catarrhini, subordem Anthropoidea, ordem dos Primatas, subclasse Eutheria, classe dos mamíferos, superclasse dos tetrápodes, que é membro do subfilo dos vertebrados, filo dos cordados, no reino animal, domínio dos eucariontes no império dos organismos» (O Dedo de Galileu, Peter Atkins. Tradução de Patrícia Marques da Fonseca e Jorge Lima. Revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2007, p. 16).

[Post 4753]

Itálico

Mais, mas no sítio certo

      O Público anda a usar mais itálico — mas será no sítio certo? É o que vamos ver. O Banco de Portugal (agora referido pela absurda abreviatura BdP) publica todos os meses um boletim estatístico. Será então o Boletim Estatístico do Banco de Portugal. E como referimos o mês? Bem, parece-me simples: Boletim Estatístico do Banco de Portugal referente ao mês de Abril. Por exemplo. Ou edição de Abril do Boletim Estatístico do Banco de Portugal.
      «De acordo com o Boletim Estatístico de Abril, só nos últimos três meses, o total confiado aos bancos atingiu 875 milhões de euros, ou seja, mais do que o valor canalizado para os CT [certificados de aforro], apesar das elevadas taxas que este último produto, associado à evolução da dívida pública, está a oferecer» («Poupança dos portugueses está a fugir do Estado para os bancos», Rosa Soares, Público, 22.04.2011, p. 18).
[Post 4720]


Itálico

É pena


      «Segundo a mitologia nórdica, Erik, o Vermelho, foi o primeiro a pisar a Gronelândia e o seu filho, Leif Eriksson, o primeiro a chegar à América, por volta do ano 1000 d.C. Teria sido ele, ou alguém próximo, a trazer a ameríndia, cujos genes se encontram hoje nas quatro famílias estudadas. Em 1960, foram encontrados na Terra Nova (Canadá) vestígios de um acampamento típico dos viquingues. Alguns acreditam tratar-se de Leifsbúoir, descrito na famosa Saga de Erik o Sanguinário» («Viquingues trouxeram uma ameríndia para a Europa há mil anos», Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 27). «As Três Graças, um pequeno quadro no qual três jovens nuas exibem a sua luminosidade jovial sobre um fundo sombrio, é da autoria do alemão Lucas Cranach, o Velho (1472-1553), cuja obra passou sobretudo pelo retrato e pela representação de temas religiosos» («Louvre pede um milhão para comprar quadro», J. E. M., Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 50).
      Falta uma visão de conjunto, o olhar de alguém que vele pela aplicação uniforme das regras.

[Post 4098]

Revisão

Concordo


      «Em 1901, aceitou outro pretendente e tornou-se lady Lytton» (Uma Introdução à Vida de Churchill, John Keegan. Tradução de Jorge Palinhos e revisão de Paulo Salgado Moreira. Lisboa: Tinta-da-China, 2007, p. 54).
      Concordo com a regra usada em algumas editoras: lady e sir só são grafados em itálico se não antecederem um nome; de contrário, serão grafados em redondo e em caixa alta. Logo, neste caso, Lady Lytton.

[Post 4091]

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