Léxico: «laustíbia» e «chicuelina»

Em muito poucos

      «“Não quero!”, berrei, e ia para lhe dar uma laustíbia. [...] Depreende-se disto que fui leitor assíduo da folha, mas na primeira oportunidade fiz uma chicuelina ao Joe Louis: entrei na Casa do Soldado e paguei-lhe a conta do mês, que somava dois dólares e vinte e cinco cêntimos, dando ordens ao cabo para dizer ao Joe Louis que o pai enviara de Hampton uma certa quantia» (Walt ou o Quente e o Frio, Fernando Assis Pacheco. Lisboa: Livraria Bertrand, 2.ª edição, [1979], p. 66).
      Nenhuma delas está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. E, se a primeira apenas a vi duas vezes na minha vida, a segunda é relativamente comum.
[Texto 2726]
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Outra vez as aspas

Rodeados de água

      «Estes prédios devolutos integravam as “ilhas” da Tapada, Maria Vitorina, Capela e Olímpia, habitadas até ao inverno de 2000, quando ocorreram fortes derrocadas que ameaçaram a segurança das dezenas de famílias que ali residiam, entre os Guindais e as Fontainhas» («Derrocada nos Guindais obriga a demolir casas devolutas», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 22.03.2013, p. 24).
      Ficamos a saber: se for a porção de terra emersa rodeada de água, é sem aspas; se for o conjunto de casas pobres, é com aspas. Na lógica dos jornalistas.
[Texto 2725]
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«Interarmas»?

Hum...

      «Nesse sentido, o acordo autoriza “represálias vigorosas” que levarão a Coreia do Norte a “lamentar amargamente” qualquer ação provocadora, como avisou o chefe do Estado-Maior Interarmas sul-coreano, general Jung Seung-Jo» («Pyongyang ameaça atacar terra natal de Obama», Albano Matos, Diário de Notícias, 27.03.2013, p. 24).
      Creio que é a segunda vez que vejo o termo «interarmas», que até parece português, mas nunca se sabe. Bem, mas antes isto do que traduzirem à letra chief of the Joint Chiefs of Staff.
      Nos nomes chineses e coreanos em que haja um elemento composto, o segundo termo costuma ter inicial minúscula: Tsé-tung, Kai-chek, En-lai...
[Texto 2724]
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«Bagos de borracha»

Chumbada de... borracha

      «A polícia garante que “foram emitidas ordens [de paragem] aos suspeitos” e que foram efetuados dois disparos de shot gun “para o ar, com recurso a munições menos letais”, ou seja, bagos de borracha» («Polícia sob ameaça atinge jovens a tiro», Luís Fontes, Diário de Notícias, 22.03.2013, p. 21). Se há bagos de chumbo, natural é que houvesse bagos de borracha.
      «Havia gente que gritava e depois deram outro tiro. À esquerda estralejaram ramos dilacerados, mas nenhum bago de chumbo o atingiu desta vez» (Objecto Quase, José Saramago. Lisboa: Editorial Caminho, 1984, p. 123).
[Texto 2723]
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«Quando são perguntados...»

Este não emendaria Vieira

      Deputado social-democrata Leitão Amaro, ontem na Assembleia da República: «Quando são perguntados sobre os vossos compromissos, não respondem. Ficou claro: vocês só têm um projecto: chegar ao poder. O Partido Socialista, senhoras e senhores deputados, o Partido Socialista só tem um projecto: chegar ao poder, fazer em cada segundo, mesmo que seja o contrário do que disseram ontem, mas o que lhe pareça mais popular e mais atractivo para os votos.»
      Infelizmente, cinca ali na troca de pronomes — «o maior escândalo da língua portuguesa», nas palavras de Montexto —, pois junta na mesmíssima curta frase «vossos» e «respondem». Enfim, ninguém é perfeito, e mesmo a muitos dos que se ocupam das letras «soa mal» o que está correcto. Já se habituaram e não sabem o que é certo e o que é errado.
[Texto 2722]
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Ortografia: «Perúgia»

Está mal

      «O Supremo Tribunal de Itália anulou ontem a absolvição da americana Amanda Knox e do italiano Raffaele Sollecito pela morte de Meredith Kercher, uma estudante britânica, em 2007, em Perúgia» («Knox vê anulada absolvição por morte de amiga», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 27.03.2013, p. 25).
     Nem mais. Perúgia, pois claro, e não Perugia nem Perúsia. Contudo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, em que abundam os aportuguesamentos toponímicos, sobre «perusino» diz-se que é «relativo ou pertencente a Perúsia (actual Perugia), antiga cidade da Etrúria (Itália), ou que é seu natural ou habitante».
[Texto 2721]
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Ortografia: «alto-duriense»

Também têm culpa

      Ontem à tarde, passei perto do Mercado de Benfica e reparei num cartaz em que se anunciava uma «feira de produtos transmontanos e altodurienses». Errado, e a culpa é em parte dos dicionários. É em vão que procuramos a palavra no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo. «Note-se que às locuções toponímicas, como a quaisquer locuções do vocabulário comum, não se aplica o hífen: Alto Alentejo, Alto Douro, Beira Alta, Costa do Sol, Entre Douro e Minho, etc. Mas escreveremos alto-alentejano para designar o habitante do Alto Alentejo, como alto-duriense, baixo-alentejano, etc., das respectivas regiões» (Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. XIII, p. 204).

[Texto 2720]
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Tradução: «wind chime»

Ainda não está

      Estava à espera de encontrar no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o vocábulo «espanta-espíritos», que oiço e leio tantas vezes, mas não. «Sino de vento», como acabei de ver, não me parece um termo muito feliz para traduzir wind chime. Mas, enfim, há-de haver quem pense o contrário.

[Texto 2719]
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Léxico: «ázimo»

Vá lá

      «Judeus ortodoxos participaram, no domingo, no mayim shelanu, uma cerimónia em que recolhem água de uma nascente natural, perto de Jerusalém. A água é utilizada para fazer matza, o pão ázimo tradicional para ser comido durante o período judaico da Páscoa, que começa na segunda-feira. Durante este período é proibido aos judeus consumir qualquer produto com fermento. A Páscoa celebra a fuga dos judeus do Egito antigo, como descrito no Livro do Êxodo» («Mayim shelanu: a Páscoa judaica», Diário de Notícias, 27.03.2013, p. 6).
      Quase milagroso, como se lembraram do termo. Conhecendo-os como nós os conhecemos, mais natural era que traduzissem o inglês unleavened. Vá lá. Há ainda a variante asmo, como lembrei há sete anos no Assim Mesmo.
[Texto 2718]
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«Camauro» e «portenho»

Tu quoque

      «Eu sei que alguns — que já lhe tinham lido várias obras antes de Ratzinger ter escolhido o “camauro” com bordas de arminho e souberam, então, relacionar os pensamentos do filósofo bávaro com o vestuário litúrgico — sorriem, agora, com as minhas esperanças nos sapatos cambados do porteño» («Qual a gama dos BMW para o Estado?», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 27.03.2013, p. 56).
      Para quê as aspas em «camauro», que até está — e nem era preciso — nos dicionários gerais da língua portuguesa? E mais: para quê porteño, se se usa aportuguesado, portenho, há muito? Lá está, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que remete para «buenairense».

[Texto 2717]
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«Obra-prima/obra-mestra»

Prima de primeira

      João Gaspar Simões — autor injustamente esquecido, e de quem tenho ali três obras que me ofereceram recentemente e que aguardam vez para as ler — distinguia («mau grado a significação idêntica dessas expressões», acrescentava) entre obra-prima e obra-mestra. Castelhanismo ou não, o certo é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe o vocábulo «obra-mestra», embora remeta, e bem, para o verbete «obra-prima».
[Texto 2716]
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«Entreter correspondência»

Uma acepção em falta

      «Durante todo ele, entreteve correspondência regular com o embaixador português em Paris, Conde da Vidigueira, que centralizava a atividade internacional da Restauração; nela fazia, religiosamente, a crônica, muitas vezes pitoresca, de sua atormentada missão» (A Arte de Furtar e o Seu Autor, Afonso Pena Júnior. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2001, vol. 1, p. 118).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não acolhe, estranhamente, esta acepção do verbo «entreter», que o Aulete, por exemplo, regista.
[Texto 2715]
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Ortografia: «grão-priores»

A medida do desmazelo

      «O anúncio foi feito na sexta-feira, no encerramento do congresso que durante a última semana juntou os 20 grão-priores da ordem, da Europa e da América, em Portugal. [...] Os Grãos Priores queriam avaliar os espaços prometidos pela Secretaria de Estado da Cultura» («Convento de Tomar vai ter sede cultural da Ordem dos Templários», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 25.03.2013, p. 46).
[Texto 2714]
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Ai as aspas

É da pressa, dizem

      «A atriz esteve ontem em Lisboa para visitar a exposição da artista plástica Joana de Vasconcelos. Sharon Stone, que veio a Portugal “batizar” um navio-hotel para cruzeiros no Douro, admirou a obra exposta no Palácio da Ajuda» («Sharon Stone visita Palácio da Ajuda», Diário de Notícias, 25.03.2013, p. 53).
      Para quê as aspas? Então baptizar não é — também —, como se lê no Dicionário Houaiss, «benzer um objecto e eventualmente dar-lhe um nome»?
[Texto 2713]
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«Debute» ainda não estreado

Não neste dicionário

      «Gad Elmaleh fez o seu debute nos eventos oficiais do principado governado por Alberto II, sábado à noite, no Baile da Rosa» («O debute do amor de Charlotte do Mónaco», Raquel Costa, Diário de Notícias, 25.03.2013, p. 53).
      Claro que é galicismo desnecessário, mas agora vejam: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o, não neste sentido, de estreia na vida social, mas somente no de «estreia de um artista».

[Texto 2712]
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«Reportar», brasileirismo

De além-mar

      «Jornalista da SIC, especializado em religião, acompanhou o conclave de 2005 e voltou este ano ao Vaticano para reportar a eleição papal» («“O que faz a história da Igreja não é a cor dos sapatos do Papa”», Marlene Rendeiro, Diário de Notícias, 25.03.2013, p. 50).
      No sentido de fazer uma reportagem, reportar é brasileirismo, embora com origem no inglês to report.
[Texto 2711]
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Mais inglês desnecessário

Mais inglesias bacocas

      «O esquema do personal financial advisor foi descoberto pelo próprio banco onde trabalhava até finais de 2011. A instituição bancária apresentou queixa crime e o casal burlado também» («Jovem bancário desviou um milhão de euros», Rute Coelho, Diário de Notícias, 22.03.2013, p. 19).
      Em todo o artigo se fala do gestor de conta, mas aqui o apelo do inglês foi muito mais forte. E lá está a «queixa crime» como Montexto quer — desornada do seu hífen.
[Texto 2710]
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Léxico: «carreirismo»

Já agora

      «A editora Clube do Autor vai lançar em maio o livro Sobre o Céu e a Terra, que contém longas conversas entre o então arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, e o rabino Abraham Skorka. No livro, o agora Papa condenou o “pecado do carreirismo” na Igreja» («Papa vai lavar os pés a jovens prisioneiros na Quinta-Feira Santa», S. S., Diário de Notícias, 22.03.2013, p. 24).
      Consultem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora; regista «carreirista» (termo que vem, assegura, do Brasil), mas esqueceu-se de «carreirismo».
[Texto 2709]
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«Descrições gráficas»

Só inglês

      «A crítica deplorou a The Rats [obra de James Herbert] as descrições demasiado gráficas de mutilação e morte» («Um dos nomes mais populares da literatura de terror», Eurico de Barros, Diário de Notícias, 22.03.2013, p. 43).
      «Descrições gráficas»... Não me soa. Ah, já sei: do inglês. Graphic — realista, pormenorizado. Podiam escrever tudo em inglês, e talvez até recebessem um prémio atribuído pelo Governo.

[Texto 2708]
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«Móveis de assinatura»

Pobres leitores

      «Segundo apurou a secção de burlas da Polícia Judiciária, o antigo bancário investiu e lavou os mais de 900 mil euros que desviou dos seus clientes de várias formas: saldou empréstimos bancários, adquiriu várias casas pelo país, uma delas em Aveiro e outra em Lisboa, comprou vários quadros valiosos, joias, móveis de assinatura» («Jovem bancário desviou um milhão de euros», Rute Coelho, Diário de Notícias, 22.03.2013, p. 19).
      Isto vem forçosamente de outra língua, e não, decerto, do tagalo, antes do inglês, talvez, mas agora nem quero saber.
[Texto 2707]
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A doença das aspas

Isto nunca mais acaba ««««««««««««««

      «O segurança da discoteca africana “Mussulo”, de alcunha “Didi”, 40 anos, único suspeito do tiroteio de há uma semana no restaurante/bar “Guilty”, em Lisboa, foi detido por inspetores da Polícia Judicária anteontem» («Suspeito de tiroteio no ‘Guilty’ foi apanhado», Rute Coelho, Diário de Notícias, 22.03.2013, p. 18).
      «Ora», «senhora» «jornalista», «não» «acha» «que» «são» «aspas» «a» «mais»? Que pecha, que mania!
[Texto 2706]
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Léxico: «ciclogénese»

Talvez não seja assim

      «Mas o que marcou janeiro foram os ventos que por todo o País arrancaram milhares de árvores. A tempestade ocorreu “devido a uma depressão centrada a oeste da Corunha, que sofreu um processo de ciclogénese explosiva”, explica o IPMA no boletim climatológico sobre o inverno, sendo que ocorreram rajadas superiores a 100 km/hora em quase todo o território e 140 km/hora no Cabo Carvoeiro» («Inverno que acaba hoje foi mais frio do que o normal», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 20.03.2013, p. 16).
      De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «ciclogénese» — que é o «processo de desenvolvimento ou intensificação de um ciclone» — é termo usado no Brasil. Talvez não seja. E, curiosamente, não está no Dicionário Houaiss.
[Texto 2705]
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«Amigo comum»

Jamais li ou ouvi

      «O alegado agressor e a vítima conheceram-se no verão passado através de uma amiga em comum e começaram a contactar-se através de mensagens de telemóvel, mas, apesar das investidas dele para que se tornassem mais próximos, a menor não terá acedido, contou ao DN fonte da PJ» («PJ deteve jovem de 20 anos suspeito de violar adolescente», J. B., Diário de Notícias, 20.03.2013, p. 19).
      Sempre li e ouvi «amigo comum», não «amigo em comum». Para que serve aqui a preposição?

[Texto 2704]
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Como se escreve nos jornais

Era muito difícil

      «Em maio de 2011, o então cardeal Mario Bergoglio validou o dossier que seguiu para o Vaticano, onde deverá ser avaliado em “junho ou julho de 2013”, segundo referiu à AFP Horacio Zavala, vicário dos franciscanos para a Argentina e o Uruguai» («Padre argentino morto pela ditadura pode ser 1.º beatificado por Francisco», Diário de Notícias, 20.03.2013, p. 29).
      Facilmente se pode confirmar que o apelido é Zabala e não Zavala. Horacio Zabala, OFMconv. (da Ordem dos Frades Menores Conventuais), é vigário provincial dos Franciscanos. «Vicário» também existe, é certo, mas é adjectivo. Em castelhano é que adjectivo e substantivo se escrevem da mesma maneira, vicario.
[Texto 2703]
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Mais marechais italianos

E no mesmo sítio

      «“Somos muitos, muitíssimos, alguns fardados e armados, mais tantos a paisana [sic]. Não houve sequer um distúrbio, os jovens, italianos ou estrangeiros, viveram com alegria e interioridade este momento mágico. Este Papa é único, justo [sic] para este país, que precisava de um líder como Francisco. Era deste Papa que estávamos a precisar...”, disse-me o “marechal” que comanda mais de dez grupos de 12 guardas, treinados para “atentados terroristas”...» («Uma só estrada para 150 mil», Manuela Paixão, Diário de Notícias, 20.03.2013, p. 29).
      Já aqui tínhamos visto, colhido também no Diário de Notícias, o termo italiano maresciallo mal traduzido por «marechal». É claro que as aspas — com que a jornalista julga desresponsabilizar-se, como quem diz não é isto, mas agora não tenho tempo para ver o que é — não atenuam o erro. Pelo contrário.

[Texto 2702]
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«Pau de dois gumes»!

Sem gume

      «Ter um ex-primeiro ministro [sic] como colaborador de uma estação de televisão é sempre um ponto a favor e, no caso de Sócrates, personalidade nada consensual, muito mais. Acontece, porém, que este convite é também um pau de dois gumes» («Contexto explosivo», Nuno Azinheira, Diário de Notícias, 22.03.2013, p. 52).
      Não anda longe da «faca de dois legumes» de Jaime Pacheco, e Nuno Azinheira tem muito — muitíssimo — menos desculpa por este disparate.
[Texto 2701]
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Ortografia: «chá-mate»

Mas é assim

      «Um grupo de adolescentes com enormes bandeiras brancas, amarelas e azuis (as cores nacionais da Argentina e do Vaticano), todos com termos enormes de chá mate, dobravam as mantas em que tinham dormido» («Uma só estrada para 150 mil», Manuela Paixão, Diário de Notícias, 20.03.2013, p. 29).
      O Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves regista (p. 242) com hífen, «chá-mate», tal como faz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

[Texto 2700]
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Como se escreve nos jornais

Apesar do título

      «A notícia segundo a qual o jovem “baleado” na Bela Vista (Setúbal) não foi afinal baleado, confirmada em comunicado pela Procuradoria-Geral da República, é um twist interessante, que aproxima o caso de uma narrativa de ficção. O problema é que, com as narrativas de ficção, nunca está definitivamente esgotada a possibilidade de novo twist» («‘Come on, let’s twist again’», Joel Neto, Diário de Notícias, 20.03.2013, p. 52).
     Qual é o objectivo — não ser compreendido pela maioria dos leitores? Força, está no caminho certo.

[Texto 2699]
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Como se escreve nos jornais

O culminar

      «Falhas só mesmo as palavras que o jogo [Apalavrados] não reconhece e que se espera que o concurso de TV admita. “Não assume interjeições e há expressões que aceita e não sei bem porquê. Nesse aspeto não é perfeito”, colmata a jornalista [Rita Marrafa de Carvalho]» («Da Internet à televisão: acorrentados às palavras», Ana Filipe Silveira, Diário de Notícias, 20.03.2013, p. 51).
      Se a primeira jornalista, a entrevistada, errou ao dizer que o jogo «não assume interjeições», a segunda, a entrevistadora, não acertou quando confundiu «colmatar» com «rematar».
[Texto 2698]
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Sobre o verbo «explodir»

Quão moderno?

      «Quinze minutos antes, aparentemente os mesmos dois assaltantes chegaram de moto à estação de serviço da Galp na Estrada da Torre, em Cascais, e explodiram com a ATM» («Explodiram ATM e fugiram de moto», R. C., Diário de Notícias, 20.03.2013, p. 26).
      Embora haja dicionários, e não são poucos, a dizerem o contrário, para mim o verbo «explodir» é apenas intransitivo, pelo que diria «fizeram explodir a ATM». (Anota Rebelo Gonçalves no seu Vocabulário da Língua Portuguesa: «Inexacta a forma explosir, empregada por Camilo.» Mas explosir é de etimologia popular, e alguns estudiosos da língua não condenaram o seu uso. Agora, porém, nada disto interessa, porque já ninguém conhece esta variante.)
[Texto 2697]
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«Léxico cinco vezes inferior»

Vamos ler para confirmar

      «Este livro está muito bem escrito. Porque é tão raro ler-se esta qualidade atualmente?», pergunta, na entrevista hoje publicada no Diário de Notícias, João Céu e Silva a Francisco José Viegas, que responde: «Tal como o cinema busca a imagem certa em cada fotograma, também na literatura deveria haver mais preocupação com a língua e com as possibilidades que dá. Assusta-me comparar o Mau Tempo no Canal com um romance contemporâneo, onde o léxico é cinco vezes inferior. Nemésio não diz árvores, refere que são pinheiros ou plátanos. Perdeu-se vocabulário e até a noção do que é um romance clássico português. Parece que a nossa literatura não tem história e que vem diretamente de Faulkner ou de Gogol» («“É o diabo quando acordamos o moralista que existe em nós”», Francisco José Viegas entrevistado por João Céu e Silva, Diário de Notícias, 20.03.2013, p. 49).
     Numa caixa, ainda se lê: «Para o autor, O Colecionador de Erva (Porto Editora) pode ser uma paródia ao policial, mas é um livro em que o leitor vai reencontrar a arte de escrever bem a língua portuguesa e a exigência de ler 305 páginas de uma só vez.»
[Texto 2696]
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AOLP90 à força

Distracções inoportunas

      «Por razões que não vêm muito ao caso, nem têm qualquer importância especial, tive de passar o fim de semana em regime de internamento hospitalar. Isso permitiu-me ler de fio a pavio uma série de jornais, revistas e suplementos e pensar com um pouco mais de antecedência no meu artigo habitual para esta coluna. Na verdade, só me costumo premeditar de indignação quanto se trata do Acordo Ortográfico...» («‘De amicitia’», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 20.03.2013, p. 54).
      No fim da crónica, pode ler-se: «Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico». Mas não foi suficiente para o malvado do revisor deixar de aspar os hífenes. Agora outra coisa: não é estranha aquela construção ali: «só me costumo premeditar de indignação»?

[Texto 2695]
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Sr. Vírgulas

Malogrou-se-me a oportunidade

      «Segundo a edição digital do próprio diário, a entrevista do jovem André Fontaine, na altura com 26 anos, foi feita pelo rigoroso chefe de redação Robert Gauthier, conhecido como “Sr. Vírgulas”» («O diretor que salvou o ‘Le Monde’ da crise financeira», M. R., Diário de Notícias, 19.03.2013, p. 43).
      Gostava de ter trabalhado com o Sr. Vírgulas («redoutable “Monsieur virgules”», lê-se no Le Monde). Trabalhou com ele o malogrado jornalista. Eu só trabalhei com o revisor antibrasileiro.
[Texto 2694] 
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«Malogrado jornalista»

Infeliz jornalista

      Sobre André Fontaine: «Ligado à publicação durante 60 anos da sua vida, o malogrado jornalista, que morreu este domingo em Paris, com 91 anos, desempenhou as mais variadas funções no jornal, desde os cargos de repórter, chefe de redação e até... diretor» («O diretor que salvou o ‘Le Monde’ da crise financeira», M. R., Diário de Notícias, 19.03.2013, p. 43).
      «O malogrado jornalista»... Era para escrever «foda-se», mas vá: c’um caraças! Morreu com 91 anos e é «o malogrado jornalista»? «Malogrado» é para os que morrem jovens, não para os que partem com quase um século. Haja decoro.
[Texto 2693]
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Sobre «pálio»

Como é?

      «O cardeal protodiácono Jean-Louis Tauran traz o pálio — usado por cima das vestes em redor do pescoço — e o anel do Pescador, símbolos do líder da Igreja Católica» (Diário de Notícias, 19.03.2013, p. 27).
      Enganam-se: não vou desancar no «líder». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista para pálio «distintivo eclesiástico (faixa branca de lã com cruzes pretas) que o papa concede aos arcebispos e a alguns bispos». Mas o pálio é o distintivo litúrgico típico do sumo pontífice. Que avancem os vaticanistas e nos expliquem.
[Texto 2692]
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«Electrão livre», versão escatológica

Com a verdade m’enganas

      Não sei se vos chegou algum eco do lapso — ou da ignorância ou que merda foi — da actriz francesa Véronique Genest, agora lançada na política, que num programa de televisão em directo, o C à Vous, declarou que era «une sorte d’étron libre» — em português, «uma espécie de cagalhão livre».

[Texto 2691]
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«Associé», de novo

Subtilezas ou a sua ausência

      «“Ele tinha a paixão de defender, era um dos melhores para defender os outros, mas não para se defender dos seus próprios demónios. É triste que alguém tão talentoso como ele não tenha conseguido encontrar os recursos para se defender a si próprio de si próprio”, afirmou ao Le Monde Emmanuel Marsigny, sócio de Metzner» («‘Advogado dos gangsters’ encontrado morto na sua ilha», Elisabete Silva, Diário de Notícias, 19.03.2013, p. 23).
      Ainda se lembram de aqui termos falado de sócios e de associados dos escritórios de advogados? Pois, desta vez, é por «sócio» que o termo francês foi traduzido. Emmanuel Marsigny é «avocat associé co-fundateur» da Metzner Associés.
[Texto 2690]
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Sobre «grilo»

Entre greta e grosso

      «Na segunda sessão do julgamento (ontem), que decorre no Tribunal de Braga, uma sobrinha da arguida, professora, sustentou a tese da acusação, dissertando sobre a conotação sexual da palavra “grilo”, nome pelo qual entre outros é conhecida a vagina, e fazendo a interpretação da letra, defendendo que esta sugere que Miguel Costa manteve um relacionamento sexual com a tia. Uma convicção que manteve mesmo depois de confrontada com certos textos de Gil Vicente ou mesmo com a A Garagem da Vizinha [sic], de Quim Barreiros, para aferir do eventual tom de brincadeira da canção» («‘Grilo da Zirinha’ deixa Padim da Graça em alvoroço», Sérgio Pires, Diário de Notícias, 19.03.2013, p. 18).
      Gostava de ter ouvido a professora a dissertar. Quanto ao grilo, o que sei é que entre «greta» e «grosso», no Dicionário do Palavrão, de Orlando Neves e Carlos Pinto Santos (Lisboa: Editorial Notícias, 2001), nada há. Delmira Maçãs (Os Animais na Linguagem Portuguesa. Lisboa: Instituto para a Alta Cultura, 1951, p. 215) é que, «para pudendum hominis ou infantis», regista «grilo». Reparem: para pudendum hominis, não para pudendum mulieris. Uma diferença de vulto.
[Texto 2689]
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«Mau-estar»!

Também sem desculpa

      «O encontro, que aconteceu apesar de todas aquelas polémicas que a imprensa relatou, sobretudo a imprensa da Argentina, de que havia um mau-estar entre os dois, uma vez que o cardeal Bergoglio, até era um forte opositor a algumas das medidas de Cristina Kirchner, sobretudo o casamento entre homossexuais» (repórter Ana Santos, Jornal da Tarde, 18.03.2013).
      Nem queremos acreditar que uma jornalista se exprima desta maneira, mas assim foi. Se a repórter tiver amigos entre os nossos leitores, por favor, digam-lhe.
[Texto 2688]
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«Corrector/corretor»

Sem desculpa

      «Morreu um dos advogados franceses mais célebres. O corpo de Olivier Metzner foi encontrado a boiar ao largo da ilha da qual era proprietário na região da Bretanha. A polícia descobriu na casa do advogado uma carta de despedida. Olivier Metzner, de 63 anos, foi uma figura controversa. Esteve envolvido nos principais processos dos últimos anos. Defendeu o ex-ditador do Panamá, Manuel Noriega, e o ex-corretor da Société Générale, Jérôme Kerviel, que perdeu na bolsa cinco mil milhões de euros. Representou ainda o ex-presidente da petrolífera Elf, acusado de corrupção, e o ex-primeiro-ministro Dominique de Villepin» (jornalista Hélder Silva, Jornal da Tarde, 18.03.2013).
      E como é que o jornalista leu a palavra «corretor»? Como se fosse «corrector», como tantas vezes acontece. Agora com o Acordo Ortográfico, é como se tudo fosse igual. Claro que o jornalista não tem desculpa.
[Texto 2687]
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«Renascimento/Renascença»

Para que conste

      «Renascença. Há quem prefira Renascimento, talvez com receio ao francesismo Renaissance. Mas Renascença é palavra bem formada, e não há motivo para a sua proscrição. (D. D.)» (Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português, vol. 2, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, p. 906).
[Texto 2686]
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Léxico: «varroa»

Fala-se muito nela

      «Amanhã seguem viagem para Ourém, vão tratar dos outros apiários. É preciso manter as colmeias limpas, fazer desdobramentos, analisar a percentagem de varroa e enviar o mel para análise, para atestar a sua qualidade» («A morte silenciosa das abelhas», Ricardo J. Rodrigues, Notícias Magazine, 17.03.2013, p. 42).
      Está noutros dicionários, não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

[Texto 2685]
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Léxico: «lanceta»

Se estiver certo, falta

      «Junta-se a Jaime Gama e os dois olhares clínicos dão o alerta: faltam duas lancetas, “a dos pulmões e a do reboque”. Russell nem queria acreditar. Com o primeiro [sic] furavam os pulmões, para depois se encherem de água e o cachalote flutuar. O do reboque servia para enganchar no magnífico cadáver flutuante, depois puxado até à costa pelos ínfimos barcos — explica o ex-MNE» («Mestre do Pico constrói bote baleeiro em New Bedford», Marina Almeida, Diário de Notícias, 17.03.2013, p. 25).
      Se está correcto, não consta dos dicionários, que registam, isso sim, uma acepção com alguma relação: pequeno cutelo pontiagudo usado nos matadouros para abater reses.

[Texto 2684]
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Léxico: «rasta»

E mais esta

      «O principal suspeito é corpulento e usa rastas e ontem ainda não tinha sido capturado, segundo o DN apurou junto de fontes policiais» («Segurança reforçada após tiroteio à porta do restaurante», Luís Fontes, Diário de Notícias, 17.03.2013, p. 18).
      Ora, se o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «rastafári», «rastafarianismo» e «rastafariano», não sei porque não há-de acolher também esta.
[Texto 2683]
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Léxico: «nosocomial»

Manicómios e nosocómios

      «No relatório Saúde em Números, publicado em Janeiro deste ano pela DGS, há um capítulo dedicado às infecções nosocomiais da corrente sanguínea (INCS) nos hospitais portugueses onde se conclui que a prevalência aumentou de 3,2% em 1988 para 5,9% em 2010» («Governo vai dar prioridade ao controlo das infecções», Andrea Cunha Freitas, Público, 17.03.2013, p. 9).
      Quanto mais diversidade lexical, melhor, pelo menos desde que não sejam invencionices. Esta veio do grego, através do latim. Nosocomial: relativo a hospital ou às doenças que aí tratam.
[Texto 2682]
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Tradução: «gap year»

E fazem eles bem

      «Dois anos depois de um empresário [Carlos Torres] ter desafiado dois jovens a interromperem os estudos e a viajarem pelo mundo, “para crescerem”, a discussão sobre as vantagens de uma pausa na actividade académica chega à Assembleia da República. Os ingleses, que há décadas criaram o conceito e a prática, chamam-lhe gap year. Os deputados do PS traduzem para “ano sabático” e pedem o apoio do Governo para o promover entre os alunos do ensino secundário» («Depois do 12.º ano, uma pausa para viajar», Graça Barbosa Ribeiro, Público, 17.03.2013, p. 10).
[Texto 2681]
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Como se escreve nos jornais

Já sabemos como é

      «Neste “convite insistente e convicto à oração da praça e do mundo pelo Papa”, nesta “sugestão de colegialidade”, pedia Francisco para os crentes “não o deixarem sozinho, para lhe darem aquela força que, para quem crê, deriva de Deus, mas também da convicção e da fraterna participação do povo cristão”, escreveu o jornal. Depois, Francisco calou-se e curvou-se, “na humildade de uma inclinação do sumo pontífice que nunca antes tinha sido vista na loggia” de São Pedro» («Sentido de humor, gestos simples e palavras sérias», Sofia Lorena, Público, p. 3).
      A jornalista deve pensar que não há na língua portuguesa nenhuma palavra correspondente.

[Texto 2680]
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Como falam os políticos

Falam assim

      Miguel Frasquilho, deputado social-democrata: «Estas revisões mostram também, deixam à vista de todos, que o programa original, apresentado em Maio de 2011, tinha sido mal desenhado, mal concebido, com projecções e efeitos que, sabemos agora, tinham pouca ou nenhuma aderência à realidade.»

[Texto 2679]
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«Pergunte-se cada um a si mesmo»

Outra perspectiva

      «Preguntar-se. Ensina Epifânio na Sintaxe Histórica, 102 [§ 135]: “O emprego de verbos transitivos na conjugação reflexa, sendo o pronome reflexo complemento indirecto pertence quase exclusivamente à linguagem literária: “pergunte-se cada um a si mesmo, quantos anos tem” (Vieira, Sermões, 1107)» (Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português, vol. 2, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, p. 759).
[Texto 2678]
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Léxico: «espaldão»

Inescrutável

      «Segundo referiu ao DN o comando geral da GNR, as falhas reportavam [sic], no essencial, à existência de pneus na área de tiro[,] o que pode potenciar o risco de ricochete; à falta de proteção da parede frontal do espaldão para-balas (nas carreiras de tiro de Águeda, Macedo de Cavaleiros, Évora e Guarda) [...]» («Carreiras de tiro das polícias têm falhas de segurança», Rute Coelho, Diário de Notícias, 15.03.2013, p. 19).
      Está nos dicionários. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «entrincheiramento destinado a servir de local de tiro a uma arma». A propósito: estranho é este dicionário grafar com hífenes «carreira de tiro».
[Texto 2677]
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Simplesmente Francisco

Habemus papam et errores

      Foi preciso vir o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, a explicar que ao nome do Papa Francisco não é preciso juntar-se, para já, o ordinal romano I. «... qui sibi nomen imposuit Franciscum». Valha-nos Deus.
[Texto 2676]
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«Um tal de»

Veio do Brasil ou é nossa?

      «Aos vinte annos amavas com ternura um tal Pedro Sepulveda. Aos vinte e cinco, amavas com paixão, um tal Jorge Albuquerque. Aos 30, amavas com delírio, um tal Sebastião de Meirelles. Aos 35, amavas, em Londres, com frenesi um tal... como se chamava... não me recordo... diz-me, por piedade o nome d’esse homem, que, se não, fica o meu discurso sem o effeito do drama...» (O Romance Dum Homem Rico, Camilo Castelo Branco. Porto: Tipografia da Revista, 1861, p. 74).
      A pergunta é simples: a construção «um tal de», que eu nunca uso, não terá vindo do Brasil?

[Texto 2675]
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Tradução: «comedor»

Francamente

      Atrás era o insider, mas aqui é algo bem pior: «Na Argentina, desloca-se de autocarro e metro; quando viaja para Roma, insiste na classe económica. Costuma comer sozinho e raramente aceita convites para almoços e jantares — quando quebra o hábito, prefere os comedores» («Honesto, rigoroso, frugal, conservador, mas moderado», Rita Siza, Público, 14.03.2013, p. 7). Qual a necessidade de usar o termo espanhol, completamente corriqueiro, traduzível?

[Texto 2674]
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Léxico: «vaticanista»

Quase nunca é

      «Os vaticanistas assinalam que o novo Papa não é um insider da Santa Sé. Ainda assim, “a voz de Bergoglio tinha peso dentro da estrutura do Vaticano”, notou o embaixador da Argentina em Roma, Juan Pablo Cafiero, antes da eleição» («Honesto, rigoroso, frugal, conservador, mas moderado», Rita Siza, Público, 14.03.2013, p. 7).
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, vaticanista é «que ou a pessoa que é partidária do vaticanismo; papista». No contexto do artigo do Público, e porventura na maioria das vezes, não é. É, isso sim, o especialista em assuntos relativos à cúria romana.
[Texto 2673]
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Verbo «estar» no presente do conjuntivo

Erros de PM (palmatória)

      Nos primeiros dias de Maio de 2011, pouco faltava para Pedro Passos Coelho ser primeiro-ministro, numa das emissões do programa Bom Português, perguntou-se na rua, aos transeuntes, como se diz: «É importante que estejamos atentos ou é importante que estejemos atentos»? Hoje, na Assembleia da República, o primeiro-ministro disse claramente «estejemos». Esperemos que tenha dúvidas e que procure rapidamente saber como é.
[Texto 2672]
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Léxico: «escafiar»

Donde vem isto?

      «Rolinda assomou à porta, beijada pela maresia morna do finar de tarde, e viu seu menino a correr, descalço, no pontão escafiado» (Selva Urbana, António Mateus. Lisboa: Edições Colibri, 2007, p. 273).
      O vocábulo escafiado significa aqui estragado, danificado, contudo, nenhum dicionário o regista. Já mais de uma vez ouvi alguém dizer «estou todo escafiado», querendo significar algo como «estou todo partido» ou «estou completamente roto». Alguém conhecia? Há também, mas sem qualquer relação, ao que me parece, o regionalismo madeirense escafiar, que significa limpar, apurar. Não virá de algum termo inglês? Afinal, na Madeira também se diz ou dizia, por exemplo, entre largas dezenas de outras da mesma proveniência, afe-nafe para tocado, meio embriagado. De half and half...
[Texto 2671]
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Léxico: «transfobia»

Além de

      «A Rede Ex Aequo registou 37 denúncias de episódios de homofobia e transfobia ocorridos nas escolas portuguesas, entre Janeiro de 2011 e Dezembro de 2012» («Bullying homofóbico chegou às escolas do primeiro ciclo do básico», Natália Faria, Público, 13.03.2013, p. 12).
      Ah, mas esta já está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «rejeição ou preconceito contra os transexuais ou o transexualismo». O nome da associação não precisa de ser grafado em itálico, mas os jornalistas sabem lá disso.
[Texto 2670]
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Léxico: «rabdomiólise»

É mais uma

      «A situação deste homem de 46 anos é “estável”, mas continua internado por apresentar sinais de rabdomiólise, que requer hidratações para evitar lesões renais, acrescentou Leonor Bettencourt» («“Aparelho de pesca ficou preso no fundo e o barco afundou-se”, conta sobrevivente do naufrágio», Tolentino de Nóbrega, Público, 13.03.2013, p. 9).
      Esta também não a vejo nos dicionários que consultei. E não faltam em todos eles nomes de doenças.

[Texto 2669]
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Léxico: «administrativista»

Talvez agora

      «“É como se [Macário Correia] estivesse impedido de exercer funções”, corrobora o administrativista da Universidade Católica do Porto Mário Aroso de Almeida, que se mostra surpreendido com as declarações do autarca de que pretende continuar a exercer o cargo» («Esgotaram-se os recursos para travar perda de mandato», Idálio Revez e Ana Henriques, Público, 13.03.2013, p. 2).
      Administrativista. Tem de ir para todos os dicionários. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que acolhe «constitucionalista», por exemplo, não o regista.
[Texto 2668]
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Aspas injustificadas

Isto nunca mais acaba

      «O Tribunal Constitucional respondeu a 7 de Março a um pedido de “aclaração” de Macário Correia confirmando a perda do seu mandato de presidente da Câmara de Faro. Com esta diligência, o autarca esgotou os recursos para travar a decisão proferida pelo Supremo Tribunal Administrativo (STA) no Verão passado» («Esgotaram-se os recursos para travar perda de mandato», Idálio Revez e Ana Henriques, Público, 13.03.2013, p. 2).
      Só podem ser razões inescrutáveis as que levam os jornalistas a usar aspas nestes casos. Deixá-los.

[Texto 2667]
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Um neologismo em Camilo

Não tão cedo

      Hoje passei por um múpi em que se lia que o «primaverão está a chegar», ou algo parecido. Mas só no calendário, porque quanto à meteorologia parece o que é, Inverno. Não vamos primaverar tão depressa. «Primaverar. Escreveu Camilo na pág. 152 dos Vulcões de Lama: “Em Abril iam primaverar na quinta do Flórido em Campanhã.” Neologismo aceitável. Semelhantemente existe em latim æstivare, veranear, passar o verão. (D. D.)» (Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português, vol. 2, Vasco Botelho de Amaral, pp. 771-72).
[Texto 2666]
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Sobre «exergo»

Fora da obra (e dos dicionários)

      «Foram estas palavras que o poeta escolheu inicialmente para exergo desta parte da sua obra.» Diz mais ou menos isto o nosso autor. Creio que já conhecia este sentido do termo, mas esse conhecimento estava alojado num escaninho da memória. De qualquer maneira, vejo que os dicionários (consultei apenas seis, é certo) também o não registam. Tome-se a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: exergo: «espaço de uma moeda ou medalha em que se grava uma inscrição, data, etc.». Literalmente, exergo significa «fora da obra», mas este «fora» terá de se entender, no sentido do excerto em cima, como a margem do livro, ou da mancha gráfica. Assim, por metonímia, passou a dizer-se também «exergo» por «epígrafe».
[Texto 2665]
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E sobre Heraclito, nada

De nada

      Montexto observou aqui que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista nenhum adjectivo relativo a (António Feliciano de) Castilho. Não é o único. Melhor, talvez não haja nenhum que o faça. Muito mais estranho é que aquele dicionário não acolha nenhum dos adjectivos relativos a Heraclito, e há vários: heraclíteo, heraclítico, heracliteu e heraclitiano. Ou será antes «heracliteano», como se lê no Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora? Rebelo Gonçalves, na p. 524 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa, regista «heraclitiano».
[Texto 2664]
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Léxico: «dorial»

Nunca avistada

      «Do “vício” da rua — da mágoa e do negro, do companheirismo e do crescimento dorial — fez-se poesia no livro Farrapos de Alma. Há dias, os amigos encheram o restaurante onde apresentou pela primeira vez a obra sobre os quatro anos em que viveu nas ruas do Porto e os exemplares vendidos pagam agora a primeira renda do T0 onde vai viver nos próximos meses» («Daniel Horta Nova. Do “vício” da rua fez-se poesia», Mariana Correia Pinto, Público, 11.03.2013, p. 12).
      Dorial. Esta nunca eu tinha lido nem ouvido, mas está nos dicionários, pelo menos em alguns — relativo a dor; doloroso.

[Texto 2663]
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«Cognac», «stress»...

Um retrocesso

      «Chama-se conclave à reunião de cardeais que escolhem os papa porque, num passado remoto, ficavam trancados cum clave (à chave, em latim) numa sala. Ali ficavam, isolados e mal alimentados, o tempo que fosse preciso. O primeiro conclave data de 1241 e elegeu Celestino IV. O mais famoso realizou-se em Viterbo (onde o Papa da época, Clemente VI, tinha morrido). Começou em 1268, mas os cardeais estavam tão divididos que demoraram dois anos e nove meses a eleger Gregório X. Neste período foram impostas as regras da clausura e a do pão seco e água como únicos alimentos. No futuro seriam concedidas algumas comodidades aos sacerdotes em conclave. Em 1878, quando foi eleito Leão XIII, o carmelengo [sic] foi autorizado a comprar uma garrafa de cognac para aliviar o stress dos sacerdotes deprimidos pelo isolamento e parca dieta, apesar de o pão já não ser seco. Se algum quisesse uma garrafa só para si só [sic] com prescrição médica» («A importância do cognac na escolha do papa», Público, 10.03.2013, p. 30).
      O texto veio da Reuters, e por isso cognac ficou... cognac. Mas esta é a grafia francesa, porque aportuguesado é, e há muito tempo, conhaque. E é claro que stress podia traduzir-se por «tensão».

[Texto 2662]
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«Exibir um moquenco»?

Vá-se lá saber

      «E o sr. Gaspar começa a exibir um moquenco de penitente que lhe vai muito bem. Mas, no meio disto, ainda ninguém respondeu à pergunta óbvia: onde está o dinheiro para o país continuar com o mínimo de decência e alguma dignidade» («Uma visita da autoridade», Vasco Pulido Valente, Público, 10.03.2013, p. 56).
      Não os do costume, mas todos os dicionários registam que moquenco é aquele que faz caretas ou momices; o que é humilde, envergonhado, indolente, preguiçoso. Em Bluteau, também é sinónimo de invencioneiro. Alguém conhece outra acepção? Não terá o cronista pretendido dizer mocanquice, isto é, trejeito, esgar?
[Texto 2661]
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«Medo pânico»

Já Camões dizia

      Júlio Machado Vaz, volta não volta, diz «medo pânico», expressão que detesto. «Pânico. Escreve Roquete: “Terror pânico, sem fundamento. Usado (pânico) como substantivo é galicismo contrário ao uso da nossa língua.” Os Franceses dizem peur panique, isto é, terror pânico, sem motivo, ou sòmente une panique. Em português pânico é adjectivo, como aliás em grego o era. Em Nascentes, acerca de pânico, lemos: “grego panikos scilicet deuma, terror de Pã”. Camões em III, 67, redigiu: “Dum pânico terror todo assombrado,...” Epifânio comenta: “Pânico é adjectivo grego derivado do nome do Deus Pã...” (Cf. a sua edição de Os Lusíadas, pág. 167, I vol.). Por isto se vê que frases como a seguinte, vulgares em jornais, devem proscrever-se: “A população caiu em pânico.” Pânico terror estaria correcto. Camilo no Perfil do Marquês de Pombal, pág. 204: “o pânico terror que o conde exercia sobre os fidalgos”. Cp. Adjectivos (sua omissão).|| Cp. Ridículos. (D. D.)» (Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português, vol. 2, Vasco Botelho de Amaral, pp. 608-9).
[Texto 2660]
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«Pancadaria de molho»

Finalmente

      Ouvi toda a vida, e agora chega a explicação: «Pancadaria de molho. Ao tratar de etimologias populares e dos seus efeitos na alteração das palavras, Ribeiro de Vasconcelos refere: “a frase popular pancadaria de molho (ou de moio noutras partes) não é mais do que uma corrupção de pancadaria de moiro”. Cf. Gramática Histórica, 100. (D. D.)» (Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português, vol. 2, Vasco Botelho de Amaral, p. 608).
[Texto 2659]
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Para substituir «passagem»

Alternativas não faltam

      «Passagem. Não é vernáculo o emprego desta palavra na acepção de — passo (de texto), trecho, excerto, relanço (usado por Camilo em O Bem e o Mal), lugar (proposto por Francisco José Freire); episódio; texto. Verificámos que nas Lendas e Narrativas o seu autor, à pág. 131, II volume, redigiu: “um tracto daquelas grandes histórias de Frei Bernardo de Brito”. Mas na pág. 204 do mesmo volume emprega passagem, o que não é para imitar. (D. D.)» (Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português, Vol. 2, Vasco Botelho de Amaral, p. 622).
[Texto 2658]
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Substantivo usado como adjectivo

Erra quem escreve

      «Era o dia de Santa Bárbara. Nessa data, os alunos que se preparavam para as altas escolas de ciências organizavam uma manifestação monstra, quase tolerada pelos professores» (Silbermann, Jacques de Lacretelle. Tradução de Ersílio Cardoso. Lisboa: Edição Livros do Brasil, «Colecção Miniatura», s/d, p. 32). «Manifestação monstra», quando o original fala em tapage...
      Já aqui falámos de outro substantivo adjectivado, «benjamim». Veja-se o que escreveu Vasco Botelho de Amaral no Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português: «Patriota. Esta palavra, sendo como é um substantivo, não deve usar-se como adjectivo. Portanto, erra quem escreve: “manifestação patriota”. A emenda está em “manifestação patriótica”. Mas há correcção em: “os patriotas de Portugal”. (D. D.)» (vol. 2, p. 627).
[Texto 2657]
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Léxico: «tetraparésico»

Outra desconhecida

      «O ex-motorista de pesados ficou tetraparésico (perda parcial das funções motoras dos braços e pernas) depois de ter sofrido um traumatismo cranioencefálico num acidente há dois anos» («E de repente, a meio da vida, tiveram de reaprender a falar», Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 6.03.2013, p. 22).
      Desconhecia este termo, tal como os dicionários. Claro que a definição parentética é a da doença, tetraparesia, mas a jornalista não terá tido tempo para pensar nessas minudências.
[Texto 2656]
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Léxico: «popia»

Recomendo

      Hoje comi um bocado de uma popia de espécie. Sabem o que é? Não? Deixem lá, os dicionários também não. São uns bolos secos, em forma de argola, típicos do Alentejo. «Espécie», aqui, está por «especiaria» (é a 6.ª acepção do verbete do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). Não é, contudo, inteiramente desconhecido dos livros: «Querem popias? São frescas, comprei-as esta manhã a uma mulherzinha» (Adeus, Princesa, Clara Pinto Correia. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 1986, p. 98).

[Texto 2655]
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Como se traduz

Depende dos dias

      «Por mais que o comerciante jurasse que a faca lhe desaparecera alguns dias antes, não pôde prová-lo; foi suspeitado, interrogado, guardado à vista; e, se não o prenderam imediatamente, foi porque o cadáver parecia ter sido arrastado e colocado diante da sua casa, como se se tratasse de uma vingança» (Silbermann, Jacques de Lacretelle. Tradução de Ersílio Cardoso. Lisboa: Edição Livros do Brasil, «Colecção Miniatura», s/d, p. 178).
      Não podemos trazer para aqui apenas bons exemplos — com os maus exemplos também se aprende. No caso, dois erros crassíssimos: suspeita-se de alguém ou de algo, não se suspeita alguém ou algo. E também não guardamos ninguém à vista. Garder qqn à vue é, segundo o Trèsor, «retenir quelqu’un pendant un court délai à la disposition de la police ou d’un tribunal».
[Texto 2654]
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«Revogação/revocação»

Como um íman

      «Ah! Estes sentimentos insensatos provocaram a minha indignação. Comparei-os aos que haviam preparado outrora a revocação do édito de Nantes e feito perder à França — quantas vezes o ouvira! — os mais dignos e os mais trabalhadores dos seus habitantes» (Silbermann, Jacques de Lacretelle. Tradução de Ersílio Cardoso. Lisboa: Edição Livros do Brasil, «Colecção Miniatura», s/d, p. 75).
      Isto também não é raro nas traduções: entre dois ou mais vocábulos, escolher-se o que está mais próximo da língua de partida (révocation) e mais afastado da língua de chegada. Quem é que aí diz «revocação» em vez de «revogação»?
[Texto 2653]
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Tradução: «je me demandais»

Pergunto a mim próprio

      Ersílio Cardoso na tradução de Silbermann, de Jacques de Lacretelle (Lisboa: Edição Livros do Brasil, «Colecção Miniatura», s/d).
  1. «Mas esse sopro, perguntava eu a mim próprio, não seria antes a alma dum génio misterioso que habitava nele?» (p. 21) («me demandai-je»).
  2. «E, com infinita inquietação, perguntava a mim próprio se a escolha, pelo poder divino, desta igreja católica como lugar de punição não era um sinal que devia fazer-me abjurar...» (p. 64) («je me demandais»).
  3. «E eu perguntava a mim próprio se os sentimentos de minha mãe não se tinham sempre assim dissimulado sob roupagens austeras» (p. 99) («et je me demandais»).
[Texto 2652]
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«A fim de/afim»

Não faz mal lembrar

      «Também, em Aiguesbelles, o meu avô dava ordem, na primavera, para que algumas videiras não fossem podadas, afim de que ele próprio, passeando nos seus domínios, pudesse ter o prazer de lhes aplicar o podão» (Silbermann, Jacques de Lacretelle. Tradução de Ersílio Cardoso. Lisboa: Edição Livros do Brasil, «Colecção Miniatura», s/d, pp. 15-16).
      Continuo a ver este erro com alguma frequência, por vezes na pena de quem julga escrever bem. Ersílio Cardoso continua a ter um pouco, só um pouco, de desculpa, pois no original está «afin que lui-même». Na língua francesa, a locução é afin que.

[Texto 2651]
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Tradução: «à l’abri de»

Evite-se a cópia

      «Que êxito, quando (muitas vezes graças a uma hábil dissimulação) eu me sentia ao abrigo de toda a curiosidade» (Silbermann, Jacques de Lacretelle. Tradução de Ersílio Cardoso. Lisboa: Edição Livros do Brasil, «Colecção Miniatura», s/d, p. 15).
      Tem a desculpa, acho eu, de estar a traduzir do francês, no qual se lê: «Quel succès, lorsque (souvent grâce à une habile dissimulation) je me sentais à l’abri de toute curiosité!» Sem o galicismo e dislate anfibológico da locução prepositiva, como disse Mário Barreto, seria protegido contra, protegido de.
      Vasco Botelho de Amaral no Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português (Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, p. 17): «Abrigo. Evite-se a cópia do francês à l’abri de. Em vez de “ao abrigo dessa disposição”, por exemplo, dir-se-á: graças a essa disposição, por meio dessa disposição. (D. D.). Aliás, ao abrigo da lei (e ditos semelhantes) veio do italiano, por via francesa. A dição está muito vulgarizada.»
[Texto 2650]
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Tradução: «rang»

Dormir na forma

      «Ao dizer estas palavras, mostrava-me um rapaz que estava à porta da aula, à frente da forma, e que eu não me recordava de ter visto no ano anterior em nenhuma das turmas do terceiro ano» (Silbermann, Jacques de Lacretelle. Tradução de Ersílio Cardoso. Lisboa: Edição Livros do Brasil, «Colecção Miniatura», s/d, p. 9).
      Não atinamos logo que «forma» é aquela. O original esclarece-nos: «en tête des rangs». Ah. Fila, fileira. É a 9.ª acepção do respectivo verbete no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «MILITAR disposição ordenada de tropas; formatura». A Ersílio Cardoso, que já atrás traduzira da mesma maneira — «O tambor rufou. Fomos para as formas» (p. 9) —, não ocorreu nada de melhor.

[Texto 2649]
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«Mau grado/malgrado»

Fica o aviso

      «Salve-se, em parte, o verbete de João Palma Ferreira no Grande Dicionário dirigido por João José Cochofel, companheiro de Abranches em Coimbra, e louve-se, mau grado os erros da data de nascimento e da data da partida para o Brasil, o verbete do companheiro de Moçambique Ilídio Rocha, no Dicionário Cronológico de Autores Portugueses» («Augusto dos Santos Abranches, o rumor de uma vida», Arnaldo Saraiva, Público, 4.03.2013, p. 47).
      Consultei meia dúzia de dicionários e só segundo um deles — o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora — «mau grado» significa o que o texto acima exige. Ou seja, para todos eles, excepto para o da Porto Editora, malgrado é que significa apesar de, não obstante, ao passo que mau grado significa má vontade, desagrado. Lembramo-nos logo, é claro, da preposição francesa malgré, de que o Dicionário de Francês-Português da Porto Editora dá a seguinte tradução: «apesar de; não obstante; contra vontade; a despeito de; mau grado». (Pelo menos desta vez, há coerência.) E é também este verbete, malgré, que consulto no Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português (3088 páginas!), de Vasco Botelho de Amaral: «Esta palavra aparece de quando em quando em nossa prosa, onde é de todo inadmissível. Deve traduzir-se por: apesar de, a despeito de; mau grado, etc. Malgré lui, isto é, a seu pesar, em que lhe pese, contra sua vontade, mau grado seu, pois grado significa em português: gosto, vontade, consentimento (latim gratu-). Malgré tout verte-se para: apesar de tudo; suceda o que suceder; não obstante, embora; a despeito de tudo; sem embargo, etc. A expressão bon gré, mal gré deve traduzir-se: de bom ou mau grado, com vontade ou sem ela, por bem ou por mal, quer sim quer não, quer queira quer não» (p. 370, Vol. II).
      Até por esta divergência no que registam os dicionários, não tenho quaisquer dúvidas de que se verá de tudo, e carrear para aqui exemplos seria tarefa em parte inútil. Suspeito mesmo que se encontrarão exemplos contraditórios num mesmo autor.
[Texto 2648]
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Léxico: «periquilho»

Maus ventos e boas palavras

      Juliana Couceiro Tavira, a criada invejosa da adúltera Luísa, usava cuia. Cuia vem do tupi. Lembrei-me então de uma palavra que não vi, até hoje, em nenhum dicionário, usada em algumas partes do Alentejo — periquilho. Conhecem? É o nome que se dá ao pequeno rolo de cabelo no alto da cabeça. Não vem do tupi, vem do castelhano: periquillo. E nós ainda recentemente aqui falámos de chignon, carrapito, carrapicho, coque e puxo.
[Texto 2647]
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«Lot/Ló»

Pão de Lot

      Não sei, mas ia jurar que nunca tinha visto o nome do bíblico sobrinho de Abraão grafado Ló, sempre Lot. Vi-o agora. No entanto, em vez de Job é vulgar. Há dias, numa fila no supermercado, estava um miúdo reguila que disse chamar-se Davi, mas esta variante já eu conhecia.
[Texto 2646]
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«Uso campeão»!

E professores universitários

      Vai para dois anos, escrevi no Assim Mesmo que «em Portugal e no Brasil, o bom povo — ou, para sermos mais precisos, um ou outro beira-corgo — diz “uso campeão” querendo dizer “usucapião” (aquisição pelo uso), esse termo da linguagem do Direito. Até se lê em certos requerimentos: “Fulano vem requerer uso campeão…” É a lei do mais forte». Pois agora ouvi o Prof. Júlio Machado Vaz, no programa O Amor É..., dizer «uso campeão», e não me parece que estivesse a brincar, pois disse-o duas vezes.

[Texto 2645]
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Como se escreve nos jornais

Extremamente

       «Tem fama de ser espartano e imune a pressões o beirão ontem aprovado pelo Conselho Superior do Ministério Público para liderar o combate à criminalidade económico-financeira. Aos 58 anos, o ultra discreto procurador-geral adjunto Amadeu Guerra sucede à mediática Cândida Almeida à frente do Departamento Central de Investigação e Acção Penal» («Um beirão espartano imune a pressões passa a liderar combate à corrupção», Ana Henriques e Mariana Oliveira, Público, 1.03.2013, p. 12).
      Ultra, que é aqui um prefixo, fica assim solto, livre, descomprometido. E assim fica também uma ortografia descomprometida.
[Texto 2644]
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Sobre «secretivo»

Como de costume

      «Susana recebeu-me com excessiva cerimónia, e deixou-me a sós com o nosso biografado, a fim de que estabelecêssemos o diálogo secretivo em que ela não ousava intervir» (Tiago Veiga, Uma Biografia, Mário Cláudio. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 695).
      A primeira ideia que nos ocorre é que se relaciona com secreções, mas não, claro. É mais um anglicismo, de secretive, «disposed to secrecy». Proclive a guardar segredo.
[Texto 2643]

 

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«Tipo de Papa que o suceder»

A noite sucede ao dia

      «Não foi só os católicos que Bento XVI surpreendeu. Também os anglicanos e os ortodoxos ficaram espantados com o seu gesto. A pastora inglesa anglicana Debbie Flach confessa: “Achei que o Papa não se reformava”. É, porém, mais reticente em prever se a decisão vai ter impacto na estrutura da Igreja Católica: os próximos anos dependem mais do “tipo de Papa que o suceder”. Mas arrisca: o novo Papa “deve ser capaz de chegar a todos os católicos. Espero que o próximo Papa seja capaz de trabalhar com todas as igrejas cristãs”» («Anglicanos e ortodoxos surpreendidos com Bento XVI», Joana Gorjão Henriques, Público, 1.03.2013, p. 4).
      Já vimos este erro mais de uma vez. O verbo suceder, nesta acepção, é transitivo indirecto, tem como complemento um termo preposicionado — suceder a alguém. Ora, os transitivos indirectos que regem a preposição a requerem as formas lhe ou lhes. Logo, «tipo de Papa que lhe suceder».
      Quanto a «gesto» na acepção empregada no artigo, tudo o que havia que dizer disse-se aqui.

[Texto 2642]
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