Sobre «motim»

Talvez tenha razão, Sr.ª Abbott

      «A palavra motins não é correcta para descrever os saques na Inglaterra. Anteontem a BBC ralhou com Diane Abbott, a deputada por Hackney North e Stoke Newington, por ter falado em “pilhagens recreativas”. Abbott, uma mulher desde sempre de esquerda, defendeu-se bem, dizendo que a pilhagem era roubo e tanto a pilhagem como o roubo eram crimes. A pilhagem era recreativa — não só porque dava lucro e prazer, mas, sobretudo, porque nada tinha de sério ou de político, no sentido altruísta e, por conseguinte, ideológico» («Uma questão de tempo», Miguel Esteves Cardoso, Público, 11.08.2011, p. 31).
Por coincidência, ao ouvir hoje, mais uma vez, a palavra num noticiário da Antena 1, também me pus a reflectir se está a ser usada com propriedade neste caso. Mas talvez, pois motim é, como se lê, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «rebelião, geralmente organizada, contra a autoridade estabelecida, tumulto popular, sublevação, revolta, arruaça».
[Texto 387]

Aplique na cabeça?

Isso é muito estranho

      «O cabelo beehive (nome dado por se assemelhar a uma colmeia) foi outra das marcas fortes da imagem da cantora, resultado entre o seu cabelo natural e um aplique falso colocado no alto da cabeça, dando mais volume e estrutura» («O estilo que a cantora Amy Winehouse criou», Catarina Vasques Rito, Diário de Notícias, 27.07.2011, p. 52).
      Já tinha perguntado a mim mesmo como é que ela tinha aquele penteado. Nunca me passou pela cabeça que fosse um aplique, um «objecto que se aplica ou coloca numa parede como ornamento ou iluminação», leio no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Eu diria que era uma armação.

[Texto 348]

Sobre «verve»

Não brinque

      Foi na obra de Eça que aprendi, tenho a certeza, a palavra «verve». O vocábulo, que também veio de paquete do Havre, é polissémico: verve é entusiasmo e inspiração na criação artística; verve é a graça e a vivacidade características de uma pessoa; verve é sentimento de vida. Tudo isso é verve. O próprio Eça, o escritor, era animado de verve. Qual o meu espanto ao ler no Público, a propósito de Fernando Nobre, isto: «Lembram-se dos discursos cheios de verve contra os partidos, da apologia dos valores e do apelo à participação dos cidadãos na vida democrática?» Tirando aqueles deputados, muitíssimos, que chegam ao Parlamento guindados pelo caciquismo, tão vivaz agora como no século XIX, nulidades a quem, graças a Deus, jamais ouvimos uma frase, nunca mas nunca apareceu na vida política portuguesa alguém tão pouco fadado para falar em público como Fernando Nobre. Não vejo que qualquer das acepções do vocábulo tenha sido empregada com propriedade pelo autor do texto — mas disso já o ex-deputado médico não tem a culpa, antes o jornalista, que usa mal as palavras, que não lhes toma o peso.
[Texto 282]

«Reverter uma decisão»!

É bárbaro

      Vejam esta: «O Supremo Tribunal dos Estados Unidos decidiu ontem, por unanimidade, reverter uma decisão de um tribunal de recurso da Califórnia e impedir que as funcionárias da cadeia de distribuição Wal-Mart pudessem apresentar uma acção colectiva por alegada discriminação com base no género contra a empresa» («Supremo recusa queixa por discriminação contra Wal-Mart», Público, 21.06.2011, p. 21).
      Reverter é voltar ao ponto de partida; retroceder; regressar — o que certos jornalistas deviam fazer, regressar às carteiras da escola primária. Então o verbo adequado no contexto não é «anular»? No nosso sistema judicial, o Supremo Tribunal de Justiça, através de um acórdão, anularia a decisão recorrida e ordenaria a baixa dos autos a um tribunal da Relação. Algum jurista nos confirmará se é assim exactamente.
[Texto 198]

Prefixo «sub-»

O domínio do mundo

      «Um homem de 47 anos apontou, ontem de manhã, uma arma à cabeça do comandante da Esquadra da PSP de Benfica e clicou no gatilho. A arma encravou e o sub-comissário da PSP ainda levou uma coronhada na cabeça e vários murros antes de conseguir deter o agressor» («Arma apontada à cabeça encravou», Luís Fontes, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 26).
      «Clicou no gatilho»! A informática domina agora completamente o mundo. Já quase a escrevermos segundo as novas normas ortográficas, e alguns jornalistas ainda não dominam as regras do Acordo Ortográfico de 1945. O prefixo sub- só se liga por hífen ao elemento seguinte quando este começa por b, h ou r. Logo, subcomissário.
      «Turvado agora pelo medo, o Jerónimo mediu o adversário bem de frente e premiu o gatilho» (Os Homens e as Sombras, Alves Redol. Lisboa: Publicações Europa-América, 1981, p. 53).
[Texto 72] 

Propriedade

À primeira vista


      «Mal fecharam as urnas, a televisão pública italiana RAI e a imprensa em geral avançaram com projecções, que se foram confirmando ao longo da tarde e segundo as quais a direita manteria os seus feudos do Norte — caso da Lombardia e do Veneto, aparentemente ganha pelo candidato da Liga Norte, Luca Zaia — e teria conquistado à esquerda quatro regiões. Duas no Sul: a Campânia e a Calábria» («Silvio Berlusconi ‘rouba’ quatro regiões à esquerda», Lumena Raposo, Diário de Notícias, 30.3.2010, p. 24).
      Tenho dúvidas sobre a propriedade do advérbio «aparentemente». Nada, contudo, que se compare com este absurdo, tantas vezes lido e ouvido: «Afirma que acha a minha religião “positivamente bizarra” e está espantado por eu parecer aparentemente tão bem equilibrado com todos estes disparates na minha bagagem» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 42).

[Post 3293]

«Tragédia humana»

Muito bem


      Não são só erros e disparates: alguns jornalistas começam a usar o adjectivo humanitário, de que já aqui falei, com propriedade: «O fundador e presidente da Assistência Médica Internacional (AMI), o médico Fernando Nobre, está na corrida a Belém, foi ontem confirmado. Amanhã, este homem habituado a palmilhar cenários de tragédia humana em dezenas de países estrangeiros vai explicar em detalhe por que razão quer ser Presidente da República e com que apoios conta — o anúncio oficial da candidatura está marcado para as 20h, no auditório do Padrão dos Descobrimentos» («Líder da Assistência Médica Internacional quer ser Presidente da República», Alexandra Campos, Público, 18.2.2010, p. 8).
      É verdade: o adjectivo «estrangeiros» está ali a mais.

[Post 3156]

Selecção vocabular

Animais pescados


      «A Capitania do Douro conclui, por volta desta hora, a remoção das principais manchas de pescado que deram à costa hoje nas praias de Vila Nova de Gaia. Vão ser enviadas amostras para análise no Parque Biológico de Gaia para determinar a origem do fenómeno. Pelo sim, pelo não, o comandante Fragoso Gouveia, da Capitania do Porto do Douro, pede para não se consumir o pescado que deu à costa» (Luís Ferreira, Antena 1, noticiário das 14 horas). O entrevistado, por sua vez, falou em «remover os animais da praia».
      «Pescado»? «Pescado» não é «tudo o que se pesca»? Os dicionários só registam que também é «qualquer peixe» porque o peixe normalmente nos chega aos pratos porque foi pescado. O étimo é o particípio latino piscātus. Também em espanhol pescado é «pez comestible sacado del agua por cualquiera de los procedimientos de pesca». Suspeito que o jornalista queria um colectivo (mas não precisava dele): tome-o. A sério, agarre-o lá: peixaria.

[Post 2967]

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