«Coolie/cúli/cule»

Não surpreende nada

      Na mesma tradução, ora se lê coolie ora o seu aportuguesamento cúli. Nem este nem a variante cule estão registados no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Se consultarmos o Dicionário de Inglês-Português da mesma editora, vemos que coolie é o nome depreciativo que se dá ao «trabalhador assalariado (indiano ou chinês)». É como se no verbete football escrevessem «jogo entre dois grupos de onze jogadores, em campo rectangular, geralmente relvado, em que cada grupo procura meter uma bola na baliza do adversário, sem lhe tocar com os membros superiores». Não surpreende, assim, que alguns, demasiados, tradutores deixem a palavra em inglês.

[Texto 3454]
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Sobre «zootrópio»

De pouco serve

      Sabem o que é um zootrópio? Se não sabem e forem consultar a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, não ficarão a saber muito mais: «aparelho que dá a ilusão do movimento pela persistência das sensações ópticas». É mais um verbete a precisar de nova redacção, pois de todos os dicionários que consultei, é o menos claro.
[Texto 3453]
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«Homicídio/assassínio»

Isso não é connosco

      «Rosario Porto e Alfonso Basterra estão detidos pela morte da filha, mas negam serem os autores do crime. Inicialmente foram acusados de homicídio, mas o juiz alterou a acusação para assassínio (que pressupõe um planeamento do crime) ao receber os resultados do exame toxicológico» («Asunta morreu devido à ingestão de ansiolíticos», Diário de Notícias, 25.10.2013, p. 24).
      Que «pressupõe um planeamento do crime» (porquê «um»?), sim, mas no ordenamento jurídico espanhol. Num artigo publicado na edição em linha de segunda-feira do diário espanhol ABC, explicava-se a diferença: «Para hablar de homicidio lo único que se necesita es que una persona le causa la muerte a otra, voluntaria o involuntariamente, pero siempre excluyendo tres condiciones que sí se dan para que el delito se eleve al de asesinato: que se cometa con “alevosía”, es decir, premeditación; que se de “ensañamiento” o, por último, que haya una recompensa por cometer el crimen, lo que se tipifica como “concurrencia de precio”.»
[Texto 3452]
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«Verãos», um plural pouco visto

Coincidências

      Coincidência espantosa: depois de ter passado uma vida sem ver o plural «Verãos», esta semana vi-o em duas traduções. Até ao início desta semana, só conhecia Verões. Agora, porém, já sei que Rui de Pina, Garcia de Resende e outros autores — mesmo contemporâneos nossos, como Fernando Campos — usaram aquele plural. E, assim, confere com aquela ideia de Ana Paula Silva, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), de que, «quando a terminação espanhola for -ano (cidadão-ciudadanos; cristão-cristiano; irmão-hermano; mão-mano), a palavra portuguesa terá seu plural com -ãos».
[Texto 3451]
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Léxico: «bazofeiro»

Estava a pedi-las

      E então ele «tornava-se bazofeiro, tornava-se insolente». Há gente assim, mas nada que uma murraça nas trombas não resolva, não é? Nem sempre podemos ser diplomáticos, conciliadores, contemporizadores. Ora, para Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, só há bazofiadores. Porque é popular? Não! Porque não se lembraram, não o viram.
[Texto 3450]
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Léxico: «destila»

De certeza que é bom

      Em Évora, na 3Bicos, produz-se gim biológico, da marca Templus. A mitologia, mesmo de forma ínvia, ainda vende. «Fermenta mais ou menos em dois dias. Seguidamente, sairá daqui só o líquido em si, que vai dar origem à primeira destila», disse ontem ao Jornal da Tarde João Rosado, artesão da destilaria. Primeira de três destilas, na última entram o zimbro, ervas aromáticas como poejo e hortelã da ribeira, etc. E cá está mais uma palavra que não encontro em nenhum dicionário, um substantivo por derivação regressiva.
[Texto 3449]
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«Capelo da chaminé»

Mais incoerências lexicográficas

      Não me recordo de alguma vez antes ter deparado com a expressão «capelo da chaminé». Vi-a agora mesmo numa tradução do inglês. Os tradutores podem não ter as coisas facilitadas, pois, se chimney hood consta no Dicionário de Português-Inglês da Porto Editora, não está, como devia, porque é onde mais falta faz, no Dicionário de Inglês-Português. E, incongruentemente, do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora também está ausente. É o nome que se dá ao remate superior da chaminé, construído para aproveitar as correntes de ar para uma melhor tiragem.
[Texto 3448]
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«Tratar-se de»

Leitura, pois

      «Quer se tratem de livros ou jornais em formato digital, a leitura em suportes electrónicos continua a ser uma prática individualizada, tal como acontece com a leitura em papel» («Na era da partilha online, a leitura continua a ser uma prática individual», João Pedro Pereira, Público, 28.10.2013, p. 27).
      Para falar da leitura, nada como atacar logo com um solecismo dos mais arrepiantes. Caro João Pedro Pereira, a construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular. Desconfio que não lhes ensinam isto no Cenjor nem nas faculdades.
[Texto 3447]
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Léxico: «carregador»

Último reduto

      «“Carregadouro”», lê-se no Decreto-Lei n.º 124/2006, de 28 de Junho, sobre a gestão da floresta, «é o local destinado à concentração temporária de material lenhoso resultante da exploração florestal, com o objectivo de facilitar as operações de carregamento, nomeadamente a colocação do material lenhoso em veículos de transporte que o conduzirão às unidades de consumo e transporte para o utilizador final ou para parques de madeira.» Dos dicionários, porém, onde já esteve (assim como «descarregadouro»), desapareceu. Tiram-nos tudo, até as palavras.
[Texto 3446]
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Traduzir com exigência e critério

Províncias vizinhas do silêncio

      «Trata-se apenas de um exemplo [escola de tradutores, na Holanda] do que pode ser feito por quem transporta de outras língua para as nossas línguas-mães as obras que permitem partilhar novos conhecimentos, novas ideias e novas visões do mundo. Quanto melhor se traduz, com exigência e critério, mais beneficiam a língua de origem e a traduzida, bem como a própria cultura. E isto, pelo menos, pode ser dito e compreendido em qualquer língua» («Traduzir não é trair, é universalizar», José Jorge Letria, Público, 28.10.2013, p. 47). 
      «Sem a tradução», recorda José Jorge Letria que George Steiner escreveu, «habitaríamos províncias vizinhas do silêncio».
[Texto 3445]
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Biblioteca Bodleiana e Museu Britânico

Por Oxford e Londres

      Sabe-se lá há quanto tempo se diz e escreve Biblioteca Bodleiana, mas, por vezes, é quase um favor que nos prestam aceitarem que se emende Bodleian Library. Como sempre se terá dito e escrito em português Museu Britânico, mas é custosa concessão prescindirem de British Museum.
[Texto 3444]
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Revisão

É a vida

      Depois de agradecer a dezenas de pessoas, de lordes e ilustres para cima, Virginia Woolf deixa, em Orlando, este agradecimento final: «Por último agradeceria, se não tivesse perdido o seu nome e morada, a um cavalheiro americano que generosa e gratuitamente corrigiu a pontuação, a botânica, a entomologia, a geografia e a cronologia de anteriores obras minhas e que, segundo espero, não irá privar‐me desta vez dos seus serviços.» Um revisor informal, decerto competente — e de nome desconhecido para sempre.

[Texto 3443]
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Não esqueçam

É português

      Bem, é melhor não esqueceram completamente o grego, ou pelo menos como sempre se transcreveram para português palavras gregas. Ainda hoje li que o mensageiro da Batalha de Maratona (490 a. C.) foi Pheidippides e que o percurso dele incluiu o «monte Parthenio». Ora, sempre se escreveu Fidípides (ou Filípides), e o monte é, sem qualquer dúvida, o Parténio.

[Texto 3442]
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Léxico: «psi»

É grego

      «Estou a falar com dois psis, pai e filha. Para compreender alguma coisa de quem são e da vossa relação, tenho de começar pelo complexo de Édipo da Joana?» («Joana e Carlos Amaral Dias. Amar é natural na espécie humana?», Anabela Mota Ribeiro, «Domingo»/Público, 27.10.2013, p. 19).
      Sim, mas para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, ainda é apenas o nome da vigésima terceira letra do alfabeto grego.
[Texto 3441]
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«Espaçotemporal»

Tripla, desta vez

      «Os mundos possíveis não actuais não são planetas distantes; não são entidades que tenham uma relação física, ou espácio-temporal, com o planeta Terra, nem com o universo em que vivemos» (Essencialismo Naturalizado, Desidério Murcho. Lisboa: Angelus Novus, 2002, p. 16).
      Para quem entende que espácio- é elemento de composição de natureza substantiva, correcto é «espaciotemporal». Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porém, nem isso está em causa, só há uma forma de grafar: «espaçotemporal». E pronto, eis — sem que o tivéssemos pedido — três formas de escrever o mesmo.
[Texto 3440]

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Léxico: «hemitórax»

Uns sim, outros não

      «Um golpe na região do hemitórax direito de João Carlos Ribeiro, orientado da direita para a esquerda, da frente para trás e ligeiramente de baixo para cima — lê-se no processo» («O homem que matou um homem e encontrou Saramago na prisão», Catarina Fernandes Martins, «2»/Público, 27.10.2013, p. 14).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apenas regista «hemotórax». Se eu sugerir a inclusão de «hemitórax», responder-me-ão, porém, que já está no Dicionário de Termos Médicos. Numa notícia no Público da semana passada, foi usado um termo semelhante a estes dois, «hematórax», que também está apenas no Dicionário de Termos Médicos. Só falta, pois, para serem consequentes, tirarem «hemotórax» do Dicionário da Língua Portuguesa.
[Texto 3439]
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Tradução: «bow window»

Querem ver que

      «Está tudo na arquitectura. As casas dos Beatles são pequenas; as fachadas, opacas. Apenas a de John tem bow windows, e as luzes acesas, numa avenida larga. São em pleno subúrbio, longe do centro de Liverpool e da sua digna monumentalidade» («As ruas de Liverpool», Jorge Figueira, «2»/Público, 27.10.2013, p. 9).
      Peço licença para lembrar, bow window tem, obviamente, tradução para português. Na literatura traduzida, nunca vi nenhuma bow window.
[Texto 3438]
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Maus exemplos

VPV, o metafísico

      «O mal deste trio [Seguro, Sócrates e Soares] é que, para além da sua intransigência e vociferação, não oferece nada ao partido ou a Portugal, que, peço licença para lembrar, ainda aqui anda» («A grande zaragata», Vasco Pulido Valente, Público, 27.10.2013, p. 56).

[Texto 3437]
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Tradução: «honourable»

Intraduzível, hein?

      Numa tradução de uma obra muito conhecida, feita no Brasil, lê-se: «Se ainda fosse alguma Honourable Edith ou Lady Violet, talvez; mas não aquela Sally maltrapilha sem um tostão de seu, sem pai ou mãe jogando em Monte Carlo.» Na tradução feita em Portugal, lê-se isto: «Ainda se fosse alguma Ilustre Edith ou Lady Violet; mas jamais a farroupilha da Sally, que não tinha um tostão e cujos pais passavam o tempo a jogar em Monte Carlo.»
[Texto 3436]
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Plural: «mulherezinhas»

Ainda se usa

      Lê-se numa tradução recente: «Era uma dessas mulherezinhas discretas, obscuras como ratos, e que gostam de homens grandes.» É, vimo-lo no Assim Mesmo, a regra culta. Escrevi então: «Certo é que, ao contrário de outros estudiosos da língua, José Manuel Castro Pinto, no seu excelente Novo Prontuário Ortográfico (Plátano Editora) adverte: “Seria purismo injustificado escrever mulherezinhas e amorezinhos, até porque o plural se forma instintivamente numa relação directa: mulherzinha > mulherzinhas” (p. 60 da 3.ª ed.).»
[Texto 3435]
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Tradução: «assistant commissioner»

Fica a dúvida

      «Em comunicado publicado ontem no site da Scotland Yard, o comandante assistente Mark Rowley, responsável pela investigação de crimes especializados e operações, afirma que a reabertura do processo em Portugal é uma “boa notícia”» («McCann, Governo e polícia falam de nova “esperança”», Emanuel Nunes, Diário de Notícias, 25.10.2013, p. 4).
      Será esta a melhor tradução de assistant commissioner — ou a pior? Commisionner não se traduz por «comissário»? Fica a dúvida.
[Texto 3434]
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«Perder os nortes»

No plural, não conhecia

      «— Compreende... Estive fora uns pares de anos... Desgarrei-me, ou antes, perdi os nortes ao convívio...» (Um Minuto de Silêncio, João da Silva Correia. Lisboa: Publicações Europa-América, 1962, p. 263).
[Texto 3433]
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Sobre «maçon»

E toucinho fumado

      Não me surpreende muito que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registe o vocábulo «maçon». (No entanto, regista «bacon», o toucinho de que quase todos os tradutores gostam.) Já sabem porquê. Mas não registar «maçom»? No plural, «maçons», são iguais, e nem sequer sabemos se é francês, se é português. Apenas acolhe «mação», pouco usado decerto porque parece o masculino de «maçã», não é? «Pedreiro-livre», então.
[Texto 3432]
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Príncipe Jorge

Em português, pois claro

      Estão a tomar juízo. «Aos três meses, o príncipe Jorge surge em público pela segunda vez. [...] A escolha dos padrinhos de Jorge mostra bem como Kate e Guilherme levam a sério o desejo de criar o filho da forma mais simples possível. [...] São sete os padrinhos de Jorge Alexandre Luís» (Fátima Silva, Telejornal, 23.10.2013).
[Texto 3431]
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Gramática é com eles

Palavreado hiperbólico

      «“Um nada, zero, inútil, traidor, auto-centrado [sic], calculista, contraditório”. Seis adjectivos para o Presidente da República, numa única frase no Facebook», disse no Telejornal de ontem o jornalista Luís Miguel Loureiro. Gramática é com eles. Isabel Moreira, a deputada que, a fingir que era jornalista, descreveu daquela maneira o Presidente da República, disse que o fez «obviamente usando o palavreado hiperbólico do Facebook».
[Texto 3430]
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Tradução: «decisione interlocutoria»

Para quem é

      «Assim, tendo em conta a atual controvérsia na Alemanha, foi uma decisão moderada», disse o jornalista italiano Iacopo Scaramuzzi a propósito da suspensão do bispo de Limburgo, Franz-Peter Tebartz-van Elst, que gastou 31 milhões de euros em obras na residência episcopal. Quer dizer, não disse exactamente aquilo, até porque não há-de saber falar português. Era o que se lia nas legendas do Telejornal de ontem, numa peça de Rita Marrafa de Carvalho. «È una decisione interlocutoria», é o que Scaramuzzi disse, o que é diferente. No ordenamento jurídico português também temos decisões interlocutórias, que são os actos processuais praticados pelo juiz, quando decide uma questão incidental sem dar solução final à lide proposta em juízo. Se o tradutor não tinha de se ater aos estritos termos jurídicos (não nos podemos esquecer que mais de 10 % dos portugueses são analfabetos, e são estes que vêem televisão, até porque não podem andar a perder tempo com o Facebook), também não podia desviar-se assim tanto. Há alternativas.
[Texto 3429]
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90 mil livros por dia

Impressionante

      Viram o Sexta às 9 de ontem? Foram visitar a gráfica da Porto Editora. «É um dos maiores grupos editoriais nacionais. Da gráfica da Porto Editora saem, em média, 90 mil livros por dia, 12 milhões por ano.» Boa parte escolares, podemos supor. Nunca se publicou tanto, nunca se leu tão pouco.
[Texto 3428]
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«Preferir ... a/antes querer»

Como sai

      Sobre Rui Moreira, recém-eleito presidente da Câmara Municipal do Porto, no «Sobe e desce» de hoje no Público: «Não apresentou uma agenda de projectos em carteira, como muitos autarcas fazem, preferiu antes afirmar o seu desejo de voltar a puxar pelo poder local» (p. 56).
      Eles sabem vagamente como é, é inegável, mas nem sempre acertam. E por isso misturam, confundem, enganam-se, atrapalham-se.
[Texto 3427]
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Léxico: «salvado»

E há muito

      «Depois de uma queda, alguns dos seus espigões agudos ficaram dobrados e um dos dois aros que envolvem esses espigões amolgou-se de forma considerada irrecuperável tanto pelo artista como pela seguradora da obra, a Hiscox, que acabou por pagar a peça [Perfume (vertiginoso e obscuro) IV, de Rui Chafes] e entrar na sua posse como salvado» («Sabe o que fica de uma obra à qual o artista retira a autoria? “Nada”», Vanessa Rato, Público, 23.10.2013, p. 32).
      O nosso espanto não tem fim: o vocábulo «salvado» ainda não está nos dicionários. «Forma do verbo salvar», lê-se no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Também, mas é comummente usado como substantivo no ramo dos seguros: salvados são as peças, partes substituídas ou o próprio veículo sinistrado, que passam para a propriedade da seguradora. Por extensão de sentido, será qualquer objecto.

[Texto 3426]
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«Um Picasso, dois Monets»

Está mesmo

      «A cada sessão no tribunal, uma novidade. É um filme sem fim, este do roubo de sete pinturas, entre elas um Picasso e dois Monets, há um ano do centro de arte Kunsthal em Roterdão, Holanda» («Ladrões de Picasso e Monet admitem roubo mas acusam galeria de negligência», Cláudia Carvalho, Público, 23.10.2013, p. 34).
      Um Picasso, dois Monets, três Goyas, quatro Kandinskys... E por aí fora. Prova que, afinal, ainda há jornalistas que sabem que a marca do plural é necessária. É o básico, bem sei, mas temos de nos contentar com pouco. E, tal como, obra a obra, Lisboa melhora, os jornais, letra a letra, podem deixar de ser aquela treta.
[Texto 3425]
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E não a nefanda

Está a entrar nos eixos

      «“Podemos, claramente, falar de uma negligência com graves consequências”, disse aos jornalistas Catalin Dancu, advogado de Radu Dogaru (o cabecilha do grupo), à saída do tribunal, sobre a sua argumentação no julgamento, com base num relatório da polícia holandesa. [...] Dogaru, Bitu e Darie declararam-se ontem culpados, admitindo o roubo e a tentativa de venda no mercado negro — quando foram detidos e deixaram as obras com a mãe do cabecilha» («Ladrões de Picasso e Monet admitem roubo mas acusam galeria de negligência», Cláudia Carvalho, Público, 23.10.2013, p. 34).
[Texto 3424]
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«Doing what one is told»

Quão diferentes

      «However, there is still a strong tradition in England, particularly in the lower status occupations, of the key virtue being that of ‘doing what one is told’.» O que é pena é ser uma tradição apenas inglesa. Em troca do chá, bem nos podiam ter dado isto. E a propósito de inglês, acabei de ser convidado para a inauguração (isto tem um nome inglês), no Hotel Farol (Farol Hotel, leio no convite), em Cascais, da exposição do artista plástico João Feijó, intitulada, pois claro, «Color Field». Raquel Rocheta é a relações públicas. Depois conto.
[Texto 3423]
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«Set up»

Entre França e Inglaterra

      «The X follows previous attempts by CEDEFOP (the European Centre for the Development of Vocational Training set up under the Council of Ministers)…» E na tradução: ah, tinha de se imiscuir outra língua que não apenas o português, mesmo filtrada por décadas: «O X segue as tentativas anteriores do CEDEFOP (Centro Europeu para o Desenvolvimento da Formação Profissional, criado ao abrigo do Conselho de Ministros)...»
[Texto 3422]
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Léxico: «criossauna»

Uns inventores

      «A criossauna é uma das técnicas da crioterapia e a escolha de muitos futebolistas. “É uma câmara que usa o vapor do nitrogénio para o arrefecimento muito rápido do corpo e que ajuda na recuperação muscular. Pode ir a temperaturas de menos 196 graus, mas o ideal é que esteja entre os menos 140 e os menos 160 graus. O tratamento dura no máximo três minutos e é mais agradável do que tomar um banho de um minuto com a água a cinco graus”, diz ao DN Luís Cunha, especialista em recuperação de atletas» («Ronaldo faz recuperação com temperaturas de 160 graus negativos», Ana Maia, Diário de Notícias, 22.10.2013, p. 37).
      O Observatório de Neologismos ainda existe? E está a trabalhar? (É outra pergunta.) O mais provável é que os cortes o ceifassem. Assim, de repente, não sei se isso é assim tão mau.
[Texto 3421]
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«Rendibilidade», vá lá

Nem todos se renderam

      Não tenho culpa que confundam «incredulidade» com «incredibilidade»... Ah, desculpem, já estamos no ar. «A rendibilidade das empresas não financeiras caiu para metade entre 2006 e 2012, apesar de ter recuperado ligeiramente no final do primeiro semestre deste ano» («Rendibilidade das empresas caiu para metade em seis anos», Diário de Notícias, 22.10.2013, p. 31).
[Texto 3420]
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Léxico: «teleconsulta»

Mas sem abusos

      «O Ministério da Saúde vai usar a telemedicina para dar acesso a consultas e cuidados em zonas com falta de médicos e a doentes que esperavam anos para ter uma resposta. Há dias arrancaram os telerrastreios na dermatologia na zona Norte (Bragança), mas o objetivo é levar as teleconsultas às áreas da cirurgia vascular, oftalmologia e neurologia ainda este ano, abrangendo unidades de todo o País» («Ministério ‘finta’ falta de médicos com telemedicina», Diana Mendes, Diário de Notícias, 22.10.2013, p. 12).
      É fácil: pega-se no elemento tele- e lá vai disto. Se «telemedicina» já faz parte do nosso léxico há anos, não me parece mal que se lhe junte «teleconsulta». O resto pode ser excessivo.
[Texto 3419]
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Linguagem desbragada

Mas há quem goste

      «Tudo naquela entrevista era bom, começando pelas fotografias de playboy cinquentão e acabando na linguagem desbragada, que Marcelo Rebelo de Sousa classificou como “tom infeliz”. [...] Tratar o alemão Wolgang Schäuble por “aquele estupor do ministro das Finanças”, classificar uma posição do primeiro-ministro da Holanda como “calvinismo reles”, afirmar de si próprio que “sempre fui a merda de um moderado”, disparar uns “pulhas” para aqui e uns “bandalhos” para acolá, e despachar os seus opositores políticos como “os filhos da mãe da direita portuguesa”, só está ao alcance de alguém para quem “a dureza encenada não é nenhuma dureza. Ou se tem ou não se tem.” E Sócrates, claro, é um duro» («O verdadeiro macho político», João Miguel Tavares, Público, 22.10.2013, p. 44).
[Texto 3418]
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Como se escreve nos jornais

Provavelmente

      «Ao fim de sete semanas, em cinco dos sete casos, surgiram novos folículos capilares e pequenos cabelos começaram a surgir. Resultados que levaram um dos coordenadores do estudo, Colin Jahoda, da Universidade de Durham, a afirmar à BBC que a calvície “será eventualmente inteiramente tratável”» («Cientistas garantem que ‘fim’ das carecas está próximo», P. S. T., Diário de Notícias, 22.10.2013, p. 26).
      Duplamente errado. Porque, no contexto («Yeah I think it [baldness] will eventually be treatable, absolutely.»), eventually não se traduz por «eventualmente» e porque dois advérbios em -mente assim seguidos é de uma grande inépcia.
[Texto 3417]
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O defunto verbo «pôr»

Não apenas os jornalistas

      «Segundo o médico Filipe Gomes, o novo protocolo compreende uma cláusula que “coloca em causa a autonomia pedagógica da direção do MIM [Mestrado Integrado em Medicina da Universidade do Algarve], de forma inaceitável”» («Demissão ameaça curso de Medicina», Diário de Notícias, 22.10.2013, p. 21).
[Texto 3416]
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Ortografia: «multiúso»

Pelo menos isso

      «A Nave da Estufa Fria [construída na década de 1950 e com 800 metros quadrados, da autoria do Eng. Edgar Cardoso], espaço que sofreu uma remodelação, é hoje inaugurada pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa. Este espaço é agora um multiúsos disponível para a realização de qualquer evento» («Nave da Estufa Fria passa a ser um multiúsos», Diário de Notícias, 21.10.2013, p. 21).
      É uma barbaridade, bem o sabemos, mas pelo menos agora já lhe põem o necessário acento agudo.

[Texto 3415]
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«Recriar/recrear»

Da pressa, hem?

      «Sob um céu cinzento, os soldados avançam em linha enquanto decorrem escaramuças de cavalaria e se ouvem disparos de artilharia. Foram cerca de seis mil figurantes a recrearem no fim de semana, nos arredores de Leipzig, o confronto que ditou o fim da influência de Napoleão na Europa: a Batalha das Nações, que opôs 185 mil franceses a 320 mil alemães, russos, austríacos e suecos entre 16 e 20 de outubro de 1813» («Alemanha. 200 anos da Batalha das Nações», Diário de Notícias, 21.10.2013, p. 8).
      Quando têm de escrever «recrear», escrevem «recriar». Eles dirão que é da pressa; alguns até me perguntam, estocada final, se já trabalhei num jornal.
[Texto 3414]
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Léxico: «contraplano»

Pouco cinéfilo

      «A estranheza inicial das duas personagens dilui-se rapidamente na extraordinária beleza com que são filmadas. E não falo apenas das técnicas cinematográficas que regulam a luz, que ditam as horas para obter as melhores filmagens ou que revelam os planos e os contraplanos adequados à emoção de cada momento» (Coisas da Vida, Laurinda Alves. Alfragide: Oficina do Livro, 2009, 2.ª ed., pp. 122-24).
      Tive de ser eu a propor «contrapicado» ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, e agora é este «contraplano». Ou seja, tenho de fazer tudo.
[Texto 3413]
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«Mezanino/sobreloja»

Duas perguntas

      «A partir de uma escola com a tipologia típica da arquitectura do Estado Novo, a equipa de Fernando Maia Pinto apostou no máximo aproveitamento do espaço: o edifício principal foi desmultiplicado em três pisos, que acolhem um arquivo na cave, um auditório e sala de exposições no piso térreo, e um mezanino também para exposições» («Mário Cláudio, um vizinho em Paredes de Coura», Sérgio C. Andrade, Público, 20.10.2013, p. 39).
      Pior ainda é quando os autores querem deixar, à viva força e a despropósito, o termo em italiano, mezzanino. E agora uma pergunta: «sobreloja» não é exactamente o mesmo? E porque é que os dicionários, tão lestos noutros casos, não fazem aqui uma remissão?
[Texto 3412]
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Clássicos

O português que não se usa

      «O português sem gramática que se usa na televisão e nos jornais desceu à “língua de pau”. A “língua de pau” costumava ser um exclusivo do Partido Comunista, agora é a língua quase oficial da política, uma pasta mastigada e remastigada, que não exprime nada e não convence ninguém. [...] Do século XVI para a frente não faltava um único autor dos que mudaram e moldaram o português que hoje se usa ou, mais precisamente, não se usa. Para medir bem a nossa pobreza literária os “clássicos Sá da Costa” foram um instrumento único» («Os clássicos Sá da Costa», Vasco Pulido Valente, Público, 18.10.2013, p. 52).

[Texto 3411]
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Ardeatinas

Depende de quem o diz

      Na pequena cidade de Albano Laziale, a 30 quilómetros de Roma, milhares de pessoas impediram que o ex-comandante nazi Erich Priebke fosse ali enterrado. «Priebke», disseram no Telejornal de ontem, «foi extraditado para Itália, condenado em 1998 a prisão perpétua pelo massacre das grutas Ardeatinas.» Ora dizem que são fossas, ora grutas, ora cavernas... É tudo o mesmo, querem ver? Bem, em italiano sabemos como é: fosse Ardeatine.
[Texto 3410]
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«Gramática do Português»

Com 16 mil exemplos

      Acabam de me chamar a atenção para uma notícia do Diário Digital: é publicada hoje a Gramática do Português, «resultado de 13 anos de trabalho coordenado pelo Centro de Linguística da Universidade de Lisboa», com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. «“É uma gramática descritiva e explicativa acessível que responde a dúvidas que não são esclarecidas nas atuais gramáticas”, afirmou a investigadora Maria Bacelar do Nascimento, num encontro esta semana com jornalistas. A obra, que faz a ponte “entre a tradição gramatical” dos séculos XIX e XX e “os resultados da investigação linguística contemporânea”, destina-se “a um público com nível de instrução acima da média”, mas com explicações “tão simples quanto possível”.»
[Texto 3409]
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«Cartola», uma acepção

A propósito de futebol

      «A presidente da República, Dilma Rousseff, sancionou a Medida Provisória 620, que inclui alterações na Lei Pelé e fixa, entre outros, a limitação dos mandatos e reeleições de dirigentes de entidades esportivas, a exigência de transparência financeira e administrativa e a participação de atletas e ex-atletas em conselhos e órgãos técnicos das instituições» («Dilma aprova lei contra a reeleição dos cartolas», F. S. P., Agora, 17.10.2013, p. B8).
      Para nós, coloquialmente, cartolas eram os indivíduos importantes. No Brasil, cartola é termo popular e pejorativo para designar os dirigentes de clubes desportivos.
[Texto 3408]
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«Rádio de palavra»

Talvez seja melhor de música

      «Entre as rádios de palavra, a Antena 1, do Estado, e a TSF, da Controlinveste (grupo a que pertence o DN), mantiveram as suas posições relativas e comportamentos semelhantes, ambas subindo em relação ao período homólogo (+1,1 pontos percentuais) e caindo na comparação com vaga anterior (-0,3 pp, a TSF, e -0,4, a Antena 1)» («Comercial reforça liderança e TSF cresce no verão», N. A., Diário de Notícias, 16.10.2013, p. 51).
      Rádios de palavra, pois é — só é pena que na maioria do tempo sejam palavras sobre o futebol, essa doença nacional.
[Texto 3407]
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Preferem «tournée»

Mais artístico talvez

      «Aos 66 anos, Elton dividiu seu tempo nos últimos meses entre a turnê de comemoração dos 40 anos de seu maior hit, “Rocket Man”, a recuperação de uma extração de apêndice, os cuidados com os filhos que ele e seu companheiro adotaram e a gravação deste “The Diving Board”» («Elton John grava canções desleixadas em álbum que não faz justiça a seu talento», Thales de Menezes, Folha de S. Paulo, 16.10.2013, p. E5).
      Este aportuguesamento — turné, aliás — ainda não entrou nos nossos hábitos. Ainda achamos (acham os jornalistas) que tournée diz mais. É mais artístico.
[Texto 3406]
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«Amicus curiae»

Conhecíamos os da onça

      «O Procure Saber [grupo composto por Roberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, entre outros] deve entrar no processo como “amicus curiae” (parte interessada). O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e a ONG Artigo 19 já atuam na ação por meio do mesmo dispositivo» («Direito à privacidade divide advogados», Juliana Gragnani, Folha de S. Paulo, 16.10.2013, p. E3).
      No glossário jurídico do sítio do Supremo Tribunal Federal (STF), lá está a definição: «Intervenção assistencial em processos de controle de constitucionalidade por parte de entidades que tenham representatividade adequada para se manifestar nos autos sobre questão de direito pertinente à controvérsia constitucional. Não são partes dos processos; atuam apenas como interessados na causa. Plural: Amici curiae (amigos da Corte).»
[Texto 3405]
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Léxico: «civilizatório»

Só no Brasil

      «“As editoras já não aceitam biografias não autorizadas. A Alice Ruiz [viúva de Leminski] pediu alterações, inclusive na parte que fala sobre o problema dele com o alcoolismo. Isso transformaria o livro em chapa-branca. Decidi disponibilizar na internet como contribuição civilizatória” [disse o escritor Domingos Pellegrini]» («Livro sobre Leminski será enviado por e-mail», Wilhan Santin, Folha de S. Paulo, 16.10.2013, p. E3).
      Hum, os nossos dicionários não conhecem o vocábulo «civilizatório». Regista-o o Aulete: «Que tem atuação positiva no processo de civilização».
[Texto 3404]
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«Estrato social»

Absolutamente lamentável

      «Para além da violência, índios e exotismos, mostra latino-americana exibe fotógrafos que exploram temas de seu próprio extrato social» («Autorretrato da classe média», Daigo Oliva, Folha de S. Paulo, 16.10.2013, p. E1).
      Se pensavam que estas pérolas do jornalismo só as encontrávamos em Portugal, estavam enganados. Numa das vezes que tratei desta questão no Assim Mesmo, escrevi: «A sociedade tem, como sabemos, camadas, como os terrenos sedimentares e os bolos de noiva. Camadas — estratos. Isso mesmo, leitor arguto: diz-se estrato social e não — oh horror! — extracto social.» Como não está no corpo da notícia, não há-de ser erro do jornalista Daigo Oliva, mas, como este é editor, recai sobre ele a responsabilidade.

[Texto 3403]
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E porquê esquistossomose?

Não se percebe

      «Em uma cirurgia inédita na literatura médica brasileira, o setor de ginecologia do Hospital das Clínicas de São Paulo removeu um cisto de ovário de 16 litros por um corte de 1,2 cm no umbigo. [...] “O clínico-geral disse que era “barriga d’água [esquistossomose]. Como o meu exame de Papanicolaou sempre dava negativo, disseram que eu nem precisava passar com o ginecologista”, diz Maria» («Cisto gigante é retirado pelo umbigo de paciente no HC», Cláudia Collucci, Folha de S. Paulo, 16.10.2013, p. C9).
      Barriga-d’água é o mesmo que ascite — designação dada em medicina à acumulação de líquido na cavidade abdominal. Pretendeu a jornalista Cláudia Collucci usar um termo técnico para explicar do que se trata? A esquistossomose é outra doença, também chamada bilharziose, causada por um parasita, a bilhárzia. Precisamos aqui de um médico.
[Texto 3402]
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«Vocativo»?

Essa agora

      «As [ex-misses] acusadas de ligação com o narcotráfico – ou com chefes do negócio, apelidados ironicamente de “executivos de alto risco” – já têm alcunha usada em outros países, como Colômbia e México: narcomisses ou narcomodelos. Adaptado ao caso venezuelano, é usado o termo “narcomami”, que incorpora o vocativo local “mami”» («Ex-misses enfrentam problemas com a Justiça em diversos Estados venezuelanos», Folha de S. Paulo, 16.10.2013, p. A16).
[Texto 3401]
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Léxico: «aerofotogrametria»

Acrescentem este

      «O piloto alemão da Segunda Guerra Mundial Martin Drewes, que vivia no Brasil desde 1949, morreu no domingo em Blumenau, Santa Catarina, aos 94 anos. [...] Com esse trabalho de aerofotogrametria, ajudou a construir Brasília» («Morre em SC piloto alemão que serviu ao nazismo», Folha de S. Paulo, 16.10.2013, p. A15).
      Sim, é o método de obtenção de dados cartográficos ou topográficos por meio de fotografias aéreas, mas não está nos principais dicionários. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o mais próximo que regista é «aerofotografia».
[Texto 3400]
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Léxico: «palangreiro»

E por isso

      «A Sociedade de Pesca do Arade deverá agilizar, nas próximas horas, a trasladação do corpo do pescador marroquino morto à facada por outro tripulante a bordo do palangreiro Príncipe das Marés, a 800 quilómetros da costa de Cabo Verde, crime que começará agora a ser investigado pelas autoridades daquele país africano» («Cabo Verde investiga morte em barco português», Paulo Julião, Diário de Notícias, 16.10.2013, p. 23).
      Vimo-lo no Assim Mesmo, há mais de dois anos. Continua ausente de quase todos os dicionários. Sem pena nossa. É, também já o sabemos, alienígena. Castelhano.
[Texto 3399]
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«Apelar para»

Assim é

      «Apelei para tôdas as minhas fôrças e tirei, de longe, para mim só, a máscara que cobria o seu rosto fechado, para ver se conseguia fazê-la cair durante um segundo» (Amok (O Doido da Malásia), Stefan Zweig. Tradução de Alice Ogando. Porto: Livraria Civilização, s/d, 4.ª ed., p. 64).
[Texto 3398]
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«Enfarte, enfarto, infarto»...

Ficamos doentes

      «Oscar Hijuelos, que morreu no último sábado ao sofrer um infarto enquanto jogava tênis em Manhattan, crava seu lugar na literatura como um autor que soube tratar temas difíceis com leveza» («Obra densa, mas divertida é o legado de Oscar Hijuelos», Thales de Menezes, Folha de S. Paulo, 15.10.2013, p. E4).
      Em Portugal, em relação a esta supina questão nunca nos atrapalhamos: é sempre «enfarte» que usamos. No Brasil, andam embrulhados com três variantes, enfarte, enfarto e infarto. Variantes é como quem diz: para alguns estudiosos brasileiros, só uma delas mata (não sei agora qual). Para outros, as formas «enfarte» e «enfarto» são populares, e «infarto» provavelmente adaptação do inglês infarct. Para outros ainda... Ah, chega.
[Texto 3397]
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Léxico: «força-tarefa»

Destacamento especial

      «O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), anunciou ontem a criação de uma força-tarefa para investigar ações da facção criminosa PCC e o envolvimento de policiais civis e militares com a quadrilha» («Alckmin anuncia força-tarefa para investigar facção criminosa», Folha de S. Paulo, 15.10.2013, p. C6).
      Em Portugal, para que todos pudessem compreender — tinha de estar inteiramente em inglês, task force.
[Texto 3396]
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Léxico: «retrato falado»

Mas é expressivo

      «A Scotland Yard, polícia metropolitana de Londres, divulgou ontem à noite duas imagens do retrato falado de um suspeito de ligação com o sumiço da menina britânica Madeleine McCann» («Retrato falado de suspeito no caso Madeleine é divulgado em Londres», Folha de S. Paulo, 15.10.2013, p. A16).
      Já tínhamos visto, no léxico contrastivo do Assim Mesmo, este «retrato falado», que nós significamos através do termo «retrato-robô» (e depois não sabemos fazer o plural...). O meu Galaxy S4 também faz retratos falados.
[Texto 3395]
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Léxico: «pistolagem»

Lá para Pernambuco

      «Um promotor de Justiça foi morto após ser [sic] alvo de atentado na manhã de ontem no interior de Pernambuco. [...] Itaíba é conhecida por crimes de pistolagem» («Promotor é assassinado no interior de Pernambuco», Daniel Carvalho, Folha de S. Paulo, 15.10.2013, p. A10).
      Pistolagem, registam os dicionários publicados no Brasil, é o assassínio encomendado. Em Portugal, também temos muita bandidagem, mas não usamos nem conhecemos o termo «pistolagem». Curioso: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem «bandidagem» regista.
[Texto 3394]
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Sobre «tuitar»

Quase certo

      «“Hoje revi, no @canalarte1, o filme de Luchino Visconti ‘Rocco e seus irmãos’. O cinema italiano produziu obras-primas. Valeu a pena rever”, tuitou no domingo. O porta-voz da Presidência, Thomas Traumann, disse que todos os tuítes publicados na conta oficial são de Dilma» («Presidente tuíta até durante entrevista ao vivo a rádios», Tai Nalon, Folha de S. Paulo, 15.10.2013, p. A5).
      Apesar de até já estar dicionarizado, nem sempre os autores (ou nas editoras) aceitam este aportuguesamento, mais do que natural, legítimo e compreensível. Está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que, todavia, não regista o substantivo. Só que, cara Tai Nalon, nem no substantivo nem no verbo, incluindo as formas conjugadas, é necessário o acento no i.
[Texto 3393]
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«Bangaló»

E fez bem

      No Amok, Alice Ogando usou bungalow; Cabral do Nascimento usou o termo aportuguesado: «Ainda há dez anos era pouco frequentado, depois da debandada da clientela inglesa, mas há pouco tempo tornou-se ponto de reunião de banhistas ilustres e elegantes, e já o rodeiam inúmeros bangalós» (Terna É a Noite, F. Scott Fitzgerald. Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Portugália Editora, 1966, 2.ª ed., p. 9)

[Texto 3392]
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Léxico: «goticismo»

Qualidade de gótico

      Acabei de ver, creio que pela segunda vez na vida, a palavra «goticismo». Não está em muitos dicionários; não está, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. E, no entanto, encontramo-la nas notas finais de Alexandre Herculano a Eurico, o Presbítero: «O goticismo espanhol, ao primeiro aspecto, parece mover-se.»
[Texto 3391]
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Feminino de «xeque»

Temos medo

      «Segundo o New York Times, tudo terá começado com uma visita da xeque Al Mayassa Hamad bin al-Thani, de 30 anos, presidente da Autoridade dos Museus do Qatar e irmã do novo emir, ao estúdio de Damien Hirst em 2009» («Damien Hirst dá à luz novos trabalhos no Qatar», Vítor Belanciano, Público, 15.10.2013, p. 33).
      Pois, é isso que se diz, que a forma masculina «xeque» pode «ser utilizada no feminino com adaptação do artigo ou pronome que acompanha a forma feminina». A imprensa internacional, e mesmo, ocasionalmente, a portuguesa, uso o termo «sheikha», o que, aportuguesado, seria «xeica». Mas não se usa. Ou não usamos nós, pois no Brasil não têm problemas em aportuguesá-lo desta forma.
[Texto 3390]
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Sobre «bife»

Sem ofensa

      «Ninguém diz aos jornalistas, claro está, exercita-se o stiff upper lip, o “lábio superior inteiriçado” tão característico dos britânicos (linda metáfora, esta, para o hábito que os “bifes” têm de não deixar transparecer as emoções — em Portugal isto dava uma bela peixeirada)» («O Nobel da Injustiça», João Magueijo, Público, 15.10.2013, p. 31).
      Não precisa das aspas, caro João Magueijo, mesmo que, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, se leia que é termo «antiquado». Ou não quer melindrar os seus anfitriões?
[Texto 3389]
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«Tal se»

O nosso poeta

      «Quando falava, era pelo canto da boca, tal se esperasse que as palavras chegassem à senhora Mckisco por um circuito mais desimpedido e rápido» (Terna É a Noite, F. Scott Fitzgerald. Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Portugália Editora, 1966, 2.ª ed., p. 18).
      Cabral do Nascimento gosta — já o comprovei em várias traduções — desta construção: tal se...

[Texto 3388]
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Parece mentira: «Oxónia»

Depois de Lípsia...

      «— Escute… há tubarões fora da jangada. — Era de nacionalidade indefinida, mas falava inglês com o acento vagaroso e arrastado de Oxónia. — Ontem devoraram dois marinheiros ingleses, da esquadra do Golfo Juan» (Terna É a Noite, F. Scott Fitzgerald. Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Portugália Editora, 1966, 2.ª ed., p. 12).
[Texto 3387]
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Ortografia: «coeducação»

E já há muito

      «Uma poderosa campanha televisiva – Estão a matar o Colégio Militar! – relançou o tema da co-educação ou, pelo contrário, das escolas separadas por sexo» («A co-educação em questão», Maria Emília Brederode Santos, Público, 14.10.2013, p. 46).
      Há, continua a haver, certa ambiguidade e falta de sistematização das regras sobre esta matéria do uso do hífen, mas creio que em relação a «coeducação» não há dúvidas: é assim que se escreve. Cá está na página 265 do Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. A ortografia não é tudo, decerto, mas pelo menos eu esperava que uma pessoa que pertence ao Conselho Nacional de Educação, condecorada com a Ordem da Instrução Pública, escrevesse correctamente «coeducação».
[Texto 3386]
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«Chapa-branca»

É oficial

      «Para o escritor [Ruy Castro], “esta situação ameaça transformar o Brasil no paraíso da biografia “chapa-branca”, aquela que só é publicada mediante autorização prévia do próprio biografado ou dos seus familiares e representantes legais”» («Escritor Ruy Castro explicou em Frankfurt por que não quer que o Brasil seja o país da biografia “chapa-branca”», Isabel Coutinho, Público, 14.10.2013, p. 29).
      É o relativo ao governo ou a órgãos oficiais. Por extensão de sentido, «oficial». Deriva, parece, do uso de chapas de cor branca, reservadas no Brasil para as autoridades governamentais.
[Texto 3385]
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Lei Mosaica

Quem é judeu

      «A questão extravasa, na realidade, o âmbito científico, porque mexe com a própria identidade judaica. Acontece que, segundo a lei rabínica de Israel – ou Lei Mosaica –, é judeu (mesmo que pratique outra religião e mesmo que não o saiba) quem tem uma mãe judia» («Raízes maternas dos judeus da Europa Central são europeias, conclui estudo», Ana Gerschenfeld, Público, 14.10.2013, p. 27).
      Disso mesmo, numa nota marginal, lembrei ainda na passada semana um autor, que escrevia que certa personagem, cuja mãe era judia, era «meio judeu».
[Texto 3384]
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«Retratos-robôs»

Não devia

      «A Scotland Yard tem dois retratos-robôs de um homem que considera prioritário identificar no âmbito da investigação ao desaparecimento de Madeleine McCann» («Polícia britânica com nova versão sobre o caso Maddie», Público, 14.10.2013, p. 7).
      É curioso — sem deixar de ser preocupante — ver que o Vocabulário Ortográfico Português não regista este plural, apenas «retratos-robô», na verdade mais usado.
[Texto 3383]
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«Pé», unidade

Que nós não temos tempo

      «Tudo recolhido, é preciso encher um contentor com o material. Um contentor com 40 pés, que transporta 32 toneladas, custa cerca de 3000 euros para chegar à Guiné-Bissau» («Cartazes das autárquicas com bilhete para a Guiné em formato solidário», Sara Dias Oliveira, Público, 14.10.2013, p. 12).
      Para os agentes de navegação, é coisa de todos os dias, não para o leitor comum do Público. O é uma unidade de comprimento do sistema inglês e americano equivalente a 30,480 cm. É fazer contas, como dizia o outro.
[Texto 3382]
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Tradução: «jumper suit»

Desaparecido

      «Dick trazia vestido um fato-macaco azul; as letras cosidas nas costas diziam BOB SAND» (A Sangue Frio, Truman Capote. Tradução de Maria Isabel Braga. Lisboa: Livros do Brasil, s/d (1978?), p. 33). E, no original, lê-se isto: «Dick was wearing a blue jumper suit; lettering stitched across the back of it advertised Bob Sands’ Body Shop.» Pelo menos no Dicionário Inglês-Português da Porto Editora, «jumper suit» não consta. Ah, sim o original diz mais do que a tradução...
[Texto 3381]
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Os que nos precederam

Esses são os clássicos

      «Ambos acreditavam», lê-se numa magnífica biografia que está agora no prelo, «que a genialidade só pode ser alcançada através do estudo daqueles que os precederam.»
[Texto 3380]
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Tradução: «Lord Chancellor»

Sendo assim

      Lord Chancellor: para o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora, é «o mais alto cargo da magistratura judicial inglesa». O problema, já o tenho escrito em relação a outros verbetes deste dicionário, é que isto não é um equivalente. Devemos então traduzir por «presidente da Câmara dos Lordes», «Lorde Chanceler» ou, como já tenho lido, «ministro da Justiça»? Claro que, ao usarmos alguma das duas primeiras, o leitor não saberá que o titular deste cargo é simultaneamente a mais alta autoridade judiciária no Reino Unido. É não, era: houve em 2007 uma alteração legislativa.
[Texto 3379]
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Ortografia: «haltere»

Assim pesam menos

      «Sentado, parecia um homem de estatura acima do normal, forte, dotado de uns ombros, de uns braços, de um tronco maciço e desenvolvido de campeão de pesos e alteres — este desporto era, na verdade, a sua paixão» (A Sangue Frio, Truman Capote. Tradução de Maria Isabel Braga. Lisboa: Livros do Brasil, s/d (1978?), p. 25).
      É muito raro ver a palavra bem escrita: ou lhe falta, como é o caso, o h, ou, sobretudo se está no singular, o e final. Como se pode falhar em coisas tão simples? Como, Maria Isabel Braga?

[Texto 3378]
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«Voluptuário/sumptuário»

Vamos recorrer

      «As juízas do Tribunal da Relação que analisaram o caso invocam os elevados montantes despendidos em “gastos totalmente voluptuários e despropositados (perfumes, charutos, aluguer de Porches [sic], refeições e vinhos de preços escandalosos)” para concluírem que, mesmo que tivessem sido devidamente autorizadas, essas autorizações “ofenderiam os bons costumes enquanto valoração do social e moralmente aceitável, tendo em conta a gravidade dos factos”» («Gastos “voluptuários” do maestro Graça Moura não foram desculpados», Ana Henriques, Público, 11.10.2013, p. 6).
      Voluptuário é o relativo à voluptuosidade, ao prazer — mas há prazeres gratuitos. Em iguais circunstâncias, costuma falar-se em gastos sumptuários, isto é, em que há grande luxo.
[Texto 3377]
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Tradução: «Indian summer», de novo

Estamos quase na época

      «Finalmente, decorrido o mês de Setembro, o tempo muda e surge um Verão de S. Martinho que por vezes se prolonga até ao Natal» (A Sangue Frio, Truman Capote. Tradução de Maria Isabel Braga. Lisboa: Livros do Brasil, s/d (1978?), p. 20).
      E no original? «At last, after September, another weather arrives, an Indian summer that occasionally endures until Christmas.» Já nos tínhamos ocupado desta questão aqui no Linguagista porque — lembram-se? — alguém traduziu por «Verão índio»…
[Texto 3376]
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O Sr. Clutter e todos os Clutters

Nem todos ignoram

      O Sr. Clutter, a Sra. Clutter, os filhos... «A família Rupp era católica e os Clutters metodistas, facto este que bastaria para tirar aos dois jovens quaisquer ilusões quanto a um futuro casamento» (A Sangue Frio, Truman Capote. Tradução de Maria Isabel Braga. Lisboa: Livros do Brasil, s/d (1978?), p. 18).

[Texto 3375]
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Tradução: «whipcord»

Precisamos de um alfaiate

      «No entanto, enquanto se barbeava, tomava chuveiro e envergava as calças de veludo canelado, o casaco de cabedal fino de vaqueiro e as botas guarnecidas de esporas sem roseta; não receava acordá-la porque dormiam separados» (A Sangue Frio, Truman Capote. Tradução de Maria Isabel Braga. Lisboa: Livros do Brasil, s/d (1978?), p. 18).
      Ora, no original, lê-se o seguinte: «However, while Mr. Clutter was shaving, showering, and outfitting himself in whipcord trousers, a cattleman’s leather jacket, and soft stirrup boots, he had no fear of disturbing her; they did not share the same bedroom.»
[Texto 3374]
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«Comissão fabriqueira»

Se fosse

      «Era, no entanto, o cidadão mais conhecido e importante, tanto na sua terra, como em Garden City, a sede do condado vizinho onde fora chefe da Comissão Construtora da Primeira Igreja Metodista, edifício que custara oitocentos mil dólares» (A Sangue Frio, Truman Capote. Tradução de Maria Isabel Braga. Lisboa: Livros do Brasil, s/d (1978?), p. 16).
      No original, lê-se o seguinte: «He was, however, the community’s most widely known citizen, prominent both there and in Garden City, the close-by county seat, where he hardheaded the building committee for the newly completed First Methodist Church, an eight-hundred-thousand-dollar edifice.» Não há aqui, ao que me parece, nenhum erro de tradução, queria apenas lembrar que se fosse cá e se dissesse respeito a uma igreja católica, lhe daríamos o nome de comissão fabriqueira, curiosa designação legal usada desde 1926.
[Texto 3373]
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Extremo Oeste e Médio Oeste

De Middle West não escaparíamos

      Já que andamos um pouco engalfinhados por causa da maviosa Lípsia, aqui fica: «Perto de setenta milhas a leste da fronteira do Colorado, com um céu azul intense e um ar transparente, de deserto, possui uma atmosfera que lembra mais o Extremo Oeste do que o Médio Oeste» (A Sangue Frio, Truman Capote. Tradução de Maria Isabel Braga. Lisboa: Livros do Brasil, s/d (1978?), p. 13).
      No original lê-se, lembro, o seguinte: «Some seventy miles east of the Colorado border, the countryside, with its hard blue skies and desert-clear air, has an atmosphere that is rather more Far West than Middle West.» Palpita-me que hoje em dia não se traduziria da mesma maneira.
[Texto 3372]
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«Shutdown», de novo

Em Angola sabem

      «“Façam a votação. Parem com esta farsa e acabem com a “paralisação” (shutdown em inglês) agora”, disse o Presidente aos representantes republicanos no seu programa semanal de rádio» («Obama aumenta pressão sobre os republicanos», Jornal de Angola, 9.10.2013, p. 10).
[Texto 3371]
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Ortografia: «auto-emprego»

Não pode ser

      «A associação “Dar Vida à Vida” é uma organização filantrópica, cujo objectivo principal é combater o desemprego da juventude e promover o auto emprego, mediante a concessão de microcrédito» («Jovens e ex-militares recebem microcrédito», Valentim Cavindi, Jornal de Angola, 10.10.2013, p. 38).
      Caro Valentim Cavindi, deixa assim à solta, sem mais, um elemento de formação de palavras? Veja lá ele não caia ou desapareça. Auto-emprego como «auto-educação» ou «auto-escada». E claro que o nome da associação não precisa das aspas para nada.
[Texto 3370]
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Ortografia: «Cuíto»

Está quase

      «No quadro do programa do Governo de construção de mais infra-estruturas escolares, oito salas estão a ser acrescidas na Escola de Formação de Professores (Marista São José) no Cuito, província do Bié» («Cidade do Cuito com mais salas», Jornal de Angola, 10.10.2013, p. 39).
      Ah, mas até nos jornais angolanos escrevem este topónimo com c, e não com k. (Vejam aqui.) Só falta o acento.
[Texto 3369]
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«Situação», uma acepção

As aspas são mesmo uma doença

      «A segunda fase (1945-1961), que se caracteriza por um táctico abrandamento do regime e pela admissão de algum pluralismo limitado, em que a Assembleia Nacional passa a ser presidida por um dos mais “liberais” líderes políticos da situação, que na tradição republicana de que era oriundo mantinha uma postura de franco apoio e empenho, mas sem subserviência» (Os Deputados da Assembleia Nacional 1935-1974, J. M. Tavares Castilho. Lisboa: Texto Editores, 2009, p. 141).
      O autor — não este, outro — quer forçosamente aspas em «situação», na mesma acepção. Porque o pobre leitor pode julgar que é literalmente o acto ou efeito de situar. Isto é que é confiança na inteligência do leitor.
[Texto 3368]
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«Salto», uma acepção

As aspas são uma doença

      «Naquela época, dar o salto para França era uma empreitada dura, arriscada. Construíra casa na aldeia, mais para mostrar aos vizinhos que fizera fortuna, já não era um jornaleiro pobretão» (O Rei do Volfrâmio, Miguel Miranda. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, pp. 18-19).
      O autor — não este, outro — quer forçosamente aspas em «salto», na mesma acepção. Porque o pobre leitor pode julgar que é literalmente o acto ou efeito de saltar. Isto é que é confiança na inteligência do leitor.
[Texto 3367]
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Léxico: «imunoprevenível»

Avancemos para Angola

      Tenho de ler mais vezes o Jornal de Angola. Ao menos diversifico os erros e os acertos que leio, e o segredo da vida é esse mesmo, a diversidade. E quero ter leitores em Angola, naturalmente. «A febre tifóide, que consta das doenças consideradas epidémicas e imunopreveníveis, causou um óbito, de um total de 2.147 casos registados» («Sarampo provoca mortes», Delfina Victorino, Jornal de Angola, 9.10.2013, p. 38).
      Imunoprevenível significa que é doença que pode ser prevenida com a vacinação. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nunca se avistou com ela. Nem eu, até agora.
[Texto 3366]
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Léxico: «matamba»

Resolvido

      «A esposa, a dona de casa é, regra geral, a cozinheira da família. O fungi, preparado à base de farinha de bombó ou milho, constitui a principal dieta alimentar, que é normalmente acompanhado de carne, peixe, matamba (quizaca), mulembwe (quiabo), temperado com ginguba, semente moída de abóbora ou de girassol» («Lumege Cameia transformada em vila moderna», Adão Diogo, Jornal de Angola, 9.10.2013, p. 39).
      Não sei, pareceu-me mal que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registasse «quizaca» e não acolhesse «matamba». Às 9h16 sugeri a inclusão do vocábulo e agora já lá está, para alegria dos Angolanos.
[Texto 3365]
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Léxico: «chana»

Isso não é cá

      «O município [de Cameia], tido no passado por celeiro da província, devido às elevadas cifras de produção de arroz, possui chanas em abundância, 25 rios e quatro lagoas, que impulsionam a agricultura e a pesca artesanal» («Lumege Cameia transformada em vila moderna», Adão Diogo, Jornal de Angola, 9.10.2013, p. 39).
      É o nome que se dá em Angola às grandes planícies desprovidas de arvoredo e alagadas na época das chuvas.
[Texto 3364]
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«Uma carta adonde»!

Exigem pluralismo

      Armindo Miranda, da Comissão Política do PCP, entrevistado à porta dos Estúdios da Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos, enquanto o primeiro-ministro respondia «ao País»: «Vamos entregar uma carta adonde damos a opinião do Partido Comunista Português que não compete ao director de Informação da RTP decidir quem devem ser os próprios governantes do nosso país, os próximos governantes.»

[Texto 3363]
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«Por mãos alheiras»!

Aqui mesmo

      Não têm fim os acertos e os desacertos a que podemos assistir na nossa vida. Depois da «faca de dois legumes» de Jaime Pacheco e do «pau de dois gumes» de Nuno Azinheira, eis outro disparate de nos fazer chorar. Ontem, numa reportagem, entrevistavam jovens que estão a aprender a lutar contra o êxodo rural. Em Rio Maior, encontraram Luís, um jovem que está a concluir o mestrado em Psicologia. «Pelo caminho», afirma o repórter, «reinventou o negócio de família.» Demos a palavra ao jovem: «Não quisemos deixar ficar as tradições por mãos alheiras ou quisemos pegar naquilo que nós nos orgulhávamos muito.»
[Texto 3362]
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«Quando mais não fosse»

No país da Alice

      «– Não lhe parece então condenável e odioso que uma mulher abandone o marido e dois filhos, para seguir um indivíduo qualquer, sem tão-pouco saber ainda se é digno do seu amor? Pode realmente desculpar um comportamento tão leviano e impensado numa mulher que já não é criança e que devia ter aprendido a respeitar-se, quando mais não fosse, em atenção aos filhos?» (Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher, Stefan Zweig. Tradução de Alice Ogando. Lisboa: Publicações Europa-América, 1972, p. 62).
[Texto 3361]
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Iocoama

Porque não é

      «O seu pai estava à frente de uma clínica dentária em Iocoama. Era um homem muito bonito, cujo nariz particularmente bem feito fazia lembrar Gregory Peck em A Casa Encantada» (Sputnik, Meu Amor, Haruki Murakami. Tradução de Maria João Lourenço. Alfragide: Casa das Letras, 2010, 9.ª ed., p. 16).
      Parece pois que, no caso, também ninguém ­— tradutora, revisor (Ayala Monteiro) ou editor — achou ridículo. Porque não é.
[Texto 3360]
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Lípsia

Dizem que é ridículo

      «Fiz os meus estudos na Alemanha, formei-me em medicina. Tornei-me até um bom médico, ocupando um lugar nas clínicas de Lípsia e, nessa época, não sei que número do Medizinische Blaetter fêz um grande barulho à volta de uma nova injecção que fui o primeiro a pôr em prática» (Amok (O Doido da Malásia), Stefan Zweig. Tradução de Alice Ogando. Porto: Livraria Civilização, s/d, 4.ª ed., p. 27).
      Agora dizem que é ridículo. Mas lá está ainda no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora lipsiense: «relativo à cidade alemã de Lípsia (Leipzig) no estado da Saxónia (Sachsen)».

[Texto 3359]
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«Avante, Camarada»

Agora é assim

      «É uma espécie de “Avante, camarada”: um mero emblema. A meio da conversa, na conferência de imprensa que fechou o Congresso, Cunhal saiu-se de repente com uma extraordinária observação» (Retratos e Auto-Retratos, Vasco Pulido Valente. Lisboa: Assírio & Alvim, 1992, p. 122).
      Como sucede com o título Tanta Gente, Mariana, também neste caso omitem agora a vírgula antes do vocativo. Isso mesmo, tudo raso. Acabei de o comprovar.

[Texto 3358]
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Tradução: «tussor»

Gosto e proveito

      «Através da camisa de tussor, olhei o sítio onde espetara o alfinete: curiosidade despojada de toda a paixão; recordei-me sem qualquer cólera do que Ana escrevera: “Apoio a minha mão no sítio onde lhe bate o coração... o que ele chama a última carícia permitida...”» (Teresa Desqueyroux, François Mauriac. Tradução de Nataniel Costa. Lisboa: Estúdios Cor, 1955, p. 84).
      O itálico indica bem que é um estrangeirismo, que o tradutor (e director da colecção) não quis ou não soube traduzir. (Está, efectivamente, a milhas da qualidade das traduções de Cabral do Nascimento, que lemos com outro gosto e proveito.) Agora vejam. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora está registado «tussor»: «Cabo Verde tecido fino, de seda natural». E na etimologia, «do francês tussor ou do inglês tussore, “idem”, do hindustâni tasar, “idem”». No entanto, no Dicionário de Francês-Português da mesma editora, sobre tussor lê-se: «(Índia) seda crua». Tudo isto merecia alguma harmonização.

[Texto 3357]
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«Havia semanas»

Nataniel sabia

      «Teresa, menos por cansaço do que para fugir àquelas palavras com que a aturdiam havia semanas, afrouxou em vão a marcha; impossível deixar de ouvir a voz de falsete do pai» (Teresa Desqueyroux, François Mauriac. Tradução de Nataniel Costa. Lisboa: Estúdios Cor, 1955, pp. 13-14).
[Texto 3356]
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Léxico: «dessolidarizar»

Podia estar

      O autor achou que tinha de inventar uma palavra: «prometeuniana». Apre. Mas, mudando de assunto, eis uma que falta em muitos dicionários: «Não posso dessolidarizar-me desses horrores, exactamente do mesmo modo que não posso dessolidarizar-me das minhas ideias. Perante a radical evidência do mal, a única salvação para o homem e para os homens aparece-me em Jesus [...]» (Deus, o Que É?, M. S. Lourenço. Lisboa: Morais Editora, 1968, p. 152).
[Texto 3355]
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Aportuguesamento: «fisális»

Não vale a pena

      «Se olharmos com curiosidade para a planta Physalis deparamo-nos com a existência daquilo que parecem ser pequenos invólucros em forma de lanterna que, na fase final do seu desenvolvimento, mais parecem embrulhos feitos com papel de arroz» («Physalis: o fruto que vem embrulhado!», Rosa Isabel Guilherme, «Fugas»/Público, 5.10.2013, p. 31).
      Pois, mas já está aportuguesado e dicionarizado, fisális, tanto a designação da planta como do fruto, a baga. Por isso, não se esforcem, deixem lá o latim.

[Texto 3354]
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Léxico: «cinzentismo»

Não falta por aí

      Uma professora universitária a escrever «sigílio»? Está isto lindo, está. Mas mudando de assunto: o grande poeta afirmou que não desejava «assumir a responsabilidade pelo cinzentismo («insipidness»?) de ninguém a não ser o meu próprio». O problema habitual: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista «cinzentismo»; em contrapartida, aparece no Dicionário Português-Inglês da mesma editora. Como este, centenas de outros erros, lacunas e incoerências.
[Texto 3353]
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Ortografia: «audioguia»

Não há tempo

      «A primeira explanação já conhecida parece ser uma sátira ao estilo convencional dos áudio-guias de museus, com frases como “está a observar um tipo de pintura chamada graffiti, do latim graffito, que significa graffiti com um O”» («Banksy invade as ruas de Nova Iorque», Vítor Belanciano, Público, 3.10.2013, p. 33).
      Está o jornalista ilibado da (aparente?) parvoíce, porque acabei de ler a transcrição em inglês: «“You’re looking at a type of picture called graffiti, from the Latin ‘graffito,’” the audio guide offers, “which means ‘graffiti,’ with an ‘o.’”» (aqui). Mas só pode ser audioguias, porque o elemento audi(o)- não se liga por hífen ao elemento seguinte. Claro que os jornalistas não têm tempo para pensar nestas minudências e investigar. Sobretudo não têm meios.
[Texto 3352]
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