Como se escreve por aí

O pior são os verbos


      «Ajudámos 23 alunos a tornar-se médicos», gaba-se — e faz bem, porque há-de ser verdade — a Alumni Medicina – Associação de Antigos Estudantes de Medicina da Universidade do Minho num anúncio no LinkedIn. Agora só espero é que esses médicos ou futuros médicos não sejam gratos a ponto de seguirem a gramática avariada do anúncio. «Ajudámos 23 alunos a tornarem-se médicos», assim devem escrever. Ora, de nada. Sede bons para com os pobres.

[Texto 23 297]

Como se escreve por aí

Conta-me histórias


      «A regra até já foi invocada após Miguel Almirón, jogador do Paraguai, ter colocado a mão á [sic] frente da boca enquanto falava com um jogador da Turquia no final da semana passada. O árbitro assistente de vídeo (VAR) interviu para apresentar o cartão vermelho» («Fotografia de Bellingham a tapar a boca em jogo do Mundial levanta dúvidas sobre nova regra da FIFA», Nascer do Sol, 26.06.2026, 12h58). 
       Não sabemos é o nome do artista, e por isso jamais poderemos dizer que o romance tal ou o livro de poesia tal é deste plumitivo que hoje, em 2026, não sabe nem quer saber como se conjuga o verbo «intervir». Já tenho apanhado obras assim, mas alguém replica que o autor «sabe contar uma história». É o que parece interessar.

[Texto 23 278]

Atractores da próclise

Ou como se escreve por aí


      «Se o nome de Emuna Mia era já conhecido – até porque foi exposta, em abril, numa reportagem da SIC –, a investigação da Polícia Judiciária revelou o eventual envolvimento dos médicos Pedro Barreira e João Vasco Barreira, gémeos, conhecidos nas redes sociais como ‘Twin Docs’, cujo envolvimento resume-se a nove casos» («Fraude nas reformas beneficiou 182 pessoas», Carlos Rodrigues Lima, Correio da Manhã, 2.07.2026, p. 12). 
      Se falta intuição, dada pelas leituras, se falta estudo, estamos muito mal. É patente que o jornalista nunca ouviu falar em atractores da próclise. Na frase, a presença do determinante relativo «cujo» atrai o pronome «se» para antes do verbo: «cujo envolvimento se resume a nove casos».

[Texto 23 231]

«Quer-la», de novo

Há sempre quem saiba


      «A chave do autocarro está no meu bolso. (Bate no bolso com fúria.) Aqui, aqui mesmo, no meu bolso! Quer-la? Experimenta tirá-la, meu gorducho!» (A Noite da Iguana, Tennessee Williams. Tradução de Idalina S. N. Pina Amaro. Colecção «Os livros das três abelhas». Lisboa: Publicações Europa-América, 1965, p. 79).

[Texto 23 230]

O desgraçado verbo «evacuar»

Por exemplo


      O correspondente do Linguagista na cidade do Porto teve de ir ao Hospital de Santo António. Numa sala de espera (ou seria de subespera, que os dicionaristas continuam a ignorar?), reparou que num aviso afixado numa parede com instruções em caso de incêndio usavam erradamente o verbo «evacuar». Lembrou-se de que o assunto já aqui foi tratado várias vezes — mas não as suficientes. Os responsáveis do hospital devem ter seguido os exemplos errados que a Porto Editora indica no respectivo verbete: «Evacuaram da frente os feridos./ Evacuaram-nos para a retaguarda.» Não se evacuam pessoas (embora os prepotentes, os arrogantes que nos querem comer, se o conseguissem, se deixássemos, tivessem de nos evacuar), evacuam-se espaços. O que podemos fazer com as pessoas é transferi-las, mandá-las para outro lado. No caso dos arrogantes, dos prepotentes, mandá-los prò caralho dar uma volta ao bilhar grande.

[Texto 23 141]

Qué-la, quere-a, quer-la

Que é lá isso?

 

      Quando, seis meses depois, Elvira Clancy vai ao velório de um habitante, agricultor e feniano, o filho do defunto, um tipo fortalhaço e brutamontes, certamente um dos melhores clientes de algum pub nas imediações, corre um cortinado junto da urna onde a nossa obituarista está em devaneios, e reclama: «A minha mãe deu-te uma gorjeta.» «Ela insistiu», defende-se Elvira. «Ela qué-la de volta. Diz que o texto estava uma porcaria.» É o que se lia nas legendas, que, juntamente com a tradução, são de Luís M. A. Freitas. Acontece, e isto é curiosíssimo, que a série já tinha passado em Setembro de 2025, com tradução e legendagem do mesmíssimo Luís M. A. Freitas, e lia-se então isto: «Ela quere-a de volta.» Isto é inédito. Algum espertalhão suposto entendido achou que estava errado e optou por uma forma correcta, sim, mas malsoante e minoritária. Vejam que lição e que proveito tiram daqui: «Usa o verbo ser e as formas verbais esté (= esteja), imos (=vamos), se rimem em vez de se redimem, rim (por riem), jouverão, trouverã-me; com pronome encontram-se as formas illas (= ir-las), quella (por quer-la, ou quere-a)» (História da Língua Portuguesa, Serafim da Silva Neto. Lisboa: Editorial Presença, 1986, p. 508).

[Texto 23 088]

«Pousar» e «posar», de novo

Passados uns anos


      «De regresso à Sala das Sessões, já depois do fim da cerimónia, para a fotografia dos constituintes, Marcelo cumprimentou várias pessoas, incluindo Jerónimo de Sousa, pousando a seu lado na imagem de grupo» («Marcelo assistiu sozinho na tribuna à sessão solene dos 50 anos da Constituição», Rádio Renascença, 2.04.2026, 12h38). 

      Como alguns sabem, já por aqui passou quem defendesse que era este o verbo para significar ficar imóvel numa determinada posição para ser fotografado ou para que lhe façam um retrato ou lhe modelem um busto, uma estátua, etc. Era e é uma voz isolada. O verbo certo é, sem dúvida alguma, posar. De Elvas até, sei lá, Mâncio Lima, é a opinião unânime. Vá, tirando uma pessoa, se é que ainda é viva, porque a pandemia ceifou muitas. Os que se enganam não contam.

[Texto 22 745]

Como se escreve por aí

Claro que ninguém releu o texto


      «Em síntese, o Conselho da Europa considera que penas de prisão por difamação são desproporcionais e têm um forte efeito de intimidação sobre jornalistas, ativistas e cidadãos, tendo vindo a pedir repetidamente aos Estados‑membros que abolam a prisão no caso da difamação e reformem as leis para evitar abusos numa área decisiva para o debate e o escrutínio público» («Difamação nos media e liberdade de expressão – modo de usar», Francisco Rui Cádima, Público, 24.03.2026, 00h20). 

      Numa palavra, errado. Irremediavelmente errado. O que há é quem defenda — mas nada de confusões! — a forma verbal «abulam»; aliás, todas as pessoas do Presente do Indicativo. Melhor (pior): todas as pessoas de todos os tempos. Aboliram totalmente a defectividade deste verbo. Não somos seguidores de tais práticas.

[Texto 22 730]

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