Como se fala por aí

Prefiro ouvir, mas


      Estive surdo mais de um mês, e senti-me muito mal. Agora, já totalmente recuperado, ouço coisas extraordinárias. No sábado, no Notícias 21, da RTP Notícias, a pivô Carolina Freitas perguntou ao comentador Ricardo Jorge Pinto qual a sua «visão» da semana. A propósito da demissão da ministra da Administração Interna, respondeu ter-se «dificuldade em compreender como é que Luís Montenegro resistiu tanto tempo a permanecê-la no lugar». Ora, este comentador aparece sempre com um fundo virtual a simular uma biblioteca repleta de livros do chão ao tecto. Reais ou virtuais, não há ali, não pode haver, gramáticas.

[Texto 22 455]

O verbo «colocar», consagrado pela ignorância

Voltemos aos temas de sempre


      Batemos no fundo: às 8h00 da manhã de sexta-feira passada, já a repórter Nadine Soares, da Rádio Observador, estava à porta do Pavilhão Municipal de Santarém, onde tinham pernoitado 37 pessoas desalojadas por causa das intempéries. A repórter estava só à espera para poder falar com a enfermeira voluntária Vanessa Domingos, «que colocou férias» para poder estar ali a acompanhar as pessoas, a ajudar. Aliás, não só ela, «outros colegas colocaram férias» para fazer o mesmo. Quando, no caso, até se usam dois verbos, pôr e meter, achou que «colocar» era o verbo mais adequado. Numa rádio que atribui diariamente, a propósito de tudo e de nada, notas de 0 a 20 — e Cristo só escapou porque não é protagonista da actualidade — dou-lhe 0, porque é inadmissível que uma profissional da comunicação social se exprima assim.

[Texto 22 401]

Léxico: «suavizar-se»

Também pronominal


      «Fácil coisa é dominar a imaginação de uma noviça. Bastam a comovê-la vivamente a poesia e majestade do culto católico; depois a religião suaviza-se-lhe, rodeando-a de poderosos atractivos; uma cândida vaidade, certas porfias piedosas, prefiguram-lhe nas perspectivas do Céu um trono a conquistar» (A Freira no Subterrâneo, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Marujo Editora, 1986, p. 58). O verbo suavizar, Porto Editora, não é apenas transitivo, sabes isso. Sabes? Tens de o dizer.

[Texto 22 331]

Tensão no Parlamento

E na gramática

      José Rodrigues dos Santos no Telejornal de ontem: «Lígia, notas, Lígia, não se se me estás a ouvir, notas alguma relutância por parte da autoridade que está a fazer a segurança do Parlamento e também da polícia de choque em actuar por se tratarem de colegas de profissão?» Por quem é, José Rodrigues dos Santos, reveja-me lá esses conhecimentos de gramática.
[Texto 3565]

Léxico: «mal-do-panamá»

Soa a doença venérea

      «No início do século XX, o fungo que provoca o mal-do-panamá causou os primeiros prejuízos importantes em plantações de banana precisamente no Panamá» («O que é que a banana tem? Uma nova estirpe de fungo que está a alastrar-se», Teresa Firmino, Público, 8.11.2013, p. 37).
      Acho que só ultimamente é que ando a ver o verbo «alastrar» como pronominal. Eu escreveria assim: «Uma nova estirpe de fungo que está a alastrar.»
[Texto 3483]

«Colocar o dedo na consciência»!

Outra vergonha

      «Quem coloca o dedo na consciência coletiva é o escritor Hans-Magnus Enzensberger, que deixa no ar um [sic] pergunta de difícil resposta: “Porque é que ninguém se mexe para o ajudar? Parece que todos admiram Snowden, no entanto, nada fazem por ele.”» («Personalidades alemãs pedem asilo político para Edward Snowden», L. M. C., Diário de Notícias, 4.11.2013, p. 23).
      Então não é pôr a mão na consciência que se diz, caro L. M. C.? Isso não é meter os pés pelas mãos, confundir demasiado, atrapalhar tudo? Agora já não apenas trocam, a torto e a direito, o verbo «pôr» pelo verbo «colocar», como confundem também a anatomia. (Ah, e Hans Magnus não tem hífen.)

[Texto 3468]

«Tratar-se de»

Leitura, pois

      «Quer se tratem de livros ou jornais em formato digital, a leitura em suportes electrónicos continua a ser uma prática individualizada, tal como acontece com a leitura em papel» («Na era da partilha online, a leitura continua a ser uma prática individual», João Pedro Pereira, Público, 28.10.2013, p. 27).
      Para falar da leitura, nada como atacar logo com um solecismo dos mais arrepiantes. Caro João Pedro Pereira, a construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular. Desconfio que não lhes ensinam isto no Cenjor nem nas faculdades.
[Texto 3447]

«Preferir ... a/antes querer»

Como sai

      Sobre Rui Moreira, recém-eleito presidente da Câmara Municipal do Porto, no «Sobe e desce» de hoje no Público: «Não apresentou uma agenda de projectos em carteira, como muitos autarcas fazem, preferiu antes afirmar o seu desejo de voltar a puxar pelo poder local» (p. 56).
      Eles sabem vagamente como é, é inegável, mas nem sempre acertam. E por isso misturam, confundem, enganam-se, atrapalham-se.
[Texto 3427]

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