Como se escreve por aí

Nem com vários pós-docs


      «O médico está a vasculhar-lhe as entranhas como se estivesse à procura de alguma coisa numa mala de mão, a remexer-lhe nos intestinos como se de lenços de papel se tratassem e a retirar a bebé como se fosse um porta-moedas» (Crime no Expresso de Natal, Alexandra Benedict. Tradução de Nuno Carvalho e revisão de Maria Ferro. Lisboa: Guerra & Paz, 2023, p. 93). Ao tradutor fugiu o dedo para o erro; à revisora, do erro os olhos fugiram.

[Texto 23 735]

Como se escreve por aí

Ah, pois, os verbos


      «Ao menos podiam tentar deixarem de se drogar, diz Jamie» (Pessoas Normais, Sally Rooney. Tradução e notas de Ana Falcão Bastos e revisão de Isabel Castro Silva. Lisboa: Relógio D’Água, 2022, p. 132). 
      O infinitivo não deve ser flexionado. Então o sujeito não é o mesmo em toda a cadeia verbal? Quem pode, quem tenta e quem deixa de se drogar são as mesmas pessoas («eles»). «Ao menos podiam tentar deixar de se drogar, diz Jamie.» Ao menos podiam aprender, digo eu.

[Texto 23 720]

Como se conjugam os verbos por aí

Voltemos ao básico


      «[Peggy] Atirava constantemente para o lado o cabelo solto, caído até aos ombros, e penteava-lo com a mão» (Pessoas Normais, Sally Rooney. Tradução e notas de Ana Falcão Bastos e revisão de Isabel Castro Silva. Lisboa: Relógio D’Água, 2022, p. 79). 
      Com Peggy está tudo mais ou menos bem, se abstrairmos da sua falsidade, petulância e inveja. Mas com a tradutora e a revisora já não tenho a certeza: parecem confundir os pronomes, já que «penteava-lo» só pode corresponder a «tu penteavas + o». Na terceira pessoa, como é o caso da frase, «ela penteava + o = ela penteava-o». Porque trago isto para aqui? Porque é erro que vejo com alguma frequência.

[Texto 23 546]

Como se escreve por aí

O pior são os verbos


      «Ajudámos 23 alunos a tornar-se médicos», gaba-se — e faz bem, porque há-de ser verdade — a Alumni Medicina – Associação de Antigos Estudantes de Medicina da Universidade do Minho num anúncio no LinkedIn. Agora só espero é que esses médicos ou futuros médicos não sejam gratos a ponto de seguirem a gramática avariada do anúncio. «Ajudámos 23 alunos a tornarem-se médicos», assim devem escrever. Ora, de nada. Sede bons para com os pobres.

[Texto 23 297]

Como se escreve por aí

Conta-me histórias


      «A regra até já foi invocada após Miguel Almirón, jogador do Paraguai, ter colocado a mão á [sic] frente da boca enquanto falava com um jogador da Turquia no final da semana passada. O árbitro assistente de vídeo (VAR) interviu para apresentar o cartão vermelho» («Fotografia de Bellingham a tapar a boca em jogo do Mundial levanta dúvidas sobre nova regra da FIFA», Nascer do Sol, 26.06.2026, 12h58). 
       Não sabemos é o nome do artista, e por isso jamais poderemos dizer que o romance tal ou o livro de poesia tal é deste plumitivo que hoje, em 2026, não sabe nem quer saber como se conjuga o verbo «intervir». Já tenho apanhado obras assim, mas alguém replica que o autor «sabe contar uma história». É o que parece interessar.

[Texto 23 278]

Atractores da próclise

Ou como se escreve por aí


      «Se o nome de Emuna Mia era já conhecido – até porque foi exposta, em abril, numa reportagem da SIC –, a investigação da Polícia Judiciária revelou o eventual envolvimento dos médicos Pedro Barreira e João Vasco Barreira, gémeos, conhecidos nas redes sociais como ‘Twin Docs’, cujo envolvimento resume-se a nove casos» («Fraude nas reformas beneficiou 182 pessoas», Carlos Rodrigues Lima, Correio da Manhã, 2.07.2026, p. 12). 
      Se falta intuição, dada pelas leituras, se falta estudo, estamos muito mal. É patente que o jornalista nunca ouviu falar em atractores da próclise. Na frase, a presença do determinante relativo «cujo» atrai o pronome «se» para antes do verbo: «cujo envolvimento se resume a nove casos».

[Texto 23 231]

«Quer-la», de novo

Há sempre quem saiba


      «A chave do autocarro está no meu bolso. (Bate no bolso com fúria.) Aqui, aqui mesmo, no meu bolso! Quer-la? Experimenta tirá-la, meu gorducho!» (A Noite da Iguana, Tennessee Williams. Tradução de Idalina S. N. Pina Amaro. Colecção «Os livros das três abelhas». Lisboa: Publicações Europa-América, 1965, p. 79).

[Texto 23 230]

O desgraçado verbo «evacuar»

Por exemplo


      O correspondente do Linguagista na cidade do Porto teve de ir ao Hospital de Santo António. Numa sala de espera (ou seria de subespera, que os dicionaristas continuam a ignorar?), reparou que num aviso afixado numa parede com instruções em caso de incêndio usavam erradamente o verbo «evacuar». Lembrou-se de que o assunto já aqui foi tratado várias vezes — mas não as suficientes. Os responsáveis do hospital devem ter seguido os exemplos errados que a Porto Editora indica no respectivo verbete: «Evacuaram da frente os feridos./ Evacuaram-nos para a retaguarda.» Não se evacuam pessoas (embora os prepotentes, os arrogantes que nos querem comer, se o conseguissem, se deixássemos, tivessem de nos evacuar), evacuam-se espaços. O que podemos fazer com as pessoas é transferi-las, mandá-las para outro lado. No caso dos arrogantes, dos prepotentes, mandá-los prò caralho dar uma volta ao bilhar grande.

[Texto 23 141]

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