O verbo «colocar», consagrado pela ignorância

Voltemos aos temas de sempre


      Batemos no fundo: às 8h00 da manhã de sexta-feira passada, já a repórter Nadine Soares, da Rádio Observador, estava à porta do Pavilhão Municipal de Santarém, onde tinham pernoitado 37 pessoas desalojadas por causa das intempéries. A repórter estava só à espera para poder falar com a enfermeira voluntária Vanessa Domingos, «que colocou férias» para poder estar ali a acompanhar as pessoas, a ajudar. Aliás, não só ela, «outros colegas colocaram férias» para fazer o mesmo. Quando, no caso, até se usam dois verbos, pôr e meter, achou que «colocar» era o verbo mais adequado. Numa rádio que atribui diariamente, a propósito de tudo e de nada, notas de 0 a 20 — e Cristo só escapou porque não é protagonista da actualidade — dou-lhe 0, porque é inadmissível que uma profissional da comunicação social se exprima assim.

[Texto 22 401]

O defunto verbo «pôr»

Não apenas os jornalistas

      «Segundo o médico Filipe Gomes, o novo protocolo compreende uma cláusula que “coloca em causa a autonomia pedagógica da direção do MIM [Mestrado Integrado em Medicina da Universidade do Algarve], de forma inaceitável”» («Demissão ameaça curso de Medicina», Diário de Notícias, 22.10.2013, p. 21).
[Texto 3416]

Como se escreve nos jornais

«Liderar orações»!

      «O Governo do Egipto proibiu a actividade de 55 mil imãs não-licenciados, que foram classificados como “fundamentalistas” e “ameaças para a segurança nacional” e impedidos de liderar orações em mesquitas e outros centros religiosos» («Governo proíbe actividade de 55 mil imãs», Rita Siza, Público, 11.09.2013, p. 21).
[Texto 3281]

E não «liderou»

Bons e maus exemplos

      Bom: «A professora Patrícia Pina [docente na Escola Profissional de Hotelaria e Turismo de Lisboa], que coordenou uma equipa com mais três pessoas, venceu as Olimpíadas da Criatividade nos Estados Unidos, dedicadas ao estatuto social da mulher» («Portuguesa ganha Olimpíadas da Criatividade nos EUA», Diário de Notícias, 18.06.2013, p. 35).
      Mau: «É motivo de orgulho esta gesta dos portugueses de há quinhentos anos. Mas mais do que nos orgulhar, esse passado deve também inspirar o Portugal do futuro. Não há desafio que um povo determinado, liderado por gente esclarecida, não seja capaz de ultrapassar» (editorial de hoje do Diário de Notícias, p. 6).
[Texto 2997]

Sobre «desenhar»

Desenham muito

      «Um dos grandes desígnios do PDJ era a limitação do poder da burocracia. É a alta burocracia — inspirada no mandarinato chinês — quem efectivamente “governa” o Japão. Foram os altos funcionários do MITI (Ministério do Comércio Externo e da Indústria) quem desenhou a estratégia de crescimento em simbiose com os grupos industriais e financeiros. Mas, a partir do fim da década de 1980, mostraram-se incapazes de responder à “estagnação”» («Japão à deriva», Jorge Almeida Fernandes, Público, 23.12.2012, p. 25).
      Mesmo se a acepção de conceber, projectar, idear sempre esteve no vocábulo português, por influência da língua inglesa, ultimamente é um fartote, e não apenas, longe disso, nas traduções. Agora, nada é concebido, projectado, ideado, pensado, é tudo, mas tudo desenhado.
[Texto 2457]

Assim se exprimem

É o que temos

      «“Fazer novela.” “Ver novela.” “Produzir novela.” A gíria televisiva portuguesa acaba de ser injetada com expressões deste género: as telenovelas referidas no singular, sem artigo a precedê-las e desprovidas do prefixo “tele”. Produtores, atores, jornalistas — é um país inteiro, de repente, a falar à maneira brasileira. Eu ia dizer “a falar brasileiro”, mas travei-me a tempo: de facto, não é uma voragem sintática transatlântica, o que aqui está em causa — nem sequer os esperados primeiros sinais da definitiva brasileirização da língua portuguesa por via da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990. É só mais um sinal de facilitismo, com a conivência dos jornais. É pena» («Um universo em mudança», Joel Neto, Diário de Notícias, 15.08.2012, p. 48).
[Texto 1973]

Outro grande modismo

Quem quiser, use

      «Com espanto, o alemão percebeu que os oficiais inimigos, apesar de graduados em coronéis, comandando regimentos em batalha, não se sentiam confortáveis com mapas» («Os coronéis de Tannenberg», Viriato Soromenho-Marques, Diário de Notícias, 9.07.2012, p. 11).
      «Não se sentiam confortáveis com mapas»... Como quem diz, um sem-abrigo confortável com os jornais com que se protege do relento. Também digo: não uso. Nunca me fez falta.

[Texto 1794]

«As mesmas», «o mesmo»...

Evitem isso

      «Durante o período em que esteve com dores, José Gregório dos santos [sic] queixou-se das mesmas à enfermeira de serviço, que contactou o médico. António O. observou o doente e, de acordo com a acusação do DIAP de Lisboa, “determinou” que o mesmo “se deveria levantar para um cadeirão e ali repousar por momentos”. Neste momento, a 17 de março de 2009, o médico não determinou a realização de uma TAC» («Morte de doente em operação ao joelho vai a tribunal», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 9.07.2012, p. 18).
      «Das mesmas» — grande bordão da actualidade — faz tanta falta na frase como uma viola num enterro. E, como que a demonstrá-lo cabalmente, a sua eliminação muitas vezes nem sequer implica a reescrita da frase. Pensem nisso.

[Texto 1789]

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