Léxico: «anualizar»

E será mesmo brasileirismo?

      Lê-se no texto: «No nosso país, as despesas sociais aumentaram, em percentagem do PIB, de 9,9 %, em 1980, para 25 %, em 2012, representando um crescimento anualizado de 2,94 %.»
      Não sei se as contas estão certas (se houver por aí um economista que pudesse ajudar, agradecia), mas aquele «anualizado» faz-me espécie. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora assegura que o verbo transitivo anualizar é um brasileirismo e significa «estabelecer um índice anual», o que não explica propriamente nada.
[Texto 3258]
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Léxico: «proteoma»

Tudo por causa de Ötzi

      «Finalmente, um estudo mais recente, publicado em Junho, volta a semear a dúvida sobre a natureza da sua ferida fatal. A equipa do instituto de Bolzano analisou o conjunto de proteínas (proteoma) de amostras do cérebro da múmia e identificou uma “acumulação significativa de proteínas associadas à resposta ao stress e à cicatrização das feridas”» («Ötzi. Os segredos de uma múmia assassinada», Sandrine Cabut, Público, 31.08.2013, p. 25).
      Proteoma, um neologismo, ainda não está em todos os dicionários gerais. E esta acepção de «múmia» — nos dicionários de língua inglesa «a body unusually well preserved» — não está nos nossos dicionários. Melhor é a definição (que junta dois sentidos) do dicionário da Real Academia Espanhola: «Cadáver que naturalmente o por preparación artificial se deseca con el transcurso del tiempo sin entrar en putrefacción.»
[Texto 3257]
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«Linha», uma acepção

Desalinhado

      «Até aqui tinha tocado sempre de dia, era sempre o empreiteiro. O coração dispara, descompassado. Está, não, é uma casa particular, boa noite. O ouvir de uma voz revitalizou-o, não tanto como a linha de coca que cheirou logo de seguida, mas ajudou» (Atrás de Ti, Pedro Mendonça. Vialonga: Coisas de Ler, 2001, p. 52).
      Só com recurso ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, não se fica a saber o que é uma linha de coca.
[Texto 3256]
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«Contradição em/nos termos»

Em termos linguísticos

      O autor terminou o raciocínio a pedir: «desculpem a contradição em termos». Já todos lemos dezenas de vezes a expressão «contradição em termos». E outras tantas «contradição nos termos», que me parece mais conforme à nossa língua. Aquela está mais colada ao inglês contradiction in terms. Sinónima é a expressão latina contradictio in adjecto. Literalmente, contradição no que se acrescenta.
      «Esta ideia é de tal forma inovadora que a primeira reacção é pensar que “verdade empírica necessária” é uma contradição nos termos» (Essencialismo Naturalizado: Aspectos da Metafísica da Modalidade, Desidério Murcho. Lisboa: Angelus Novus, 2002, p. 13).
[Texto 3255]
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Léxico: «hipertelia»

E também este

      «O mundo em que vivemos entrou num regime de manifestação hipertélica de onde só sairá por interrupção catastrófica. A hipertelia é uma lógica coerciva que impele qualquer coisa para além dos seus próprios fins, anulando os seus objectivos primeiros e instituindo um conflito interno, uma espécie de silencioso dilema que não pode ser resolvido e só pode prosseguir na sua via fatal» («Os conflitos da liberdade de expressão», António Guerreiro, «Ípsilon»/Público, 30.08.2013, p. 24).
      Também estes não os encontramos em muitos dicionários. Esta acepção, concretamente, não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que apenas regista um sentido. Basta ver que o Aulete regista quatro acepções, e nenhuma coincide com a registada pelo dicionário da Porto Editora. Neste caso, hipertelia é, segundo o Aulete, a «situação, e sua lógica intrínseca, que determina o movimento de um sistema para além de sua finalidade racional [Termo criado por Baudrillard]».
[Texto 3254]
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Léxico: «dactiloscrito»

Acrescentem

      «Dactiloscrito do poema The Copulation Blues, assinado à mão por Bukowski e datado do dia 9 de Maio de 1973» («Site dedicado a Bukoswki reúne poemas, cartas, fotos e até a ficha no FBI», Luís Miguel Queirós, Público, 30.08.2013, p. 32).
      Não está em muitos dicionários. Não está, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 3253]
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Tradução: «enveloppe»

Pois, mas não

      «No raciocínio — elaborado — do procurador [John Miner], a ausência de resíduos de comprimidos no estômago seria incompatível com uma absorção maciça por via oral: a ingestão de uma quantidade importante de cápsulas de Nembutal teria causado a morte antes que estas (e o seu envelope amarelo) se tivessem dissolvido completamente no estômago» («Marilyn Monroe. Os comprimidos da infelicidade», Sandrine Cabut, Público, 30.08.2013, p. 26).
      Como temos — mas não precisamos — «envelope», o tradutor achou que bastava tirar um p ao francês enveloppe e estava tudo bem. Não está: neste caso, deve ser traduzido por envoltório, invólucro.

[Texto 3252]
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«Genuidade»?

Devolvam-nos a sílaba

      «Segundo Sílvia Machado, as características que atestam a genuidade e a classificação de um azeite podem perder-se ao logo da cadeia do produto: na produção, mas também no armazenamento, na distribuição ou na comercialização. Os azeites chumbados pelo teste da Deco não punham em causa a saúde e a segurança das pessoas» («Deco nega falta de rigor em teste do azeite», Público, 30.08.2013, p. 11).
      Ainda será resultado da lei do menor esforço ou antes mero desmazelo e ignorância? O que sei é que Rebelo Gonçalves, no seu Vocabulário da Língua Portuguesa, apenas regista «genuinidade».

[Texto 3251]
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Como se escreve nos jornais

Mas que bem

      «As chamas rodearam várias aldeias no Parque Natural do Alvão. Ventos fortes dificultaram o trabalho dos bombeiros. De tarde, labaredas continuaram a ganhar terreno. Foram accionados três meios áreos pesados e duas máquinas de rasto militares» («DGS alerta para concentração de fumo no Porto», Ana Cristina Pereira, Público, 29.08.2013, p. 7).
      Cá estão, novamente, várias frases seguidas sem nenhum articulador, simplesmente justapostas. É a desagregação da linguagem. Depois disto, os jornalistas passarão a dar-nos meras notas, alcançando dessa maneira a almejada objectividade.
[Texto 3250]
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Como se escreve nos jornais

Que bem que eles escrevem!

      «Essa passagem [do discurso de Martin Luther King], que passou largamente desapercebida nas notícias do dia seguinte, levou um dos directores do FBI, William Sullivan, a escrever num relatório que Martin Luther King se tinha tornado “o negro mais perigoso para o futuro do país, do ponto de vista do comunismo e da segurança nacional”» («Discurso histórico está protegido por lei até 2038», Público, 29.08.2013, p. 20).
      Como não têm tempo para escrever bem, escrevem mal. Exige um bocadinho mais de esforço, mas é o emprego deles, e por isso não se importam.
[Texto 3249]
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Tradução: «political junkie»

Fanáticos

      «Mas o orador que falou ontem, num dia chuvoso, apresentou um discurso familiar — tão familiar que os junkies políticos de Washington foram buscar os primeiros e famosos discursos de Obama (como o que fez na Convenção Democrata em 2004) para concluir que eram semelhantes» («Obama tem um sonho: igualdade económica para todos os americanos», Kathleen Gomes, Público, 29.08.2013, p. 20).
      Vamos imaginar que o leitor do Público só tem à mão o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora. Que encontra no verbete «junkie»? O termo de calão para «drogado». Ora, em inglês, um political junkie é um fanático da política, alguém que segue, de forma obsessiva, tudo o que diz respeito à política. E isto precisava de estar em inglês? É claro que não.
[Texto 3248]
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«Ênfase» é feminino

Eu tenho um sonho

      A 28 de Agosto de 1963, faz hoje precisamente cinquenta anos, em Washington, Martin Luther King falava sobre o sonho americano e a igualdade de direitos dos negros. O Jornal da Tarde de hoje foi ouvir um jornalista, José Alberto Lemos, a propósito deste discurso: «Aquilo que se tornou célebre, que é a parte do “eu tenho um sonho, eu tenho um sonho”, são apenas os últimos quatro ou cinco minutos de discurso de 17 minutos em que Luther King improvisou. Portanto, isto não estava preparado, ele decidiu dar, digamos, um ênfase mais importante ao seu discurso no final justamente para sublinhar que aquilo que ele sonha é aquilo que a América ainda não concretizou.»
      Eu tenho um sonho: que um dia, em vez de nove em cada dez falantes que erram no género de «ênfase», ninguém erre ou erre apenas um em cada dez.
[Texto 3247]
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«Tanto a Oriente como a Ocidente»

Ou não

      «Figura grada e prestigiosa do terceiro mundo, Hailé Selassié I tem influência junto dos chefes que contam na paisagem política africana e, do mesmo passo, é acolhido e cultivado pelas grandes potências, tanto a Oriente como a Ocidente; e por estes títulos tem interesse para Portugal e sua política a visita do imperador» (Salazar: A Resistência (1958-1964), Franco Nogueira. Coimbra: Atlântida Editora, 1984, p. 87).
       Não devia ser antes «tanto a oriente como a ocidente», tal como «de norte a sul»?
[Texto 3246]
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Léxico: «guanche»

Queremos melhor

      «“Encontramos estruturas proto-históricas [período que se segue à pré-história mas que é anterior ao da história documentada] semelhantes no Norte de África e noutras culturas aborígenes como a guanche, nas ilhas Canárias. Mas ainda é muito cedo para dizermos exactamente o que são e quando foram construídas, precisamos de estudar mais os materiais e de fazer datações precisas”, admite o arqueólogo» («As “pirâmides” da vinha do Pico já lá estavam quando os portugueses chegaram?», Lucinda Canelas, Público, 28.08.2013, p. 30).
      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, está registado «Guanches», mas, incoerentemente, não «guanche», o que é equivalente a estar «Portugueses» e não estar «português». Os Guanches eram os antigos habitantes das ilhas Canárias.
[Texto 3245]
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Léxico: «maroiço»

E outras coisas mais

      «Desde Janeiro que estes arqueólogos [Nuno Ribeiro, da APIA, e sua equipa] visitam o local [ilha do Pico] marcado por estes montes de rocha [vulcânica] que ali se conhecem por maroiços, fazendo levantamentos e prospecção» («As “pirâmides” da vinha do Pico já lá estavam quando os portugueses chegaram?», Lucinda Canelas, Público, 28.08.2013, p. 30).
      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «maroiço» remete para «marouço» e neste podemos ler: «onda encapelada; maré viva». No Grande Dicionário da Língua Portuguesa de José Pedro Machado, é algo mais do que isso: nos Açores, é outra designação para tumor, o paredão para arrumar pedra e, em São Miguel, o nó da madeira.
[Texto 3244]
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«Esquirro»?

Daí as aspas

      «No exílio desde 1815, nesta pequena ilha vulcânica no meio do Atlântico Sul que é Santa Helena, o imperador, que se queixava frequentemente de dores no aparelho digestivo, vivia obcecado com a hipótese de um mal de família. O seu pai morrera com menos de 40 anos, vítima de um “esquirro” (um tumor) do piloro» («Napoleão. Os mistérios de um tumor imperial», Sandrine Cabut, Público, 27.08.2013, p. 26).
      O que não sabemos é se as aspas são da jornalista francesa, se, mais provavelmente, são do tradutor português. No original estará squirre ou squirrhe. E é isso: um tumor duro, de tecido fibroso, renitente. Vem do grego através do latim. Nos dicionários gerais, não o encontro. Comecei a suspeitar que a ortografia em português seria «escirro», que não encontrei, mas apenas cirro: «tumor maligno, de consistência muito dura à palpação». E lembrei-me, era inevitável, de «cirrose». Portanto, se existisse seria «escirro». Embora, ao longo do tempo («no plano diacrónico», diriam os da glote, como Montexto gosta de lhes chamar), na língua francesa, tenha passado de schirre para squirrhe, só esta se usa, e em castelhano, por exemplo, só está dicionarizado «escirro».
[Texto 3243]
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Léxico: «ingesta»

A toma, a ingesta...

      «E eis que no mesmo dia iam dois deles para uma aldeia, que distava de Jerusalém sessenta estádios, cujo nome era Emaús.» Assim escreveu um médico, São Lucas, o evangelista. Estádio, não estadio. Outro médico — como todos os médicos, actualmente —, o nefrologista Aníbal Ferreira, que ontem estava no Bom Dia Portugal para falar de doença renal crónica, disse «estadio».
      Este médico também usou um termo que só os médicos usam: «Os cálculos renais, a lítiase renal aumenta, associada regra geral a um componente de desidratação ou de menor ingesta hídrica, nos doentes que têm mais tendência a desenvolver esta complicação.» Ingesta é o que o organismo consumiu e absorveu.
[Texto 3242]
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Léxico: «criptobiose»

Pouco científicos

      Mais de 90 investigadores estiveram reunidos num congresso mundial, em Vila Nova de Gaia, a falar de seres microscópicos. Concretamente, dos tardígrados — animais que marcham com lentidão. São animais de reduzidíssimas dimensões, de que há pelo menos 1000 espécies, de corpo não segmentado, com quatro pares de patas locomotoras, que vivem nas águas, sobre as plantas aquáticas ou no lodo. Numa reportagem de ontem do Jornal da Tarde, falou, a propósito destes seres, Paulo Fontoura, investigador do Departamento de Biologia da Universidade do Porto: «Eles são capazes de entrar no processo chamado criptobiose, portanto, vidas escondidas, reduzem fortemente o metabolismo, inclusivamente chegam a ter cadeias de ADN destruídas e que conseguem depois recompor.» Esta «criptobiose», redução extrema do metabolismo, não está nos dicionários gerais.
[Texto 3241]
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Léxico: «cante»

Exagero

      «Completam-se na terça-feira cinco meses sobre a entrega, no comité internacional da UNESCO, da candidatura do cante alentejano a Património Cultural Imaterial da Humanidade» («Um canto pelo cante», Nuno Pacheco, «2»/Público, 25.08.2013, p. 32).
      Já mais de uma vez me ocupei deste vocábulo. Aqui, aventei a hipótese, pouco arriscada, de o étimo estar no castelhano cante, e lamentei, do mesmo passo, que não estivesse dicionarizado. Como ainda não está, decorridos quatro anos. Seja como for, é manifesto exagero grafá-lo em itálico. Desconfio muito mais ali daquela construção — «cinco meses sobre a entrega». Hum...
[Texto 3240]
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Léxico: «niungue»

Tetense

      O autor afirma que conhece a gramática e mesmo a «maioria do léxico da língua nyungwe», falada em Tete, Moçambique. E só pode ser verdade, pois claro. Mas é niungue que se escreve. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «dialecto do grupo sena falado pelos Niungues, grupo de povos centrados em Tete e na bacia inferior do Zambeze, em Moçambique».

[Texto 3239]
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Léxico: «alfabetação»

Dois num

      Quando li o dicionário de José Pedro Machado, não me lembro de ter encontrado esta. Alfabetação. Conhecia-a agora através de umas «Achegas para Umas Regras Portuguesas de Alfabetação», separata editada em 1979 do Boletim da Biblioteca da Universidade de Coimbra.
      E aqui está um exemplar da obra Os Monjardinos — Uma Família Genovesa em Portugal, Açores e Brasil, de Jorge Pamplona Forjaz, publicado em Angra do Heroísmo em 1987. «Os Monjardinos», pois claro! Mal seria que um genealogista escrevesse de outra maneira.
[Texto 3238]
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Ortografia: «subespera»

Ortografia não é com eles

      Viram a reportagem no Telejornal de ontem daquele caso de negligência médica no Hospital da CUF do Porto? Alguém se esqueceu de uma gaze de mais de 30 centímetros na garganta de uma criança de 4 anos, operada às amígdalas. Filmaram parte das instalações do hospital e, entre outras, a sala — lê-se numa placa — de «sub-espera pediatria». Nunca tal vira. O erro sim, é comum: é subespera que se deve escrever, porque ao elemento sub- se segue uma palavra iniciada por vogal. Sala de espera, sala de subespera... Kafkiano.
[Texto 3237]
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«Quota/cota»

De outiva não vamos lá

      «Outra das suas forças é a existência de uma obra “emblemática” de derivação de um ribeiro desde o monte Córdova, sobranceiro à cidade, que abastecia o edifício e os terrenos envolventes através de um complexo sistema hidráulico. A água vinha do monte até um grande tanque que ainda hoje se preserva, e depois era encaminhada para os chafarizes dos jardins, de onde ia descendo para as quotas inferiores» («Santo Tirso propõe à UNESCO mosteiro que o ajudou a ser concelho», Samuel Silva, Público, 26.08.2013, pp. 12-13).
      Errado, caro Samuel Silva: à diferença de nível entre qualquer ponto e aquele que se toma para referência dá-se o nome de cota, não de quota. São palavras divergentes e, o que mais interessa no caso, só parcialmente sinónimas.
[Texto 3236]
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Como se escreve nos jornais

Eles pensam que bem

      «Em Portugal, no plano económico, político e filosófico, evidenciou-se como figura tutelar da direita liberal, influenciando uma geração focada nas virtualidades do mercado livre. Foi o caso de Carlos Moedas, secretário de Estado adjunto de Passos Coelho, que entrou para a Goldman Sachs (GS), como “júnior”, quando Borges já era vice-presidente em Londres: “É o homem que conheci com maior sabedoria, no sentido da palavra sabedoria. Quando alguma coisa me falhava, procurava-o e ele explicava coisas complexas com palavras simples. Por isso é que um grupo de jovens e de pessoas de idade abaixo da dele o admiravam tanto”» («Um liberal que agiu sempre em coerência», Cristina Ferreira, Público, 26.08.2013, p. 2).
       «Geração focada»... Pois. O «júnior» merecia mais do que as aspas: é um anglicismo semântico, junior — «lower in standing or rank». E agora, lapso ou convicção do secretário de Estado ou da jornalista — «sabedoria, no sentido da palavra sabedoria». Fiquem a pensar se isto tem algum sentido.

[Texto 3235]
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Léxico: «pingadeira»

Nunca vai acabar

      «Os jornais de hoje revelam escândalo sobre escândalo, que na generalidade envolvem o Estado ou antigos dirigentes do Estado. Do BPN ao desaparecimento dos dossiers a pingadeira não pára. E previsivelmente não vai parar. O tal buraco de que tanto se fala não é só um buraco financeiro, é também o buraco dos “negócios” do Estado, que, pelos nossos 308 municípios, penetraram Portugal inteiro, de Lisboa à mais remota vila de Trás-os-Montes» («Confiança», Vasco Pulido Valente, Público, 25.08.2013, p. 56).
      É palavra que Eça, citado antes deste excerto por Vasco Pulido Valente, também usou, assim como, noutro sentido, Camilo. Pingadeira é, entre outras coisas, em sentido figurado, negócio que vai rendendo sempre e despesa contínua. É isto, hoje, o nosso Estado, despesa para a maioria, negócio para uns tantos.

[Texto 3234]
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Demasiado francês

Quase nos enganavam

      «E com uma característica que importa salientar: foi dada primazia à reutilização de materiais. Há pupitres (peças em madeira usadas para fazer a remuage do espumante) que foram transformadas em mesas, paletes que serviram de base para sofás, caixas individuais de vinho que resultaram em óptimos e originais suportes de papel higiénico» («Noites com uma pitada de sal e champanhe», Maria José Santana, «Fugas»/Público, 24.08.2013, p. 28).
       Embora o Público seja parquíssimo em itálico — mas faz mal —, como vi a remuage em itálico, ainda pensei que «pupitre», que conheço bem do castelhano, fosse português. Nada disso: a palavra é francesa, como remuage. Vejam aqui uma imagem. É acepção que não está, por exemplo, no Dicionário Francês-Português da Porto Editora, que apenas regista: «carteira; escrivaninha; estante de música; estante de coro». Para o dicionário da Real Academia Espanhola, é o «mueble de madera, con tapa en forma de plano inclinado, para escribir sobre él». («De madera», cara Maria José Santana, repare bem.) No Trésor, lemos: «ŒNOL. Pupitre (à bouteilles, de cave). Meuble de cave constitué par deux panneaux de bois inclinés, percés de trous, dans lesquels on introduit le col des bouteilles et qui sert à les maintenir en position inclinée, en particulier dans la fabrication du champagne».

[Texto 3233]
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«Pôr uma hipótese»

Toda a gente

      «É um dos pratos mais afamados da Galiza, o polvo à galega — tanto que se tornou numa espécie de símbolo da gastronomia espanhola. Logo, esperávamos cruzar-nos com polvo, sim, à mesa — esse pulpo a la féria, cozido e polvilhado de pimentão; colocámos até a hipótese de o ver no aquário» («A cidade líquida e salgada que é um passeio marítimo», Andreia Marques Pereira, «Fugas»/Público, 24.08.2013, p. 18).
      Valia mais que a pusessem, à hipótese, como quase toda a gente e há muito tempo. «Ainda não chegara a conclusões certas e seguras sobre o curso que melhor me convinha, pus a hipótese de não estudar mais e ir à procura de emprego, e então folheava o Diário de Notícias» (Tudo Tem o Seu Tempo, Ana Maria Magalhães. Lisboa: Editorial Caminho, 2012, p. 401).
[Texto 3232]
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«O Opus Dei»

É obra

      «Na comissão de oito sábios nomeada em Julho pelo Papa Francisco para limpar a estrutura económica e administrativa do Vaticano há apenas um italiano. Na verdade, uma italiana, uma jovem laica de 30 anos, especialista em relações públicas e ligada à Opus Dei, bonita e, surpreendentemente, com um historial de declarações bombásticas no Twitter sobre a política do Vaticano, até sobre o próprio secretário de Estado, que estão a causar escândalo na Santa Sé» («A conselheira do Papa Francisco que falava de mais no Twitter», Clara Barata, Público, 24.08.2013, p. 24).
      Há livros de estilo de certas publicações que lembram — e lembram muito bem — que Opus Dei é do género masculino. E a fala-barato (ou escreve-barato, o que sempre é melhor, porque basta não a lermos) da ítalo-marroquina não é assim tão bonita, cara Clara Barata. Enfim, depende da perspectiva. Do perfil. Ao longe, talvez. Karima El Mahroug, a Rubyzinha, que ia atirando Berlusconi para a prisão, é mais bonita. E não escreve.
[Texto 3231]
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Léxico: «herodiano»

Também

      Então, se se escreve «herodiano», porque não escrevemos «cristiano»? Não, não, a pergunta que eu queria fazer era outra. Esta: os dicionários não deviam todos dizer também que «herodiano» é o partidário de Herodes Antipas, e não apenas, como faz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que é o relativo a este tetrarca da Galileia ou ao seu governo?

[Texto 3230]
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Léxico: «periurbano»

Para nada

      Jornalista Rita Roque, no noticiário das 2 da tarde na Antena 1: «Mas está fora de questão o avanço das chamas para a zona periurbana da cidade, ou seja, às portas da cidade da Covilhã?» Muito bem, muito bem — mas um pouco para nada, pois teve de explicar ao interlocutor do que se tratava. Periurbano: relativo à zona vizinha de uma cidade; situado nessa zona.
[Texto 3229]
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«Curados pelos editores»!

Esta nunca a tinha visto

      «Não é dessa velha-nova discussão que se ocupa Lolita — The Story of a Cover Girl: Vladimir Nabokov’s Novel in Art and Design, o livro de arte e ensaio que acaba de sair nos EUA e em que 80 ilustradores e designers gráficos, curados pelos editores John Bertram e Yuri Leving, imaginam a capa do romance como ela devia ter sido» («A Lolita de Nabokov como ela devia ter sido», Inês Nadais, «Ípsilon»/Público, 23.08.2013, p. 3).
      É mais ou menos o que lhes passa pela cabeça que escrevem. Sim, alguém precisa de ser curado, e é com a máxima urgência.
[Texto 3228]
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Ortografia: «maoista»

Desconversar é fácil

      «Bo Xilai, um dos “príncipes vermelhos” do PCC — como são conhecidos os filhos da primeira geração de dirigentes maoísta —, é acusado de corrupção, abuso de poder e de receber subornos. [...] Bo Xilai, de 64 anos, tornou-se muito popular por causa das suas campanhas contra o crime organizado, em defesa dos pobres e recriando o regresso a um culto maoísta que, apesar dos estragos, torturas e mortes dos anos da Revolução Cultural, tem ganhado força nos últimos anos» («Bo Xilai desafia o tribunal, no que se aposta ser um julgamento encenado», Clara Barata, Público, 23.08.2013, p. 25).
      Até o livro de estilo do Público recorda a regra: «Não são acentuadas quando o i e u são precedidos de ditongo: saia, baiuca, maoismo, tauismo.» Eu bem me lembro de já aqui ter tratado deste caso — também no Público. Na altura, uma leitora, que tanto podia ser a jornalista do Público autora do texto como não, respondeu: «Eu não pronuncio “ao” como ditongo, neste vocábulo (aliás, os casos em que a sequência “ao” é considerada ditongo são excepcionais, cf. Base VII, 1, AO 90). Logo, para marcar o hiato, recorro ao acento agudo.» Logo, nem sequer devia invocar o Acordo Ortográfico de 1990.

[Texto 3227]
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«Altruísta/generoso»

Dar a outra face

      «E, não obstante o reduzido mérito científico do trabalho [tese de licenciatura de Álvaro Cunhal], o seu autor, por decisão, entre outros, do último chefe de Governo do anterior regime, obtém, como classificação global da licenciatura, a muito generosa nota de 16 valores!» («Obrigado, dr. Cunhal!», Gonçalo Portocarrero de Almada, Público, 23.08.2013, p. 49).
      Vejamos: o P.ᵉ Portocarrero de Almada afirma que a tese, que conhece porque leu (como eu li), tem «reduzido mérito científico», mas refere explicitamente a «classificação global da licenciatura», quando decerto não conhece (como eu não conheço) todo o decurso, nos seus vários incidentes, da licenciatura de Cunhal. Logo, jamais poderia concluir, como fez, que a nota, que era a classificação global da licenciatura, foi «muito generosa». Se o raciocínio fosse escorreito, estaria em causa a consabida definição de generosidade: dar a outrem mais do que ele precisa ou espera. No caso, Cunhal não precisava da nota, porque estava preso, e não a esperava, dado o «reduzido mérito científico do trabalho». E será que alguma vez um professor ou um júri foi, em semelhantes circunstâncias, altruísta, isto é, ajudou outrem, no caso um aluno, com custo para si mesmo?
[Texto 3226]
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«Quando muito»

No máximo

      «Sendo o aborto um mal, para Cunhal e, segundo ele, para “todos os escritores” que sobre este tema se pronunciaram, não faz portanto sentido defender um pretenso direito ao aborto, porque não há nenhum direito ao mal mas, quanto muito, algumas causas de exclusão da culpa por quem incorre nessa prática, em si mesma condenável» («Obrigado, dr. Cunhal!», Gonçalo Portocarrero de Almada, Público, 23.08.2013, p. 49).
      Vamos ver se me agradece também a mim: Sr. P.ᵉ Portocarrero de Almada, a expressão quantitativa não é «quanto muito», mas «quando muito», ou seja, «no máximo».
[Texto 3225]
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Falta de ouvido

Em voz alta

      «Estou perto de Florença a acampar com uns americanos. Alugaram um Pão de Forma (aquelas carrinhas Volkswagen dos anos 60) na Alemanha e estão a atravessar a Europa» (À Espera de Moby Dick, Nuno Amado. Lisboa: Oficina do Livro, 2012, p. 83).
      No Jornal da Tarde de ontem, a jornalista Teresa Nicolau fez uma reportagem sobre o fim da construção destas carrinhas, e rematou assim: «Desde 1950 que a carrinha Pão de Forma faz parte das estradas do mundo. A marca alemã promete ainda produzir uma série final de 600 veículos. Pode ser que algum chegue a Portugal e transforme-se em mais uma peça desta colecção.»
[Texto 3224]
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Léxico: «trambique»

Um brasileirismo e o PSD

      «Não respondo por aquilo que diz o Passos Coelho. Eu pago por aquilo que eles dizem, a minha reforma já levou três trambiques... Não estou com eles, estou num projecto» (Francisco Moita Flores, entrevistado por Rita Brandão Guerra e José António Cerejo, Público, 23.08.2013, p. 7).
      Ora mais um reformado precoce, quero dizer, mais um brasileirismo coloquial: trambique é vigarice, negócio fraudulento. Os jornalistas tiraram-me as palavras da boca: «Então podia ter recusado o convite do PSD e concorrido como independente.» Não queriam mais nada, santinhos: «O PSD tem a grandeza de aceitar que eu pense de maneira diferente.»
[Texto 3223]
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Léxico: «tríscele»

Só por acaso é que não

      «Com pouca paciência para charadas, mas intrigado com mensagem semelhante, aventando que pudesse ela conter uma espécie de alegoria às inquietações em que por essa altura eu abundava, fui verificar no dicionário o significado verdadeiro de “tríscele”, vocábulo que só difusamente conhecia, e deparei com este esclarecimento, “variante da suástica, que consta de três linhas curvas, que, divergentes de um centro comum, se enroscam em espiral, formando roseta”» (Tiago Veiga — Uma Biografia, Mário Cláudio. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 512).
      Num dicionário, hein? No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não foi, nem em nenhum que eu conheça. Ficções.
[Texto 3222]
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Sobre «caldo»

Esta é diferente

      «Quando um dia, já calmeirão, se queixou ao pai que os saltos de cavalo lhe causavam dores insuportáveis na nuca, levou um caldo que o fez estar durante duas horas a ver estrelas de todas as cores» (Os Pássaros de Seda, Rosa Lobato de Faria. Porto: Edições ASA, 1996, p. 51).
      Agora imagine-se um estrangeiro só com umas tinturas da nossa língua. Até pode ser tradutor. Se, por azar ou opção, só tiver o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora à mão, fica a ver navios. Caldo, só os das nossas cozinhas ou os dos laboratórios.
[Texto 3221]
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Léxico: «romanticista»

Duas seguidas

      Ontem, «tantrista»; hoje, «romanticista». Não está nos dicionários. É o relativo ou pertencente ao romantismo ou a pessoa adepta do romanticismo (que está nos dicionários).
      «Mas, admitido o seu propósito de esculpir, Eça insurgindo-se contra o romantismo, não tinha a menor autoridade, se não compreendia que a moralidade, só com a exibição de radiosas plásticas, nunca poderia vencer o veneno romanticista, que os realistas increpavam» (Eça de Queiroz, José Agostinho. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, 1925, p. 148).
[Texto 3220]
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«Fardo de lenha»?

É a segunda vez

      Aqui o autor fala de um «fardo de lenha». Já tinha lido, é verdade, mas, ao que julgo, apenas uma vez na vida. Molho de lenha, feixe de lenha, braçada, gavela, paveia...
      «Mas alguém com um fardo de lenha à cabeça a empurrou: — Ó tiazinha, isto são perigos de mais para a sua idade! Recolha-se à sua morada, que o povo desta cidade tem uma missão a cumprir e não pode encontrar estorvos à sua frente!» (Este Rei Que Eu Escolhi, Alice Vieira. Lisboa: Editorial Caminho, 13.ª ed., 2008, p. 21).
[Texto 3219]
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«Alvéolo», «gavetão»...

São necrofóbicos

      A avó ficou «dans l’alvéole» n.º X no cemitério de ***. Alvéolo, pois claro. Nos dicionários, como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, esta acepção não aparece. Há alvéolos dentários, há alvéolos pulmonares, mas os alvéolos dos cemitérios foram esquecidos. Como se esqueceram dos gavetões dos cemitérios. Mesmo o columbário é, para aquele dicionário, o «sepulcro subterrâneo, entre os Romanos». E entre os Portugueses? Creio — e não tenho à mão um coveiro que mo confirme — que aos alvéolos também se dá o nome de «nicho». De qualquer maneira, a acepção também não está dicionarizada. Têm muito por onde melhorar, os nossos dicionários.
[Texto 3218]
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Tradução: «chinetoque»

Olha quem fala

      Povos racistas como os Franceses e os Portugueses (ah, nós não o somos? Pronto, fica assim) tinham de ter nas suas línguas termos para designar de forma ofensiva outros povos. Assim, o termo injurioso e racista francês para designar um chinês é chinetoque. Está no Larousse, caramba. E está registado no Dicionário Francês-Português da Porto Editora? Não está. Mas no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora encontramos «chinoca».
[Texto 3217]
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Léxico: «suputação»

Quase só eles

      «Ignoramos — e não vale a pena tentar a suputação provável — o que seria uma civilização hispânica caldeada com a líbio-fenícia. Seria tão absurdo julgar que todas as coisas vêm por bem, como julgar que todas vêm por mal» (Os Avós dos Nossos Avós, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1942, p. 205).
       Tirando Heitor Pinto e Aquilino, quem é que usa os termos «suputação» e «suputar», quem? Só os vejo, em abundância, em traduções de obras francesas. Eles é que gostam muito. Suputar é avaliar por meio de cálculo, computar; suputação é o acto ou efeito de suputar; cálculo.
[Texto 3216]
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Tradução: «baisable»

Novas e velhas

      Esta quarentona é baisable — «fodível», verte o tradutor. «Desejável; sexualmente muito atraente», regista o Dicionário Francês-Português da Porto Editora. Mas désirables são aquelas adolescentes — françaises, beurettes, asiatiques — que ali estão junto da máquina de distribuição de preservativos.

[Texto 3215]
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Vulgarismos

Vulgar, mas desconhecido

      Não será porque gostem ou deixem de gostar, mas os Franceses também têm branlettes espagnoles. O tradutor verteu para «punhetas espanholas». Pode ser, mas, mais habitualmente, entre nós são conhecidas por espanholadas. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, contudo, «espanholada» é o «dito, frase, música, etc., próprio de espanhóis; fanfarronada; hipérbole». Está mal, os vulgarismos (ah!) também têm de estar nos dicionários. E o Dicionário Francês-Português da Porto Editora, se regista branlette, quanto à espagnole, nada.
[Texto 3214]
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Léxico: «tantrista»

Essa é a verdade

      Antes do almoço, a minha filha perguntou-me se quando for crescida pode ganhar a vida a fazer construções com peças de dominó, porque acha que as sabe fazer fantásticas. Porque não? Só esta tarde é que eu soube que também há tantristas (todos adolescentes em Maio de 68?). Por isso...
[Texto 3213]
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Tradução: «glissière de sécurité»

Mais um esquecimento

      O carro do rapaz despistou-se na auto-estrada e «heurta légèrement la glissière de sécurité». A mim, no dia 29 de Julho, aconteceu-me quase o mesmo: ia contornar uma rotunda, a menos de 20 km/h, mas tinha começado a chover intensamente e todo o lado esquerdo do carro, pesado, um Mercedes-Benz 220 CDI, deslizou para cima do lancil da rotunda, qual frágil folha batida pelo vento. Ah, sim: o tradutor verteu assim: «embateu ligeiramente na barreira de segurança». Estivesse no original «rail», e provavelmente seria «rail» (ou «raile», como já uma vez vimos) que passaria para a tradução. O Dicionário Francês-Português da Porto Editora regista «glissière», «corrediça», e quanto a expressões, nada.
[Texto 3212]
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«Alta Provença»

Mas as palavras perduram

      Aqui o nosso tradutor acha bem que o topónimo Haute-Provence fique por traduzir, talvez pense mesmo que nunca ninguém em centenas de anos da língua portuguesa se lembrou de o afeiçoar à nossa língua.
      «Só os olhos de ambos se devoravam, numa tensão tão violenta que ambos gritaram, por fim, nem sabiam já se de prazer ou dor, e ele caiu, prostrado, sobre o peito dela e assim ficaram, ainda abraçados, Manuel quase a adormecer, ela entoando, num sussurro, como a embalá-lo, uma velha canção dos pastores da Alta Provença, de uma tão bela e inquietante placidez que dir-se-ia brotar-lhe, estranha à sua natureza crispada, dos longes da retentiva, senão de uma memória anterior» (Exílio Perturbado, Urbano Tavares Rodrigues. Lisboa: Publicações Europa-América, 1982, p. 98).
[Texto 3211]
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«Cascos de Rolha»

Indeterminado, mas topónimo

      «O caso individual do aventureiro inconformado de outrora, que saltava o risco nacional, ou a transumância do rebanho penitente, que em fila indiana e com vieiras no chapéu vinha de Cascos de Rolha a Compostela, deram lugar a um excursionismo oficial e maciço por conta da unidade do mundo, de que já todos nos sentimos, pelo menos, cidadãos honorários» (Diários, Vols. IX a XII, Miguel Torga. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 5.ª ed., 2011, p. 52).
      É assim (e também no plural — Cascos de Rolhas) que Rebelo Gonçalves regista na página 223 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «cascos de rolha» e «Cascos de Rolha» — mas não regista, por exemplo, «cu-de-judas» e «Cu de Judas». Todos locais afastados e/ou indeterminados. (E por isso ainda hoje rio com vontade quando relembro esta frase de Nuno Pacheco, do Público, sobre o Acordo Ortográfico: «Até cu-de-judas deixou, para eles, de ser lugar remoto para ser o cu do próprio Judas, com caixa alta, assim mesmo.»)
[Texto 3210]
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«Que compara com», «face à», etc.

Quase português

      «As previsões do INE apontam para uma produtividade de 19.150 quilos por hectare, que comparam com os pouco mais de 10 mil de 2012. [...] A produção de maçã também regressou aos níveis de 2011, depois de no ano passado ter rondado os 17 mil quilos por hectare. Espera-se, agora, um aumento de 15% face à campanha anterior, muito prejudicada pela seca extrema registada nas principais regiões produtoras» («Um ano depois da seca, a produção agrícola recupera», Ana Rute Silva, Público, 21.08.2013, p. 18).
      E mais: «Depois de um ano marcado pela seca extrema, a produção de pêras e maçãs deverá aumentar em 2013, tal como a da uva para vinho.» Cara Ana Rute Silva, tem obrigação de saber que o plural de «pêra» não tem acento gráfico, pois não está em homografia com palavra proclítica. Digam-lhe, mostrem lá que o Facebook serve para alguma coisa.
[Texto 3209]
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«Tratar-se de», também

E na outra página...

      «Vestígios de fluidos corporais ao redor da boca e do nariz fariam supor à população, imbuída de uma superstição demoníaca, de que se tratariam de vampiros que se teriam alimentado de sangue recentemente» («Na Polónia, os arqueólogos andam às voltas com os vampiros», Catarina Durão Machado, Público, 20.08.2013, p. 23).
      Bem nos parecia que o Sr. Pierzak não tinha culpa de nada. Ele há-de perceber mais de vampiros, estacas, morcegos, etc. Foi Catarina Durão Machado que se distraiu. Agora já fica a saber: a construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular. Digam-lhe, mostrem lá que o Facebook serve para alguma coisa.
[Texto 3208]
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A boa escrita

Disse e morreu

      «Em 2001, o NYT pediu-lhe [ao escritor norte-americano Elmore Leonard, que morreu ontem] as dez regras da boa escrita e ele aconselhou: nunca começar um livro a falar do tempo, evitar prólogos, nunca usar outro verbo além de “disse” para terminar um diálogo e ter sempre os pontos de exclamação debaixo de olho (só são permitidos dois ou três em cem mil palavras)» («Morreu o escritor de policiais Elmore Leonard, “o Dickens de Detroit”», Isabel Coutinho, Público, 21.08.2013, p. 30).
[Texto 3206]
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Sobre «servente»

Vá lá

      «Paul Kengor e Kiron Skinner referem que o casal de empregados é retratado como se estivesse desconfortável neste jantar, passando a imagem de que os convidados do presidente seriam brancos e os negros apenas poderiam ser seus serventes» («Biógrafos de Ronald Reagan criticam retrato no filme O Mordomo», Cláudia Carvalho, Público, 20.08.2013, p. 28).
      Ah, claro que em português «servente» não é somente o operário não especializado da construção civil que desempenha tarefas secundárias, mas, neste preciso caso, a jornalista não terá usado a palavra porque o texto daqueles autores, em inglês, tinha o termo «servant»? Mérito relativo. Ou não: acaso.
[Texto 3205]
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Pronúncia: «Garrett»

Ninguém se mete com Garrett

      Na Antena 1, estão hoje a recordar o incêndio do Chiado, ocorrido em 1988. E como pronunciam o nome Garrett? Pois *Garré. Já aqui lembrámos que Garrett dizia que escrevia com dois tt para pelo menos lhe lerem um, mas a ironia não chegou a todos os ouvidos modernos.
      Escreveu Gonçalves Viana: «Se o nome fosse francês, que não é, nenhum francês, ao vê-lo escrito com dois tt finais, deixaria de pronunciá-lo gàréte [garréte]. A extravagante pronunciação garré é que não pertence a língua nenhuma conhecida, e só prima pelo ridícula que é.» E mais, acrescenta Gonçalves Viana, «o próprio poeta sempre pronunciou o seu apelido como se em português se escrevesse garréte, com a surdo na primeira sílaba, o acento tónico na 2.ª, e o t perfeitamente proferido. Assim lho ouvi eu várias vezes, assim o pronunciavam todos os seus contemporâneos».
[Texto 3204]
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«Magrizela/magricela»

Da magreira

      «– Onde pára esse vosso amigo magrizela?, – perguntou Reuben Hearne, dando um puxão ao cinto, ao mesmo tempo que fazia a pergunta com voz resmungona. – Não me serve de nada perder palavras com um par de miúdos...» (Acampamento no Bosque, David Severn. Tradução de José da Natividade Gaspar. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1949, p. 152).
      Hoje em dia, quase só ouço e leio «magricela». Terá contribuído para tal que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora de «magrizela» remeta para «magricela»? Castilho usou magriz (de onde provém «magrizela») e magrizel, mas isso já seria pedir demasiado aos dicionários.
[Texto 3203]
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«Bordar considerações»

Bordar ou tecer

      «Bordou ainda outras considerações, a respeito da presença de espírito, as quais fizeram Diana corar novamente, mas, desta vez, por um motivo muito diverso» (Acampamento no Bosque, David Severn. Tradução de José da Natividade Gaspar. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1949, p. 187).

[Texto 3202]
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Léxico: «romanichel»

Parecido, parecido

      «– Há cada vez menos, em cada geração. O que se encontram mais são raças misturadas... diddiekies, como nós lhes chamamos, e muitos funileiros que se fazem passar por ciganos, mesmo que não saibam uma só palavra da nossa língua romaniquel. Além disso, nos velhos tempos, não mais do que há cerca de cem anos, a nossa gente era muito rica. O meu bisavô tinha um carro, grande como uma casa, puxado por uma parelha de cavalos malhados» (Acampamento no Bosque, David Severn. Tradução de José da Natividade Gaspar. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1949, p. 262).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ignora o termo. Mas, curiosamente, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da mesma editora, regista «romanichel», assim como o Dicionário Inglês-Português. A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira também o regista, e aqui vejo uma «Resolução do Parlamento Europeu sobre a situação dos romanichéis na União Europeia». Ou seja, aqui José da Natividade Gaspar escorregou.
[Texto 3201]
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Plural dos apelidos

Este não era ignorante

      São duas famílias inglesas de ciganos: Reuben Hearne e a mulher, Marcos Lovel e a mulher, além dos filhos. São os...? «Os Hearnes e os Lovels deixaram a fogueira e só a gorda mulher do chefe continuava, de um lado para o outro, tirando os pratos e as facas» (Acampamento no Bosque, David Severn. Tradução de José da Natividade Gaspar. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1949, p. 295).
[Texto 3200]

 

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«Jaze»?

Aqui jaz

      «Daqueles prédios amontoados em baixo, subia um murmúrio de sons misturados: vozes humanas e de animais; a música afastada de um jaze; o ronco abafado dos realejos a tocarem no parque de diversões; os relinchos de inúmeros cavalos; o rodar de carros pelas ruas, tudo como para lhes recordar que já haviam chegado a Favercombe, que estavam no mês de Agosto e aquele dia era o segundo da feira maior e mais importante daquelas redondezas» (Acampamento no Bosque, David Severn. Tradução de José da Natividade Gaspar. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1949, p. 333).
      «Jaze»? Será o aportuguesamento de «jazz»? Não reeditou a Sextante, em 2010, a colectânea João na Terra do Jaze, de José Duarte?
[Texto 3199]
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«Eh»

Ainda se sabia bradar e exclamar

      «– Eh, – bradou Brian, logo que o avistou, e acenando com a mão enquanto com a outra continuou atirando para o lume ramos partidos e galhos mais secos. – Conseguiste trazer tudo?» (Acampamento no Bosque, David Severn. Tradução de José da Natividade Gaspar. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1949, p. 120).
[Texto 3198]
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«Havia um bom bocado»

O passado no passado

      «Já o crespúsculo começara, havia um bom bocado, quando Derek saiu com a bicicleta da estrada e meteu pela relva seca do monte» (Acampamento no Bosque, David Severn. Tradução de José da Natividade Gaspar. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1949, p. 85).
[Texto 3197]
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«Porta-voz», uma acepção

Este desapareceu

      «Continuava a não haver sinais de Derek, embora Brian gritasse mais uma vez, empertigando-se na beira do monte, com as mãos a fazerem de porta-voz à roda da boca» (Acampamento no Bosque, David Severn. Tradução de José da Natividade Gaspar. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1949, p. 85).
      Porta-voz, neste caso, é o «aparelho destinado a amplificar e dirigir o som», e não a «pessoa que transmite as ideias, decisões ou opiniões de outrem, nomeadamente de uma entidade oficial ou particular», como se lê, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

[Texto 3196]
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«Arrendar/alugar»

Ele sabia

      «– Sim, pensei poder arrendar ou comprar um bocado de terreno ali em cima, – explicou Crusoe. – Ali, ao pé da mata, o terreno não presta para cultivar e, por isso, não me parece que...» (Acampamento no Bosque, David Severn. Tradução de José da Natividade Gaspar. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1949, pp. 37-38).
[Texto 3195]
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«Levantar», uma acepção

Pouco se vê, agora

      «– Foi um amigo meu que a levantou, – explicou Crusoe. ­– Anda a aprender para arquitecto e, por isso, recorri aos seus conhecimentos. Planeámos juntos a cabana. A construção, já se sabe, será muito simples... tão simples quanto nos for possível. Estão aí escritas todas as medidas, de forma que pode perfeitamente calcular a porção de madeira precisa» (Acampamento no Bosque, David Severn. Tradução de José da Natividade Gaspar. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1949, p. 47).
      É acepção — proceder ao levantamento de (uma carta, uma planta) — que nem todos os dicionários registam actualmente.
[Texto 3194]
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Sobre «capô»

Umas décadas antes

      «– Mas... mas... a culpa não foi dele?, ­– protestou Pamela. – Com certeza que tinha de pagar tudo o que fez!, – ajuntou, apontando para o capô amolgado e para o pára-brisas encaixado no meio das ortigas da vala» (Acampamento no Bosque, David Severn. Tradução de José da Natividade Gaspar. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1949, pp. 22-23).
      Alguns hão-de pensar que só com o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, é que passámos a ter estes aportuguesamentos. Pois lamento desiludi-los, mas não.

[Texto 3193]
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«Marinhagem», uma acepção

Arte de navegar

      «“Começa a ser complicado arranjarmos maneira de nos organizarmos todos”, diz Luís Bento, tripulante de um dos moliceiros da empresa Onda Colossal. “As pessoas que andam nas bicicletas não percebem de marinhagem e atravessam-se à nossa frente”, observa o tripulante» («Bicicletas aquáticas tentam coexistir com os tradicionais moliceiros nos canais de Aveiro», Maria José Santana, Público, 18.08.2013, p. 25).
      Na maioria dos casos, marinhagem é usado na acepção de conjunto de marinheiros; pessoal empregado na manobra de um navio. Aqui, porém, é o conhecimento das manobras náuticas.

[Texto 3192]
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O discurso do PM

Ordem, clareza e gramática

      «O dr. Pedro Passos Coelho foi ao Pontal, lugar sagrado da sua seita, onde se aliviou de um emaranhado de frases sem ordem, sem clareza e sem gramática. Parece que o nosso querido primeiro-ministro confia nas suas qualidades de improvisador e não se dá ao trabalho de escrever os discursos com que pretende informar os portugueses. Os portugueses ficam na mesma; e os comentadores de jornal ou de televisão tentam depois (e nem sempre conseguem) extrair algum sentido do que o cavalheiro disse. Anteontem, pareciam bruxas à volta de um endemoninhado. Nem o próprio público jantante o percebeu» («Portugal descansado», Vasco Pulido Valente, Público, 18.08.2013, p. 56).
[Texto 3191]
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Ortografia: «entorse»

Imperdoável, Meritíssimo

      «O tribunal considerou que a “limitação de mandatos apenas tem aplicação territorial e não funcional”, abrindo caminho para que Menezes, presidente da Câmara de Gaia desde 1997, possa ser candidato no Porto. “Entender que a referida limitação é de cariz funcional aplicando-se a todo e qualquer município envolve, a meu ver, um entorce injustificado e de duvidosa constitucionalidade no livre acesso aos cargos políticos”, refere o juiz no despacho» («Tribunal alega que lei deixa dúvidas e recusa travar candidatura de Menezes», Pedro Sales Dias e Abel Coentrão, Público, 17.08.2013, p. 4).
      Esperemos que o magistrado conheça melhor a lei do que a ortografia. Deslizes quanto ao género, já aqui os vimos. Vasco Graça Moura, por exemplo, também se esqueceu de ir comprovar num dicionário — antes do Acordo Ortográfico ou depois do Acordo Ortográfico. Mas neste caso é pior: o s transmuta-se, por ignorância da ortografia, em c. Como a origem das entorses é quase sempre uma torcedura, eis que o s desaparece.

[Texto 3190]
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Léxico: «olinguito»

Por esse vasto mundo

      O mundo está longe de estar todo descoberto. Pela primeira vez em 35 anos, a comunidade científica anunciou a descoberta de uma nova espécie de mamífero — o olinguito (Bassaricyon neblina). Este pequeno carnívoro já andava aí pelos jardins zoológicos, mas pensava-se que se tratava do olingo, aparentado. Ora, nem o olingo está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, quanto mais o olinguito.
[Texto 3189]
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Léxico: «laça»

A atracção do ouro

      Ontem, no Telejornal, passou uma reportagem sobre o desfile das mordomas nas Festas da Senhora da Agonia, em Viana do Castelo. Uma das peças de ouro tradicionais é a laça, que é constituída por uma laçada dupla, actualmente em forma de coração invertido. Ao que parece, o nome provém, não desta dupla laçada, mas da argola que tem por trás para poder ser usada com uma fita de seda. Laça vem de laço, decerto, mas nesta acepção não a vejo em nenhum dicionário. Aparece no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas apenas as acepções «laçada; aselha [pequena asa; laçada; presilha]».

[Texto 3188]
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Como o indígena ignorante

A atracção das aspas

      Já por duas ou três vezes critiquei o uso excessivo das aspas nos textos de Vasco Pulido Valente. Com algumas intermitências, nada melhorou. A intenção, a ideia (tratando-se de Vasco Pulido Valente, tinha de haver uma ideia) é dar a entender que o indígena é que se exprime daquela maneira — que ele usa apenas para se fazer compreender, porque afinal está a escrever para o indígena ignorante. Por vezes, porém, como na crónica publicada hoje, a intenção não é essa, simplesmente escreve como o indígena ignorante. «O jornal Expresso, em homenagem ao seu proprietário, resolveu este mês publicar uma sequela de Os Maias, que, como o nome indica, é uma continuação da história de Carlos da Maia e de João da Ega, a partir do momento que eles correm atrás do “americano” para não chegarem tarde a um jantar de amigos» («A atracção da asneira», Público, 17.08.2013, p. 44).
[Texto 3187]
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Léxico: «desnatural»

Também gosto

      Desnatural. Ora aqui está um formidável adjectivo, que ainda hoje me lembraram que foi usado por Oliveira Martins: «Esse tipo que nós receamos não acentuar devidamente, temendo a escassez dos recursos da nossa pena, era desnatural por assentar, senão no desprezo universal das coisas como Sila, no desdém universal dos homens» (História da República Romana, II, Oliveira Martins. Lisboa: Guimarães Editores, 1965, p. 381).
      Desnatural: não natural; contra a Natureza; desconforme; inverosímil; extraordinário.

[Texto 3186]
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Léxico: «descarinho»

Português diferente

      O leitor Rui Almeida quis partilhar comigo este excerto de uma obra da escritora e tradutora brasileira (mas nascida em Lisboa, onde a família vivia então exilada) Tatiana Salem Levy: «Não comia mais do que umas torradas com manteiga e um copo de leite com café, estava enfraquecendo, e os parentes diziam que só podia ser descarinho: ele está descarinhado, repetiam, pensando em mandá-lo de volta à Turquia no próximo navio. Mesmo os que moravam no Brasil há algum tempo ainda misturavam o português com a língua materna. Por isso diziam descarinho, que é a palavra deles para exprimir saudades» (A Chave da Casa, Tatiana Salem Levy. Lisboa: Livros Cotovia, 2007, p. 71).
      Descarinho... Bonita palavra. Camilo usou-a. Descarinho é falta de carinho, pois claro, mas também sevícias, maus tratos; desumanidade, rudeza, crueldade. A autora é de uma família judia. Agora leiam: «Era grande o apego e o descarinho que Portugal exercia no espírito daqueles descendentes. O sr. Joel estranhou aquele termo, descarinho, e pediu explicações: “é a palavra que usamos com frequência para exprimir a nostalgia que temos de alguém ou de alguma coisa. A mãe que tem o filho ausente diz que está “descarinhada”, privada do carinho, do seu filho”» (Judeus em Portugal: o Testemunho de 50 Homens e Mulheres, dir. José Freire Antunes. Versalhes: Edeline, 2002, p. 112).
[Texto 3185]


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«Sob», de novo

Grande abuso

      «O bombeiro que morreu esta tarde tinha 41 anos. Pertence à corporação da Covilhã, e os bombeiros que o acompanhavam estão sob ajuda psicológica» (repórter Adília Godinho, Telejornal, 15.08.2013).
      «Sob ajuda»... Leiam de novo o que João de Araújo Correia escreveu sobre esta preposição na obra A Língua Portuguesa: «Sabe-se, nesta enfermaria, que o celebérrimo sob, não obstante o instinto popular, que o sacode, não deixa de ser preposição portuguesa. Veio do Latim, sem passar pelo estômago do povo, mas, veio... Veio porque seria precisa esta preposição. Tanto, que bons escritores a empregaram. Mas, honra lhes seja, não abusaram dela. Foram, no seu manejo, tão cautelosos como elegantes. Quase se pode dizer que limitaram o sob à expressão abstracta, em frases como as seguintes: sob reserva, sob caução, sob custódia. Fora dessas frases, que se tornaram fixas, e à parte a discreta liberdade de algum estilista, o uso do sob é arriscado. Não abusemos dele, sob pena de o tornarmos ridículo» (Lisboa: Editorial Verbo, p. 75).
[Texto 3184]
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Sobre «ciclostilo» e derivadas

Mas temos outras

      «Essa mesma versão circulou ciclostilada em vários documentos editados na clandestinidade. Depois do 25 de Abril, foi publicada em Os Comunistas. Bento Gonçalves, Porto, Opinião, 1976. Há outra versão oriunda em diferente tradução (?)» (Álvaro Cunhal: Uma Biografia Política, o Jovem Revolucionário, 1913-1941, José Pacheco Pereira. Lisboa: Temas e Debates, 1999, p. 117).
      Via-se dantes com alguma frequência, muito mais do que ciclostilo ou ciclostilar. «Ciclostilo», embora grego, vem do inglês cyclostyle. Não será por isso que não está nos dicionários, evidentemente. Só vejo registado «ciclostilo» («aparelho ou instrumento para tirar cópias sucessivas, por gravação») no Aulete. O dicionário da Real Academia Espanhola explica melhor: «Aparato que servía para copiar muchas veces un escrito o dibujo por medio de una tinta especial sobre una plancha gelatinosa.» No Dicionário Inglês-Português da Porto Editora vemos a tradução: «copiógrafo». E, claro, temos policópia, policopiar.
[Texto 3183]
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Depois das «maturidades»

Sem remédio

      «A Autoridade da Concorrência não se opõe à fusão entre a Zon e a Optimus (do mesmo grupo do PÚBLICO) desde que sejam observados vários remédios» («Fusão Zon/Optimus», Público, 15.08.2013, p. 17). 
      Usa-se agora muito o termo «remédio» (e sempre no plural) a propósito deste caso, e eu pergunto a mim mesmo se não é outra tal como as «maturidades». Acho que sim, que é mais um anglicismo semântico: «the legal means to recover a right or to prevent or obtain redress for a wrong» (Merriam-Webster).
[Texto 3182]
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Quádruplo, desta vez

A língua da abundância

      O português é, lembra-nos de vez em quando Montexto, duplo. Pelo menos, mas por vezes pode ser quádruplo: avantesma, abantesma, aventesma, abentesma. Talvez a mais usada seja a primeira variante, mas agora, num texto que estou a rever, o autor usou várias vezes «aventesma».
[Texto 3181]
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Desta vez, «mafia»

É ir vendo

      «Entre 1975 e 1990, Bulger informou o FBI sobre um grupo rival, pertencente à mafia italiana, enquanto ele próprio continuava a matar e a intimidar, sob a protecção da agência» («James “Whitey” Bulger não era nenhum Tony Soprano», Kathleen Gomes, Público, 14.08.2013, p. 26).
       É talvez a primeira vez que veja a palavra grafada assim no Público. Já no Diário de Notícias, é precisamente ao contrário, só por excepção — esquecimento? — é que a grafam com acento.
[Texto 3180]
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Sobre «consequente»

Adivinha-se

       «Menos de três meses depois, a 22 de Novembro, Kennedy morreu, assassinado a tiro durante uma visita a Dallas, no Texas. Esses dois momentos — a Marcha em Washington e a inesperada morte do Presidente Kennedy —, ocorridos há 50 anos, fizeram de 1963 um ano extremamente consequente para a história dos negros na América» («Ele teve um sonho», Kathleen Gomes, «2»/Público, 11.08.2013, pp. 20-21).
       O termo «consequente» — que se deduz; que segue naturalmente; que raciocina bem; coerente — foi aqui usado com propriedade? Que acham?
[Texto 3179]
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Léxico: «marteleiro»

Mas que martelo

      «O seu primeiro acto político foi então no seu primeiro trabalho como marteleiro, numa obra perto da aldeia, num dia em que uma mulher quase desmaiava de chorar» («José Barros. A vinha crescendo da pedra», Susana Moreira Marques, Público, 12.08.2013, p. 10).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista apenas que é o «indivíduo que martela» — mas há martelos e martelos, e no caso talvez se trate de um martelo pneumático.

[Texto 3178]
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«Gibraltarino» e «gibraltino»

E já não é mau

      «A Assembleia Geral da ONU aprovou várias resoluções apelando ao início de negociações entre Espanha e Reino Unido para pôr fim ao colonialismo em Gibraltar. Isto levou ao referendo de 1967, em que 99,64% dos llanitos (como em Espanha se designam os habitantes de Gibraltar) disseram querer continuar a ser britânicos» («Um troféu de guerra britânico que Espanha nunca desistiu de tentar recuperar pela espada ou pela caneta», Clara Barata, Público, 13.08.2013, p. 25).
      Isso são lá coisas dos Espanhóis, ou de alguns — Álvaro I. Sanromán optou (ou esqueceu-se?) por não a incluir no Dicionário Espanhol-Português da Porto Editora, que salta de llaneza passa para llano. E nos verbetes gibraltareño e gibraltareños também não a usa. Nós, para os habitantes do Rochedo, só temos duas designações: gibraltarino e gibraltino.
[Texto 3177]
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As aspas intrometidas

Não se justificam

      «Até aos anos 1980, os comboios portugueses tinham não um segundo maquinista mas sim um “condutor”, que tinha como função dar o alerta à aproximação dos sinais, dizendo em voz alta “aberto” ou “fechado” consoante a posição destes. Uma medida destinada a reforçar a segurança no caso de o maquinista ir distraído. [...] Os “condutores” — que descendiam dos antigos fogueiros que punham carvão nas locomotivas — passaram a ser uma classe em extinção e hoje só se mantêm nos comboios de mercadorias» («Acidentes abrem debate sobre as vantagens de um segundo maquinista a conduzir comboios», Carlos Cipriano, Público, 12.08.2013, p. 9).
      As aspas devem ser porque «condutor» é quem conduz — e este segundo elemento apenas assinala, alerta. Mas nada justifica as aspas, porque é esse o nome da função. E mais, o próprio jornalista afirma que «a mesma evolução tecnológica que tornou dispensável o segundo elemento na condução do comboio, etc.». Na condução, então.
[Texto 3176]
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«Ciclopista»?

Ora, já temos outra

      «No que diz respeito à possibilidade de o serviço vir a estar ao alcance de visitantes ocasionais, Nuno Santos diz estar a “avaliar” a situação, acrescentando que a rede de 30 quilómetros de ciclopistas está aberta a todos» («O uso da bicicleta “chique” em Vilamoura virou moda nas idas à praia», Idálio Revez, Público, 12.08.2013, p. 13).
      Até agora, «ciclopista» só da boca ou da pena de espanhóis é que a vi sair. Já temos o neologismo «ciclovia», talvez chegue.
[Texto 3175]
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Léxico: «chega»

Chega!

      Ontem, no Jornal da Tarde, vi uma reportagem sobre chegas de bois de raça barrosã (com mais de 1000 kg!) em Montalegre. A entrada custava 10 euros, e o prémio para o dono do vencedor foi de 750 euros. Tudo ficou resolvido em 2 minutos. Dantes, a chega era a luta entre bois do povo, isto é, sementais, bois reprodutores que pertenciam a toda a aldeia. Pois acontece que a palavra «chega», nesta acepção, não está em todos os dicionários. Não está, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Às tantas, até nos dicionários de galego se encontra, pois os galegos arraianos com o Barroso, os de Randin, Muínos, Baltar, também tinham antigamente chegas de bois. Não é assim, Fernando Venâncio?

[Texto 3174]
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Léxico: «mandinga»

Não me mandingues!

      Só hoje, que cheguei ao conhecimento do Antigo Breviário de Rezas e Mandingas, é que soube que até as dores de cabeça têm patrono — Santo Aspácio. A mim tem-me feito bem Aspegic (que fica aqui para não estar apenas nas crónicas de António Lobo Antunes. Ala). Ah, sim, e também não conhecia a palavra «mandinga» — feitiçaria, sortilégio —, que recebemos de África.
[Texto 3173]
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Léxico: «contrapicado»

Do cinema para todo o lado

      «Depois ninguém sabe explicar o que se deu. Se foi dos eflúvios etílicos que envolveram a sala, se foi o olhar contrapicado do médico agachado no chão para a cara seguramente sinistra de Joaquim – e, olhada de baixo, toda a gente assume um ar aterrador» (Que Importa a Fúria do Mar, Ana Margarida de Carvalho. Lisboa: Editorial Teorema, 2013).
      Tem de ser o Dicionário Houaiss a registá-lo e a dizer que se trata de um lusismo, pois os nossos dicionários, estranhamente, omitem-no. É mais um — ou menos um, conforme a perspectiva.

[Texto 3172]
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«Está bem, abelha»

Como quem manda à merda

      Acabei de ler a expressão, que não ouvia nem lia há muito, e lembrei-me que Cardoso Pires a usou várias vezes nas suas obras. «Sorriso maldoso do inspector. Óculos escuros é com ele, mas em tecnicolor polaroid. No entanto faz-se desentendido; pensa: Está bem, abelha. E recosta-se na cadeira. Tem a ordem de captura à mão de assinar mas quer ouvir primeiro, saber opiniões. Opiniões? Elias não há meio de entender por que diabo aparece o mangas da secretaria metido naqueles expedientes. Conselheiro chamado de aflição para os devidos efeitos?» (Balada da Praia dos Cães, José Cardoso Pires. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, 17.ª ed., p. 136).
[Texto 3171]
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«Período compulsivo»

Também foi

      «“Entendeu-se que [o palacete] era ideal para albergar sindicatos e uma cooperativa, a Cooperativa de Produção e Consumo Proletário Alentejano”, recorda Valverde Martins [antigo coordenador da União dos Sindicatos do Distrito de Beja]. Sem conseguir precisar a data da entrada na casa, recorda ter sido “no período compulsivo a seguir ao 11 de Março”» («“Sentíamos repulsa por eles. Quando me entregaram a chave da casa senti que era justo”», Vanessa Rato, Público, 11.08.2013, p. 12).
      Pois, foi isso que disse Valverde Martins, e a jornalista, mesmo vendo que está incorrecto, que é um lapso manifesto, deixa tal qual. Mas sim, também foi um período compulsivo para alguns, como os grandes proprietários, os latifundiários, alguns militares que não sabiam exactamente o que estavam a fazer, porque nada lhes era explicado ou eram enganados...
[Texto 3170]
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«Deo optimo maximo»

É o que cada um quiser

      O português Pedro Paulo, barman a trabalhar no Hotel One Aldwych, em Londres, ganhou um dos mais importantes concursos de cocktails do mundo, o UKBG National Cocktail Competition, patrocinado pelo licor francês Bénédictine. O nome da bebida que preparou, One DOM, é também uma mistura: do nome do hotel e da divisa dos Beneditinos, Deo optimo maximo, mas que normalmente só é conhecida pela abreviatura D. O. M., inscrita nas garrafas daquele licor. «A Deus, que é muito bom e muito grande» é uma das possíveis traduções. Para Pedro Paulo, porém, é antes «Para Deus, para os mais corajosos, para os mais audazes».
[Texto 3169]
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Ortografia: «antiestalinista»

Por antonomásia

      «Isso custou-lhe inimizades internas. “Sempre fui profundamente anti-estalinista e tive alguns problemas com o partido por causa disso. Estive nitidamente a favor da insurreição de Praga e escrevi contra a invasão dos tanques soviéticos, das barbaridades que se fizeram. Eu era a favor da Primavera, do chamado socialismo de rosto humano”, disse, afirmando-se seguidor do panteísmo e depois de assegurar que, enquanto dirigente do PCP, sempre separou a escrita da militância» («O homem que via os deuses ao lado», Isabel Lucas, Público, 10.08.2013, p. 3).
      Cara Isabel Lucas: anti-Estaline, mas antiestalinista. Parabéns, porém, pelo «partido» minúsculo e não, como se vê demasiadas vezes, maiúsculo, «Partido».
[Texto 3168]
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«Haveria de»

Mais e sempre avarias

      «E [o escritor Mário de Carvalho] salienta a “fábrica da escrita”, ou seja, o processo criativo torrencial de um escritor que leu muito cedo. Uma Pedrada no Charco (novela de 1957), Os Bastardos do Sol (1959) ou de haveria de ler Histórias Alentejanas (1977). [...] A sua referência moral e política haveria de ser Álvaro Cunhal, mas o militante do Partido Comunista fazia questão de vincar a sua oposição ao regime de Estaline» («O homem que via os deuses ao lado», Isabel Lucas, Público, 10.08.2013, pp. 2-3).

[Texto 3167]
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