Bê-á-bá: o plural

Portanto, eles é que sabem português


      E escrevem todos assim, não apenas este ou aquele: «Isso nos leva às motivações profundas dos Bolsonaros» («O que querem os Bolsonaros?», Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo, 24.07.2026, p. A5). «Contavam que os partidos cairiam no colo dos Bolsonaros por gravidade, identificação ideológica e rejeição ao PT de Luiz Inácio da Silva» («Direita profissional acha Flávio amador», Dora Kramer, Folha de S. Paulo, 24.07.2026, p. A5).

[Texto 23 349]


Como se escreve por aí

O pior são os verbos


      «Ajudámos 23 alunos a tornar-se médicos», gaba-se — e faz bem, porque há-de ser verdade — a Alumni Medicina – Associação de Antigos Estudantes de Medicina da Universidade do Minho num anúncio no LinkedIn. Agora só espero é que esses médicos ou futuros médicos não sejam gratos a ponto de seguirem a gramática avariada do anúncio. «Ajudámos 23 alunos a tornarem-se médicos», assim devem escrever. Ora, de nada. Sede bons para com os pobres.

[Texto 23 297]

Atractores da próclise

Ou como se escreve por aí


      «Se o nome de Emuna Mia era já conhecido – até porque foi exposta, em abril, numa reportagem da SIC –, a investigação da Polícia Judiciária revelou o eventual envolvimento dos médicos Pedro Barreira e João Vasco Barreira, gémeos, conhecidos nas redes sociais como ‘Twin Docs’, cujo envolvimento resume-se a nove casos» («Fraude nas reformas beneficiou 182 pessoas», Carlos Rodrigues Lima, Correio da Manhã, 2.07.2026, p. 12). 
      Se falta intuição, dada pelas leituras, se falta estudo, estamos muito mal. É patente que o jornalista nunca ouviu falar em atractores da próclise. Na frase, a presença do determinante relativo «cujo» atrai o pronome «se» para antes do verbo: «cujo envolvimento se resume a nove casos».

[Texto 23 231]

«Quer-la», de novo

Há sempre quem saiba


      «A chave do autocarro está no meu bolso. (Bate no bolso com fúria.) Aqui, aqui mesmo, no meu bolso! Quer-la? Experimenta tirá-la, meu gorducho!» (A Noite da Iguana, Tennessee Williams. Tradução de Idalina S. N. Pina Amaro. Colecção «Os livros das três abelhas». Lisboa: Publicações Europa-América, 1965, p. 79).

[Texto 23 230]

Como se escreve por aí

Descontraia, relaxe


      «Se era normal o choro dos congressistas sociais-democratas em transe pelo Chega ter votado contra depois da “negociação”, já totalmente absurda foi a intervenção da ministra do Trabalho, Maria do Rosário Palma Ramalho» («Em Sangalhos, um PSD em frangalhos», Ana Sá Lopes, Público, 22.06.2026, p. 40). Descontraia, Ana Sá Lopes, não fique tensa: «em transe por o Chega». Assim é que é. Miguel Relvas diria o mesmo de mim: devem ver as minhas críticas como uma assessoria gratuita.

[Texto 23 192]

Qué-la, quere-a, quer-la

Que é lá isso?

 

      Quando, seis meses depois, Elvira Clancy vai ao velório de um habitante, agricultor e feniano, o filho do defunto, um tipo fortalhaço e brutamontes, certamente um dos melhores clientes de algum pub nas imediações, corre um cortinado junto da urna onde a nossa obituarista está em devaneios, e reclama: «A minha mãe deu-te uma gorjeta.» «Ela insistiu», defende-se Elvira. «Ela qué-la de volta. Diz que o texto estava uma porcaria.» É o que se lia nas legendas, que, juntamente com a tradução, são de Luís M. A. Freitas. Acontece, e isto é curiosíssimo, que a série já tinha passado em Setembro de 2025, com tradução e legendagem do mesmíssimo Luís M. A. Freitas, e lia-se então isto: «Ela quere-a de volta.» Isto é inédito. Algum espertalhão suposto entendido achou que estava errado e optou por uma forma correcta, sim, mas malsoante e minoritária. Vejam que lição e que proveito tiram daqui: «Usa o verbo ser e as formas verbais esté (= esteja), imos (=vamos), se rimem em vez de se redimem, rim (por riem), jouverão, trouverã-me; com pronome encontram-se as formas illas (= ir-las), quella (por quer-la, ou quere-a)» (História da Língua Portuguesa, Serafim da Silva Neto. Lisboa: Editorial Presença, 1986, p. 508).

[Texto 23 088]

Extras! Extras! Extras!

Eles sabem


      «Pós-operatório de transplante capilar inclui despesas extras de R$ 4.000» (Ivan Finotti, Folha de S. Paulo, 22.04.2026, p. B13).

[Texto 22 865]

Extras! Extras! Extras!

Não se esqueçam


      «O ex-diretor executivo do SNS António Gandra d’Almeida afirmou ontem que o INEM “só funcionava com muitas horas extras e prestação de serviços, tal como o resto do SNS”» («INEM só funciona com horas extras», E. N., Correio da Manhã, 27.03.2026, p. 19).

[Texto 22 702]

Arquivo do blogue