Plural de «acordo»

Ora bolas


      «Mergulhemos no verão, descobrindo lugares que se abram aos nossos sentidos como um fruto apetecível. Que entretanto assessores diligentes possam explicar ao primeiro-ministro e a muitos senhores deputados, prontos para irem a banhos, que o plural de “acordo” se pronuncia “acôrdos” e não “acórdos”» («Mergulhemos no verão», Fernando Alves, TSF, 17.07.2026). Assim é. Só é pena que ao longo do texto ora se sigam as regras do Acordo Ortográfico de 1990, ora as do Acordo Ortográfico de 1945, ora nenhumas.

[Texto 23 307]

Como se escreve por aí

Faltam dois dias


      «A instituição ultra conservadora da Igreja Católica que ameaça desobedecer ao Papa e causar um cisma já na próxima quarta-feira está a crescer em Portugal e acaba de inaugurar uma nova igreja em Lisboa. No passado dia 10 junho, a Fraternidade Sacerdotal Pio X – é assim que se chama a instituição – abriu as portas de uma nova capela em Marvila, onde todos os dias há missas em latim e se reúnem os seguidores de Marcel Lefebvre, o arcebispo francês que se tornou no símbolo da versão mais tradicionalista da Igreja e que se opõe às reformas do Concílio do Vaticano II» («Igreja Católica. Tradicionalistas abrem cisma», Catarina Guerreiro, Nascer do Sol, 26.06.2026, 7h00). 
      Que maravilha, missas em latim. Agora é que vamos passar a ter católicos fervorosos e cultos. A jornalista também podia passar a frequentá-las, mas entretanto fica já a saber que se escreve «ultraconservador».

[Texto 23 208]

Ortografia: «fluido»

Talento nato

      «Há palavras que dizem mais de quem as profere do que de quem estas visam. Foi o que aconteceu na última terça-feira, na Faculdade de Direito de Lisboa, quando Pedro Passos Coelho, a apresentar A Constituição Fluída, de Blanco de Morais, avisou que o político postiço acaba “como um prostituto sem carácter”» («O caráter que Passos não viu ao espelho», Davide Amado, Diário de Notícias, 1.06.2026, p. 8).
      Eles lá se arranjam sempre para nos trazer um erro ou outro. Felizmente não é jornalista, mas deputado. Claro que o jornal também tem culpa: limpava-lhe o acento de «fluida» e serviam-nos melhor. Para tal, bem sei, tinham de se verificar duas condições: saberem e verem.
[Texto 23 091]
 

Assim, 1.º ciclo, 2.º ciclo, secundário, ensino superior

Isto já está


      Vá lá, no Público — nos outros jornais não sei — já perceberam que é assim que se deve escrever, 1.º ciclo, 2.º ciclo, secundário, ensino superior. Mas há alguma razão para ser de outra maneira? Agora só falta convencer os restantes dez milhões de portugueses. Mas essa antevê-se como a parte mais fácil, depois de pôr jornalistas, revisores, editores, professores a escrever como deve ser. Há esperança. «No “limite” da sobrecarga e exaustão, os educadores de infância e os professores do 1.º ciclo vão estar em greve no dia 15 de Junho» («Professores do 1.º ciclo e educadores de infância em greve a 15 de Junho», Cristiana Faria Moreira, Público, 19.05.2026, p. 16). 

      Se estivéssemos no Brasil, porém, ainda teríamos um trabalho suplementar: convencer a galera — incluindo as pessoinhas, que me tinham por inimigo, do Não-Sei-Quê & Gramática, ora extinto — do acerto (entretanto convertido em regra graças ao uso continuado por décadas) do ponto: 1.º e não , que isto são graus, porra. Cá continua, e continuará,  a ver-se muitas vezes sem ponto, mas tal decorre do mero desmazelo e ignorância, não de obstinação pétrea como o pau-brasil.

[Texto 23 027]

Ortografia: «bruaá»

Nós é que ficamos


      «Paulo Pedroso e Francisco Assis, que são do PS, concordam com Rangel e os seus argumentos são claros. Assis insurgiu-se contra uma “retórica infantil e extremista”, enquanto Paulo Pedroso lembrou que Portugal “sempre deu grande latitude” aos EUA na utilização das Lajes, mesmo no tempo dos vários governos do PS (a diferença está no “bruá” e no “alarido” de cada Administração norte-americana no poder, sublinhou o ex-ministro)» («Rangel e a base das Lajes no meio do “bruá”», Helena Pereira, Público, 19.05.2026, p. 6). 

      E logo no editorial... Helena Pereira, consulte dicionários e vocabulários, não vai ficar mais cansada ao fim do dia. Nós é que ficamos quando lemos estes erros. Em português é bruaá, com dois aa, o que se explica pelo étimo, francês, que é brouhaha.

[Texto 23 020]

Erros de sempre e para sempre

E não há esperança


      «Estrelas em ascenção à boleia da história de amor de Kennedy Jr.» (Margarida Cerqueira, Jornal de Notícias, 18.05.2026, p. 31).

      Ainda um dia (hoje?) em que não tenha nada de mais importante para fazer, Margarida Cerqueira, experimente consultar um dicionário. Verá coisas extraordinárias, que não lhe vou revelar, e coisas banais, como esta de a palavra se escrever «ascensão». De verbos terminados em «-ender», retenha, temos substantivos derivados com «-são». Logo, ascender, ascensão. Simples, não é? Partilhe, diga ao seu editor.

[Texto 23 006]

Sorbona, pois claro. Léxico: «igualizador»

Sejamos minoria


      Por vezes, o nome esconde a origem: estava escrito que um dia (que por acaso é hoje) saberiam que o nome Sorbonne (ou Sorbona, aportuguesado) para designar a célebre universidade de Paris era inicialmente o nome de um colégio (collegium) fundado em 1250 pelo teólogo Robert de Sorbon (1201-1274). Desde o século XIV este veio a ser a sede da faculdade de Teologia. Só no início do século XIX o nome se estendeu a toda a universidade. 

      Se puderem, se a mamã deixar, escrevam sempre Sorbona, só para contrariar a imparável vaga igualizadora: «Contra os ataques da Sorbona, Francisco I abriga os humanistas do Collége Royal, e a própria universidade é atingida pelo vírus: em 1533 o seu reitor Nicolau Cop, amigo de Calvino, pronuncia um discurso inaugural em que defende teses heterodoxas, com tal escândalo que teve de abandonar o cargo e refugiar-se em Basileia» (O Humanismo em Portugal, António José Saraiva. Lisboa: Edição do Jornal do Foro, 1954, p. 37).

[Texto 22 855]

Duala, Camarões

Parece mentira


      Então, c’um caraças, até no portal da Air France aparece Duala e os nossos jornalistas, apesar de advertidos mais de uma vez, insistem em escrever Douala?!

[Texto 22 853]

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