Como se escreve por aí

Ainda estamos nesta fase?


      «O ashram era modesto, sóbrio sem severidade e mais parem um colégio do que com um convento. Atravessámos am pequeno pátio com dois relvados murchos e duas árvorezinhas» (Vislumbres da Índia, Octavio Paz. Tradução de José Colaço Barreiros e revisão de João Carlos Alvim. Lisboa: Relógio D’Água, 2017, p. 35). 
      Mau... Pensava que já toda a gente sabia isto, ou pelo menos quem anda a traduzir e a rever livros. A forma correcta é «arvorezinhas», sem acento. Ao juntar-se -zinho/-zinha a uma palavra proparoxítona, desloca-se o acento tónico para o sufixo: árvorearvorezinha; lâmpada lampadazinha; príncipe → principezinho. A vogal que era tónica na palavra primitiva torna-se átona, e desaparece, portanto, o acento gráfico que apenas se justificava pela proparoxitonia.

[Texto 23 524]

Ortografia: «Dôver»

Nem os topónimos escapam


      «Um grupo de dezenas de manifestantes, muitos deles mascarados, bloqueou ontem o trânsito de entrada e saída do porto de Dover, o mais movimentado do Reino Unido, numa manifestação do grupo de extrema-direita Movimento Patriota, que pretende denunciar a chegada de migrantes através do canal da Mancha» («Manifestantes encapuzados de extrema-direita bloquearam porto britânico de Dover», Público, 6.09.2026, p. 31).
      Ainda os jornalistas têm, ou julgam ter ou dizem outros que eles têm, desculpa, mas nas traduções é o mesmo: se o topónimo está aportuguesado há larguíssimas décadas em Dôver, porque havemos de usar a grafia inglesa? Não têm brio, orgulho, em usar o que é nosso?

[Texto 23 480]

Ortografia: «menino bem»

Ora sobra, ora falta


      «Tudo ia calmo no pátio, mais calmo do que o habitual, não havia gritaria nem serenata, só se ouviam as vozes e os gatos a miarem pelos cantos, uma vez por outra um carro que passava lá fora na Avenida de Ceuta, o tio Artur puxou a conversa, temos de levar o rapaz ao Atlético, e logo o Lúcio da tasca que dizia as coisas duas vezes respondeu, quando vier o Belém, quando vier o Belém, e riu-se, riram-se todos, o Victor não percebeu do que se riam eles, que mal tinha o Belenenses?, o Belém, e o tio explicou, quando vem o Belém há sempre sarrabulho, e o Victor perguntou porquê, e o Lúcio respondeu, ora, operários contra meninos-bem já se sabe que não pode acabar aos abraços, depois verás, depois verás» (Pés de Barro, Nuno Duarte. Revisão de Madalena Escourido. Alfragide: Leya, 2025, 3.ª ed., pp. 36-37). 
      Há-de ser confusão com «menino-bonito». Nunca vi o adjectivo invariável «bem» ligado por hífen neste caso. Mais valia ter guardado o hífen para outros casos em que é necessário e não o usou, como em «um tipo mal encarado» (p. 27), «passadeiras de madeira mal amanhadas» (p. 33), «o cardeal patriarca Manuel Gonçalves Cerejeira» (p. 38), por exemplo.

[Texto 23 418]

Plural de «acordo»

Ora bolas


      «Mergulhemos no verão, descobrindo lugares que se abram aos nossos sentidos como um fruto apetecível. Que entretanto assessores diligentes possam explicar ao primeiro-ministro e a muitos senhores deputados, prontos para irem a banhos, que o plural de “acordo” se pronuncia “acôrdos” e não “acórdos”» («Mergulhemos no verão», Fernando Alves, TSF, 17.07.2026). Assim é. Só é pena que ao longo do texto ora se sigam as regras do Acordo Ortográfico de 1990, ora as do Acordo Ortográfico de 1945, ora nenhumas.

[Texto 23 307]

Como se escreve por aí

Faltam dois dias


      «A instituição ultra conservadora da Igreja Católica que ameaça desobedecer ao Papa e causar um cisma já na próxima quarta-feira está a crescer em Portugal e acaba de inaugurar uma nova igreja em Lisboa. No passado dia 10 junho, a Fraternidade Sacerdotal Pio X – é assim que se chama a instituição – abriu as portas de uma nova capela em Marvila, onde todos os dias há missas em latim e se reúnem os seguidores de Marcel Lefebvre, o arcebispo francês que se tornou no símbolo da versão mais tradicionalista da Igreja e que se opõe às reformas do Concílio do Vaticano II» («Igreja Católica. Tradicionalistas abrem cisma», Catarina Guerreiro, Nascer do Sol, 26.06.2026, 7h00). 
      Que maravilha, missas em latim. Agora é que vamos passar a ter católicos fervorosos e cultos. A jornalista também podia passar a frequentá-las, mas entretanto fica já a saber que se escreve «ultraconservador».

[Texto 23 208]

Ortografia: «fluido»

Talento nato

      «Há palavras que dizem mais de quem as profere do que de quem estas visam. Foi o que aconteceu na última terça-feira, na Faculdade de Direito de Lisboa, quando Pedro Passos Coelho, a apresentar A Constituição Fluída, de Blanco de Morais, avisou que o político postiço acaba “como um prostituto sem carácter”» («O caráter que Passos não viu ao espelho», Davide Amado, Diário de Notícias, 1.06.2026, p. 8).
      Eles lá se arranjam sempre para nos trazer um erro ou outro. Felizmente não é jornalista, mas deputado. Claro que o jornal também tem culpa: limpava-lhe o acento de «fluida» e serviam-nos melhor. Para tal, bem sei, tinham de se verificar duas condições: saberem e verem.
[Texto 23 091]
 

Assim, 1.º ciclo, 2.º ciclo, secundário, ensino superior

Isto já está


      Vá lá, no Público — nos outros jornais não sei — já perceberam que é assim que se deve escrever, 1.º ciclo, 2.º ciclo, secundário, ensino superior. Mas há alguma razão para ser de outra maneira? Agora só falta convencer os restantes dez milhões de portugueses. Mas essa antevê-se como a parte mais fácil, depois de pôr jornalistas, revisores, editores, professores a escrever como deve ser. Há esperança. «No “limite” da sobrecarga e exaustão, os educadores de infância e os professores do 1.º ciclo vão estar em greve no dia 15 de Junho» («Professores do 1.º ciclo e educadores de infância em greve a 15 de Junho», Cristiana Faria Moreira, Público, 19.05.2026, p. 16). 

      Se estivéssemos no Brasil, porém, ainda teríamos um trabalho suplementar: convencer a galera — incluindo as pessoinhas, que me tinham por inimigo, do Não-Sei-Quê & Gramática, ora extinto — do acerto (entretanto convertido em regra graças ao uso continuado por décadas) do ponto: 1.º e não , que isto são graus, porra. Cá continua, e continuará,  a ver-se muitas vezes sem ponto, mas tal decorre do mero desmazelo e ignorância, não de obstinação pétrea como o pau-brasil.

[Texto 23 027]

Ortografia: «bruaá»

Nós é que ficamos


      «Paulo Pedroso e Francisco Assis, que são do PS, concordam com Rangel e os seus argumentos são claros. Assis insurgiu-se contra uma “retórica infantil e extremista”, enquanto Paulo Pedroso lembrou que Portugal “sempre deu grande latitude” aos EUA na utilização das Lajes, mesmo no tempo dos vários governos do PS (a diferença está no “bruá” e no “alarido” de cada Administração norte-americana no poder, sublinhou o ex-ministro)» («Rangel e a base das Lajes no meio do “bruá”», Helena Pereira, Público, 19.05.2026, p. 6). 

      E logo no editorial... Helena Pereira, consulte dicionários e vocabulários, não vai ficar mais cansada ao fim do dia. Nós é que ficamos quando lemos estes erros. Em português é bruaá, com dois aa, o que se explica pelo étimo, francês, que é brouhaha.

[Texto 23 020]

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