Bons títulos

Onde se fala de certa parafilia

      «Três dias antes de começarem a ser distribuídos, a CGD percebeu que entre os lotes para oferecer [aos clientes] havia livros eróticos — o que levou ao cancelamento da acção. Entre as obras que iam ser oferecidas estavam títulos como “Sr. Bentley, o Enraba Passarinhos” ou “Carne Crua”. Algumas das obras continham passagens com palavrões e imagens de nus nas capas» («Trabalhadores da Caixa exigem explicações sobre livros eróticos», Rosa Ramos, i, 30.04.2013, p. 26).
      Percebeu... apenas quando viu as imagens de nus das capas. Pelas «passagens», que melhor se diriam passos ou trechos, com palavrões não se distingue uma obra erótica de qualquer outra, a não ser talvez pela frequência. O título Carne Crua podia ser, está na moda, um livro de Jamie Oliver — mas o outro? E o título não devia ser «Sr. Bentley, o Enraba-Passarinhos»? Pela capa (aqui) não se pode concluir nada, porque a mariquice dos arranjos gráficos está-se quase sempre a foder para a língua.
[Texto 2794]
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«Eminente/iminente»

Mais por demérito alheio

      «Confiar nele é um perigo eminente: dá rapidamente a volta ao texto e exulta com melodrama» («Marcelo», Mário Dias Ramos, i, 29.04.2013, p. 14).
     Marcelo é tão importante, mas tão importante, que mesmo como perigo não ameaça cair sobre alguém ou sobre alguma coisa — simplesmente sobreleva os outros. Nunca medíocre. Medíocres, só os jornalistas.
[Texto 2793]
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Tradução de termos médicos

O doente respondão

      «O que me leva a dirigir-lhe esta mensagem é, contudo, uma dúvida. Estando actualmente embrenhado num denso livro de Medicina Interna, tenho lido com frequência, a respeito de um determinado tratamento antivírico [ou antiviral], virologic response, responsive patient, responders e nonresponders. Qual é a melhor forma de traduzir estes termos? Tenho, naturalmente, tomado response por “resposta”, mas, consultando os Dicionários Houaiss, Priberam, e o da Porto Editora, verifico que, entre os vários sentidos prescritos, não se encontra a reacção positiva de um doente a um tratamento médico. Trata-se de uma falha, ou “resposta” não é realmente a melhor tradução de response neste contexto? Bem, o certo é que a situação se me afigura complicada quanto ao responsive e ao responder. Apesar de termos “responsivo” e “respondedor”, estes não me soam bem aqui.»
      Comecemos por onde devemos começar: a definição. Porque escreve «reacção positiva de um doente a um tratamento médico»? Leio no Merriam-Webster que response é «the activity or inhibition of previous activity of an organism or any of its parts resulting from stimulation». No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, podemos ler que «resposta» significa, como termo específico da medicina, «reacção do organismo a qualquer estímulo». No entanto, no Dicionário Inglês-Português da Porto Editora, vemos que response se traduz por «reacção» e a locução «response to treatment» se traduz por «reacção ao tratamento». Toda a vida li e ouvi o termo «reacção» neste sentido. «Resposta» há-de ser anglicismo semântico. Responsive verter-se-á facilmente, acho eu, por «receptivo» ou por perífrase adequada. Já, por fim, quanto a «respondedor» para traduzir responder não me soa mal e já tenho lido em trabalhos científicos. E também aqui o recurso a perífrases pode ser, em certas circunstâncias, a melhor solução.
[Texto 2792]
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«Decodificar», de novo

Ele disse isso?

      O autor que usou «decodificar» (sim, porque isto não é inventado) acabou de me responder: «Segundo o falecido Prof. Lindley Cintra, deve dizer-se decodificação (que é utilizado no Brasil, eles nunca dizem nem escrevem “descodificação”) porque com des- aquilo a que se refere o substantivo desaparece, tal como em “destruir”. Neste caso não há desaparecimento, mas retorno a uma situação anterior: o que tinha sido codificado retorna ao que era antes antes (é decodificado). Seguindo esta linha de pensamento, nas Metas Curriculares de Português aprovadas pelo MEC em Agosto de 2012 foi utilizado “decodificação”.» Há mais, mas só isto interessa. Sim, está nas Metas Curriculares de Português, mas não me parece que tal seja um argumento. Um arremedo, talvez.
[Texto 2791]
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Como se escreve nos jornais

Sem excepção

      «Quase todas as pontes, com obras de Miguel Ângelo e Vasari, foram dizimadas, excepção feita à Ponte Vecchio» («Oltrarno/A Margem Sul de Florença», Luís de Freitas Branco, «Liv»/i, 27.04.2013, p. 10).
      «Pontes dizimadas...» Não me parece que seja a melhor escolha de palavras. «Excepção feita» é francês sem pôr nem tirar: exception faite.
[Texto 2790]
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Como se escreve nos jornais

Demasiado explícito

      «As ilustrações do livro “De onde vens?” (“Wo kommst du her?”) — um manual de educação sexual para crianças que mostra os vários níveis de excitação de um casal — estão a criar polémica na sociedade alemã, conhecida por ter uma atitude liberal perante o sexo. O bestseller, publicado pela primeira vez em 1991 pela editora Loewe Verlag, foi recentemente descontinuado, após várias queixas de pais, criticando-o por ser demasiado explícito» («Manual de educação sexual “demasiado explícito” é descontinuado», i, 27.04.2013, p. 10).
[Texto 2789]
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«Antistresse»?

O inimigo dentro do jornal

      L. C. Lavado responde à pergunta sobre o que não lhe falta na mesa de trabalho: «Cubo de rubik [sic], como antistresse. Nunca consegui voltar a alinhar aquelas cores todas. Copo de água. A hidratação é importante em todas as ocasiões. Bloco de notas. Porque lá estão sempre boas ideias» (Vanda Marques, «Liv»/i, 27.04.2013, p. 13).
      De «estresse» é que teríamos «antiestresse»; de «stresse» só podíamos ter «anti-stresse». Curioso é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só registe «anti-stress», quando acolhe «stress», «stresse» e «estresse». Enfim, falta uma visão de conjunto.
[Texto 2788]
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AO na AR

Vamos ver o que respondem

      «Uma petição com cerca de 4400 assinaturas foi ontem entregue em Assembleia da República (AR) para desvincular Portugal do novo Acordo Ortográfico e exigir “de uma vez por todas”, que os deputados “tomem uma posição perante o eleitorado”. Ivo Barroso, um dos peticionários, defendeu que o governo “não pode, por decreto, mandar a AR aplicar o acordo”» («Depois vais ter pena», Inês Teotónio Pereira, i, 27.04.2013, p. 6).
[Texto 2787]
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«Despensa/dispensa»

Dispensamos

      «A advertência sempre me assustou um pouco. Sempre me fez lembrar uma espécie de anúncio de uma catástrofe que se advinha: “Ui, nem sabes o que aí vem... Depois não digas que eu não avisei.” Como se tivéssemos de encher a dispensa de enlatados e preparar-nos para o pior» («Depois vais ter pena», Inês Teotónio Pereira, i, 27.04.2013, p. 12).
      Para Tristão da Cunha Portugal, na sua Orthographia da Lingoa Portugueza, é que «adivinhar» ou «advinhar» era igual. Mas isso foi em 1856. Já quanto à confusão entre «despensa» e «dispensa», nem ao século XIX se pode ir buscar desculpa.
[Texto 2786]
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Para lembrar

Perguntado pelo Imperador Adriano

      «Para procedermos nesta matéria com a clareza que desejo, vamos consultar ao Sábio Filósofo Secundo. Este grande homem sendo perguntado pelo Imperador Adriano, que cousa era a mulher, respondeu assim: A mulher é naufrágio do homem, tempestade da casa, cativeiro da vida, leoa abraçando, animal malicioso, e mal necessário» (Frei Amador do Desengano).
[Texto 2785]
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Como se escreve nos jornais

Falta o resto

      Acabam de me mandar este título da página 4 da edição de hoje do Público: «Seguro acusa Cavaco de não acreditar na capacidade do povo criar soluções». Toda a sanha contra o Acordo Ortográfico (o acto mais antiliberal destes anos pós-25 de Abril), e depois isto. Qual é o leitor são de espírito que não estabelece nenhuma relação? Trata-se em ambos os casos da língua.
[Texto 2784]
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«Toque hepático»

É só um toque

      Na última semana e meia, fui a cinco médicos. Três trataram-me, e respectivas assistentes, por Dr. e dois por Eng. E porquê tanta deferência hipócrita? Ora, porque não era no Sistema Nacional de Saúde, mas em clínica privada. Foram unânimes: tenho um toque hepático. Não explicaram nada, mas gostaram de dizer «toque hepático». Os dicionários — ao contrário do que fazem, mal, com «caução carcerária» — não registam a locução.
[Texto 2783]
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«Com certeza»

Mais atenção, caramba

      «“O que acho dramático é que diabolizemos quem tomou decisões sobre matérias que vistas hoje se reconhece que foram erros. À época, quem as tomou concerteza que tinha objetivos em vista. A generalização desse tipo de investimentos, na altura, era comum”, considerou [Guilherme Pinto, presidente da Câmara de Matosinhos], em declarações aos JN, à margem de uma cerimónia comemorativa da Revolução de Abril» (Jornal de Notícias, 26.04.2013, p. 32).
      Ando eu aqui há dez anos a ensinar qualquer coisinha, e os jornalistas saem-se com estes disparates de criança de escola primária. É triste. É uma locução adverbial, é com certeza. A juntar ao Acordo Ortográfico, apetece mesmo ler...
[Texto 2782]
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«Possuir/ter»

Se fosse só isso

      Passa pela cabeça de alguém que saiba ler há mais de quatro anos substituir em todos os contextos o verbo ter pelo verbo possuir? Sim, pela cabeça de um jornalista: «Disse à polícia que pertencia à Al-Qaeda, mas certo apenas é possuir problemas psicológicos» («Tiroteio em Marselha faz três mortos e um ferido», Paulo Dentinho, Jornal da Tarde, 26.04.2013).
[Texto 2781]
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«Caução carcerária»

Demasiado simples?

      «Terá sido essa a perceção do juiz de instrução de Mirandela que optou por uma caução que não deixa de ser carcerária, até pelo elevado montante estabelecido» («Liberdade provisória aplicável a todos os crimes», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 26.04.2013, p. 18).
      É interessante como subsistem estes termos. Caução carcerária é a que visa assegurar com eficácia a comparência do arguido a todos os termos do processo em que seja necessário e o cumprimento das obrigações impostas pelo juiz. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a definição é muito (demasiado?) mais simples: «caução que permite ao arguido cumprir a sentença em liberdade».

[Texto 2780]
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«Decodificar» não existe

Não devia lá estar

      Decodificar para aqui, decodificar para ali... Mas já há sete anos, no Ciberdúvidas, José Neves Henriques lembrou aos mais esquecidos que «em português não há “decodificar”, mas sim descodificar, formada do prefixo des-, acção contrária codificar». Infelizmente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «decodificar», e nem por remeter para «descodificar» chega para evitar más opções. Donde se conclui que há tantas palavras que podiam entrar neste dicionário como as que deviam sair.

[Texto 2779]
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«Sintáctico/sintáxico»

Pouco se vê

      «A automatização da identificação das palavras escritas é muito importante porque liberta recursos linguísticos e cognitivos para as operações de análise sintáxica e de integração semântica que fazem parte do processo de compreensão dos textos.» Ainda está em edição, e talvez «sintáxico» seja alterado para «sintáctico» — mas é difícil quando o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, regista «sintáxico», embora remeta para «sintáctico». Só pode ser, ou influência do francês syntaxique, ou por analogia com outros termos portugueses.
[Texto 2778]
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«Canada real»

Está explicado

      «São romeiros às centenas, que se propõem ligar a Moita a Viana do Alentejo através dos trilhos da antiga canada real. Estradas de terra batida, por entre campos agrícolas» («A romaria a cavalo que faz lembrar o faroeste», Roberto Dores, Diário de Notícias, 25.04.2013, p. 26).
[Texto 2777]
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«À custa de»

Quais oficiais de justiça

      «Mais tarde, Ari Behn, que tem sido criticado pela família real norueguesa — acusando-o de viver às custas de Martha Louise —, disse à revista ¡Hola! que a sua intenção passou por promover um novo vinho» («Princesa vê marido pedir esmola na rua», Diário de Notícias, 24.04.2013, p. 53).
      Se ninguém lhes disser nada, pensam que é assim que se escreve. Não é, digo-vos eu.
[Texto 2776]
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«Tratar-se de»

Estão doentes

      Do comunicado do Governo sobre os contratos swap: «Obtidos os resultados dessa análise, concluiu-se que vários destes contratos têm características problemáticas por não se tratarem de meros instrumentos de cobertura de risco e incorporarem estruturas altamente especulativas» (in Jornal de Tarde, 23.04.2013).
      Eu não me sinto nada bem, mas o País não está melhor. Quando é que entra na cabecinha destes semianalfabetos que a construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular?
[Texto 2775]
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Sobre «inválido»

Deficiente, doente...

      «Silvano Toniolo, de 80 anos, ex-enfermeiro, foi despejado há oito meses do seu apartamento em Turim e, desde então, vive nos comboios de Itália. Não os que estão parados. Os que estão em movimento. Para isso, usa um passe de inválido, que permite viajar gratuitamente» («Italiano de 80 anos vive em comboios», Diário de Notícias, 23.04.2013, p. 24).
      Que significa exactamente «inválido»? Os dicionários dizem que é o que não pode levar uma vida activa; enfermo. Mas, com 80 anos, se não se é doente, talvez não possa levar-se uma vida activa. A palavra há-de ter vindo da língua de origem, é o habitual. «Lui, infatti, ha la tessera per viaggiare gratis da quando un ictus lo ha reso parzialmente invalido.»
[Texto 2774]
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Léxico: «supercazzola»

Para confundir o interlocutor

      Mascetti, interpretado pelo Ugo Tognazzi, é personagem do Amici Miei (Oh! Amigos Meus), um dos grandes filmes da comédia italiana (1975). Mascetti introduziu na língua italiana o neologismo “supercazzola”, que é um falar sem dizer nada. Mascetti só teve um voto e, na votação seguinte, Napolitano aceitou candidatar-se e ganhou. Ainda bem. Já por cá, mesmo só em memória, António Silva seria melhor presidente do que qualquer outro Silva. Cada povo é um caso» («O Silva seria um grande candidato», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 22.04.2013, p. 56).
      Parece que se usa, sim, mas nos dicionários não o encontrei. Não é, tanto quanto percebi, exactamente falar sem dizer nada, mas falar para confundir. Cá, pode não ter nome, mas é técnica conhecidíssima.

[Texto 2773]


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Léxico: «arquitecto-paisagístico»

Outra reduzida

      «A autarquia promete que serão plantadas novas árvores no lugar das antigas e que uma parte do projecto foi alvo de alterações de modo a evitar o corte de um plátano. “Não serão criados mais lugares de estacionamento”, diz a câmara, que assume considerar os plátanos “de vital importância no conjunto arquitecto-paisagístico da zona”» («Abate de plátanos motiva protestos», João Pedro Pincha, Público, 19.04.2013, p. 14).
[Texto 2772]
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Léxico: «vazar-se»

Ainda cá anda

      «A esta corajosa e inesperada resistência, a populaça apavorou-se. Os gritos dos feridos pelos chicotes e pelas patas dos cavalos ainda deram mais fôrças ao espanto. A multidão começou a abalar em retirada, e a vasar-se pelas ruas transversais» (Um Motim Há Cem Anos, Arnaldo Gama. Porto: Livraria Tavares Martins, 1935, p. 234).
      Curiosa forma de dizer: vazar-se. Para meu espanto, é acepção que ainda consta do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: escoar-se.
[Texto 2771]
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Como se fala com os médicos

A pergunta certa

      «O senhor gosta de beber?» Gosto, sim. «É que estou aqui a ver uma alteração no seu fígado...» Espere, eu não disse que bebia, eu disse que gostava de beber. Não foi o que me perguntou? Na realidade, gosto, gosto muito, mas não bebo. Vejo que tenho feito mal em abster-me.
[Texto 2770]
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Como se escreve nos jornais

Esboços e arabescos

      «A frustração da Casa Branca esteve presente em cada palavra de Barack Obama. Como podia o Senado ter rejeitado uma proposta “defendida por 90% dos americanos”, baseada no “senso comum” e desenhada por dois senadores bem vistos pelo lobby das armas?» («Nem a lei mais branda foi aprovada no Senado, num “dia vergonhoso para Washington”», Alexandre Martins, Público, 19.04.2013, p. 21).
      Desenhar leis, liderar isto e aquilo, maturidades dos empréstimos — uma língua alternativa muito próxima da nossa.
[Texto 2769]
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Léxico: «ricina»

Andam sempre a enganar-nos

      «A polícia federal dos EUA anunciou a detenção de um homem por suspeitas de ter enviado cartas ao Presidente Barack Obama e ao senador Roger Wicker com a presença de ricina, uma substância potencialmente mortal» («FBI detém suspeito, um imitador de Elvis», Alexandre Martins, Público, 19.04.2013, p. 21).
      Andamos há dias a ouvir e a ler nos meios de comunicação social «ricino», e logo suspeitei que estava errado. Se fosse algo semelhante, seria rícino, mas parece que este é o nome com que se designa somente o próprio arbusto e o óleo que dele se extrai, não a proteína altamente tóxica que se encontra nas sementes da mamona (outro nome do rícino). O termo ricina só o encontro no Dicionário Houaiss.

[Texto 2768]
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Sobre «consultar»

A vingança

      Queria consultar de novo, disse ao telefone, a Dra. X. Risinho divertido do lado de lá. «A Sr. Dra. é que poderá consultar o Sr.» A mim? Para quê? Não tenho nenhum conselho, opinião ou instrução para lhe dar ou vender. E, ao contrário do que vai sendo habitual, não me atendeu um segurança ou uma simples assistente. Não. «Bom dia, fala a enfermeira Y.»
      «O barão ouviu-o com semblante alegre. Interessavam-lhe as miudezas daquela metamorfose. Queria saber se os médicos julgavam curável a paralisia de Leonor. Se o cego tio de Soares queria ir a França consultar os oculistas célebres» (Vingança, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Livros Horizonte, 1981, p. 126).
[Texto 2767]
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Como se escreve nos jornais

Comentários para quê?

      «As especialidades de reumatologia, hemodiálise e cirurgia maxilo-facial não têm aparente relação entre si, mas, no hospital de Braga, é o mesmo médico quem as dirige. [...] O clínico em causa é Fernando Pardal, que está inscrito na Ordem dos Médicos como especialista em Anatomia Patológica. Por isso, o director clínico é há vários anos o responsável pela direcção deste serviço médico no hospital. Mas a esta competência o médico acrescenta responsabilidades sobre os serviços de cirurgia-maxilofacial, genética médica, imuno-alergologia, nefrologia (hemodiálise), reumatologia e doenças infecciosas. [...] No caso de cirurgia maxilofacial, por exemplo, o serviço está subcontratado a outros médicos de unidades do Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente do Hospital de Santo António, no Porto, face à dificuldade da unidade bracarense em encontrar especialistas para estas áreas no mercado» («Médico acumula direcção de sete especialidades no hospital de Braga», Samuel Silva, Público, 17.04.2013, p. 14).
[Texto 2766]


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«Na qualidade de»

«Não há remédio senão usá-la»?

      «NA QUALIDADE DE. Tal modo de dizer recebêmo-lo de França. Mais natural é o emprêgo de como, nas funções de, ou, com circunlóquio, exercendo (eu, êle, etc.) o cargo de, etc. Camilo lançou mão da locução pouco ou nada vernácula:

    na qualidade de conselheiro de estado e guerra...”
                                                (Luta de Gigantes, 168).

    na qualidade de capitão-geral do reino...”
                                                (Luta de Gigantes, 220).


      Claro que, se a imprópria expressão ganhar raízes, não há remédio senão usá-la. Mas cumpre não esquecer ou não postergar as equivalentes portuguesas» (Estudos Vernáculos, Vasco Botelho de Amaral. Porto: Editora Educação Nacional, 1938, p. 43).
[Texto 2765]
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«Exit Talks»

Em inglês nos desentendemos

      «Vital Morgado, da Agência para o Desenvolvimento e Comércio Externo, que participa na iniciativa da Universidade de Aveiro, as “Exit Talks”, “Conversas de Sucesso para a Exportação”, que reúnem vários agentes económicos» (Maria de São José, noticiário das 3 da tarde, Antena 1, 15.04.2013).
      «“As Conversas sobre Exportações” trouxeram à Universidade de Aveiro Gilles Lipovetsky, um filósofo francês que nos últimos tempos tem olhado para a tendência dos consumidores, e garante que a crise económica não afectou o desejo do consumo, sobretudo nos produtos de gama alta» (Paulo Moreira, Jornal da Tarde, RTP1, 15.04.2013). Bem, está mais próximo, mas o que se podia ler por detrás dos entrevistados era «“Exit Talks”/Conversas sobre exportação».
[Texto 2764]
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«Ater-se a»

Casa de ferreiro

      «Não nos vamos ater na argumentação nem no descritivo das muitas peripécias da saga. Qualquer leitor interessado poderá ler o artigo e interpretá-lo como melhor entender.
      À míngua de tudo e sem cotação na bolsa — lá está a dependência! —, ressalvamos o penúltimo parágrafo. Nele se refere o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, classificado como “subsidiadíssimo”, em meio da listagem de editoras, personalidades políticas, instituições de toda a ordem que, qual enxame, se orienta ou desorienta na colmeia da língua» («Sobre o Ciberdúvidas», Público, José Manuel Matias e José Mário Costa, Público, 15.04.2013, p. 47).
      Mas não é ater-se a, isto é, limitar-se, restringir-se? Então?... E como é possível que os autores, coordenadores do Ciberdúvidas, prefiram «listagem» a «lista»?
[Texto 2763]
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«Maturidade», um anglicismo

Maturidades e madurezas

      «Vítor Gaspar, ministro das Finanças português, que esperava um prolongamento das maturidades dos empréstimos europeus de dez anos, não terá grande margem para convencer os parceiros a aumentar os prazos desde que o Tribunal Constitucional (TC) rejeitou várias medidas do Orçamento do Estado que deveriam gerar economias de 1326 milhões de euros. Esta decisão significa que o país não conseguirá cumprir a meta de redução do défice orçamental com que se comprometeu com os parceiros europeus em troca da continuação da ajuda externa» («Prazo de reembolso será de cinco anos», Isabel Arriaga e Cunha, Público, 10.04.2013, p. 2).
      Será em vão que procuraremos nos dicionários da língua portuguesa a acepção usada no artigo. Na edição do mesmo dia do Público, das cinco vezes que o termo é usado, apenas numa se trata do estado de espírito no seu auge. É mais um anglicismo semântico, agora usado todos os dias, sobretudo por políticos e, sem reflexão, acriticamente, pelos jornalistas. Basta consultar o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora para se saber que maturity é o vencimento, termo de pagamento.
[Texto 2762]

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«Cor de rosa»

Nem isto resolveram

      «Vê pink elephants, e com esta expressão humorística de ver elefantes cor de rosa expressa-se na Inglaterra a visão confusa produzida pelo álcool» (A Língua Inglesa e a Vida em Londres, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, p. 173).
      Como em relação a muitos outros vocábulos, Vasco Botelho de Amaral, quando não concordava com a ortografia em vigor, escrevia como lhe parecia melhor. Não era, porém, uma heterografia, como Isabel Pires de Lima afirmou em relação ao que o Acordo Ortográfico de 1990 amplamente permite. Graças, é preciso que se diga, ao princípio antiacordo por excelência: as negregadas facultatividades.

[Texto 2761]
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Sobre «inaugurar»

Mais um motivo para emigrar

      «Museu dedicado aos Abba [em Estocolmo] vai inaugurar em Maio» (Público, 13.04.2013, p. 31). Vai inaugurar o quê esse museu antropomorfizado? Ah, já percebi: o museu vai inaugurar-se a si mesmo. É em Estocolmo, e em sociedades avançadas é assim que tudo funciona, sem intervenção humana.

[Texto 2760]
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«Preferir uma coisa a outra»

Se até Camilo...

      Às 22h12 de ontem, escrevia-me um leitor: «Decorre na RTP (não sei se só aí) uma campanha de divulgação de uma iniciativa da Universidade de Aveiro em que vários intervenientes terminam os seus depoimentos com a seguinte frase: “Eu prefiro mudar o país DO QUE mudar de país.” Isto diz-se assim?» É claro que não diz, mas como são, imagino, catedráticos, reitores, investigadores a falar, pode haver quem duvide dos seus próprios conhecimentos. Não se diz que são os melhores cérebros que estão a emigrar?
[Texto 2759]
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Pronúncia

Moro numa aldeia

      Moro numa aldeia, outrora conhecida pelo número excessivo de cabeleireiras e dentro em breve pelos passeios rebaixados, perto de Lisboa — em Benfica. Às vezes, das editoras perguntam-me: «Vem cá a Lejboa esta s’mana?» Ida e volta são 15 quilómetros. Nas sextas-feiras, se coincidir com um dia 13 («treuze», dizem eles), evito ir.
[Texto 2758]
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«NATO/OTAN»

NATO

      OTAN na sigla portuguesa, pois, mas vejam como Botelho de Amaral se esqueceu ou lhe era indiferente: «Um speaker fez, por exemplo, referência aos países da NATO. Não mencionou Portugal. Advertido por mim, disse-me que a Espanha nada tinha que ver com a NATO. Ensinei-lhe História e Geografia» (A Língua Inglesa e a Vida em Londres, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, pp. 66-67). Ter o autor escrito este livro lá pelos Royal Parks londrinos, enquanto apanhava sol, há-de ter tido a sua influência...
[Texto 2757]
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«Tratar-se de»

Não entra

      Informações apuradas pelo nosso correspondente em Bruxelas, Luís Ochoa: «Passos Coelho adianta que essas medidas para 2014 e 2015 estarão em linha com o acordado na 7.ª revisão e que não se tratam de medidas adicionais» (Antena 1, 11.04.2013, noticiário das 9 da noite).
      Quando é que aprendem? No sentido de estar em causa, ser o caso de, tratar-se é impessoal e rege a preposição de. E é impessoal porque nas frases em que é predicador não há nenhuma expressão lexical com função de sujeito.
[Texto 2756]
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«Sarauí, saráui...»

Ainda não conhecem

      «Destaca-se a situação peculiar do Sara Ocidental. Colónia espanhola, a ONU recomendou, em 1966, a descolonização. Em Novembro de 1975, foram celebrados os acordos tripartidos de Madrid, pelos quais a Espanha cedeu o território a Marrocos e à Mauritânia. Só que esta solução não tinha em conta a vontade do povo sarauí, representado pela Frente Polisário. Esta, com o apoio de vários países africanos, anunciou em 1976 a criação da República Árabe Sarauí Democrática e a luta por uma verdadeira independência» (Angola 61, Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus. Lisboa: Texto Editores, 2011, 2.ª ed., p. 67).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora limita-se a registar «saariano», que remete para «sariano». O Dicionário Houaiss, por seu lado, acolhe tanto sarauíta como saaráui (com a variante saráui).

[Texto 2755]
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O AOLP90 no seu melhor

Estamos fodidos lixados

      Em verdade vos digo: isto nunca mais se endireita. Dizem que, com o Acordo Ortográfico de 1990, ficámos com três ortografias. Sei lá se são três. Se calhar são mais. Acabo de ler um texto, escrito por um jornalista, e lá estavam dois abortos já meus conhecidos: «contato» e «convito». Impuseram-nos a teratologia como norma.
[Texto 2754]
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Léxico: «truca»

Ora, ora

      «Sebastião Guerreiro ele próprio às voltas com a máquina flymo a trambuzar uns estampidos de gafanhoto eléctrico, truca truca pela paisagem. Mas de resto todos estávamos em paz e Sebastianito mais do que todos» (O Cais das Merendas, Lídia Jorge. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002, 6.ª ed, p. 50).
      Não acreditei logo, como noutras vezes, mas é verdade: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista a interjeição «truca». E, no entanto, regista outra acepção desta palavra.

[Texto 2753]
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Tradução: «checker»

Um pequeno problema

      Estados Unidos, década de 1950. A personagem principal recebe duas ofertas de emprego: uma como copy editor numa editora de livros e outra como checker numa revista. Ora, se em Portugal não temos esta função — checker ou fact checker — autonomizada, como traduzir? Aceitam-se sugestões.
[Texto 2752]
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Alcavalas da Comissão Europeia

É o que sai

      Esta ia-me passando. Luís Ochoa na Antena 1: «Não falando de algumas alcavalas, o presidente da Comissão Europeia ganha por mês 25 300 euros. As alcavalas chegam a 20 % mais. O vice-presidente leva todos os meses de base 22 900, e um comissário 19 900 euros. Todos, como o presidente, com o direito a outras verbas que rondam mais 20 % do salário-base» («Barroso e seus comissários não têm poderes para baixar os respectivos salários», 4.04.2013).
     Mas afinal são alcavalas ou remunerações a que têm direito? Podemos ficar pelo que diz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora sobre «alcavala»: antigo imposto; no plural, quantias cobradas indevidamente; traficância; alvíssaras. Em resumo: o jornalista não sabe o que diz.
[Texto 2751]
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«Haver que», de novo

Temos de ver mais

      «Ora, o Hyde Park é uma espécie de Parlamento de algibeira, um Parlamento portátil. Só há que ter cuidado com os carteiristas das ideias» (A Língua Inglesa e a Vida em Londres, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, p. 66).
      Não podia escamotear isto. Convicção ou inadvertência, certo é que Vasco Botelho de Amaral usou aqui a construção «haver que», o que não altera em nada, pelo menos para já, a minha opinião.

[Texto 2750]
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Léxico: «fadaria»

É só querermos

      «De noite, com a fantasmagoria luminosa das paredes, numa fadaria de cor que encanta os olhos» (A Língua Inglesa e a Vida em Londres, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, p. 18).
      Já lá vai o tempo em que se usava a torto e a direito feérico e feeria. A primeira destas leio-a agora a cada cinco anos, a segunda é muitíssimo raro encontrá-la. Vêm, é claro, do francês féerique e féerie. Como não tínhamos nenhum derivado de «fada» que substituísse féerie, a determinada altura forjou-se este «fadaria». Mas não foi Vasco Botelho de Amaral a fazê-lo. Já num dicionário de francês-português publicado em 1847 o podemos ver. Por outro lado, em provençal, língua de que nos vieram várias palavras, ao poder mágico das fadas dava-se o nome de fadaria.
[Texto 2749]
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«Ripanço ou ripanso»

Cada vez mais pobre

      «Cadeiras de braços chamadas armchairs ou easychairs convidam à relaxation, ao ripanso do corpo e do espírito, ao descanso de cérebro e de nervos. Quase sempre há um settee ou sofá bem estofado» (A Língua Inglesa e a Vida em Londres, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, p. 13).
      Pois dicionários mais antigos ainda registam ripanso como variante de ripanço. Agora, «ripanso» evaporou-se. Vamos ver se para sempre.
[Texto 2748]
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«A decisão não era nossa»

Mas como foi só porteiro...

      Francisco José Viegas, entrevistado por Isabel Coutinho para o Público: «Para ser sincero, faz-me impressão tirarem o C de coleccionador. Não é que tenha nostalgia das consoantes mudas, mas faz-me impressão a perda do P de Egipto. Provavelmente por ter feito linguística na faculdade e irritar-me com o predomínio da linguística oral sobre a filologia. Disse sempre que havia coisas erradas no Acordo Ortográfico (AO) e que era preciso revê-lo e continuo a dizê-lo» («“Não podemos transformar a língua num monstro”», 8.03.2013, p. 26). E o c e o p maiúsculos são para quê?
[Texto 2747]
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«Ter ganho/ter ganhado»?

Um contributo

      «A 6 de junho de 2011, dia seguinte a Passos ter ganho as eleições, escrevi aqui que, dada a crise, era este o caminho: “as obrigações de hoje (e do resto dos dias da nossa dívida) exigem uma larga maioria”, um Governo comprometendo todos, PSD, CDS e PS, numa responsabilidade comum» («Tudo é tarde para Passos Coelho», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 8.04.2013, p. 56).
      Pode estar a cair em desuso, como vimos aqui, a forma «ter ganhado», mas ainda é a que tem a minha preferência. Para contribuir para que os duplos particípios não se deixem de usar.
[Texto 2746]
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«Malapata»?

Azar

      «Jesus quebra malapata de Olhão e está há um ano sem perder» (Gonçalo Lopes, Diário de Notícias, 8.04.2013, p. 34). Parece português, pois parece, mas é castelhano e está mal grafado: é mala pata. Má sorte, azar.
[Texto 2745]
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Sobre «clubístico»

Como estava enganado

      Decerto que se lembram de eu ter dito que o revisor antibrasileiro ficava transtornado de cada vez que lia a palavra «clubístico». «“Clubístico” não existe. Veja.» E mostrava-me a 4.ª edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Agora, na edição em linha — e não fui eu que a mandei pôr lá — já está registada. E bem.
      Ontem li de um jacto a obra A Língua Inglesa e a Vida em Londres, de Vasco Botelho de Amaral (Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958). Na página 98, lê-se: «Será tudo bom nos clubes? Claro que não. Certo escritor inglês, Thackeray, referindo-se, acidentalmente, à vida nos clubes, observou com justeza um aspecto desagradável da vida clubística
[Texto 2744]
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«Sob o fogo da crítica»

Fogo!

      «Já o grau de responsabilidade da Universidade de Lisboa é enorme e incontornável: recordo as dezenas de docentes da sua Faculdade de Letras que, logo em 1986, se manifestaram criticamente contra o acordo então celebrado e do qual passaram ao de 1990 alguns dos principais tópicos que continuam sobre o fogo da crítica, e recordo também, que, como toda a gente sabe, pelo menos vários dos mais ilustres professores de Direito da mesma instituição têm tomado posições públicas quanto ao facto de o AO não poder considerar-se em vigor» («Ainda a edição de Vieira e o Acordo Ortográfico», Vasco Graça Moura, Público, 6.04.2013, p. 33).
      Não é difícil imaginar a crítica como um braseiro sobre o qual estes «tópicos» estão ao rubro, mas o fogo da crítica, ainda que metafórico, são tiros. Logo, sob o fogo da crítica.

[Texto 2743]
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«Discordar de/concordar com»

E por erros estapafúrdios...

      «Atenção que não me estou a referir aqui a diferenças políticas, desentendimentos ideológicos ou divergências quanto ao zeitgeist. Qualquer um de nós é capaz de reconhecer inteligência em pessoas com as quais discorda profundamente. Do que eu falo é de uma outra coisa — é de gente que acumula os erros mais estapafúrdios, oferecendo o flanco para ser parodiada por qualquer indígena (eu incluído)» («A primavera do PS e o gonçalvismo do PSD», João Miguel Tavares, Público, 5.04.2013, p. 53).
      O verbo «discordar» rege a preposição «de»: discordar de. O verbo «concordar» é que pede a preposição «com»: concordar com.
[Texto 2742]
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Sobre «maple»

A moda já passou

      «Notem os desnacionalizados de Portugal que ninguém por cá chama às poltronas essa coisa ridícula de maple, simples marca inglesa de poltronas feitas para exportação» (A Língua Inglesa e a Vida em Londres, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, p. 13).
[Texto 2741]
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Sobre «leitura»

Depois do paquete

      «Meu caro, isto tem duas leituras possíveis», acabou de me dizer certa pessoa. De onde nos vem esta acepção — maneira de compreender, de interpretar um texto — do substantivo «leitura»? Só pode ser do inglês ou do francês. Vejamos... Ah, sim, do francês: «manière de comprendre, d’interpréter un texte, un événement». Já não chegou no paquete do Havre, mas cá está.
[Texto 2740]
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Léxico: «varascada»

A toda a hora

      Lembrei-me de repente (podia explicar porquê, mas não interessa) da palavra «varascada» (com a variante «varancada»), que é a pancada com vara; chibatada; verdascada. Vão agora ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ver se a encontram. Não está, claro.
[Texto 2739]
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Léxico: «mota»

Não é redução de «motocicleta»

      «Foi feito um curso para o rio [Lis] e foram feitos, a designação técnica é umas motas no rio, ou seja, uns muros em terra, a ladear as margens do rio para conter as águas» (Henrique Damásio, técnico da Associação de Regantes e Beneficiários do Vale do Lis [ARBVL], Portugal em Directo, 3.04.2103).
      É mais ou menos isso: mota é, como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o «aterro à beira dos rios para resguardar os terrenos marginais das inundações».
[Texto 2738]
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«Desestimar», um falso cognato

Era tão fácil

      «O Ministério Público espanhol já recorreu da decisão do juiz de chamar a depor como arguida a filha do rei. Se tal recurso não for desestimado, a infanta Cristina terá que [sic] comparecer no próximo dia 27 no mesmo tribunal, onde já foi interrogado o marido duas vezes, indiciado de apropriação indevida de fundos públicos» («Infanta Cristina indiciada por desvio de fundos públicos», Rosa Veloso, Telejornal, 3.04.2103).
      Com as actuais tecnologias, se quisermos, podemos consultar um dicionário no próprio telemóvel. Se o tivesse feito, Rosa Veloso ia concluir que desestimar é um falso cognato. Em castelhano, e no campo jurídico, desestimar é negar, rejeitar. A jornalista desestimou, como faz tantas vezes, a língua portuguesa.

[Texto 2737]
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Plural de «avô» é...

Não se fala mais nisso

«Avós, avôs. Seria conveniente aplicar a primeira forma ao plural de avó. A segunda usar-se-ia com referência aos antecessores, antepassados, avoengos e como plural de avô.
      Viana preferiu registar avôs apenas como plural de avô e avós como plural de avó e no sentido de antepassados. O “Vocabulário” da Academia errou, pois atribuiu a avô o plural avós, o que não pode ser. (D. D.) Quase no fim da invocação, referindo-se ao avô paterno de D. Sebastião, D. João III, e ao avô materno, Carlos V, emprega Camões o plural avôs (canto I, est. XVII, edição de 1572).

        “Em vós se vem da olímpica morada
        Dos dois avôs as almas cá famosas.”

      Lembra-nos haver já sido proposta a forma avôs, com o o fechado, para designar também os antecessores, antepassados, antigos, ascendentes, ou avoengos (palavras estas que evitam o galicismo ancestro). Ver, por exemplo, a “Selecta Clássica” de João Ribeiro, pág. 78, onde se refere o uso de tal grafia pelos nossos bons escritores antigos. Aí ensina ainda o mesmo Autor que o verdadeiro significado de progenitores é avôs, ascendentes. Julgamos que haveria conveniência em aplicar avós sòmente ao plural de avó. A edição de 1907 de “O Santo da Montanha”, de Camilo, traz a acentuação de avôs: “solar de nossos avôs...”, onde o termo ocorre por antepassados. Finalmente, não se esqueça que o anglicismo ancestral tem bom correspondente em avito. (E. V.).
      Nas anteriores edições deste “Dicionário de Dificuldades”, além do mais, informei que o “Vocabulário” da Academia errou, ao atribuir a avô o plural avós. Costa Leão (“Prontuário de Ortografia”, pág. 129, nota — ed. 13.ª) cai no mesmo lapso, quando deseja que o plural de avô seja avós.
      O plural de avô (pai do pai ou pai da mãe) só deve ser avôs, como Gonçalves Viana regista no seu inexcedível “Vocabulário”» (Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português, vol. I, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, pp. 455-56).

[Texto 2736]
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Léxico: «acacianismo»

Tem de estar lá

      «O segundo reparo é este: nem todas as obras podem ajudar a formar a “personalidade” dos alunos. Isso é um acacianismo. Quem ler o Fernão Mendes Pinto que personalidade forma?» (Estudos de Apoio ao Português, Vasco Botelho de Amaral. Porto: Livraria Avis, 1976, p. 280).
      Pois é: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora lembrou-se de acaciano e esqueceu-se de acacianismo.
[Texto 2735]
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JGS, revisor

E depois?

      «Sim, a profissão de revisor não imunizou Gaspar Simões, ou os seus textos, contra as gralhas, de que foi grande recordista» (Bacoco É Bacoco, Seus Bacocos, Arnaldo Saraiva. Porto: Lello & irmão, 1984, p. 144).
      E depois? Os médicos não adoecem e não morrem? Os enfermeiros não enfermam? Não há sacerdotes a morrerem sem a extrema-unção? Quando escrevia, João Gaspar Simões não era revisor.
[Texto 2734]
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«Noites sem lua»

Nas trevas completas

      «Mãos, orelhas e objetos escuros existem desde, pelo menos, o séc. XII (estou a lembrar-me de Geraldo Geraldes sem Pavor a cortar sentinelas mouras em noites sem Lua) e não seria daí que vinha o espanto» («Mentira e vídeo (sem sexo)», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 2.04.2013, p. 56).
      Há um verso de Guerra Junqueiro (um dia conheci um médico, que não tinha a trave bem cortada, é bem verdade, que sabia de cor A Velhice do Padre Eterno) que diz «vão em noite sem lua num barco sem velas». Não há, não houve até hoje, que se saiba, noites sem Lua, apenas sem lua, isto é, sem luar.

[Texto 2733]
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O preço da pureza

A impureza das aspas

      «Estes enfermeiros têm de saber inglês e durante o período de formação no hospital [de West Suffolk] fazem um aprofundamento dos conhecimentos linguísticos, nomeadamente no que diz respeito a termos médicos. Filipa Teixeira reconhece as dificuldades de trabalhar noutro país e com outra língua: “Nós chegamos aqui e deparamo-nos com uma população idosa e com inglês mais ‘puro’ e mais difícil de compreender”» («Enfermeiros lusos dominam em hospital britânico», Emanuel Nunes, Diário de Notícias, 2.04.2013, p. 17).
      Tudo o que é puro — com aspas ou sem aspas — é sempre mais difícil de compreender, como bem sabemos. A ganharem, porém, 3250 euros logo no primeiro ano de serviço, talvez possam ter umas explicações.
[Texto 2732]
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Talvez uma simples gralha, mas...

Mais de 6 anos

      «O ator britânico queria fazer parte do rol de celebridades que podiam dar-se ao luxo de edificar uma casa numa edílica frente de mar. [...] As cada vez mais furiosas tempestades de inverno e as marés cada vez mais altas estão a colocar em perigo as casas dispostas ao longo da costa» («Primeira mulher pivô em horário nobre nos EUA retira-se em 2014», Fernanda Mira, Diário de Notícias, 2.04.2013, p. 53).
      No sábado, a minha filha veio mostrar-me um desenho em que tinha escrito «ilfante» — mas acabou de fazer 6 anos e ainda não está na escola. Em compensação, nunca a ouvi dizer «colocar em perigo». Mas sim, senhora jornalista, «edílico» existe, mas se quiser saber o que significa consulte um dicionário.

[Texto 2731]
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Tradução: «comprehensive»

Compreendo

      «O assinalável êxito internacional de A Bíblia é fácil de explicar: trata-se de uma produção grande, promovida por um canal acima de suspeitas (e um canal de informação, note-se), ao longo da qual se desenrola uma dramatização transversal, quase completa — os anglo-saxónicos diriam comprehensive, palavra para que não temos boa tradução —, de um livro que nunca deixou de exercer um enorme fascínio sobre as pessoas e, porém, cada vez menos gente leu» («Ainda ‘A Bíblia’», Joel Neto, Diário de Notícias, 2.04.2013, p. 52).
      Deve ser por isso que uns a deixam por traduzir e outros a traduzem por... «compreensivo»! Bem, agora já é tarde para mudar de país.
[Texto 2730]
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Regência do verbo «tardar»

Não tarda

      «Não tardou para que aparecesse alguém a dizer que Bruni [no seu novo disco, Little French Songs] se referia a François Hollande, opositor de Sarkozy que venceu as eleições presidenciais no ano passado» («Carla Bruni está de regresso aos discos», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 2.04.2013, p. 47).
      Ao verbo «tardar» junta-se habitualmente um infinitivo com em ou com a. Logo, seria «não tardou a aparecer».

[Texto 2729]
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Léxico: «escarépio»

Não venhas contar que fui eu

      «“Devem ter, devem!”, abanou ela a cabeça. “Olha mas é os escarépios, não venhas contar que fui eu. Limpinha como o Santo Sepulcro!”» (Walt ou o Quente e o Frio, Fernando Assis Pacheco. Lisboa: Livraria Bertrand, 2.ª edição, [1979], p. 48).
      O Dicionário de Termos Médicos da Porto Editora diz que é o «termo popular para blenorreia», mas parece-me que seja antes, como se lê no Aulete, termo da gíria. E este dicionário não regista a variante «escrépio». Popular ou da gíria, ficaria melhor no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

[Texto 2728]
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Léxico: «genotexto»

Mais um inventado

      «Pois o Frank maltratado Camiões, com umas saudades inconfessáveis de pinocar uma dama, fora-se alimentando, entre as habilidades das fufas do Of America e o desbaste do cabo com, com um genotexto em que se afirmava esperado por certa Mary num boudoir de seu conhecimento» (Walt ou o Quente e o Frio, Fernando Assis Pacheco. Lisboa: Livraria Bertrand, 2.ª edição, [1979], p. 70).
      Pois este podemos encontrá-lo no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «conjunto das fases (rascunhos, notas, etc.) que contribuem para a forma final de um texto».
[Texto 2727]
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