Em que se explica o que é «spin-off»

Quem explica?

      «A tecnologia foi divulgada ontem pela QualityPlant, a mais recente spin-off [empresa que resulta de um grupo de investigação] da UC» («Vinhas clonadas: não há desculpa para os “anos maus”», Joana Capucho, Diário de Notícias, 18.06.2013, p. 35).
      Lá explicaram desta vez o termo estrangeiro. Estão no bom caminho. (Joana Capucho, os parênteses rectos são seus? Se é assim, estão errados.)
[Texto 2996]

Sobre «maple»

A moda já passou

      «Notem os desnacionalizados de Portugal que ninguém por cá chama às poltronas essa coisa ridícula de maple, simples marca inglesa de poltronas feitas para exportação» (A Língua Inglesa e a Vida em Londres, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, p. 13).
[Texto 2741]

Sobre «finning»

Eles é que são bons

      «A eurodeputada Maria do Céu Patrão Neves (na foto) considera “absolutamente inaceitável” a prática do finning (remoção das barbatanas dos tubarões, sendo as restantes partes do corpo do animal lançadas ao mar), proibida para toda a frota europeia em 2003» («Eurodeputada contra ‘finning’», J. C., Diário de Notícias, 15.07.2012, p. 19).
      Já uma vez vimos isto no Assim Mesmo (aqui). É claro que ninguém se dá ao trabalho ou se atreve a usar um termo português novo, como desbarbatanagem, ou desbarbatanação, ou desbarbatanamento. Inventivos são só os outros.
[Texto 1830]

Sobre: «lóbi»

Deixe-se disso

      «Quando Carolina do Mónaco, os filhos e os respectivos namorados entraram no lóbi do exclusivo hotel da estância de esqui de Crans Montana, nos Alpes suíços, era impossível não reparar que todos vestiam casacos Moncler» («Quem é a nova princesa do Mónaco?», Sónia Bento, Sábado, n.º 428, 12 a 18.07.2012).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, no verbete «lóbi», remete para «lobby», e neste regista: «grupo de pressão; grupo dos que frequentam as antecâmaras dos parlamentos com o objectivo de influenciar os deputados no sentido de votarem de acordo com os seus interesses». Nesta acepção faz falta, mas na de «corridor or hall connected with a larger room or series of rooms and used as a passageway or waiting room» nem pouco mais ou menos. É que temos não uma mas três ou quatro palavras para significar o mesmo — e a jornalista não as pode ignorar a todas. É simplesmente lamentável.

[Texto 1827]

«Fazer “pendant”»

‘Tá mal

      No Reino Unido, a rainha, a duquesa da Cornualha e a duquesa de Cambridge foram de Rolls-Royce visitar uma loja. O jornalista da RTP Luís Filipe Fonseca disse que iam «todas vestidas de azul, a fazer pendant». A indumentária da rainha atirava mais para o verde, isso é que eu vi, e que o jornalista usou desnecessariamente uma palavra francesa. Ah, sim, já há dicionários — dada a estonteante frequência de uso da palavra — que a aportuguesaram para «pandã».

[Texto 1168]

Quais estrangeirismos?

Este é que era sensato

      «Rui Barbosa, no lugar indicado da sua Réplica que eu cito sempre que posso e com loa pela muita erudição que encerra e pela fadiga e trabalho que deve ter custado a seu autor, salvou palavras e construções do injusto ferrete de galicanas, e mostrou o quanto é delicada e exposta a equivocações a divisão exacta dos vocábulos em estranhos e castiços, pois pululam grande número de vozes, que, ainda que parecem novas e de fisionomia tirante ao francês, são de mui antiga e acrisolada ascendência. É preciso, pois, que se ponha suma atenção ao qualificar as palavras e frases que se supõem suspeitosas do pecado de estrangeirismo, para que não suceda que, por excluir as forasteiras, vindas de França, arrojemos tambêm do seu próprio solar palavras lusitaníssimas» (Fatos da Língua Portuguesa, Mário Barreto. Rio de Janeiro: Presença Edições, 3.ª ed., facsimilada, 1982, p. 117).
      Faz lembrar o provérbio (alemão?) que diz que não se deve deitar fora o bebé com a água do banho, que ainda ontem ouvi na rádio. Como a pessoa que estava ao meu lado elevou para mim um olhar interrogador, posso supor que é menos universal do que eu pensava? Não. Se estivéssemos a ouvir a BBC Radio 4 — Throw out the baby with the bath water either —, o olhar já teria sido de entendimento.

[Texto 1141]

«Desconcertar»

Língua desconcertada

      De muito e diverso se fala aqui no blogue, mas se parece que perdemos tempo quando tratamos de estrangeirismos e matéria afim, não é assim. Pretende-se tão-somente ter consciência da língua que se fala. Por exemplo, desconcertar, no sentido de causar perplexidade, que não é hoje em dia muito frequente, não é galicismo em estado puro?
      «Isto de certa maneira desconcerta. Desde o princípio do século XIX que Portugal, em mais de um sentido, foi um protectorado inglês. A Inglaterra provocou na prática a independência do Brasil. A Inglaterra armou e pagou o movimento liberal para invadir o iníquo reino do senhor D. Miguel» («A nova sessão de patriotismo», Vasco Pulido Valente, Público, 9.12.2011, p. 44).
      Vem do francês déconcerter: «Surprendre quelqu’un, lui faire perdre l’assurance de son jugement ou de la conduite à tenir.» No tempo de Bluteau, apenas se desconcertava um relógio, um pé, um acordo. Agora, o desconcerto é universal. E a língua evolui — pois claro. Espera: «evoluir» não foi acoimado de galicismo?! Evoluciona, então. Evolve, seja. Evolute, e não se fala mais nisso. Esta, outra variante, Camilo usou-a, e agora os dicionários não a registam.
[Texto 791]

Léxico: «violeiro»

Ah, não seria o mesmo

      «Se o radiologista Steven Sirr da Universidade de Minesota, nos Estados Unidos, não fosse um violinista amador que gosta de praticar nos tempos mortos do trabalho, não teria dado ontem uma espantosa notícia na conferência anual da Radiological Society of North America, em Chicago. Sirr anunciou que consegue produzir violinos iguaizinhos aos que o mais famoso luthier de todos os tempos, Antonio Stradivari, de Cremona, em Itália, construiu no final do século XVII, princípio do séc. XVIII» («TAC permitiu réplicas perfeitas de ‘Stradivarius’», Filomena Naves, Diário de Notícias, 30.11.2011, p. 30).
      Pronto, rendo-me: temos de recorrer ao galicismo luthier porque não temos palavra para designar o mesmo. Ou será que temos? Ah, não vocábulo com tanto prestígio, mas ei-lo: violeiro. Veja na ligação para o Dicionário Houaiss aí no lado esquerdo (novidade no blogue): «que ou aquele que fabrica instrumentos de corda». Então?
      «Utilizo, pues, las palabras laudero y laudería y evito, así, tanto los galicismos luthier y lutherie como el mal sonante violero» (Las aventuras de un violonchelo: historias y memorias, Carlos Prieto. México D. F.: Consejo Nacional para la Cultura y las Artes (Conaculta), 1999). Malsoante? Apenas aos requintadíssimos ouvidos modernos.
[Texto 748]

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