Amálgama: «prosumer»

Isto também passa

      Há aí, entre as cinco ou dez pessoas que me lêem, alguém que tenha lido a expressão «vórtice crísico», forjada pelo ex-presidente Ramalho Eanes? Com todo o respeito — é de estarrecer!
      Nem tudo, porém, é mau. Os jornais continuam de olhos extasiados nos luminosos estrangeirismos, mas, pelo menos, honra lhes seja, já vão explicando de que se trata: «O “jornalismo participativo” dos prosumers, pessoas que são simultaneamente produtoras e consumidoras de informação (caso dos blogues), tem uma importância crescente só ultrapassada pelo imparável movimento das fugas» («Guerrilha mediática», Cristina Peres, Expresso, 16.04.2011, p. 41). Já é um avanço, e avanço conspícuo. O próximo é deixarem de usar estrangeirismos escusados.
[Post 4727]

Anglicismos

Haja ouvidos e vento

      Ontem, Miguel Esteves Cardoso levantou-se menos inglês que nunca, e pôs-se a desancar nos anglicismos mais óbvios usados na imprensa, e em especial no jornal em que publica a sua crónica diária.
      «Ontem, a Standard & Poor’s cortou o rating português para BBB-, “a apenas um passo do nível denominado como junk”, dizia o PÚBLICO online. Podia ser pior: “a agência baixou também o rating atribuído à Grécia, para BB-, três níveis abaixo do português”. O FT.com adiantava que a S&P tinha tirado Portugal “da lista creditwatch negative”, o que se presume ser coisa boa e de pouco consolo.
      O downgrading do rating para quase junk pede que se pense mais em português. Desgraduar é só uma palavra, ao contrário da inglesa, que são duas coladas. Se existe a graduação do vinho e há anos em que o grau é menor, também existirá a desgraduação. Ou degradação. Ou desvalorização. Ou, mais estupidamente, despromoção.
      O rating ainda é mais fácil: é escalão ou cotação ou, melhor, por serem four letter words: grau, nota ou furo. Afinal, é uma avaliação quantificada, como as estrelas do PÚBLICO. Junk é americano para lixo (e ultimamente calão para qualquer genitália). Também se poderia traduzir zero, já que a agência classifica a Grécia como estando a dois graus abaixo de zero, enquanto Portugal se mantém a um grau acima de zero» («Embarquemos no junco», Miguel Esteves Cardoso, Público, 30.03.2011, p. 39).
      Nos noticiários da Antena 1, nunca ouvi a palavra junk — mas também era só o que faltava. Diziam «lixo», que é junk mas é português. O aportuguesamento devia ser sempre a última opção. O ideal seria encontrar termos em português para traduzir os estrangeirismos. Assim, os termos aventados por Miguel Esteves Cardoso são tão bons como outros. O problema é que são aventados — ou seja, e etimologicamente, atirados ao vento —, não são sugeridos ou recomendados por uma entidade que vele pela língua, porque a não temos.
[Post 4630]

Sobre «chance»

Já lá vai

      «Os jornais contaram que [Annie Girardot] se apaixonou por Renato Salvatori, cara de homem, o boxeur irmão de Rocco. Tivesse ela escolhido Rocco (o bonitinho Alain Delon), eu ficava a saber que eu não teria chances. Há poucos anos, por um comovedor livro da sua filha Giulia Salvatori, A Memória da minha Mãe, eu soube que ela tinha Alzheimer» («A memória que não perco dela», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 1.03.2011, p. 56).
      Para mim, é um dos mais detestáveis galicismos que vieram conspurcar a nossa língua. Felizmente, tudo passa, e este barbarismo tem os dias contados (excepto, talvez, no Brasil). Alternativas: acaso, alternativa, boa sorte, dita, encontro, felicidade, fortuna, ocasião, oportunidade, probabilidade... A determinada altura, alguém veio propor o aportuguesamento em «chança», mas Vasco Botelho de Amaral fez ver que «chança» significa «mofa, zombaria, chalaça», e, como adaptação de «chance», seria inútil.


[Post 4504]

Anglicismos

E cá?

      Na crónica de hoje de Ferreira Fernandes no Diário de Notícias, ficámos a saber que os Franceses foram aconselhados a referir o iPad e aparelhos semelhantes como «ardoise». 
      «O londrino The Times fez ontem um artigo à volta de uma fotomontagem. Descrevo-a: numa sala de aula, garotos de há meio século mostram as suas ardósias (para os leitores mais novos: uma pedra preta onde se escrevia com giz — escrevia-se e apagava-se, hoje chamar-se-ia um objecto sustentável). Mas há uma menina que em vez da lousa segura algo parecido: um iPad. A fotomontagem ilustrava este assunto: a Comissão de Terminologia e Neologismos [Commission générale de terminologie et de néologie], polícia francesa da língua, proíbe que os dez milhões de funcionários franceses chamem “iPad” àquela magia plana e fina, um computador do tamanho de uma ardósia, que permite navegar na Internet, ler livros e jornais (esta semana, o DN aderiu a essa maravilha). E o que propõe a tal comissão como nome para combater o termo anglófono? “Ardoise”, ardósia. Não está mal lembrado. Primeiro, pela certeira evocação antiga. Segundo, porque sugere um sentimento de gratidão para com a Apple (“ardoise”, em francês, também quer dizer dívida). Terceiro, porque a Apple chegou a pensar chamar iSlate ao seu invento (“slate”, em inglês é ardósia). E, sobretudo, quarto, porque nenhuma língua deve deixar-se apagar. Para o que americanos chamam IT (Information Technology) os franceses inventaram a palavra “informatique” e conseguiram exportá-la: nós (e os americanos!) adoptámo-la. Às vezes, um pouco de teimosia vence batalhas dadas por perdidas» («O regresso da ardósia perdida», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 27.02.2011, p. 68).
      Cá ninguém quer saber: não temos nenhuma entidade encarregada de velar pela língua e a apregoada defesa da língua são só palavras.
      (Na semana passada, vi uma tradução do inglês em que se tinha usado o vocábulo «pedra» para traduzir «slate», e, de facto, pedra também é lousa escolar, ardósia, mas é ambíguo.)
[Post 4498]

Como se escreve nos jornais

Atirou mal

      Estão a ver ali o «prime-time» hifenizado no texto de Fernanda Câncio? Muito bem. Agora vejam este excerto de outro artigo: «O presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia foi, de resto, o primeiro dos três convidados a entrar em estúdio. “Já era justo que o Nico tivesse um talk show em prime time na televisão portuguesa”, disse o autarca» («Nicolau Breyner regressa ao ‘prime time’ entre políticos», Ana Filipe Silveira, Diário de Notícias, 25.02.2011, p. 9). E agora leiam o que se recomenda no Livro de Estilo do The Times: «Prime time noun, primetime adjective.» Vai sendo mais necessário saber inglês do que português... Neste último artigo, temos prime time, talk show, stand up comedy, sketches e esta aberração: «Também Nuno Eiró está de regresso, após ano e meio afastado do pequeno ecrã. “Sou o sidekick do programa. Estou no exterior, tenho intervenções em estúdio... É um regresso com muito prazer porque é com o Nico”, atirou» («Nicolau Breyner regressa ao ‘prime time’ entre políticos», Ana Filipe Silveira, Diário de Notícias, 25.02.2011, p. 58).
[Post 4490]

Como se escreve nos jornais

Mettre en poche

      «Não é à China, nem à Rússia, nem à Venezuela, nem ao Brasil; nem tanto, sequer, aos países da zona. É aos que historicamente culpam por todos os seus males e que forjaram cumplicidades com todos os ditadores em causa — mesmo os que, como Kadhafi, mandaram abater aviões civis europeus — em troca de petróleo, contenção da imigração e investimentos bilaterais, os que empocham sorridentes o dinheiro das oligarquias e fecham os olhos a todas as violações de direitos humanos que não apareçam em prime-time (só agora é que a Suíça percebeu que Mubarak e Kadhafi são facínoras, para decidir congelar-lhes as continhas?) que os líbios e os bahreinianos pedem apoio: a velha Europa e a velha América» («24.02.2011», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 25.02.2011, p. 9).
      No Diário de Notícias, não há jornalista tão propenso ao barbarismo. Experimente, Fernanda Câncio, perguntar aí aos seus colegas se sabem o que significa «empochar». Não sei se há algum dicionário da língua portuguesa que acolha o verbo, tirante José Pedro Machado no Grande Dicionário da Língua Portuguesa (Lisboa: Amigos do Livro Editores, 1981, p. 375), que condena o seu uso: «Empochar, v. tr. Galicismo de uso condenável, pois só há vantagem em o substituir por embolsar.» «O empochar, por embolsar, já se vai vulgarizando, e não tardará que digamos poche em vez de bôlsa» (Paladinos da Linguagem, Agostinho de Campos. Lisboa: Livrarias Aillaud e Bertrand, 1922, p. 237). «Empochar. É galicismo inaceitável por embolsar» (Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Editora Educação Nacional, p. 178).
      Para juntar o pior de outros e deste tempo, a jornalista também achou imprescindível o anglicismo prime-time. Tem receio de, se não escrever desta forma, não ser entendida...

[Post 4489]

Estrangeirismos

Com humanismo

      Jorge Fiel entrevistou o director-geral da Servilusa (abrenúncio!), António Balha e Melo. Ora vejam o atendimento: «Após a recepção da chamada no call center, é mobilizado um dos 36 técnicos comerciais, que fardado de fato cinzento, pin da Servilusa na lapela, camisa branca, gravata verde-alface, se desloca ao local do óbito num Ford Focus castanho. Mostra à família o catálogo que leva no portátil e aconselha nas opções. Assinado o contrato, é logo digitalizado e enviado por e-mail para o coordenador do serviço, que destaca uma assistente com formação em Humanísticas para tomar conta da operação até ao fim» («“Ninguém morre duas vezes”», Jorge Fiel, «DN Gente»/Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 104).
      Aquilo da assistente com formação em Humanísticas é que me deixou, já não digo de pé atrás, porque nestes casos vão os dois ao mesmo tempo, mas intrigado. Como a seguir se lê que «dignidade, respeito e humanismo são o mantra do director-geral da Servilusa», temo que haja aqui confusão. Quanto a Jorge Fiel, que começou por ser revisor no Jornal de Notícias, não teve artes de evitar os estrangeirismos call center, pin e e-mail. No perfil que traçou de António Balha e Melo, porém, teve o bom senso de escrever que o entrevistado, «aos 49 anos, aceitou o desafio de um caçador de cabeças (Rafael Mora) para tentar salvar da morte a Servilusa». Vá lá, evitou o barbarismo headhunter.

[Post 4459]

Como se escreve nos jornais

Imagem tirada daqui
Não têm pena

      Patrícia Viegas, do Diário de Notícias, entrevistou Paola D’Agostino, tradutora, escritora e professora de Italiano que vive em Portugal desde o ano 2000, isto porque a «escritora integrou a manif anti-Berlusconi». A determinada pergunta, Paola respondeu: «Falo das raparigas envolvidas nos escândalos e a quem são feitas por vezes promessas que ninguém chega a cumprir. Elas oferecem o seu corpo e algumas são ministras e deputadas no Parlamento. Mara Carfagna, que também já foi velina, é agora ministra da Igualdade de Oportunidades — que é um ministério que merecia mais dignidade» («“Italianos perceberam que havia um proxenetismo de Estado”», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 15.02.2011, p. 56).
      Cara Patrícia Viegas, por acaso não se esqueceu de perguntar o que significa «velina»? Assim, sem qualquer explicação (e olhando para a fotografia da senhora ministra), começamos a formar no espírito uma certa ideia. Contudo, no Il Sabatini Coletti, lemos que «velina» é a «valletta di trasmissione televisiva che parodia i telegiornali». As vallettas italianas não são, como as nossas, coisas sujas, antes raparigas atraentes que servem de ajudantes do apresentador de um programa televisivo. (Quanto a «bunga-bunga», dispensamos esclarecimentos. É o nosso, não dicionarizado, «truca-truca».)
      Temi o pior, até porque já tinha ficado espantado com um cartaz na tal manif em que se podia ler «Berluscona». É que os manifestantes, todos com cara de italianos, já passaram por um processo de aculturação...

[Post 4437]

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