Como se escreve nos jornais
25.2.11
Mettre en poche
«Não é à China, nem à Rússia, nem à Venezuela, nem ao Brasil; nem tanto, sequer, aos países da zona. É aos que historicamente culpam por todos os seus males e que forjaram cumplicidades com todos os ditadores em causa — mesmo os que, como Kadhafi, mandaram abater aviões civis europeus — em troca de petróleo, contenção da imigração e investimentos bilaterais, os que empocham sorridentes o dinheiro das oligarquias e fecham os olhos a todas as violações de direitos humanos que não apareçam em prime-time (só agora é que a Suíça percebeu que Mubarak e Kadhafi são facínoras, para decidir congelar-lhes as continhas?) que os líbios e os bahreinianos pedem apoio: a velha Europa e a velha América» («24.02.2011», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 25.02.2011, p. 9).
No Diário de Notícias, não há jornalista tão propenso ao barbarismo. Experimente, Fernanda Câncio, perguntar aí aos seus colegas se sabem o que significa «empochar». Não sei se há algum dicionário da língua portuguesa que acolha o verbo, tirante José Pedro Machado no Grande Dicionário da Língua Portuguesa (Lisboa: Amigos do Livro Editores, 1981, p. 375), que condena o seu uso: «Empochar, v. tr. Galicismo de uso condenável, pois só há vantagem em o substituir por embolsar.» «O empochar, por embolsar, já se vai vulgarizando, e não tardará que digamos poche em vez de bôlsa» (Paladinos da Linguagem, Agostinho de Campos. Lisboa: Livrarias Aillaud e Bertrand, 1922, p. 237). «Empochar. É galicismo inaceitável por embolsar» (Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Editora Educação Nacional, p. 178).
Para juntar o pior de outros e deste tempo, a jornalista também achou imprescindível o anglicismo prime-time. Tem receio de, se não escrever desta forma, não ser entendida...
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