Como se escreve nos jornais

Eu não usaria

      «Marcelo Rebelo de Sousa, que acompanhou a onda de estudantes até à porta, diria depois à SIC que os jovens da JSD deviam ter saído da sala antes de Passos para formarem uma espécie de cordão de defesa e abafarem o protesto. Mas ontem isso acabou por não acontecer porque o próprio Passos, numa imagem de bravata, quis enfrentar o protesto — como que o desvalorizando» («Primeiro-ministro recebido por estudantes de Direito com coelho enforcado», Maria Lopes, Público, 28.02.2013, p. 9).
      Há-de ser a parte de opinião... Não será excessivo usar a palavra bravata ­— ameaça arrogante; fanfarronice; bazófia; jactância — neste contexto?
[Texto 2641]
Etiquetas ,
edit

Ortografia: «shakespeariano»

Alguma dúvida?

      «No Corriere della Sera, o historiador Ernesto Galli della Loggia vai mais longe. “Querer mandar para casa uma classe política inteira não será um objectivo político (...) e também um ambicioso programa eleitoral?” Perante uma classe política “fechada na impotência do seu fingido poder”, não será este “bufão shakespeareano, na sua loucura, o único capaz de dizer o que os outros não podem dizer?”» («Beppe Grillo ocupa a cena e diz: “Bersani é um morto que fala”», Jorge Almeida Fernandes, Público, 28.02.2013, p. 21).
      Errado. É shakespeariano, com i, como se pode confirmar em qualquer dicionário ou vocabulário.

[Texto 2640]
Etiquetas
edit

«Um multiplex/dois multiplex»

Não é assim, não

      «A cidade de Guimarães, que no ano passado foi Capital Europeia da Cultura, deixou de ter exibição comercial de cinema. Os dois multiplexes que serviam a população – o Guimarães Shopping, com seis ecrãs, e o Espaço Guimarães, com cinco – foram fechados por falta de energia» («Capital Europeia da Cultura 2012 está sem cinema», Público, 28.02.2013, p. 29).
      Erradíssimo. Sr. jornalista, veja, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: multiplex é nome masculino de 2 números. Assim, diz-se um multiplex, dois multiplex.
[Texto 2639]
Etiquetas ,
edit

«Manif»? «Manifs»?

Estava aqui a pensar

      «A ameaça que alguns elementos radicais têm lançado nas redes sociais de divulgar na Internet fotos com nomes, dados pessoais e moradas dos agentes da investigação criminal da PSP – incentivando à vingança contra aqueles que dizem ser “infiltrados” da polícia nas “manifs” – vai ter uma resposta firme da polícia, garantiu ao DN uma fonte da hierarquia da PSP» («PSP vai processar quem divulgar moradas e nome dos agentes da ‘manif’», Rute Coelho, Diário de Notícias, 18.11.2012, p. 23).
      Aqui, porque aparecem singular e plural, é flagrante: não se pode dizer que, grafada desta maneira, seja palavra afeiçoada ao português. Há muito que propus que esta redução vocabular se escrevesse manife/manifes, tal como profe/profes. Dá-se o infeliz caso de o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora as registar tal como surgem no texto acima. Não chega envolvê-las no cordão sanitário das aspas: é preciso expurgar a escrita destas formas.

[Texto 2638]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «subtexto»

Deixem-me adivinhar: vem do inglês


      «MacFarlane, cujo humor politicamente incorrecto gera tantos milhões quanto divide opiniões, foi o anfitrião da cerimónia de domingo, em Los Angeles. Desde o Dolby Theatre viu-se MacFarlane cantar We saw your boobs (“vimos as tuas mamas”) e enumerar actrizes que se despiram no ecrã, assistiu-se à rábula em que confundia Jamie Foxx com Eddie Murphy (subtexto, “os pretos são todos iguais”) ou à confissão de que o actor que melhor entrou na cabeça de Lincoln não foi Daniel Day-Lewis, vencedor do Óscar de Melhor Actor, mas John Wilkies Booth (exactamente, o homem que assassinou aquele Presidente americano)» («Seth MacFarlane: grosseiro ou vítima de quem quer moralidade no humor?», Mário Lopes, Público, 27.02.2013, p. 24).

[Texto 2637]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «ex»

Esqueçam as aspas

      «A loura bonita e “ex” de Brad Pitt está a ser acusada de não socializar com os outros actores durante a rodagem do filme baseado no livro The Switch, do escritor Elmore Leonard. A acusação, neste meio, nunca tem rosto» («Jennifer Aniston: acusam-na de não “socializar”», Público, 27.02.2013, p. 35).
      Para quê as aspas, podemos saber? Por ser coloquial, querem ver? Nem precisava, mas por acaso está dicionarizado.
[Texto 2636]
Etiquetas ,
edit

«Mulher/esposa»

Respeitinho

      «A semelhança entre as teses de mestrado do vereador da Câmara de Viseu e da sua esposa estão a gerar polémica e já há quem defenda a demissão de Guilherme Almeida dos cargos que ocupa. O autarca é líder do PSD local e é apontado como um dos candidatos do PSD à sucessão de Fernando Ruas na câmara» («Vereador de Viseu tem tese parecida com a da mulher», Sandra Rodrigues, Público, 27.02.2013, p. 15).
      Não é muito comum, nos jornais, usar-se o termo «esposa» em vez de «mulher», sobretudo num contexto como este.
[Texto 2635]
Etiquetas
edit

Léxico: «parola»

Fiquemos à parola

      Hoje, ouvi na rádio uma parte de uma reportagem em directo da última audiência geral de Bento XVI. A certa altura, alguém usou, o que é natural, pois estava a falar italiano, a palavra «parola». Pois bem, nós também a temos (emprestada pela língua italiana), e ainda não saiu dos dicionários.
      «— Que pretendeis de mim, Gomes Bochardo? Falai prestes, que estou de afogadilho e nada azado para muita parola» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 14).
[Texto 2634]
Etiquetas ,
edit

«Se não/senão»

Vejamos se ainda se lembram...

      Será assim? «Acusar-se Carlos Azevedo de assédio homossexual é-me difícil se não impossível de compreender. Essas coisas, recomenda a prudência que se pratiquem às escondidas e na intimidade (embora eventualmente se executem às claras e na praça pública)» («Bispo Carlos Azevedo: um testemunho», Henrique Manuel Pereira (professor na Universidade do Porto), Público, 27.02.2013, p. 43).
      Ou assim? «É extremamente difícil, senão impossível, em muitos casos, distinguir o autor pelo estilo das pequenas composições de redondilha. Por isso, a tendência para as incorporar, salvo apocrifia declarada, é desculpável» (Álvaro J. da Costa Pimpão, na introdução às Rimas de Camões. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953, p. xxxix).
      Todas as respostas aqui: «Tradução: “Sinon”», o quinto texto mais comentado do blogue.

[Texto 2633]
Etiquetas ,
edit

Sobre «benjamim»

Alvíssaras

      Não, pelo que vejo, no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, mas no Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, José Pedro Machado escreveu: «Benjamim, adj. e s.» Será o único dicionário a fazê-lo? Um substantivo adjectivado, isto é, tomado, empregado como adjectivo, não é assim tão raro, mas muito menos, como sabemos, do que a substantivação de um vocábulo pertencente a qualquer das restantes nove classes gramaticais. Montexto já aqui afirmou saber, pela leitura de Jorge Daupiás, que Arnaldo Gama o empregara como adjectivo. Não apenas ele; também Silveira Bueno reparou. Eis o passo: «Camilla, o seu beijinho, a filha benjamim já o pozera nos apuros que sabemos quando elle teve de partir para o Roussillon; e mais tarde, quando a trouxe de Encourados para Areias, também lhe não tirou poucas noutes de somno, por se lhe ter despertado a consciencia de que a filha estava finalmente mulher» (O Sargento-Mór de Villar, 1.º vol., Arnaldo Gama. Porto: Tipografia do Comércio, 1863, p. 14).

[Texto 2632]
Etiquetas
edit

Léxico: «camonista»

Andamos a perder palavras

      «Foram os primeiros volumes da última obra que D. Leonor de Noronha (1488-1563), filha de D. Fernando de Meneses, segundo marquês de Vila Real, fez publicar em Coimbra, por João da Barreira e João Álvares, entre 1550 e 1553. Dedicou-os a D. Catarina, mulher de D. João III, e intitulou a sua tradução Coronica Geral da Eneyda... des ho começo do mundo ate nosso tempo. Em Os Lusíadas (1572), Camões inspirou-se na história universal de Sabelico, conforme a lição do filólogo José Maria Rodrigues. E, um século depois da sua primeira edição em português, o célebre bibliógrafo e camonista João Franco Barreto ainda informava que os restantes volumes da tradução feita por D. Leonor circulavam em manuscrito» («Uma história do mundo quinhentista: Sabelico», Diogo Ramada Curto, Público, 26.02.2013, p. 26).
      O mais parecido que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista é «camionista»... Ah, sim, certamente, também regista «camonianista» (e «camoniano»), mas são muuuuuuuitas sílabas. O Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves regista os três.
[Texto 2631]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «nemátodo»

Que traduz a ideia de fio

      «Cientistas da Universidade de Coimbra e da Escola Superior Agrária de Coimbra desenvolveram um dispositivo para detectar a doença do nemátodo do pinheiro muito antes dos sintomas. O artigo que dá conta do trabalho foi distinguido com o Best Student Paper Award na Conferência Biodevices 2013, em Barcelona» («Nemátodo do pinheiro já tem detecção precoce», Teresa Firmino, Público, 26.02.2013, p. 29).
      É assim que andamos a ouvir e a ler há anos. No entanto, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista «nematode». O Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves só regista «nematóide» (adj. 2 gén. e s. m.). A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (pp. 572 e 573 do vol. 18) regista, oh riqueza, «nemátodes», «nematóide», «nematódios» «nemátodos».
[Texto 2630]
Etiquetas ,
edit

Butelo ou bulho, casulas ou cascas

Em terras de Bragança

      «As panelas foram postas ao lume há quase três horas. Lá dentro, ferve a água que coze os enchidos, butelo ou bulho, assim se chama o protagonista desta cozinha. [...] O enchido consistente acompanha com outras carnes de porco e umas cascas ou casulas, é como quem diz com vagens de feijão seco» (jornalista Sílvia Brandão, Jornal da Tarde, 23.02.2013). E a Sra. cozinheira Fernanda Reis disse: «É feita uma adoba dos ossinhos e das tenrilhas do porco, digamos, e é inserido na bexiga do porco e é seco, como o resto do fumeiro.»
[Texto 2629]
Etiquetas ,
edit

Como se escreve nos jornais

A culpa é mesmo do revisor

      «“Há demasiados ladrões no poder, já nos roubaram que chegue... Nós já suportámos demasiado”, diz Clemente, que tem um filho nascido na Argentina que é carabiniere em Turino» («“Os italianos querem votar e mudar”, mesmo os que só se decidem nas urnas», Sofia Lorena, Público, 25.02.2013, p. 23).
      Carabiniere será para dar a cor local, imprescindível numa reportagem. «Turino» é para os eventuais leitores italianos perceberem pelo menos uma ínfima parte do artigo.

[Texto 2628]
Etiquetas ,
edit

«Resignação», «renúncia»...

O leitor decide

      «Um cardeal com poder de voto na eleição do novo Papa foi acusado de ter praticado “actos impróprios” com quatro jovens seminaristas há mais de 30 anos. A denúncia contra Keith O’Brien, o cardeal da Escócia, partiu de três padres e um ex-padre, na semana anterior ao anúncio de resignação de Bento XVI. Mas a notícia só agora chegou aos media. [...] A apresentação da queixa parece ter sido planeada para coincidir com a aposentação do cardeal, mas o facto de o Papa ter renunciado levou os queixosos a divulgá-la, pedindo que O’Brien seja impedido de participar no conclave. Se assim não for, sentirão que as suas queixas não foram devidamente atendidas. Querem um conclave “limpo” e virar a página sobre o passado» («Cardeal da Escócia acusado de ter tido “actos impróprios” com seminaristas», Ana Dias Cordeiro, Público, 25.02.2013, p. 24).
      Em que ficamos: Bento XVI resignou ou renunciou? Na declaração oficial de Bento XVI, é «renúncia» que se lê, e não vejo motivos para se dizer de outra forma.
[Texto 2627]
Etiquetas ,
edit

«Líder camarária»!

Raispartam

      «A população de Haringey, no norte de Londres, rejubilou através da sua líder camarária, Claire Kober: “É um verdadeiro reconhecimento para a comunidade que a sua campanha pareça ter ajudado a impedir a venda desta obra de arte.” [...] “Vamos continuar a explorar todas as possibilidades para trazer o Banksy de volta à comunidade a que pertence”, declarou a líder política do município ao Telegraph» («É legal agarar num Banksy e vendê-lo? As autoridades dizem que sim», Mário Lopes, Público, 25.02.2013, p. 26).
      «Líder camarária», «líder política do município»... Mas, raispartam, Claire Kober não é vereadora? Então para quê usar essa designação alienígena e ambígua de «líder»? Certo é que Mário Lopes está em muito boa companhia. Na edição de hoje deste jornal, pode ler-se: na página 4, «líder da UGT»; na página 12, «líder da direita portuguesa», «líder Jonas Savimbi» e «líder do CCISP»; na página 21, «líderes europeus» (três vezes); na página 22, «líder do centro-esquerda»; na página 23, «líder da direita» e «líderes da Associação dos Trabalhadores Católicos Italianos»; na página 24, «líder máximo da Igreja Católica»; na página 27, «líder dos Beautify Junkyards»; na página 47, «líderes que versam altos problemas de Estado»; na página 48, «líder da Liga».
[Texto 2626]
Etiquetas ,
edit

Limitação de mandatos

A culpa é do revisor

      «O tempo galgou oito anos e a Presidência da República, após rios de suor, a correr em Belém, descobriu que, na limitação dos mandatos autárquicos, a Imprensa Nacional equivocou-se: um revisor que não reviu escreveu: “de” câmara ou junta, ao invés da profundidade da diferença do “da” câmara ou “da” junta» («O “de” e o “da” das autarquias», Alberto Pinto Nogueira, Público, 25.02.2013, p. 47). Estamos de acordo, Sr. procurador-geral adjunto, esta é uma discussão idiota. Mas o seu texto carece de revisão: os revisores não escrevem ­— revêem (ou não revêem). A única excepção conhecida é ficcional: o competentíssimo e humílimo Raimundo Silva.
[Texto 2625]
Etiquetas
edit

Sobre «tiroteio»

Pólvora seca jornalística

      «A polícia encontrou munições ilegais de uma arma da qual Oscar Pistorius não tem licença (de 38 milímetros), sendo apenas legal a pistola de nove milímetros utilizada no tiroteio» («Oscar Pistorius já tinha sido detido por agressão», Madalena Esteves, Diário de Notícias, 21.02.2013, p. 40).
      «Tiroteio»... Disparou três ou quatro ou seis tiros, do outro lado alguns gritos e é um tiroteio. Pode consultar, por exemplo, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que regista: «disparo sucessivo de tiros de uma e outra parte». Reeva Steenkamp disparou com quê, com o piaçaba?

[Texto 2624]
Etiquetas
edit

Tradução: «outback»

Evidentemente

      «Cientistas descobriram uma zona de impacto de 200 quilómetros de diâmetro no interior australiano, que terá sido provocada pela queda de um gigantesco meteorito há 360 milhões de anos» («Meteorito gigante caiu há 360 milhões de anos», Diário de Notícias, 21.02.2013, p. 30).
      «One of the largest ancient asteroid impact zones on Earth has been discovered in outback Australia.» Mesmo com maiúscula inicial, Outback. T., eu não disse que podia traduzir-se assim? Que nos interessa a nós como dizem os Australianos?
[Texto 2623]
Etiquetas
edit

Ortografia: «hip-hop»

Hyphenated word

      «Para Capicua, alter ego da rapper Ana Fernandes, existem dois lados da moeda que une as mulheres ao hip hop» («Porque o ‘hip hop’ também é das mulheres», João Moço, Diário de Notícias, 21.02.2013, p. 28).
      «Existem dois lados da moeda que une as mulheres»? A frase está avariada, mas não é disso que vamos falar, mas sim de hip-hop: é assim que vejo a palavra grafada em todos os dicionários de língua inglesa.
[Texto 2622]
Etiquetas ,
edit

«Capitã»?

Arcaísmo, sim

      «Ontem, uma oficial do Exército responsável pela averiguação do acidente entrou em contacto com a cônsul honorária do Nepal, Maria Cruz, para se inteirar das necessitadas [sic] da família de Narendra Giri. “A família é muito pobre e não sei como vão conseguir pagar as despesas neste período. A capitã que me ligou foi muito cordial a oferecer o apoio”, disse a vice-cônsul» («Nepalês continua em estado de coma», Diário de Notícias, 21.02.2013, p. 23).
      Continuam a ignorar que é «consulesa» — e, neste caso, os dicionários não falham — o correcto. Em contraponto, vejam como a consulesa usou o termo capitã. Ninguém mais usa, actualmente, é verdade, mas a mim «capitoa» parece-me jocoso.
[Texto 2621]
Etiquetas
edit

Léxico: «achismo»

Acho eu

      «Todos os dias se ouve dizer os [sic] que os portugueses são assim ou pensam isto e sentem aquilo, com muito pouca fundamentação, lembra o investigador Pedro Magalhães. Agora já é possível confrontar os achismos com dados concretos: o Portal da Opinião Pública (POP), apresentado ontem, junta informação sobre Portugal e sobre os seus parceiros comunitários na Internet (www.pop.pt)» («Portugueses acreditam mais no céu do que no inferno», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 21.02.2013, p. 18).
      Está no Houaiss: «teorização fundada no subjectivismo do ‘eu acho que’ (aplicável a qualquer campo teórico); achadismo». Não faria mal ser acolhido noutros dicionários.
[Texto 2620]
Etiquetas ,
edit

«Eminência/iminência»

Então não está prestes a acontecer

      «Perante a eminência de D. Carlos Azevedo ser bispo do Porto, o padre José Nuno informa o Núncio Apostólico, representante do Papa em Lisboa, que o prelado manifestou no passado atitudes de assédio sexual junto dos seminaristas.» («Denúncia», Diário de Notícias, 21.02.2013, p. 7).
      «Eminência»... Nem Mons. Rino Passigato é cardeal. Estas confusões também provêm da falta de tempo? Querem sempre fazer-nos crer que sim, mas, nestas coisas, como bem sabemos, fazer bem não demora mais do que fazer mal.
[Texto 2619]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «patriarcável»

A juntar-se a «papável»

      «Nos últimos tempos, ao pronunciar-se sobre o futuro sucessor de Pedro, [D. Carlos Azevedo] considerou que devia ser um jovem e, de preferência, asiático ou africano. E, perante a resignação de D. José Policarpo, ele próprio era apontado como um “patriarcável” de Lisboa» («O bispo intelectual que é responsável pelo património e cultura do Vaticano», Fernando Madaíl, Diário de Notícias, 21.02.2013, p. 7).
[Texto 2618]
Etiquetas
edit

Léxico: «invejidade»/«gavola»

Se bem me lembro

      «O Matesinho de São Mateus era o maior gavola que a Vila da Praia tinha. Isto diziam certos pescadores, cheios de invejidade da sua fisga certeira» (Quatro Prisões debaixo de Armas, Vitorino Nemésio. Lisboa: Editorial Verbo, «Colecção RTP», s/d, p. 9).
       «Gavola» não — e não será invenção de Nemésio? —, mas invejidade está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Só lhe faltam abonações para ser o melhor dicionário da língua portuguesa. Gavola significa fanfarrão, gabarola, como vejo aqui na p. 294 do Dicionário de Falares dos Açores, de J. M. Soares de Barcelos (Coimbra: Edições Almedina, 2008), que abona com este passo de Nemésio. «Invejidade» já conhecia de outros autores, como de Tomaz de Figueiredo.

[Texto 2617]


Etiquetas ,
edit

«Heis/haveis»

Língua pátria

      Ora vejam: «Não heis-de respeitar como a homem quem vos livra de uma enfermidade: como a um Deus o haveis de venerar.» Isto escreveu o P.ᵉ Manuel dos Reis num dos seus sermões. Coisa comezinha. Hoje em dia, mesmo professores universitários duvidam que se possa usar ou que exista a forma sincopada heis-de. Pode, e desde o século XV, quando apareceram as duas, heis e haveis. E há outros casos de dualidade de formas neste verbo.
[Texto 2616]
Etiquetas
edit

Hiperémese gravídica

Vai-se percebendo

      «A duquesa de Cambridge regressou ontem aos seus compromissos oficiais. Kate Middleton marcou presença no centro de reabilitação para toxicodependentes Hope House, em Londres, depois de ter estado algumas semanas afastada devido ao quadro clínico de hiperémese gravídica e de ter passado férias na ilha Mustique, nas Caraíbas» («Kate não reage a críticas e retoma agenda oficial», Ana Filipe Silveira, Diário de Notícias, 20.02.2013, p. 53).
      Vá lá, aqui já no-la tinham vendido como hyperemesis gravidarum. Por este andar, ainda acabarão por falar em português escorreito: enjoos matinais crónicos.
[Texto 2615]
Etiquetas ,
edit

Doença ou cura?

Ambas

      «Já na ossada de D. Pedro IV foi possível observar duas fraturas associadas a acidentes de equitação. “Numa dessas fraturas, provavelmente foi atingido o pulmão, mas não foi diagnosticado na hora e isso gerou o pneumotórax [lesão na pleura que leva a que um dos pulmões ‘cole]”, explica [o investigador Paulo Saldiva, da Universidade de São Paulo]» («Ossadas contam história de imperadores do Brasil», Diário de Notícias, 20.02.2013, p. 30).
      Pneumotórax: lesão na pleura. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o vocábulo e define-o assim: «método de tratamento da tuberculose pulmonar pela introdução de ar na cavidade pleural para provocar a compressão e a retracção do pulmão e, finalmente, a cicatrização das lesões pulmonares». Uf... Em suma, num caso é doença e no outro, cura. Ou seja, neste dicionário falta a acepção usada no artigo.
[Texto 2614]
Etiquetas ,
edit

A cônsul ou a consulesa?

Simplificando

      «Maria Teresa Cruz, cônsul honorária do Nepal em Portugal, também esteve ontem a tentar inteirar-se da situação clínica de Narenda Giri e manifestou ao DN a intenção de contactar o Exército para um apoio imediato à família. “Estamos a falar de pessoas que vieram trabalhar para Portugal e que não têm capacidade para arcar com as despesas de saúde que uma situação deste tipo implica”, disse a cônsul, que passou parte da tarde a tentar contactar elementos da comunidade nepalesa em Lisboa» («Nepalês em coma com as pernas amputadas», Luís Fontes, Diário de Notícias, 20.02.2013, p. 21).
      «A cônsul». No Público, como vimos aqui, preferem consulesas. Como se trata de um feminino que se forma de uma maneira irregular, logo os falantes procuram simplificar as coisas.
[Texto 2613]
Etiquetas
edit

Léxico: «vidairada»

Às catadupas

      Alguém escreveu aqui a medo «vidairada». No meio de todo o preto, a vermelho. Aquilino Ribeiro, contudo, usou-o afoitamente, e muitas vezes. «Semelhante vidairada tivera o inevitável contraste. A esposa, filha de D. Ramiro Enes de Grijó, adiantado-mor de Entre Douro e Minho, pagara-se bem da fragalhotice do marido, introduzindo um amante em casa, sob capuz de veador» (Humildade Gloriosa, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1966, p. 32). A medo, e tudo porque não está nos dicionários modernos. Está, porém, na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Ah, sim «fragalhotice» ou «fragalhotice» também se eclipsaram dos dicionários.
[Texto 2612]
Etiquetas ,
edit

Sobre «pato-bravo»

De Tomar, nada mais

      «Era quase certo que o dito pato-bravo já conseguira todas as aprovações e licenças para o seu negócio torpe, que já dera início à construção de umas monstruosidades — agora a moda consistia na imitação de umas coisas hediondas com muitos andares, a terminarem em ogiva do tipo das naves espaciais —, e era quase certo que já estava a promover a venda por apartamentos, em time-sharing ou noutro sistema qualquer, a uns lorpas de cujo grupo chegavam a fazer parte uns digníssimos sujeitos e respeitáveis esposas» (Partida de Sofonisba às Seis e Doze da Manhã, Vasco Graça Moura. Lisboa: Quetzal, 1993, p. 65).
      Vi muito bem: não está, inacreditavelmente, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Só lá está uma acepção: as simpáticas aves palmípedes. Dir-se-á somente que é o «indivíduo espertalhão ou aldrabão», como regista o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa? E o construtor civil improvisado, onde fica no meio disto?
       Pato-Bravo: «Servente da construção civil que vem de Tomar para Lisboa, onde faz fortuna a pulso – e à custa de edifícios de gosto e qualidade duvidosos. No rio Nabão, que banha Tomar, há muitos patos-bravos» (LX60: A Vida em Lisboa nunca mais Foi a Mesma, Joana Stichini Vilela e Nick Mrozowski. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2012, p. 133).
[Texto 2611]
Etiquetas ,
edit

Plural dos apelidos

E quem não manda obedece

      Este texto é sobre a permanência central e canónica dos mitos gregos na imaginação ocidental. Ná, vou antes falar dos Montéquios e dos Capuletos. Esperem, ainda me ardem os olhos de uma mensagem sobre outra obra, sem Cappelleti nem Montecchi: «Atenção, Helder, deixar apelidos no singular.» Nem toda a persuasão.
[Texto 2610]
Etiquetas
edit

Plural de «habitat»

Agora que pensamos nisso

      «Mais uma vez, o sucesso das espécies na tentativa de adaptação a um mundo mais quente não é linear. As alterações profundas nos habitats e a fragmentação dos territórios provocadas pelos seres humanos não ajudam nada» (Portugal a Quente e Frio, Filomena Naves e Teresa Firmino. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009, p. 166).
     É assim, o plural de habitat escreve-se desta maneira? O Vocabulário Ortográfico Português diz que sim. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não diz nada. Uma coisa é certa: se o grafarmos como termo latino, não lhe podemos adjungir o s sem mais. E agora?
[Texto 2609]
Etiquetas ,
edit

«Lêntico/lótico»

Esse é que seria um bom trabalho

      Outra falha nos dicionários, inexplicável sobretudo nos que têm edição em linha, é a não indicação de vocábulos relacionados, sinónimos e antónimos. Por exemplo: recentemente, fiquei a conhecer as palavras lêntico (relativo a ambiente de águas paradas ou de pouca movimentação) e lótico (relativo a ambiente de águas movimentadas). Devia haver uma remissão mútua nos verbetes. E o que custava fazer isso? Nada. Quase nada.
[Texto 2608]
Etiquetas ,
edit

«Círculo vicioso/círculo virtuoso»

Não é apenas isso

      Num texto que estou a ler (um relatório, 520 páginas), acabei de ler a expressão «círculo virtuoso». Fui comprovar se estava no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Não está. E mais: a definição de «círculo vicioso» que regista não é o sentido habitualmente usado. Veja-se: «erro de raciocínio que consiste em provar A por B e B por A». Ainda há muito para fazer, essa é que é a verdade.

[Texto 2607]
Etiquetas
edit

Tradução: «bagman/button man/homme de main»

Fica a pergunta

      Já aqui falámos da tradução de bagman. Será mariola, como sugere Montexto, mas mariolas há muitos. R. A. sugere a expressão «homem da mala», que, tanto quanto pude pesquisar, se usa para designar, no Brasil, o indivíduo, intermediário, que suborna árbitros. «Homem de mão», como está na tradução? Nunca até então tinha visto. Hoje, sei que vem directamente do francês homme de main: «Celui qui est au service d’autrui pour exécuter des tâches généralement répréhensibles ou illégales. Bien dirigé, il peut servir d’homme de main pour toutes les besognes (Sartre, Mains sales, 1948, 1ᵉʳ tabl., 3, p. 29).» Alguém tem aí a tradução portuguesa, com chancela da Europa-América, desta obra de Sartre? Porque me voltei a lembrar disto? Acabo de ver button man traduzido por... «homem de mão». Não servirá «capanga» — que também veio do Brasil — para traduzir ambos os termos?
[Texto 2606]
Etiquetas ,
edit

Tradução: «chignon»

Então não

      «Chignon», lia-se no original. «Carrapito», verteu o tradutor. Corte-se — carrapito — decidiu alguém, e substitua-se por «coque». Vamos aos dicionários. Os de língua inglesa dizem que chignon é «a knot of hair that is worn at the back of the head and especially at the nape of the neck». Vem do francês, língua em que, por extensão de sentido, é a «coiffure féminine consistant en cheveux ramassés et relevés plus ou moins haut, suivant la mode, sur la nuque ou sur la tête». Coque chegou-nos do francês, e, se para nós é o «cabelo apanhado atrás da cabeça, enrolado em espiral e preso com ganchos, elásticos, rede, etc.», na língua francesa é o «ruban ou mèche de cheveux en forme de coque». Carrapito ou carrapicho, por sua vez, é a «pequena porção de cabelo presa no alto da cabeça». Tudo segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. O Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora dá como tradução de chignon puxo, que não é mais do que a «trança ou tufo de cabelo enrolado e preso atrás da cabeça». Conclusão? É mesmo necessária? Só na obra de António Lobo Antunes é que há mulheres de carrapito. Pode ser?
[Texto 2605]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «badocha»

Conheciam?

      Ora, tinha de ser de origem obscura, pois claro. Mas confesso que não conhecia. Encontrei-o numa tradução. O mafioso engordara, era agora um «fat boy». «Badocha», verteu o tradutor.

[Texto 2604]
Etiquetas ,
edit

Tradução: «street name»

Demasiado à letra

      A pinga era tão boa, que até «recebeu um nome de rua», X. «Nome de rua»? Nunca tal vira. Má tradução do inglês street name: «an alternative or slang term for something, especially an illegal drug: “Acid” is a street name for LSD». Nome na gíria. Claro que os dicionários bilingues têm alguma culpa.

[Texto 2603]
Etiquetas
edit

Léxico: «martíni»

Mas «vermute» está

      «Mais dois homens entraram, dirigiram-se ao balcão, um deles, fortalhaz, gingando como um camionista, pediu dois martinis. Uns anos antes teriam pedido bagaço ou vinho branco — ponderou Arnaldo criticamente» (Resposta a Matilde, Fernando Namora. Lisboa: Livraria Bertrand, 1980, p. 43).
      E não devia estar já nos dicionários? Sim, é verdade, está em alguns (e grafado «martíni»), mas não, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 2602]
Etiquetas ,
edit

O óbvio e o provável

Devem pensar

     Etc., e tal, «and the tobacco cackled». «E o tabaco casquinou», verteu o tradutor. Podia ter sido pior, pois claro, pois no Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora para cackle a primeira acepção é cacarejar. Será que esta gente pensa que os livros editados nos outros países não têm gralhas? Não está cackled por crackled?
[Texto 2601]
Etiquetas ,
edit

Como se escreve nos jornais

Uma coisa pela outra

      «O coletivo de juízes do Tribunal de Leiria condenou ontem o principal arguido do grupo “máfia do Oeste” a oito anos e quatro meses de prisão, em cúmulo jurídico, pelos crimes de associação criminosa, burla qualificada e falsificação de documentos» («Líder da ‘Máfia do Oeste’ condenado», Diário de Notícias, 15.02.2013, p. 23).
      O leitor A. M. comentou aqui que foram os «caramelos dos meios» que inventaram, porque deturparam o que ouviam, isto do «colectivo de juízes». Os dicionários não são tão maus que não registem, como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que tribunal colectivo é o «tribunal composto por três juízes, sendo um deles presidente e vogais os outros dois».
[Texto 2600]
Etiquetas
edit

Léxico: «héli»

Vamos ver se é desta

      «Proposta mais barata ganha concurso de ‘hélis’» (Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 15.02.2013, p. 20). Também já propus que fosse registado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora como redução de «helicóptero».
[Texto 2599]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «casula»

Registe-se

      «Durante três dias, de 22 a 24 de fevereiro, mais de 20 restaurantes do concelho vão servir o prato tradicional desta época, à base de um enchido de ossos específico da região transmontana, o butelo, acompanhado das casulas ou cascas, as vagens de feijão secas» («Comer butelo garante entradas para museus», Diário de Notícias, 15.02.2013, p. 22).
      Regionalismo, com certeza, mas devia estar registado nos dicionários modernos (está no dicionário de Cândido de Figueiredo). O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, não o regista, quando regista muitos outros regionalismos. Casula é o nome que se dá à vagem de feijão, colhida quando está já baguda, mas não seca, e que acaba de secar à sombra.
[Texto 2598]
Etiquetas ,
edit

«Secretos», uma acepção

Que se guarda oculto

      «Tal como na carne de vaca e porco, a carne de cavalo tem cortes e nomes similares: há bifes do lombo, secretos, carne picada, entrecosto. Os pratos são os mesmos: é possível grelhar, guisar ou assar. Apenas o preço é diferente, nalguns casos 30% mais baratos» («Carne de cavalo vem das coudelarias e é mais barata», André Rito, Diário de Notícias, 15.02.2013, p. 16).
      Tão secretos, tão ocultos, que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem regista a acepção.
[Texto 2597]
Etiquetas ,
edit

«Tomar no cu»

Perto de Manaus

      «Já o ex-secretário de Estado da Cultura Francisco José Viegas não tem papas na língua e, numa carta aberta ao seu antigo colega de Governo, o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio (indicado pelo CDS), mandou o fisco “tomar no cu”, por entender que é “um absurdo” esta exigência» («Incómodo na maioria depois de desabafo de Viegas», Miguel Marujo, Diário de Notícias, 15.02.2013, p. 10).
      Isto deve ser como as injecções – que se tomam ou se levam –, mas não é no Brasil que se diz desta forma? Ou em Moledo também se diz? Bem, não sei, eu nunca digo. (Quanto ao resto, tem razão: prò caralho. Não contem comigo. Artigo 21.º da Constituição.)
[Texto 2596]
Etiquetas
edit

«Papável» e as aspas

Nem assim

      «É ele [camerlengo Tarcisio Bertone] que vai liderar a Igreja Católica no período de sede vacante entre a saída do Papa e a eleição do seu sucessor. E o seu nome também integra a lista de “papáveis”» («O camerlengo que gosta de futebol e fala português», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 15.02.2013, p. 5).
      Por sugestão minha, se se lembram daqui, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora deixou de registar que «papável» é termo coloquial, e eu pensei que isso contribuiria para deixar de ser grafado entre aspas. Assim seria, se os jornalistas consultassem mais os dicionários. («Liderar a Igreja Católica»... E «sede vacante» tem de estar em itálico? Porquê?)
[Texto 2595]
Etiquetas ,
edit

«Findado o psalmo»

Interditos e obrigatórios

      E a propósito do Sr. Alferes arcaizante, lembrei-me agora mesmo de uma frase de Arnaldo Gama. Ei-la: «Findado o psalmo, os cavaleiros e o povo ergueram-se e tudo ficou por alguns minutos em silêncio verdadeiramente sepulcral» (O Balio de Leça, Arnaldo Gama. Porto: Livraria Educação Nacional, 1935, p. 165). Agora, dir-se-ia inevitavelmente «findo o salmo», nunca «findado». É este um tempo em que se prefere o irregular. E hoje também já não se pode dizer que o silêncio é sepulcral. Pelo menos num curso de escrita criativa. Excepto se este decorrer apenas em dois dias, como me disseram que um certo escritor está a publicitar. Escritor cujo nome não voltarei jamais a escrever, mas vejam.
[Texto 2594]
Etiquetas
edit

Tradução: «mime»

Assim fica

      «Recomeçaram a andar. Ivo, com o gesto, mimou um beijo que lhe atirou» (Direito Sagrado, Odette de Saint-Maurice. Lisboa: Editorial Presença, 1966, p. 176).
      Nesta acepção ­— dizer ou fazer por mímica; representar por gestos —, se o vi três ou quatro vezes na vida foi muito. Mas agora apareceu-me aqui alguém que «mimed a needle plunging», e não vejo melhor solução. Representou? Fingiu?
[Texto 2593]
Etiquetas
edit

Tradução: «back of ear»

Raramente

      Concha da orelha. Não se vê muito, mas aqui fica uma abonação: «Perdeu um para não ter que os usar; deixava nuas as bonitas orelhas e ganhou o costume de afastar com os dedos o cabelo para mostrar a concha das orelhas» (Os Espaços em Branco, Agustina Bessa-Luís. Lisboa: Guimarães Editores, 2003, p. 41).
[Texto 2592]
Etiquetas ,
edit

«Veio até os primeiros degraus»

Nada disso

      Vai para um mês, o leitor B. P. deixou-nos aqui alguns exemplos de «picuinhices, bizarrias e questões opinativas» de João de Araújo Correia. «Aqui está um: A.C. dizia sempre ‘até o’ em vez de ‘até ao’, que censurava. Fui até o caminho, em lugar de fui até ao caminho.» Nada de novo. Não é o único escritor que assim fazia — e, segundo o prisma que já apresento, devia assim fazer. No epítome de gramática portuguesa do dicionário de Morais, pode ler-se o seguinte: «Igual erro é juntar a a até; v. g. até ao muro; deve ser até o muro, até o campo, até as estrelas.» Com o lastro de incontáveis exemplos clássicos e autoridades da valia de Morais, onde está a picuinhice ou a bizarria ou a questão opinativa?
      «Levantou-se então, e veio até os primeiros degraus do tablado» (O Balio de Leça, Arnaldo Gama. Porto: Livraria Educação Nacional, 1935, p. 207).
[Texto 2590]
Etiquetas
edit

«A meia-voz»

No sítio certo e com hífen

      Por sugestão minha, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora já regista a locução a meia-voz no sítio certo e com hífen, no verbete «meia-voz». Afinal, se registava a locução a sangue-frio no verbete «sangue-frio», impunha-se uniformizar, como argumentei aqui.
      Eis quatro exemplos da obra O Balio de Leça, de Arnaldo Gama. (Porto: Livraria Educação Nacional, 1935, 217 pp.)
  • «Fr. Nuno tirou-o áparte e com êle esteve falando a meia-voz por mais de cinco minutos.» (p. 85)
  • «– Fr. Lopo, recordais bem o que vos disse? – balbuciou a meia-voz o lugar-tenente quási ao ouvido do companheiro.» (p. 86)
  • «– Sus, vós outros ­– disseram aqui a meia-voz alguns cavaleiros mancebos, sorrindo-se – ora vêde a carranca que vai já fazendo o ainda futuro balio! Cuidado!» (p. 101)
  • «As vozes roucas dos vélhos cavaleiros acompanharam a meia-voz o canto funerário, dando-lhe assim uma entoação que tinha de-veras alguma coisa do outro mundo.» (p. 175)
[Texto 2589]
Etiquetas
edit

Léxico: «governança»

Quem disse que era moderno?

      «– Sentemos-nos aqui, fr. Nuno – disse então por entre sorrisos – nós, os vélhos, já não podemos aguentar de pé com o pêso dos anos; e muito, muito é o que temos que conversar, meu leal e esforçado companheiro de trabalhos e de pelejas. Sobrinho, achegai-vos; fr. Nuno, êste é Álvaro, o filho de minha irmã. Abençoai um dos bons cavaleiros da Ordem, aquele que quererá Deus que breve me suceda nesta pesada carga da governança do priorado de Portugal» (O Balio de Leça, Arnaldo Gama. Porto: Livraria Educação Nacional, 1935, p. 69).
[Texto 2588]
Etiquetas
edit

«Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa»

Que surpresa

      Só hoje é que soube que existia e vi o Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa. É uma edição de Novembro de 2012 da Imprensa Nacional-Casa da Moeda e custa 40 euros. Só quis confirmar algumas entradas. Assim, na página 221, podemos ler «caráter» (pl. carateres), e a indicação de que no Brasil é «carácter». Vão agora vendo como se escreve por aí. Na mesma página, está registado «caraterística». Na página 374, está «dia a dia» — locução adverbial e nome masculino. Na página 447, está «espetador» — e que outra coisa podia estar?
[Texto 2587]
Etiquetas ,
edit

«Vinho do Porto/porto»

Sabem, mas esquecem-se

      «A cevada é importada da Europa, a água vem das correntes que descem da Montanha da Neve e alguns dos cascos de carvalho até já serviram para envelhecer Porto» («E se um ‘whisky’ falasse mandarim?», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 11.02.2013, p. 26).
     Na legenda está correcto, mas quase de certeza que não foi o jornalista que a redigiu. Não, não: para designar o vinho do Porto numa só palavra, é porto que se escreve, com minúscula. É o fenómeno da derivação imprópria, que já vimos diversas, mas não, ao que parece, as vezes suficientes.
[Texto 2586]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «basismo»

Da política e da Igreja

      «Alterações estatutárias travam o basismo» (João Pedro Henriques, Diário de Notícias, 10.02.2013, p. 6).
      Bem, o Aulete regista-o: «1. Pol. Prática de consultar as bases antes de qualquer tomada de decisão. 2. Política que emana das bases. 3. Rel. Movimento relacionado com ou associado às comunidades eclesiais de base.» E também regista «basista».
[Texto 2585]
Etiquetas ,
edit

«Auditor júnior»

Hierarquias

      «No início dos anos 1970, ser “auditor júnior” neste ramo era, grosso modo, ser “moço de recados”, “paquete”, “tarefeiro”, apurou o DN/Dinheiro Vivo» («Franquelim Alves começou como paquete aos 16 anos», João Pedro Henriques, Miguel Marujo e Paula Sá, Diário de Notícias, 8.02.2013, p. 10).
      Aqui, «auditor» é empregado na primeira acepção que os dicionários acolhem: o que ouve. Neste caso, ouvia os recados. Com 16 anos, que mais podia fazer? (Para mim, grosso modo ainda é latim.)

[Texto 2584]
Etiquetas ,
edit

«Insistió en ese concepto»

Então não

      «A informação do jornal espanhol vai contra a avançada pelo vice-presidente venezuelano, Nicolás Maduro, que na sexta-feira voltou a viajar para Cuba. “Chávez disse-nos expressamente ‘Estou num processo de recuperação lento’ e insistiu nesse conceito”, afirmou Maduro» («Chávez sem voz e incapacitado», S. S., Diário de Notícias, 10.02.2013, p. 32).
      Disse, pois — mesmo sem ter voz. «Chávez “nos dijo expresamente: ‘estoy en un proceso de recuperación lento’, insistió en ese concepto, ‘en un proceso lento.» Só que em português, cara S. S., não se diz assim.
[Texto 2583]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «tusto»

Ora esta

      «Por que diabo nos cai a EDP em cima com multas por atrasos de poucos dias no pagamento da conta (mesmo que tenhamos de ir de repente ao estrangeiro), mas quando interrompe o fornecimento da luz aos nossos escritórios, casas, estabelecimentos comerciais, oficinas ou estaleiros não dê [sic] um “tusto” de compensação?» («Faça-se luz», J. Vasconcelos, correio dos leitores, Notícias Magazine, 10.02.2013, p. 64).
      Quase não acreditamos: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o vocábulo «tusto».
      «Seria meio-dia quando me meti num táxi e pedi que me deixasse no meio da Almirante Reis, e como não possuísse um tusto nem nas roupas, nem nos sovacos, nem na carteira, nem em nenhuma bolsa do corpo, disse ao homem» (Notícia da Cidade Silvestre, Lídia Jorge. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1994, 10.ª ed., p. 327).
[Texto 2582]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «rinoconjuntivite»

Se é assim

      «Para os adolescentes e crianças, um efeito protetor contra a asma foi associado ao consumo de fruta pelo menos três vezes por semana. Por outro lado, o consumo de comida rápida, pelo menos três vezes por semana, demonstrou aumentar o risco de asma severa, bem como rinoconjuntivite e eczema» («Pense nisto...», Philippa Ellwood, Notícias Magazine, 10.02.2013, p. 61).
      Os especialistas até dizem que este termo é preferível ao mais vulgar «rinite alérgica», mas não o encontrei nos dicionários que consultei.
[Texto 2581]
Etiquetas
edit

Ortografia: «bísaro»

Há muito tempo

      «Sensivelmente à mesma hora em que a esposa punha termo à vida do seu filho e da sua, o autarca participava em Vinhais na Cerimónia de entronização dos confrades da Confraria do Porco Bízaro e do Fumeiro de Vinhais, no âmbito da feira do fumeiro que decorre naquela vila» («Mãe lança-se de janela de hotel com o filho de 12 anos», José António Cardoso, Diário de Notícias, 10.02.2013, p. 22).
       Pelo menos actualmente, que é o que interessa, é bísaro que se escreve, como se pode comprovar nos dicionários.
[Texto 2580]
Etiquetas ,
edit

«Estatuto»?

Lá como cá

      «Na Alemanha, o estatuto de doutor é muito respeitado e é mencionado sempre que se refere a identidade de uma pessoa. Por exemplo, Merkel é mencionada como “senhora doutora Angela Merkel”» («Merkel perde a sua ministra e amiga acusada de plágio», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 10.02.2013, p. 31).
       Hum, afinal não é apenas em Portugal. «Estatuto» será o termo mais adequado no contexto?

[Texto 2579]
Etiquetas ,
edit

Com o latim me enganas

A importância de se chamar Nemo

      «A decisão de chamar Nemo à tempestade de neve que atingiu os EUA e o Canadá está a causar polémica. Tudo porque o nome não é oficial, como acontece com os furacões, tendo sido escolhido pelo Weather Channel (o canal de meteorologia dos EUA). E porque a primeira ideia que vem à cabeça das pessoas quando se fala em Nemo é o peixe do filme de animação da Pixar, À Procura de Nemo. Na realidade, explicou ao The New York Times o responsável pelo nome, Bryan Norcross, a inspiração é a origem latina da palavra, que significa “ninguém”, como o Capitão Nemo, do livro Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne» («Tempestade ‘Nemo’ gera polémica», Diário de Notícias, 10.02.2013, p. 30).
[Texto 2578]
Etiquetas
edit

Uso das maiúsculas

Só para coisas grandes

      «Este estado baniu, pela primeira vez desde o Grande Nevão de 1978, a circulação de todos os veículos, para não atrasar as operações de limpeza» («Neve deixa 650 mil sem luz e mais de cinco mil voos em terra», Susana Salvador, Diário de Notícias, 10.02.2013, p. 30).
      Merecerá as maiúsculas? E o nosso grande nevão de 1954, pode ser com minúsculas?
[Texto 2577]
Etiquetas
edit

Léxico: «snowboardista»

Primeiro passo

      «Equipada a rigor com luvas, óculos, cachecol e fato de neve cor-de-rosa a condizer com as botas próprias para fazer snowboard, Maria de Matos Costa faz a prancha deslizar pela neve de forma admirável. Não fosse o tamanho da criança e facilmente se poderia pensar que aquela “snowboardista” tem larga experiência» («Pistas da serra da Estrela servem para “enganar o vício” da neve», Catarina Canotilho, Diário de Notícias, 10.02.2013, p. 20).
      Por enquanto ainda envolta em aspas assépticas, não tardará a seguir o caminho de outras, como «icebergue», por exemplo, e a trazer o mesmo tipo de problemas.
[Texto 2576]

Etiquetas
edit

«Edredão/edredom»

É o que se ouve

      «Quem, ontem, passou junto ao prédio onde vivia o estilista ainda podia ver penduradas numa corda na marquise do apartamento várias peças de roupa, nomeadamente calças e uma blusa, além de uma toalha e de um edredom» («PJ detém fotógrafo por homicídio de estilista», José Manuel Oliveira, Diário de Notícias, 8.02.2013, p. 20).
      Também está aportuguesada em edredão, mas a verdade é que quase sempre se usa «edredom». Cócedra, cúlcita ou cúlcitra já nem aparecem em todos os dicionários.
[Texto 2575]
Etiquetas
edit

Léxico: «otorrino»

Por ser muito grande

      «O otorrino Mário Andrea está a ser investigado por alegadamente mudar as listas de espera no serviço de Otorrinolaringologia do Hospital de Santa Maria, onde é chefe de serviço, para dar prioridade a doentes VIP que vinham do seu consultório privado» («Nicolau Breyner defende médico», André Rito, Diário de Notícias, 8.02.2013, p. 15).
      Não temos, nem nada que se pareça, a riqueza de reduções vocabulares usadas na língua francesa, mas esta até está dicionarizada.
[Texto 2574]
Etiquetas ,
edit

«Ter-se»

Tenha mão em si, segure-se

      «Os vereadores, e todos os que os auxiliavam, gritaram ao povo que se tivesse, procurando ao mesmo tempo conduzir Rui Pereira para dentro de uma casa vizinha» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 240).
      Para aqui podemos trazer todos os exemplos que abonem o uso desta forma pronominal do verbo «ter». Ter-se: reprimir-se.
[Texto 2573]
Etiquetas
edit

«Apelar para»

Fica bem aqui

      «Fernão d’Álvares expôs-lhe, com todo o primor de homem avezado ao trato da côrte, o objecto da sua comissão, misturando na exposição palavras de bom conselho, e outras que lisonjeavam a vaidade do senhor da Terra de Santa Maria, apelando directamente para a grandeza e generosidade da sua alma» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 222).
      Apelar para. Doravante, vamos carrear para aqui todos os muitos bons exemplos da regência correcta.

[Texto 2572]
Etiquetas
edit

Léxico: «azevia»

Pois é, não está

      «Azevia. Este peixe, frito, é outra das iguarias da cozinha tradicional acompanhado de um bom arroz» («Governo quer mais polvo do que jaquinzinhos no prato», Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 7.02.2013, p. 14).
      Lá está ela no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas onde pára a acepção relativa ao doce frito, em forma de pastel, com recheio de doce de batata, grão-de-bico ou chila?
[Texto 2571]
Etiquetas
edit

Ortografia: «extensão»

A aventura da ortografia

      Do regulamento do concurso «Uma Aventura... Literária 2013»: «O tema é livre e deve ter a extenção máxima de uma a duas páginas manuscritas ou dactilografadas.» E nem têm a desculpa de confusão com qualquer vocábulo homófono. Para quem, porque há criaturas assim, não acredita, ver aqui.

[Texto 2570]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «fracalhote»

Mais uma falha

      «E o chulo, um fracalhote, anda inquieto e pálido, fareja o perigo, o rival... A bordo é preciso manter a linha, acabou-se o negócio, são gente respeitável» (Gente de Terceira Classe, José Rodrigues Miguéis. Lisboa: Estúdios Cor, 1971, p. 23).
      Porque não está fracalhote nos dicionários? No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, está registado «frescalhote», mas não «fracalhote». Critério?

[Texto 2569]
Etiquetas ,
edit

Ortografia: «antitempestade»

Uma solução

      «O homem que manteve seis dias uma criança de cinco anos presa num abrigo anti-tempestade no estado do Alabama, nos EUA, foi morto pela polícia e a criança resgatada, noticiaram os media americanos na segunda-feira à tarde (noite em Lisboa)» («Polícia mata raptor e resgata criança», Público, 6.02.2013, p. 26).
      Seja qual for o acordo ortográfico — aquele que combatem ou aquele que afirmam defender —, é antitempestade que se escreve, sem hífen. Acabei de sugerir que o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora inclua a locução tornado shelter e a tradução, abrigo antitempestade. Talvez diminuam assim os erros.
[Texto 2568]
Etiquetas ,
edit

Obras do P. António Vieira

Promete

      «Pela primeira vez vai ser reunida a obra completa do Padre António Vieira, com cartas, sermões, profecias, política, teatro, incluindo textos inéditos — a edição dos 30 volumes pelo Círculo de Leitores tem o custo de 500 mil euros e a Santa Casa da Misericórdia (SCML) é o mecenas principal, associando-se à Universidade de Lisboa (UL)» («Santa Casa paga 500 mil euros para editar todo o Padre António Vieira», Alexandra Prado Coelho, Público, 6.02.2013, p. 30).
      O conjunto vai incluir um dicionário sobre António Vieira e 60 cartas inéditas, encontradas agora na Torre do Tombo.
[Texto 2567]
Etiquetas
edit

Léxico: «ismaelita»

Não só, não só

      «Nicolas Sarkozy regressou à advocacia e o seu primeiro cliente foi o bilionário Karim Aga Khan. Aos 76 anos, o imã dos ismailitas encontra-se enredado no segundo processo de divórcio e o jornal britânico The Times garante que requisitou os serviços do ex-presidente francês» («Sarkozy defende Aga Khan em divórcio», Diário de Notícias, 5.02.2013, p. 27).
      Claro que é ismaelita que se escreve. Mas consultemos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. «Ismaelita», neste dicionário é, como substantivo, o «descendente de Ismael, filho de Abraão», e como adjectivo, «relativo à tribo de Ismael» e «árabe». Está incompleto. Onde pára a acepção do texto? Os ismaelitas são um dos três ramos dos muçulmanos xiitas.
[Texto 2566]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «madrasto»

De madrasta

      «Depois, com o tempo, por vicissitudes da própria actividade e da vida, as coisas vão regredindo, portanto, e vai havendo aqui um certo desalento e abandono, por dificuldades de comercialização, por dificuldades de organização, por dificuldades, portanto, de baixo rendimento, porque nós realmente desenvolvemos a actividade num meio que nós não controlamos, dependemos do clima, e isso por vezes é muito madrasto e tem dificuldades e tem consequências, digamos, muito nefastas» (Luís Saldanha Miranda, presidente dos Confederação Nacional dos Jovens Agricultores, no programa Portugal em Directo, 4.01.2013).
      Vá lá, ainda a encontramos aí pelos dicionários: «hostil e ameaçador». Muita gente, comprovei nas últimas horas, desconhecia a palavra. Ora, estamos sempre a tempo de aprender e usar.

[Texto 2565]
Etiquetas
edit

Porque não «micro-hostal»?

Seria mais coerente

      «Abriu este fim-de-semana [sic] o primeiro micro-hostel do mundo, no centro de Moscovo, a capital da Rússia» («Rússia inaugura primeiro micro-hostel do mundo», M. A. B., Diário de Notícias, 4.02.2013, p. 33).
      Se escrevem «hostal», como já vimos aqui (vocábulo que, por minha sugestão, passou a fazer parte, juntamente com «hostau», do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora), porque não escrevem «micro-hostal»?
[Texto 2564]
Etiquetas
edit

Como se escreve nos jornais

Pobre hífen, pobres alunos

      «De acordo com o porta-voz do estado maior das tropas francesas, o coronel Thierry Burkhard, “importantes ataques aéreos” foram levados a cabo na noite de sábado para domingo na zona de Tessalit, 200 quilómetros a norte de Tidal» («Chefes islamitas do Mali refugiam-se nas montanhas», Diário de Notícias, 4.02.2013, p. 22).
      Então e eu não sei que já escrevi isto?! Os jornalistas do Diário de Notícias deixaram, vá lá saber-se porquê, de usar o hífen em palavras que não mudaram com o acordo. Já vi o mesmo fenómeno em professores de Português. Claro que há erros ainda mais graves. Ontem, mostraram-me um texto de uma professora de Português em que se lia que era docente «à pelo menos metade de uma vida». Não há vidas que cheguem para curar tamanha ignorância.
[Texto 2563]
Etiquetas ,
edit

Como se escreve nos jornais

Pelo menos isso

      «No livro lançado na sexta-feira em Itália, Ali Agca conta como fugiu de uma prisão turca, na qual cumpria pena pelo assassínio de um jornalista e fala da sua estadia em Teerão, onde foi “doutrinado” durante várias semanas, antes de um suposto encontro noturno com o Guia Supremo da Revolução Iraniana, o ayhatollah [sic] Khomeini» («Memórias de Ali Agca em novo livro», Diário de Notícias, 4.02.2013, p. 25).
      E as aspas são para quê, pode saber-se? O homem foi doutrinado ou não foi? E estadia não é o tempo que um navio gasta, no porto, para carga e descarga? Era, dizem-me aqui. «Alguns gramáticos acham que estadia pode ser usada no mesmo sentido de estada.» E ayatollah mal escrito e sem itálico nem aspas a marcá-lo como termo de língua estrangeira. Podem não gostar — e não sei porquê — do aportuguesamento aiatola, mas então escrevam correctamente o termo estrangeiro.
[Texto 2562]


Etiquetas ,
edit

Léxico: «pesqueira»

Lampreia no Alto Minho

      «As pesqueiras são estruturas consideradas como prédios rústicos» (jornalista Andrea Neves, Jornal da Tarde, 3.01.2013). O Sr. António Castro, pescador e dono de uma pesqueira, explica mais: «Nós pagamos uma contribuição como seja um prédio rústico, uma casa ou assim. E depois pagamos uma contribuição para poder armar. E há muitas pesqueiras aqui que chamam-lhes eles interditas, que paga-se a contribuição, mas não se pode armar. É o mesmo que uma pessoa tendo a casa não pode habitá-la. A pesqueira é de uma pessoa só, foi quem a fez, os antepassados já. E depois aquilo fica dividido pelos filhos, pelos netos, e tudo mais. Depois cada um tem o seu dia aqui.»
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, pesqueira é o «lugar em que há aparelhos de pesca». Quem nunca viu uma pesqueira, como é o meu caso, não vai, pela simples leitura desta definição, poder imaginar sequer do que se trata. Para o Dicionário Houaiss, que não nos leva mais longe, é o «lugar em que se encontram armações de pesca», mais ou menos a definição que já encontramos em dicionários mais antigos. Tendo em conta o que se vê na imagem, a melhor definição é a da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (vol. 21, p. 468): «Construção de madeira ou alvenaria que se instala na margem ou leito do rio, para estabelecimento de aparelhos de pesca.»
       (Quanto à contribuição, Sr. António Castro, não há-de ser elevada, pois o IMI rústico representa menos de 1 % do IMI total no País.)
[Texto 2561]
Etiquetas ,
edit

O desastre ortográfico

Último parágrafo da crónica de MST

      «Porque uma coisa é garantida: a arrogância dos poderosos não conhece arrependimento. Eles jamais voltarão atrás, reconhecendo que se enganaram, que se precipitaram, que foram atrás de vozes de sereias, que se esqueceram de que há coisas que nenhum país independente cede sem estremecer: o território, o património, a paisagem, a língua. Trataram isto como coisa menor, como facto herdado e consumado, de ministro em ministro, de governo em governo, de parlamento em parlamento, de Presidente em Presidente. Partiram do princípio de que os portugueses comem tudo, desde que bem embrulhado em frases grandiloquentes, com a assinatura dos influentes e a cumplicidade dos prudentes. Mas, dêem agora as voltas que quiserem dar aos acordos que assinaram e à língua que lhes cabia defender e não trair, cobriram-se de ridículo. Está escrito nos livros de História: um país que se humilha para agradar a terceiros, arrisca-se a nada recolher em troca, nem a gratidão dos outros nem o respeito dos seus. Apenas lhe resta o ridículo. Oxalá ele chegasse para matar de vez o triste Acordo Ortográfico!» («O desastre ortográfico», Miguel Sousa Tavares, Expresso, 19.01.2013, p. 7).
[Texto 2560]
Etiquetas
edit

«Município/concelho»

Que confusão?

      Há confusão entre os conceitos de município e de concelho? Juro que nunca tinha reparado. O primeiro é a instituição e o segundo o território, afirma categoricamente quem diz que há confusão. Consultemos um dicionário e uma enciclopédia. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, município é a «circunscrição [ou seja, divisão] territorial em que uma vereação exerce a sua jurisdição»; concelho, para este dicionário, é a «subdivisão do território sob administração de um presidente da câmara e das restantes entidades autárquicas». Parecem-me sinónimos. Para a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, município é a «extensão territorial, em que se exerce a jurisdição de uma vereação» (Vol. 18, p. 169); concelho é a «circunscrição territorial em que se divide o distrito» (vol. 7, p. 345). Parecem-me sinónimos. Decerto: era preciso aprofundar mais a questão, consultar outras fontes, mas esta análise perfunctória demonstra que, a haver confusão, não é recente nem provém só de uma fonte.
[Texto 2559]
Etiquetas
edit

Como se escreve nos jornais

«Produtos»?

      «Segundo um estudo realizado pela Associação para a Promoção da Segurança Infantil [APSI] abrangendo [sic] o período entre 2000 e 2009, as varandas e as janelas são os produtos que aparecem mais vezes envolvidos em quedas (38%)» («Menino caiu da varanda enquanto o pai foi ao pão», Alfredo Teixeira e Inês Banha, Diário de Notícias, 1.02.2013, p. 17).
[Texto 2558]
Etiquetas ,
edit

Gutural, pouco democrático

Não sei se percebo...

      «Já o historiador José Pacheco Pereira está preocupado com “a tendência para tornar a língua gutural” — com menos palavras, algo que considera “pouco democrático”, evocando George Orwell, fruto da “simplificação publicitária, do marketing” ou dos usos nos SMS ou no Twitter. Convidado a falar sobre o uso do Português nos media, inquieta-o “a substituição da complexidade do pensamento por mecanismos de comunicação guturais e reduzidos à sua essência, um problema em que a comunicação social colabora para ser ‘moderna’”» («Português vai desaparecer como língua de trabalho na UE, diz Seixas da Costa», Joana Amaral Cardoso, Público, 1.02.2013, p. 28).
[Texto 2557]
Etiquetas
edit

Os Rothschilds

Pois claro

      «Wilson disse ao Guardian e à BBC que o estudo da colecção — a que pretende dedicar-se — poderá trazer surpresas. O conservador não acredita que haja falsos entre os 500 objectos, mas admite que a investigação poderá vir a provar que alguns foram alterados ou melhorados no século XIX, quando os coleccionadores milionários, como os Rothschilds, os disputavam nos leilões e nos grandes antiquários europeus» («Jarro português do século XVI faz parte de tesouro doado ao Museu Ashmolean», Lucinda Canelas, Público, 1.02.2013, p. 28).
[Texto 2556]
Etiquetas
edit

Arquivo do blogue