Léxico: «héli»

Vamos ver se é desta

      «Proposta mais barata ganha concurso de ‘hélis’» (Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 15.02.2013, p. 20). Também já propus que fosse registado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora como redução de «helicóptero».
[Texto 2599]
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Léxico: «casula»

Registe-se

      «Durante três dias, de 22 a 24 de fevereiro, mais de 20 restaurantes do concelho vão servir o prato tradicional desta época, à base de um enchido de ossos específico da região transmontana, o butelo, acompanhado das casulas ou cascas, as vagens de feijão secas» («Comer butelo garante entradas para museus», Diário de Notícias, 15.02.2013, p. 22).
      Regionalismo, com certeza, mas devia estar registado nos dicionários modernos (está no dicionário de Cândido de Figueiredo). O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, não o regista, quando regista muitos outros regionalismos. Casula é o nome que se dá à vagem de feijão, colhida quando está já baguda, mas não seca, e que acaba de secar à sombra.
[Texto 2598]
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«Secretos», uma acepção

Que se guarda oculto

      «Tal como na carne de vaca e porco, a carne de cavalo tem cortes e nomes similares: há bifes do lombo, secretos, carne picada, entrecosto. Os pratos são os mesmos: é possível grelhar, guisar ou assar. Apenas o preço é diferente, nalguns casos 30% mais baratos» («Carne de cavalo vem das coudelarias e é mais barata», André Rito, Diário de Notícias, 15.02.2013, p. 16).
      Tão secretos, tão ocultos, que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem regista a acepção.
[Texto 2597]
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«Tomar no cu»

Perto de Manaus

      «Já o ex-secretário de Estado da Cultura Francisco José Viegas não tem papas na língua e, numa carta aberta ao seu antigo colega de Governo, o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio (indicado pelo CDS), mandou o fisco “tomar no cu”, por entender que é “um absurdo” esta exigência» («Incómodo na maioria depois de desabafo de Viegas», Miguel Marujo, Diário de Notícias, 15.02.2013, p. 10).
      Isto deve ser como as injecções – que se tomam ou se levam –, mas não é no Brasil que se diz desta forma? Ou em Moledo também se diz? Bem, não sei, eu nunca digo. (Quanto ao resto, tem razão: prò caralho. Não contem comigo. Artigo 21.º da Constituição.)
[Texto 2596]
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«Papável» e as aspas

Nem assim

      «É ele [camerlengo Tarcisio Bertone] que vai liderar a Igreja Católica no período de sede vacante entre a saída do Papa e a eleição do seu sucessor. E o seu nome também integra a lista de “papáveis”» («O camerlengo que gosta de futebol e fala português», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 15.02.2013, p. 5).
      Por sugestão minha, se se lembram daqui, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora deixou de registar que «papável» é termo coloquial, e eu pensei que isso contribuiria para deixar de ser grafado entre aspas. Assim seria, se os jornalistas consultassem mais os dicionários. («Liderar a Igreja Católica»... E «sede vacante» tem de estar em itálico? Porquê?)
[Texto 2595]
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«Findado o psalmo»

Interditos e obrigatórios

      E a propósito do Sr. Alferes arcaizante, lembrei-me agora mesmo de uma frase de Arnaldo Gama. Ei-la: «Findado o psalmo, os cavaleiros e o povo ergueram-se e tudo ficou por alguns minutos em silêncio verdadeiramente sepulcral» (O Balio de Leça, Arnaldo Gama. Porto: Livraria Educação Nacional, 1935, p. 165). Agora, dir-se-ia inevitavelmente «findo o salmo», nunca «findado». É este um tempo em que se prefere o irregular. E hoje também já não se pode dizer que o silêncio é sepulcral. Pelo menos num curso de escrita criativa. Excepto se este decorrer apenas em dois dias, como me disseram que um certo escritor está a publicitar. Escritor cujo nome não voltarei jamais a escrever, mas vejam.
[Texto 2594]
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Tradução: «mime»

Assim fica

      «Recomeçaram a andar. Ivo, com o gesto, mimou um beijo que lhe atirou» (Direito Sagrado, Odette de Saint-Maurice. Lisboa: Editorial Presença, 1966, p. 176).
      Nesta acepção ­— dizer ou fazer por mímica; representar por gestos —, se o vi três ou quatro vezes na vida foi muito. Mas agora apareceu-me aqui alguém que «mimed a needle plunging», e não vejo melhor solução. Representou? Fingiu?
[Texto 2593]
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Tradução: «back of ear»

Raramente

      Concha da orelha. Não se vê muito, mas aqui fica uma abonação: «Perdeu um para não ter que os usar; deixava nuas as bonitas orelhas e ganhou o costume de afastar com os dedos o cabelo para mostrar a concha das orelhas» (Os Espaços em Branco, Agustina Bessa-Luís. Lisboa: Guimarães Editores, 2003, p. 41).
[Texto 2592]
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«Veio até os primeiros degraus»

Nada disso

      Vai para um mês, o leitor B. P. deixou-nos aqui alguns exemplos de «picuinhices, bizarrias e questões opinativas» de João de Araújo Correia. «Aqui está um: A.C. dizia sempre ‘até o’ em vez de ‘até ao’, que censurava. Fui até o caminho, em lugar de fui até ao caminho.» Nada de novo. Não é o único escritor que assim fazia — e, segundo o prisma que já apresento, devia assim fazer. No epítome de gramática portuguesa do dicionário de Morais, pode ler-se o seguinte: «Igual erro é juntar a a até; v. g. até ao muro; deve ser até o muro, até o campo, até as estrelas.» Com o lastro de incontáveis exemplos clássicos e autoridades da valia de Morais, onde está a picuinhice ou a bizarria ou a questão opinativa?
      «Levantou-se então, e veio até os primeiros degraus do tablado» (O Balio de Leça, Arnaldo Gama. Porto: Livraria Educação Nacional, 1935, p. 207).
[Texto 2590]
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«A meia-voz»

No sítio certo e com hífen

      Por sugestão minha, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora já regista a locução a meia-voz no sítio certo e com hífen, no verbete «meia-voz». Afinal, se registava a locução a sangue-frio no verbete «sangue-frio», impunha-se uniformizar, como argumentei aqui.
      Eis quatro exemplos da obra O Balio de Leça, de Arnaldo Gama. (Porto: Livraria Educação Nacional, 1935, 217 pp.)
  • «Fr. Nuno tirou-o áparte e com êle esteve falando a meia-voz por mais de cinco minutos.» (p. 85)
  • «– Fr. Lopo, recordais bem o que vos disse? – balbuciou a meia-voz o lugar-tenente quási ao ouvido do companheiro.» (p. 86)
  • «– Sus, vós outros ­– disseram aqui a meia-voz alguns cavaleiros mancebos, sorrindo-se – ora vêde a carranca que vai já fazendo o ainda futuro balio! Cuidado!» (p. 101)
  • «As vozes roucas dos vélhos cavaleiros acompanharam a meia-voz o canto funerário, dando-lhe assim uma entoação que tinha de-veras alguma coisa do outro mundo.» (p. 175)
[Texto 2589]
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Léxico: «governança»

Quem disse que era moderno?

      «– Sentemos-nos aqui, fr. Nuno – disse então por entre sorrisos – nós, os vélhos, já não podemos aguentar de pé com o pêso dos anos; e muito, muito é o que temos que conversar, meu leal e esforçado companheiro de trabalhos e de pelejas. Sobrinho, achegai-vos; fr. Nuno, êste é Álvaro, o filho de minha irmã. Abençoai um dos bons cavaleiros da Ordem, aquele que quererá Deus que breve me suceda nesta pesada carga da governança do priorado de Portugal» (O Balio de Leça, Arnaldo Gama. Porto: Livraria Educação Nacional, 1935, p. 69).
[Texto 2588]
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«Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa»

Que surpresa

      Só hoje é que soube que existia e vi o Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa. É uma edição de Novembro de 2012 da Imprensa Nacional-Casa da Moeda e custa 40 euros. Só quis confirmar algumas entradas. Assim, na página 221, podemos ler «caráter» (pl. carateres), e a indicação de que no Brasil é «carácter». Vão agora vendo como se escreve por aí. Na mesma página, está registado «caraterística». Na página 374, está «dia a dia» — locução adverbial e nome masculino. Na página 447, está «espetador» — e que outra coisa podia estar?
[Texto 2587]
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«Vinho do Porto/porto»

Sabem, mas esquecem-se

      «A cevada é importada da Europa, a água vem das correntes que descem da Montanha da Neve e alguns dos cascos de carvalho até já serviram para envelhecer Porto» («E se um ‘whisky’ falasse mandarim?», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 11.02.2013, p. 26).
     Na legenda está correcto, mas quase de certeza que não foi o jornalista que a redigiu. Não, não: para designar o vinho do Porto numa só palavra, é porto que se escreve, com minúscula. É o fenómeno da derivação imprópria, que já vimos diversas, mas não, ao que parece, as vezes suficientes.
[Texto 2586]
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Léxico: «basismo»

Da política e da Igreja

      «Alterações estatutárias travam o basismo» (João Pedro Henriques, Diário de Notícias, 10.02.2013, p. 6).
      Bem, o Aulete regista-o: «1. Pol. Prática de consultar as bases antes de qualquer tomada de decisão. 2. Política que emana das bases. 3. Rel. Movimento relacionado com ou associado às comunidades eclesiais de base.» E também regista «basista».
[Texto 2585]
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«Auditor júnior»

Hierarquias

      «No início dos anos 1970, ser “auditor júnior” neste ramo era, grosso modo, ser “moço de recados”, “paquete”, “tarefeiro”, apurou o DN/Dinheiro Vivo» («Franquelim Alves começou como paquete aos 16 anos», João Pedro Henriques, Miguel Marujo e Paula Sá, Diário de Notícias, 8.02.2013, p. 10).
      Aqui, «auditor» é empregado na primeira acepção que os dicionários acolhem: o que ouve. Neste caso, ouvia os recados. Com 16 anos, que mais podia fazer? (Para mim, grosso modo ainda é latim.)

[Texto 2584]
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«Insistió en ese concepto»

Então não

      «A informação do jornal espanhol vai contra a avançada pelo vice-presidente venezuelano, Nicolás Maduro, que na sexta-feira voltou a viajar para Cuba. “Chávez disse-nos expressamente ‘Estou num processo de recuperação lento’ e insistiu nesse conceito”, afirmou Maduro» («Chávez sem voz e incapacitado», S. S., Diário de Notícias, 10.02.2013, p. 32).
      Disse, pois — mesmo sem ter voz. «Chávez “nos dijo expresamente: ‘estoy en un proceso de recuperación lento’, insistió en ese concepto, ‘en un proceso lento.» Só que em português, cara S. S., não se diz assim.
[Texto 2583]
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Léxico: «tusto»

Ora esta

      «Por que diabo nos cai a EDP em cima com multas por atrasos de poucos dias no pagamento da conta (mesmo que tenhamos de ir de repente ao estrangeiro), mas quando interrompe o fornecimento da luz aos nossos escritórios, casas, estabelecimentos comerciais, oficinas ou estaleiros não dê [sic] um “tusto” de compensação?» («Faça-se luz», J. Vasconcelos, correio dos leitores, Notícias Magazine, 10.02.2013, p. 64).
      Quase não acreditamos: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o vocábulo «tusto».
      «Seria meio-dia quando me meti num táxi e pedi que me deixasse no meio da Almirante Reis, e como não possuísse um tusto nem nas roupas, nem nos sovacos, nem na carteira, nem em nenhuma bolsa do corpo, disse ao homem» (Notícia da Cidade Silvestre, Lídia Jorge. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1994, 10.ª ed., p. 327).
[Texto 2582]
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Léxico: «rinoconjuntivite»

Se é assim

      «Para os adolescentes e crianças, um efeito protetor contra a asma foi associado ao consumo de fruta pelo menos três vezes por semana. Por outro lado, o consumo de comida rápida, pelo menos três vezes por semana, demonstrou aumentar o risco de asma severa, bem como rinoconjuntivite e eczema» («Pense nisto...», Philippa Ellwood, Notícias Magazine, 10.02.2013, p. 61).
      Os especialistas até dizem que este termo é preferível ao mais vulgar «rinite alérgica», mas não o encontrei nos dicionários que consultei.
[Texto 2581]
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Ortografia: «bísaro»

Há muito tempo

      «Sensivelmente à mesma hora em que a esposa punha termo à vida do seu filho e da sua, o autarca participava em Vinhais na Cerimónia de entronização dos confrades da Confraria do Porco Bízaro e do Fumeiro de Vinhais, no âmbito da feira do fumeiro que decorre naquela vila» («Mãe lança-se de janela de hotel com o filho de 12 anos», José António Cardoso, Diário de Notícias, 10.02.2013, p. 22).
       Pelo menos actualmente, que é o que interessa, é bísaro que se escreve, como se pode comprovar nos dicionários.
[Texto 2580]
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«Estatuto»?

Lá como cá

      «Na Alemanha, o estatuto de doutor é muito respeitado e é mencionado sempre que se refere a identidade de uma pessoa. Por exemplo, Merkel é mencionada como “senhora doutora Angela Merkel”» («Merkel perde a sua ministra e amiga acusada de plágio», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 10.02.2013, p. 31).
       Hum, afinal não é apenas em Portugal. «Estatuto» será o termo mais adequado no contexto?

[Texto 2579]
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Com o latim me enganas

A importância de se chamar Nemo

      «A decisão de chamar Nemo à tempestade de neve que atingiu os EUA e o Canadá está a causar polémica. Tudo porque o nome não é oficial, como acontece com os furacões, tendo sido escolhido pelo Weather Channel (o canal de meteorologia dos EUA). E porque a primeira ideia que vem à cabeça das pessoas quando se fala em Nemo é o peixe do filme de animação da Pixar, À Procura de Nemo. Na realidade, explicou ao The New York Times o responsável pelo nome, Bryan Norcross, a inspiração é a origem latina da palavra, que significa “ninguém”, como o Capitão Nemo, do livro Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne» («Tempestade ‘Nemo’ gera polémica», Diário de Notícias, 10.02.2013, p. 30).
[Texto 2578]
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Uso das maiúsculas

Só para coisas grandes

      «Este estado baniu, pela primeira vez desde o Grande Nevão de 1978, a circulação de todos os veículos, para não atrasar as operações de limpeza» («Neve deixa 650 mil sem luz e mais de cinco mil voos em terra», Susana Salvador, Diário de Notícias, 10.02.2013, p. 30).
      Merecerá as maiúsculas? E o nosso grande nevão de 1954, pode ser com minúsculas?
[Texto 2577]
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Léxico: «snowboardista»

Primeiro passo

      «Equipada a rigor com luvas, óculos, cachecol e fato de neve cor-de-rosa a condizer com as botas próprias para fazer snowboard, Maria de Matos Costa faz a prancha deslizar pela neve de forma admirável. Não fosse o tamanho da criança e facilmente se poderia pensar que aquela “snowboardista” tem larga experiência» («Pistas da serra da Estrela servem para “enganar o vício” da neve», Catarina Canotilho, Diário de Notícias, 10.02.2013, p. 20).
      Por enquanto ainda envolta em aspas assépticas, não tardará a seguir o caminho de outras, como «icebergue», por exemplo, e a trazer o mesmo tipo de problemas.
[Texto 2576]

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«Edredão/edredom»

É o que se ouve

      «Quem, ontem, passou junto ao prédio onde vivia o estilista ainda podia ver penduradas numa corda na marquise do apartamento várias peças de roupa, nomeadamente calças e uma blusa, além de uma toalha e de um edredom» («PJ detém fotógrafo por homicídio de estilista», José Manuel Oliveira, Diário de Notícias, 8.02.2013, p. 20).
      Também está aportuguesada em edredão, mas a verdade é que quase sempre se usa «edredom». Cócedra, cúlcita ou cúlcitra já nem aparecem em todos os dicionários.
[Texto 2575]
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