«Stricto sensu/statu quo»

Não liguem

      Acabo de ler aqui numa revisão, e mais de uma vez, strictu sensu e status quo. É demasiado latim derrancado para ficarmos calados ou quietos. Do último já tinha tratado, tendo então escrito que devemos escrever statu quo, no ablativo do singular. É abreviação da expressão latina statu quo ante bellum, o «estado em que as coisas estavam antes da guerra». Quanto ao primeiro, é stricto sensu que devemos escrever, também no caso ablativo. É o inglês a ensinar-nos a escrever latim... (Numa reunião em que estive recentemente, com economistas e engenheiros, nem sequer um dizia outra coisa que não fosse «aitem»...) Leio, com estupefacção, na página 182 da 2.ª do Livro de Estilo do Público, que é strictu sensu que se deve escrever. Na versão em linha, ainda não foi — nem nunca será, decerto — corrigido o erro, que, ironicamente, se encontra na secção «Erros e vícios de linguagem mais frequentes». Aí está uma boa ilustração.
[Texto 294]

«Grosso modo»

Grosserias

      «Daí também que a região onde os Mouros se estabeleceram tenha ficado conhecida como a região saloia. E apesar de não ser muito clara nem bem delimitada, esta zona abarca por tradição, e grosso modo, Mafra, Sintra e Loures» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 30.03.2011).
      A pronúncia da expressão latina grosso modo é a peculiar do latim: /gròsso mòdo/. Se Mafalda Lopes da Costa ou quem quer que seja pretender falar em português, usará, para dizer o mesmo, «aproximadamente», «mais coisa, menos coisa», etc. Bem sei que no Prontuário Sonoro se pronuncia como a jornalista o fez. Na desgraça é sempre bom não estarmos sós, dizem os egoístas.

[Post 4636]

Nomenclatura científica

Agora também em Angola

      «Em latim, o seu nome científico quer dizer Titã de Angola, a que se juntou o apelido Adamastor, numa referência à figura mitológica de Os Lusíadas, que representava os perigos que os portugueses enfrentaram nas viagens de descoberta pela costa africana. O Angolatitan adamastor, o primeiro dinossauro encontrado em Angola, e até agora único, é hoje descrito numa revista científica brasileira como sendo de um género e uma espécie novos para a ciência» («Primeiro dinossauro de Angola recebe o apelido Adamastor», Teresa Firmino, Público, 16.03.2011, p. 14).
      Em latim, e do mais lídimo e pulcro, senhora jornalista. A nomenclatura científica lá está a entrar na compreensão de todos, depois de tantas cincadas e tantas críticas.

[Post 4573]

Como se escreve nos jornais

Non habemus correctores


      O cardeal protodiácono, perdão, o jornalista Miguel Gaspar quis escrever latim e saiu espanhol. Acontece. «Até que chegou a noite de sexta-feira, 29 de Novembro. Depois da ruptura, o acordo. Sabia-se que Teixeira dos Santos estava chez Catroga. E que o clima de serenidade doméstica fora mais propício ao fumo branco do que o bulício do Parlamento. Pouco depois das onze da noite, confirmou-se a notícia que já circulava pelas televisões. Habemos orçamento. E para o dia seguinte marcou-se a cerimónia solene da assinatura do dito cujo» («Os homens da luta», Miguel Gaspar, «Pública»/Público, 7.11.2010, p. 14). Os copidesques não deram por nada.

[Post 4054]

Latim

Pedra angular


      O pai do protagonista de uma obra que não posso, por ora, identificar (sem deixar de dizer, contudo, que é o melhor romance que li nos últimos anos, brevemente em tradução portuguesa), «insisted that without Latin nobody could write clear English». O que diria se, em vez de escocês emigrado no Canadá, fosse português. De importância fundamental, sem dúvida, o deveria reputar. Já uma personagem de Cervantes (e um cão, nada mais) dizia que «no tempo dos Romanos, todos falavam latim como sua língua materna, algum parvo deveria haver entre eles a quem o facto de falar latim não desculparia o de deixar de ser néscio».

[Post 3986]

«Statu quo»

Bastardias linguísticas


      «Aquele tinha em mira o status quo, definido pelas potências vitoriosas para a Europa em 1919-1920, e fixado em vários acordos pelos Estados participantes na conferência de Washington (entre 12 de Novembro de 1921 e 6 de Fevereiro de 1922) para o Extremo Oriente» (A Segunda Guerra Mundial, Gerhard Schreiber. Tradução de Luís Covas e revisão de Eda Lyra e Texto Editores. Alfragide: Texto Editores, 2010, p. 13).
      Vimos aqui recentemente como o latim anda abastardado por cá. Os Ingleses que escrevam como lhes aprouver, nós devemos escrever statu quo, no ablativo do singular. É abreviação da expressão latina statu quo ante bellum, o estado em que as coisas estavam antes da guerra. Na Texto Editores, já agora, podiam dar uso aos dicionários que editam: o Dicionário Integral da Língua Portuguesa (Texto Editores, 2009) regista na página 1526 statu quo. Ou agora andam a estragar todas as línguas e mais alguma?

[Post 3735]

«Leges artis» II

Indóceis criaturas


      Um leitor, R. A., mandou-me a transcrição de uma notícia publicada no Jornal de Notícias: «O juiz salientou, ontem, durante a leitura da sentença que o tribunal lamenta “não pode condenar, mas teria condenado”, uma vez que se provou que as médicas violaram as leis da profissão (leje artis), porque não chegaram à representação da possibilidade de uma gravidez através da leitura da imagem da ecografia, nem verificaram a falsidade da leitura, nem a mandaram repetir, aliás, um exame que, segundo o tribunal apurou, “desapareceu do hospital inexplicavelmente”» («Obstetras absolvidas pese a negligência», Glória Lopes, Jornal de Notícias, 16.01.2010, p. 27). Acrescenta o leitor: «É caso para dizer que, se o JN transcreve bem o que está na sentença, o tribunal, além de fraco em latim, parece fraco noutras coisas...»
      Bem, a verdade é que a locução latina não surge em nenhum dos trechos identificados como citações. Atribuo, pois, o erro à ignorância da jornalista. Com o português não se entendem muitos deles, quanto mais com o latim.

[Post 3028]

Mácron e braquia

Duração das vogais

      Maria Helena Mira Mateus e Alina Villalva lembram, e é útil comprová-lo, que em português «o tom e a duração não permitem distinguir significados», ao contrário de outras línguas, como o mandarim e o latim. Nesta língua, «a duração da vogal numa mesma sequência pode indicar a função sintáctica da palavra — rosă, com vogal final breve, é nominativo (tem função de sujeito) e com vogal final longa, rosā, é ablativo (tem uma função complementar)» (O Essencial sobre Linguística. Lisboa: Editorial Caminho, 2006, p. 60). Na verdade, com vogal final breve tanto pode ser nominativo como vocativo, o que não altera em quase nada a verdade da afirmação. O mandarim tem quatro tons, mas o cantonês e o vietnamita, por exemplo, com seis tons, ainda são mais ricos. Já agora, para os leitores que desconhecem tudo do latim, convém dizer que apenas em obras didácticas se costuma apor um acento sobre as vogais para indicar a sua duração. As vogais longas são representadas com o acento conhecido como mácron — ā, ē, ī, ō, ū —, e as breves são marcadas com um sinal chamado braquia: ă, ĕ, ĭ, ŏ, ŭ.

[Post 2830]

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