Léxico: «efeito de Coriolis»

Pelo contrário


      No programa E o Resto É Ciência, na Rádio Observador, Miguel Miranda, geofísico que foi presidente do IPMA durante dez anos, no episódio de ontem mencionou o ➜ efeito de Coriolis FÍSICA desvio aparente da trajectória de um corpo em movimento quando observado num sistema em rotação; resulta da rotação desse sistema e manifesta-se perpendicularmente à direcção do movimento, sendo responsável, por exemplo, pelo desvio de ventos e correntes na Terra. 

      Até pode ser um fenómeno complexo, mas a definição não tem de ser complexa, ou intrincada, ou impenetrável para o leigo. Pelo contrário.

[Texto 22 721]

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Léxico: «água mineral»

Não é o que diz a legislação


      «Mineral water is water that naturally contains dissolved minerals and trace elements. It comes from a protected underground reservoir, like a spring or aquifer, and has a specific composition of minerals. Unlike ordinary tap water, which treatment plants produce by filtering and purifying water drawn from rivers or groundwater, mineral water retains the natural minerals it has acquired from geological processes it has been a part of over years, decades or even centuries» («What is mineral water and how does it naturally contain dissolved minerals?», Vasudevan Mukunth, The Hindu, 26.03.2026, p. 9). 

      Todos a bebemos, ninguém a define bem. Os dicionários não a definem bem. Para a Porto Editora, é a «água natural com elevada percentagem de substâncias minerais em dissolução, utilizada geralmente para fins terapêuticos». Seria como definir Coca-Cola como bebida terapêutica. O próprio artigo lembra que, nalguns países, a designação «água mineral» depende de critérios legais específicos. Ora, também entre nós, por via da legislação europeia, essa designação não é livre: exige origem subterrânea protegida, pureza natural e composição estável. Não basta, portanto, ter «muitos minerais», nem muito menos servir supostos «fins terapêuticos». Pelo que proponho ➜ água mineral água de origem subterrânea, proveniente de nascente natural ou captada em aquífero protegido, naturalmente pura à saída e caracterizada por uma composição mineral própria e estável ao longo do tempo, resultante da dissolução de sais minerais durante o seu percurso geológico, distinguindo-se da água potável comum por essa identidade hidroquímica.

[Texto 22 720]

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Definição e etimologia: «bluetooth»

Ai esta...


      O que se me oferece dizer quanto a bluetooth, uma tecnologia fantástica? Duas coisas. Primeira, por que raio a grafam quase sempre — em livros que revejo, em livros que leio, na imprensa — com maiúscula inicial? Segunda, porque é que nos dicionários a definição é tão genérica e imprecisa, que, com pequenas alterações, se poderia aplicar a outras tecnologias sem fios? Não posso resolver tudo, mas resolvo o segundo problema propondo ➜ bluetooth INFORMÁTICA tecnologia de comunicação sem fios de curto alcance, baseada em radiofrequência na banda dos 2,4 GHz, que permite a troca de dados entre dispositivos electrónicos próximos (como telemóveis, computadores, auscultadores ou periféricos), através de ligações de baixa potência e configuração automática; suporta ligações ponto-a-ponto e a criação de pequenas redes pessoais (PAN), assegurando a interoperabilidade entre equipamentos de diferentes fabricantes. 

      E porque a etimologia indicada nos nossos dicionários é simplesmente ridícula, proponho ➜ do inglês Bluetooth, nome atribuído em 1998; inspirado em Harald “Bluetooth” Gormsson, rei da Dinamarca do século X, conhecido por unificar tribos escandinavas, em alusão à função de interligação de dispositivos; o símbolo provém da sobreposição das runas correspondentes às iniciais do seu nome.

[Texto 22 719]

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Plural: «bar»

Sem medo: bares


      «Não é só a devida pasteurização: é também a fosfatase, a coagulação, o corte da coalhada, o aquecimento, os três dessoramentos, as duas agitações, a lavagem com salmoura, a moldagem e a progressiva prensagem, até à salga e a cura final. Juntem-se referências aos níveis térmicos a observar, às sucessivas etapas de compressão até 3 bar, à percentagem de salmoura, e tudo parece complicado e fatigante» («Licínia e Anselmo Ferreira: fazer 80 quilos de queijo por dia? “Vida boa”, dizem eles», Alexandra Couto, Público, 27.03.2026, 10h11).  

      Está certo: é o símbolo da unidade de medida de pressão. Num artigo de jornal, contudo, mormente num tom descritivo e narrativo, «três bares», o nome da unidade, integra-se melhor na fluidez da frase e na expectativa do leitor comum. Como o escreveram é mais de manual ou ficha de fabrico. E agora a definição no dicionário da Porto Editora. Está certíssima, descansem, mas com uma lacuna que desilude o leitor que consulta o verbete só para isto: não indica se tem ou não plural.  O nome da unidade tem; o símbolo, como é óbvio, não. Não sou eu, purista sensato, que o afirmo, mas o próprio Bureau International des Poids et Mesures (BIPM) recomenda que os nomes das unidades sejam tratados como nomes comuns. Esqueceram-se foi de enviar uma cartinha para as nossas editoras de dicionários: «Messieurs, nous sommes flattés que vous teniez tant à être aussi français que nous, mais respectez la langue portugaise, ses règles, et non pas une autre.» Caramba, é só acrescentar antes da definição «pl. bares».

[Texto 22 718]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Até estou grogue: então não é que «bar», no sentido de estabelecimento nocturno onde se servem bebidas, aparece como termo estrangeiro, e por isso grafado em itálico, no dicionário da Porto Editora? Vendo bem, acho que estou a precisar de um copo para esquecer isto.


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Léxico: «matrofobia»

A nossa filha tem de ir ao médico


      «Il y a ce serment. Muet, solennel, prononcé quelque part entre 10 et 20 ans, dans une chambre, un couloir, un grenier: “Je ne serai jamais comme elle.” Claire Richard, journaliste et autrice française de 40 ans, l’a fait. Et les 150 femmes qui témoignent dans son livre l’ont fait aussi. Presque mot pour mot. Ce serment a un nom. La “matrophobie”. Pas la haine des mères au sens large, pas les clichés sur la belle-mère acariâtre. Non: la peur, intime et souvent inavouée, de “devenir” sa propre mère» («Pourquoi tant de filles ont peur de ressembler à leur maman», Julle Huon, 24 heures, 28.03.2026, p. 25).

      Isso mesmo, desde os anos 70, e também já com as roupagens do português como ➜ matrofobia PSICOLOGIA receio de se tornar semelhante à própria mãe, associado à rejeição do modelo materno interiorizado e a conflitos na construção da identidade feminina. 

      Quanto à etimologia, vem do inglês matrophobia, termo introduzido por Adrienne Rich na década de 1970, formado do grego μήτηρ (mḗtēr), «mãe», através do radical erudito matro-, e de -phobia, «medo, aversão».

[Texto 22 717]

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Léxico: «gaivota-comum | larídeo»

O comum é sempre deixado para trás


      As gaivotas que mais vejo aqui em Cascais pertencem às espécies gaivota-de-patas-amarelas (Larus michahellis), que predomina, logo seguida da gaivota-argêntea (Larus argentatus). Mas depende da altura do ano: no Inverno, aparece muito a gaivota-comum (Larus canus). Em Lisboa, era sempre da primeira espécie que via, não nas zonas costeiras, como se lê na definição da Porto Editora, mas em meio urbano, a quilómetros da costa. Era cada vez mais frequente pousarem no pátio do meu condomínio, em Benfica. Primeiro aspecto a corrigir na definição. Mas há mais: «Para lá desse comportamento sazonal, o que muitos interpretam como agressividade é, nalguns casos, uma resposta aprendida por alguns indivíduos da população. A capacidade de aprendizagem é um traço marcante desta espécie, que pode viver 20 a 30 anos e acumular experiência ao longo da vida» («As gaivotas estão a ficar mais agressivas? Não, são é muitas», Andréia Azevedo Soares, Público, 29.03.2026, p. 17). 

      Tudo aspectos que ajudam a melhorar a definição de ➜ gaivota-de-patas-amarelas ORNITOLOGIA (Larus michahellis) ave caradriforme da família dos Larídeos, comum no litoral português e amplamente adaptada a ambientes urbanos, de grande porte (até cerca de 60 cm), com plumagem branca e cinzenta, extremidades das asas negras e bico e patas amarelos; apresenta comportamento oportunista, alimentando-se frequentemente de resíduos de origem humana; espécie longeva, podendo atingir cerca de 20 a 30 anos.

      Mas esperem, não se vão já embora: a Porto Editora nem sequer acolhe ➜ gaivota-comum ORNITOLOGIA (Larus canus) ave caradriforme da família dos Larídeos, de médio porte, menor e mais esguia do que a gaivota-de-patas-amarelas, com dorso cinzento-claro, cabeça branca e bico relativamente fino, geralmente sem manchas marcadas nas asas; ocorre em Portugal sobretudo no Inverno, frequentando zonas costeiras, estuários e áreas urbanas próximas de água.

[Texto 22 716]

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As opções dos nossos jornais

Maus exemplos


      Assim? «Na efeméride de um mês desde o início dos ataques israelo-americanos contra o Irão, os hutis, do Iémen, atacaram Israel pela primeira vez, com mísseis balísticos. Noutra frente, no Sul do Líbano, os israelitas mataram ontem três jornalistas e nove socorristas» («Hutis entram na guerra e lançam mísseis contra Israel», Gabriel Hansen, Jornal de Notícias, 29.03.2026, p. 36). Ou assim? «Ao fim de um mês de guerra, a deslocação de mais tropas norte-americanas para a região do Golfo e as perspectivas de uma ofensiva terrestre, naval e aérea contra o Irão marcaram a entrada dos houthis do Iémen no conflito que se iniciou a 28 de Fevereiro, com um ataque surpresa que matou o Guia Supremo Ali Khamenei e várias outras guras do regime iraniano» («Rebeldes do Iémen lançam mísseis sobre Israel e deixam aviso aos Estados Unidos», Ana Brito, Público, 29.03.2026, p. 18).

[Texto 22 715]

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Léxico: «quebra-gelo-patrulha»

A potência não é para aqui chamada


      «En una muestra de la creciente capacidad de Ucrania para alcanzar objetivos rusos, un rompehielos patrullero, el “Grupa”, resultó dañado, informó el Ejército ucraniano. Según el Estado Mayor ucraniano, que no dio más detalles sobre la operación, barcos de este tipo sirven tanto para propósitos civiles como para maniobras militares» («Ucrania humilla a Rusia al atacar un rompehielos en el Báltico», Rostyslav Averchuk, La Razón, 26.03.2026, p. 18). 

      Os nossos dicionários falam em potência e não sei que mais como características, mas não é isso que define este tipo de navio, se é que define algum. Assim, proponho ➜ quebra-gelo NÁUTICA embarcação concebida para operar em águas cobertas de gelo, dotada de casco reforçado e de proa adaptada que lhe permite subir sobre o gelo e fracturá-lo pelo peso, abrindo canais navegáveis para si e para outros navios.

      O quebra-gelo do artigo, o Grupa, é mais específico, é um ➜ quebra-gelo-patrulha NÁUTICA quebra-gelo destinado também a missões de patrulha, nomeadamente de vigilância e apoio logístico em regiões geladas.

[Texto 22 714]

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Léxico: «lustreiro»

Afinal, ainda os há por aí


      «Lustrier. Un terme presque trop simpliste pour décrire toutes les subtilités du métier de Jacky Riesen, qui doit piocher à la fois dans l’art, l’histoire, la mécanique et l’électricité pour mener ses tâches à bien» («L’artisanat, plus beau métier du monde?», Florence Millioud, 24 heures, 28.03.2026, p. 20). 

      Não há-de ser apenas na Suíça que ainda há lustreiros. E que fosse. Já tivemos a palavra «lustreiro» nos nossos dicionários; no de José da Fonseca, de 1836, por exemplo. Depois alguém achou que era uma velharia imprestável e vá de o expulsar dos dicionários. Assim, como afinal ainda faz falta, proponho ➜ lustreiro artesão que fabrica, monta ou restaura lustres, dispositivos de iluminação suspensos, geralmente de tecto, com múltiplos braços ou pontos de luz.

[Texto 22 713]

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Etimologia: «choque». Definição: «picardo»

Recuemos um pouco mais


      «Le ministre de l’Économie et des Finances a évoqué la perspective d’un nouveau choc pétrolier. Le mot vient du picard choquier, qui exprime l’idée d'un contact brutal. L’expression “choc pétrolier” est une image, même si l’économie mondiale est évidemment choquée par le blocage du détroit d’Ormuz» («Choc», Étienne de Montety, Le Monde, 26.03.2026, p. 36). 

      Exactamente, do picardo. Portanto, quando os nossos dicionários indicam que «choque» vem do francês choc, «idem», essa é informação que não nos leva muito longe, pelo que proponho ➜ do francês choc, «choque, embate violento», atestado desde o século XVI, derivado do picardo choquier, «bater, embater», que exprime a ideia de contacto brusco entre corpos; por extensão, passou a designar também impacto psicológico, perturbação súbita ou crise (ex.: choque emocional, choque petrolífero). 

      Claro que também não seria má ideia dizer-se, no verbete «picardo», um pouco mais do que «dialecto dessa região» — que é a Picardia. Assim, proponho ➜ picardo LINGUÍSTICA variedade linguística do grupo das línguas de oïl, tradicionalmente falada no Norte de França (região da Picardia e zonas limítrofes) e no Sul da Bélgica, com características fonéticas, lexicais e morfossintácticas próprias, distinta do francês padrão, embora historicamente relacionada com este. 

      Merci, cher Étienne de Montety, pour ces mots justes et éclairants, qui rappellent avec finesse que l’histoire des mots est aussi celle des idées et des chocs qu’elles traversent.

[Texto 22 712]

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Léxico: «ngongo | muongo»

Já foi nossa, mas não parece


      Lá muito de quando em quando, gosto de ler o Jornal de Angola. Mas faço mal, devia fazê-lo com mais assiduidade, até para ensinar angolês à Porto Editora. «Com absoluta nostalgia, voltei a assistir ao início da época do ngongo, uma centenária e quase mitológica bebida, muito popular no eixo Huíla/Namibe/Cunene, no extremo Sul de Angola. Colhido de uma árvore chamada muongo, o ngongo assume-se, entre finais de Dezembro até início de Março, como principal factor de socialização naquela região, tal é sua atractividade, com multidões de pessoas a juntarem-se nos locais da sua produção, variando de denominação em diferentes áreas» («Bebida centenária com efeito afrodisíaco», Leonel Kassana, Jornal de Angola, 29.03.2026, p. 22). 

      Nos dicionários, nada. Assim, proponho ➜ Angola ngongo bebida tradicional fermentada, de origem ancestral, preparada com frutos da árvore muongo (Sclerocarya birrea), consumida no Sul de Angola (nomeadamente nas regiões da Huíla, Namibe e Cunene); de sabor ácido e baixo teor alcoólico, sendo geralmente bebida em grupo, do mesmo recipiente, em encontros comunitários (rodas), associados a forte valor social e simbólico; é frequentemente descrita como possuindo propriedades afrodisíacas na tradição local. 

      O que nos obriga igualmente a levar para o dicionário ➜ Angola muongo BOTÂNICA (Sclerocarya birrea) árvore de porte médio a grande, da família das Anacardiáceas, própria das regiões tropicais da África Austral, podendo atingir cerca de 10 a 15 metros de altura; produz frutos carnosos, amarelados (designados por ngongo ou gongo), ricos em açúcares, utilizados no consumo directo e na preparação de bebidas fermentadas tradicionais, como o ngongo.

[Texto 22 711]

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Léxico: «ovo(s) de Páscoa»

Por isso mesmo


      «Quelle est l’origine de la tradition des œufs de Pâques? Elle remonte au moins à l’Antiquité: les Égyptiens, les Romains et les Perses s’offraient des œufs de poule décorés pour célébrer l’arrivée du printemps. L’œuf, un élément central dans les récits démiurgiques de nombreuses cultures anciennes, est lié à la création de l’univers – donc à la vie. Il symbolise ainsi parfaitement la nature qui renaît au printemps. Puisque la résurrection de Jésus signifie le triomphe de la vie sur la mort, ce n’est pas un hasard si l’église catholique fixa en 325 la date de Pâques au premier dimanche après la pleine lune qui suit l’équinoxe de printemps» («Comment le chocolat a volé la vedette aux œufs», Laurence Crottaz, 24 heures, 28.03.2026, p. 14). 

       É justamente não serem já ovos, mas chocolate em forma de ovo, que justifica levar-se para o dicionário ➜ ovo(s) de Páscoa doce associado à celebração da Páscoa, com origem em práticas da Antiguidade ligadas à renovação primaveril e à fertilidade, posteriormente integradas na simbologia cristã; de início constituído por ovo de galinha cozido, por vezes pintado ou decorado e oferecido como símbolo de vida nova; actualmente, produto de chocolate moldado em forma ovóide, com frequência oco e podendo conter brindes ou recheios, que substituiu quase por completo o uso do ovo natural nas práticas festivas contemporâneas.

[Texto 22 710]

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Definição: «síndrome de Stendhal»

Tudo menos «condição»


      «Cuando se piensa en la ciudad de Parma, lo primero que viene a la mente es su espectacular Baptisterio de mármol rosa de Verona, un imponente edificio octogonal del siglo XIII que es, sin duda, una de las mayores proezas artísticas de Italia. Cuando se habla de esa reacción de colapso psicosomático con mareos y taquicardias ante la percepción de una enorme acumulación de belleza, se hace siempre referencia a la experiencia de Stendhal cuando visitó la basílica de la Santa Croce en la ciudad toscana de Florencia en 1817, lo que se ha venido en llamar sindrome de Stendhal» («Parma y el síndrome de Stendhal», Santiago Ortiz Lerín, El Periódico, 29.03.2026, p. 42).

      Não precisam de me lembrar que fui eu que sugeri a dicionarização de «síndrome de Stendhal» à Porto Editora, mas não ditei propriamente a definição, além que apresenta dois problemas. Recordemo-la: «condição psicossomática caracterizada por um conjunto de sintomas como aceleração do ritmo cardíaco, vertigens ou desmaios (entre outros), decorrente da exposição a obras de arte ou locais de grande beleza estética; hiperculturemia». O primeiro é aquela «condição», que não tem como fingir que é portuguesa, porque tem no ADN o condition inglês. Não precisamos dela. O segundo é a natureza daquela «exposição»: não é qualquer exposição, como muitos leitores, apressados ou não, poderão deduzir, mas uma experiência intensa ou sobrecarga estética. O que é bem diferente. Assim, proponho ➜ síndrome de Stendhal PSICOLOGIA conjunto de reacções físicas e emocionais transitórias, como taquicardia, tonturas ou desmaio, desencadeadas por uma experiência intensa perante obras de arte ou contextos de grande beleza estética, especialmente em situações de sobrecarga sensorial ou cultural.

[Texto 22 709]

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Léxico: «muleiro»

A galinha da minha vizinha


      «Inshi, Eben, Bisquine et Igualjeno. Quatre paires de grandes oreilles et de grands yeux au regard curieux. Quatre mulets au caractère bien trempé et bien différent, auxquels les muletiers Suzanne Allaman et Olivier Morand vouent une passion sans bornes» («Par amour pour leurs bêtes, ils perpétuent le travail des muletiers», Natasha Hathaway, Le Matin Dimanche, 29.03.2026, p. 17). 

      Com certeza, Porto Editora, podes traduzir por «muleteiro», mas a minha primeira opção seria logo «muleiro», tanto mais que esta se formou na nossa língua, ao passo que «muleteiro» vem directamente do francês muletier, como tu própria o reconheces na etimologia. Está tudo dito, ou quase: tens de dicionarizar muleiro.

[Texto 22 708]


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Léxico: «normopata»

Quando já tens «normopatia»


      Porto Editora, queres saber quando foi a última vez que encontrei a palavra «normopata»? Queres pois. Foi ontem, nas legendas do filme No Verão Passado (L’Été dernier), de Catherine Breillart. «Sabes o que penso dos “normopatas”?», diz a personagem Anne, já com os copos, ao marido. «Aborrecem-me. Até se aborrecem a si mesmos. Por favor, não te armes em normopata, não te fica bem.» (A pecha das aspas já vem dos jornais. O erro colossal, porém, só chega ao minuto 47, quando Théo, fingindo, de gravador em riste, entrevistar a madrasta, Anne, a incita a falar: «Vas-y, cause.» («Anda lá, fala.» «Vá, conta.») Pois bem, nas legendas aparecia assim: «Vá lá. Causa.» Sim, erro colossal. E era facílimo comprovar que não batia certo, já que a madrasta responde: «Ce n’est pas toi qui dois poser des questions?» Francamente.)

[Texto 22 707]

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Léxico: «prova indirecta»

Mas ausente dos dicionários


      «A magistrada critica a prova indireta, que não foi valorizada. “Não é absolutamente necessário o aparecimento do corpo para se concluir pelo cometimento do crime de homicídio/aborto. Será todavia de se exigir que se alcance uma evidência de morte, ainda que comprovada por provas indiretas ou circunstanciais, sejam elas perícias, testemunhais ou outras, desde que permitam alcançar uma conclusão segura”, lê-se» («“O autor da morte de Mónica foi Fernando Valente”», Nelson Rodrigues e Tânia Laranjo, Correio da Manhã, 26.03.2026, p. 12). 

      Isto é que é forma de escrever... Nada como um jornalista acolitado por outro jornalista para engendrar estes portentos. Tem de ser o pobre leitor — e talvez boa parte dos leitores deste jornal não o saiba fazer — a proceder a esse trabalho de reconstrução. Bem, avancemos propondo, dada a sua presença nos meios de comunicação, a dicionarização de ➜ prova indirecta DIREITO prova que incide sobre factos intermédios ou circunstâncias conexas, a partir dos quais se infere o facto principal a demonstrar; distingue-se da prova directa por exigir um raciocínio inferencial e pode assumir a forma de prova indiciária.

[Texto 22 706]

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Léxico: «meruja»

Aqui não chove


      «Porque não é fácil resistir – confirmamos – à chouriça mirandesa, à tabafeia, ao cordeiro da raça churra galego-mirandesa, ao butelo, à posta ou medalhão de vitela. Que ainda para mais se fazem acompanhar de variados e belos vinhos que se produzem na região, além de outras iguarias como o puré de grelos ou (sorte nossa, porque são colhidas apenas entre Janeiro e Março e era época delas) a bonita e saborosa salada de merujas» («Miranda do Douro: bien benidos al reino marabilhoso», Patrícia Carvalho, Público, 28.03.2026, 8h33). 

      Peçam à Porto Editora uma salada de merujas, tentem. Iam ficar com fome. Assim, proponho ➜ meruja BOTÂNICA (Montia fontana) planta herbácea silvestre, aquática ou semiaquática, da família das Portulacáceas, que cresce em águas límpidas e frias (nascentes, ribeiros, lameiros encharcados), formando conjuntos de folhas muito pequenas e tenras, de sabor suave e sem acidez marcada, tradicionalmente consumidas cruas em saladas no Interior Centro e Nordeste de Portugal; produto sazonal, colhido sobretudo entre Janeiro e Março.

[Texto 22 705]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Não confundir com morugem (Stellaria media), planta terrestre diferente. Em certos registos lexicográficos, nomeadamente no dicionário da Porto Editora, a forma «meruge(m)» surge associada, quanto a mim, indevidamente, a essa espécie.

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Agora é que vai ser

Ler por receita


      Os médicos, leio nos jornais, vão passar a receitar caminhadas, pilates, trabalhos manuais e aulas de culinária. É um começo, mas o que espero mesmo é que, enquanto não afinam aqueles chips implantáveis no cérebro, passem a receitar o estudo da gramática e a consulta de dicionários, especialmente aos jornalistas; para a restante população, pode ser apenas a frequência de clubes de leitura, por exemplo.

[Texto 22 704]

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Definição: «arcebispa»

Pois, mas na prática


      «Durante siglos, Canterbury ha sido sinónimo de peregrinación. Pero la multitud no acudió ayer en busca de redención, sino de historia. Bajo las bóvedas góticas de la catedral, la Iglesia de Inglaterra escenificó un cambio de era al entronizar públicamente a Sarah Mullally como arzobispo de Canterbury, la primera mujer en ocupar el cargo en 1.400 años. A sus 64 años, madre de dos hijos y exjefa de enfermería del sistema público británico, se convierte en la máxima autoridad espiritual de los anglicanos en todo el mundo» («La Iglesia anglicana rompe su último techo de cristal con la entronización de una mujer», Celia Maza, La Razón, 26.03.2026, p. 32). 

      Dizes, Porto Editora, que é a «mulher que chefia um arcebispado em certas religiões cristãs não católicas», mas bem sabemos que apenas o caso da Comunhão Anglicana tem relevância, pelo que eu o definiria assim ➜ arcebispa RELIGIÃO mulher investida no cargo de arcebispo, isto é, responsável por uma província eclesiástica ou por uma diocese de especial relevância; termo de uso recente, com projecção sobretudo na Comunhão Anglicana, decorrente da ordenação de mulheres, inexistente na tradição católica.

[Texto 22 703]

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Extras! Extras! Extras!

Não se esqueçam


      «O ex-diretor executivo do SNS António Gandra d’Almeida afirmou ontem que o INEM “só funcionava com muitas horas extras e prestação de serviços, tal como o resto do SNS”» («INEM só funciona com horas extras», E. N., Correio da Manhã, 27.03.2026, p. 19).

[Texto 22 702]

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Definição: «subdimensionamento»

Abstrai, mulher


      «Com esse objectivo em mente, a associação pede também ao metro que reveja aquela que vem sendo a prática de fazer terminar no Campo Grande parte das composições da Linha Amarela que partem da estação do Rato, intercaladas com outras que fazem o percurso completo até Odivelas. Uma frequência que se faz sentir nos dias úteis, entre as 10h e as 16h45, e que leva a Zero a falar num “grave subdimensionamento” da oferta neste troço» («Porque não circula o metro da capital mais cedo? Associação Zero quer abertura de portas às 5h30», Samuel Alemão, Público, 27.03.2026, p. 19). 
      O dicionário da Porto Editora define muito mal «subdimensionamento»: «atribuição de dimensões insuficientes a algo». E porquê? Pois porque fica presa à ideia de dimensões no sentido físico ou geométrico e não capta o uso efectivo da palavra, que é muito mais amplo e frequentemente abstracto, como é o caso do artigo que cito. Assim, proponho ➜ subdimensionamento acto ou efeito de dimensionar, planear ou conceber algo abaixo das necessidades reais, resultando em insuficiência de capacidade, escala ou meios.
[Texto 22 701]

⋅ ── ✩ ── ⋅



P. S.: Muito me apraz verificar que no Público já sabem fazer perguntas gramaticalmente correctas: Porque é que...? A satisfação, porém, só seria completa se não soubesse que apenas acertam quando se enganam. Satisfação efémera, pois. Orgasmo.

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Confusões: «à vontade» e «à-vontade»

Pese embora a nódoa


      «“Este é um clube de leitura dedicado ao teatro, mas igual a todos os outros. Não é uma aula”, sublinha Isabel Milhanas Machado. “O objectivo é fazer com que qualquer pessoa se sinta à-vontade, sem medo de falar, fazer perguntas, propor uma interpretação ou partilhar a sua experiência. Mas, se quiser, também pode car só a ouvir”» («Um pouco por todo o país, há leitores de teatro à procura de uma peça atrás da outra», Luís Ricardo Duarte, Público, 27.03.2026, p. 30). 

      O jornalista aqui borrou um pouco a pintura (Luís Ricardo Duarte, aprenda urgentemente a distinguir e a usar «à vontade» e «à-vontade»), mas o artigo é interessante, fala de clubes de leitura em Lisboa e no Porto. O resto é paisagem. Em Lisboa, é o Clube de Leitura do Teatro Variedades; no Porto, as Leituras no Mosteiro são uma iniciativa do Centro de Documentação do Teatro Nacional São João. São ambos clubes de leitura de peças de teatro, e os textos são lidos na íntegra.

[Texto 22 700]

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Léxico: «trimodal»

Registe-se


      «De acordo com a mesma fonte, os investigadores testaram pela primeira vez um tratamento trimodal, que combina três ações simultâneas contra o cancro. Para a descoberta, os investigadores recorreram a um medicamento utilizado em quimioterapia (tratamento contra o cancro), o doxorrubicina, com a aplicação, em simultâneo, de duas formas diferentes de calor» («Cientistas testam tratamento mais eficaz contra cancro com menos doses de quimioterapia», Rádio Renascença, 26.03.2026, 1h30).

[Texto 22 699]

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Léxico: «agregador»

É muito mais do que isso


      «Na prática, segundo o Grok, isso envolve processar “snippets extensos e caches públicos” que vazam partes grandes do texto; cruzar múltiplas fontes na web que republicam, citam ou indexam trechos longos (buscas avançadas, arquivos, redes sociais, agregadores); e reconstruir o texto integral a partir desses fragmentos distribuídos» («Grok e DeepSeek burlam ‘paywall’ de jornais e acessam conteúdo protegido», Maurício Meireles, Folha de S. Paulo, 27.03.2026, p. A32). 

      Não, não, Porto Editora, «agregador» a significar apenas «que ou o que agrega» é do século XX, e XIX, e XVIII, e... Agora é isto: agregador 1. que ou o que agrega; que reúne elementos dispersos num todo; 2. INFORMÁTICA aplicação ou serviço que recolhe e organiza conteúdos de várias fontes num único ponto de acesso; 3. COMUNICAÇÃO plataforma digital que compila e redistribui conteúdos de terceiros, frequentemente com base em automatização.

[Texto 22 698]

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Definição: «padrão-ouro»

Longe dos mínimos


      «La fin de l’étalon-or. L’origine de ce système de garantie en or, qu’on appelle l’étalon-or, remonte au XVIIIe siècle, quand les banques garantissaient la conversion des billets en or sur demande. Ce mécanisme s’est ensuite développé jusqu’au début du XXe siècle. Mais après la Première Guerre mondiale, l’étalon-or est peu à peu abandonné : les Etats ont dû massivement emprunter, notamment pour s'armer, et leurs stocks d’or ne permettent plus de couvrir la monnaie émise» («L’or, de mètre étalon à valeur refuge», Lomig Guillo, Le Figaro, 27.03.2026, p. 47). 

      A definição de «padrão-ouro» da Porto Editora é demasiado vaga e redutora, limita-se a uma genérica «associação» ao ouro, omitindo a paridade oficial, a convertibilidade, o papel das reservas e o enquadramento histórico do sistema: «ECONOMIA sistema monetário em que há uma associação directa do valor da moeda ao valor do ouro; moeda-ouro». Como é que algo tão importante fica reduzido a isto? Assim, proponho ➜ padrão-ouro ECONOMIA sistema monetário em que a unidade monetária corresponde a uma quantidade fixa de ouro, com paridade oficial e convertibilidade nesse metal; regime adoptado por vários países entre o século XIX e o início do século XX e abandonado no início da década de 1970, com o fim da convertibilidade do dólar em ouro.

[Texto 22 697]

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Léxico: «foguetada»

Outras faltarão


      O actor Miguel Dias, entrevistado por Rita Roque no Mesa para Dois, na Antena 1, disse que à gargalhada que estoura entre o público quando o actor atira uma graça, uma piada, dá-se em teatro o nome de foguetada. Gíria, sim, e talvez menos conhecida, mas acaso os dicionários acolhem a tão conhecida forma de desejar sorte no teatro — «Muita merda!» —, algum a regista? Não. Estranho país este, em que não se valoriza a língua, o conhecimento, a História. Só não fico na merda por causa disto porque vou em frente.

[Texto 22 696]

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Definição: «mosqueteiro»

Um por todos


      «Os restos mortais de Charles de Batz de Castelmore [dito] d’Artagnan, o mosqueteiro mais famoso da história, terão sido encontrados na cidade na cidade de Maastricht, nos Países Baixos. O esqueleto que pertencerá a D’Artagnan foi descoberto diante do altar de uma igreja daquela cidade neerlandesa, anunciaram esta quarta-feira responsáveis religiosos e um arqueólogo» («Restos mortais de D’Artagnan terão sido descobertos», Ricardo Vieira, Rádio Renascença, 25.03.2026, 17h16). 

      Aproveitemos nós, enquanto não se confirma que o ADN é de Charles de Batz de Castelmore d’Artagnan, e melhoremos a definição de ➜ mosqueteiro 1. MILITAR, HISTÓRIA soldado armado de mosquete, activo sobretudo entre os séculos XVI e XVIII, integrado em unidades de infantaria caracterizadas pelo uso de armas de fogo portáteis de alma lisa, frequentemente organizadas em formação com piqueiros; em particular, membro de companhias militares específicas, nomeadamente da guarda real francesa (Mousquetaires du Roi), que constituíam corpos de elite ao serviço directo do soberano; 2. figurado homem que defende com ardor uma causa ou pessoa, com bravura e lealdade, evocando o ideal de camaradagem e heroísmo associado à tradição literária. 

      O que se altera com a nova definição? Duas coisas. Primeira: explicita-se o enquadramento histórico e técnico do termo, incluindo o uso do mosquete, a articulação com piqueiros e a sua inserção em corpos militares específicos, como as companhias de elite da guarda real francesa; segunda: enriquece-se a acepção figurada, incorporando a sua carga cultural e literária, além do sentido genérico de «defensor» ou «paladino».

[Texto 22 695]

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Léxico: «calçote»

Foi nosso, perdeu-se


      Outra que nos palmaram, mas que vamos encontrar em vocabulários e dicionários brasileiros: «Assim, a conta do alfaiate, apensa ao inventário, acusa em menos de cinco anos a entrega e débito de vinte e dois pares de calças — não falando em calções de montar e calçotes do menino, seus consertos e arranjos — oito sobrecasacas, oito coletes, etc., quando no espólio figuram apenas uma sobrecasaca e oito pares de calças «muito usadas», sinal que autoriza a supor que não teria grande ingresso naquela casa o algibebe» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 58).

[Texto 22 694]

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Léxico: «Folha-de-Figueira»

Em que se fala de Cunhal


      «Des travaux qui montrent également que le folha de figueira, toujours cultivé au Portugal, est le clone d’un plant qui était exploité à Ibiza, au Xle siècle» («L’ADN du pinot noir n’a pas changé depuis Jeanne d’Arc», Denis Delbecq, Le Temps, 25.03.2026, p. 11). 

      É impressionante: só pela leitura de um jornal suíço é que fico a saber que temos uma casta chamada Folha-de-Figueira, que até os nossos dicionários ignoram, isto quando é sinónimo da designação de uma das castas mais conhecidas. E não é uma casta qualquer, como poderão ver. Assim, proponho ➜ Folha-de-Figueira VITICULTURA casta de videira branca portuguesa, também conhecida por Dona-Branca, tradicionalmente cultivada em regiões do interior, integrada no conjunto das variedades autorizadas para produção de vinho em Portugal.

[Texto 22 693]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: A Porto Editora, já o reconheci noutra ocasião, tem razão numa coisa, que é grafar em minúscula o título do verbete em que regista o nome de uma casta, pelo simples facto de normalmente ter várias acepções, desde logo o nome da casta — e este é em maiúscula — e quase sempre o nome do vinho produzido com essa uva. O problema é que não leva até ao fim essa coerência, já que nos verbetes de algumas castas em que só figura o nome da casta e não do vinho — como no de Dona-Branca —, o deixa com minúscula. Com razão ou sem razão, temos de ser coerentes até ao fim. Porque é que Álvaro Cunhal ainda hoje é elogiado?


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Definição: «nianja»

A atracção do exótico


      «O lago Malawi, Niassa para os locais e para os moçambicanos (que têm soberania sobre 6400 km2 dos cerca de 30 mil km2 quadrados das suas águas), é o mar de água doce dos malawianos: em chewa ou nianja, uma das línguas faladas no país, Malawi quer dizer “chamas” e terão sido os reflexos no lago do sol a nascer que lhe terão valido o nome» («Malawi, o país-lago: da terra sai pouco e na água começa a escassear», António Rodrigues, Público, 24.03.2026, 22h02). 

      Estes jornalistas nem olham para os dicionários. É atar e pendurar. Podendo optar por Maláui e cheua, não senhor, querem o exotismo. Fazem mal. E ainda não perceberam que o 2 dos km é elevado, é um índice superior. Ou não o sabem fazer. Entretanto, quanto aos dicionários, há larguíssima margem para definir melhor ➜ nianja LINGUÍSTICA língua banta da África Austral, falada sobretudo no Maláui, na Zâmbia e no Norte de Moçambique, estreitamente relacionada com o cheua e frequentemente considerada a mesma língua, sendo «nianja» a designação mais usada em contextos zambianos e moçambicanos e «cheua» a mais corrente no Maláui.

[Texto 22 692]

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Léxico: «drone vagante»

Estamos salvos


      «O anúncio surge no dia em que o Exército testou, pela primeira vez, um drone de ataque – também conhecido como “loitering munition” – num exercício multinacional com Espanha e França, num momento considerado inédito na força terrestre portuguesa» («Exército estreia drone de ataque “com sucesso”», Rádio Renascença, 25.03.2026, 21h12, itálicos meus). 

      Por vezes também chamado «drone suicida» ou «drone kamikaze», ainda mais ao gosto jornalístico, mas a designação mais adequada que se encontra é «drone vagante». Veremos como se desenrola isto.

[Texto 22 691]

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Definição: «juiz social»

Não coadjuvam, não


      «Dois juízes sociais. O menor será julgado por um tribunal coletivo: uma juíza de carreira (a titular do processo) e dois juízes sociais (cidadãos, sem formação jurídica específica, nomeados para auxiliar os juízes de direito em tribunais de família e menores)» («Menor que matou mãe a tiro arrisca três anos fechado», Tânia Laranjo, Correio da Manhã, 25.03.2026, p. 8). 

      Não encomendei a notícia, mas vem mesmo a calhar para corrigir e melhorar a definição de «juiz social», Porto Editora, já que na tua definição há três aspectos a rever: primeiro, a temporalidade não é constitutiva da figura, e tanto assim é que a duração rígida nem sequer é universalmente aplicável a todos os casos; segundo, afirmar-se que está lá para «coadjuvar os juízes de direito» é uma formulação equívoca, já que nos tribunais colectivos onde intervêm juízes sociais estes não são meros auxiliares, participam na decisão, com direito de voto, ainda que não exerçam funções técnicas de direcção do processo; terceiro, não são seleccionados, mas sorteados. 

      Tudo visto, proponho ➜ juiz social DIREITO cidadão sem formação jurídica específica, inscrito em listas oficiais e chamado por sorteio para integrar tribunais colectivos em determinadas matérias, nomeadamente em processos de família e menores e em certas áreas laborais, participando na apreciação dos factos e na decisão, com direito de voto igual ao dos juízes de carreira.

[Texto 22 690]

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Erros de sempre e para sempre

Só veneno


      Fiquei com alguma vontade de ir ver a peça Veneno ao Teatro Aberto. Lê-se na página do teatro na internet: «Num diálogo de grande intensidade emocional, a peça Veneno (2009), da autora neerlandesa Lot Vekemans, revela os mistérios da alma humana e os modos complexos, muito diversos, como cada pessoa procura manter a esperança ao lidar com os revezes da vida.» Só espero que a autora, que vem cá assistir à estreia, não saiba português. Ou, vá, que saiba ainda menos do que o autor do texto. Vezes não são revezes, como se costuma dizer. Mentira: não diz nada. O que eu queria dizer é que não vou contar nada à autora. Ou será que vou mesmo? Of ga ik het toch doen?

[Texto 22 689]

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Léxico: «detentivo»

Esperem um pouco


      Não sei quê e tal e «que, como não tinham carácter detentivo, levaram o juiz de instrução a libertar os quatro detidos no domingo passado», dizia o Público, mas depois o texto desapareceu, mas já se sabe, nothing ever truly disappears from the Internet. Como viram que a Porto Editora assegura que detentivo estará «brevemente disponível», recuaram.

[Texto 22 688]

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Definição: «intersexualidade»

Mais comum do que se pensa


      Num artigo recente no La Razón sobre um documentário dedicado à intersexualidade, lê-se que se trata de indivíduos «que nascem com características biológicas que não encaixam nas categorias tradicionais de masculino ou feminino», formulação que corresponde ao entendimento científico actual da questão e contrasta — chega a chocar, na verdade — com a definição de «intersexualidade» do dicionário da Porto Editora. No mesmo artigo, estima-se que cerca de 1 em cada 2000 nascimentos apresente variações das características sexuais, o que evidencia que não se trata de um fenómeno marginal, mas de uma realidade biológica com expressão mensurável. A definição da Porto Editora divide-se em duas acepções, ambas problemáticas. A primeira descreve a «qualidade do indivíduo de um sexo com características […] que o faz parecer do outro», o que reduz o fenómeno a uma questão de aparência ou de percepção externa, ignorando a sua base biológica. A segunda afirma que o indivíduo «inicia o seu desenvolvimento com um sexo e termina com outro», ideia que não encontra apoio na biologia contemporânea e reflecte antes concepções antigas, entretanto abandonadas e denunciadas no documentário (The Secret of Me) realizado por Grace Hughes-Hallett. Não há aqui duas acepções legítimas, mas duas tentativas de apreender um mesmo fenómeno. A própria estrutura da definição parece ainda ecoar concepções hoje ultrapassadas, associadas a uma visão desenvolvimentista e normalizadora do sexo — como a que foi defendida pelo psicólogo neozelandês John Money —, e que esteve na origem de práticas médicas hoje amplamente criticadas. 

      Impõe-se, por isso, uma reformulação que tenha em conta o conhecimento científico actual. Assim, proponho ➜ intersexualidade BIOLOGIA, MEDICINA condição caracterizada pela presença de variações nas características sexuais (cromossómicas, gonadais, hormonais ou anatómicas) que não correspondem às definições típicas de masculino ou feminino, podendo manifestar-se de diversas formas ao nascimento ou ao longo do desenvolvimento. 

      A questão é referida na literatura médica e em dicionários recentes com diferentes formulações («variações», «diferenças» ou «perturbações do desenvolvimento sexual»), correspondendo, em geral, ao inglês differences/disorders of sex development (DSD), e nunca aí se fala em aparência.

[Texto 22 687]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Já se deixa adivinhar que também a definição de «intersexo» padece dos mesmos problemas. E a solução é simples: alinhar a sua definição com a de «intersexualidade», descrevendo-a em termos de variações das características sexuais, e não como mera combinação de traços masculinos e femininos.


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Definição: «secretário-geral»

Dá-me lúmen


      «As medidas de coação da Operação “Lúmen” foram conhecidas esta terça-feira. O secretário-geral da Câmara de Lisboa, Laplaine Guimarães, fica suspenso de funções, determinou o Tribunal de Instrução Criminal (TIC) do Porto» («Laplaine Guimarães suspenso de funções na Câmara de Lisboa», Ricardo Vieira, Rádio Renascença, 24.03.2026, 16h58).

      Numa rádio, uma comentadora, jurista, e dessas mais espevitadas, confessou que não sabia que existia este cargo na Câmara Municipal de Lisboa. Os dicionários até sabem, mas deviam caracterizá-lo melhor, ninguém iria sentir-se triste ou ofendido. Assim, proponho ➜ secretário-geral cargo de direcção superior, em instituições públicas ou privadas, exercido por quem assegura a coordenação e o funcionamento dos serviços, promovendo a articulação entre unidades orgânicas e o cumprimento das orientações definidas pelos órgãos dirigentes, podendo incluir funções de apoio directo à direcção e de supervisão administrativa e organizacional.

[Texto 22 686]

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Léxico: «sala de guerra»

Pode ser a mais importante


      Até aparece nos meios de comunicação social — «Taiwan assiste à COP30 numa “sala de guerra”…» (Salomé Fernandes, Expresso, 12.11.2025, 13h30) —, mas vou citar o filme Dr. Estranhoamor, que vi ontem. Quando o general Buck Turgidson se envolve à pancada com o embaixador russo, diz o presidente: «Gentlemen, you can’t fight in here! This is the War Room!» Comédia é comédia, ainda que negra. Então temos tantas salas nos dicionários e não encontramos lá esta? Assim, proponho ➜ sala de guerra MILITAR, POLÍTICA espaço físico ou virtual onde se centralizam e expõem informações relativas a um ou mais teatros de operações ou a uma situação crítica, e no qual se reúnem os elementos de comando (nomeadamente o estado-maior) para analisar dados, planear, decidir e acompanhar a execução de acções; por extensão, estrutura de coordenação intensiva usada em contextos não militares para gerir crises ou projectos complexos.

[Texto 22 685]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Estranho, lamentável, é que se encontre de quando em quando a forma «Dr. Estranho-amor», com hífen, como se se tratasse de uma simples combinação adjectivo + substantivo. Ora, no filme Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, o nome é apresentado como uma unidade lexical, tradução directa (e já de si humorística) do pseudo-alemão Merkwürdigliebe, forjado para imitar a composição germânica. Tal como em inglês se fixou Strangelove e não Strange Love, também em português a forma coerente é Estranhoamor, aglutinada e assumida como apelido, não «Estranho-amor».


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Definição: «arsenopirite»

Nem que fosse apenas pela fórmula


      «Em 2019, investigadores da Universidade do Porto avaliaram os riscos do consumo de água contaminada por arsénio na região, documentando o despejo de centenas de toneladas de arsenopirita decorrentes da extracção de volfrâmio em décadas anteriores» («Minas da Panasqueira: Quercus denuncia risco de contaminação tóxica no rio Zêzere», Andrea Cunha Freitas, Público, 24.03.2026, 8h17). 

      A jornalista falha — falham sempre em alguma coisa — é em adoptar a variante brasileira: em Portugal diz-se «arsenopirite». Falha também a Porto Editora, que, entre outros aspectos, não indica a fórmula deste mineral. Assim, proponho ➜ arsenopirite MINERALOGIA (FeAsS) mineral de ferro e arsénio do grupo dos sulfuretos, cristalizando no sistema monoclínico, frequentemente com hábito pseudo-ortorrômbico; ao ser quebrado pode exalar odor a alho; constitui o principal minério de arsénio.

[Texto 22 684]

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Léxico: «calpaque»

Avancemos


      Várias imagens e depois: «Na página anterior, um homem usando o calpaque, chapéu típico quirguiz» («Manas é melhor do que Lenine», Paolo Moiola, Além-Mar, Abril de 2026, p. 35). Ora, vejo a palavra num vocabulário publicado em 1967 e agora que aparece na imprensa, nada, fora dos dicionários. Faz lembrar o caso de «herança indivisa» (menos auto-explicativo do que se julga), que andamos a encontrar nos meios de comunicação vai para três semanas, e que também está fora dos dicionários, ao passo que «herança jacente», que creio jamais ter encontrado no uso vivo (e já li mais textos de natureza jurídica do que a maioria dos meus leitores), tem lugar nos dicionários. Enfim, critérios muito discutíveis.

[Texto 22 683]

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Definição: «gilbertês»

Mais do que o estrito, esquelético, básico


      «Kiribati (em gilbertês lê-se Kiribas, porque o “ti” tem som de “s”) compõe-se de três grupos de ilhas, as Gilbert, as Fénix e as Espórades Equatoriais ou ilhas da Linha, espalhadas pelo oceano Pacífico e por quatro hemisférios, caso único no planeta» («Kiribati, o pais-mar: preservar o oceano que lhes corre nas veias», António Rodrigues, Público, 23.03.2026, 21h30). 

      Até pode encontrar-se de quando em quando a referência a «quatro hemisférios», mas isso não legitima o seu uso. Isso daria duas Terras. Claro que percebo a ideia por detrás, mas se se usar o termo «quadrante», não há imprecisões nem desnecessárias extensões de sentido. Quanto a «gilbertês», para evitar uma definição excessivamente esquemática como aquela que encontramos nos nossos dicionários, proponho ➜ gilbertês LINGUÍSTICA língua austronésia do ramo micronésio, falada no Quiribáti, onde é língua oficial a par do inglês; apresenta grande homogeneidade dialectal entre as ilhas, apesar da dispersão geográfica do arquipélago; caracteriza-se por um sistema fonológico relativamente simples e por uma morfologia predominantemente analítica, com uso de partículas para marcar relações gramaticais.

[Texto 22 682]

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Definição: «factor»

Sim e não


      No 8.º episódio («As Cidades dos Ferroviários») da excelente série documental Passagem de Nível, que passa na RTP2, falou-se mais de uma vez numa das profissões ferroviárias, a de factor. Não se pode dizer que esteja muito bem definido nos dicionários, longe disso, pelo que proponho ➜ factor FERROVIA antiquado (em Portugal) empregado encarregado da gestão administrativa e comercial do tráfego de mercadorias e encomendas numa estação ferroviária; regista expedições e chegadas, calcula fretes e taxas, emite documentação de transporte e assegura a escrituração associada ao movimento de cargas, sendo frequentemente, em estações de menor movimento, o responsável principal pelo funcionamento da estação. 

      Antiquado, decerto; mas houve factores em Portugal até às portas do século XXI. E continuam a existir em Angola. Portanto, antiquado em Portugal. Aqui, por exemplo, em relação ao Caminho-de-Ferro de Luanda (CFL), vejo a notícia de abertura de um curso para formação de factores de estação que decorreu em 2024.

[Texto 22 681]

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Léxico: «gandura | albornoz»

Nossas, e temos de as importar


      «O andaluz José María Cantal Rivas é membro da Sociedade dos Missionários de África, ou dos Padres Brancos, assim chamados, não pela cor da pele, mas pela alvura do hábito inspirado em trajes típicos do Magrebe, composto de uma gandura (túnica) e um albornoz (manto com capuz), símbolos de pureza e simplicidade» («A Igreja “quase invisível” que não esconde a fé», Margarida Santos Lopes, Além-Mar, Abril de 2026, p. 18).

      Temos de importar (está no VOLP da Academia Brasileira de Letras, por exemplo) ➜ gandura ou gandoura peça de vestuário tradicional do Norte de África e de regiões islâmicas, constituída por uma túnica comprida, larga e de corte recto, geralmente sem mangas e confeccionada em tecido leve, usada sobretudo por homens em climas quentes; pode apresentar decote simples ou decorado e ser usada sobre outras peças ou directamente sobre o corpo.

      Vem do árabe magrebino gandūra, forma do árabe dialectal do Norte de África, relacionada com vocábulos árabes que designam túnicas ou vestes amplas, com possível influência de substratos berberes.

      Assim como temos de corrigir a definir de «albornoz» e esquecer isso de ser árabe ou ser muçulmana, porque não é nem uma coisa nem outra. Assim, proponho ➜ albornoz peça de vestuário tradicional do Magrebe (Norte de África) que consiste num manto comprido de lã, amplo, com capuz pontiagudo e sem abertura frontal, usado sobre o corpo ou sobre outras vestes como protecção contra o frio e as intempéries; por extensão, casaco comprido com capuz ou gola alta e envolvente, de inspiração semelhante.

      Vem do árabe hispânico alburnúz, e este do árabe clássico al-burnus, por sua vez do grego tardio birros (ou birrus), «manto curto com capuz», vocábulo de provável origem latina (birrus), designando uma capa de lã com capuz difundida no mundo romano e bizantino, de onde passou ao árabe e, por via deste, às línguas românicas peninsulares.

[Texto 22 680]

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Léxico: «ecossistema»

Tenho dois


      Vou tendo dois ecossistemas aqui em casa: um da Apple e outro, em crescimento, da Huawei. Apesar de banida do Ocidente pelos EUA, porque temiam a crescente qualidade — não por qualquer outro motivo — dos produtos e serviços desta empresa chinesa, a Huawei continuou a inovar e a fazer produtos com que supera, em alguns casos, toda a concorrência. Bem, «ecossistema», nesta acepção, não está em nenhum dicionário e, contudo, encontramo-la a cada passo. Assim, proponho ➜ ecossistema INFORMÁTICA, ECONOMIA conjunto articulado e interdependente de dispositivos, programas, serviços, plataformas e utilizadores organizados em torno de uma mesma empresa, tecnologia ou ambiente digital, funcionando de modo integrado.

[Texto 22 679]

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Definição: «antiteatro | teatro do absurdo»

Um erro absurdo


      No domingo, vi na RTP2 um filme italiano, Obrigado, Rapazes, do cineasta Riccardo Milani, de que gostei molto e tanto. Do que já não gostei nem um pouco foi dos erros na tradução. Ah, già, e come posso astrarre da ciò che sono, dalla mia natura e attività? Antonio Cerami, um actor na casa dos 60, não pisa o palco há mais de três anos. Vive do seu trabalho de locução de filmes porno. («Te piace, porcellona.») Um amigo da onça convida-o para ir dar uma oficina de teatro a uma penitenciária (Casa Circondariale – Nuovo Complesso – Velletri). E ele aceita. Aquilo corre bem, pelo que se oferece para dar uma formação mais longa e muito mais ambiciosa: escolhe À Espera de Godot, que fora precisamente a primeira peça em que ele entrara quando se tornou actor e na qual contracenara com o tal amigo. Ao apresentar a peça ao grupo de reclusos, diz, segundo as legendas: «À Espera de Godot é uma obra-prima do teatro absurdista.» E isto repete-se, outra personagem, um dos reclusos, fala também em «teatro absurdista». Que está errado em português, porque é teatro do absurdo, e em italiano, língua em que se diz teatro dell’assurdo. O termo «absurdista» existe em português, sim senhor, mas pertence ao domínio da Filosofia. Desta vez nem sabemos o nome do legendador/tradutor.

      Na Infopédia, encontramos «teatro do absurdo», mas logo por azar com um erro ortográfico («anti-teatro») e outro, mais grave, conceptual, que é o de apresentar o teatro do absurdo como sinónimo de antiteatro, quando aquele é somente uma das formas de antiteatro. Eu definiria assim ➜ antiteatro TEATRO conjunto de práticas e propostas cénicas que rejeitam ou subvertem deliberadamente as convenções estruturais e estéticas do teatro tradicional, como a intriga coerente, a progressão narrativa, a construção psicológica das personagens ou a ilusão de realidade, privilegiando formas fragmentárias, repetitivas ou não lineares e uma relação crítica com o próprio acto teatral; inclui diversas correntes e experiências do século XX, entre as quais o chamado teatro do absurdo.

      Quanto a ➜ teatro do absurdo TEATRO corrente dramática do século XX que, partindo de uma visão da existência humana como desprovida de sentido ou finalidade, recorre a estruturas não lineares, situações repetitivas, diálogos ilógicos ou circulares e personagens despojadas de profundidade psicológica, frequentemente colocadas em contextos estáticos ou absurdos; desenvolveu-se sobretudo na Europa do pós-guerra, em autores como Samuel Beckett, Eugène Ionesco ou Jean Genet, podendo ser entendido como uma das formas de antiteatro, mas não se confundindo com este.

[Texto 22 678]

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Léxico: «pilau | pulau | pilaf(e)»

Prefiro «pilaf(e)»


      «Some of the dishes served here reappear, in simpler form, on Eid tables. A pulao often anchors the meal – sometimes an Afghani-style preparation – served with green chicken rizala (with coriander dominating the dish), mutton korma, kebabs and vegetables. There is no singular “Bhopali biryani”; recipes tend to remain familial, shaped over time» («Proof is in the pulao», Barry Rodgers, The Hindu, 21.03.2026, p. 2). 

      Há dicionários que acolhem as três variantes: pulau, pilaf(e), pilau. A Porto Editora só regista esta última, com esta definição: «CULINÁRIA prato de origem oriental feito com arroz salteado em gordura, a que se acrescenta um caldo bem temperado, legumes, carne, peixe ou marisco». 

     Nunca fiz, mas já vi fazerem arroz pulau, e por indianos, não por alentejanos ou minhotos. A impressão que tenho é que pode haver (não há de tudo?) quem o confunda com arroz chau-chau. Proponho assim ➜ pilau, pulau, pilaf(e) CULINÁRIA prato de origem persa e centro-asiática, amplamente difundido pelo mundo islâmico e além, que consiste em cozinhar arroz previamente envolvido em gordura (manteiga, ghee ou azeite) num caldo temperado, totalmente absorvido durante a cozedura; pode incluir carne, peixe, marisco, legumes, frutos secos e especiarias, variando significativamente conforme a tradição regional.

      Quanto à etimologia, pode e deve dizer-se alguma coisa mais, como isto ➜ do persa pilāu / pulāu, provavelmente por via do turco pilav; remotamente relacionado com o sânscrito pulāka, «bola de arroz cozido».

[Texto 22 677]

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Definição: «totalitarismo»

Mas ainda assim


      «Des décennies durant, un terme est parvenu à englober les trois grands régimes de terreur et d’oppression qu’a engendrés le XXe siècle: le totalitarisme. Adossés aux analyses de Hannah Arendt, le fascisme, le nazisme et le communisme s’associaient dans ce terme condensant leur ambition présumée de tenir en coupe réglée les populations à travers un contrôle bureaucratique systématique et doté d’instruments de violence sophistiqués. Ces mouvements furent appelés “totalitaires”, dans la mesure où ils étaient considérés comme mus par la volonté de “posséder” l’individu dans sa “totalité”, dans son comportement et dans sa sphère privée» («Le “totalitarisme”, un concept à oublier?», Olivier Meuwly [jurista e historiador especializado na Suíça do século XIX e nos partidos políticos suíços], Le Temps, 23.03.2026, p. 7). 

      Não é um conceito para esquecer, não senhor, antes para definir melhor nos dicionários. Mas vamos lá com calma, o mundo ainda não acabou e os exemplos só podem ser isso, exemplos, já que o conceito não se esgota neles. Há larga margem para melhorar as definições nos dicionários, mas, apesar de tudo, está mais bem definida nos nossos do que nos dicionários brasileiros. Assim, proponho ➜ totalitarismo POLÍTICA sistema de organização política caracterizado pela concentração absoluta do poder no Estado, geralmente sob a direcção de um partido único e de uma ideologia oficial, que visa controlar e mobilizar a totalidade da vida social — política, económica, cultural e privada — mediante propaganda, vigilância e repressão, exigindo a subordinação integral dos indivíduos e das instituições; historicamente associado a regimes como o fascismo italiano, o nazismo alemão e o estalinismo soviético.

[Texto 22 676]

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Léxico: «fraca-chichas»

Fora dos dicionários?!


      «Ainda nesta atitude temos de ver uma forma do compleicional de Camilo: estar sempre pronto a arremeter contra quem se lhe punha pela frente ou lhe lançava a luva. Em artigo de fortaleza, era um fraca-chichas, mas bravura e denodo não lhe faltavam. De ímpeto, para a primeira arrancada, lá estava sempre na dianteira, o contrário do que seria aliás desmentir a sua natureza de comicial» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 226). 

      Tem de figurar em todos os dicionários a par de «fraca-figura» e «fraca-roupa», tanto mais que, quanto a este último, nunca vi que alguém o usasse.

[Texto 22 675]

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Léxico: «amazigue»

Segunda passagem


      «A Igreja no Magrebe tem uma história complexa: a fundação, com os primeiros mártires, em finais do século I; a prosperidade entre os séc. II e V, com três papas (Vítor I, Melquíades e Gelásio I), um imperador em Roma (Lício Sétimo Severo) e grandes pensadores, como Tertuliano, todos de origem amazigue; o desaparecimento gradual com a chegada do Islão, entre os séculos VII e VIII; o regresso e a problemática coabitação com o colonialismo francês, a partir de 1830 e durante 132 anos; a perda de património e de influência, o êxodo em massa de fiéis, quando a Argélia conquistou a independência após a revolução de 1954-1962; o brutal impacto da guerra civil de 1992-2002, com numerosos massacres de civis, incluindo o de 19 religiosos de oito congregações» («Argélia: a Igreja «quase invisível» que não esconde a fé», Margarida Santos Lopes, Além-Mar, Abril de 2026, p. 27). 

       Esquecemo-nos na altura desta acepção, que é, em todos os sentidos, a primeira, de ➜ amazigue ETNOLOGIA indivíduo pertencente aos povos indígenas do Norte de África que se denominam a si mesmos imazighen («homens livres»); berbere.

[Texto 22 674]

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Definição: «landgrave»

Vão sempre aparecendo


      A definição de «landgrave», palavra que vejo agora aqui usada num texto sobre o compositor alemão Heinrich Schütz, está muito mal-enjorcada nos nossos dicionários. Mas no Houaiss, que não é nosso, mas deles, em certo sentido ainda está pior. Nós é que não nos alegramos com a miséria alheia, temos, isso sim, de fazer melhor. Para começar, Porto Editora, absolutamente nada justifica que o verbete tenha duas acepções, já que não estamos perante dois sentidos distintos, mas antes dois aspectos do mesmo referente histórico: por um lado, o estatuto (título nobiliárquico); por outro, uma das funções que esse estatuto implicava (jurisdição em nome do imperador). Assim, proponho ➜ landgrave HISTÓRIA título nobiliárquico do Sacro Império Romano-Germânico atribuído a certos condes investidos directamente pelo imperador, dotados de jurisdição territorial alargada e de poderes senhoriais próprios — administrativos, judiciais e militares — exercidos sem intermediação de outros senhores; distinguia-se do conde comum pelo estatuto elevado e pela autonomia política, aproximando-se em vários casos da dignidade ducal.

[Texto 22 673]

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Definição e etimologia: «eczema»

Sobretudo a etimologia


      «L’eczéma ou dermatite atopique, la plus fréquente des maladies inflammatoires de la peau, touche environ 20% des enfants en Suisse et 5% des adultes. Elle se caractérise par l’apparition sur la peau de plaques rouges et de lésions, de démangeaisons et de sécheresse de l’épiderme. Il s’agit d’une pathologie chronique, qui se manifeste par des pics de symptômes, entrecoupés de périodes de rémission» («Comment le stress exacerbe l’eczéma», Pascaline Minet, Le Temps, 20.03.2026, p. 10). 

      Os nossos dicionários definem muito mal «eczema», e a etimologia que indicam tem ampla margem para melhorar. Assim, proponho ➜ eczema MEDICINA designação genérica de dermatoses inflamatórias, de evolução aguda ou crónica, caracterizadas por eritema, prurido e lesões cutâneas variáveis, incluindo vesículas, crostas e descamação, frequentemente associadas a causas alérgicas, irritativas ou a predisposição atópica; dermatite. 

      Quanto à etimologia, vem do grego ékzema, «erupção cutânea», de ekzéō, «ferver, irromper», de ek, «fora» + zéō, «ferver».

[Texto 22 672]

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Definição: «angioedema»

Nem sempre; portanto, não


      «El caso de una paciente de 18 años de Lleida que sufrió una misteriosa sucesión de episodios de inflamación súbita de la piel —un angioedema, parecido a la urticaria pero más profundo— de origen desconocido ha permitido descubrir el primer caso en el mundo de transmisión de una rara enfermedad hereditaria a través del semen de un donante anónimo» («Un donante de semen transmitió una enfermedad rara en Cataluña», Oriol Güell, El País, 21.03.2026, p. 32).

      A definição de «angioedema» da Porto Editora peca, antes de mais, por indicar que é recidivante, o que, pelo que vejo em fontes especializadas, não corresponde à realidade clínica: embora possa apresentar episódios recorrentes, também ocorre sob a forma de episódio isolado. Mais: omite o mecanismo fisiopatológico essencial, o aumento da permeabilidade vascular, não distingue as principais origens (alérgica, medicamentosa, hereditária) e não explicita a potencial gravidade do quadro, nomeadamente quando há compromisso das vias aéreas. Assim, proponho ➜ angioedema MEDICINA edema súbito e circunscrito das camadas profundas da pele e/ou das mucosas, resultante de aumento da permeabilidade vascular, que se manifesta por tumefacção não depressível; pode afectar a face, lábios, pálpebras, língua, laringe, extremidades ou o tracto gastrointestinal; de origem alérgica, medicamentosa ou hereditária, sendo potencialmente grave quando compromete as vias aéreas ou se associa a choque anafiláctico.

[Texto 22 671]

⋅ ── ✩ ── ⋅

P. S.: Estive vai-não-vai para usar na proposta de definição o termo «patência», mas depois vi que ainda não o tens, Porto Editora.



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Um possível parentesco: «ṣirāṭ» e «strata»

Realmente...


      Na quinta-feira, vi o filme Sirât (2025), de Oliver Laxe, cujo título remete para a ideia islâmica de travessia e prova, funcionando como chave simbólica para o percurso das personagens, entre caminho físico e limiar existencial, como se anuncia logo no início: «Há uma ponte chamada Sirat que liga o inferno ao paraíso, e o seu caminho é mais estreito do que um fio de cabelo.» É curioso notar, como por vezes sucede em percursos etimológicos deste tipo, a semelhança fonética entre sirāt e strata (estrada), ainda que essa aproximação, por si só, não constitua prova. Alguns estudiosos da filologia semítica e do léxico alcorânico, como Arthur Jeffery e Toshihiko Izutsu, admitiram a hipótese de ṣirāṭ não ser de origem árabe, propondo antes uma derivação do latim strata («estrada pavimentada»), eventualmente por via do grego ou do aramaico. Esta proposta, embora discutida e não consensual, insere-se no estudo mais amplo dos possíveis empréstimos no vocabulário alcorânico. No próprio Alcorão, a palavra surge 45 vezes, frequentemente na expressão «ṣirāṭ al-mustaqīm» («o caminho recto»), com forte valor ético e espiritual. Vejam o filme, uma autêntica experiência sensorial.

[Texto 22 670]

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Como se traduz por aí

Não chegam ao céu


      E quando o original diz algo tão banal como «Then he called up» e o tradutor resolve a coisa com esta elegância: «Vozeou»? Quantas vezes não encontro estas tretas? E sempre me vêm à mente vozes de animais. Como zorrar. Não façam isto.
[Texto 22 669]
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Interjeições «oh» e «ó»: a confusão perpétua

Tu já estás morta


      Elias Santana é apenas polícia, chefe de brigada responsável pela investigação do homicídio do ex-major do Exército Luís Dantas Castro, encontrado morto na praia do Mastro, não tem de saber particularmente de ortografia e gramática. Sim, estou a falar da Balada da Praia dos Cães (1982), de José Cardoso Pires. Quando o chefe Elias vai, acompanhado do agente Roque, a caminho do Forte da Graça, a certa a altura põe-se a cantar: «Oh Elvas, oh Elvas, Badajoz à vista». Havia de cantar bem, mas escrevia mal — e a editora, na 16.ª edição e com três reimpressões (Relógio D’Água, Novembro de 2025), não o ajudou. Não ajudou o autor, que nesta matéria não era propriamente uma sumidade, nem os leitores. E deturparam o cancioneiro: «Ó Elvas, ó Elvas,/ Badajoz à vista, /Já não faz milagres/ S. João Baptista.» Oh sim, senhores revisores (Anabela Prates Carvalho e João Carlos Alvim), a interjeição é mesmo ó, de chamamento ou invocação, que se repete: «Ó Elvas, tu já estás morta,/ Vives muito encolhidinha./ Já se lá foram os tempos/ Em que semeavas sardinha.» Mas não é preciso sair da mesma página para encontrar mais erros.

[Texto 22 668]

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Léxico: «cheque-prótese»

Mais um cheque


      «Os utentes vulneráveis que necessitam de reabilitação oral vão poder aceder ao cheque-prótese previsto no Programa Nacional de Promoção da Saúde Oral 2030, que integra esta área nas unidades locais de saúde (ULS) e reforça a articulação entre cuidados» («Governo lança cheque-prótese e reforça acesso a saúde oral no SNS», Jornal de Notícias, 21.03.20206, p. 24).

[Texto 22 667]

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Definição: «viscoelasticidade»

Isso mesmo, material


      «O Ministério das Infra-Estruturas realça a necessidade de obras de “meia vida”, ou seja, uma intervenção necessária para garantir a estabilidade da ponte nos próximos 20-30 anos e que poderá custar cerca de 1,5 milhões de euros. A sua reabilitação prevê a substituição ou reparação de aparelhos de apoio; substituição das juntas de dilatação; verificação dos amortecedores que dissipam energia sísmica e reduzem vibrações (dispositivos viscoelásticos); reabilitação das bases de betão que suportam os pilares da ponte (plintos) e reabilitação extensiva do tabuleiro da ponte que foi inaugurada há duas décadas» («Ponte de Alcarrache, em Alqueva, tem graves problemas estruturais», Carlos Dias, Público, 19.03.2026, p. 19).

      Tudo bem aqui, o problema está do lado dos dicionários. Define assim «viscoelasticidade» a Porto Editora: «FÍSICA propriedade de certos líquidos que, além da viscosidade, exibem também elasticidade de deslizamento». Esta restrição indevida a líquidos estraga tudo. Bem, por acaso não é só por isso. Assim, proponho ➜ viscoelasticidade FÍSICA, ENGENHARIA DOS MATERIAIS propriedade de um material que combina comportamento viscoso e elástico sob tensão ou deformação, com resposta dependente do tempo, dissipação de energia e recuperação total ou parcial da forma inicial. 

      Mas no caso não precisava de me esforçar muito: bastava comprovar que a própria Porto Editora define assim «viscoelástico»: «(material) que tem viscoelasticidade».

[Texto 22 666]

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Léxico: «instalação-piloto»

Esqueceu-se foi de reler


      «Mas, agora, a ideia é fazer da instalação-piloto um laboratório flutuante» («Na Barragem do Alto Rabagão, em Trás-os-Montes, testa-se o futuro da energia solar», Clara Barata, Público, 19.03.2026, p. 26). 

      Curiosamente, neste artigo, aparecem «instalação-piloto», «teste-piloto» e «projecto-piloto». Deve ter sido uma aposta da jornalista, assim um desafio à Georges Perec, mas mais fácil. O pior foi a terrível gralha umas linhas atrás: «No Alto Rabagão são produzidos 220kW (quilowatts), enquanto no Alqueva se produzem ci2oMW (megawatts). “Portanto, 20 vezes mais”, sublinhou Pedro Oliveira.» Temos de ser nós a pensar e a fazer as contas: multiplicando 220 kW por 20, temos 4400 kW = 4,4 MW. O que confere com os dados da mesmíssima EDP, que nuns documentos apresenta 4 MW de potência instalada, noutros 5 MW. Mas está bem, encaixa ainda: 4 MW / 220 kW ≈ 18,2; 5 MW / 220 kW ≈ 22,7.

[Texto 22 665]

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Léxico: «polielectrólito»

Já aí anda


      «Esta nova solução, composta pela combinação de dois polielectrólitos – polímeros que são macromoléculas formadas pela repetição de unidades estruturais menores –, foi desenvolvida por uma equipa das universidades Southeast (Nanjing) e Jilin (Changchun), na China» («Lavar roupa e tirar nódoas? Cientistas criam spray que poupa 80% de água, energia e tempo», Andrea Cunha Freitas, Público, 19.03.2026, 18h04). 

      Não nos atrasemos ➜ polielectrólito QUÍMICA polímero constituído por unidades repetidas que possuem grupos ionizáveis, capazes de se dissociar em solução, conferindo à macromolécula carga eléctrica (positiva, negativa ou ambas) e permitindo a sua interacção com iões e outras espécies carregadas em meio líquido.

[Texto 22 664]

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Léxico: «caimento»

Usa-se pois


      «O universo da moda, tantas vezes visto como superficial ou espetáculo, distante de nós e, ao mesmo tempo, tão próximo no feed do Instagram, revela aqui uma dimensão mais profunda do que apenas vestir uma roupa. Não é sobre tecidos, caimentos, texturas, cores, tendências. Mas sobre sentido, emoção e significado» («Encontrar o amor: a moda como resistência em tempos de guerras», lonara Silva, Público, 19.03.2026, 7h30).

      Não vejo claramente visto este sentido de «caimento» nos dicionários, pelo que proponho ➜ caimento forma como uma peça de roupa assenta e se dispõe sobre o corpo, resultante da queda natural do tecido, do corte e da sua estrutura, determinando a forma como acompanha as linhas e movimentos do utilizador e contribuindo para o efeito estético e a percepção do conjunto.

[Texto 22 663]

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Definição: «colisionador | colisor»

Mais uma partícula


      Notícias do Grande Colisionador de Hadrões: descoberta uma nova partícula. «The new particle has been named “Xi-cc-plus”. Scientists have expressed hope that the particle – which is similar to a proton but four times heavier – will reveal more about the strange behaviour of quantum mechanics» («Large Hadron Collider discovers a new particle», The Hindu, 19.03.2026, p. II). 

      Como tu defines colisionador/colisor, Porto Editora («FÍSICA acelerador em que dois feixes de partículas, movendo-se em direcções opostas, se interceptam em vários pontos, provocando colisões a cada passagem»), mais parece uma brincadeira inconsequente dos cientistas. Então a natureza do dispositivo, a finalidade científica, o contexto técnico, a precisão terminológica? Mantendo ainda a brevidade, proponho ➜ colisionador/colisor FÍSICA tipo de acelerador de partículas em que dois feixes são acelerados em sentidos opostos e feitos colidir em pontos de interacção definidos, permitindo, por meio da análise dos produtos dessas colisões, detectar e estudar partículas elementares, incluindo partículas até então não observadas, e testar modelos fundamentais da física.

[Texto 22 662]


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Léxico: «go | circunflexo»

Falta sempre qualquer coisa


      «Vinte anos depois, veio o algoritmo AlphaGo Zero, da Google DeepMind. Ele aprendeu o jogo oriental go sozinho, jogando contra si mesmo sem intervenção humana, e em poucos dias se tornou o jogador mais forte do mundo. O go é extremamente complexo, profundamente estratégico e com um número (10.170) quase inimaginável de posições possíveis. Mas ainda pudemos dizer que não passava de um jogo, muito longe do grau de sofisticação e profundidade de um grande teorema matemático» («IA chega à pesquisa matemática», Marcelo Viana [director-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada, Prémio Louis D., do Institut de France], Folha de S. Paulo, 18.03.2026, p. A44).

      Não acredito, obviamente, que tenha sido lapso do autor. Apostava que foi, por descuido ou ignorância, na paginação ou na edição do jornal. Se o número de posições fosse apenas de 10 170, estaria muito longe de inimaginável. Não é impossível que o autor tenha optado pela notação 10^170, e com isso lixou-se. Só que isso proporciona-nos outra acepção de «circunflexo» que falta nos dicionários. Não o vejo no dicionário da Porto Editora, e por isso proponho ➜ circunflexo 3. MATEMÁTICA símbolo (^) usado para representar a operação de potenciação em notação linear, como em «10^170» («10 elevado a 170», isto é, 10 multiplicado por si próprio 170 vezes). 

      Mas voltando ao jogo: na realidade, esta informação deve servir — com tal objectivo a trouxe aqui — para densificar a definição de ➜ go jogo de tabuleiro de estratégia abstracto, de origem chinesa e particularmente popular no Japão, em que dois jogadores colocam alternadamente pedras pretas e brancas nas intersecções de uma grelha de 19×19 linhas, procurando conquistar território e capturar grupos de pedras do adversário; caracteriza-se por uma enorme complexidade estratégica, com um número extremamente elevado de posições possíveis (estimado na ordem de 10^170). 

      Portanto, sim, o go é muito mais complexo do que o xadrez, por várias ordens de grandeza. O número de Shannon mostra-o bem, mas claro que o revisor (e o editor) da Folha de S. Paulo não saberão nada disso. Talvez hoje o fiquem a saber.

[Texto 22 661]

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Definição: «estradivário»

Mais uma afinação 


      «Nos séculos 17 e 18, Stradivari produziu mais de 800 instrumentos. A maioria deles são violinos, mas também há violoncelos, violões e uma harpa. [...] Curiosamente, esses violinos tendiam a ter sido produzidos durante a chamada Era de Ouro de Stradivari, aproximadamente de 1700 a 1725, período conhecido por instrumentos Stradivarius de qualidade particularmente alta» («Anéis de árvores revelam as origens dos célebres violinos Stradivarius dos séculos 17 e 18», Katherine Kornei, Folha de S. Paulo, 18.03.2026, p. A44). 

      Todo o artigo, e não somente o excerto, traz excelentes dados que permitem, e até convidam, a enriquecer a definição de ➜ estradivário MÚSICA instrumento de cordas (sobretudo violino, mas também viola, violoncelo ou harpa) construído por Antonio Stradivari (1644-1737) ou na sua oficina; caracteriza-se pela excepcional qualidade sonora e elevado valor histórico e comercial, sendo especialmente valorizados os exemplares da chamada «Era de Ouro» (c. 1700-1725), associados ao uso de madeiras seleccionadas, nomeadamente abeto de regiões alpinas do Norte de Itália.

[Texto 22 660]

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