Léxico: «subfundo»

Escavando, encontra-se sempre


      Um leitor perguntou-me, e citava uma frase de um artigo de jornal («Tudo sob um pano de fundo feito de lideranças que ensimesmam os interesses dos países e moldam a política externa em conformidade, hostilizando quem aparecer pelo caminho», «Quantas caras tem a Europa?», Paulo Vila Maior, Público, 12.03.2026, 5h45), se a preposição certa não era «sobre». Respondi-lhe que a usada era a preposição correcta, embora eu prescindisse dela ali, porque optaria por outra redacção. Replicou-me então: «Mas o que fica debaixo do fundo?» Só que, respondi e repito agora, não é «fundo», é «pano de fundo», e num sentido figurado. Fosse ele fundo, como fundo da gaveta, e ainda poderíamos ter subfundo, que de facto existe, mas noutro sentido. Ora, no verbete de «submundo», a Porto Editora mostra as palavras parecidas com «submundo» — e lá está subfundo. Agora só falta dicionarizá-la. Voltando à dúvida do leitor, é como digo — sob um pano de fundo: «Os romances Crónica do Tempo (1990), O Chão Salgado (1992) e O Senhor das Ilhas (1994) — este último filiando-se no romance histórico —, dão-nos com maior limpidez, e também com alguns embaraços metaficcionais, as coordenadas dos romances anteriores da autora, esse erguer de um mundo que se tenta manter equidistante do telúrico e do adensar psicanalítico, para conseguir entrecruzar, sob um pano de fundo sociologicamente reconhecível, histórias singulares que persistem na demanda da liberdade possível e na interrogação acerca dos consentimentos necessários e inevitáveis» (História da Literatura Portuguesa: As Correntes Contemporâneas, Vol. 7, Óscar Lopes. Lisboa: Publicações Alfa, 2002, p. 521).

[Texto 22 624]

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