Para maior confusão

Nem todos os santinhos

      E por Vaticano, lembrei-me do programa Quinta Essência, de João Almeida, que ontem de manhã ouvi durante escassos minutos. O entrevistado era Alberto Júlio Silva, autor de Os Nossos Santos e Beatos e Outros Que Portugal Adotou. «Se calhar», disse João Almeida, «[o povo] é humilde e sabe que não tem via directa para Deus, então pede a intercepção, pede um intermediário [...].» Agora, sim, agora é que são elas: interceção, intercepção, intercessão, intersecção, interseção... No caso vertente, impropriamente se diria que é conhecimento de outiva, porquanto o que mais falta é ouvido.
[Texto 1599]
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«Colocar na linha»!

Não é abençoado

      «A sua nomeação tinha também como objectivo colocar o IOR na linha, depois das polémicas das últimas décadas e de modo a que o próprio Vaticano colaborasse com as autoridades financeiras internacionais na luta contra a lavagem de dinheiro» («Ettore Gotti Tedeschi», António Marujo, Público, 27.05.2012, p. 27).
      Não se dirá de outra forma no futuro: «colocar na linha». Em «de modo a que» é que faz falta uma tesourada. De modo que, de maneira que, de sorte que, de feição que fique uma obra mais ou menos asseada.
[Texto 1598]
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Sobre: «jaleca»

Mas não são aventais

      «“Aqui sei que o que sirvo aos clientes, é natural, pois tudo é produzido na horta sem o recurso a pesticidas”, diz José Pinto ao DN, nesta horta com vista para Douro Vinhateiro, com a sua impecável jaleca branca» («O restaurante onde o cliente vai à horta escolher o prato», José António Cardoso, Diário de Notícias, 27.05.2012, p. 20).
      Jaleca, jaleco — já aqui vimos esta questão. Desde que os jornalistas não afirmem que são aventais (com o ámen de alguns leitores), está tudo bem.
[Texto 1597]
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Ortografia: «entorse»

Com o inglês, temos de amochar

      «O primeiro dia foi “espantosamente calmo”. A ambulância não saiu do sítio e não houve situações graves. Normalmente, ali recebem jovens que ingeriram álcool em demasia ou que se magoaram nos moshes, mas, para já, só houve dores de cabeça, alergias ao pólen, uns “entorcezitos”» («Médicos tratam dores de cabeça e entorces», Diário de Notícias, 27.05.2012, p. 48).
      Além de errar a grafia da palavra «entorse», que é com s e não com c, o jornalista resolveu considerá-la do género masculino. Quanto aos moshes, temos de consultar um dicionário de língua inglesa, é claro. No Dicionário Inglês-Português da Porto Editora, encontro na entrada mosh: «coloquial moshar, dançar freneticamente». Moshar... Felizmente, esqueceram-se de entesourar o verbo no Dicionário da Língua Portuguesa.
[Texto 1596]
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Tradução: «greguería»

São Paulo, Novembro de 2005

      E já que falamos de tradução, eis um caso curioso. No último parágrafo do prefácio da tradução de Greguerías, de Ramón Gómez de la Serna, para português, feita no Brasil por Sérgio Alcides, lê-se: «Na tradução para o português, as greguerias perdem o acento. Em compensação, ganham um pingo.» O dicionário da Academia Espanhola regista: «1. Vocerío o gritería confusa de la gente. 2. Agudeza, imagen en prosa que presenta una visión personal, sorprendente y a veces humorística, de algún aspecto de la realidad, y que fue lanzada y así denominada hacia 1912 por el escritor Ramón Gómez de la Serna.»

[Texto 1595]
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Ortografia: «mazagrã»

Redundante

      «Para saborear com doce nostalgia, com um mazagrãn numa mão e uma queijada de Sintra na outra» («Sandes/Fatias de um itinerário com recheio», Maria Espírito Santo, «LIV»/i, 26.05.2012, p. 7).
      Está, como hei-de dizer?, demasiado nasalado... Pode ser lapso, mas, para o caso de não ser, é erro.

[Texto 1594]
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Ortografia: «Punjabe»

Eu também escrevo assim

      «Harveen [Kaur Sidhu] não está sozinha nesta profilaxia de carácter duvidoso em pleno estado do Punjabe, onde ainda se escutam os ecos das leis marciais e das insurreições de há 20 anos» («Um tiro no escuro indiano», Maria Ramos Silva, «LIV»/i, 26.05.2012, p. 3).
[Texto 1593]
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«Tecto/telhado»

Chegou aos jornais

      Nas traduções do inglês, é habitual a confusão entre «tecto» e «telhado». Na imprensa, nem por isso. «A Pensão Noite Cristalina ficou sem teto e duas pessoas sofreram ferimentos de pouca gravidade na sequência de um incêndio que deflagrou pelas dez da manhã de ontem neste edifício da rua da Palma, em Lisboa» («Incêndio destrói teto da pensão Noite Cristalina», Diário de Notícias, 26.05.2012, p. 14). O que a fotografia mostra é que o edifício ficou sem telhado. Não só sem tecto, mas também sem telhado. E bem podia ter ficado sem telhado, mas com tecto, ou vice-versa. «O antigo Teatro Laura Alves, na Rua da Palma, entretanto convertido em pensão, ardeu ontem, tendo o fogo sido extinto às 12h10. As chamas começaram num dos quartos e danificaram o telhado» («Incêndio na Baixa», António Pedro Santos, i, 26.05.2012, p. 7).
[Texto 1592]


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«Feiticismo»

Não se envergonha

       Diana Garrido, na edição de hoje do i, perguntou ao escritor Paulo Bandeira Faria se a primeira frase se mantinha ou se mudava. «Num poema concedo que o primeiro verso me pareça sempre o mais inspirado. Num romance já não sou dado a tais feiticismos.» Ora aí está: vejam se o autor se presta ao servilismo de usar um galicismo que, curiosamente, teve origem num termo português. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora no verbete «feiticismo» remete para «fetichismo», mas não faz o contrário, o que tem as consequências óbvias.
[Texto 1591]
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Logo é historiadora

Não é bem assim

      «Adelino Filipe Saraiva da Cunha nasceu em Lisboa em 11 de maio de 1971. É casado e tem uma filha. Jornalista de profissão e historiador de formação, licenciou-se na Universidade Lusíada» («Quem é o adjunto de Relvas que se demitiu», Diário de Notícias, 26.05.2012, p. 3).
      Quando há dois anos uma jornalista da rádio entrevistou uma amiga minha, professora de História no ensino secundário, insistiu em tratá-la por historiadora. Que não, recusou a minha amiga, que era licenciada em História. «E não é o mesmo?»
[Texto 1590]
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AOLP90 contado às criancinhas

Bom e fácil, mas não o aplicam

      A propósito da alteração da medida de coacção a Duarte Lima, pudemos ver ontem nas televisões um comunicado do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP). «Não existe assim, [sic] qualquer fundamento nas notícias de uma negociação com o arguido Duarte Lima ou com os seus advogados, tendo em vista a alteração da medida de coacção. [...] o arguido Duarte Lima propõe-se vender activos detidos em Portugal [...]. O objectivo era evitar o manifesto de receitas em Portugal [...].»
      Ou seja: a aplicação das regras do Acordo Ortográfico de 1990 é para o povinho crédulo e ignorante. Este é que vê nas legendas, genuflexo no ínfimo degrau, as coações, os ativos e os objetivos e os passa, reverente e de cerviz sempre dobrada, para o papel.
[Texto 1589]
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Um verbo defeituoso

Uma pessoa até se atrapalha

      Os jornalistas, toda a gente sabe, são uns grandes melgas, e as pessoas até se atrapalham a falar, como aconteceu ontem com o procurador-geral da República: «Já disse aquilo que tinha a dizer. Vamos aguardar o que é que vai acontecer. Sempre que houver... É preciso esclarecer uma coisa: o Ministério Público, o procurador-geral não faz censuras políticas nem patrociona julgamentos políticos. Os julgamentos políticos acabaram com o 25 de Abril. Agora, se se apurar ilícito criminal, não vale a pena estar com muita pressa, se se apurar ilícito criminal, o Ministério Público actuará; se não se apurar, não actua. É tão fácil.»

[Texto 1588]
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Léxico: «retropolar»

Esta é nova

      Não mandem já para o Observatório de Neologia do Português, mas vejam: o Índice de Preços no Consumidor, diz o INE, «mede a evolução no tempo dos preços de um conjunto de bens e serviços representativos da estrutura de consumo da população residente em Portugal. Foi utilizada a base mais recente (base 2008) do IPC e os valores para os anos anteriores foram retropolados utilizando a informação dos índices disponibilizada pelo Banco de Portugal».
      É, não o antónimo de «extrapolar», como já li por aí, mas uma noção próxima. Ainda não está dicionarizado. Há-de vir, apesar de Portugal ser uma terra de inventores, do francês rétropoler ou do inglês retropolate (to extrapolate backwards).
[Texto 1587]
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«Desfolhar um livro»

Alto lá!

       «Desfolhar» em vez de «folhear» uma revista, um livro é, como já aqui o dissemos mais de uma vez, um erro, mas não, Santo Deus!, um erro científico, como ontem uma professora de Português afirmou categoricamente. Mesmo que venha num manual daquela disciplina.
[Texto 1586]
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«No Redondo»

Sempre a cortar

      «Alentejano nascido no Redondo, a 5 de maio de 1908, Fernando Batalha fez o curso de Arquitetura da Escola de Belas-Artes de Lisboa, atual Faculdade de Arquitetura, especializando-se em Urbanismo, em Paris» («O arquiteto que tinha Angola no coração», Diário de Notícias, 25.05.2012, p. 43).
      Isso também eu afirmei, certa vez, no Assim Mesmo. Mais tarde, um leitor, redondeiro ao que parecia, replicou que não, que lá se diz «em Redondo». Há-de ser a tal tendência literária e oficial de que falava Leite de Vasconcelos.
      Agora uma questão um pouco mais miudinha: aquela vírgula antes do complemento circunstancial de lugar (modificador do grupo verbal, na nova terminologia) não está lá a fazer nada. Apenas seria necessária se o complemento surgisse em posição invertida ou anteposta na frase. Ainda me lembro de o revisor antibrasileiro — que revia como Miguel Torga escrevia: com tesoura — aspar vírgulas às dezenas só nestes casos.
[Texto 1585]
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«Tomar parte em»

Cultura universal

      «E apesar do [sic] arguido ter sempre negado ter estado em Cacia, um antigo colega disse à PJ que ambos tomaram parte em trabalhos durante a construção do centro de saúde de Ílhavo (1996 e 1997)» («‘Estripador’ recusou fazer exame de ADN», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 25.05.2012, p. 18).
      Parece português, dizem que é castelhano, mas veio do francês: prendre part à.
[Texto 1584]
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Maiusculação dos pontos cardeais

Depois digam qualquer coisa

      «Na década de 1980, as larvas desta borboleta alimentavam-se no Sul de Inglaterra quase exclusivamente de uma planta silvestre, a Helianthemum nummularium, de nome comum Cisto» («Borboleta em declínio ganhou terreno com alterações climáticas», Filomena Naves, Diário de Notícias, 25.05.2012, p. 41).
      Como já vimos, a doutrina interna do jornal diverge: uma parte dos jornalistas grafa com minúscula os pontos cardeais quando estão junto de topónimos, outra parte grafa-os com maiúscula. Experimentem, é o meu fraternal conselho, ler o texto do acordo.
      O nome comum do Helianthemum nummularium só pode ser cisto. Se é comum...
[Texto 1583]
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«Desprezível/desprezável»

Que se pode desprezar

      «Vestígios à parte, a investigação considera “desprezível”, por ser “muito baixa”, a probabilidade estatística de um indivíduo acertar aleatoriamente o local do homicídio da jovem prostituta Filipa Ferreira (Cacia, Aveiro), não dando crédito à tese assumida por José Guedes após a detenção de ter ficcionado a confissão dos crimes» («‘Estripador’ recusou fazer exame de ADN», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 25.05.2012, p. 18).
      Foi um polícia que falou assim? Então está tudo dito — ou quase. Desprezível usa-se, por exemplo, em relação a uma pessoa ou atitude dignas de desprezo, que merecem desprezo. Desprezável deve usar-se em relação a tudo aquilo que se pode desprezar, que não merece a nossa atenção. Assim, a probabilidade seja do que for só pode ser desprezável.
[Texto 1582]
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Como falam os nossos políticos

Calma, calma

      Fala o Sr. Deputado Adolfo Mesquita Nunes: «Foi referido nesta reunião de que Portugal estaria a ultrapassar neste momento a fase pior, já estava a encontrar no caminho para sair do ponto mais baixo da recessão.»
[Texto 1581]
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Porquê «açoriano»

Está explicado

      É relativamente comum encontrar o erro «açoreano» em vez de «açoriano», como a actual ortografia nos manda escrever. Vejam, porém, donde vem o erro: o falante pensa sempre na palavra de que deriva, um plural, que tem e e não i: Açores. «Ora, em açoriano, este i, espetado pelos filólogos, não pertence ao tema. Entre a derivação de Horatius – horatianus e Açores – açoriano só há uma analogia: a de um ovo com um espeto» (Estudos Críticos de Língua Portuguesa: contra os Gramáticos, Vasco Botelho de Amaral. Porto: edição do autor, 1948, p. 109). «Como filólogo, só lamento que não seja o Vocabulário de Viana a base da nossa escrita. Lá estava já: – açoreano, torreano» (idem, ibidem, p. 110).
[Texto 1580]
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Léxico: «cranioencefálico»

É claro que não

      «Uma menina de três anos sofreu um traumatismo crânio-encefálico depois de o carro em que se encontrava ter deslizado pela rampa de acesso da sua casa no Torrão, Marco de Canavezes [sic]» («Menina de três anos ferida após destravar automóvel», Mónica Ferreira, Diário de Notícias, 24.05.2012, p. 21).
      Nada disso, cara Mónica Ferreira: com o elemento de composição crani(o)- nunca usamos hífen. Logo, cranioencefálico. Pergunto a mim próprio se não estar registado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não contribuirá para estes erros. Já fiz a sugestão ao Departamento de Dicionários.
[Texto 1579]
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«PPP’s»

Mas é um bom exemplo

      «Quer isto dizer que numa democracia europeia será mais difícil a cada grupo controlar uma agenda em que os outros grupos se decidam por PPP’s? Admito: o exemplo é doloso» («A democracia na Europa», Pedro Lomba, Público, 24.05.2012, p. 48).
      Em português, o apóstrofo serve apenas para assinalar a elisão de uma ou mais letras. Que letra ou letras suprimiu, Pedro Lomba? Ah, e as siglas não têm plural.
[Texto 1578]
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«Setúbal»

Digo de novo

      O Prontuário Sonoro da RTP, que ainda ontem foi recomendado no programa Nativos Digitais, acolhe a entrada «Sergei Rachmaninoff», mas mais valera que registasse, a avaliar pelo que ouço todos os dias na Antena 1, o topónimo Setúbal. Parecem todos asmáticos ou a convalescer de uma afonia. E isto não é implicância subitânea, antes amadurada reflexão, pois que há menos de dois anos já o escrevi no Assim Mesmo. Se o repito, é porque nada mudou. Assustariam o próprio Mafarrico.
[Texto 1577]
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«Forma/fôrma»

Em letra de forma

      Se o Acordo Ortográfico de 1990 estabelece, de forma inequívoca, que o acento circunflexo se pode usar, facultativamente, no nome feminino «forma» com o sentido de molde ou recipiente, com que fundamento o Vocabulário Ortográfico do Português, o tal «disponível graciosamente» na Internet, estabelece que «fôrma» é variante brasileira? Isto não é tresleitura do texto do acordo? Obrigatória no Brasil, mas facultativa para nós. Cadê a uniformização? Digo mais: se todas as variantes fossem facultativas, muito pouco teríamos de mudar na nossa forma de escrever. Ou seja, mais valia terem estado quietos. Como de facto...
[Texto 1576]
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«Máquina de inspeção de carris»

Veremos nos próximos tempos

      «O embate do carro com uma máquina de inspeção de carris ocorreu pelas 10.16. Com o choque, as duas crianças foram projetadas do carro enquanto a vítima mortal teve de ser desencarcerada pelos bombeiros. [...] Segundo a Refer, o acidente ocorreu na Linha do Leste e ao final da manhã já tinha sido recomposta a circulação ferroviária na linha onde apenas circulam comboios de mercadorias» («Crianças sobrevivem a choque com comboio», Luís Fontes, Diário de Notícias, 23.05.2012, p. 20).
      Já prescindiram ou, sem mérito nenhum, não se lembraram de usar o vocábulo «dresina». Nada de especial a apontar, tanto mais que nos viera do francês, mas custa trocar uma palavra por quatro para dizer o mesmo. E não dizemos «repor a circulação»?
[Texto 1575]
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Cavaco Silva e o AOLP90

Eu não lhe agradeço

      «Durante a inauguração da Feira do Livro de Díli, Cavaco salientou a sua participação na ratificação do Acordo Ortográfico, mas confessou que, embora os seus discursos saiam de acordo com as novas regras, em casa ainda escreve como aprendeu na escola. E recordou que quando foi ao Brasil, em 2008, “face à pressão que então se fazia sentir [naquele país], o Governo disse-me que podia e devia anunciar a ratificação do acordo, o que fiz”» («Cavaco apela ao investimento indonésio em Portugal», Fernando Madaíl, Diário de Notícias, 23.05.2012, p. 12).
[Texto 1574]
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Anúncios que anunciam

Nada de novo

      Há coisas que, graças aos céus, nunca mudam: «Anúncios negativos de Obama anunciam uma campanha eleitoral dura», Kathleen Gomes, na página 20 da edição de hoje do Público.
[Texto 1573]
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Tradução: «biznaga»

Nada disso

      «Vestida de forma mais informal, Letizia foi o centro das atenções na visita a um centro educacional de jovens, onde juntamente com o marido recebeu uma “biznaga”, tradicional flor daquela região do país [Andaluzia]» («Aniversário de casados foi passado a viajar», Ana Lúcia Sousa, Diário de Notícias, 23.05.2012, p. 53).
      «De forma mais informal»... A biznaga não é uma flor tradicional daquela região: é um «ramillete de jazmines en forma de bola». Nós é que temos uma planta espontânea chamada bisnaga, bisnaga-das-searas ou paliteira, da família das Umbelíferas.
[Texto 1572]
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«Sobressaliente» é outra coisa

Em português é sempre mais seguro

      «Pessoa simples e modesta, mas um músico de craveira excecional, Noel Flores era natural de Pangim (Goa), onde nasceu em 5 de maio de 1935. Iniciou a sua carreira como pianista, tendo estudado primeiro em Madrid, onde frequentou, com uma bolsa de estudo, o Conservatório, cujo curso concluiu com a nota máxima: sobressaliente» («Pianista e professor de piano que Portugal mal conhecia», Palma Caetano, Diário de Notícias, 23.05.2012, p. 43).
      É sinónimo de «sobresselente», que, como substantivo, significa aquilo que sobressai, sobeja ou excede. Palma Caetano (José A. Palma Caetano?) queria escrever, vá-se lá saber porquê, sobresaliente, o vocábulo castelhano, usado na classificação escolar, que significa excelente, muito bom. Sim, vá-se lá saber porquê, pois umas linhas à frente escreve que Noel Flores, «no curso de Piano da Academia de Música de Viena foi, no exame final, aprovado com distinção». Então, porque não escreveu aqui a nota em alemão?
[Texto 1571]
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AOLP90: toda a verdade

Maquilhado

      «Nuno Pacheco explica detalhadamente as incongruências a que a língua foi sujeita», prometeu — em vão — o locutor logo no início do programa de ontem de Nativos Digitais, dedicado ao Acordo Ortográfico. Apareceu também escrito que «nas rádios a questão não se coloca de uma forma tão vincada porque o acordo tem repercussões sobretudo ao nível da escrita». Sou ouvinte assíduo de rádio, e nomeadamente da Antena 1, e, até agora, não reparei em nenhuma repercussão do Acordo Ortográfico. O director adjunto do Público aduziu o exemplo de «maquiagem», que, «em português de Portugal, quer dizer “abarbatar-se com umas quantias”». Não quer nada, isso é disparate. Temos, como têm os Brasileiros, o verbo maquiar, que significa desfalcar, subtrair, de que não se formou o substantivo «maquiagem». Tão disparate como afirmar que são «milhares, milhares» as palavras diferentes entre o inglês e o inglês americano.
      Já para José Mário Costa (fosse eu jornalista, e escreveria que é o «bonzo do Acordo Ortográfico»), se antes, «nós, mesmo os mais ligados à língua, não éramos capazes de escrever sem um prontuário a dizer como é que era», agora «o hífen passou a ter regras claras», até porque basta ir ao Vocabulário Ortográfico, «disponível graciosamente», e «qualquer dúvida é imediatamente resolvida». Então não.

[Texto 1570]
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Tradução: «firewall»

Para não haver tresmalhos

      Prof. Silva Lopes, economista e antigo ministro das Finanças e antigo governador do Banco de Portugal, em entrevista à Antena 1: «A Europa tem todo o interesse que faça aquilo a que se chama uma firewall, portanto, uma cerca de protecção para os países... Quer dizer, actualmente a Grécia está dentro dessa cerca. Se a Grécia ficar fora da cerca, é preciso que Portugal fique dentro e que a Europa apoie, quer dizer, com a tal firewall, a tal cerca — consiste em apoios do Banco Central Europeu e outros, mas principalmente do Banco Central Europeu —, se a Europa fizer isso e se Portugal ficar dentro, enfim, lá vamos aguentando.» Tínhamos visto esta questão aqui recentemente.
[Texto 1569]
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«Sarna/escabiose»

Pior que a sarna?

      «Dois casos distintos de surtos de escabiose – mais conhecida por sarna – numa CERCI de Oeiras e num hospital açoriano, abrangendo 18 pessoas, estão a gerar apreensão entre funcionários e utentes. [...] Um caso, denunciado ontem de forma anónima ao DN, prende-se com a CERCI de Oeiras, instituição de apoio ao [sic] deficientes que, nos últimos três anos, tem sido frequentemente atingida por esta doença de pele contagiosa, causada pelo ácaro Sarcoptes scabiei» («Surtos de sarna em CERCI de Oeiras e hospital», Pedro Sousa Tavares e Paulo Faustino, Diário de Notícias, 22.05.2012, p. 13).
      É para «sarna» que remete o verbete «escabiose» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Deve ser uma sensação terrível, e não é por acaso que há várias frases feitas e provérbios sobre a doença. Só lhe falta sarna para se coçar é o que ouço mais vezes.
[Texto 1568]
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Rife

Outras paragens

      «Considerada como a surpresa da campanha, a franco-marroquina Najat Vallaud-Belkacem assumiu o Ministério dos Direitos das Mulheres. Esta jovem de 34 anos nasceu no Rife marroquino, mas mudou-se com a família para França quando tinha apenas quatro anos» («Do Magrebe à Coreia do Sul, as origens dos ministros de Hollande», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 22.05.2012, p. 25).
      Prefiro, naturalmente, a grafia Rife. Que é também a usada no verbete «rifenho», no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «do Rife, região montanhosa de Marrocos setentrional».
[Texto 1567]
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Plural metafónico

Eu seja surdo se

      «O alerta foi dado por funcionários da obra. Preparavam-se para mais um dia de trabalho num dos troços da futura Auto-Estrada n.º 4, em Mouçós-Vila Real, quando encontraram o tractor tombado numa via paralela», disse a repórter Eduarda Freitas (ou terá sido Ana Felício?) no Jornal da Tarde. E manteve o timbre da vogal tónica, isto é, sem metafonia. Ora, tanto quanto sei, «troços» tem plural metafónico e não é vocábulo alvo de indefinição. Como em tijolos, tortos, tremoços, trocos...
[Texto 1566]
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«À maravilha»

Às mil maravilhas

      «Diogo Pires primou entre os humanistas do seu tempo, não lhe faltando servir-se à maravilha dum latim verdadeiramente ciceroniano como instrumento de expressão» (Portugueses das Sete Partidas, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, [1951], 3.ª ed., p. 248).
      «Como se está a ver, eu observei que “um ou outro autor português recorre à expressão à maravilha...” Mas adverti que a expressão às mil maravilhas tem sabor mais castiço em nossa fraseologia» (Estudos Críticos de Língua Portuguesa: contra os Gramáticos, Vasco Botelho de Amaral. Porto: edição do autor, 1948, p. 153).
[Texto 1565]
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«Cor-de-rosa» no AOLP90

Isso é absurdo

      «Sobre o artificialismo de escrever cor-de-rosa, mas cor de laranja, considerando aquela uma palavra composta, e dizendo que exprime uma só ideia, o argumento é infantil. Na tradução das cores tanto há uma só ideia em cor de rosa, como em cor de laranja, etc. Dizer, como Sá Nunes diz, que a cor-de-rosa leva hífen, por ter um único sentido, faz supor que em cor de laranja não se verifica a mesma semântica, e isso é absurdo. Cor de burro quando foge forma também uma unidade semântica, na ideia una da ironia» (Estudos Críticos de Língua Portuguesa: contra os Gramáticos, Vasco Botelho de Amaral. Porto: edição do autor, 1948, p. 126).
      E ainda hoje continua, absurdamente, a ser assim. Mais um exemplo da falta de ponderação das soluções consagradas no Acordo Ortográfico de 1990.
[Texto 1564]
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Acordo Ortográfico rejeitado

Ora aí está o que se pode fazer

      «A Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico aprovou quinta-feira em Lisboa uma moção de rejeição do Acordo Ortográfico. A associação irá agora defender também, junto dos órgãos de governo do Técnico, que “nenhum estudante seja prejudicado por recusar escrever segundo o Acordo Ortográfico”. É a primeira associação de estudantes do país a rejeitar oficialmente o acordo» («Estudantes do Técnico contra Acordo Ortográfico», Público, 21.05.2012, p. 12).
      A propósito: amanhã, às 19h50, no programa Nativos Digitais, na RTP2, vai falar-se do Acordo Ortográfico.
[Texto 1563]
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Adeptos trajados

Ou viriam tarjados?

      Foi tal como me disseram. A repórter Filipa Pereira estava a fazer uma reportagem sobre o Académica-Sporting para o Primeiro Jornal da SIC. «Já se vão vendo alguns adeptos que vêm trajados.» Ela própria estava trajada e abrigava-se sob um guarda-chuva azul. Por causa disto, fui ver o que estabelece o Código Penal. Primeiro facto: este diploma legal não contém a palavra «nudez». Espanto e exultação dos defensores do nudismo. O artigo 170.º prevê a punição de «quem importunar outra pessoa praticando perante ela actos de carácter exibicionista». Lá está, clamam os defensores do nudismo, «exibicionismo»! Imaginem, pedem eles, que estamos a falar de pessoas de 80 anos que se despem numa praia qualquer. Estão a exibir-se? Confundem um pouco as coisas: exibir não é pôr à vista, mostrar? Então...

[Texto 1562]
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Como falam os políticos

Grande coisa: «o coiso»

      «O desemprego tem que ser uma preocupação de todos nós. E todos nós temos que trabalhar em conjunto, sindicatos, patrões e partidos, para conseguirmos ultrapassar este coiso» (Álvaro Santos Pereira, ministro da Economia, na sexta-feira, no Parlamento).
      A palavra «coisa» significa tudo e não significa nada, como se sabe. É, como dizem os Brasileiros, palavra-ônibus. Parece modesta, mas é irmã da palavra «causa». «Coiso», não, «coiso» é qualquer indivíduo, fulano. («Já francamente injurioso e provocador soa a forma masculina correspondente coiso», escreveu Manuel de Paiva Boléo.) Isto registam os dicionários. Mas «coiso» também é, como substituto lexical, sinónimo de pénis. «Nunca lhe ouvi nenhum palavrão, era sempre: o coiso. O seu coiso isto, o seu coiso aquilo, dê-me o seu coiso, senhor tenente, gosto tanto do seu coiso, meta o seu coiso na minha coisinha» (Os Cus de Judas, António Lobo Antunes. Lisboa: BIS/Leya, 2010, p. 85).

[Texto 1561]
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Dos dicionários

Uma tarefa infindável

      «Para o vulgo os físicos hebreus eram hereges e sequazes do Diabo, com o qual tinham pacta» (Portugueses das Sete Partidas, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, [1951], 3.ª ed., p. 237).
      É o mesmo que «pacto», claro, mas não a vejo nos dicionários, que deixam, forçosamente, muito de fora. Ainda ontem, no Arte & Emoção, ouvi: «Xavier Cortegano [do Real Grupo de Forcados Amadores de Moura] sofreu uma mangada forte do toiro, rematada com aparatosa voltareta.» Vejam se as encontram aí nos dicionários...
[Texto 1560]
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«Car boot sale»

Feira de usados e vendas de garagem

«João e Sofia participaram ontem, pela primeira vez, como vendedores, numa car boot sale. Uma venda em que os participantes pagam uma inscrição por carro, levam os seus artigos na bagageira e vendem tudo o que quiserem. A iniciativa é da Women Royal Voluntary Service, uma organização com fins caritativos que reúne voluntários da comunidade internacional a residir em Portugal» («Abrir a bagageira do carro e vender tudo a um euro», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 20.05.2012, p. 17).
      Como é uma iniciativa da Women Royal Voluntary Service (WRVS), está bem, pode ficar em inglês. Umas linhas mais à frente, a jornalista não resiste a usar mais uma expressão inglesa: «Como compradora já tinha participado numa, bem como em garage sales (vendas de garagem), às quais vai com regularidade.»
[Texto 1559]
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«Statu quo»

Só português seria menos arriscado


      Fernando Nogueira, presidente do júri do Start Up Programme, declarou no fim da competição: «Quando se fala em capacidade de improviso, eu acho que é inteligência prática. Mas como estamos muito dependentes do Estado e do statuos quo, nem sempre pomos, de uma forma inteligente e racional, essas qualidades próprias do Português em campo. Eu acho que isto ajuda.»
      Já vimos mais de uma vez que isto é latim abastardado por influência — como quase sempre! — do inglês. No caso do ex-ministro, ainda se intrometeu ali um o. Oh!
[Texto 1558]
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O discurso dos finalistas

Enquanto o futuro não chega

      Na Alameda da Universidade, ontem, o cardeal-patriarca deixou mensagem de esperança a estudantes durante a Bênção de Finalistas. E que mensagem deixaram os estudantes? A repórter da RTP Catarina Dias Ribeiro escolheu-os bem. O primeiro, com a Torre do Tombo como cenário e impecável no seu traje académico, disse: «É uma concretização de objectivos a nível escolar, a nível académico. Ao fim ao cabo, é a abertura de uma nova etapa de vida, tanto profissional como pessoal em que vamos tentar concretizar os nossos sonhos e sagrar nas nossas áreas.» O segundo errou menos — porque felizmente falou menos: «Sabemos que o nosso mercado não anda muito bem. Talvez emigrar lá para fora.»
      Por sorte, a repórter não lhes perguntou o nome, que assim resvalará, sem pena de ninguém, à perpétua obscuridade.
[Texto 1557]
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«De debaixo»

De novo, só para lembrar

      «Com a mesma rapidez de movimentos, Shukhov pendurou o capote numa viga e retirou o que desejava de debaixo do colchão: um par de luvas, um segundo par de palmilhas, um pedaço de corda e um farrapo com uma fita em cada extremidade» (Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, Alexandre Soljenitsin. Tradução de H. Silva Letra, revista por António Carlos. Lisboa: Círculo de Leitores, [1970], p. 32).
      No Assim Mesmo — lembram-se? — motivou 15 comentários, um pouco desencontrados. Por economia e eufonia, elida-se então. Sobretudo neste caso, com a dura sucessão de dd: «desejava de debaixo do».
[Texto 1556]
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«As abas do gorro»

É isso mesmo

      «A geada tentava penetrar-lhe nos ouvidos através das abas do gorro, que ele tinha baixado mas não atara» (Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, Alexandre Soljenitsin. Tradução de H. Silva Letra, revista por António Carlos. Lisboa: Círculo de Leitores, [1970], p. 15).
      Ainda se lembra das «orelheiras», Montexto? Pois é, a história passava-se na antiga União Soviética, e seria mais provável que, em vez de boné, os prisioneiros usassem, naquele clima gélido do Cazaquistão, gorro. É que bonnet traduz-se por «gorro», que pode ter abas, e casquette é que é «boné» em português.

[Texto 1555]
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«E ansiava por que...»

Um folhetim

      «Durante toda a noite não conseguira aquecer, e, mesmo no sono, sentira em dado momento que estava a piorar bastante, enquanto logo a seguir sentia que estava a melhorar. E ansiara porque a manhã não chegasse» (Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, Alexandre Soljenitsin. Tradução de H. Silva Letra, revista por António Carlos. Lisboa: Círculo de Leitores, [1970], p. 7).
      Não tinha de estar ali a preposição seguida da conjunção integrante? E ansiava por que... «Eu ansiava por que ele me abandonasse o jornal para ler o folhetim» (Confissão Dum Homem Religioso, José Régio. Lisboa: INCM. 2001, p. 55).
[Texto 1554]
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Rochedo — sem aspas nem medo

Têm uma grande provisão delas

      «Uma opinião que a realidade desmente: 48 horas antes do almoço, a Rainha Sofia declinou o convite de Buckingham por causa do diferendo anglo-saxónico sobre Gibraltar e o direito das pescas nas águas territoriais do “Rochedo”» («Gibraltar separa as famílias reais britânica e espanhola», Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 30).
      As aspas devem ser ancoragens para os escaladores chegarem ao topo...
[Texto 1553]
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Miguel Ângelo — sempre!

Não para mim

      «A noite é o retrato da Dor, a Musa de Dante e Miguel Ângelo e a Mãe de todas as cousas...» (Obras Completas de Teixeira de Pascoaes, vol. 8, Teixeira de Pascoaes. Lisboa: Bertrand Editora, 1973, p. 204).
      Ih, que rematado ignorante! Ou não, apenas nasceu antes do tempo. Os modernos escrevem Michelangelo — porque assim é que se escreve, argumentam de forma tautológica. «O artista Phil Hansen usa alfinetes para “tatuar” cascas de banana e reproduzir conhecidas obras de arte. Uma das últimas obras do norte-americano foi A criação de Adão, pintura de Michelangelo que enfeita o teto da Capela Sistina» («Artista recria quadros famosos em bananas», Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 48).

[Texto 1552]
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Pontos cardeais no AOLP

Leiam e conversem

      Um dos dois está enganado, isso de certezinha:
     1. «Apesar da sua perspicácia, nem Legge deve ter percebido o que ali tinha. Pois Dietrich Fischer-Dieskau, que ontem faleceu no sul da Baviera, a dez dias de completar 87 anos, foi simplesmente um dos maiores barítonos (registo vocal entre o de tenor e o de baixo) e, em absoluto, o intérprete expoente do Lied (canção de câmara, com acompanhamento de piano) do século XX» («O maior cantor lírico que a Alemanha deu ao século XX», B. M., Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 37).
      2. «A descoberta dos fósseis, em Cerrejon, uma região do Norte da Colômbia, e o estudo sobre eles foram publicados na revista científica Journal of Systematic Palaeontology por um grupo internacional de investigadores coordenado pelo paleontólogo Edwin Cadena, da Universidade do Estado da Carolina do Norte, nos Estados Unidos» («Tartaruga gigante tinha o tamanho de um ‘Smart’», Filomena Naves, Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 26).
[Texto 1551]
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Revisão nos jornais

Não há

      «A palavra “reality” não surge como um mero efeito anglófono. Trata-se, muito concretamente, de tratar uma conjuntura marcada pela reality TV, e, em particular, pelo poder mediático do programa Big Brother» («Os meandros da ‘reality TV’ no novo filme de Matteo Garrone», João Lopes, Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 41).
      «Trata-se [...] de tratar»... Nada que uma leitura atenta não resolvesse. Sem revisão, era a única maneira de a coisa sair escorreita. Quanto a reality TV, hoje mesmo lê-se no Público: «Puseram ao largo o grotesco e aproximaram-se com ferocidade e ternura das personagens: Seidl, com Paradise: Love — o turismo sexual no Quénia — e Garrone, com Reality, a reality tv nas nossas cabeças» («Toca na mulher branca, despe o homem negro e cobre o grotesco», Vasco Câmara, 19.05.2012, p. 32).
[Texto 1550]
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Ortografia: «cardiotoráxico»

Pois claro

      «Duas alunas, de 20 e 22 anos, da Universidade do Minho foram ontem atropeladas por um carro desgovernado, tendo o condutor fugido. Mais tarde entregou-se à PSP. Uma das vítimas foi para o Hospital de S. João, Porto, por precisar de cuidados na área cardiotoráxica» («Duas estudantes atropeladas em Braga», Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 21).
      Se defendo (ver aqui) que todos os dicionários deviam registar as formas torácico e toráxico, é claro que não posso deixar de defender que cardiotoráxico é tão correcto como cardiotorácico.
[Texto 1549]
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Sobre «institucionalizar»

Este ainda não

      «Fernando vivia no Seixal com três filhas, entre os nove e os 15 anos, que estarão ainda institucionalizadas à espera de que algum familiar as vá buscar, sendo que a mãe estava separada do pai há vários anos» («Pedófilo do Seixal matou-se na cela da prisão», Roberto Dores, Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 21).
      Para os dicionários mais conhecidos (ou para todos?), institucionalizar ainda é apenas dar ou adquirir forma de instituição; oficializar(-se). Na acepção usada no artigo, é anglicismo semântico, de to institutionalize. Não servirá internar: pôr em colégio, asilo, hospital ou instituição psiquiátrica, como o define o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora?
[Texto 1548]
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Um mundo uniforme

Fardos e palha

      Numa peça do jornalista João Botas no Telejornal de anteontem, ouvimos David Cameron falar da situação da Grécia e da Zona Euro: «Either Europe has a committed, stable, successful eurozone with an effective firewall, well capitalised and regulated banks, a system of fiscal burden sharing, and supportive monetary policy across the eurozone, or we are in uncharted territory which carries huge risks for everybody.» Nas legendas, pudemos ler: «Ou a Europa tem uma Zona Euro empenhada, estável e com êxito, com uma firewall eficaz, com bancos bem capitalizados e controlados, um sistema de partilha de fardos orçamentais e apoiando a política monetária em toda a Zona Euro, ou estamos num território desconhecido, o que acarreta enormes riscos para todos.»
      O mundo omnipresente da informática... Então firewall é intraduzível, sobretudo neste contexto? «Barreira de protecção» não seria mais adequado? E porque hão-de os burdens ser sempre «fardos»? Não podem ser «cargas» ou «pesos»?
[Texto 1547]
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Redija-se outra definição

Porcofobia e jemão

       O laboratório do Instituto Politécnico de Bragança (IPB) aliou-se à indústria local (o pior é o nome: Bísaro Salsicharia!) para tentar produzir presuntos de cabra e de ovelha, que são menos gordos e mais proteicos do que os presuntos de porco. O projecto está ainda em fase de testes e os produtos destinam-se, ao que parece, a conquistar clientes árabes. Com isto, lá se vai a definição de presunto: «membro posterior do porco, depois de salgado, curado e seco». O termo «presunto» vem do latim perexutus, privado de todo o líquido. Dantes dizia-se, pelo menos no Alentejo, «jemão», sabiam? Há até o provérbio — Quem come presunto, come jemão. Os dicionários modernos perderam este verbete.
[Texto 1546]
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«Vontade de/vontade em»

Mas também pode ser

      Jornalista Joana França Martins no Jornal da Tarde de ontem a propósito do lançamento de um livro, Peso, Uma Questão de Peso, das nutricionistas Paula Veloso e Teresa Maia: «Quase sempre a vontade em perder peso é o desejo de manter uma imagem.» Não é a regência mais usada, mas não é incorrecta, pois o povo também é assim que fala — ou falava, pois agora já não há povo, como sabemos. «Nunca tive vontade em casar-me. Ainda me calhava algum enxovedo na rifa que me amofinasse de contino», tive a sorte de ouvir a uma senhora idosa numa aldeia perto da Guarda.
[Texto 1545]
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Sobre «bonzo»

Tubérculo ou hipócrita?

      «E o pior é que só num país de parolos e provincianos se pode pensar que os males feitos à paisagem poderiam algum dia ser mitigados entregando uma parte da obra ao lápis de um arquitecto premiado (Eduardo Souto Moura), a quem a EDP pagará o que for necessário para dar verniz ao empreendimento. Nunca será mais do que verniz, só que com a chancela de um bonzo da cultura indígena» («Regresso ao mundo real: o irrealismo de uma barragem», José Manuel Fernandes, Público, 18.05.2012, p. 52).
      Já li e ouvi algumas vezes, é certo, mas nunca me pareceu bem usado. Bonzo é um sacerdote budista ou, popularmente, homem hipócrita ou indivíduo impassível. De outro étimo, do quimbundo, temos também em Angola os bonzos, que é o nome dado à batata-doce cozida, com azeite, bananas e milho, vendida às portas das casas.
[Texto 1544]
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Léxico: «charabiá»

Quase rebuscado

      «A etiqueta exige que o sr. Hollande receba uma “adenda” sobre crescimento ao “tratado orçamental” (que ficará no papel) e com isso terminará a sua radiante passagem pela crise. A imprensa económica anglo-saxónica, de resto, não se interessa pelo charabiá da França» («A pergunta», Vasco Pulido Valente, Público, 18.05.2012, p. 56).
      Charabiá significa algaravia. Curioso é que conste do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas não do Dicionário da Língua Portuguesa da mesma editora. Provém do francês charabia: «patois auvergnat» e, por extensão de sentido, «langage parlé ou écrit qui est ou qui semble incompréhensible parce qu’il est inconnu, incorrect ou hétéroclite».
      «É galicismo inútil, pois o têrmo francês vem justamente do esp.-port. algaravia», alerta a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
[Texto 1543]
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«Família militar»

Já estamos habituados

      «O atual Executivo — após anos de adiamentos e indecisões — aprovou a instalação do hospital militar único no Lumiar, tendo como missão prestar cuidados de saúde diferenciados aos militares das Forças Armadas e à família militar, assim como aos deficientes militares, podendo servir outros utentes ao articular-se com o Serviço Nacional de Saúde» («Aprovado hospital militar único», Diário de Notícias, 18.05.2012, p. 13).
       O jornalista confundiu um pouco as coisas: a curiosa expressão «família militar», em uso pelo menos desde o século XIX, não significa, como parece ter sido usada no artigo, os membros da família dos militares. Espantoso é como os jornalistas confundem tanto.
[Texto 1542]
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Traduzido pelo porteiro

Para rir

      Vem em toda a imprensa internacional: uma imagem do estofador Stephen Mills a trabalhar no assento que a rainha Isabel II usará na lancha real. Vai daí, o Diário de Notícias não podia ficar atrás e publica fotos em duas páginas e escreve isto: «Upholsterer Stephen Mills trabalha no trono que a Rainha usará na Barge Royal, na oficina de AlbertE. [sic] Chapman, na zona norte de Londres» («Os passeios da rainha», pp. 8-9).
      «Upholsterer Stephen Mills works on seating for the Royal Barge, in the workshop of Albert E. Chapman in north London on May 11, 2012.»

[Texto 1541]
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«Apelar para»

Aqui não errou

      Em Aquilino Ribeiro* vê-se de tudo: o que se deve e o que se não deve imitar. Eis dois exemplos da primeira espécie: «Tanto assim que apelaram para o Parlamento de Paris, que lhes deu razão, desse jeito colocando-se sob a égide de França» (Portugueses das Sete Partidas, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, [1951], 3.ª ed., p. 215). «Do Louvre o infante endereçava-lhe reiteradas instâncias e alvitres: vendesse isto, hipotecasse aquilo, tais alfândegas à Hansa, apelasse para o comércio... para a indústria... para a judiaria...» (idem, ibidem, p. 216).
[Texto 1540]


* Ia escrever «Na obra, etc.», mas: «obra, literária e artìsticamente falando, tem significação singular, e não colectiva» — Leite de Vasconcelos.

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Incoerências ortográficas

Pouco mudou

      «Hífen a mais. G. Viana, a Academia de Lisboa e agora o Resumido puseram o hífen a alta-roda. Compare-se, porém, com alta sociedade, alta escola, alta cultura, alta estirpe e até alta costura, e ver-se-á a incongruência» (Estudos Críticos de Língua Portuguesa: contra os Gramáticos, Vasco Botelho de Amaral. Porto: edição do autor, 1948, p. 21).
      Se se tivesse aceitado metade das alterações propostas, a seu tempo, por Vasco Botelho de Amaral, estaríamos hoje a escrever de forma sensivelmente diferente. Continua tudo mais ou menos na mesma — mesmo depois do Acordo Ortográfico de 1990. Só «alta-costura» passou, há não muitos anos, a ser grafado com hífen, assim como também passou a escrever-se «alta-fidelidade». Mas já vi «alta-luz», «alta-resolução» e «alta-tensão». E com «alto»? «Alto-comando», «alto-comissário», «alto-contraste», «alto-explosivo», «alto-falante», «alto-forno», «alto-mar», «alto-relevo», e os Brasileiros, não é assim, Paulo Araujo?, têm «alto-astral».
[Texto 1539]
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Sobre «prestação»

Arreda!

      Sim, a língua evolui, etc., e tal, mas a verdade é que detesto, com todas as veras, a palavra «prestação» na acepção de actuação. Se for na oralidade e a sílaba -ta- for aberta, só me apetece mesmo esbofetear o artista. E muito me agrada ver que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não a acolhe.

[Texto 1538]
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«Há uns meses que...»

Corta!

      «Volto ao teatro. Há uns meses que faço a pergunta, sem lhe achar a resposta: — “O que mudou essencialmente nas atrizes, nos atores, nos diretores?” Outra pergunta: — “E por que não há mais Duse, nem há mais D’Annunzio?” Imaginem vocês que, de repente, descobri toda a verdade» (A Cabra Vadia: Novas Confissões, Nelson Rodrigues. Rio de Janeiro: Agir, 2007, p. 403).
      A Montexto devemos, estarão recordados disso, este ensinamento: não é necessário, nesta construção, a preposição.
[Texto 1537]
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«Tratar-se de»

Se a conhecem, digam-lhe

      A propósito dos perigos dos produtos para emagrecer, Sofia Mendonça, técnica alimentar da DECO, declarou ontem ao Bom Dia Portugal: «Tratam-se de produtos que na sua base, na sua composição, vão conter substâncias ou com efeito laxante ou com efeito diurético, e portanto o que acontece é: há uma perda de peso mas com base na perda de água.»
[Texto 1536]
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«Espólio/acervo»

Não é o mesmo

      «A professora universitária francesa Christiane Ruget-Perrot, pioneira nos estudos geológicos do Jurássico em Portugal, decidiu doar o seu espólio de “vários milhares de exemplares” à Universidade de Coimbra (UC)» («Pioneira do jurássico [sic] doa espólio», Diário de Notícias, 17.05.2012, p. 41).
      Se doou, não é espólio, mas acervo. O conjunto patrimonial não foi transmitido causa mortis, pois «“Madame Ruget”, agora jubilada»...
[Texto 1535]
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Léxico: «florentino»

É o mesmo

      «Segundo empresários florentinos, os supermercados da ilha já não têm nas suas prateleiras fruta, batata, iogurtes e começa a faltar também o gás butano» («Mau tempo provoca falta de bens essenciais nas Flores», Paulo Faustino, Diário de Notícias, 17.05.2012, p. 15).
      De Florença ou da ilha das Flores, nos Açores — é florentino. O mais habitual é usar-se o adjectivo florense para designar o relativo ou pertencente à ilha das Flores, ou o que é seu natural ou habitante.

[Texto 1534]
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Léxico: «definitividade»

Lá perto

      «Animaram-se as hostes com a esperança de que, despachada a procuradora, pudesse haver uma decisão final proferida pela juíza. Mas não. Coube a palavra à defesa da assistente. Uma argumentação tipo enxurrada, com muitos pontos e prenhe de palavrões jurídicos e, tão majestosa foi, que ficou a assistência (apenas jornalistas) a saber que há uma nova palavra no léxico nacional: definitividade. O que é? Qualquer coisa que significa definitivamente, ou lá perto» («O deputado, os gravadores, a assistente e a “definitividade”», José Bento Amaro, Público, 16.05.2012, p. 10).
      Faltou lá alguém — alguém que não fosse jornalista — para esclarecer que não é assim, que a palavra «definitividade» existe, está dicionarizada e é muito usada em Direito. O jornalista zurze ainda os advogados e a procuradora pelo mau português. A procuradora estava «claramente desinspirada para alinhavar frases perceptíveis» e «enrolou o português de tal modo que, a determinado ponto, só se percebeu que estava a repreender o escrivão devido à forma como este escrevera a palavra “cercear”». Dia 18 volta toda a gente a tribunal «para então se começarem a tentar perceber os motivos do deputado Ricardo Rodrigues».
[Texto 1533]
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A sigla SMS

Ora esta

«Relvas recebeu sms e emails de Silva Carvalho com propostas para secretas» (Maria José Oliveira, Público, 16.05.2012, p. 8). Pois é, no Público grafam assim uma sigla de três letras. Isso é muito estranho.

[Texto 1532]
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Onde pára «pardelhas»?

Se se copiam

      «Soma: vós casais comigo e eu convosco, pardelhas!», exclama Pero Marques na Farsa de Inês Pereira. Ora, os dicionários modernos, porque se copiam uns aos outros, registam apenas pardês e pardeus, mas não pardelhas — em boa verdade!, por Deus!, realmente. Está mal. Em castelhano, usava-se — sempre com o mesmo objectivo: evitar a profanação do nome de Deus, tanto mais que a jura era frequentemente falsa — pardiez e pardiobre, mas estão dicionarizados. O mesmo se passa com bofé, registada por todos os dicionários, que não acolhem a variante bofelhas. Vou-me. Ficai-vos embora!

[Texto 1531]
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Sobre «versátil»

Ora deixe-me ver

      É bom ser versátil? Depende da acepção em que se usa a palavra. Ora vejam: «Era Claudius dotado de viva inteligência, mas além de pusilânime pecava por versátil. Tanto tecia, como destecia» (Portugueses das Sete Partidas, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, [1951], 3.ª ed., p. 159). Ou seja, neste caso, não se está a afirmar que Claudius se adapta facilmente a situações novas, antes que é propenso à mudança, que é volúvel, inconstante.
[Texto 1530]
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As malditas aspas

Abuso

      «O ministro adjunto e dos Assuntos Parlamentares confirmou ontem que recebeu, ainda como dirigente do PSD, “dois sms” do ex-diretor do SIED Jorge Silva Carvalho “com sugestões de nomes” para cargos de chefia dos serviços de informação, mas a que não respondeu» («“Comprometedor era responder aos sms” do ex-espião», Manuel Carlos Freire, Diário de Notícias, 16.05.2012, p. 10).
      Não tenho repetidamente chamado a atenção para o uso excessivo e inadequado das aspas? Ora cá está um exemplo: como sabe quem ouviu, o ministro adjunto e dos Assuntos Parlamentares nem sequer disse como o jornalista pretende fazer crer. Miguel Relvas disse «duas SMS». Usar as aspas nestes casos é duplamente abusivo. Que alguém diga a Manuel Carlos Freire.
[Texto 1529]
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Um galicismo nada subtil

Vão desaparecendo

      Este, leio aqui, não viverá até ao fim da pena. «Não sabe conduzir-se.» Por acaso, em francês, está «ne sait pas se tenir». «Conduzir-se», que é raríssimo encontrar na acepção de portar-se, comportar-se ou saber comportar-se, é tão galicismo como «conduta». No frasear clássico, usava-se também haver-se neste sentido de portar-se, comportar-se, proceder, obrar. Nas cantigas de escarnho (mais uma que desapareceu) e de maldizer, usava-se igualmente, neste sentido, baratar: tenho que baratei ben, pois me dela quitei.
[Texto 1528]
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Siglas

Uma pequena trapalhada

      «David Hogg, comandante das forças americanas em África (Africom), classificou como um “grande sucesso” a detenção do número quatro do Exército de Resistência do Senhor (ERS), movimento rebelde conhecido pelo rapto de crianças e mutilações a civis. As forças ugandesas capturaram Caesar Acellam na República Centro-Africana, perto da fronteira com a República Democrática do Congo, após um curto combate com os rebeldes» («Aliado de Joseph Kony capturado», Diário de Notícias, 15.05.2012, p. 26).
      Muito bem, muito bem. Exército de Resistência do Senhor, ERS. No segundo parágrafo, porém, esqueceram-se: «Acellam estava no topo da liderança do LRA, atrás de Joseph Kony, bem como Okot Odhiambo e Dominic Ongwen, procurados pelo Tribunal Penal Internacional.» No terceiro parágrafo, explicam a sigla usada no segundo: «“Esta detenção mostra que a região está preocupada com a questão do ERS (LRA, na sigla em Inglês) e da ameaça que este representa”, afirmou Hogg.»
[Texto 1527]
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Como falam os políticos

Não falam bem nem me alegram

      Deputada socialista Odete João no noticiário das 3 da tarde na Antena 1: «Não podemos, pois, acompanhar estas medidas, que colocam em causa aquilo que é a educação de adultos, que colocam em causa o desenvolvimento do País e a coesão social.»
      Afinal, Miguel Relvas, ministro adjunto e dos Assuntos Parlamentares demissionário, recebeu duas SMS com sugestões de nomes para cargos nos serviços de informações. «Presumo que a senhora deputada também se compatibiliza com esse meio de comunicação. Sabe que são coisas muito mais sintéticas... Eu uso um telemóvel... O meu telemóvel é um telemóvel muito básico, onde eu envio SMS, e portanto não permite uma correspondência muito acentuada.»
[Texto 1526]
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Léxico: «manquidão»

E há mesmo

      Estava a precisar do substantivo correspondente a «manco». Existe? Para dar a volta à frase «o facto de ser manco valera-lhe ser considerado inválido», mas nada, os dicionários não o registam. Usa-o o povo. Mas esperem... «El Diablo cojuelo é o título de um romance de Luis Vélez de Gevara [sic] (1641), que foi imitado por Le Sage em 1707 com o título de Le Diable boiteux. Esta ideia de manquidão, assim existente em diversos povos, foi propagada pelo Cristianismo» (Antroponímia Portuguesa, José Leite de Vasconcelos. Lisboa: INCM, 1928, p. 203).
[Texto 1525]
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«Atolo de Bíkini»

Surpresa

      Alguns leitores ainda se lembrarão de, vai para dois anos, ter aqui estranhado que poucas vezes se aportuguesasse atol de Bikini. Ora vejam como escreveu Vasco Botelho de Amaral: «Mas, tal como aconteceu na experiência do atolo de Bíkini, a bomba não era assim tão má como se dizia» (Estudos Críticos de Língua Portuguesa: contra os Gramáticos, Vasco Botelho de Amaral. Porto: edição do autor, 1948, p. 152).
     Já que o étimo é o maldiviano atolu, o Mestre não terá tido dúvidas. E lá se vai, no plural, a rima com «anzóis». Em italiano, é atollo que se escreve. Quanto a Bíkini, nada.
[Texto 1524]
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«Vinte e nove»

Tão simples é

      «Vinte nove anos depois, os detetives responsáveis pela investigação deste caso decidiram exumar o corpo do mafioso italiano Enrico De Pedis, por haver indícios de que a solução do mistério possa estar dentro do seu caixão» («Polícia exuma mafioso para resolver mistério», Diário de Notícias, 15.05.2012, p. 24).
      É um trinta-e-um, para esta gente. Então na leitura e na escrita do cardinal composto, se houver dois ou três algarismos, não se usa a conjunção e? Vinte e nove. Trezentos e quarenta e sete. A isto chegámos.
      Ah, sim, houve por aí um gramático, do outro lado do Atlântico, cujo nome já esqueci, que afirmou não constituir erro dizerem-se os numerais compostos de «vinte» sem a conjunção e, que se fundia foneticamente com o e de «vinte»... Na oralidade, há-de ser a maioria das vezes assim — mas na escrita, nem pensar.
[Texto 1523]
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Tradução: «train-génératrice»

Agora pergunto eu

      «Là-dessus, le train-génératrice lâcha son coup de sirène, mais pas tout de suite à pleine gueule : au début, c’était un peu enroué, comme s’il voulait s’enlever un chat de la gorge.» Sim, de Une journée d’Ivan Denissovitch, de Soljenítsin (ou Soljenitsine, ou...). Alguém têm aí à mão uma (das três, ao que julgo) tradução para português? Que será aquele «train-génératrice»? Um gerador de vapor? Não é, evidentemente, uma locomotiva.
[Texto 1522]
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Tradução: «côtiers»

Não me perguntam, mas eu digo

      Anteontem, tivemos aqui, pela mão de Vasco Botelho de Amaral, a grafia «Malgache», que o mestre tinha encontrado na obra de Mons. Dalgado, o sábio orientalista. Agora, acabo de ler que a população de Madagáscar, a quarta maior ilha do mundo, é composta por «grupos étnicos malaio-indonésios, árabes e côtiers». Em texto português, nunca tinha lido, nem sequer o equivalente português, embora apareça sempre, mesmo em textos em língua inglesa, o termo francês. Côtiers não designa uma etnia, antes remete para uma divisão entre os grupos étnicos que habitam no planalto central e os grupos que habitam as zonas costeiras ou pelo menos que não vivem no planalto.
[Texto 1521]
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«Mestra-escola»

Perguntam-me e eu respondo

      «Mestre-escola» tem feminino? Tem, mesmo que não apareça nos dicionários, pelo menos nos que estão mais à mão. «Estava a gente bem servida, se apenas pudesse contar com os dicionários para exprimir-se... Metade da língua portuguesa popular e culta está em potência (e não em acto) nos dicionários» (Estudos Críticos de Língua Portuguesa: contra os Gramáticos, Vasco Botelho de Amaral. Porto: edição do autor, 1948, p. 121).
      «Quanto ao procedimento para comigo, pior do que nunca: exigências de toda a ordem e modos de mestra-escola; tratava-me como se eu fosse exclusivamente coisa sua...» (Maria Adelaide, Manuel Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, 1938, p. 166).
[Texto 1520]
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«Mini copo d’água!»

Agora sim

      «Após selarem a união, os noivos fizeram um mini copo d’água numa área reservada do famoso Restaurante Castillo de Gorraiz, nos arredores de Pamplona» («Irmã de Letizia casou-se em segredo», Diário de Notícias, 14.05.2012, p. 53).
      Com a adopção das regras do Acordo Ortográfico é que acabaram com o resto. Já nunca mais se endireitam.
[Texto 1519]
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Ortografia: «debruado»

Até uma costureira


      «Às 09.50 de 14 de maio de 1962, a princesa Sofia da Grécia, de vestido branco debroado a prata e tiara de diamantes na cabeça, saía do palácio e despedia-se do povo» («Juan & Sofia: 50 anos de um casamento surreal», Sofia Fonseca, Diário de Notícias, 14.05.2012, p. 29).
      Não sei se todos passariam num exame elementar de ortografia. Só de ortografia, que quanto ao resto estamos há muito conversados.
[Texto 1518]
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«Cristãos-democratas»?

Christlich-Demokratische

      «O partido de Angela Merkel, CDU (cristãos-democratas) sofreu uma pesada derrota no maior estado federal alemão, a Renânia do Norte-Vestefália, onde vive um quinto da população germânica e cujas eleições regionais são vistas como megassondagem nacional» («Partido de Merkel perde no maior estado alemão», Luís Naves, Diário de Notícias, 14.05.2012, p. 22).
      De Christlich-Demokratische Union, pois claro, mas em português dizemos quase sempre «democrata-cristão».
[Texto 1517]
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Casa de Borbom

Remonter

      «O rei Luís XIV de França e a rainha Vitória de Inglaterra são apenas dois dos antepassados ilustres do Rei Juan Carlos, pertencente à Casa de Borbom, uma das mais antigas da Europa, cuja nobreza remonta ao século XIII» («Sangue europeu antigo e ilustre», Eurico Barros, Diário de Notícias, 14.05.2012, p. 29).
      Ora vejam lá se Eurico Barros se importa de escrever Borbom. Se aqui estivesse Leite de Vasconcelos, só iria implicar com o «remontar»: «O já por vezes citado Conselheiro Jaime Moniz escreve no Estudo elementarissimo: “os trabalhos da lavoura no vale do Nilo remontavam a um passado distantíssimo (p. 29); “civilização que remontou á noite dos tempos” (p. 46). Neste sentido remontar (fr. remonter) deve substituir-se por ascender, ter origem, etc.» (Lições de Filologia Portuguesa, J. Leite de Vasconcelos. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1966, 4.ª ed., p. 354).
[Texto 1516]
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Léxico: «cantonamento»

Tomem lá esta

      «Segundo o DN soube, no local onde, cerca das 13.55, o choque aconteceu existe uma curva que também terá dificultado a visão do maquinista. “Como vinha de um sinal de cantonamento, que apesar de estar fechado tinha um “P” branco em fundo azul, dizem as regras que deveria circular até aos 30 quilómetros/hora e pelos dados já conhecidos ele estaria a cumprir essa regra”, avançou a fonte» («Maquinistas da Linha de Cascais não comunicam», Carlos Diogo Santos, Diário de Notícias, 4.05.2012, p. 21).
       Esta não está em nenhum dicionário, nem no mais arteiro. Num léxico de termos ferroviários da página da Refer, lá está: «Sistema de controlo da distância de separação entre comboios, dividindo a linha-férrea em secções que, normalmente, não consintam mais do que um comboio em cada secção. Um cantão pode ser fixo ou móvel.»
[Texto 1467]
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