«Ciclone/furacão/tufão»

Quem o afirma?

      «Depressões tropicais capazes de libertar uma energia dez vezes superior à da bomba atómica de Hiroxima. A descrição aplica-se tanto a ciclones como a furacões ou tufões. A diferença de designação é apenas geográfica. Os tufões são as depressões que atingem a Ásia, se afetarem as Caraíbas são designadas furacões e ciclones se atingirem zonas tropicais» («O mesmo fenómeno, nomes diferentes», Diário de Notícias, 11.11.2013, p. 23).
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, não é assim; furacão é o nome dado ao tufão ou ciclone das regiões tropicais; tufão é o ciclone da região do Pacífico Ocidental e ciclone não aparece relacionado com nenhuma zona geográfica. Não sei, mas nestes casos prefiro confiar no que se lê no glossário do National Hurricane Center.
[Texto 3503]

O dinheiro e o dicionário

Inveja não é

      Pode algum leitor do Linguagista ter a dúvida: «Sou multimilionário? Não sou multimilionário?» Se souber ler, procurará num dicionário. O da Porto Editora regista: «que ou aquele que é muitas vezes milionário; que ou aquele que é muitíssimo rico». Muitas vezes, pois, mas quantas? O Público esclarece: «Um relatório do banco suíço UBS concluiu que em Portugal há mais 85 milionários [sic] — indivíduos com fortunas superiores a 30 milhões de dólares (perto de 22,4 milhões de euros) — do que em 2012» («O número de multimilionários portugueses subiu e estão mais ricos», Camilo Soldado, Público, 8.11.2013, p. 22). O jornalista ficou de tal modo perturbado, coitado, que se enganou. Ah, sim, o título também é curioso.
[Texto 3481]

Sobre «operacional»

Então está errado

      «Em junho de 2011, Nuno Pereira, inspetor-chefe da Polícia Judiciária (PJ) na reforma, matou a empregada que fazia a limpeza em sua casa com um tiro na cabeça, alegadamente por motivos passionais. O crime ocorreu no escritório da sua casa e pensa-se que foi motivado pela recusa da vítima, uma ucraniana de 45 anos, em iniciar um relação amorosa com o ex-operacional» («Homicídio passional», Diário de Notícias, 28.11.2012, p. 18).
      Mas «operacional» não se aplica apenas a militares? É o que se pode comprovar nos dicionários. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só está registado como adjectivo. Se, em vez da Polícia Judiciária, se tratasse da GNR, que é uma força de segurança de natureza militar, talvez se adequasse.

[Texto 2372]

Sobre «regalismo»

Uma pergunta

      Na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, regalismo é o «sistema político dos que defendem os direitos do Estado nas suas relações com a Igreja». A definição não é pouco precisa? Não será antes o sistema dos que defendem a supremacia do poder civil sobre o poder eclesiástico?

[Texto 2347]

Sobre «livre-arbítrio»

Qual a vossa preferida?

      Há algum problema com o livre-arbítrio? Talvez haja dois: não é raro vê-lo escrito — mesmo por professores universitários, tradutores, escritores — sem hífen. O outro problema é o da definição. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «poder de escolher ou não escolher um acto ou uma atitude, quando não se tem razão para se inclinar mais para um lado do que para o outro». Para o Dicionário Houaiss, é a «possibilidade de decidir, escolher em função da própria vontade, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante». Com mais quatro caracteres, é a minha preferida. E agora leio outra, quase lapidar, com 58 caracteres, de um livro em edição: capacidade de actuar sobre as coisas do mundo por iniciativa própria. Mais breve do que esta, em inglês, do Merriam-Webster: «freedom of humans to make choices that are not determined by prior causes or by divine intervention».
[Texto 2296]

Tradução: «miscarriage»

Ganha a maioria?

      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, podemos ler no verbete «desmancho» que é o termo popular para «aborto». Todos os abortos? No volume 2 da Biblioteca de Formação Popular (1968), leio: «O aborto pode ser espontâneo ou provocado; o espontâneo, que ocorre no início da gravidez, é denominado vulgarmente de “desmancho”» (p. 209). O Houaiss em linha e a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, porém, afirmam (no caso desta, deduz-se) o contrário: desmancho é a interrupção voluntária da gravidez. Nos Estudos de Lexicologia do Português (Coimbra: Livraria Almedina, 1994, p. 55), Mário Vilela também afirma que «desmancho» é o aborto provocado. Que é a ideia que eu sempre tive. Cheguei aqui por causa da tradução do vocábulo inglês miscarriage, que o tradutor verteu por «desmancho», e, a avaliar pelo que vimos acima, mal, pois «when the interruption occurs spontaneously, it is clearer to refer to it as a miscarriage» (Maternal and Child Health Nursing: Care of the Childbearing and Childbearing Family, Adele Pillitteri. Filadélfia: Lippincott Williams & Wilkins, 2009, 6.ª ed., p. 555). Há-de haver, aposto, dicionários e outras obras que afirmarão que desmancho tanto designa o aborto espontâneo como o provocado.
[Texto 2249]

Sobre «misoginia»

Não para nós

      «O que é um misógino? É alguém que odeia mulheres, ou alguém que tem um preconceito profundo contra elas? O dicionário australiano Macquarie, considerado a autoridade no inglês da Austrália, resolveu mudar a definição, na sequência de um debate, quando a primeira-ministra, Julia Gillard, acusou o líder da oposição, Tony Abbott, de sexismo e misoginia. [...] E uma semana depois, surge novamente com a decisão do dicionário de mudar a definição de misoginia não só para “um ódio patológico às mulheres” mas também “um preconceito enraizado contra as mulheres”. A editora do dicionário, Sue Butler, explicou: “Havia uma definição, de ódio, mas não é assim que a palavra tem sido usada nos últimos 20, 30 anos, especialmente na linguagem feminista”, disse à rádio ABC» («A misoginia segundo Gillard já está no dicionário», Maria João Guimarães, Público, 17.10.2012, p. 23).
      Na Austrália e na língua inglesa, pois segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é o «horror ou aversão às mulheres», que é a acepção mais imediatamente derivada do étimo, e a «aversão patológica do homem ao contacto sexual com as mulheres».
[Texto 2220]

Sobre «saibro»

É difícil explicar...

      «Foi durante a remoção de quatro altares barrocos da capela de Santa Comba, em Baião, que se descobriu um verdadeiro tesouro: uma pintura do final do século XV numa delicada película sobre o saibro da parede» («Pintura mural de valor incalculável achada em capela», Ana Carla Rosário, Jornal de Notícias, 17.09.2012, p. 22).
      Parece-me, a avaliar pela amostra de meia dúzia que consultei, que os dicionários não se põem inteiramente de acordo sobre o que é saibro.
[Texto 2098]

Arquivo do blogue