«Iludir/eludir as responsabilidades»

Ilusões ou talvez não

      «Mas os organismos competentes também não podem iludir as suas responsabilidades» (do editorial da edição de ontem do Público, p. 30). Podemos iludir as responsabilidades como se ilude a polícia? Talvez se elidam, iludam, eludam, aludam e, no caso da Madeira, se faça trinta por uma linha e ninguém o impeça jamais. Iludir é também, em sentido figurado, recorrer a métodos habilidosos para não cumprir ou realizar qualquer coisa. Fugir a qualquer coisa — e diz-se correntemente fugir à responsabilidade. Eludir, por sua vez, verbo quase desconhecido dos falantes, é sinónimo de evitar com destreza.

[Texto 494]

«Flamenco/flamengo»

Depende, não é?

      «A mestiçagem cultural pode ser criativa. Tomemos um exemplo que me apraz particularmente: o flamengo. Eis uma música que expressa a alma do povo cigano, uma música simbiótica, enriquecida pelas suas influências indiana, árabe, judia, celta... fundidas num som original.»
      O leitor Rui Almeida acabou de ler este excerto na página 17 da obra Como Viver em Tempo de Crise?, «um conjunto de dois textos», escreve-me, «um de Edgar Morin e outro de Patrick Viveret, traduzido por Carlos Correia Monteiro de Oliveira e editado pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda (Junho de 2011). A julgar por uma referência que encontrei online, o termo usado por Morin no original é “flamenco”. Consultados os dicionários cá de casa, não tenho dúvidas de que o tradutor confunde uma dança com uma língua (ou será com um queijo?...).»
      Creio já ter escrito sobre esta confusão. Mas será mesmo confusão? A julgar pela maioria dos dicionários, assim é. Consulto, porém, um dicionário publicado no Brasil — onde, como decerto saberão, se fala português —, o Dicionário de Termos e Expressões da Música, de Henrique Autran Dourado (São Paulo: Editora 34, 2008, 2.ª ed., p. 132), e vejo que o autor considera que a música e a dança da Andaluzia se chamam, indiferentemente, flamenco, flamengo ou flamingo.

[Texto 485]

Léxico: «alíquota»

Só se explicarem

      «Os relatores consideram mesmo que não é possível “determinar se a causa das lesões dos ofendidos resultou da troca do fármacos [sic], se existiu troca e em que momento é que a mesma ocorreu”. O relator, o presidente do Conselho Jurisdicional Regional de Lisboa, Joaquim Marques, apoiado pela consultora jurídica Ana Varejão, detectou “fragilidades” naquele serviço hospitalar, como o facto de não existirem regras escritas para a utilização de sobras de medicamentos (tecnicamente designados de alíquotas)» («Ordem arquiva caso dos cegos de Santa Maria», Diário de Notícias, 16.09.2011, p. 14).
      O primeiro obstáculo para a compreensão é logo a falta de concordância — pois não é aos medicamentos, mas às sobras destes, que se dá a designação de alíquota. É acepção, da gíria médica, que os dicionários não registam. Alíquota — é a única acepção dicionarizada — é a parte que está contida num todo um número exacto de vezes. Não deveria figurar entre as falhas nas «Expressões médicas: falhas e acertos»?
      Mas, entretanto, registe-se. Alíquota: sobra de fármaco extraído da embalagem original.

[Texto 481]

Sobre «nortenho»

Não para mim

      «Respondo por todos: sim, trabalhamos pouco. Também ganhamos pouco. E o nosso clima é muito bom — não apenas muito melhor do que o vosso, que é pobre. Daí que haja dias bonitos — ou apenas sem frio, chuva ou falta de céu azul — em que apeteça menos trabalhar para ocupar o tempo. Também vocês, nortenhos e trabalhadores, com climas sem tentações, quando cá vêm, pouco trabalham e muito desfrutam. Ponham-se no nosso lugar. Sempre que puderem. Ou tenham essa sorte. Que não é a vossa, senão quando cá vêm. Que é sempre que podem. Sempre bem-vindos» («Então está bem», Miguel Esteves Cardoso, Público, 14.08.2011, p. 53).
      Talvez apenas em dicionários brasileiros e nos mais antigos portugueses se encontre actualmente a definição de que «nortenho» é o relativo (ou natural ou habitante) ao Norte de Portugal. A maioria dos dicionários da língua portuguesa editados neste lado do Atlântico regista somente que diz respeito ao Norte; alguns, poucos, registam que diz respeito em especial ao Norte de Portugal.
[Texto 395]

Sobre o Indostão

Que algum repúblico

      «Os irmãos paquistaneses Achiq (o cabecilha do grupo), Kashif e Atif são acusados de recrutar portuguesas para casar com homens indostânicos (paquistaneses e indianos)» («Juiz adia decisão», C. N., Diário de Notícias, 7.07.2011, p. 23).
      É impressão minha ou a definição de Indostão (ou Hindustão) anda por aí mal redigida? Quase a propósito: como se grafa o nome da república de Coimbra: Prà-Ki-stão, Prakistão, Pra-ki-estão, Pra-ki-stão?... Que algum repúblico (Quê?! O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista a acepção?!) me esclareça.
[Texto 279]

Sobre «recente»

Que aconteceu há pouco

      «“Utópico” deriva de “utopia”, que por sua vez é uma palavra relativamente recente. Foi inventada pelo filósofo Thomas More em 1516 e deu título ao livro Utopia. […] E foi do impacto deste livro que derivou o “ser utópico” enquanto ser irrealista, quimérico, acreditar no irrealizável» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa. Antena 1, 20.06.2011).
      A percepção do tempo, já sabemos, é eminentemente subjectiva, mas não abusemos. «Relativamente recente»! Se Mafalda Lopes da Costa estivesse a escrever no século XVII, ainda se compreendia a afirmação. A segunda frase só com muito boa vontade se compreende. Decorre do defeituoso cumprimento do objectivo inicial do programa: divulgar e explicar expressões. «Ser utópico» é então a expressão... Um absurdo. O serviço público no seu melhor.
[Texto 190]

Arquivo do blogue