«Tracto sucessivo»!

Não usam dicionários

     O autor escreveu tracto sucessivo — confundindo talvez com tracto digestivo. O trato sucessivo é um princípio jurídico que regula os actos registados. Consiste no encadeamento temporal e sequencial dos proprietários, dos anteproprietários e assim sucessivamente, assim como a menção do título a que o bem registado foi transmitido. Tracto digestivo, como se sabe, é o conjunto de estruturas e órgãos que constituem o tubo digestivo. Ah, mas esperem, o autor também escreve, como tantas vezes já li, sobretudo em traduções do inglês, «contracto».
[Texto 2161]
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«Quatro a cinco novas espécies»!

É só pensar

      «A expedição às Berlengas promovida pela Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental, a bordo do Creoula, terá descoberto quatro a cinco novas espécies para a ciência das 120 observadas pela primeira vez junto àquele arquipélago, afirmou o coordenador da missão, o investigador Frederico Dias» («Descobertas novas espécies nas Berlengas», Diário de Notícias, 30.09.2012, p. 21).
     «Quatro a cinco»? Tem de haver pelo menos um intervalo de uma unidade para se poder usar esta construção, porque, suspeitamos, não há meias espécies. Quatro a seis, ou três a cinco, ou cinco a sete, etc.

[Texto 2160]
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«Publicist»!

E não há palavra portuguesa?

      «Sendo a rede social com maior penetração em Portugal (o twitter ocupa um nicho de mercado e é mais utilizado por pessoas ligadas ao mundo da comunicação), este é o veículo preferencial para os famosos juntarem os seus admiradores de sempre, colecionarem novos fãs, divulgarem o seu trabalho e até desmentirem rumores. Segundo João Belo, assessor mediático de caras conhecidas como Daniela Ruah, Ricardo Pereira e Cláudia Vieira, “o Facebook é como uma revista online”. “É muito mais imediato do que uma revista ou mesmo que os sites das revistas. Por essa razão, é preciso ter muita consciência do que se está a expor”, explica o publicist» («Páginas oficiais ajudam famosos a conquistar fãs», Raquel Costa, Diário de Notícias, 30.09.2012, p. 50).
[Texto 2159]
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Como se escreve nos jornais

Corta-se, e fica melhor

      «A polícia interpelou o homem de 26 anos. Não sem antes este ter conseguido falar com alguns jornalistas para explicar o que fizera. Declarando-se como um comunista, criticou o Governo checo por ignorar as reivindicações do povo checo, segundo a Prima TV» («Klaus atacado com pistola de brincar», Diário de Notícias, 30.09.2012, p. 32).
[Texto 2158]
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Como se escreve nos jornais

Se não se vê, não se acredita

      «O cartune usado pelo primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, na Assembleia Geral das Nações Unidas, para demonstrar o seu receio sobre as ambições nucleares iranianas, espoletou uma onda de gozo na Internet. [...] Em muitas destas imagens de paródia, o primeiro-ministro é retratado como um cartoon da Warner Bros. Jeffrey Goldberg, jornalista norte-americano, disse mesmo na sua conta pessoal do Twitter que “o cartoon da bomba do Netanyahu é o equivalente do Meio Oriente à cadeira de Clint Eastwood”» («Bomba de Netanyahu gozada nas redes sociais», G. S., Diário de Notícias, 30.09.2012, p. 31).
      Há-de haver uma boa explicação para esta incongruência. Talvez tenha sido escrito por três jornalistas.

[Texto 2157]
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«Fossar/foçar»

Chegámos à pocilga

      Ainda Dylan Thomas: «Time by, their dust was flesh the swineherd rooted sly». O guardador de porcos fossava, matreiro... Espera, não será antes «foçava»? Nesta acepção, remexer a terra com o focinho, escavar, são sinónimos (porque fossar é abrir fosso, logo, escavar). No verso, é o guardador de porcos, e não os porcos, que fossa. Foçar é o que os porcos fazem, revolvem a terra como o focinho.
[Texto 2156]
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Sobre «racionamento»

Afinal é o mesmo

      «A polémica», disse a jornalista Ana Romeu no Jornal da Tarde de ontem, «gira à volta de uma palavra, “racionamento”, pouco adequada quando se quer explicar de que maneira deve ser gerida a despesa pública nos gastos com medicamentos e serviços de saúde. A ideia, afinal, é não desperdiçar.» Será mesmo pouco adequada? O presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) errou ao usá-la? Vejamos a definição que está no Houaiss: «Distribuição ou venda controlada de certos víveres ou bens carentes, determinada pelas autoridades governamentais para assegurar uma distribuição mais justa entre os consumidores ou utilizadores.» Racionamento também é o acto ou efeito de racionar no sentido de distribuir a porção de alimento ou parte de bens essenciais de consumo que cabe a uma pessoa ou grupo numa situação fora do normal — alimentos em tempo de guerra, água em tempo de seca, etc. Esta última deve ser a acepção que o presidente do CNECV, Oliveira da Silva, designou, impropriamente, por «sentido coloquial e comum», com «uma carga negativa extremamente apreensiva». Logomaquia, ou mais uma tempestade num copo de água.
[Texto 2155]
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«Desafortunadamente»

Desgraçadamente

      Acho muito curioso que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registe o advérbio «desafortunadamente», mas, em contrapartida, acolha «infortunadamente». Sempre me vem à mente aquele, e não este. Também o dicionário da Real Academia Espanhola regista somente «infortunadamente».
[Texto 2154]
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Tradução: «tiglon»

Sempre a aprender

      Hoje descobri o tigreão, e não foi no Discovery. Nem podia, pois deixei mesmo de ver televisão, excepto no iPad. Foi na poesia de Dylan Thomas: «I see the tigron [sic] in tears/In the androgynous dark». É um híbrido, resultado do cruzamento de um tigre com uma leoa. Dylan Thomas não o diz, mas também há o ligre (liger em inglês), que é resultado do cruzamento de um leão com um tigre fêmeo. Para os dicionários, isto deve ser do domínio da teratologia, pois nenhum os regista.
[Texto 2153]
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«Paparazzo/paparazzi»

La Dolce Vita

      «A Villa Certosa, propriedade do antigo chefe do Governo italiano Silvio Berlusconi, foi posta à venda por um preço entre os 450 e os 470 milhões de euros. Situado na ilha italiana da Sardenha, o espaço acolhia as famosas festas “bunga-bunga”, que se tornaram em mais um escândalo envolvendo o ex-primeiro-ministro, quando, em 2009, um paparazzi fotografou várias jovens despidas na sua propriedade» («Berlusconi quer vender ‘villa’ das festas», Diário de Notícias, 28.09.2012, p. 27).
      Pois é, mas o singular de paparazzi é paparazzo. E a propósito, um leitor perguntou-me: «Não era melhor traduzir ao pé da letra? “Papa-astro”?» Contudo, paparazzo é aquele que engole raio, e razzo (raio, relâmpago) é uma alusão ao flash da máquina fotográfica.
[Texto 2152]
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Léxico: «majoritariamente»

Do outro lado do Atlântico

      «No século XI, um artista religioso da Mongólia esculpiu o deus budista Vaisravana numa pequena rocha compacta, majoritariamente feita de ferro. Em 1939, uma expedição arqueológica patrocinada pelo regime nazi encontrou a estatueta e levou-a para a Alemanha, onde desapareceu numa coleção particular, em Munique» («O Buda que veio do espaço», Diário de Notícias, 28.09.2012, p. 30).
      Os termos majoritário e majoritariamente, que têm étimos franceses, são quase exclusivamente usados no âmbito da economia e da política e mais da preferência dos Brasileiros.
[Texto 2151]
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Léxico: «aforquilhar»

Raramente se vê

      «The seed that makes a forest of the loin/Forks half its fruit; and half drops down,/Slow in a sleeping wind» (Dylan Thomas). «Aforquilha metade do seu fruto», traduziu alguém, que um dia se saberá. Aforquilhar, que Morais registou, é dar forma de forquilha a e segurar com forquilha. Um dos exemplos da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira é aforquilhar um andor, que significa segurá-lo com as forquilhas, enquanto o préstito está parado.
      «Em conclusão: O mesmo Satanás que, através de comissários, arruinou a saúde do Zé Rato, foi o que aforquilhou o ânimo dos inimigos do Estêvão VI na via do estrangulamento do Santo Padre, a fim de (patranhava o Malino) ficar aplacada a ira de Deus, indubitavelmente, manifestada no desmoronamento do telhado do paço pontifical» (Histórias para Boi Dormir, Valério Bexiga. Olhão: Gente Singular, 2008, p. 123).
[Texto 2150]
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«À-vontade/à vontade»

Sem revisão, não surpreende

      «Não podia ter começado melhor o regresso de Marta Crawford à televisão portuguesa. A estreia de 100 Tabus confirma tudo o que já sabíamos da sexóloga, que chegou ao pequeno ecrã em 2005: clarividência na explicação, naturalidade na abordagem dos temas, à vontade perante as câmaras e telegenia natural. Convenhamos que, todos juntos, são atributos que não estão à mercê da esmagadora maioria dos comunicadores portugueses» («A rapidinha perfeita», Nuno Azinheira, Diário de Notícias, 27.09.2012, p. 52).
      Mais um que não sabe. Neste caso, é à-vontade, substantivo, e não locução adverbial, à vontade. E eu não utilizaria, neste contexto, a locução à mercê de, mas antes à disposição de.
[Texto 2149]
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Desgraçadíssimo verbo «haver»

TPA, RTP

      Isabel dos Santos, filha do presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, foi entrevistada em Agosto no canal angolano TPA — o que foi notícia agora na televisão pública portuguesa... «E recordou momentos marcantes: “Ele [José Eduardo dos Santos] levou-me à escola, deixou-me na escola, e eu tive que esperar até ele me vir buscar. Portanto, isso é um momento marcante. Como esse, houveram outros...”» Formada em Engenharia, a mulher mais rica de África... todos temos fraquezas.
      A única peculiaridade do verbo haver no sentido de existir é a sua impessoalidade, nada mais.

[Texto 2148]
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Prefixo «anti-»

Há sete anos a dizer o mesmo

      «O ‘Cerco ao Congresso’ – que concentrou os participantes de manifestações anti-austeridade partidos de vários pontos da cidade – estava marcado para as 18.00 (17.00 em Lisboa), mas a essa hora ainda eram poucas as pessoas que se concentravam na praça de Neptuno, levando a crer que a manifestação poderia decorrer pacificamente» («‘Cerco ao Congresso’ provoca caos em Madrid», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 26.09.2012, p. 23).
      Este erro não é cíclico: é continuado, permanente. Estatui o Acordo Ortográfico de 1990 que não se emprega o hífen «nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por vogal diferente, prática esta em geral já adotada também para os termos técnicos e científicos». Logo, antiausteridade.
[Texto 2147]
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«Pontos percentuais/percentagem»

Porque é cíclico

      «A queda de François Hollande é histórica. Em quase 50 anos, poucos presidentes conseguiram desagradar tanto aos franceses nos primeiros quatro meses de mandato como o atual chefe do Eliseu. Entre agosto e setembro, o Presidente socialista caiu onze pontos percentuais nas sondagens: em agosto, 54% dos franceses diziam-se satisfeitos com o trabalho de Hollande, mas durante este mês a percentagem caiu para 43%» («Popularidade de Hollande cai a pique em 4 meses», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 24.09.2012, p. 23).
      Se houve melhorias nos meios de comunicação, e em especial nos jornais, esta foi uma delas: a compreensão de que ponto percentual e percentagem são conceitos relacionados, sim, mas diferentes. A diferença entre percentagens, que é um valor absoluto, expressa-se por meio desta unidade, ponto percentual. Se se dissesse que o apoio a François Hollande tinha baixado 11 %, tal significava que tinha descido, se o valor fosse o mesmo, de 54 % para 48,06 % (54 – 11 % = 5,94; 54 – 5,94 = 48,06). Se melhorou, porque estou a perder tempo a dizê-lo? Porque quase todos os erros são cíclicos. Daqui a uns anos, se não formos alertando, vê-lo-emos de novo campeando por aí.
[Texto 2146]
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«A possibilidade de se a ensinar»

E ouvi-la, nunca

      «Para Eduardo Lourenço, o questionamento do filósofo [Manuel Maria Carrilho] cuja obra vai apresentar representa “um questionamento hipercrítico da nossa época, mesmo que continue a fazer as eternas perguntas da filosofia”. Entre as questões, diz, está a identidade da própria filosofia nos tempos que correm, bem como a possibilidade de se a ensinar: “Estes são alguns dos problemas que o preocupam e que estão sempre presentes na obra”» («Obra integral de Carrilho é apresentada amanhã», João Céu e Silva, Diário de Notícias, 26.09.2012, p. 48).
      É muito raro, raríssimo mesmo, ver-se esta construção, que já aqui, e por diversas vezes, foi tratada. Se não houvesse nada mais contra, pelo menos a relativa dificuldade em pronunciá-la, por não ser propriamente fluida, já pesaria a desfavor.
[Texto 2145]
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Falta de critério

Ou de revisão?

      «O primeiro porta-aviões da marinha chinesa, um navio da antiga frota soviética, batizado com o nome de Liaoning, após anos de testes e reparações, entrou ontem ao serviço, concretizando “uma importante decisão estratégica” do país. A China era o único dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU que não tinha um porta-aviões, realçou a agência noticiosa oficial chinesa. O Liaoning tem cerca de 300 metros de comprimento» («Porta-aviões chinês entra ao serviço», Diário de Notícias, 26.09.2012, p. 27)
      Mas não escreviam «Marinha»? Escreviam pois, que eu lembro-me, até porque foi ontem: «Enquanto o seu pai, que combatia nas forças aéreas polacas, foi retirado de La Rochelle por uma frota da Marinha britânica, Tereska também conseguiu escapar, graças a um visto passado pelo cônsul português em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes» («Escritora da resistência que Aristides ajudou a fugir aos nazis», Diário de Notícias, 25.09.2012, p. 43).
[Texto 2144]

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«Híperes» e «súperes»

Desistiu a meio

      «Porto, Vila Real e Lisboa são os distritos onde se gasta menos comprando mais, situando-se no lado oposto Guarda, Bragança e Viseu, que já o ano passado eram os mais careiros. O estudo não tem em conta campanhas promocionais nem os cartões de fidelidade, mas os técnicos aconselham o seu uso. As lojas online perderam competitividade em relação ao ano passado, sendo 3% mais caras do que os híperes e os super» («Jumbo é o mais barato e permite poupar 435€/ano», Céu Neves, Diário de Notícias, 26.09.2012, p. 11).
      Ninguém em Portugal terá tratado mais vezes desta questão do que eu. Como palavras plenas, não apenas precisam de acento, como o plural é regular: híper/híperes e súper/súperes.

[Texto 2143]
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E esse plural?

Então agora é assim?

      «Leram a reportagem do Público, ontem, sobre Noca, o “alfaiate de bicicletas”? Meia dúzia de Noca, e saíamos da principal crise, a descrença. Dinis Ramos, Noca, é designer, vive na Gafanha da Nazaré, terra plana, de bicicletas» («Sair da crise à pedalada», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 25.09.2012, p. 56).
      «Meia dúzia de Noca»?! Hã? Isto é muito simples, mas aqui fica uma citação de outro jornalista: «E a prova dessa suave qualidade está bem patente nos noticiários: um grupo de fulanos foi agradecer a sicrano; meia dúzia de Josés foi dizer obrigado ao Acácio; uns tantos fabianos prosternaram-se, gratíssimos, diante do potentado» (Notas Várias, João Charulla de Azevedo. Luanda: Editorial Notícias, 1986, p. 73).
[Texto 2142]

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Ficou «recauchutagem»

Não muito diferente

      «Recauchuamento. — Mandam-nos um prospecto de certa oficina que existe no Pôrto e onde se consertam as rodas de borracha dos automóveis. Tem um nome estupendo: Fábrica de recaoutchoutagem de pneus. O remetente pregunta, a lápis: ¿Que língua é esta?... Não pode haver dúvidas: rechaoutchoutagem só tem de português o m final. O resto é índio-americano-francês-indecente-grotesco» (Glossário de Incertezas, Novidades, Curiosidades da Língua Portuguesa, e também de Atrocidades da Nossa Escrita Actual, Agostinho de Campos. Lisboa: Livraria Bertrand, 1938, p. 261).
      Sem paninhos quentes, estão a ver? «O resto é índio-americano-francês-indecente-grotesco.» E estão também a ver que o homem escrevia como o amigo Botelho de Amaral? «Pregunta».

[Texto 2141]

 

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Sobre «tatuagem»

Segundo o Jakarta Globe...

      «Esta arte praticada no corpo era comum nas ilhas do Pacífico Sul, como as Cook, Tonga, Tahiti ou Samoa, antes da chegada dos missionários ocidentais no século XIX. A palavra “tatuagem” deriva, aliás, da palavra tahitiana “Tatau”, que significa marcar ou desenhar» («Tatuagem à reconquista dos arquipélagos do Pacífico Sul», Neil Sands, Diário de Notícias, 24.09.2012, p. 25).
      É verdade, mas a nós chegou-nos através da língua francesa. E porquê «Tatau» com maiúscula? Neil Sands escreveu: «Body art was common in South Pacific nations such as the Cooks, Tonga, Tahiti and Samoa before missionaries arrived in the 19th Century – so much so that the English word tattoo is derived from the Polynesian terms “tatau” and “tatatau”.» E não era para terem escrito Taiti e taitiana? Era, claro.
[Texto 2140]
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Hesitações ortográficas

Eu lembro-me

      «Cerca de três mil ofertas de géneros alimentares e produtos de higiene foram recolhidas na campanha de sábado da Cáritas Diocesana de Coimbra e vão agora beneficiar os utentes do Centro de Apoio Social (CAS) da instituição» («Cáritas angaria 3000 donativos de bens alimentares», Diário de Notícias, 24.09.2012, p. 22).
      Mas não escreviam «Caritas»? Escreviam pois, que eu lembro-me: «Pedidos de ajuda à Caritas crescem 40% com regras nos apoios sociais» (Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 16.02.2011, p. 16). «A guerra tribal entre os grupos Dani e Damal, nas terras altas do Irião Ocidental (a parte indonésia da Nova Guiné), mantém a memória viva — e traduziu-se num morto e 25 feridos, segundo a Caritas» («O homem primitivo ontem, hoje e amanhã», António Pedro Pereira, «DN Gente»/Diário de Notícias, 9.1.2010, p. 20).
[Texto 2139]
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Como se escreve nos jornais

Trapalhada

      «O Tribunal da Relação do Porto absolveu um pescador de Vila do Conde detido pela PSP por andar na rua com uma faca de cozinha num coldre, alegadamente para “tirar desforço” dos homens que o tinham assaltado» («Absolvido o pescador que queria vingar-se de ladrões», Diário de Notícias, 24.09.2012, p. 20). É notícia que está em todos os meios de comunicação, porque é da Lusa. Aquele «tirar desforço», correctíssimo, vê-se logo que foi da pena de um juiz que saiu.
      A redacção da notícia, porém, não é a mais clara. Ora vejam: «Em causa uma faca de cozinha, sem marca, com 19 centímetros de lâmina metálica e com cabo, de plástico, com 10 centímetros.» E, no último parágrafo, lê-se isto: «Condenado em primeira instância, o pescador recorreu para a Relação, que, por acórdão a que a Lusa teve acesso, o absolveu, considerando que não há crime porque não se trata de uma arma “sem aplicação definida”.» Quem não sabe que se deve preferir sempre a frase afirmativa? E depois ainda alguns jornalistas me escrevem a dizer que lhes custa ver a facilidade com que as críticas são feitas. Pois, pois.
[Texto 2138]
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Realocar, relocalizar...

Mais ou menos isso

      Repórter Ana Sofia Rodrigues sobre o incêndio no Retail Park de Portimão, no Jornal da Tarde de ontem: «Por exemplo, do Continente. Eles vieram já garantir em comunicado que os 120 postos de trabalho estão garantidos, que essas pessoas vão ser relocalizadas para outras lojas desta empresa.» (Garantir que estão garantidos...) É qualquer coisa assim, porque no Diário de Notícias de hoje podemos ler: «Os 120 trabalhadores da unidade do Continente vão ser todos realocados, garantiu ontem a rede de hipermercados do grupo Sonae» («Chamas deflagraram meia hora antes de ser dado o alerta», José Manuel Oliveira, p. 18). Faz lembrar a inépcia da modulação, modelação, mod...
[Texto 2137]
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Léxico: «pica»

És bom

      Ando a ouvir com alguma frequência o termo «pica», da gíria. Andarei em sítios mal frequentados? Nãããã. Lembram-se da entrevista de Cristiano Ronaldo no dia 8 de Junho ao programa Alta Definição, da SIC? Não? Nem eu. Mas leiam a penúltima resposta do capitão da selecção: «Que dizem os meus olhos? Que gostei de falar contigo, és pica na tua área, e que quero ser feliz, que tu sejas feliz e que todos os portugueses sejam felizes e boas energias.» Nem os dicionários mais espevitadotes a registam. Amanhã, quem sabe.
[Texto 2136]
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«Consolidação de incêndio»

Já não chega

      Repórter Ana Sofia Rodrigues sobre o incêndio do Retail Park de Portimão: «Neste momento, os bombeiros estão a fazer a consolidação deste incêndio, ou seja, nas zonas onde ainda há algumas chamas, estão a extinguir o fogo, noutras zonas estão já a fazer o rescaldo deste incêndio» (noticiário das 9 da manhã na Antena 1). Lá vem mais outro conceito: consolidação de um incêndio. E eu, ingénuo, a pensar que rescaldo servia para dizer o mesmo. Em compensação, ultimamente têm-se esquecido um pouco das «ignições».
[Texto 2135]
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«Modulação»? Ou «modelação»?

Serve sempre, se não se pensar

      E agora, por ter lido «modulação de voz», lembrei-me da crónica de Ferreira Fernandes na edição de hoje do Diário de Notícias. Ei-la:

«Por estes dias demo-nos conta do nascimento de uma (enfim, duas) palavra oficial, rapidamente caída no goto de políticos, jornalistas e comentadores, tão nebulosa como devem ser as palavras oficiais mas, esta, com uma cândida confissão. Era tão sem nada para dizer que nem era uma, mas duas: ora modelação, ora modulação, e dizia-se uma delas ao calha. Uma ou outra foi dita por Passos Coelho quando, os acontecimentos obrigando-o a arrepiar caminho, ele afirmou que poderia mudar a sua proposta da TSU. Mas disse ele “modelação”? Isto é, tornear, ajustar... Ou ele disse “modulação”? Isto é, passar o canto ou a harmonia para um tom diferente... A primeira hipótese é verosímil, própria do jogo de cintura de qualquer político; mas a segunda também é, vinda de Passos Coelho, que não destoa ao cantar “chamava-se Nini/vestia de organdi”. O uso da palavra inócua não teria interesse, não fosse sindicalistas e políticos, na esteira do primeiro-ministro, passarem a citá-la como crucial. Tão decisiva que uns diziam “modelação” e outros “modulação”... E os jornalistas faziam-lhes eco, ora modelando, ora modulando. Paulo Pinto, professor da Universidade Católica, propôs no blogue Jugular uma palavra nova: “mudlar”, a síncope do “e” ou do “u” poupando-nos esta vergonha. Esta. Para as outras, nascidas do mesmo vício, fica a mezinha tradicional. De cada vez que falarmos, pôr esta dúvida: de que estamos a falar quando estamos a falar?» («Diz lá qualquer coisa que serve», p. 56).
[Texto 2134]
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Sobre «(t)chau»

Então adeus

      Há dois temas sempre polémicos: o da pronúncia e o do gosto. Ambos se discutem, e muito. Por exemplo, não me imagino jamais a usar, para me despedir de alguém, um «chau» ou «tchau». Seria, para mim, quase como abdicar da minha personalidade. Para agravar esse ódio de estimação, acabei de o ver escrito «xau». Não deixam de me surpreender, os meus semelhantes (para usar uma expressão muito empregada pelo actor Ruy de Carvalho. Ah, sim, o i grego: peçam-lhe que abdique dele, vá lá).

[Texto 2133]
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Como se escreve nos jornais

Mal vindimado

      «Assunção Cristas pegou na tesoura e no balde e foi cortar uvas numa vindima no Douro, para mostrar que está atenta às dificuldades que afetam a viticultura duriense. [...] No meio do valado, Assunção Cristas pegou na tesoura e no balde e lá mostrou que já sabe cortar uvas. Mas não evitou colher, mais tarde, um coro de protestos: 20 viticultores forçaram a entrada no Solar do Vinho do Porto, na Régua, na tentativa de falarem com a ministra da Agricultura, que ainda não tinha chegado ao espaço» («Ministra foi à vindima mas colheu coro de protestos», Diário de Notícias, 23.09.2012, p. 34).
      «Cortar uvas»?! Só um citadino, pouco lido e completamente desatento ao que se diz, é que pode escrever isto. E em relação a valado também tenho dúvidas. Valado é a vala, sebe ou elevação de terra que cerca uma propriedade. Era isso que o jornalista queria escrever?
[Texto 2132]
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Antuérpia e não Amberes

Agora em espanhol, é?

      «O Governo belga está a estudar a possibilidade de vir a criar uma prisão flutuante no porto de Amberes e assim contornar o problema de sobrelotação das instituições prisionais. A ministra da Justiça belga, Annemie Turtelboom, disse que a ideia de construir “barcos-prisão” pode estender-se a outros pontos do país. Turtelboom lembrou que na Holanda já foram desenvolvidos projetos semelhantes» («Bélgica pode criar prisão flutuante», Diário de Notícias, 23.09.2012, p. 27).
[Texto 2131]
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Andam a pesquisar

Ficamos tontos

  1. «Para já, mostra apenas o protótipo em acrílico e as imagens em PowerPoint que convenceram os investigadores, não tendo ainda testado a invenção, que garante possuir “múltiplas aplicações”» («Um motor que consome metade do gasóleo», Roberto Dores, Diário de Notícias, 23.09.2012, p. 30);
  2. «Num livro escrito por Paul Fletcher, antigo dirigente do Burnley, o autor conta que o clube da II Liga inglesa, e que em 2010 jogou no escalão principal, esteve perto de ser treinado por André Villas-Boas. “O seu [de Villas-Boas] currículo e apresentação em powerpoint eram incríveis» («Vilas-Boas e o leiteiro», O. M., Diário de Notícias, 8.09.2012, p. 35);
  3. «A receita da deslocação foi aliar a teoria, dando oportunidade aos responsáveis locais para exposições em power point da obra feita em matéria de apoio social, à prática, com visitas a duas aldeias onde os exemplos são positivos» («Cavaco Silva na descida aos País: “Sou um ouvidor”», Maria Henrique Espada, Diário de Notícias, 30.05.2006, p. 2).
[Texto 2130]
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Léxico: «repostar»

Única abonação

      Então a frase é mais ou menos assim: «Um aparte a que a minha madrinha, se estivesse acordada, repostaria com a sua árida voz.» Mais uma palavra a cair em desuso: repostar, ou seja, replicar, responder. A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira regista-o como verbo transitivo, o que é, evidentemente, um erro. Antero de Figueiredo usou-o no romance Leonor Teles: «— ¿Senhora, que êrro fiz para tal? — repostou, atónito, o despercebido fidalgo» (Livrarias Aillaud e Bertrand, 1918, p. 225).
[Texto 2129]
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Léxico: «antiguerrista»

Assim sim

      «Grupos antiguerra criticam Obama por equipa de ‘falcões’» (Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 21.11.2008, p. 32). Sim, já passaram uns anos, mas não é raro ouvir-se o vocábulo «antiguerra». Há minutos, porém, no programa da Antena 1 A Vida dos Sons, alguém falou, a propósito do ambiente que se vivia em Portugal no início da Primeira Guerra Mundial, em «grupos guerristas e anteguerristas».
      «O resultado foi o aparecimento dum exército fortemente politizado e extremado em duas facções principais: de um lado uma oficialidade monarcófila que se havia mostrado fortemente antiguerrista e que temia o avanço dos democráticos (a quem apelidavam de “seita demagógica”) e o retorno a uma situação política igual ou parecida com a que se vivera antes da revolução dezembrista; do outro lado, oficiais de fundadas convicções republicanas e que viam, com razão, nas acções e movimentações dos primeiros, [sic] o perigo de uma tentativa de restauração monárquica» (Leonardo Coimbra e a I República. Percurso Político e Social de Um Filósofo, Fernando Mendonça Fava. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2008, p. 73).
[Texto 2128]
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Sobre «prelado»

Não há-de ser a última vez

      «As zeladoras não gostaram e foram falar com o pároco. O prelado, porém, etc.» Já aqui tinha denunciado este erro, agora agravado por o autor ter sido seminarista. O termo «prelado» usa-se somente para referir um bispo, nunca um padre.
[Texto 2127]
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«Segunda Grande Guerra Mundial»

Parece-me bem

      É assim — tudo com maiúsculas iniciais — que também se lê na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira: «Antes da Segunda Grande Guerra Mundial a Silésia alemã era a principal fornecedora de cereais, gado, animais de capoeira, ovos, hortaliças, frutas e beterraba para toda a Alemanha» (vol. 28, p. 730).
[Texto 2126]
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«“Clistel” existe?», perguntam-me

Onde é que isso se mete?

      Deixa-o dizer «clistel»... «Chama-se clyster, cristél, ajuda ou mézinha (corrupção de medicina) a injecção de um líquido que se faz no intestino recto por meio de uma seringa», lê-se no Dicionário de Medicina Popular de Pedro Chernoviz. E na Luz da Medicina Prática, Racional e Metódica, Guia de Enfermeiros (Lisboa, 1664), do viticastrense (outro vocábulo fora dos dicionários) Francisco Morato Roma, médico da câmara dos reis D. João IV e D. Afonso VI, lê-se, na página 289, clistel.
[Texto 2125]
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Sim, é «sepsia»

E amanhã, como será?

      Ontem: «Presidente da Sociedade de Língua Portuguesa, morreu aos 70 anos vítima de sépsia, em Faro. Licenciada em Filologia Românica, era colaboradora do Ciberdúvidas, portal online de Língua Portuguesa. Foi autora de várias publicações» («Elsa Rodrigues dos Santos», Diário de Notícias, 20.09.2012, p. 43).
      Hoje: «A especialista em literaturas africanas de língua portuguesa não resistiu a uma sepsia (infeção generalizada)» («Uma mulher ‘apaixonada’ pela língua portuguesa», Diário de Notícias, 21.09.2012, p. 43).
[Texto 2124]
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«Alta-sapataria»?

Dos pés à cabeça

      «O neto do sapateiro Prudêncio faz alta-sapataria» (Dora Mota, Notícias Magazine, 16.09.2012, p. 31). Quando aqui falei em incoerências ortográficas, ainda não tinha lido esta «alta-sapataria». Assim, já a «alta-costura» não se sente sozinha.
[Texto 2123]
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Léxico: «intender»

Diogo Inácio também intendia

      «O Concílio Vaticano II não intendeu fechar portas ou responder a questões que ainda estão a ser debatidas, nos nossos dias, pelos teólogos.» De dez em dez anos, encontro este verbo. Primeira surpresa: esta acepção não está no Houaiss nem na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. É verdade. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, como verbo transitivo significa (como já significava em latim) ter intenção de. A acepção que talvez todos registem é a de superintender, exercer direcção e vigilância. O intendente-geral da Polícia Pina Manique, homem de antes quebrar que torcer, era isso que fazia: intendia. Entendido?
[Texto 2122]
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A atenção e o «foco»

Demasiado científico...

      «A investigadora portuguesa envolvida no estudo, Anabela Cruz-Santos, explicou à Lusa que a necessidade de mudar de língua frequentemente ativa um mecanismo cerebral – sistema de controlo executivo – que ajuda a orientar a atenção e manter o foco» («Ser bilingue traz melhores resultados», Diário de Notícias, 20.09.2012, p. 17).
[Texto 2121]
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«Crime formigueiro»

Sem dignidade processual

      «Os pequenos furtos em supermercados são considerados crimes semipúblicos, pelo que o Ministério Público (MP), face ao quadro legal ainda em vigor, pode avançar com a acusação sem que o lesado deduza queixa particular e gaste qualquer cêntimo em taxas de justiça. Mas em certas circunstâncias os procuradores podem arquivar o processo, invocando o artigo 207.º do Código Penal, relativo ao chamado “crime formigueiro”, sem dignidade processual» («Lidl desiste de queixa contra sem-abrigo», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 20.09.2012, p. 21).
[Texto 2120]
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«Mandato/mandado»

Tudo o que for parecido...

      ... será confundido, sobretudo por quem não reflecte sobre a língua: «A polícia entrou ontem nas instalações da revista Closer, em Montrouge, nos arredores de Paris, com um mandato judicial que lhe permite realizar buscas a fim de descobrir quem vendeu as imagens à publicação e que “violou o direito à privacidade do casal”» («Polícia procura ‘paparazzo’ que apanhou duquesa em ‘topless’», F. M., Diário de Notícias, 20.09.2012, p. 53).
[Texto 2119]
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Deixou de ser «xeque»

E outro

      «Na história da Benetton, a procura do “desemprego do ano” sucede aos “beijos impossíveis” entre vários líderes mundiais, que foi tornada pública em novembro do ano passado e tinha como objetivo promover a tolerância entre os povos. Mas os “beijos” entre Barack Obama e Hugo Chávez, Nicolas Sarkozy com a chanceler alemã, Angela Merkel, e o Papa Bento XVI ao sheik da mesquita Al-Azhar não duraram muito tempo e foram proibidas» («‘Desempregado do ano’ é jovem e não é preguiçoso», Fernanda Mira, Diário de Notícias, 19.09.2012, p. 51).
      Então não era «xeque» que escreviam? Era pois, que eu lembro-me: «O xeque Tantawi não era apenas a figura tutelar da maior e mais antiga escola islâmica em todo o mundo, mas também um dos religiosos mais influentes do islão. Foi grande mufti do Cairo e era responsável máximo pela Mesquita Al-Azhar, na capital egípcia, que gere uma universidade com mais de mil anos» («Voz moderada do islão sunita evitou a radicalização egípcia», Diário de Notícias, 11.3.2010, p. 45).
[Texto 2118]
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Deixou de ser «râguebi»

Outro retrocesso

      Sim, e isso também: então não era «râguebi» que escreviam? Era pois, que eu lembro-me: «Nas modalidades colectivas, Portugal está classificado atrás da Espanha nos rankings europeus e internacionais. O râguebi é a excepção que confirma essa regra e amanhã no Estádio Universitário de Madrid (15.00) a selecção nacional é favorita no encontro com a sua congénere espanhola» («Râguebi é excepção à regra em duelos com Espanha», Madalena Esteves, Diário de Notícias, 11.03.2011, p. 44).

[Texto 2117]
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Tradução: «slurry tank»

Desconfiar, por princípio

      «Jogador de rugby de apenas 22 anos, fazia parte dos quadros da equipa do Ulster, uma das quatro formações profissionais da Irlanda do Norte. Nevin morreu juntamente com o irmão e o pai quanto [sic] tentavam salvar um cão de um poço» («Nevin Spence», Diário de Notícias, 19.09.2012, p. 43).
      A imprensa de língua portuguesa ora fala de poço, ora de tanque, ora de tanque de lama. Quis tirar a coisa a limpo. O Guardian titula: «Ulster rugby star Nevin Spence died in slurry tank trying to save father». É uma versão mais crível, mas não é disso que quero falar. Reparem: tudo aconteceu num slurry tank. Poço? Tanque? Neste regulamento da Comissão Europeia, lê-se «reservatório de chorume»: «Tanque, feito geralmente de material impermeável, utilizado para o armazenamento de chorume.» Na versão inglesa, corresponde a slurry tank: «Tank, usually made of impermeable material, used for the storage of slurry.» Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, chorume (com a variante, hoje em dia já não registada nos dicionários, churume) é a gordura que ressuma da carne; suco e, em sentido figurado, substância, opulência, abundância. Nenhuma que se adeqúe propriamente ao contexto. Mas o Houaiss (repetindo o que regista o Aulete) diz que é o «líquido que escorre da estrumeira e que se acrescenta ao estrume seco para enriquecê-lo como adubo».
[Texto 2116]
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Perifrástica, de novo

Outra vez

      «Os três foram algemados, pois haveria de confirmar-se que se tratava efetivamente de um refém» («Força especial da Polícia Marítima reforça combate ao crime», Licínio Lima, Diário de Notícias, 19.09.2012, p. 20).
      Ainda na semana passada vimos que a perifrástica, no condicional, se constrói com o auxiliar no pretérito imperfeito do indicativo (havia de) e com o verbo principal no infinitivo (confirmar-se).

[Texto 2115]
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Nomenclatura científica

Não há transmissão de saber

      «A Listeria Monocytogenes, bactéria encontrada nos queijos, afeta sobretudo grávidas, bebés ou adultos com o sistema imunitário debilitado» («Queijo fresco com bactéria não está à venda em Portugal», Ana Maia, Diário de Notícias, 19.09.2012, p. 13).
      Dois erros, cara Ana Maia: devia estar em itálico e o segundo nome é, já o vimos muitas vezes, com minúscula inicial.
[Texto 2114]
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«Autodemissão»

Mais uma para poluir

      «A autodemissão por carta do diretor da Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), Pedro Dias, continua a gerar polémica nas redes sociais devido ao teor muito crítico do que escreveu ao bater a porta» («Carta violenta sem comentário de F. José Viegas», João Céu e Silva, Diário de Notícias, 19.09.2012, p. 9).
      Se demissão — qualquer dicionário, bom ou mau, o diz — é o acto ou efeito de demitir ou de se demitir, é claro que semelhante invencionice é completamente desnecessária e mal-vinda.

[Texto 2113]
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Homógrafas no AOLP90

Horrível, mas coerente

      «A namorada de Cristiano Ronaldo não para. Depois da estreia como apresentadora no concurso Russias’s Next Top Model, Irina Shayk volta a dar cartas na moda. A modelo russa foi escolhida pela quarta temporada consecutiva para protagonizar a campanha outono/inverno de uma marca de calçado espanhola» («Namorada de Ronaldo sedutora com sapatos», Diário de Notícias, 18.09.2012, p. 53).
      Assim está bem: se o Acordo Ortográfico de 1990 manda suprimir o acento gráfico nesta e noutras homógrafas, é isso que deve fazer quem adoptou as novas regras ortográficas.
[Texto 2112]
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Léxico: «defecção»

É pena

      «O processo do chefe da polícia chinesa Wang Lijun, ex-braço direito [sic] do antigo dirigente Bo Xilai, foi ontem iniciado à porta fechada num tribunal de Chegdu (Leste). “O processo de Wang Lijun começou esta manhã”, declarou Wang Yuncai em nome do seu cliente, que responde às acusações de defeção, abuso de poder e corrupção, no âmbito de um escândalo de grandes dimensões que está a abalar o Partido Comunista Chinês, no poder em Pequim» («Julgado ex-aliado de político Bo Xilai», Diário de Notícias, 18.09.2012, p. 27).
      Boa palavra, pena que lhe tenham tirado o c... O mesmo que deserção, desaparecimento, abandono, desistência, apostasia, rebelião. «Donde resulta que, se os magnates quisessem por acaso fazer defecção, não só os não seguiriam mas deles viriam a afastar-se inteiramente como de violadores da lealdade devida aos reis» (Missão dos Embaixadores Japoneses, tomo I, Duarte de Sande. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2010, p. 264).
[Texto 2111]
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Agora deixou de ser «basebol»

Sempre a mudar — para pior

      «O ator [sic] faz de Cameron na série Uma Família muito Moderna, [sic] foi escoltado por seguranças para abandonar temporariamente um jogo de baseball, no domingo passado. De acordo com o site TMZ, o incidente ocorreu após trocas verbais entre Eric Stonestreet e um apoiante de outra equipa» («Ator de ‘Modern Family’ em sarilhos», Diário de Notícias, 18.09.2012, p. 53).
      Mas não escreviam «basebol»? Escreviam pois, que eu lembro-me: «A confirmar-se a transferência, Teixeira, actualmente sem equipa, irá ingressar no clube mais famoso do basebol estado-unidense» («Luso milionário no basebol dos EUA», R. M. S., 26.12.2008, p. 17). E até «beisebol»: «Mesmo para passar o tempo há muita gente que joga a bisca dos nove, faz um desenho com nove espaços para o jogo do galo, vai ver os golos que no futebol são marcados sobretudo pelo camisola 9, tenta perceber as manobras dos nove jogadores da equipa que defende no beisebol» («A nossa vida de cada dia costuma abrir às nove», Fernando Madaíl, «DN Gente»/Diário de Notícias, 3.01.2009, p. 20).
[Texto 2110]
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Para traduzir «paper»?

Será isso?

      «A crítica do juiz-conselheiro, cujo segundo mandato à frente do STJ termina em março, explica-se com a mudança de critérios na graduação dos magistrados que se apresentam como candidatos a conselheiros: antes, era mais valorada a experiência profissional, os anos passados no tribunal, os casos complexos em que estiveram envolvidos. Agora, é mais valorada a análise curricular: mestrados, doutoramentos, escritos, cursos de especialização, em detrimento da experiência pessoal» («Juízes de carreira a caminho de extinção no Supremo», Licínio Lima, Diário de Notícias, 15.09.2012, p. 17).

[Texto 2109]
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Léxico: «photo op»

Temos mesmo de aprender inglês

      «O caso do tigre não é o único. Putin recorre a estas “photo op” – expressão inglesa para os eventos criados a pensar na cobertura mediática – para reforçar a sua imagem de homem de ação. Já surgiu, por exemplo, a pôr uma etiqueta eletrónica num urso polar ou num leopardo das neves antes de o libertar. Para não falar das imagens a pescar ou a andar a cavalo (sem camisa). Mas as encenações vão para lá dos animais, tendo também sido filmado a “descobrir” uma ânfora grega no mar Negro» («Putin admite encenação das proezas com animais», Susana Salvador, Diário de Notícias, 15.09.2012, p. 28).

[Texto 2108]
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«Luso-descendente/lusodescendente»

Sempre ao contrário

      «“A probabilidade de a anulação da confissão ser aceite era muito pouca, como também é de esperar pouco sucesso na ilibação”, antecipa Tony Castro, ex-procurador do Bronx. Este luso-descendente admite que a aceitação desta “prova” pode fragilizar a defesa, mas cabe agora a Touger “usar o melhor que puder, sabendo que vai ser entregue aos 12 jurados”. O ex-procurador do Bronx admite que “ao nível psiquiátrico pode ajudar”. Contudo, lembra que “não confessou só o crime, também estão lá todos os detalhes do que aconteceu e numa situação em que não havia testemunhas”» («Juiz valida confissão de homicídio e defesa mantém tese de insanidade», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 15.09.2012, p. 45).
      Para quê comentários? Vejam aqui.

[Texto 2107]
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Plural de «Xanax»

E falam assim?

      «Depois do arguido, que se encontra em prisão preventiva, foi ouvido o médico que o seguia, o qual adiantou que o seu paciente tomava medicamentos para a depressão. Na sua confissão, Nélson Pita adiantou que no dia do assalto tomou “quatro Xanax”» («Assaltou banco para dar de comer à família», Diário de Notícias, 14.09.2012, p. 20).
      É então assim que escrevem o plural? Pois está mal. «Com a pancada, ele aumentou as doses de xanaxes e de cerveja com bagaço e deu cabo do resto dos circuitos da cabeça, que andavam mal desde os tratamentos em miúdo» (E Se Eu Gostasse muito de Morrer, Rui Cardoso Martins. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007, 3.ª ed., p. 117).
[Texto 2106]
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Até com os nomes próprios

Falta de memória

      «“Sim, eu sei que o leopardo foi capturado antes. Mas o principal é chamar a atenção para o problema. É como as ânforas. Todos começaram a gritar que aquela ânfora tinha sido plantada ali. Claro que foi plantada”, disse Putin a Masha Gessen. Segundo a Reuters, a jornalista é crítica do Presidente e foi despedida do cargo de editora de uma revista de viagens depois de recusar enviar os repórteres para a última encenação: o voo num ultraleve ao lado de grous brancos» («Putin admite encenação das proezas com animais», Susana Salvador, Diário de Notícias, 15.09.2012, p. 28).
      Também já tínhamos visto esta estranha coisa. Mais misterioso é que o nome da jornalista já apareceu no DN com outra grafia: «“As expedições com a participação de Putin têm a sua especificidade, basta recordar o salvamento de tigres ou a descoberta de ânforas. Até pode acontecer que as árvores estejam amarradas a paus e o dever profissional do correspondente é escrever sobre isso”, justificou Macha Hessen» («Putin orientou cegonhas», Diário de Notícias, 7.09.2012, p. 6). Mesmo que, o que não importa averiguar agora, se possa transliterar das duas formas, convinha que o jornal usasse sempre a mesma.

[Texto 2105]
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Tradução: «application»

Só visto

      «Mil aplicações. Portugal é um dos países com maior número de candidaturas para preencher 120 lugares nas Nações Unidas» («Enchente de candidatos para trabalhar na ONU», Diário de Notícias, 15.09.2012, p. 14).
      Têm razão: parece mentira, mas é só um entre muitas centenas de erros completamente descabelados. Application é a candidatura a um emprego, não se traduz por «aplicação».
[Texto 2104]
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Aspas escusadas

Poucos escapam à mania

      «Os “irmãos” da Loja Pátria defenderam, tal como o DN revelou, que “todo o maçom tem de ter uma conduta pessoal, profissional, cívica e política irrepreensíveis e que, caso contrário, deve ser rapidamente julgado pelo tribunal maçónico”» («Grão-mestre castiga maçom que quis expulsar Relvas», Carlos Rodrigues Lima e Rui Pedro Antunes, Diário de Notícias, 15.09.2012, p. 10).
      Se «irmão» também é o «membro de confraria, da maçonaria, etc.» (como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora), para quê as aspas?
[Texto 2103]
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Léxico: «blueberries»

E insistem

      «O robô Opportunity da NASA capturou imagens de formações rochosas raras na superfície do planeta. Os objetos esféricos de 3 mm de diâmetro foram confundidos com blueberries (reservas de hematite). No entanto, os cientistas já confirmaram que não se trata das mesmas formações encontradas em outros locais de Marte» («Novas imagens intrigam cientistas», Diário de Notícias, 18.09.2012, p. 30).
      Há aqui um grande desencontro: eles querem que aprendamos inglês, nós queremos que eles aprendam português.
[Texto 2102]
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Plural: «Jupíteres»

Ainda não aprenderam

      «Os astrónomos da NASA descobriram, pela primeira vez, dois planetas que orbitam estrelas semelhantes ao nosso Sol, num aglomerado com cerca de mil estrelas – o Beehive (Colmeia, em português), na Constelação de Caranguejo. Os planetas são dois júpiteres quentes, que se movimentam próximo das suas estrelas» («Dois júpiteres orbitam estrela como o Sol», Diário de Notícias, 18.09.2012, p. 30).
      Claro que já vimos este erro, foi aqui. Estranho é que no jornal não aprendam.
[Texto 2101]
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Léxico: «cabeceira»

Esta é rara

      «As reservas de água armazenada nos pântanos da cabeceira do Tejo, em Entrepeñas e Buendía, perderam quatro hectómetros cúbicos (hm3) na última semana, estando a 23,67% da sua capacidade total (1.639 hm3), de acordo com dados da Confederação Hidrográfica do Tejo divulgados hoje pela agência EFE» («Reservas nos pântanos do Tejo a 24% da capacidade», Jornal de Notícias, 18.09.2012, p. 11).
      Não é todos os dias que lemos ou ouvimos esta acepção de «cabeceira»: nascente de um rio.

[Texto 2100]
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Léxico: «vintil»

Ora, parece-me que sim

      Se o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe o termo «centil» — aliás muito mal explicado: «denominam-se decis 0, 1, 2, ... 10 os valores da variável estatística, tais que 0%, 10%, 20% ... 100% das observações lhe são inferiores» —, não devia acolher também o termo «vintil»? O mais próximo que regista, porém, é «vinil»...
[Texto 2099]
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Sobre «saibro»

É difícil explicar...

      «Foi durante a remoção de quatro altares barrocos da capela de Santa Comba, em Baião, que se descobriu um verdadeiro tesouro: uma pintura do final do século XV numa delicada película sobre o saibro da parede» («Pintura mural de valor incalculável achada em capela», Ana Carla Rosário, Jornal de Notícias, 17.09.2012, p. 22).
      Parece-me, a avaliar pela amostra de meia dúzia que consultei, que os dicionários não se põem inteiramente de acordo sobre o que é saibro.
[Texto 2098]
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Gerúndio

Viajando no Alentejo

      Anteontem, ao passar na serra do Cercal, no Alentejo, viam-se muitos trabalhadores à beira da estrada e um sinal em que se podia ler: «Máquinas pintando». E lá vi, alguns quilómetros mais adiante, máquinas pintando.
[Texto 2097]
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Léxico: «Queruscos»

Vão desaparecendo

      Se alguém quiser saber o que significa Queruscos (acabei de ler numa obra que estou a rever), vai ter de recorrer a uma enciclopédia. Se não tiver acesso à internet, claro. Os dicionários gerais da língua não o registam. Na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira: «Antigo povo da Germânia» (Vol. 24, p. 15).

[Texto 2096]
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«Interpor recurso para ou a»?

Já que a língua é a mesma

      Jornalista Olga Tancredo, na emissão das 6 da tarde do Rádio Jornal, na Rádio Nacional de Angola: «No final do encontro, o porta-voz da CASA-CE [Convergência Ampla de Salvação de Angola-Coligação Eleitoral], Lindo Bernardo Tito, afirmou que aquela coligação vai interpor recurso ao Tribunal Constitucional dentro dos prazos previstos por lei.» O mais habitual é usar-se a construção «interpor recurso para».
[Texto 2095]
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Perifrástica

Logo os dois?

      «A primeira aula de Carlos Fiolhais foi em 1962. “Já lá vai meio século!”, exclama o catedrático de Coimbra, que haveria de doutorar-se em Física Teórica, vinte anos depois do primeiro dia de escola, na Alemanha. [...] Olhando para o seu percurso, é curiosa a confissão: “A minha meta era o exame da 4.ª classe.” Fiolhais é responsável pelo passo em frente da Física em Portugal, mas diz: “Não fazia ideia de que haveria de passar na escola os próximos 20 anos da minha vida. E não podia imaginar que os 30 anos seguintes também os ia passar na escola.”» («“Chorei baba e ranho no primeiro dia”», Jornal de Notícias, 13.09.2012, p. 9).
      Já vimos que a perifrástica, no condicional, se constrói com o auxiliar no pretérito imperfeito do indicativo (havia de) e com o verbo principal no infinitivo (doutorar-se e passar).

[Texto 2094]
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«Chefiar» reabilitado

Um pouco, pelo menos

      «Ana Cristina Jorge inspetora superior do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), vai chefiar a unidade de operações da agência europeia Frontex, a Agência Europeia de Gestão da Cooperação Operacional nas Fronteiras Externas dos Estados-Membros da União Europeia, a partir de do dia 1 de novembro» («Portuguesa vai chefiar agência europeia», Jornal de Notícias, 13.09.2012, p. 6).
      Ena, ena, até já estão a esquecer-se um pouco do tal verbo.
[Texto 2093]
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Tradução: «fiscal anticorrupción»

Traduziram mal

      «Segundo o El País, nos últimos meses o juiz e o fiscal anticorrupção que tem conduzido este caso têm defendido que o estatuto de organização não governamental do Instituto Nóos era “aproveitado” para realizarem negócios lucrativos com o governo regional de Valência, organizando assim eventos para os quais cobravam taxas muito elevadas, envolvendo o dobro ou até o triplo do preço real do serviço prestado» («Genro do Rei acusado de desviar três milhões», João Moço, Diário de Notícias, 11.09.2012, p. 26).
      Continuam a traduzir, erroneamente, fiscal anticorrupción por «fiscal anticorrupção», o que já tínhamos visto aqui. Também temos fiscais, mas exercem outras funções.
[Texto 2092]
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Tradução: «con»

Traduziram bem

      «Na primeira página do jornal, o magnata aparece com uma mala de viagem e um sorriso na cara, uma imagem que critica a sua possível fuga ao fisco francês. “Vai-te lixar, rico estúpido!” [Casse-toi, riche con!], pode ler-se no título da manchete da publicação» («‘Libération’ critica dono da Louis Vuitton», Diário de Notícias, 11.09.2012, p. 53).
      É um mero pretexto para trazer para aqui a língua francesa. Quem não estiver farto do inglês levante a mão. Ah, ninguém...
[Texto 2091]
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Roth não é fonte credível

Então quem é?

      «Segundo o diário espanhol ABC, o escritor Philip Roth fez um pedido à enciclopédia online Wikipedia para que corrigisse uma informação relacionada com o seu último romance, A Mancha Humana. Todavia, de acordo com uma carta que o escritor publicou na revista New Yorker, os responsáveis pela Wikipedia não consideraram o próprio autor uma “fonte credível”, pedindo por isso mais fontes» («Escritor não é “fonte credível”», Diário de Notícias, 11.09.2012, p. 49).
[Texto 2090]
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Tradução: «contactless»

Difícil, não haja dúvida

      «Esta teoria está cada vez mais perto de se tornar numa realidade: os primeiros cartões contactless chegam a Portugal já no próximo mês» («Cartão sem código chega a Portugal em outubro», Tiago Figueiredo Silva, Diário de Notícias, 12.09.2012, p. 31).
      É palavra com que iremos topar com frequência nos próximos tempos. Como se fosse impossível traduzi-la.
[Texto 2089]
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Com maiúsculas, pois claro

Para os teimosos

      «Desde Tucídides, pelo menos, que a grande História é também grande literatura. Mas não precisamos de recuar até aos Gregos e Romanos da Antiguidade Clássica. Temos excelentes exemplos intramuros, de Fernão Lopes, João de Barros e D. Francisco Manuel de Melo, a Alexandre Herculano, Oliveira Martins, Jaime Cortesão e Magalhães Godinho, isto para não falar dos vivos. Eu gostaria de aproximar a clareza da exposição e a limpidez do estilo conseguidas nesta obra desse exigente nível literário que gera no espírito do leitor o encantamento pela qualidade da prosa e uma equivalente avidez da leitura para saber, não como é que a história “acaba”, mas sim como é que ela continua...» («Uma ‘História de Portugal’», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 12.09.2012, p. 54).
[Texto 2088]
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«Bomba de extracção de água/motobomba»

Mas entretanto

      «O monóxido de carbono é um gás altamente letal e pode ter sido libertado por uma bomba de extração de água, que, soube o JN junto de fonte próxima das equipas de socorro, existe no poço. O qual, sublinhe-se, tapado com uma placa de betão, com uma pequena abertura onde cabe um homem e, também ela, com tampa de ferro, o que dificulta a ventilação. Aquele gás é um veneno silencioso, não detetável pelos sentidos. Uma vez inalado, entra na corrente sanguínea, chega às células e inativa os órgãos» («Autópsias confirmam morte por intoxicação», Eduardo Pinto e Margarida Luzio, Jornal de Notícias, 12.09.2012, p. 30).
      Cá está: neste jornal, não se fala em motobomba, mas em bomba de extracção de água. Entretanto, ainda não veio nenhum entendido esclarecer-nos sobre o funcionamento de uma motobomba, de que falei aqui.
[Texto 2087]
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«Dominava 33 línguas»

Hipérboles jornalísticas

      «Ernesto de la Peña. O pensador mexicano que morreu aos 84 anos recebeu, no dia 7, o Prémio Internacional Méndez [sic] Pelayo 2012. Dominava 33 línguas e era conhecido pelo seu humanismo. Foi escritor, filólogo, tradutor e difusor cultural do México» («Ernesto de la Peña», Diário de Notícias, 12.09.2012, p. 30).
      Andamos aqui nós a estudar diuturnamente uma, a nossa, e mal a arranhamos. Este prodígio dominava 33 línguas. Só não desisto porque até aos 84 anos ainda falta muito.
[Texto 2086]
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Léxico: «à jeira»

Esta escapou

      «A morte de cinco pessoas que trabalhavam à jeira no interior de um poço de betão armado onde desemboca uma antiga mina continua um mistério para a população de Vilela Seca» («“Se ficava mais um minuto no poço morria”», Margarida Luzio, Jornal de Notícias, 10.09.2012, p. 22).
      À jeira, isto é, a dias. Extraordinário, vendo bem, é que ainda não tenha desaparecido dos dicionários.

[Texto 2085]


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Harry, monarca

Não digam disparates

      «Um porta-voz do movimento insurgente afirmou que a chegada do monarca ao Afeganistão é puramente simbólica e prevê que Harry não sairá da base de Camp Bastion» («Talibãs dizem que ida do príncipe Harry é apenas ato de propaganda», Jornal de Notícias, 10.09.2012, p. 30).
[Texto 2084]
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«Grupeta»?

O Facebook é uma maravilha

      «Apaixonada pelo hipismo desde que gravou “Feitiço de Amor” (TVI) onde dava vida à tratadora de cavalos Alice, Rita Pereira aproveitou o fim de semana para matar saudades. “Vim até ao Concurso de Saltos do Vimeiro com uma grupeta de atores. Vamos lá ver quem ganha”, contou a jovem aos fãs no Facebook» («Rita Pereira caiu do cavalo», Filomena Araújo, Jornal de Notícias, 10.09.2012, p. 44).
      Nunca li nem ouvi. Só grupeto: «conjunto de três ou quatro notas musicais, ornamentais, que se executam com muita rapidez», segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

[Texto 2083]
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Uso de termos estrangeiros

O leitor é inteligente

      «Em sinal de boas-vindas, receberam-na com uma lei havaiana, cordão que rapidamente Mio pôs ao pescoço» («Conhecer novas culturas sem sair de Portugal», Gina Pereira, Jornal de Notícias, 10.09.2012, p. 23).
      Uma adolescente japonesa de 15 anos, num programa de intercâmbio, recebida com uma lei havaiana... Ora esta! Se o desgraçado do leitor não souber que na língua havaiana lei é o colar ou grinalda de flores que se oferece aos visitantes na chegada e na partida, como símbolo de afeição, não vai perceber patavina. Só o uso do itálico ou das aspas já despertaria a atenção do leitor, precaução mínima para obviar equívocos.
[Texto 2082]
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Léxico: «fanfar»

Mas este está

      «Claro que é e veja que ainda hoje há o jogo do pau. Mas mesmo com o monumento distante do tribunal, com Fafe ninguém fanfe, como diz a inscrição na estátua. É por isso que lhe queremos dar mais dignidade, porque o pau é muito típico por cá. No século passado era muito utilizado pelos agricultores nas feiras. Uns para conduzir o gado, outros para se apoiarem, até quando já estavam com os copos e outros como arma de defesa. As discussões acabavam muitas vezes à paulada entre as pessoas. Sempre era melhor do que as pistolas usadas hoje» (presidente da Câmara Municipal de Fafe, José Ribeiro, em entrevista a Roberto Dores. «“Mesmo com o monumento distante do tribunal, com Fafe ninguém fanfe”», Diário de Notícias, 10.09.2012, p. 22).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe o verbo fanfar: fanfarrear; bazofiar; gabar-se; bater. No Glossário Sucinto para Melhor Compreensão de Aquilino Ribeiro, de Elviro da Rocha Gomes, também o encontramos: «responder insolentemente, fanfarrear».
[Texto 2081]
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Léxico: «rusga»

Nada de polícias

      «A organização das Feiras Novas, que hoje terminam e encerram o ciclo das grandes romarias do Alto Minho, estima que cerca de meio milhão de forasteiros tenha passado por Ponte de Lima. Rusgas com mais de 400 cantadores ao desafio e tocadores de concertina foi um dos pontos de destaque, desde a noite de sábado até ao nascer do sol de ontem, juntando cantadores e tocadores profissionais a muitos outros que vão aderindo à festa de uma forma espontânea. A Feira do Gado e os concursos pecuários são também “números” obrigatórios da festa, envolvendo mais de meio milhar de cabeças de gado e dezenas de produtores. Hoje será a procissão e outras cerimónias religiosas. As Feiras Novas foram criadas pelo Rei D. Pedro IV, por provisão de 5 de maio de 1826, há 181 anos» («Feiras Novas encerram ciclo de romarias», Diário de Notícias, 10.09.2012, p. 23).
      Neste caso, como é óbvio, não é a operação policial ou militar, antes sinónimo de tocata.

[Texto 2080]
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O desgraçado verbo «haver»

Nem os ministros sabem

      «O ministro dos Negócios Estrangeiros português anunciou ontem que o Governo venezuelano desbloqueou o equivalente a 50 milhões de euros para pagar dívidas a empresas portuguesas. Paulo Portas, citado pela Lusa, falava no fim da 7. ª reunião da Comissão de Acompanhamento Bilateral Portugal/Venezuela. “Havia cerca de 50 milhões de euros que estavam pendentes e foram desbloqueados” para pagamentos a empresas lusas, nomeadamente das “áreas agroalimentar, conservas e medicamentos”, indicou Portas, adiantando: “Para as empresas portuguesas que fazem vendas para a Venezuela é muito importante neste momento não haverem muitos atrasos nos pagamentos.” “Estes pagamentos ficaram, graças a Deus, resolvidos com muito espírito entre as duas partes”, acrescentou» («Chávez paga 50 milhões a empresas portuguesas», Diário de Notícias, 10.09.2012, p. 13).
      Erro é erro, mas ainda bem que Paulo Portas não é ministro da Educação. Pelo menos isso.

[Texto 2079]
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Panoias

Alguém lhes explica?

      «Cinco pessoas sofreram ontem ferimentos ligeiros na sequência de um choque em cadeia que envolveu cinco viaturas ligeiras no IC1, na zona de Ourique. O acidente ocorreu às 15.39, junto à localidade de Panoias. Os cinco feridos receberam tratamento no local, uma vez que apresentavam apenas “escoriações”, acrescentou fonte dos bombeiros» («Choque em cadeia causa cinco feridos», Diário de Notícias, 10.09.2012, p. 23).
      Era bom que percebessem que, segundo o Acordo Ortográfico de 1990, que adoptaram, também se passou a escrever Saboia. Mas não há meio.
[Texto 2078]
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Os Ianomâmis

Erros e ausências

      «Segundo um grupo de representantes dos yanomami, o massacre terá sido levada [sic] a cabo por garimpeiros brasileiros, que utilizaram um helicóptero para passar a fronteira e investir contra os índios» («Massacre de índios», Diário de Notícias, 10.09.2012, p. 10).
      Em alguma imprensa brasileira, podemos ler «os ianomâmis». Cá, vai-se quase sempre pelo caminho errado. E os nossos dicionários também não ajudam. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o termo. Já o Dicionário Houaiss, por sua vez, diz que Ianomâmis é um substantivo masculino plural.
[Texto 2077]
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Vladivostoque

Um retrocesso

      «“Não faz sentido passar uma resolução sem consequências porque, como já vimos muitas vezes, Bachar al-Assad vai ignorar e continuar a atacar o seu próprio povo”, afirmou ontem a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, à margem do Fórum de Cooperação Económico Ásia-Pacífico, que decorreu durante o fim de semana na cidade russa de Vladivostok» («Proposta russa para a Síria vetada por Clinton», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 10.09.2012, p. 24).
      Um retrocesso, evidentemente, já que de quando em quando escrevem Vladivostoque: «Se Alexandre III promoveu a construção do expresso Transiberiano (em 1981, para ligar os 9289 km que separam Moscovo de Vladivostoque), já Estaline aproximou a Sibéria de Moscovo, deportando milhões de cidadãos em vagões de carga» («Rússia cresce depois de erupção vulcânica», Bruno Abreu, Diário de Notícias, 20.11.2009, p. 34).
[Texto 2076]
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Ortografia: «motobomba»

A persistência do erro

      «Na noite da tragédia, as informações prestadas pelas autoridades e por populares indicavam terem sido informados pelo proprietário da quinta de que os trabalhadores teriam levado para o poço uma moto-bomba, que teria provocado a intoxicação. “Mentira”, afirma Manuel Martins, garantindo que “no fundo do poço não estava qualquer motor ou bomba e o gás tóxico vinha da mina, lateral, ao fundo do poço”» («“Ainda estou em choque, não sei como saí dali vivo”», José António Cardoso, Diário de Notícias, 10.09.2012, p. 19).
[Texto 2075]
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«Espoletar»

Não é necessário

      «O visconde, deputado nas Cortes, ter-se-á atrasado para um sessão do órgão monárquico, tendo sido censurado por um marquês, que lhe chamou “cão tinhoso”. Irritado com a situação, o visconde foi tirar satisfações com o marquês. Este último não gostou da atitude e atirou-lhe as luvas ao rosto. A reação provocatória e a ausência de desculpas espolotou um duelo» («Mudança da estátua da Justiça de Fafe não reúne consenso», Cynthia Valente, Diário de Notícias, 10.09.2012, p. 22).
      Abstraindo do erro ortográfico — é linguagem bélica, mesmo que em sentido figurado, escusada. Há alternativas.
[Texto 2074]
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Jórgia, de novo

Não a inventei

      «South, cujo nome verdadeiro era Joseph Souter, morreu com um ataque cardíaco na sua casa em Buford, no Estado norte-americano da Jórgia» («Morreu o compositor de ‘Games people play’», Diário de Notícias, 7.09.2012, p. 43).
      É a terceira vez que estamos a ver, aqui no Linguagista, esta forma de nos referirmos ao Estado norte-americano. (Ah, a propósito: Rebelo Gonçalves, na página 611 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa, regista «linguagista». Não, não é a minha profissão: é o nome do blogue. Não a inventei, mas também trata de ruínas.)
[Texto 2073]
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Conselho

Devia servir para toda a gente

      «Num livro escrito por Paul Fletcher, antigo dirigente do Burnley, o autor conta que o clube da II Liga inglesa, e que em 2010 jogou no escalão principal, esteve perto de ser treinado por André Villas-Boas. “O seu [de Villas-Boas] currículo e apresentação em powerpoint eram incríveis. Até pelos padrões de exigência atuais, tinha algumas coisas complicadas que eu não percebia”, refere Paul Fletcher, que tinha referências do então treinador da Académica como tendo grande potencial, embora o vocabulário que usava fosse complexo. “Tommy Docherty [antigo jogador e treinador escocês] explicava que não dizia nada aos seus jogadores que o leiteiro não percebesse. Será que os jogadores o teriam entendido se ele lhes dissesse para ‘solidificarem’, ou algo parecido?”, pergunta-se Fletcher, que ainda especula se o clube se teria mantido na Premier League ao comando do português, que acabou por rumar ao Dragão» («Vilas-Boas e o leiteiro», O. M., Diário de Notícias, 8.09.2012, p. 35).
[Texto 2072]
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Sobre a Wikipedia

Um novo paradigma

      «O escritor Philip Roth criticou a enciclopédia online Wikipedia por não lhe ter permitido efetuar uma emenda numa entrada sobre A Culpa Humana, um livro seu. Numa carta aberta que publicou na New Yorker, explicou que a informação na Wikipedia era baseada num texto crítico e continha informação errada» («Escritor critica Wikipedia», Diário de Notícias, 9.09.2012, p. 50).
      Só me espanta — e não devia, porque já vi muita coisa — que esta enciclopédia seja citada até em trabalhos académicos, dissertações, teses.
[Texto 2071]
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